Os Rompedores da Alvorada

Portuguese · Shoghi Effendi

Os Rompedores da Alvorada, INTRODUÇÃO SEDAWNB

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INTRODUÇÃO
O Movimento Bahá'í está agora bem conhecido no mundo inteiro, e chegou o tempo em que a incomparável narrativa de Nábil acerca de seus primórdios há de interessar a muitos leitores. A história que ele narra com esmerada devoção é, em muitos aspectos, extraordinária. As passagens emocionantes e o esplendor do tema central conferem à crônica não só grande valor histórico, como também alto poder moral. Suas luzes têm o efeito intenso e fulgurante de um romper do sol à meia-noite. A história é de luta e martírio e muitas vezes permeada de cenas pungentes e trágicas. Corrupção, fanatismo e crueldade aliam-se contra a causa da reforma com a finalidade de destruí-la, e o presente livro encerra-se no momento em que o turbilhão de ódio parece haver cumprido seu propósito, tendo levado ao exílio ou à morte todo homem, mulher e criança da Pérsia que ousou professar simpatia para com o ensinamento do Báb.
Nabíl, ele próprio protagonista de algumas das cenas que narra, tomou sua pena solitária para relatar a verdade sobre homens e mulheres tão impiedosamente perseguidos e um movimento tão penosamente caluniado.
Ele escreve com fluência, e quando se sente fortemente emocionado seu estilo torna-se vigoroso e incisivo. Não apresenta sistematicamente as pretensões e o ensinamento de Bahá'u'lláh e de seu precursor. Seu propósito é apenas relatar os primórdios da Revelação Bahá'í e preservar a lembrança das façanhas de seus primeiros campeões. Ele relata uma série de incidentes, e invoca escrupulosamente a própria autoridade em quase todos os itens de informação. Sua obra, em conseqüência, se por um lado perde em termos de conteúdo filosófico e artístico, por outro ganha enquanto relato vigoroso e fidedigno daquilo que ele sabia ou pode descobrir por intermédio de testemunhas dignas de crédito acerca da história primitiva de causa.
As principais características da narrativa (a figura santa e heróica do Báb, um líder tão meigo e tão sereno, porém veemente, resoluto e dominante; a devoção de seus seguidores que enfrentavam com inabalável coragem e êxtase a opressão e, muitas vezes, a fúria de um clero invejoso, que, para seus próprios fins, inflamava as paixões de um povo sedento de sangue) estão na força de uma linguagem que todos podem entender. Não é fácil, entretanto, acompanhar a narrativa em detalhes, e apreciar quão estupenda a tarefa empreendida por Bahá'u'lláh e pelo Seu Precursor, sem algum conhecimento do que representavam a Igreja e o Estado na Pérsia, bem como seus costumes e a atitude mental do povo e de seus mestres. Nabíl presumiu existir esse conhecimento. Ele mesmo viajou pouco, não indo muito além das fronteiras dos impérios do Xá e do Sultão, e não lhe ocorreu instituir comparações entre sua própria civilização e o que ocorria no estrangeiro. Não estava se dirigindo ao leitor ocidental. Embora consciente do que o material que compilara era de uma importância mais que nacional ou islâmica e que, dentro em breve, haveria de se espalhar para leste e oeste até abranger o globo, ele, entretanto, era um oriental escrevendo num idioma oriental para aqueles que o conheciam, e o trabalho incomparável que executou tão fielmente foi em si uma grande e laboriosa tarefa.
Existe em inglês, porém, uma literatura acerca da Pérsia do século XIX que dará ao leitor ocidental ampla informação sobre o assunto. Em textos persas que já foram traduzidos ou nos livros escritos por viajantes europeus como Lord Curzon, Sir J. Malcom e muitos outros, pode-se encontrar um quadro real e vívido, se bem que pouco agradável, e das terríveis condições que o Báb teve de enfrentar quando inaugurou o Movimento em meados do Século XIX.
Todos os observadores concordam em representar a Pérsia como uma nação débil e atrasada, divida em si por práticas corruptas e feroz intolerância. Ineficiência e miséria - frutos da decadência moral - grassavam em todo lugar. Nas camadas mais altas até as mais baixas, parecia não haver capacidade para efetivar reformas nem sequer a vontade de instituí-las seriamente. A vaidade nacional pregava uma grandiosa auto-satisfação. Uma mortalha de imobilidade pairava sobre todas as coisas, e uma prevalecente paralisia mental tornava impossível qualquer desenvolvimento.
Para um estudioso da História, a degeneração de uma nação, outrora tão poderosa e tão ilustre, parece extremamente lastimável. 'Abdu'l-Bahá, que apesar das crueldades acumuladas sobre Bahá'u'lláh, sobre o Báb, e sobre Si mesmo, ainda amava Sua pátria, referiu-se à degradação dela como "a tragédia de um povo"; e na obra The mysterious forces of civilization ("As forças misteriosas das civilizações), na qual procurou comover os corações de Seus compatriotas para que empreendessem reformas radicais, Ele expressou um lamento pungente sobre a sorte atual de um povo que outrora estendera suas conquistas para leste e oeste e promovera a civilização da humanidade. "Nos tempos antigos", Ele escreve, "a Pérsia era verdadeiramente o coração do mundo e brilhava entre as nações como uma tocha acesa. Sua glória e prosperidade despontaram no horizonte da humanidade assim como o verdadeiro alvorecer, difundindo a luz do conhecimento e iluminando as nações do Oriente e do Ocidente. A fama de seus reis vitoriosos chegou aos ouvidos dos habitantes dos pólos da Terra. A supremacia de seus reis humilhou os monarcas da Grécia e Roma. Sua sabedoria em governar enchia de espanto os sábios, e os governantes de outros povos criavam suas leis espelhando-se no sistema político da Pérsia. Havendo os persas se distinguido entre as nações da Terra como um povo de conquistadores e sendo, com justiça, admirados pela sua civilização e pelos seus conhecimentos, seu país tornou-se glorioso centro de todas as ciências e artes; fonte de cultura e de virtude. Como é que esse admirável país agora, por causa de nossa negligência, vaidade e indiferença, e devido à falta de conhecimento e organização, à escassez de zelo e ambição por parte de seu povo, tem permitido que os raios de sua prosperidade sejam obscurecidos e quase extintos?."
Muitos outros escritores narraram amplamente essas condições infelizes às quais 'Abdu'l-Bahá se refere.
No tempo em que o Báb declarou Sua Missão, o governo do país era - nas palavras de Lord Curzon - um "Church-State" (Estado eclesiástico). Por venal, cruel e imoral que fosse, formalmente era religioso. No mais, não havia leis, estatutos ou diretrizes para guiar a administração dos assuntos públicos. Não havia Câmara de Lordes nem conselho privado, nenhum sínodo, nenhum parlamento. O Xá era déspota e seu governo, arbitrário, refletindo-se em todos os níveis oficiais, através de todos os seus ministros e governadores, desde o mais humilde funcionário até o mais remoto chefe tribal. Não existia tribunal civil para corrigir ou modificar o poder do monarca ou da autoridade que ele se dignasse delegar aos subordinados. Se havia alguma lei, era a sua vontade. Ele podia fazer o que lhe aprouvesse. Outorgava o poder de nomear ou destituir todos os ministros, funcionários, oficiais e juízes. Detinha poder de vida e morte inapelável sobre todos os membros de sua casa e de sua corte, quer civis ou militares. O direito de tirar a vida cabia a ele somente, como também todas as funções de governo - legislativa, executiva e judiciária. Sua prerrogativa real não era limitada por nenhuma restrição escrita.
Aos descendentes dos xás eram confiados os cargos de maior renda em todo o país, e, à medida que as gerações se passavam, eles vinham a ocupar inumeráveis posições de menor importância também, em toda parte, até que a Pérsia ficou infestada dessa raça de zangões reais que deviam sua posição a nada mais que seu sangue, dando motivo ao provérbio persa que diz: "camelos, pulgas e príncipes existem em toda parte."
Até mesmo quando um Xá deseja tomar uma decisão justa e sábia em qualquer caso que lhe fosse levado para julgar, encontrava dificuldade em fazê-lo, pois não podia confiar nas informações dadas a ele. Os fatos essenciais ou eram omitidos ou deturpados pela influência de testemunhas interessadas ou de ministros mercenários. O sistema de corrupção havia chegado a tal ponto na Pérsia que se tornara uma instituição reconhecida, descrita por Lord Curzon nos seguintes termos:
"Chegamos agora à característica cardeal e distintiva da administração iraniana. O governo - mais ainda a própria vida neste país, pode-se dizer - consiste na maior parte, num intercâmbio de presentes. Pode parecer a primeira vista que essa prática demonstre, sob seus aspectos sociais, os sentimentos generosos de um povo amável; nesse caso, porém, não há nenhum sentimento objetivo envolvido; por exemplo, ao congratular-se por haver recebido um presente, o receptor descobre que deve não só retribuí-lo por um de valor equivalente, como também remunerar generosamente o portador do presente (para quem, muito provavelmente, tal prêmio é o único meio reconhecido de subsistência) em proporção ao seu valor pecuniário. Sob seus aspectos políticos, essa prática de dar presentes, embora consagrada nas tradições arraigadas do Oriente, é sinônimo do sistema descrito em outras partes por termos menos agradáveis. Tal é o sistema segundo o qual o governo da Pérsia se orienta desde séculos e cuja continuação opõe uma barreira sólida a qualquer reforma verdadeira. A começar pelo Xá, quase não existe um oficial que não se disponha a aceitar presentes; raro é o cargo que não seja conferido em troca de presente; ou a renda que não tenha sido acumulada por meio de presentes. Cada indivíduo na hierarquia acima mencionada, praticamente sem exceção, apenas comprou seu cargo, mediante um presente em dinheiro ao Xá, a um ministro, ou a um governador superior por quem ele foi nomeado. Se há vários candidatos a um cargo, com toda probabilidade o que fizer a melhor oferta ganhará.
"...O madákhil é uma acariciada instituição nacional da Pérsia, cuja efetivação, numa miríade de formas diferentes, é o interesse e deleite supremo da existência dos persas, e cuja engenhosidade é igualada somente por sua multiplicidade. Essa palavra extraordinária, para a qual Mr. Watson diz não haver no inglês equivalente exato, pode ser traduzida de várias maneiras, como, commission, perquisite douceur, consideration, pickings and stealings, profit (comissão, propina, gratificação, remuneração, furtos e roubos, lucro), segundo o contexto imediato em que é empregada. Em termos gerais, significa aquele saldo de vantagem pessoal que se manifesta usualmente em forma de dinheiro e pode ser extraído de toda e qualquer transação. Uma negociação na qual duas partes são envolvidas como doador e receptor, como superior e subordinado, ou mesmo como agentes iguais num contrato, não pode ser efetivada na Pérsia sem que a parte representada como autor do favor ou serviço reclame e receba remuneração preestabelecida monetária por aquilo que fez ou deu. Pode-se dizer, naturalmente, que a natureza humana é em grande parte a mesma no mundo todo; que um sistema semelhante existe sob um nome diferente em nosso próprio país ou em outros, e que o crítico filosófico reconhecerá no persa tanto um homem quanto um irmão. Até certo ponto é verdade. Mas em nenhum país que já vi ou do qual já ouvi falar é o sistema tão ostensivo e generalizadamente corrupto como na Pérsia. Longe de se limitar à esfera de economia doméstica ou às transações comerciais, penetra todos os níveis da vida e inspira a maioria das ações. Pela sua operação, pode-se dizer que na Pérsia se apagou da categoria das virtudes sociais e generosidade ou serviço gratuito e se elevou como princípio orientador da conduta humana a cobiça... Assim é instituída uma progressão aritmética de saque, desde o soberano até o súdito, cada unidade na escala descendente remunerando-se da próxima unidade abaixo dela, sendo o infeliz camponês a vítima final. Não é de admirar que, sob essas circunstâncias, o cargo público é o caminho comum para a riqueza, e são freqüentes os casos de homens que, tendo começado do nada, passam a possuir residências magníficas, cercados por multidões de servidores e vivendo de modo principesco. 'Ganha o quanto puderes enquanto puderes' a regra que a maioria dos homens estabelece para si ao entrar para a vida pública. Nem o espírito popular ressente com esta norma de conduta; alguém que tenha tido a oportunidade e, não a aproveitou para encher os próprios bolsos é objeto de acerbas críticas por sua falta de bom senso. Ninguém dirige sequer um pensamento aos sofredores de que, em última análise arrancaram os recursos para esses sucessivos 'madákhils' e do suor de cuja fronte resignada foi extorquida a riqueza que é dissipada com luxuosas casas de campo, curiosidades européias e cortejos enormes."
Ler o supracitado é perceber algo da dificuldade da missão do Báb; ler o que se segue é compreender os perigos que Ele enfrentou e estar preparado para uma história de violência e horripilante crueldade.
"Antes de terminar o assunto da lei persa e sua administração, gostaria de acrescentar algumas palavras sobre penalidades e prisões. Nada é mais chocante para o leitor europeu - enquanto prossegue através das páginas sangrentas, manchadas de crimes da história persa do século passado e, em menor grau, felizmente, do atual - do que o registro de castigos selvagens e torturas abomináveis, atestando alternadamente a insensibilidade do bruto e a engenhosidade do demônio. O caráter persa foi sempre fértil em invenção e indiferente ao sofrimento; e no campo das execuções judiciais tem encontrado amplo terreno para o exercício de ambas as habilidades. Até um período muito recente, ainda no reinado atual, criminosos condenados têm sido crucificados, executados por canhões, enterrados vivos, empalados, ferrados como cavalos, ou amarrados os corpos inclinados de duas árvores, partindo-se ao meio quando estas voltam à sua posição original o que acabei de descrever convertidos em tochas humanas, ou esfolados vivos.
"... Sob um sistema duplo de governo, tal como - isto é, uma administração na qual cada membro é, sob diversos aspectos, o subornador e também o subornado e uma prática judicial sem lei ou tribunal -, compreender-se-á facilmente que confiança no governo não deve existir e que não há senso pessoal de dever ou orgulho, de honra, nenhuma confiança mútua ou cooperação (a não ser a serviço da perversidade), nenhuma vergonha no desmascaramento, nem crédito na virtude, e, acima de tudo, nenhum espírito nacional ou patriótico."
Desde o início deve o Báb ter pressentido qual seria a recepção dada aos Seus ensinamentos pelos patrícios, e qual o destino que O esperava nas mãos dos mullás. Mas Ele não permitia que suspeitas pessoais afetassem a enunciação franca de Suas pretensões ou a aberta apresentação de Sua Causa. As inovações que Ele proclamou, embora puramente religiosas, foram drásticas; o anúncio de Sua própria identidade foi impressionante e extraordinário. Ele se deu a conhecer como o Qá'ím, o Sumo Profeta ou Messias há tanto prometido, tão ansiosamente esperado pelo mundo maometano. Acrescentou a isso a declaração de ser Ele também a Porta (isto é, o Báb), por cujo intermédio um Manifestante maior que Ele mesmo haveria de entrar no reino humano.
Colocando-se assim em alinhamento com as tradições do Islã, e ao aparecer como o cumprimento da profecia, Ele entrou em conflito com aqueles que tinham idéias fixas e imutáveis (diferentes das Suas) sobre o significado daquelas profecias e tradições. As duas grandes seitas persas do Islã, a xiita e a sunita, davam importância vital ao antigo depósito de sua fé, mas não concordaram quanto a seu conteúdo ou significado. Os xiitas, de cujas doutrinas surgiu o Movimento Bahá'í, sustentaram que, após a ascensão do Sumo Profeta Maomé, Ele foi sucedido por uma linha de doze Imames. Cada um destes foi especialmente dotado por Deus de qualidades espirituais e tinha direito à obediência cordial dos fiéis. Cada um devia sua nomeação não à escolha popular, mas sim, à indicação de seu predecessor no cargo. O décimo segundo e último desses guias inspirados foi Muhammad, chamado pelos xiitas Imame Mihdí, Hujjátu'lláh (a Prova de Deus), Bagíyyatu'lláh (o Remanescente de Deus) e Qá'im-i-Ál-i-Muhammad (aquele que surgirá da família de Maomé). Ele assumiu as funções de Imame no ano de 260 da Hégira, mas repentinamente desapareceu de vista, comunicando-se com seus seguidores somente através de intermediários escolhidos como uma Porta. Quatro dessas Portas sucederam-se uma após outra, sendo cada uma nomeada pelo seu predecessor com a aprovação do Imame. Quando, porém, Abu'l-Hasan-'Alí, a quarta Porta, foi solicitado pelos fiéis, antes da sua morte, a nomear seu sucessor, ele se recusou a fazê-lo, dizendo que Deus tinha outro plano. Com sua morte, toda a comunicação entre o Imame e sua igreja, portanto, cessou. Se bem que, cercado por um grupo de seguidores ele ainda viva e espere em algum recinto misterioso, não reassumirá relações com seu povo antes de surgir com poder para estabelecer uma nova era no mundo inteiro.
Os sunitas, por outro lado, têm uma opinião menos exaltada do cargo daqueles que sucederam o Sumo Profeta. Consideram a vice-gerência menos um assunto espiritual do que prático. O Califa, aos seus olhos, é o defensor da Fé, de vendo sua nomeação à escolha e aprovação do povo.
Por importantes que sejam essas diferenças, ambas as seitas concordam na expectativa de uma Manifestação dupla. Os xiitas esperam o Qá'im, que deve vir na plenitude dos tempos, e também o regresso do Imame Husayn. Os sunitas esperam o aparecimento do Mihdí e também a volta de Jesus Cristo. Quando o Báb, no começo de Sua missão, continuando a tradição dos xiitas, proclamou Sua função sob título duplo de, primeiro, o Qá'im e, segundo, a Porta, ou Báb, alguns dos maometanos interpretaram mal esta última referência. Imaginaram que isso significasse ser Ele uma quinta Porta em sucessão a Abu'l-Hasan-'Alí. Seu verdadeiro significado, entretanto, como Ele mesmo anunciou claramente, era muito diferente. Ele era o Qá'im; mas o Qá'im, embora Sumo Profeta, estava ligado a um maior Manifestante sucedâneo, assim como o tinha estado João Batista a Cristo. Era o Precursor de Alguém ainda mais poderoso do que Ele próprio. Ele haveria de descrever; aquele poderoso haveria de crescer. Do mesmo modo que João Batista fora o Arauto ou Porta do Cristo, assim foi o Báb o Arauto ou Porta de Bahá'u'lláh.
Há muitas tradições autênticas que mostram que o Qá'im ao aparecer, traria consigo leis novas e assim aboliria o Islã. Mas não era isso que a hierarquia estabelecida entendia. Com confiança esperavam seus integrantes que o prometido advento não viria substituir a revelação por uma nova e mais rica, mas sim endossaria e fortaleceria o sistema do qual faziam parte. Aumentaria incalculavelmente seu prestígio pessoal, estenderia sua autoridade por todas as nações, obtendo para eles o prestígio relutante e abjeto da humanidade. Quando o Báb revelou Seu Bayán, proclamou um novo código de lei religiosa e instituiu por preceito e exemplo uma profunda reforma moral espiritual, os sacerdotes imediatamente pressentiram o perigo mortal. Viram em risco, seu monopólio, ameaçadas suas ambições, suas próprias vidas e conduta expostas à ignomínia. Levantaram-se contra Ele em beata indignação. Declararam perante o Xá e todo o povo que esse pretencioso era um inimigo da erudição sã, um subversor do Islã, traidor de Maomé e um perigo não só para a santa igreja, mas também para a ordem social e para o próprio Estado.
A causa da rejeição e perseguição do Báb foi em sua essência a mesma da rejeição e perseguição de Cristo. Não tivesse Jesus trazido um Novo Livro, se tivesse não apenas reiterado os princípios espirituais ensinados por Moisés, como também continuado os preceitos e regulamentos de Moisés, Ele, como simples reformador moral, teria talvez escapado à vingança dos escribas e fariseus. Sustentar, porém, que qualquer parte da lei mosaica, até ordenações materiais como aquelas que se referiam ao divórcio e à observância do sábado, pudesse ser modificada - e justamente por um pregador de Nazaré que nem se ordenou -, isso iria ameaçar os interesses dos próprios escribas e fariseus e, desde que eram os representantes de Moisés e de Deus, também seria blasfêmia contra o Altíssimo. Logo que foi compreendida a posição de Jesus, Sua perseguição começou. Por recusar a desistir, Ele foi morto.
Por razões semelhantes, o Báb desde o início encontrou oposição pelos interesses criados pela religião dominante, que o acusava de extirpador da fé. Entretanto, mesmo naquele país tenebroso e fanático, os mullás (equivalentes aos escribas na Palestina dezoito séculos antes) não acharam fácil apresentar um pretexto plausível para destruir Aquele que pensavam ser seu inimigo.
O único registro conhecido de que o Báb fora visto por um europeu pertence ao período de Sua perseguição, quando um médico inglês residente em Tabríz, dr. Cormick, foi chamado pelas autoridades persas para pronunciar-se sobre a condição mental do Báb. A carta do médico, dirigida a um colega numa missão americana na Pérsia, é citada em Materials for the Study of the Bábí Religion (Material para o Estudo da Religião Bábí) pelo professor E. G. Browne. "Pediu-me" escreve o médico "alguns detalhes sobre minha entrevista com o fundador da seita conhecida como Bábí. Nada de importante ocorreu nessa entrevista, porque o Báb estava ciente de que eu havia sido mandado com outros dois médicos para verificar se ele era de mente são ou simplesmente um louco, para decidir a questão se ele devia ser morto ou não. Sabendo disso, ele reluta em responder a qualquer pergunta que lhe fosse feita. Em resposta, ele apenas nos contemplava com olhar suave, entoando, numa voz baixa, melodiosa, alguns hinos, suponho. Outros dois siyyids, amigos íntimos dele, e que depois também foram mortos, estavam inclusive presentes, além de alguns oficiais do governo. Só se dignou a me responder quando lhe disse que eu não era um muçulmano e gostaria de saber algo sobre sua religião porque eu talvez me inclinasse a adotá-la. Ele me olhou muito atentamente ao ouvir isso e respondeu que não tinha nenhuma dúvida de que todos os europeus se converteriam para a sua religião. Nosso relatório ao xá naquela ocasião foi feito de forma que lhe poupassem a vida. Ele foi morto algum tempo depois por ordem do Amír-Nizám, Mirza Taqí Khán. Em conseqüência de nosso relatório, ele recebeu apenas algumas bastonadas, durante as quais um farrásh, intencionalmente ou não, lhe bateu no rosto com o bastão destinado aos pés, o que causou-lhe uma grande ferida e inchação no rosto. Quando lhe perguntaram se queria que um cirurgião persa lhe fosse trazido para tratá-lo, ele expressou o desejo de que eu fosse chamado, dessa forma, eu o tratei por alguns dias, mas nesses encontros nunca consegui que ele falasse comigo confidencialmente, porque sempre estavam presentes alguns oficiais do governo, em vista de ele ser prisioneiro. Era um homem de aspecto muito meigo e delicado, de estatura um tanto pequena e muito mais alvo do que a maioria dos persas, com voz suave, melodiosa, que muito me impressionou. Sendo um siyyid, usava o traje daquela seita, como também o faziam seus dois companheiros. De fato, toda a sua aparência, bem como seu porte, contribuiu muito para que conquistasse minha simpatia. Sobre sua doutrina nada ouvi de seus próprios lábios, embora se entendesse que sua religião se aproximava de certa forma do cristianismo. Alguns carpinteiros armênios, mandados a sua prisão para fazer reparos, viram-no lendo a Bíblia, o que ele não tentou esconder mas, ao contrário, até lhes falou disso. Com absoluta certeza, sua religião não encara o cristianismo com o fanatismo típico dos muçulmanos, nem há qualquer restrição às mulheres como a que existe atualmente."
Tal foi a impressão que o Báb causou nesse inglês culto. Até onde a influência de Seu caráter e ensinamento se tem espalhado desde então pelo Ocidente, não há nenhum outro registro de que Ele tenha sido visto e observado por olhos europeus.
Suas qualidades eram de uma nobreza e beleza tão raras, sua personalidade tão meiga e, não obstante, tão dinâmica, e ao Seu encanto natural aliava-se tanto tato e discernimento que, após sua declaração, logo Ele se tornaria uma figura de grande popularidade por toda Pérsia. Conquistava a simpatia de quase todos com quem tinha contato pessoal, muitas vezes convertendo Seus carcereiros para Sua Fé e transformando os malévolos em amigos cheios de admiração.
Silenciar tal homem sem provocar algum grau de ódio público não era coisa muito fácil, mesmo na Pérsia de meados do século passado. Com os seguidores do Báb, porém, era diferente.
Aqui os mullás nenhum motivo de protelação encontraram e pouca necessidade de intrigas. O fanatismo dos maometanos, desde o xá até o mais humilde, podia facilmente ser provocado contra qualquer desenvolvimento religioso. Os Bábís podiam ser acusados de deslealdade ao xá, sendo às suas atividades atribuídos obscuros motivos políticos. Além disso, os seguidores do Báb já eram numerosos, muitos deles em boa situação financeira, havendo alguns ricos e poucos que não tivessem algumas possessões as quais vizinhos invejosos pudessem ser instigados a desejar. Apelando aos receios das autoridades e às baixas paixões nacionais do fanatismo e da avareza, os mullás deram início a uma campanha de ultraje e espoliação que mantinham com implacável ferocidade até julgarem haver atingido completamente seu objetivo.
Muitos dos incidentes desta narrativa triste são relatados por Nabíl em sua história, entre os quais os acontecimentos em Mázindarán, Nayríz e Zanján sobressaem em virtude do caráter dos episódios de heroísmo dos Bábís, quando eram acossados. Nessas três ocasiões, alguns Bábís, levados ao desespero, retiraram-se em conjunto de suas casas para um lugar predeterminado e, erigindo ao seu redor fortificações, desafiaram com armas a continuação das perseguições. Para qualquer testemunha imparcial, as alegações dos mullás de um motivo político eram evidentemente falsas. Os Bábís mostravam-se sempre prontos - caso lhes fosse dada uma garantia de que não mais seriam molestados em função de suas crenças religiosas - para voltar pacificamente às suas ocupações civis. Nabíl enfatiza os cuidados no sentido de evitar agressões. Lutavam por suas vidas com habilidade e força resolutas, mas não atacavam. Mesmo em meio a um conflito feroz, não tiravam nenhuma vantagem nem davam um golpe desnecessário.
'Abdu'l-Bahá é citado em Traveller's Narrative (Narrativa de um Viajante), pp. 34-35, onde diz o seguinte sobre o aspecto moral de suas ações:
"O ministro (Mirza Taqí Khán), com absoluta arbitrariedade, sem haver recebido quaisquer instruções ou pedido permissão, emitiu ordens por todos os lados para punir e castigar os Bábís. Governadores e magistrados procuravam um pretexto para amontoar riquezas, e os oficiais, um meio para adquirir lucros; doutores célebres, do alto de seus púlpitos, incitavam os homens a uma investida geral; os poderes da lei religiosa e civil deram-se as mãos e esforçavam-se para extirpar e destruir esse povo. Naquele tempo esse povo não havia adquirido ainda o devido conhecimento dos princípios fundamentais e doutrinas ocultas dos ensinamentos do Báb, e não reconhecia seus deveres. Não só seus conceitos e idéias estavam de acordo com os valores da Pérsia antiga, como também sua postura de vida e conduta. A via de acesso ao Báb, além disso, estava vedada, e a chama da tribulação ardia visivelmente por todos os lados. Em virtude do decreto dos mais célebres doutores, o governo e, de fato, as massas, com poder irresistível, haviam institucionalizado a rapina e a pilhagem por todos os lados, ocupando-se em punir e torturar, matar e depredar, a fim de poder extinguir esse fogo e fazer desfalecer essas pobres almas. Em cidades onde havia apenas um número limitado, todos, com mãos amarradas, tornaram-se alimento para a espada, enquanto onde eram numerosos, levantavam-se em defesa própria, de acordo com suas crenças anteriores, uma vez que lhes era impossível perguntar qual era seu dever e lhes estavam fechadas todas as portas."
Bahá'u'lláh, ao proclamar Sua Missão alguns anos depois, não deixou lugar para a incerteza quanto à lei a ser aplicada numa situação como essa, quando afirmou: "Melhor ser morto do que matar."
Qualquer resistência oferecida pelos Bábís aqui, ou em outra parte, provou ser ineficaz. Foram esmagados em grande número. O próprio Báb foi tirado de sua cela e executado. Dentre os principais discípulos que professaram sua fé nEle nenhuma só alma restava viva, salvo Bahá'u'lláh, que com Sua família e alguns devotos, foi expulso, destituído de tudo, para o exílio e a prisão numa terra estrangeira.
O fogo, entretanto, embora abafado, não se extinguira. Ardia nos corações dos exilados, que o levavam de país a país enquanto viajavam. Mesmo em sua terra natal, na Pérsia, havia-se propagado tão profundamente que não pode ser apagado pela violência física, flamejando ainda no coração do povo e necessitando de apenas um sopro do espírito para ser avivado até se tornar uma conflagração que a tudo consumiria.
A Segunda e Maior Manifestação de Deus foi proclamada de acordo com a profecia do Báb na data por Ele predita. Nove anos após o início da Revelação Bábí - isto é, em 1853 -, Bahá'u'lláh, em algumas de Suas odes, fez alusão a Sua identidade e Missão e, dez anos mais tarde, enquanto residia em Bagdá, declarou-se a Seus companheiros como o Prometido.
Agora o grande Movimento para o qual o Báb preparara o caminho começava a mostrar toda a sua abrangência e a magnificência de seu poder. Apesar de o próprio Bahá'u'lláh ter vivido e morrido como exilado e prisioneiro, sendo conhecido por poucos europeus, Suas epístolas que proclamavam o novo advento foram levadas aos grandes governantes de ambos os hemisférios, desde o xá da Pérsia até o papa e o presidente dos Estados Unidos. Após Sua morte, Seu filho, 'Abdu'l-Bahá, levou as boas novas pessoalmente para o Egito e para muitas regiões do mundo ocidental. 'Abdu'l-Bahá visitou a Inglaterra, a França, a Suíça, a Alemanha e os Estados Unidos, anunciando em toda a parte que mais uma vez os céus se abriram e novos desígnios vieram abençoar os filhos dos homens. Faleceu em novembro de 1921, e hoje o fogo que parecia extinto para sempre, arde novamente em todos os recantos da Pérsia, já se estabeleceu no continente americano e se propagou em todos os países do mundo. Em torno dos sagrados escritos de Bahá'u'lláh e da exposição autorizada de 'Abdu'l-Bahá, cresce uma literatura volumosa repleta de comentários e de testemunhos. Os princípios humanitários e espirituais enunciados há décadas atrás no tenebroso Oriente por Bahá'u'lláh, e por Ele coerentemente esquematizados, estão sendo adotados, um após outro, por um mundo que, embora desconhecendo sua origem, os considera características de uma civilização evolutiva. A percepção de que a humanidade rompeu com o passado e de que a velha orientação não a conduzirá através das emergências do presente encheu de dúvidas e apreensões todos os homens que pensam, salvo aqueles que aprenderam a encontrar na história de Bahá'u'lláh o significado de todos os prodígios e avanços de nossa era.
Quase três gerações se passaram desde o início do Movimento. Quaisquer de seus primeiros adeptos que escaparam da espada e da fogueira já morreram há muito tempo, segundo o curso da natureza. A porta da informação contemporânea acerca de seus dois grandes líderes e seus discípulos heróicos está fechada para sempre. A narrativa de Nabíl, cuidadosa coleção de fatos feita no interesse da verdade e completada durante a vida de Bahá'u'lláh, tem agora um valor incomparável. O autor tinha treze anos quando o Báb se declarou, tendo nascido na aldeia de Zarand na Pérsia, no dia 18 de Safar, 1247 A.H.. Durante a vida inteira esteve associado intimamente aos líderes da Causa. Embora naquele tempo fosse apenas um menino, estava se preparando para ir a Shaykh Tabarsí e se juntar ao grupo de Mullá Husayn quando a notícia do massacre pérfido dos Bábís frustrou-lhe o objetivo. Diz ele em sua narrativa que em Teerã conhece Hájí Mirza Siyyid 'Alí, irmão da mãe do Báb, que na ocasião acabava de voltar de uma visita ao Báb na fortaleza de Chihríq; durante muitos anos ele foi companheiro íntimo do secretário do Báb, Mirza Ahmad.
Ele entrou na presença de Bahá'u'lláh em Kirmánsháh e Teerã antes da data do exílio para o Iraque e mais tarde esteve ocupado em Seu serviço em Bagdá e em Adrianópolis, bem como na cidade-prisão de 'Akká. Mais de uma vez foi ele mandado em missões à Pérsia para promover a Causa e animar os crentes dispersos e perseguidos e, quando Bahá'u'lláh faleceu, em 1892 A.D., ele estava residindo em 'Akká. A maneira de sua morte foi patética e lamentável, pois ele ficou tão terrivelmente afetado pela morte do Grande Bem-Amado que, acabrunhado pelo pesar, afogou-se no mar, sendo seu corpo encontrado na praia, próximo à cidade de 'Akká.
Sua crônica inicia-se em 1888, quando gozava da assistência pessoal de Mirza Musa, irmão de Bahá'u'lláh, e foi terminada em aproximadamente um ano e meio; partes do manuscrito foram revisadas e aprovadas, algumas por Bahá'u'lláh e outras por 'Abdu'l-Bahá.
A obra completa leva a história do Movimento até a morte de Bahá'u'lláh em 1892.
A primeira metade desta narrativa, que termina com a expulsão de Bahá'u'lláh da Pérsia, é contida no presente volume. Sua importância é evidente. Será lida menos por causa das poucas passagens comoventes que contém ou mesmo por seus numerosos quadros de heroísmo e inabalável fé do que por aqueles acontecimentos perenemente significativos aos quais dá um registro ímpar.
O ESTADO DE DECADÊNCIA DA PÉRSIA EM MEADOS
DO SÉCULO XIX
Os soberanos Qájár
"Em teoria o rei pode fazer o que lhe apraz; sua palavra é lei. O ditado de que 'A lei dos medos e persas não se altera' foi meramente uma antiga perífrase para o absolutismo do soberano. Ele nomeia e pode demitir todos os ministros, oficiais, funcionários e juízes. Sobre sua própria família e todos de sua casa e sobre os funcionários civis ou militares a seu serviço, ele tem poder de vida e morte sem apelação a qualquer tribunal. A propriedade de um indivíduo que cair em desonra, ou for executado, reverte a ele. O direito de tirar a vida em qualquer caso cabe a ele tão somente, mas pode ser delegado a governadores ou deputados. Toda propriedade não concedida anteriormente pela coroa ou comprada - à qual não pode ser estabelecido título legal -, lhe pertence, ficando inteiramente à sua disposição. Todos os direitos ou privilégios - como a construção de obras públicas, a operação de minas, a instituição de telégrafos, estradas, ferrovias, bondes, etc, enfim todos os recursos do país - cabem a ele e dele devem ser comprados antes de poderem ser assumidos por outros. Em sua pessoa se fundem as tríplices funções de governo: legislativa, executiva e judiciária. Nenhuma obrigação lhe é imposta além da observância exterior das formas da religião nacional. Ele é o pivô sobre o qual gira toda a máquina governamental.
"Tal é em teoria e foi, até recentemente, na prática, o caráter da monarquia persa. E nenhuma, dessas altas pretensões sequer foi ainda cedida abertamente. A linguagem em que o xá se dirige aos súditos e estes se lhe dirigem lembra o tom orgulhoso em que um Artaxerxes ou Dario falava com seus milhões de tributários, podendo suas palavras ainda ser lidas no registro gravado em muro de rocha e em túmulo. Continua ele a ser o Xainxá ou Rei dos Reis; o Zillu'lláh, ou Sombra de Deus; o Qibliy-i-Álam, ou Centro do Universo, 'Exaltado como o planeta Saturno; Manancial da Ciência; Senda do Céu; Soberano Sublime, cujo estandarte é o Sol, cujo esplendor é o do Firmamento; Monarca de exercícios numerosos como as estrelas.' Ainda o súdito persa endossaria o preceito de Sa'dí, que 'O vício aprovado pelo rei torna-se virtude; se alguém procura conselho oposto, tinge as mãos em seu próprio sangue'. A marcha do tempo não lhe impôs concílio religioso ou secular, nem ulemá ou senado. Instituições eletivas e representativas não introduziram ainda suas feições irreverentes. Nada por escrito existe para refrear a prerrogativa real.
"... Tal é a divindade que cerca um trono na Pérsia que não só o xá nunca assiste a um jantar de Estado ou come à mesa com seus súditos, com a exceção única de um banquete para seus principais parentes masculinos no Naw-Rúz, mas a atitude para com ele e a linguagem empregada até pelos ministros de confiança são de aquiescência e adulação servis. 'Possa eu ser vosso sacrifício, asilo do universo' é o modo comum adotado até pelos súditos da mais alta categoria ao se dirigirem a ele. Em seu próprio ambiente, pessoa alguma há para lhe dizer a verdade ou lhe dar um conselho desapaixonado. Os ministros estrangeiros são, provavelmente, quase a única fonte de onde se podem saber os fatos como são, ou receber conselhos sinceros, ainda que esses conselhos sejam dados por interesse. Com as melhores intenções do mundo para o empreendimento de grandes planos e o progresso de seu país, pouco ou nenhum controle tem ele sobre a execução de um projeto, uma vez que haja passado por suas mãos e se tornado o joguete de oficiais corruptos e ambiciosos. A metade do dinheiro dado com seu consentimento nunca chega a seu destino, mas recheia cada bolso intermediário, cuja engenhosidade profissional pode habilmente trazê-lo de volta; metade dos projetos por ele autorizados não se realiza, pois o ministro ou funcionário incumbido confia nos caprichos de esquecimento do soberano para dissimular sua negligência do dever.
Há somente um século prevalecia o abominável sistema de cegar possíveis aspirantes ao trono, de mutilá-los com selvageria e condená-los à prisão perpétua, desencadeando a matança e a carnificina sistemática. A desgraça não era menos repentina do que a promoção, e a morte era muitas vezes concomitante à desgraça.
"... Fath-'Alí Sháh... e seus sucessores têm-se provado tão extraordinariamente prolíficos em progênie masculina que a continuidade da dinastia tem sido assegurada; e provavelmente não há no mundo uma família reinante que num período de cem anos tenha aumentado até atingir tão amplas dimensões como a casa real da Pérsia... Nem no número de suas esposas, nem na qualidade de sua prole, pode o xá, embora inegavelmente um homem de família, ser comparado com seu bisavô, Fath-'Alí Sháh. À alta opinião tida universalmente das capacidades domésticas daquele monarca, imagino eu, devem ser atribuídas as estimativas divergentes, encontradas em obras sobre a Pérsia, a respeito do número de suas concubinas e seus filhos. O coronel Drouville, em 1813, calculou em setecentos o número de suas esposas, com 64 filhos e 125 filhas. O coronel Stuart, que esteve na Pérsia no ano após a morte de Fath-'Alí, lhe atribuiu mil esposas e 105 filhos... A senhora Dieulafoy também menciona cinco mil descendentes, mas cinqüenta anos mais tarde (o que parece ter maior probabilidade)... A estimativa que se encontra no Násikhu'-t-Tavárikh, uma grande obra histórica persa moderna, dá o número das esposas de Fath-'Alí como superior a mil, e o da sua progênie como 260, dos quais 110 sobreviveram ao pai. Daí o conhecido provérbio persa: 'Camelos, pulgas e príncipes existem em toda parte'... Nenhuma família real jamais deu mais frisante exemplo da afirmação escritural: 'Em vez de teus pais, tu terás filhos, a quem poderás fazer príncipes em todas as terras'; pois quase nenhum cargo de governador ou outro lucrativo existia na Pérsia que não fosse ocupado por um desses enxames de principelhos; e até hoje a miríade de Sháh-zádihs, ou descendentes de um rei, é uma verdadeira maldição para o país, se bem que muitos dessa desditosa estirpe da realeza, que consomem grande parte da renda em concessões e pensões anuais, ocupem atualmente lugares muito inferiores como telegrafistas, secretários, etc. Fraser deu-nos um quadro vívido da miséria causada ao país há cinqüenta anos (1842) por essa 'raça de zangões reais' que se apoderavam de todos os cargos de governo não só em cada província, mas em cada bulúk ou distrito, cada cidade e município; cada qual mantinha uma corte e um harém enorme e devastavam o país assim como um enxame de gafanhotos... Fraser, passando pelo Ádhírbáyján em 1834 e observando os resultados calamitosos do sistema segundo o qual Fath-'Alí Sháh distribuía sua colossal progênie masculina em todos os cargos de governo no reino inteiro, comentou: "A mais óbvia conseqüência desse estado de coisas é uma animosidade completa e universal para com a raça Qájár, sendo isso um sentimento que predomina em cada coração e tema de cada língua.
"... Assim como, durante suas viagens européias, ele (Násiri'd-Dín Sháh) colecionava um vasto número de objetos que, para a mente oriental, pareciam ser maravilhosas curiosidades, mas que desde então tem sido amontoados em vários apartamentos do palácio, ou guardados e esquecidos. Também na esfera maior da política e administração pública ele está continuamente introduzindo e promovendo algum projeto ou invenção que, uma vez satisfeito seu capricho, é abandonado ou deixado de lado. Numa semana, é o gás; na outra, é a luz elétrica. Agora é uma escola para oficiais; depois, um hospital militar. Hoje, é um uniforme russo; ontem foi um navio de guerra alemão para o Golfo Pérsico. Um novo certificado militar é emitido neste ano; um novo código de leis é prometido para o próximo. Nada resulta de qualquer desses brilhantes projetos, e os depósitos do palácio não estão mais cheios de mecanismos quebrados e pequenos objetos descartados do que estão cheios os escaninhos dos departamentos governamentais de reformas abortivas e fiascos.
"... Num aposento superior do mesmo pavilhão, Mirza Abu'l-Qásim, o Qá'im-Maqám ou grão-vizir de Muhammad Sháh (pai do monarca atual), foi estrangulado em 1835, por ordem de seu mestre real, que com isso seguiu um exemplo que lhe foi dado pelo seu predecessor, e seu, dando ele próprio um exemplo que foi seguido devidamente por seu filho. Deve ser raro encontrar na História três soberanos sucessivos que mandaram matar, por motivos de ciúmes unicamente, os três ministros que os elevaram ao trono, ou que estavam na ocasião de sua queda desempenhando o mais alto cargo do Estado. Tal é a distinção tríplice dos xás Fath-'Alí, Muhammad e Násiri'd-Dín."
O Governo
"Num país tão atrasado em progresso constitucional, tão destituído de formas, estatutos e cartas constitucionais, e tão firmemente estereotipado pelas tradições imemoriais do Oriente, o elemento pessoal, como era de esperar, tem grande ascendência; e o governo da Pérsia pouco mais é do que o exercício arbitrário da autoridade por uma série de unidades em escala descendente - do soberano ao chefe de uma pequena aldeia. O único freio que opera sobre as graduações oficiais inferiores é o medo de seus superiores, mas existem meios de mitigá-lo; o único freio para as graduações superiores é o medo do soberano, e este nem sempre é imune a semelhantes métodos de pacificação; e o medo que restringe o próprio soberano não é a opinião nacional, mas sim, a estrangeira, representada pelas críticas hostis da imprensa européia... O xá, de fato, pode ser considerado, neste momento, como talvez o melhor espécime existente de um déspota moderado, pois, dentro dos limites indicados, ele é praticamente irresponsável e onipotente. Tem domínio absoluto sobre a vida e a propriedade de cada um de seus súditos. Seus filhos não têm poder independente e, num piscar de olhos, podem ser reduzidos à impotência ou mendicância. Os ministros são elevados e degradados ao bel-prazer real. O soberano é o executivo único, sendo todos os oficiais seus deputados. Não existe tribunal civil para restringir ou modificar sua prerrogativa.
"... Sobre o caráter geral e as habilidades dos ministros da corte persa, sir J. Malcolm, em sua obra histórica, escreveu o seguinte nos primeiros anos do século: 'Os ministros e principais oficiais da corte são quase sempre homens de modos polidos, bem versados nos assuntos de seus respectivos departamentos, afáveis no trato, suaves e observadores argutos; mas essas qualidades agradáveis e úteis são, em geral, tudo o que possuem. Nem é possível encontrar virtude ou conhecimentos liberais em homens cujas vidas são desperdiçadas com a observância das formalidades; cujos meios de subsistência derivam das fontes mais corruptas; que se ocupam de intrigas que visam sempre aos mesmos objetivos: preservar-se a si próprios ou arruinar os outros, que não podem, sem perigo, falar outra linguagem senão a da lisonja e da impostura e que são, numa palavra, condenados pela sua condição a ser venais, astuciosos e falsos. Já houve, sem dúvida, muitos ministros da Pérsia que seriam injustamente classificados sob essa descrição geral; mas mesmo aqueles que mais se distinguiram pelas suas virtudes e seus talentos têm sido forçados, em algum grau, a acomodar seus princípios à sua posição social; e, a menos que a confiança do soberano os colocassem além do medo de rivais, a necessidade os tem obrigado a praticar a subserviência e a dissimulação em desacordo com a verdade e a integridade que tão-somente podem exigir o respeito que todos se dispõem a mostrar aos bons e grandes homens'. Estas observações indicam a perspicácia e a justiça que caracterizam seu eminente autor, e receamos que, em grande parte, se apliquem tanto à presente quanto à velha geração."
O povo
"... Chegamos agora àquilo que é a característica cardeal e distintiva da administração iraniana. A administração pública - e ainda mais a própria vida - nesse país consiste em sua maior parte, pode-se dizer, num intercâmbio de presentes. Pode parecer, à primeira vista, que essa prática demonstre, sob seus aspectos sociais, os sentimentos generosos de um povo amável; ocorre, porém, que não há nenhum sentimento afetivo envolvido; por exemplo, ao congratular-se por haver recebido um presente, você descobre que deve não só retribuí-lo por um de valor equivalente, como também remunerar generosamente o portador do presente (para que, muito provavelmente, tal prêmio é o único meio conhecido de subsistência) em proporção ao seu valor pecuniário. Sob seus aspectos políticos a prática de dar presentes, embora consagrada nas tradições arraigadas do Oriente, é sinônima do sistema descrito em outras partes de maneira muito pouco lisonjeira. Este é o sistema segundo o qual o governo da Pérsia se orienta desde séculos e cuja continuação opõe uma barreira sólida à qualquer reforma verdadeira. A começar pelo xá, quase não existe um oficial que não se disponha a aceitar presentes; raro é um cargo que não seja conferido em troca de presentes; ou uma renda que não tenha sido acumulada por meio de presentes. Cada indivíduo na hierarquia acima mencionada, praticamente sem exceção, apenas comprou seu cargo, mediante um presente em dinheiro ao xá, a um ministro, ou a um governador superior por quem ele foi nomeado. Se há vários candidatos para um cargo, com toda probabilidade aquele que fizer a melhor oferta ganhará.
"... O madákhil é uma acariciada instituição nacional na Pérsia, cuja efetivação ocorre numa miríade de formas diferentes, sendo sua engenhosidade igualada somente pela sua multiplicidade, e é o culminante interesse e deleite da existência de um persa. Essa palavra extraordinária, para a qual Mr. Watson diz não haver no inglês equivalente exato, pode ser traduzida de várias maneiras, como, commission, perquisite, douceur, consideration, pickings and stealing, profit (comissão, propina, gratificação, remuneração, furtos e roubos, lucro), segundo o contexto imediato em que é empregada. Em termos gerais, significaria aquele saldo de vantagem pessoal que se manifesta usualmente em forma de dinheiro e pode ser extraído de toda e qualquer transação. Uma negociação, na qual duas partes são envolvidas como doador e receptor, como superior e subordinado, ou mesmo como agentes iguais num contrato, não pode ser efetivada na Pérsia sem que a parte representada como autora do favor ou serviço reclame e receba definida remuneração monetária por aquilo que fez ou deu. Pode-se dizer, naturalmente, que a natureza humana não apresenta grandes variações de um povo para outro; da mesma forma, os sistemas se assemelham - em persa, um homem, um irmão, tem o mesmo sentido universal. Até certo ponto é verdade. Mas em nenhum país que já vi ou do qual ouvi falar é tão abertamente corrupto como na Pérsia. Longe de se limitar à esfera da economia doméstica ou às transações comerciais, penetra todos os níveis da vida e inspira a maioria das ações. Pela sua operação, pode-se dizer que na Pérsia se apagou da categoria das virtudes sociais a generosidade ou serviço gratuito e se elevou como princípio orientador da conduta humana a cobiça... Assim é instituída uma progressão aritmética de saque, desde o soberano até o súdito, cada unidade na escala descendente remunerando-se da próxima unidade abaixo dela, sendo o infeliz camponês a vítima final. Não é de admirar que, sob essas circunstâncias, o cargo público é o caminho comum para a riqueza e são freqüentes os casos de homens que, tendo começado do nada, passam a possuir residências magníficas, cercados por numerosos servidores e vivendo de um modo principesco. Ganhe o quanto puderes é a regra que a maioria dos homens estabelece para si ao entrar para a vida pública. Nem o espírito popular se ressente com esta norma de conduta; alguém que tenha tido a oportunidade e não a aproveitou para encher os próprios bolsos é objeto de severas críticas por sua falta de bom senso. Ninguém dirige um pensamento sequer àqueles que foram vítimas desse estado de exploração institucionalizado, verdadeira extorsão que permite que a riqueza seja dissipada com luxuosas casas de campo, curiosidade européias e cortejos enormes."
"... Uma das características da vida pública na Pérsia que mais rápido chamam a atenção do estrangeiro, e que indiretamente derivam das mesmas condições, é o número enorme de atendentes e sequazes que se enxameam ao redor de um ministro ou oficial de qualquer espécie. Quando se trata de funcionários de alto escalão, estes variam em número de cinqüenta a quinhentos. Diz Benjamim que em seu tempo o primeiro-ministro mantinha três mil. Ora, a teoria de etiqueta social e cerimonial que predomina na Pérsia, como em todo Oriente é, até certo ponto, responsável por esse estado de coisas, sendo a importância da pessoa, em grande parte, estimada pela ostentação que ela pode fazer e pelo número de servos que em certas ocasiões pode exibir. É, porém, na instituição do 'Madákhil' e dos lucros ilícitos e roubos que está a raiz do mal. Se o governador ou ministro fosse obrigado a pagar ordenados a essa verdadeira horda de servos, suas fileiras diminuiriam rapidamente. A grande maioria deles não é paga; eles se ligam ao seu mestre por causa das oportunidades para extorsão que tal ligação lhes oferece e prosperam e enriquecem com a pilhagem. Prontamente se percebe a que ponto esse enxame de sanguessugas esgota os recursos do país. São verdadeiros tipos de trabalhadores improdutivos, absorvendo, mas nunca criando a riqueza; e sua existência é quase uma calamidade nacional... É ponto cardeal da etiqueta persa que uma pessoa, ao fazer uma visita, seja acompanhada do maior número possível de membros de seu próprio estabelecimento, quer montada ou viajando a pé, sendo o número desse séqüito aceito como indício da categoria do mestre."
A Ordem Eclesiástica
"Maravilhosamente adaptado tanto ao clima quanto ao caráter e às ocupações daqueles países sobre os quais tem posto seu punho adamantino, o Islã segura seu devoto em completa submissão, desde o berço até o túmulo. Para ele, não é apenas religião, mas também governo, filosofia e ciência. O conceito maometano não é tanto o de uma igreja do Estado, mas principalmente, caso se permita a frase, o de um Estado eclesiástico. Os alicerces sobre os quais a própria sociedade se sustenta não são de fabricação civil, e sim, eclesiástica; e envolto nessa crença soberana, ainda que paralisante, o muçulmano vive contente por haver rendido toda a volição, julga ser seu mais alto dever adorar a Deus e se constranger ou, quando impossível, desprezar aqueles que não O adoram no espírito, morrendo com a esperança certa e segura de ganhar o paraíso.
"... Esses Siyyids, ou descendentes do Profeta, são um prejuízo intolerável para o país, derivando de sua alegada descendência e da prerrogativa do turbante verde o direito a uma independência e insolência de conduta das quais seus conterrâneos, não menos que os estrangeiros, têm de sofrer.
"... Os judeus persas, como uma comunidade, estão mergulhados em grande pobreza e ignorância... Por toda a parte dos países muçulmanos do Oriente, esse povo infeliz tem sofrido a perseguição que o costume lhe ensinou, bem como ao mundo, a considerar como sua sorte normal. Normalmente forçados a viver isolados num gueto ou bairro afastado das cidades, desde tempos imemoriais têm os judeus sofrido por não ter uma ocupação definida; por seus costumes e vestuário diferentes, o que os marcou como párias sociais, distintos de seus semelhantes... Em Isfáhán, onde vivem 3.700 judeus, segundo se diz, e onde desfrutam uma condição relativamente melhor do que em outras partes da Pérsia, não lhes é permitido usar o Kuláh ou cobertura persa para a cabeça, nem ter lojas no bazar, construir as paredes de suas casas tão altas como as de um vizinho muçulmano, ou andar montado ou num veículo nas ruas... Logo, entretanto, que ocorre alguma explosão de fanatismo na Pérsia ou em outra parte, é provável que os judeus sejam as primeiras vítimas. A mão de todo homem é então levantada contra eles, e ai do desventurado hebreu que seja o primeiro a encontrar uma multidão persa.
"... Talvez o aspecto mais extraordinário da vida em Mashhad, antes de eu deixar o assunto do santuário e dos peregrinos, seja a providência tomada para o conforto destes últimos durante sua permanência na cidade. Em reconhecimento às longas viagens que fizeram, às durezas que suportaram e às distâncias pelas quais estão separados da família e do lar, lhes é permitido, com a conivência da lei eclesiástica e de seus oficiais, contrair casamentos temporários durante sua permanência na cidade. Há uma grande população permanente de esposas idôneas para esse fim. Um mullá é encontrado, e com sua permissão um contrato é lavrado e selado formalmente por ambas as partes, um honorário é pago e a união é realizada legalmente. Após haver passado uma quinzena ou um mês, ou qualquer período especificado, o contrato termina; o esposo temporário volta aos seus próprios lares et penates em alguma região distante e a mulher, após um celibato obrigatório de catorze dias, reassume sua carreira de perseverar em matrimônio. Em outras palavras, um gigantesco sistema de prostituição, com a permissão da Igreja, floresce em Mashhad. Não há, provavelmente, cidade mais imoral na Ásia; e eu não gostaria de dizer quantos dos peregrinos que, atravessando, sem nenhuma queixa, mares e terras a fim de beijar a grade do santuário do Imame, não são também animados e consolados, em sua marcha pela perspectiva de umas férias agradáveis, com algo que poderia ser descrito no vernáculo inglês como 'a good spree' (uma boa farra)."
Conclusão
"Antes de terminar o assunto da lei persa e sua administração, eu queria acrescentar algumas palavras sobre penalidades e prisões. Nada é mais chocante para o leitor europeu quando prossegue a leitura das páginas sangrentas, manchadas de crime, da história persa do século passado - e, em menor grau felizmente, do atual -, do que o registro de castigos selvagens e torturas abomináveis, atestando alternadamente a insensibilidade do bruto e a engenhosidade do demônio. O caráter persa foi sempre fértil em invenção e indiferente ao sofrimento; e no campo das execuções judiciais tem encontrado amplo terreno para o exercício de ambas as habilidades. Até um período muito recente, ainda no reinado atual, criminosos condenados têm sido crucificados, executados por canhões, enterrados vivos, empalados, ferrados como cavalos, partidos ao meio ao serem amarrados às copas de duas árvores inclinadas quando voltam à sua posição original, convertidos em tochas humanas, ou esfolados enquanto vivos.
"... Sob um sistema duplo de governo assim como aquele do qual agora completei a descrição - isto é, uma administração na qual cada membro é, sob diversos aspectos, o subornador como também o subornado; e um procedimento judicial sem lei ou tribunal - compreender-se-á facilmente que confiança no governo não deve existir, e que não há senso pessoal de dever ou orgulho em se ter honra, nenhuma confiança mútua ou cooperação (a não ser no serviço do malfazer), nenhuma vergonha no escândalo, nem crédito na virtude, e, acima de tudo nenhum espírito nacional ou patriótico. Têm razão aqueles filósofos que afirmam que a reforma moral, na Pérsia deve preceder a material, e a interna à exterior. É inútil enxertar brotos novos numa haste cuja própria seiva está esgotada ou envenenada. Podemos dar à Pérsia estradas e ferrovias, poderemos pôr em operação suas minas e explorar seus recursos; podemos treinar seu Exército e vestir seus artesãos, mas não a teremos feito entrar no círculo das nações civilizadas antes de penetrarmos no âmago do povo e de havermos dado um jeito novo e radical ao caráter e às instituições nacionais. Apresentei este quadro da administração persa, o qual acredito ser verídico, a fim de que os leitores possam compreender o sistema que os reformadores, quer estrangeiros ou nativos, terão de enfrentar, e o muro férreo de resistência, erigido por todos os instintos mais egoístas da natureza humana, que se opõe às idéias progressistas. O próprio xá, por mais que deseje a inovação, está em algum grau engajado nesse sistema pernicioso, visto que ele lhe deve sua fortuna particular, enquanto aqueles que, nas mais altas vozes o condenam em segredo, não estão atrás dos outros ao curvar as cabeças publicamente no templo de Rimmon. Em cada categoria abaixo do soberano, falta completamente a iniciativa para efetivar uma rebelião contra a tirania do costume imemorial; e se um homem forte como o próprio rei não é capaz de empreendê-la, onde está aquele que há de pregar a cruzada?"
Extratos do Persia and the Persian Question (A Pérsia e a Questão Persa) por Lord Curzon.
TRIBUTO DE Bahá'u'lláh AO Báb E AOS SEUS
PRINCIPAIS DISCÍPULOS
Extraído do Kitáb-I-Íqán
"Embora jovem e de tenra idade, e não obstante ser a Causa por Ele revelada contrária ao desejo de todos os povos da Terra, dos poderosos aos humildes, dos ricos aos pobres, dos enaltecidos aos aviltados, do rei aos súditos, levantou-se Ele, todavia, e proclamou-a firmemente. Disto todos têm sabido e ouvido falar. A ninguém temia; não tomava em conta as conseqüências. Poderia tal coisa se manifestar, salvo através do poder de uma Revelação Divina e da potência da invencível Vontade de Deus? Pela justiça de Deus! Fosse alguém nutrir no coração tão grande Revelação, só o pensar em declará-la confundir-lhe-ia! Se os corações de todos os homens se comprimissem dentro de seu coração, ainda ele hesitaria em se aventurar a tão grave empreendimento. Só poderia realizá-lo com a permissão de Deus, e tão somente se seu coração estivesse ligado à fonte da Graça Divina, e à sua alma fosse assegurado o infalível sustento do Todo-Poderoso. A que - nós perguntamos - atribuem eles tão grande intrepidez? Será que o acusam de loucura, assim como acusaram aos Profetas antigos? Ou alegam ter sido Seu motivo único a aquisição de prestígio e de riquezas terrenas?
Deus bondoso! Em Seu livro, que intitulou Qayyúmu'l-Asmá - o primeiro, maior e mais poderoso de todos os livros -, Ele profetizou o próprio martírio. Nele se encontra esta passagem: 'Ó Tu Remanescente de Deus! Sacrifiquei-me inteiramente por Ti; aceitei maldições por Tua causa; e nada almejei, senão o martírio no caminho do Teu amor. Testemunha suficiente para mim é Deus, o Excelso, o Protetor, o Ancião dos Dias!'
"... Poder-se-ia supor que o Revelador de palavras como estas andasse em outro caminho senão no de Deus, e almejasse qualquer coisa que não fosse a Sua aprovação? Nesse mesmo versículo jaz oculto um sopro de desprendimento, que, se fosse emitido em sua plenitude sobre o mundo, faria com que todos os seres renunciassem à vida e sacrificassem a alma.
"... E considera tu agora como esse Sadrih do Ridvan de Deus, ainda na flor da juventude, se levantou para proclamar a Causa de Deus! Vê que constância esse Manifestante da Beleza Divina revelou. O mundo inteiro levantou-se para impedi-Lo, mas falhou completamente. Quanto mais severa a perseguição que infligiam a esse Sadrih abençoado, mais crescia Seu fervor e mais intensamente a chama de Seu amor ardia. Tudo isso é evidente e ninguém lhe contesta a verdade. Afinal, Ele entregou a alma e alçou vôo para os reinos do alto.
"... Mal havia esse Manifestante da Beleza Eterna Se revelado em Shíráz, no ano sessenta, e rompido o véu da ocultação, quando se tornaram manifestos em toda a Terra os sinais da supremacia, da grandeza, da soberania e do poder que emanavam dessa Essência das Essências, desse Mar dos Mares; a tal ponto que, de cada cidade, apareceram os sinais, as evidências, os indícios e testemunhos desse Luminar Divino. Quão numerosos foram os corações puros e benévolos que espelharam fielmente a luz desse Sol eterno! Quão múltiplas as emanações de conhecimento desse Oceano da sabedoria divina que envolveram todos os seres! Em cada cidade, todos os eclesiásticos e nobres levantaram-se com o fim de os impedir e reprimir, e muniram-se de malícias, inveja e tirania para aniquilá-los. Que grande número dessas almas santas, dessas essências da justiça, sendo acusadas de tirania, foram mortas! E quantas personificações da pureza, que nada demonstraram senão o conhecimento verdadeiro e atos imaculados, sofreram uma morte angustiosa! Não obstante tudo isso, cada um desses santos seres, até o último momento, suspirava o Nome de Deus e elevava-se para o reino da submissão e resignação. Tão grande foi a influência que Ele exerceu sobre esses seres, a tal ponto os transformando, que deixaram de nutrir qualquer desejo a não ser Sua Vontade e devotaram as almas à Sua Lembrança.
"Reflete: quem no mundo é capaz de manifestar tão transcendente poder, predominante influência? Todos esses corações sem mácula e essas almas santificadas responderam, com resignação absoluta, ao chamado de Seu decreto. Em vez de se queixarem, agradeceram a Deus e, em meio às trevas de sua angústia, nada revelaram senão aquiescência radiante à Sua Vontade. Bem se sabe como era implacável o ódio e amargas a malícia e a inimizade que todos os povos da Terra mostraram para com esses companheiros. A perseguição e a dor que infligiram sobre esses seres santos e espirituais foram vistas por eles como o meio de atingir a salvação, a prosperidade e o êxito eterno. Terá o mundo visto, desde os dias de Adão, tumulto igual ou comoção de tanta violência? Não obstante todo o tormento que sofreram e as múltiplas aflições que suportaram, tornaram-se alvo de opróbrio e execração universais. Parece-me que a paciência se revelou unicamente em virtude de sua fortaleza, e a própria fidelidade não foi gerada senão por suas façanhas.
"Pondera em teu coração esses momentosos acontecimentos, para que possas compreender a grandeza desta Revelação e perceber sua glória estupenda."
CARACTERÍSTICAS DISTINTIVAS DO ISLÃ XIITA
"O ponto cardeal em que os xiitas (bem como as outras seitas incluídas sob a denominação mais geral de imanitas) diferem dos sunitas é a doutrina do Imanato. Segundo a crença destes últimos, a vice-gerência do profeta (califado) é questão de ser resolvida por escolha e eleição por parte de seus seguidores, e o cabeça visível do mundo muçulmano preenche o elevado cargo que lhe cabe, menos por alguma especial graça divina do que por uma combinação de capacidade administrativa com ortodoxia. De acordo com a opinião imamita, por outro lado, a vice-gerência é questão totalmente espiritual; um cargo conferido por Deus somente - primeiro pelo Seu Profeta e depois por aqueles que lhe sucederam, nada tendo que ver com a escolha ou a aprovação popular. Numa palavra, o Califa dos sunitas é apenas o defensor exterior e visível da Fé; o Imame dos xiitas é o sucessor do Profeta por designação divina, é dotado de todas as perfeições e graças espirituais, deve ser obedecido por todos os fiéis, sendo absoluta e final sua decisão, sobre-humana sua sabedoria e autorizadas suas palavras. O termo geral de Imanato é aplicável a todos aqueles que têm esta opinião, sem referência ao modo como traçam a sucessão, e inclui, portanto, seitas tais como os Báqirís e Ismá'ílís, bem como os xiitas ou 'Igreja dos Doze' (Madhhab-i-Ithmá-'Asharíyyih), como são mais especificamente denominados, pelos quais tão somente estamos aqui interessados. Segundo afirmam estas, doze pessoas sucessivamente ocuparam o cargo de Imame. Estas doze são como segue:
1. 'Alí-ibn-i-Abí-Tálib, primo e primeiro discípulo do Profeta, assasssinado por Ibn-i-Muljam em Kúfih, 40 A.H. (661 A.D.).
2. Hasan, filho de 'Alí e Fátimih, nascido em 2 A.H., envenenado por odem de Mu'ávíyih I, 50 A.H. (670 A.D.).
3. Husayn, filho de 'Alí e Fátimih, nascido em 4 A.H., morto em Karbilá em Muharram 10, 61 A.H. (10 de outubro, 680 A.D.).
4. 'Alí, filho de Husayn e Sháhribánú (filha de Yazdigird, último rei sassânida, geralmente chamado Imame Zaynu'l-'Abidín, envenenado por Valíd.
5. Muhammad-Báqir, filho do acima mencionado Zaynu'l-'Ábidín e sua prima Umm-i-'Abdu'lláh, filha do Imame Hasan, envenenado por Ibrahim ibn-i-Valíd.
6. Ja'far-i-Sádiq, filho do Imame Muhammad-Báqir, envenenado por ordem de Mansúr, o Califa 'Abbáside.
7. Músá-Kázim, filho do Imame Ja'far-i-Sádiq, nascido em 129 A.H., envenenado por ordem de Hárúnu'r-Rashíd, 183 A.H.
8. 'Alí-ibn-i-Músa'r-Ridá, geralmente chamado Imame Rida, nascido em 153 A.H., envenenado próximo de Tús, em Khurásán, por ordem do Califa Ma'mún, 203 A.H. e sepultado em Mashhad, que deriva dele seu nome e santidade.
9. Muhammad-Taqí, filho do Imame Ridá, nascido em 195 A.H., envenenado pelo Califa Mu'tasim em Bagdá, 220 A.H.
10. 'Alí-Naqí, filho do Imame Muhammad-Taqí, nascido em 213 A.H., envenenado em Surra-man-Ra'á, 254 A.H.
11. Hasan-i-Askarí, filho do Imame 'Alí-Naqí, nascido em 232 A.H., envenenado 260 A.H.
12. Muhammad, filho do Imame Hasan-i-'Askarí e Nargis-Khátún, chamado pelos xiitas 'Imame-Mihdí', 'Hujjátu'lláh' (A Prova de Deus), 'Baqíyya-tu'lláh (o Remanescente de Deus), e 'Qá'im-i-Áli-i-Muhammad (Aquele que há de surgir da família de Maomé). Ele tinha não só o mesmo nome, mas também o mesmo Kunyih - Abu'l-Qásim - do profeta e, segundo os xiitas, a lei não permite que qualquer outro tenha esse nome e esse kunyih junto. Ele nasceu em Surra-man-Ra'á, 255 A.H., e sucedeu a seu pai no Imanato em 260 A.H.
"Os xiitas afirmam que ele não morreu, mas desapareceu numa passagem subterrânea em Surra-man-Ra'á, 329 A.H., que ainda vive, rodeado por um grupo escolhido de seus seguidores, numa daquelas cidades misteriosas, Jábulqá e Jábulsá e que, ao chegar à plenitude do tempo, quando a Terra estiver cheia de injustiça e os fiéis estiverem mergulhados no desespero, ele se levantará, prenunciado por Jesus Cristo, derrubará os infiéis, e restabelecerá a paz e a justiça universais e inaugurará um milênio de beatitude. Durante o período inteiro de seu imamato, isto é, desde 260 A.H. até o tempo presente, o Imame Mihdí em estado invisível e inacessível para a generalidade de seus seguidores, e é isso o que significa o termo 'Ocultação' (Ghaybat). Após haver assumido as funções de Imame e presidido o enterro de seu pai e predecessor, o Imame Hasan-i-'Askarí, ele desapareceu da vista de todos, salvo uns poucos escolhidos, os quais, um após outro, continuaram a servir de canais de comunicação entre ele e seus seguidores. Essas pessoas eram conhecidas como Portas (Abváb). A primeira delas foi Abú-'Umar-'thmán ibn-i-Sa'íd'Umarí; a segunda Abú-Ja'far Muhammad-ibn-i-'Uthman, filho deste último; a terceira, Husayn-i-ibn-i-Rúh Naw-Bakhtí; a quarta, Abu'l-Hasan 'Álí-ibn-i-Muhammad Símarí. Dessas Portas, a primeira foi nomeada pelo Imame Hasan-i-'Askarí, e as outras pela Porta interina, com a aprovação do Imame Míhdí. Esse período - abrangendo mais de 69 anos -, durante o qual o Imame estava ainda acessível por meio das Portas, é conhecido como a 'Ocultação Menor' (Ghaybat-i-Sughrá). Esse período foi sucedido pela 'Ocultação Maior' (Ghaybat-i-Kubrá). Quando Abu'l-Hasan 'Alí, a última das Portas, se aproximava de seu fim, os fiéis (que contemplavam com desespero a perspectiva de desligação completa do Imame) instaram com ele para que nomeasse um sucessor. Isso, entretanto, ele recusou, dizendo: 'Deus tem um desígnio que Ele executará.' Assim, com sua morte, toda comunicação entre o Imame e sua Igreja cessou, e teve início a 'Ocultação Maior', a qual haverá de continuar até a volta do Imame na plenitude do tempo."
(Excerto de 'A Traveller's Narrative', nota 1 p.p. 296-
GENEALOGIA DO PROFETA MAOMÉ
Quraysh
'Abd-i-Manáf
Háshim 'Abdu'sh-Shams
'Abdu'l-Muttalib Umayyih
'Abdu'lláh Abú-Tálib 'Abbás Umayyad Caliphs
MUHAMMAD 'Abbásíd Caliphs
Fátimih 'Alí
Hasan Husayn
Califas Umayyad 661-749 A.D.
Califas 'Abbásíd 749-1258 A.D.
Califas Fátimitas 1258-1517 A.D.
Califas Otomanos 1517-19 A.D.
Nascimento de Maomé, 20 de agosto de 570 A.D.
Declaração de sua Missão, 613-14 A.D.
Sua fuga para Medina, 622 A.D.
Abú-Bakri's-Siddíq-ibn-i-Abí-Quháfih, 632-34 A.D.
'Umar-ibn-i'l-Khattáb, 634-44 A.D.
'Uthmán-ibn-i-'Affán, 644-56 A.D.
'Alí-ibn-i-Abí-Tálib, 656-61 A.D.
TEORIA E ADMINISTRAÇÃO DA LEI NA PÉRSIA EM MEADOS DO SÉCULO XIX
"... A lei na Pérsia e, de fato, entre os povos muçulmanos em geral consiste em dois ramos: o religioso e a lei comum; a lei que se baseia nas Escrituras maometanas e aquela que se baseia no precedente; aquela que é administrada pelos tribunais eclesiásticos e aquela que é administrada pelos tribunais civis. Na Pérsia, a primeira é conhecida como 'Shar, e a segunda como 'Urf. Das duas se evoluiu uma jurisprudência que, embora em sentido algum fosse científica, é, no entanto, razoavelmente prática na aplicação e superficialmente acomodada às necessidades e circunstâncias daqueles para quem é dispensada. A base de autoridade no caso do 'Shar', ou Lei Eclesiástica, consiste nas palavras do Profeta do Alcorão; as opiniões dos Doze Santos Imames, cuja voz, no parecer dos maometanos xiitas, é de importância quase igual, bem como segundo comentários de uma escola de preeminentes juristas eclesiásticos. Estes últimos desempenharam praticamente o mesmo papel na ampliação do volume de jurisprudência nacional, que fizeram os famosos juris consulti no caso da Lei Comum de Roma ou os comentadores talmúdicos com o sistema hebraico. O corpo das leis assim estruturado tem sido superficialmente codificado e dividido em quatro subtítulos, tratando respectivamente de ritos e deveres religiosos, contratos e obrigações, assuntos pessoais e de regulamentos santuários e procedimento judicial. Essa lei é administrada por uma corte eclesiástica, consistindo em mullás, isto é, padres leigos, e mujtahids, ou seja, sábios doutores da lei, assistidos algumas vezes por qádís ou juízes e sob a presidência de um oficial, conhecido como o Shaykhu'l Islám, um dos quais, por via de regra, é nomeado, em toda cidade grande, pelo soberano. Nos tempos antigos, o principal dessa hierarquia eclesiástica era o Sadru's-Sudúr, ou Pontifex Maximus, dignitário este que era escolhido pelo rei e a quem ficavam subordinados todo o clero e todas as autoridades judiciárias do reino. Este cargo, porém, foi abolido por Nadir Sháh em sua campanha anticlerical e jamais foi renovado. Nos centros menores da população e nas aldeias, essa corte é substituída pelo mullá ou mullás locais, que, em troca de alguma consideração, estão sempre prontos com um texto do Alcorão. No caso das cortes superiores, a decisão é invariavelmente escrita, junto com a citação das Escrituras, ou dos comentadores, na qual se baseia. Casos de extrema importância são entregues aos mujtahids mais eminentes, dos quais há um número limitado e cuja posição se deve tão somente à sua erudição ou habilidades, com a ratificação popular, e cujas decisões raramente são impugnadas... Em obras sobre a teoria da lei na Pérsia, se lê comumente que casos criminais são decididos pelas cortes eclesiásticas e casos civis, pelas cortes seculares. Na prática, entretanto, não há essa clara distinção; as funções e as prerrogativas das cortes coordenadas variam em diferentes épocas e parecem depender demais de fatores acidentais ou de escolha do que propriamente de necessidade; e, hoje embora casos criminais difíceis possam ser submetidos à corte eclesiástica, é, no entanto, de questões civis que eles se incubem principalmente. Questões de heresia ou de sacrilégio são naturalmente submetidas a esta corte, a qual toma conhecimento também de adultério e divórcio; e a embriaguez como ofensa, não contra a lei comum (de fato, se fosse questão de precedente, a não-sobriedade poderia apresentar as mais altas credenciais na Pérsia), mas sim, contra o Alcorão, se inclui dentro do âmbito de sua adjudicação...
Do 'Shar', passo agora ao 'Urf, ou Lei Comum. Nominalmente, esta se baseia na tradição oral, no precedente no costume. Assim, varia em diferentes partes do país. Entretanto, não havendo escritos ou códigos reconhecidos, nota-se que varia ainda mais na prática, segundo o caráter ou o capricho do indivíduo que o administra... Os administradores do 'Urf são magistrados civis em toda parte do reino, não existindo corte secular ou banca de juízes segundo o modelo ocidental. Numa aldeia, o caso será submetido ao kad-khudá, ou chefe; numa cidade, ao dárúghih, ou magistrado da polícia. Ao seu julgamento são submetidas todas as pequenas ofensas que ocupam uma corte policial de cidade ou uma banca de magistrados de condado na Inglaterra. A pena no caso de roubos, ou assalto, ou ofensas semelhantes, é, de modo geral, a restituição, ou no mesmo gênero ou no valor monetário, ao passo que, se por falta de meios isso é impossível, o criminoso é espancado com violência. Todos os casos de crimes comuns são submetidos ao hakím, ou governador provincial ou ao governador-geral. A corte final de apelo em cada caso é o rei, de cuja jurisdição são apenas uma delegação, se bem que seja raro um suplicante longe da capital conseguir que sua queixa seja ouvida de tão longa distância. A Justiça, pouco considerada pelos oficiais de governo na Pérsia, não obedece a nenhuma lei, não segue sistema algum. O que pode garantir a eqüidade, unicamente, é a publicidade; mas vasto é o campo, especialmente nos níveis mais baixos, para pishkash e propina. Os dárúghis têm a reputação de ser tanto austeros quanto venais, e alguns dizem, até que não existe uma sentença de um oficial na Pérsia, mesmo das categorias mais altas, que não possa ser modificada mediante uma consideração pecuniária."
(Excertos do Persia and the Persian Question por Lord Curzon, vol. 1 p.p. 452-455)
EXPLICAÇÃO DA GENEALOGIA DO Báb
1. Descendente do Imame Husayn, residente de Shíráz.
2. Esposa do Báb.
3. Intitulado "Afnán-i-Kabír."
4. Esposa de Mirza Zaynu'l-'Ábidín.
5. Conhecido como "Saqqá-Khání."
6. Esposa de Hájí Mirza Siyyid Hasan, filho de Mirza 'Alí.
7. Morreu ao nascer.
8. Intitulado "Khál-i-Asghar", a quem foi dirigido o Kitáb-i-Íqán.
9. Intitulado "Khál-i-A'zam", um dos Sete Mártires de Teerã.
10. Intitulado "Vakílu'd-Dawlih", principal construtor do Mashriqu'l-Adhkár em Ishqábád.
11. Intitulado "Vazír", nativo de Núr em Mázindarán; seu nome 'Abbás.
12. Seu nome 'Abbás.
13. Seu nome 'Alí-Muhammad.
14. Seu nome Husayn-'Alí.
15. Esposa de Vakílu'd-Dawlih, Hájí Mirza Muhammad Taqí.
16. Único filho de Hájí Mirza Muhammad-'Alí.
17. Genro de 'Abdu'l-Bahá.
18. Descendente do Imame Husayn, comerciante e natural de Shíráz.
19. Genro de 'Abdu'l-Bahá.
20. Único filho de Mirza Abu'l-Fath.
A DINASTIA QÁJÁR
Fath-'Alí Sháh, 1798-1834 A.D.
Muhammad Sháh, 1835-48 A.D.
Násiri'd-Dín Sháh, 1848-96 A.D.
Muzaffari'd-Din Sháh, 1896-1907 A.D.
Muhammad-'Alí Sháh, 1907-9 A.D.
Ahmad Sháh, 1909-25 A.D.
Mirza Abu'l-Qásim-I-Qá'im-Maqám.
Hájí Mirza Áqásí.
Mirza Taqí Khán Amír-Nizám.
Mirza Áqá Khán-i-Núrí.
PREFÁCIO
É minha intenção, pela ajuda e assistência de Deus, devotar as páginas introdutórias desta narrativa à exposição daquilo que tenho podido obter sobre aquelas duas grandes luzes gêmeas, Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í e Siyyid Kázim-i-Rashtí, depois do que é minha esperança relatar, por ordem cronológica, os principais acontecimentos desde o ano de 601, ano que testemunhou a declaração da Fé pelo Báb, até o tempo atual, o anod e 1305 A.H.2
Em certos casos entrarei em algum detalhe; em outros, contentar-me-ei com um breve sumário dos acontecimentos. Registrarei uma descrição dos episódios que eu mesmo testemunhei, bem como aqueles que me foram contados por informantes fidedignos e reconhecidos, cujos nomes e posição especificarei em cada caso. Aqueles a quem estou principalmente agradecido são os seguintes: Mirza Ahmad-i-Qazvíní, amanuense do Báb; Siyyid Ismá'íl-i-Dhabíh; Shaykh Hasan-i-Zunúzí; Shaykh Abú-Turáb-i-Qazvíní; e, por fim, embora não de importância menor, Mirza Músá, Áqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh.
Agradeço a Deus por me haver ajudado a escrever estas páginas preliminares e por tê-las abençoado e honrado com a aprovação de Bahá'u'lláh, que bondosamente se dignou a considerá-las e assinalou, por intermédio do Seu amanuense, Mirza Áqá Ján - que as leu para Ele - Seu prazer e aceitação. Suplico que o Todo-Poderoso me possa sustentar e guiar para que eu não erre e falhe na tarefa que me pus a desempenhar.
Muhammad-i-Zarandí3
'Akká, Palestina
1305 A.H.
OS ROMPEDORES DA ALVORADA
CAPÍTULO I
A MISSÃO DE SHAYKH AHMAD-I-AHSÁ'Í
Num tempo em que a realidade esplendorosa da Fé de Maomé se obscurecera em razão da ignorância, do fanatismo e da perversidade das seitas discordantes em que se havia dividido, apareceu no horizonte do Oriente (1) aquela luminosa Estrela da Guia Divina, Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í. (2) Ele observou como aqueles que professavam a Fé do Islã haviam demolido sua unidade e solapado sua força, pervertendo-lhe o desígnio e degradando-lhe o nome santo. Sua alma encheu-se de angústia diante da corrupção e da contenda que predominavam na seita xiita do Islã. Inspirado pela luz que dentro dele brilhava,(3) levantou-se com infalível visão, com firme propósito e desprendimento sublime, para externar seu protesto contra a traição da Fé por aquele povo ignóbil. Ardendo de zelo e com plena consciência da sublimidade de sua vocação, fez um apelo veemente não só ao Islã xiita, mas a todos os seguidores de Maomé no Oriente inteiro, para que acordassem de seu sono de negligência e preparassem o caminho para Aquele que iria se manifestar na plenitude do tempo, cuja luz tão somente poderia dissipar as névoas do preconceito e da ignorância que haviam envolvido essa Fé. Abandonando seu lar e seus familiares numa das ilhas de Bahrein, na parte sul do Golfo Pérsico, partiu, assim como lhe ordenara a Providência Todo-Poderosa, com o fim de desvendar os mistérios dos versículos das Escrituras islâmicas que pressagiavam o advento de um novo Manifestante. Bem consciente estava ele dos riscos e perigos que lhe assediavam o caminho; plenamente percebia a responsabilidade gravíssima de sua tarefa. Em sua alma ardia a convicção de que nenhuma reforma dentro da Fé Islâmica, por drástica que fosse, poderia efetivar a regeneração desse povo perverso. Sabia, e estava destinado pela Vontade de Deus a demonstrá-lo, que nada menos que uma Revelação nova e independente, assim como atestavam e prediziam as Sagradas Escrituras do Islã, poderia reviver as fortunas dessa decadente Fé e lhe restaurar a pureza. (4)
Destituído de todos os bens terrenos, desligado de tudo, salvo de Deus, levantou-se ele, nos primeiros dias do século XIII da Hégira, aos quarenta anos de idade, para dedicar o tempo que lhe restava em vida à tarefa que se sentia impelido a ombrear. Dirigiu-se primeiro a Najáf e Karbilá (5), onde, dentro de poucos anos, adquiriu familiaridade com os pensamentos e normas correntes entre os sábios do Islã. Isso fez com que viesse a ser reconhecido como um dos autorizados expositores dos sagrados escritos islâmicos, fosse declarado um mujtahid e logo adquirisse ascendência sobre os demais colegas que visitavam aquelas cidades santas ou nelas residiam. Estes vieram a considerá-lo como iniciado nos mistérios da Revelação Divina e qualificado para elucidar as palavras abstrusas de Maomé e dos imames da Fé. À medida que sua influência aumentava, tornando-se maior o âmbito de sua autoridade, ele se via assediado de todos os lados por um sempre crescente número de inquiridores devotados que pediam esclarecimento sobre certos aspectos intrincados da Fé, os quais foram por ele hábil e plenamente elucidados. Com seu conhecimento e sua audácia, aterrorizava os corações dos sufis e neoplatonistas e outras correntes similares de pensamento (6), os quais lhe invejavam a erudição e temiam sua intrepidez. Assim ele adquiriu maior consideração aos olhos daqueles sábios teólogos que julgavam essas seitas como as disseminadoras de obscuras e heréticas doutrinas. No entanto, não obstante a fama e estima que lhe devotavam, ele desdenhava todas as honras que seus admiradores tão profusamente lhe dispensavam. Ele se admirava da servil devoção destes à dignidade e à alta posição, recusando-se, resolutamente, a se associar àqueles que se dedicavam a esses esforços e desejos.
Uma vez que havia cumprido seu propósito naquelas cidades, ao inalar a fragrância que lhe emanava da Pérsia, ele sentiu em seu coração um anelo irreprimível de seguir para esse país. Ocultou dos amigos, entretanto, o verdadeiro motivo que o impelia a dirigir os passos a essa região. Por via do Golfo Pérsico apressou-se a alcançar a terra do desejo de seu coração, ostensivamente com o fim de visitar o santuário do Imame Ridá em Mashhad (7). Cheio de ansiedade para desabafar sua alma, buscava zelosamente aqueles a quem pudesse confiar o segredo que até então a ninguém revelara. Vindo a Shiráz, cidade que encerrava o Tesouro oculto de Deus, e da qual a voz do Arauto de um novo Manifestante era destinada a proclamar, dirigiu-se ao Masjid-i-Jum'ih, uma mesquita que, em estilo e formato, se assemelhava, de modo impressionante, ao santuário sagrado de Meca. E não raras vezes comentava enquanto contemplava esse edifício: "Verdadeiramente, essa casa de Deus manifesta sinais de tal natureza que só os dotados de compreensão podem perceber. Quem a concebeu e edificou foi, parece-me, inspirado por Deus. (8) Quão freqüente e apaixonadamente ele louvava essa cidade! Tão profusos foram seus elogios que seus ouvintes, conhecedores do quanto ela era medíocre, se mostravam atônitos com o tom de sua linguagem. "Não vos maravilheis", dizia àqueles tão admirados, "pois dentro em breve o segredo de minhas palavras se manifestará a vós. Dentre vós alguns haverão de viver até contemplarem a glória de um Dia que os Profetas da Antiguidade tinham ânsia de testemunhar."
Tão grande era sua autoridade aos olhos dos ulemás com quem encontrava e conversava que estes se professavam incapazes de compreender o significado das misteriosas alusões e atribuíam esta falha à deficiência de seu próprio entendimento.
Após haver lançado as sementes do conhecimento divino nos corações daqueles que lhe pareciam receptivos a seu chamado, Shaykh Ahmad partiu para Yazd, onde se demorou por algum tempo, ocupando-se sempre em disseminar as verdades que se sentia constrangido a revelar. A maioria de seus livros e epístolas foi escrita nessa cidade. (9) Tal a fama por ele adquirida (10) que o governante da Pérsia, Fath-Alí Sháh, se sentiu movido a dirigir-lhe de Teerã uma mensagem por escrito (11), na qual pedia que explicasse certas questões específicas relacionadas aos ensinamentos obscuros da Fé muçulmana, cujo significado os principais ulemás de seu reino não haviam podido revelar. A esta mensagem respondeu prontamente com uma epístola à qual deu o nome de Risáliy-i-Sultáníyyih. Tão satisfeito ficou o xá com o tom e o conteúdo desta epístola que lhe enviou de imediato uma segunda mensagem, fazendo-lhe desta vez um convite para visitar sua corte. Em resposta a esta segunda mensagem imperial, ele escreveu o seguinte: "Como eu sempre, desde minha partida de Najáf e Karbilá tencionara visitar o santuário do Imame Rida em Mashhad e lhe render minha homenagem, aventuro-me a esperar que Vossa Majestade Imperial me concederá a graça para cumprir o voto que tenho feito. Subseqüentemente, se Deus quiser, é minha esperança e meu propósito valer-me da honra que Vossa Majestade Imperial se dignou de me conferir."
Entre aqueles que foram despertados na cidade de Yazd pela mensagem daquele portador da luz de Deus estava Hájí'Abdu'l-Vahháb, homem de grande piedade e retidão, cheio de temor a Deus. Ele visitava Shaykh Ahmad todos os dias na companhia de um certo Mullá 'Abdu'l-Kháliq-i-Yazdí, célebre por sua autoridade e sua erudição. Em certas ocasiões, entretanto, Shaykh Ahmad, a fim de falar confidencialmente com 'Abdu'l-Vahháb, pedia ao sábio 'Abdu'l-Khalíq, causando-lhe por isso grande surpresa, que se retirasse de sua presença e o deixasse a sós com seu discípulo escolhido e favorito. Essa notável preferência mostrada a um homem tão modesto e iletrado como 'Abdu'l-Vahháb causou grande admiração a seu companheiro, demasiado consciente que era de sua própria superioridade e conhecimentos. Mais tarde, porém, após haver Shaykh Ahmad partido de Yazd, 'Abdu'l-Vahháb retirou-se da sociedade dos homens, vindo a ser considerado um sufi. Pelos ortodoxos daquela comunidade, entretanto, tais como o Ni'matu'lláhí e o Dhahabí, foi denunciado como intruso e suspeito de desejar-lhes usurpar a liderança. 'Abdu'l-Vahháb, para quem a doutrina sufi não tinha nenhuma atração especial, desdenhou suas falsas imputações e evitava sua companhia. A ninguém se associava, exceto a Hájí-Hasan-i-Náyiní, a quem escolhera como seu amigo íntimo e a quem confiou o segredo que lhe havia sido entregue pelo seu mestre. Após a morte de 'Abdu'l-Vahháb, esse amigo, seguindo-lhe o exemplo, continuou no caminho que ele lhe indicara e anunciou a toda alma receptiva as boas novas da iminente Revelação de Deus.
Mirza Mahmúd-i-Qamsarí, a quem conheci em Káshán e que naquele tempo tinha mais de noventa anos de idade, um homem muito querido e reverenciado por todos aqueles que o conheciam, relatou-me a seguinte história: "Recordo quando na juventude, na época em que vivia em Káshán, ouvi falar de certo homem em Náyin que se havia levantado para anunciar a notícia de uma nova Revelação e em cuja presença se tomavam de encanto todos os que o ouviam, fossem doutos, oficiais de governo ou os iletrados entre o povo. Sua influência era tal que os que tinham contato com ele renunciavam ao mundo e desprezavam as riquezas terrenas. Curioso, querendo certificar-me da verdade, prossegui - sem que meus amigos suspeitassem - a Náyin, onde pude verificar as asserções que a seu respeito corriam. Seu semblante radiante demonstrava a luz que em sua alma se acendera. Num dia, após haver ele oferecido sua prece matinal, palavras como estas o ouvi pronunciar: 'Em paraíso, a Terra breve se converterá. Breve a Pérsia se fará o santuário em cujo redor os povos da Terra circularão.' Certa manhã, na hora da alvorada, encontrei-o prostrado enquanto repetia, absorto em sua devoção, as palavras 'Alláh-u-Akbar'. (12) Para grande surpresa minha, virou-se para mim, dizendo: 'O que tenho te anunciado revela-se agora. Nesta hora exata, a luz do Prometido irrompeu e está derramando sobre o mundo seu esplendor. Ó Mahmúd, em verdade digo, tu viverás para testemunhar aquele Dia dos dias'. As palavras que me dirigiu esse homem santo ressoavam sempre em meus ouvidos até o dia, quando, no ano sessenta, em que foi privilégio meu ouvir o Chamado que surgiu de Shíráz. Infelizmente, meu estado enfermo impedia que para aquela cidade eu me apressasse. Mais tarde, quando o Báb, o Arauto da nova Revelação, veio a Káshán e por três noites se hospedou na casa de Hájí Mirza Jání, por não saber de Sua visita, perdi a honra de atingir a Sua presença. Algum tempo depois, ao conversar com os seguidores da Fé, fui informado de que o aniversário natalício era no primeiro dia do mês de Muharram, do ano de 1235 A.H. (13) Percebi que o dia citado por Hájí-Hasan-i-Náyní não correspondia com essa data, havendo entre eles uma diferença de dois anos. Este pensamento me deixou excessivamente perplexo. Muito depois, porém, conheci um certo Hájí Mirza Kamálu'd-Dín-i-Naráqí, que me anunciou a Revelação de Bahá'u'lláh, em Bagdá, e compartilhou comigo alguns versículos do 'Qasídiy-i-Varqá'íyyih', bem como certas passagens das Palavras Ocultas em persa e em árabe. Comoveu-me até as profundezas de minh'alma ouvi-lo recitar essas palavras sagradas. Das seguintes, lembro-me vividamente ainda: "Ó Filho do Ser! Teu coração é Meu lar; santifica-o para Minha descida. Teu espírito é a sede da Minha Revelação; purifica-o, para que nele Eu possa Me manifestar. Ó Filho da Terra! Se tu Me quiseres ter, a nenhum outro busques, senão a Mim; e se desejas contemplar Minha beleza, fecha teus olhos ao mundo e a tudo o que nele se acha; pois Minha vontade e a vontade de outro que não seja Eu, tal como o fogo e a água, não podem habitar no mesmo coração." Perguntei-lhe a data do nascimento de Bahá'u'lláh. "A alvorada do segundo dia de Muharram", respondeu, "do anod e 1233 A.H." (14) Imediatamente recordei as palavras de Hájí-Hasan e lembrei-me do dia em que foram pronunciadas. Instintivamente me prostrei no chão exclamando: "Glorificado és Tu, ó meu Deus, por me haveres habilitado a alcançar este Dia prometido. Se agora eu for chamado a Ti, morrerei contente e tranqüilo." Naquele mesmo ano, 1274 A.H. (15) esse ser venerável e radiante entregou a Deus seu espírito.
Este relato, que ouvi dos lábios do próprio Mirza Mahmúd-i-Qamsarí e que ainda permanece vivo na memória do povo, é, de certo, inquestionável evidência da perspicácia do falecido Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í e dá testemunho eloqüente da influência que exercia sobre seus discípulos imediatos. A promessa que ele lhes fez cumpriu-se, afinal, e o mistério com que lhes inflamou a alma desdobrava-se em sua plena glória.
Durante os dias em que Shaykh Ahmad fazia os preparativos para sair de Yazd, Siyyid Kázim-i-Rashtí, (16) aquele outro luminar da guia Divina, partiu de sua província natal de Gilán com o fim de visitar Shaykh Ahmad antes de este iniciar sua peregrinação a Khurásán. No decorrer da primeira entrevista com ele, com estas palavras Shaykh Ahmad se expressou: "Boas vindas te dou, ó meu amigo! Há quanto tempo e com que ânsia tenho te esperado, para que viesses me livrar da arrogância desse povo perverso! Em face de seus atos vergonhosos e de seu caráter depravado, sinto-me oprimido. "Em verdade, nós propusemos aos céus, à terra e aos montes que recebessem a incumbência de Deus, mas recusaram o fardo, e com medo tiveram de recebê-lo. O homem tentou suportá-la; e ele, em verdade, provou ser injusto, ignorante".
Desde sua infância, já mostrara esse Siyyid Kázim sinais de notável poder intelectual e percepção espiritual. Era ímpar entre aqueles de seu próprio nível e idade. Aos onze anos havia ele decorado o Alcorão inteiro. Aos catorze, sabia de memória um número prodigioso de preces e reconhecidas tradições de Maomé. Com a idade de dezoito anos, fez um comentário sobre um versículo do Alcorão conhecido como o Ayatu'l-Kursí, o qual causara espanto e admiração entre os mais eruditos de seu tempo. Sua piedade, a meiguice de seu caráter e sua humildade eram tais que todos aqueles que o conheciam, fossem jovens ou idosos, se sentiam profundamente impressionados. No ano de 1231 A.H., (17) abandonando lar, parentes e amigos partiu de Gílán com apenas vinte e dois anos de idade, ansioso por atingir a presença daquele que com tanta nobreza se havia levantado para anunciar o próximo alvorecer de uma Revelação Divina. Poucas semanas, apenas, estivera ele na companhia de Shaykh Ahmad quando certo dia, este, nas seguintes palavras, dirigiu-se a ele: "Permanece em tua casa e não mais assistas a meus discursos. Doravante, a ti se volverão aqueles de meus discípulos que se sentirem perplexos; diretamente de ti buscarão qualquer assistência que possam necessitar. Através do conhecimento a ti conferido pelo Senhor teu Deus, haverás de lhes resolver os problemas e tranqüilizar os corações. Mediante o poder de tuas palavras, ajudarás a avivar a Fé, tão lamentavelmente obscurecida, de Maomé, teu ilustre ancestral". Estas palavras dirigidas a Siyyid Kázim provocaram o ressentimento e atearam a inveja dos discípulos preeminentes de Shaykh Ahmad, entre os quais figuravam Mullá Muhmmad-i-Mamaqání e Mullá'Abdu'l-Kháliq-i-Yazdí. A tal ponto se impunha a dignidade de Siyyid Kázim, entretanto, e se realçaram as evidências de seu conhecimento e sua sabedoria que esses discípulos, tomados de respeito, sentiram-se compelidos a se submeter.
Entregando assim aos cuidados de Siyyid Kázim os seus discípulos, Shaykh Ahmad partiu para Khurásán. Lá por algum tempo se deteve nas cercanias do sagrado santuário do Imame Rida em Mashhad. Nesse recinto prosseguiu com zelo inalterado o curso de seus labores. Resolvendo as intrincadas questões que agitavam a mente do inquiridor, continuou a preparar o caminho para o advento iminente do Manifestante. Nessa cidade, mais e mais se tornou consciente de que o Dia destinado a testemunhar o nascimento do Prometido não poderia estar muito distante. Sentiu que a hora prometida se aproximava rapidamente. Da direção de Núr, na província de Mázindarán, podia perceber os primeiros sinais que prenunciavam o alvorecer da prometida Revelação. Parecia-lhe estar próxima a Revelação prognosticada nos seguintes dizeres tradicionais: "Breve havereis de contemplar o semelhante de vosso Senhor, esplendoroso como a Lua em sua plena glória. E, no entanto, não havereis de vos unir em lhe reconhecer a verdade e abraçar a Fé. E um dos mais poderosos sinais que haverão de assinalar o advento da Hora prometida é este: 'Uma mulher dará à luz a Um que será seu Senhor'".
Shaykh Ahmad partiu, pois, em direção a Núr e, acompanhado por Siyyid Kázim e um grupo de seus discípulos distintos, prosseguiu para Teerã. O xá da Pérsia, ao ser informado de que Siyyid Ahmad se aproximava de sua capital, ordenou que os dignitários e oficiais de Teerã saíssem a seu encontro e lhe proferissem em seu nome uma cordial expressão de boas-vindas. O distinto visitante e seus companheiros foram recebidos regiamente pelo xá, que fez uma visita pessoal a Shaykh Ahmad e o declarou ser "a glória de sua nação e um adorno para seu povo". (18) Nesses dias, nasceu numa família antiga e nobre de Núr, (19) uma Criança cujo pai era Mirza 'Abbás, mais conhecido como Mirza Buzurg, um ministro favorecido da Coroa. Essa Criança era Bahá'u'lláh. (20) Na hora do amanhecer, no segundo dia de Muharram, no ano de 1233 A.H., (21) o mundo, inconsciente de seu significado, viu nascer Aquele que estava predestinado a lhe conferir tão incalculáveis bênçãos. Shaykh Ahmad, reconhecendo em toda sua plenitude o que significava esse auspicioso evento, ansiava por passar os dias restantes de sua vida dentro da corte desse recém-nascido Rei Divino. Mas isto não havia de ser. Sem ter aliviado a sede ou satisfeito seu desejo ardente, sentiu-se compelido a se submeter ao irrevogável decreto de Deus e, voltando a face da cidade de seu Bem-Amado, rumou para Kirmánsháh.
O governador de Kirmánsháh, o Príncipe Muhammad-'Alí Mirza, filho mais velho do xá e o membro mais capaz de sua casa, já pedira a permissão de Sua Majestade Imperial para receber e servir pessoalmente a Shaykh Ahmad. (22) Tão favorecido era o príncipe aos olhos do xá que sua solicitação foi concedida de imediato. Completamente resignado a seu destino, Shaykh Ahmad despediu-se de Teerã. Antes de partir dessa cidade, sussurrou uma súplica para que esse Tesouro de Deus, ainda oculto, que acabava de nascer entre seus conterrâneos fosse preservado e estimado por todos, e para que viessem a reconhecer plenamente o grau de Sua santidade e glória e fossem capacitados a proclamar Sua excelência a todas as nações e povos.
Ao chegar em Kirmánsháh, Shaykh Ahmad decidiu escolher alguns dos mais receptivos dentre seus discípulos xiitas e, dedicando sua especial atenção a seu esclarecimento, capacitá-los a se tornarem os ativos defensores da Causa da prometida Revelação. Na série de livros e epístolas que se pôs a escrever, entre os quais figura sua bem conhecida obra Sharhu'z-Zíyárih, ele exaltou em linguagem clara e vívida as virtudes dos imames da Fé, dando especial relevo às alusões feitas por eles à vinda do Prometido. Por suas repetidas referências a Husayn, queria aludir, no entanto, a nenhum outro senão a Husayn que ainda seria revelado; e pelas alusões ao sempre-reiterado nome de 'Alí, não queria se referir ao 'Alí que fora morto e, sim, ao 'Alí recém-nascido. Aqueles que o interrogavam sobre os sinais que teriam de prenunciar o advento do Qá'im, asseverava enfaticamente a irrevogabilidade da prometida Revelação. No mesmo ano do nascimento do Báb, sofreu Shaykh Ahmad a perda de seu filho, cujo nome era Shaykh 'Alí. Aos discípulos que lamentavam sua perda, disse estas palavras de consolo: "Não sejais pesarosos, ó meus amigos, pois ofereci meu filho, meu próprio 'Alí, como sacrifício pelo 'Alí cujo advento nós todos esperamos. Para este fim o criei e preparei."
O Báb, cujo nome era 'Alí-Muhammad, nasceu em Shíráz, no primeiro dia de Muharram, no ano de 1235 A.H. Era descendente de uma casa célebre por sua nobreza, que traçava sua origem até o próprio Maomé. Seu pai, Siyyid Muhammad Ridá, e sua mãe eram descendentes do Profeta e pertenciam a famílias de reconhecido prestígio. A data de Seu nascimento confirmou a verdade das palavras atribuídas ao Imame 'Alí, Comandante dos fiéis: "Sou dois anos mais jovem do que meu Senhor". O mistério desta afirmação, porém, permaneceu velado salvo para aqueles que buscaram e reconheceram a verdade da nova Revelação. Foi Ele, o Báb, quem revelou, em Seu primeiro, mais importante e excelso livro, esta passagem referente a Bahá'u'lláh: "Ó Tu Remanescente de Deus! Sacrifiquei-me totalmente por Ti; consenti em ser amaldiçoado por Tua causa; e não tenho ansiado senão pelo martírio no caminho de Teu amor. Suficiente testemunha para Mim é Deus, o Excelso, o Protetor, o Ancião dos Dias!"
Durante a estada de Shaykh Ahmad em Kirmánsháh, ele recebia tantas evidências de ardentes devoção do príncipe Muhammad-'Alí-Mirza que, em uma ocasião, sentiu-se impelido a se referir ao príncipe em termos como estes: "Considero Muhammad-'Alí como meu próprio filho, embora seja descendente de Fath'Alí". Um número considerável de inquiridores e discípulos aglomerava-se em sua casa, ávidos de assistirem seus discursos. A nenhum deles, entretanto, se sentiu inclinado a mostrar a atenção e a afetuosa estima que caracterizavam sua atitude para com Siyyid Kázim. Parecia havê-lo escolhido dentre a multidão que se amontoava ao seu redor e estar preparando-o para levar avante sua obra, com vigor inalterado, após sua morte. Um de seus discípulos interrogou Shaykh Ahmad, certo dia, a respeito da Palavra que se espera que o Prometido venha a pronunciar na plenitude do tempo, uma Palavra tão espantosa e estupenda que cada um dos trezentos e três dirigentes e nobres da Terra fugiria consternado, como se abatido pelo seu estupendo peso. E assim Shaykh Ahmad replicou: "Como podes tu presumir sustentar o peso da Palavra que os dirigentes da Terra se vêem incapazes de suportar? Não procures satisfazer um desejo impossível. Deixa de me fazer essa pergunta, e de Deus pede perdão". Esse inquiridor presunçoso ainda outra vez com ele instou que lhe revelasse a natureza daquela Palavra. Finalmente Shaykh Ahmad respondeu: "Fosses tu atingir aquele Dia, se te fosse dito que repudiasses a guardiania de 'Alí e lhe denunciasses a validade, que dirias?" "Deus proíba!", exclamou ele. "Nunca pode suceder tal coisa. Palavras como essas procederem dos lábios do Prometido me é inconcebível." Quão grave foi seu erro e quão lastimável seu estado! Foi pesada na balança a sua fé e se verificou ser ela falha, desde que ele deixara de reconhecer que Aquele que há de se tornar manifesto é dotado de tal poder soberano como nenhum homem se atreve a questionar. Seu é o direito de "ordenar o que for Sua vontade, de decretar o que lhe aprouver". Qualquer um que hesite, qualquer um que ponha em dúvida Sua autoridade, ainda que seja por um piscar de olhos, ou menos, priva-se de Sua graça e é contado entre os caídos. E, no entanto, poucos, se alguns dos que escutavam Shaykh Ahmad nessa cidade e o ouviram desdobrar os mistérios das alusões nas Sagradas Escrituras, puderam apreciar o significado de suas palavras ou apreender seu propósito. Somente Siyyid Kázim, seu tenente capaz e distinto, podia afirmar que havia entendido seu intuito.
Após a morte do príncipe Muhammad-'Alí-Mirza, (23) Shaykh Ahmad, livre das urgentes solicitações do príncipe para que prolongasse sua estada em Kirmánsháh, transferiu sua residência para Karbilá. Embora na aparência rodeasse o santuário do Siyyidu'sh-Shuhadá, (24) o Imame Husayn, seu coração, enquanto ele executava aqueles ritos, concentrava-se naquele verdadeiro Husayn, objeto único de sua devoção. Uma grande multidão dos mais distintos ulemás e mujtahids reunia-se ao seu redor. Muitos começaram a invejar sua reputação e alguns procuraram minar-lhes a autoridade. Por mais que se esforçassem, não conseguiram abalar sua posição de indubitável preeminência entre os homens letrados daquela cidade. Finalmente, aquela luz brilhante foi chamada para irradiar seu esplendor sobre as cidades santas de Meca e Medina. Para estas cidades empreendeu viagem, nelas prosseguindo com irrestrita dedicação os seus labores, e aí entrou em seu repouso eterno à sombra do sepulcro do Profeta, para a compreensão de cuja Causa ele tão fielmente lidara.
Antes de partir de Karbilá, Shaykh Ahmad confiou a Siyyid Kázím, seu sucessor escolhido, o segredo de sua missão, (25) incumbindo-lhe de se esforçar para acender em cada coração receptivo o fogo que tão intensamente nele ardera. Por muito que Siyyid Kázím insistisse em acompanhá-lo até Najáf, Shaykh Ahmad recusou ceder a seu pedido. "Não tens tempo a perder", foram as últimas palavras que ele proferiu. "Cada hora fugaz deve ser aproveitada totalmente e com sabedoria. Deves envidar os máximos esforços, tentando dia e noite romper, pela graça de Deus e com a mão da sabedoria e amorosa bondade, aqueles véus de negligência que têm cegado os olhos dos homens. Pois em verdade digo, aproxima-se a Hora, a Hora que tenho implorado a Deus que me poupasse de testemunhar, pois o tremor de terra da Última Hora será horrendo. Deves orar a Deus que te livre das assombrosas provações desse Dia, pois de lhe resistir a força predominante nenhum de nós é capaz. A outros, de maior intrepidez e dotados de poder, cabe o destino de arcar com tão estupendo peso, homens cujos corações de todas as coisas terrenas estão santificados e cuja valia é reforçada pela potência de Seu poder."
Ditas estas palavras, Shaykh Ahmad dele se despediu, exortando-o a enfrentar com valentia as provações que por força o haveriam de afligir, e o entregou aos cuidados de Deus. Em Karbilá, Siyyid Kázím dedicou-se à obra iniciada pelo seu mestre, expondo seus ensinamentos, defendendo sua Causa e respondendo a quaisquer perguntas que causassem perplexidade nas mentes de seus discípulos. O vigor com que prosseguia essa tarefa inflamava a animosidade dos ignorantes e invejosos. "Há quarenta anos", vociferavam, "permitimos que os ensinamentos pretensiosos de Shaykh Ahmad sejam difundidos sem a mínima oposição de nossa parte. Já não podemos tolerar pretensões similares da parte de seu sucessor, que rejeita a crença na ressurreição do corpo, repudia a interpretação literal do 'Mi'ráj', (26) considera alegóricos os sinais do Dia vindouro e prega uma doutrina que é de caráter herético e contrária aos melhores preceitos do Islã ortodoxo." Quanto mais alto seus clamores e protestos, mais firme se tornou a determinação de Siyyid Kázím de prosseguir sua missão e cumprir o que lhe fora incumbido. A Shaykh Ahmad dirigiu uma epístola, na qual expôs minuciosamente as calúnias contra ele pronunciadas e lhe informou o caráter de sua oposição e a que ponto a levavam. Nela aventurou-se a inquirir por quanto tempo era destinado a se submeter ao inexorável fanatismo de um povo obstinado e sem instrução e suplicou que o esclarecesse quanto ao tempo em que o Prometido iria se manifestar. A isto Shaykh Ahmad respondeu: "Podes estar certo da graça de teu Deus. Não te entristeças por causa de suas ações. O mistério desta Causa deve, seguramente, tornar-se manifesto, e o segredo desta Mensagem por força haverá de se revelar. (27) Mais não posso dizer; tempo nenhum posso designar. Sua Causa tornar-se-á conhecida depois de Hín. (28) Não me perguntes coisas que, se te fossem reveladas, só poderiam te causar dor".
Quão grande, quão imensa é sua Causa que até para um personagem tão exaltado quanto Siyyid Kázím palavras como essas foram dirigidas. Esta resposta de Shaykh Ahmad trouxe consolo e ânimo ao coração de Siyyid Kázím e assim, com redobrada determinação, ele continuou a resistir à investida de um inimigo invejoso e pérfido.
Shaykh Ahmad faleceu pouco depois, (29) no ano de 1242 A.H., com a idade de oitenta e um anos, e foi sepultado no cemitério de Baqí, (30) nas imeditações do lugar de descanso de Maomé, na cidade santa de Medina.
CAPÍTULO X
A ESTADA DO Báb EM ISFÁHÁN
O verão do ano de 1262 A.H. (1) aproximava-se de seu término quando o Báb se despediu pela última vez de Sua cidade natal de Shíráz e seguiu a Isfáhán. Siyyid Kázím-i-Zanjání acompanhou-O nessa jornada. Ao aproximar-se das imeditações da cidade, escreveu uma carta ao governador da província, Manúchihr Khán, o Mu'tamidu'd-Dawlih (2), na qual pediu que indicasse seu desejo quanto ao lugar onde Ele pudesse residir. A carta, a qual Ele entregou a Siyyid Kázím, expressava tal cortesia e mostrava tão bela caligrafia que o Mu'tamid se sentiu impelido a dar instruções ao Sultánu'l-'Ulamá, o Imame Jum'ih de Isfáhán (3), a proeminente autoridade eclesiástica daquela província, no intuito de receber o Báb em sua própria casa, fazendo-Lhe boa e generosa acolhida. Além de sua comunicação, o governador enviou ao Imame Jum'ih a carta que ele recebera do Báb. O Sultánu'l-Ulamá, em conseqüência disso, mandou seu próprio irmão, cuja crueldade selvagem em anos posteriores lhe ganhou de Bahá'u'lláh o nome de Raqshá (4), seguir com alguns de seus companheiros prediletos para receber e acompanhar o Visitante que esperavam, até o portão da cidade. Assim que o Báb se aproximava, o Imame Jum'ih saiu para pessoalmente Lhe dar boas vindas e O conduziu cerimoniosamente à sua casa.
Tais foram as honras concedidas ao Báb naqueles dias que, numa certa sexta-feira, quando Ele estava regressando do banho público à casa, se viu uma multidão de pessoas que clamavam ansiosamente pela água que Ele havia usado para Suas abluções. Seus fervorosos admiradores acreditavam firmemente em sua virtude e seu poder infalível de lhes curar as doenças e enfermidades. O próprio Imame Jum'ih, desde a primeira noite, havia a tal ponto ficado encantado com Aquele que era objeto de tão grande devoção, que assumindo as funções de um servente, se incumbiu de atender às necessidades e aos desejos de seu bem-amado Hóspede. Tirando o jarro da mão do mordomo e não levando em conta, absolutamente, a dignidade usual de seu grau, se pos a despejar a água sobre as mãos do Báb.
Uma noite, após a ceia, o Imame Jum'ih, cuja curiosidade havia sido despertada pelas características extraordinárias que seu jovem Hóspede revelara, aventurou-se a pedir-Lhe que revelasse um comentário sobre a Sura de Va'l-'Asr (5). A seu pedido Ele prontamente acedeu. Pedindo pena e papel, o Báb, com surpreendente rapidez e sem a mínima premeditação, começou a revelar, na presença de Seu anfitrião, uma interpretação iluminadora da Sura mencionada. Meia noite aproximava-se enquanto o Báb se achava ocupado na exposição das múltiplas implicações envolvidas na primeira letra dessa Sura. Essa letra, a letra váv, à qual Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í já dera tanta ênfase em seus escritos, simbolizava para o Báb o advento de um novo ciclo de Revelação Divina e foi subseqüentemente mencionada por Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Aqdas, em tais passagens como "o mistério da Grande Reversão" e "o Sinal do Soberano". O Báb logo depois, na presença de Seu anfitrião e seus companheiros, começou a entoar a homília que Ele usara como prefácio de Seu comentário sobre a Sura. Aquelas palavras de poder confundiram Seus ouvintes, enchendo-lhes de admiração. Pareciam como que enfeitiçados da mágica de Sua voz. Instintivamente se puseram em pé e acompanhados pelo Imame Jum'ih, beijaram reverentemente a orla de Suas vestes. De Mullá Muhammad-Taqíy-i-Harátí, eminente mujtahid, irromperam súbitas expressões de elogios e exultação. "Inigualável e único", exclamou, "assim como o são as palavras que emanaram dessa pena, o poder de revelar dentro de tão pouco tempo e numa escrita tão legível, tão grande número de versículos que igual a quarta, ou melhor, à terça parte do Alcorão, é em si uma façanha que nenhum homem mortal, sem a intervenção de Deus, poderia esperar realizar. Nem a partição da lua, nem a vivificação dos seixos do mar, pode ser comparada com tão poderoso ato."
À medida que a fama do Báb pouco a pouco se difundia pela cidade inteira de Isfáhán, uma incessante corrente de visitantes fluía de toda parte em direção à casa do Imame Jum'ih. Uns poucos a fim de satisfazerem a curiosidade, outros para obterem uma compreensão mais profunda das verdades fundamentais de Sua Fé, e ainda outros em busca do remédio para seus males e sofrimentos. O próprio Mu'tamid veio um dia visitar o Báb e, enquanto sentado no meio da assembléia dos mais brilhantes e esmerados sacerdotes de Isfáhán, Lhe pediu que expusesse a natureza do Nubuvvat-i-Khássih (6) e demonstrasse sua validez. Ele havia anteriormente, nessa mesma assembléia, solicitado aos presentes que aduzissem tais provas e evidências em apoio desse artigo fundamental de sua Fé que constituísse um testemunho incontestável para aqueles inclinados a lhe refutar a verdade. Ninguém, entretanto, parecera capaz de responder a esse convite. "Qual preferis", perguntou o Báb, "uma resposta verbal à vossa pergunta, ou uma por escrito?" "Uma resposta escrita", disse ele, "não agradaria àqueles presentes nesta reunião, como também edificaria e instruiria tanto à geração atual como às futuras."
O Báb instantaneamente tomou Sua pena e se pos a escrever. Em menos de duas horas havia Ele enchido cerca de cinqüenta páginas com uma pesquisa extremamente revigoradora e circunstancial sobre a origem, o caráter e a influência predominante do Islã. A originalidade de Sua dissertação, o vigor e a vivacidade de seu estilo, a precisão de seus mais minuciosos detalhes fizeram que Seu tratamento desse tema nobre se revestisse de uma excelência que nenhum dos presentes nessa ocasião pudesse ter deixado de perceber. Com penetração magistral, Ele ligou a idéia central nas passagens concludentes dessa exposição ao advento do prometido Qá'im e a "Volta" esperada do Imame Husayn (7). Argumentava com tal força e coragem que aqueles que O ouviram recitar esses versículos espantaram-se com a magnitude de Sua Revelação. Ninguém se atreveu a insinuar a mais ligeira objeção - muito menos a desafiar abertamente Suas afirmações. O Mu'tamid não pode deixar de exteriorizar seu entusiasmo e júbilo. "Que me ouçais!" exclamou. "Membros dessa reverenda assembléia, eu vos tomo como minhas testemunhas. Nunca até este dia estive eu de coração firmemente convencido da verdade do Islã. Doravante poderei, graças a esta exposição redigida por esse Jovem, me declarar crente firme na Fé proclamada pelo Apóstolo de Deus. Solenemente testifico que creio na realidade do poder sobrehumano do qual é dotado esse Jovem, poder esse que a erudição, por maior que seja, jamais poderá conferir". Com estas palavras encerrou a reunião.
A crescente popularidade do Báb incitou o ressentimento das autoridades eclesiásticas de Isfáhán, que viam com preocupação e inveja a ascendência que um Jovem não instruído estava adquirindo lentamente sobre os pensamentos e as consciências de seus seguidores. Acreditaram firmemente que, se não se levantassem para deter o fluxo de entusiasmo popular, os próprios fundamentos de sua existência seriam minados. Alguns dos mais sagazes entre eles achavam prudente absterem de atos de hostilidade direta à pessoa ou aos ensinamentos do Báb, pois tal ação, pensavam, só serviria para Lhe realçar o prestígio e consolidar a posição. Os malévolos, porém, estavam muito ocupados em disseminar as mais extravagantes informações a respeito do caráter e das pretensões do Báb. Essas informações cedo chegaram em Teerã e foram levadas à atenção de Hájí Mirza Áqásí, Grão-Vizír de Muhammad Sháh. Esse ministro arrogante e despótico viu com apreensão a possibilidade de seu soberano se sentir inclinado, algum dia, a mostrar favor ao Báb, uma inclinação que, ele tinha certeza, precipitaria sua própria queda. O Hájí, além disso receava que o Mu'tamid, em quem o Xá tinha confiança, conseguisse arranjar uma entrevista entre o soberano e o Báb. Ele estava bem ciente de que, no caso de se realizar tal entrevista, Muhammad Sháh tão impressionável e de coração terno, seria completamente conquistado pela novidade e pelo encanto dessa crença. Incitado por tais reflexões, dirigiu ao Imame Jum'ih uma comunicação em palavras fortes, na qual o repreendia por seu grave descuido da obrigação que lhe fora imposta, a de salvaguardar os interesses do Islã. "Nós esperávamos," escrevia-lhe Hájí Mirza Áqásí, "que resistísseis com todo o vosso poder qualquer causa que estivesse em conflito com os melhores interesses do governo e do povo desta terra. Parece que vós, em vez disso tendes favorecido, ainda mais, glorificado, o autor desse movimento obscuro e desprezível." Escreveu, outrossim, várias cartas encorajando os ulemás de Isfáhán, a quem ele anteriormente desprezara mas a quem, agora, prodigalizava seus especiais favores. O Imame Jum'ih, embora recusasse alterar sua atitude respeitosa para com seu Hóspede, foi induzido pelo tom da mensagem a mandar seus associados planejarem meios que tendessem a diminuir o sempre-crescente número de visitantes que todo dia se aglomeravam para entrar na presença do Báb. Muhammad-Mihdí, de sobrenome Safíhu'l-Ulamá, filho do falecido Hájí Kalbásí, em seu desejo de satisfazer o desejo e ganhar a estima de Hájí Mirza Áqásí, começou a caluniar o Báb do púlpito na mais indecorosa linguagem.
Assim que o Mu'tamid foi informado desses acontecimentos, mandou uma mensagem ao Imame Jum'ih na qual lhe lembrava a visita que ele como governador fizera ao Báb e o convidava bem como ao seu Hóspede para sua casa. O Mu'tamid convidou Hájí Siyyid Asadu'lláh, filho do falecido Hájí Siyyid Muhammad Báqir-i-Rashtí, Hájí Muhammad-Já'far-i-Ábádiyí, Muhammad-Mihdí, Mirza Hasan-i-Núrí e alguns outros para estarem presentes nessa reunião. Hájí Siyyid Asadu'lláh recusou o convite e tentou dissuadir aqueles convidados de participarem daquela reunião. "Dei minhas escusas", informou-lhes, "e queria com absoluta certeza exortar-vos a fazer o mesmo. Acho muito imprudente que encontreis o Siyyid-i- Báb face a face. Ele, sem dúvida, reafirmará sua pretensão e, a fim de sustentar seu argumento, aduzirá qualquer prova que possais desejar que ele apresente e, sem a mínima hesitação, revelará, como testemunho da verdade da qual é portador, versículos tão numerosos que igualariam a metade do Alcorão. No fim ele vos desafiará nestas palavras: "Apresentais semelhantemente, se sois homens de verdade." De modo algum poderemos nós ter êxito em lhe resistir. Se nos desdenharmos de lhe responder, nossa incapacidade terá sido exposta. Se nós, por outro lado, nos submetermos a sua pretensão, não somente estaremos comprometendo nossa própria reputação, cedendo nossas próprias prerrogativas e nossos direitos, mas também nos veremos em obrigação de admitir quaisquer outras pretensões que ele se possa sentir inclinado a fazer no futuro."
Hájí Muhammad-Já'far atendeu a esse conselho e recusou aceitar o convite do governador. Muhammad Mihdí, Mirza Hasan-i-Núrí e alguns outros que desdenharam tal conselho apresentaram-se na hora marcada na casa do Mu'tamid. A convite do anfitrião, Mirza Hasan, notável platonista, pediu ao Báb que elucidasse certas doutrinas filosóficas abstrusas relacionadas com o Arshíyyih de Mullá Sadrá (8), cujo sentido apenas poucos haviam conseguido desvendar (9). Em linguagem simples, informal, o Báb respondeu a cada uma de suas perguntas. Mirza Hasan, embora não pudesse apreender o significado das respostas que recebera, compreendeu como era inferior a erudição dos assim chamados expoentes das escolas platônicas e aristotélicas de pensamento em comparação com o conhecimento mostrado por esse Jovem. Muhammad Mihdí, por sua vez, aventurou-se a perguntar ao Báb a respeito de certos aspectos da lei islâmica. Mal satisfeito com a explicação que recebeu, ele começou a discutir futilmente com o Báb. Breve foi ele silenciado por Mu'tamid, que, cortando a conversação bruscamente, se virou para um criado e, mandando-lhe acender a lanterna, deu ordem para que Muhammad Mihdí fosse conduzido imediatamente a sua casa. O Mu'tamid logo em seguida confiou ao Imame Jum'ih suas apreensões. "Receio as maquinações dos inimigos do Siyyid-i- Báb," disse-lhe. "O Xá já o chamou a Teerã. Recebi ordens para providenciar Su partida. Acho mais aconselhável Ele ficar em minha casa até a hora em que possa sair desta cidade." O Imame Jum'ih acedeu a seu pedido e voltou sozinho para casa.
O Báb havia permanecido quarenta dias na residência do Imame Jum'ih. Enquanto lá ainda estava, um certo Mullá Muhammad-i-Taqíy-i-Harátí, que teve o privilégio de estar com o Báb todos os dias, incumbiu-se, com Seu consentimento, de traduzir uma de Suas obras, intitulada Risáliy-i-Furú-i-Adlíyyih, do original árabe para o persa. O serviço que com isso prestou aos crentes persas foi manchado, porém, pela sua conduta subseqüente. Medo subitamente apoderou-se dele, induzindo-o afinal a cortar relações com seus companheiros de crença.
Antes de haver o Báb transferido Sua residência para a casa do Mu'tamid, Mirza Ibráhím, pai do Sultánu'sh-Shuhadá' e irmão mais velho de Mirza Muhammad-Alíy-i-Nahrí, a quem já nos referimos, convidou o Báb para sua casa uma noite. Mirza Ibráhím era amigo do Imame Jum'ih, estava intimamente associado com ele e controlava a administração de todos os seus assuntos. O banquete que se preparou para o Báb naquela noite foi um de inexcedível magnificência. Comumente se observava que nem os oficiais nem as notabilidades da cidade haviam oferecido um banquete de tal magnitude e esplendor. O Sultánu'sh-Shuhadá' e seu irmão, o Mahbúbu'-sh-Shuhadá, que eram meninos de nove e onze anos respectivamente, serviram naquele banquete e receberam especial atenção do Báb. Aquela noite, durante o jantar, Mirza Ibráhím virou-se para seu convidado e disse: "Meu irmão, Mirza Muhammad-'Alí, não tem nenhum filho. Peço-vos que intercedais por ele e lhe concedais o desejo de seu coração." O Báb tomou uma parte do alimento que Lhe fora servido e colocou-a com as próprias mãos numa travessa, a qual passou a Seu anfitrião, pedindo-lhe que a levasse a Mirza Muhammad-'Alí e sua esposa. "Que ambos se sirvam disto," disse Ele; "seu desejo será cumprido." Em virtude desse alimento que o Báb se dignara de lhe conceder, a esposa de Mirza Muhammad-'Alí concebeu e, no devido tempo nasceu uma menina, que subseqüentemente se uniu em matrimônio com o Maior Ramo (10). Essa união veio a ser considerada a consumação das esperanças nutridas pelos seus pais.
As altas honras conferidas ao Báb serviram para inflamar ainda mais a hostilidade dos ulemás de Isfáhán. Consternados, viram por todos os lados evidências de Sua influência predominante que invadia a cidadela da ortodoxia e lhe subvertia os fundamentos. Convocaram uma reunião, na qual redigiram um documento, assinado e selado por todos os eclesiásticos da cidade, pelo qual condenavam o Báb à morte (11). Todos concordaram nessa condenação exceto Hájí Siyyid Asadu'lláh e Hájí Muhammad-i-Já'far-i-Abdiyí, ambos dos quais recusaram associar-se ao conteúdo de um documento tão flagrantemente abusivo. O Imame Jum'ih, embora declinasse endossar a sentença de morte do Báb, foi induzido, por causa de sua extrema covardia e ambição, a acrescentar àquele documento, escrito de próprio punho, o seguinte testemunho. "Testifico que, durante minha associação com esse jovem, não pude descobrir qualquer ato que de modo algum denunciasse seu repúdio às doutrinas do Islã. Ao contrário, eu o tenho conhecido como piedoso e leal observador de seus preceitos. A extravagância de suas pretensões, entretanto, e seu desdenhoso desprezo das coisas do mundo, inclinam-me a crer que ele está destituído de sua razão e juízo."
Assim que o Mu'tamid foi informado da condenação pronunciada pelos ulemás de Isfáhán, ele determinou, mediante um plano concebido por ele mesmo, nulificar os efeitos daquele veredicto cruel. Deu instruções imediatas para que, perto da hora do por do sol, o Báb, escoltado por quinhentos cavaleiros da própria guarda montada pessoal do governador, saísse pelo portão da cidade e seguisse em direção a Teerã. Ordens imperativas haviam sido dadas para que, ao se completar cada farsang (12), cem dessa escolta montada voltassem diretamente a Isfáhán. Ao comandante do último contingente, um homem em que ele tinha implícita confiança, o Mu'tamid intimou confidencialmente seu desejo de que, a cada maydan (13), vinte dos cem restantes fossem por ele ordenados a regressar à cidade. Dos vinte que restavam da cavalaria, o Mu'tamid ordenou que dez fossem despachados a Ardistán para a cobrança das taxas impostas pelo governo, enquanto os outros, dos quais todos eram seus homens experimentados, os mais dignos de confiança trouxeram o Báb de volta, disfarçado, por um caminho pouco freqüentado, até Isfáhán. (14) Foi-lhes recomendado, além disso, que de tal modo regulassem sua marcha que antes do alvorecer do dia seguinte o Báb tivesse chegado em Isfáhán e sido entregue à custodia dele. Esse plano foi imediatamente empreendido e devidamente executado. Numa hora insuspeita, o Báb reentrou na cidade, foi conduzido diretamente à residência particular do Mu'tamid, conhecida pelo nome de 'Imárat-i-Khurshíd (15), e levado aos seus aposentos particulares por uma entrada lateral reservada para o próprio Mu'tamid. O governador pessoalmente atendia ao Báb, servindo-Lhe as refeições e fornecendo qualquer coisa que fosse necessária para Seu conforto e Sua segurança (16).
Entrementes, as mais absurdas conjeturas circulavam pela cidade a respeito da viagem do Báb a Teerã, dos sofrimentos que tivera de suportar no caminho para a capital, do veredicto que havia sido pronunciado contra Ele e da pena que Ele sofrera. Esses boatos afligiram penosamente os crentes que residiam em Isfáhán. O Mu'tamid, bem ciente de sua tirsteza e ansiedade, intercedeu ao Báb por eles pedindo permissão para levá-los a Sua presença. O Báb dirigiu algumas palavras escritas pelo próprio punho a Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní, que se havia alojado no madrisih de Ním-Ávard, e disse ao Mu'tamid que lhe enviasse essa mensagem por alguém de confiança. Uma hora mais tarde, 'Abdu'l-Karím foi levado à presença do Báb. De sua chegada ninguém exceto o Mu'tamid foi informado. Ele recebeu de seu Mestre alguns de Seus escritos, com instruções para transcrevê-los, em colaboração com Siyyid Husayn-i-Yazdí e Shaykh Hasan-i-Zunúsí. A estes ele regressou logo, levando as boas novas do bem-estar e segurança do Báb. De todos os crentes que residiam em Isfáhán, a estes três somente foi permitido vê-Lo.
Um dia, enquanto sentado com o Báb em seu jardim particular dentro do pátio de sua casa, o Mu'tamid, querendo confiar algo a seu Hóspede, a Ele se dirigiu com estas palavras: "O todo-poderoso Doador dotou-me de grandes riquezas (17). Não sei como melhor usá-las. Agora que tenho sido levado, pela ajuda de Deus, a reconhecer essa Revelação, é meu ardente desejo consagrar todas as minhas possessões à promoção de seus interesses e à difusão de sua fama. É minha intenção prosseguir, com Vossa permissão, a Teerã, e fazer todo o possível para que Muhammad Sháh, cuja confiança em mim é firme e inabalável, venha a aceitar essa Causa. Estou certo de que ele a abraçará entusiasticamente e se levantará para promovê-la por toda parte. Tentarei também induzir o Xá a exonerar o corrompido Hájí Mirza Áqásí, a insensatez de cuja administração tem levado esta terra para bem perto da beira da ruína. Em seguida, farei um esforço a fim de obter para Vós a mão de uma das irmãs do Xá, e empreenderei eu mesmo os preparativos para Vossas núpcias. Finalmente, espero poder inclinar os corações dos governantes e reis da Terra a esta mais maravilhosa Causa e extirpar o último vestígio daquela corrupta hierarquia eclesiástica que se tornou uma mancha no belo nome do Islã.' "Que Deus vos recompense por vossas intenções," respondeu o Báb. "Tão elevado propósito é para Mim ainda mais precioso do que o próprio ato. Vossos dias e os Meus são contados, porém. São demasiado breves para permitir que Eu presencie e vós atinjais a realização de vossas esperanças. Não pelos meios que vós carinhosamente imaginais será que uma Providência onipotente consiga o triunfo de Sua Fé. Por intermédio dos pobres e humildes desta terra, pelo sangue que eles terão derramado em Seu caminho, será que o Soberano todo-poderoso haverá de assegurar a preservação de Sua Causa e lhe consolidar os alicerces. Esse mesmo Deus, no mundo vindouro, colocará sobre vossa cabeça a coroa de glória imortal e derramará sobre vós Suas bênçãos inestimáveis. Do curso de vossa vida terrena restam apenas três meses e nove dias, depois do que vós, com fé e certeza, vos apressareis à vossa morada eterna." Com estas palavras o Mu'tamid muito se regozijou. Resignado à Vontade de Deus, preparou-se para a partida que as palavras do Báb haviam tão claramente prognosticado. Escreveu seu testamento, tratou de seus interesses particulares e legou ao Báb tudo o que ele possuía. Imediatamente após sua morte, entretanto, seu sobrinho, o voraz Gurgín Khán, descobriu e destruiu seu testamento, apoderou-se de seus bens e desdenhosamente deixou de levar em conta seus desejos.
À medida que os dias de sua vida terrena se aproximavam do fim, o Mu'tamid procurava mais e mais a presença do Báb e em suas horas de íntima associação com Ele obteve uma compreensão mais profunda do espírito que animava Sua Fé. "À medida que a hora de minha partida se aproxima," disse ele um dia ao Báb, sinto uma alegria indefinível penetrar minha alma. Mas estou apreensivo por Vós, tremo ao pensar em ser obrigado a Vos deixar à mercê de tão impiedoso sucessor como Gurgín Khán. Ele, sem dúvida, descobrirá Vossa presença nesta casa e lastimavelmente, eu receio, Vos maltrará." "Não tenhais receio", protestou o Báb, "já Me entreguei às mãos de Deus. Nele está Minha confiança. Tal é o poder que Ele a Mim concedeu que, se for Meu desejo, poderei converter esta próprias pedras em jóias de inestimável valor, e poderei instilar no coração do mais malévolo criminoso os mais elevados conceitos de retidão e dever. Por Minha própria vontade escolhi perseguição pelos Meus inimigos, a fim de que Deus efetivasse a coisa destinada a ser feita (18)." Assim que essas preciosas horas voavam, o coração do Mu'tamid se enchia de um senso de devoção sobrepujante, de maior consciência da proximidade de Deus. A seus olhos a pompa e o fausto do mundo dissolviam em insignificância quando face à face com as realidades eternas entesouradas na Revelação do Báb. A visão que ele tinha de suas glórias, suas infinitas potencialidades, suas bênçãos incalculáveis, tornava-se mais vívida enquanto aumentava sua compreensão da vaidade da ambição terrena e das limitações do esforço humano. Continuou a ponderar esses pensamentos em seu coração até a hora em que um leve ataque de febre, que durou apenas uma noite, pos termo subitamente a sua vida. Sereno e confiante alçou seu vôo ao Grande Além (19).
Quando a vida de Mu'tamid se aproximava de seu fim, o Báb chamou a Sua presença Siyyid Husayn-i-Yazdí e Mullá 'Abdu'l-Karím, participou-lhes a natureza de sua predição a seu anfitrião e mandou que dissessem aos crentes reunidos na cidade que se espalhassem por toda parte de Káshán, Qum e Teerã e aguardassem qualquer coisa que a Providência, em Sua sabedoria, se dignasse decretar.
Poucos dias após a morte do Mu'tamid, uma certa pessoa ciente do desígnio que ele concebera e executara para a proteção do Báb, informou a seu sucessor, Gurgín Khán (20), da real residência do Báb, no 'Imárat-i-Khurshíd, e lhe descreveu as honras que seu predecessor prodigalizara a seu Hóspede na solidão de seu próprio lar. Ao receber esta inesperada informação, Gurgín Khán enviou seu mensageiro a Teerã, instruindo-lhe que entregasse pessoalmente a Muhammad Sháh a seguinte mensagem: "Há quatro meses se acreditava geralmente em Isfáhán que, de conformidade com a chamada imperial de vossa Majestade, o Mu'tamidu'd-Dawlih, meu predecessor mandara o Siyyid-i- Báb à sede do governo de vossa Majestade. Descobriu-se agora que esse mesmo siyyid está atualmente ocupando o 'Imárat-i-Khurshíd, a residência particular do Mu'tamidu'd-Dawlih. Certificou-se de que meu predecessor ofereceu, ele mesmo, a hospitalidade de Seu lar ao Siyyid-i- Báb e cuidadosamente guardou esse segredo tanto do povo como dos oficiais dessa cidade. Qualquer que seja o decreto que vossa Majestade queira emitir, incumbo-me de executá-la sem a mínima hesitação."
O Xá, que estava firmemente convencido da lealdade do Mu'tamid, compreendeu, ao receber essa mensagem, que fora a intenção sincera do falecido governador aguardar uma ocasião favorável quando pudesse arranjar um encontro entre ele e o Báb, e que sua morte repentina havia interferido na execução desse plano. Emitiu um mandato imperial chamando o Báb à capital. Em sua mensagem por escrito a Gurgín Khán, o Xá ordenou-lhe que mandasse o Báb, disfarçado, a Teerã em companhia de uma escolta montada (21) chefiada por Muhammad Big-i-Chápárchí (22), da seita dos 'Alíyu'lláhí; que mostrasse a máxima consideração para com Ele durante Sua viagem e mantivesse estritamente em segredo Sua partida (23).
Gurgín Khán foi imediatamente ao Báb e entregou em Suas mãos o mandato escrito do soberano. Chamou em seguida Muhammad Big, transmitiu-lhe as ordens de Muhammad Sháh mandou-lhe iniciar imediatamente os preparativos para a viagem. "Acautelai-vos," advertiu-lhe ele, "para que ninguém descubra sua identidade nem suspeite a natureza de vossa missão. A ninguém senão vós, nem mesmo aos membros de sua escolta, deve ser permitido reconhecê-Lo. Se alguém vos perguntar a seu respeito, dizei que é um comerciante que fomos incumbidos de conduzir à capital e cuja identidade ignoramos completamente." Pouco depois de meia noite, o Báb partiu da cidade de acordo com essas instruções e seguiu em direção a Teerã.
CAPÍTULO XI
A ESTADA DO Báb EM KÁSHÁN
Na véspera da chegada do Báb em Káshán, Hájí Mirza Jání, de sobrenome Parpá, residente de renome naquela cidade, sonhou que estava em pé, no fim da tarde, no portão de 'Attár, um dos portões da cidade, quando seus olhos subitamente avistaram o Báb, montado, usando em vez de Seu turbante usual, o kuláh (1) que os comerciantes da Pérsia costumavam usar. Em Sua frente, bem como atrás Dele, marchava um grupo de soldados de cavalaria a cuja custódia Ele parecia haver sido entregue. Assim que se aproximavam do portão, o Báb lhe saudou, dizendo: "Hájí Mirza Jání, Nós havemos de ser vosso Hóspede por três noites. Preparai-vos para Nos receber."
Quando acordou, a vivacidade de seu sonho convenceu-o da realidade de sua visão. Esta inesperada aparição constituiu em seus olhos uma advertência providencial que ele se sentia na obrigação de atender e observar. Pos-se, de acordo com isso, a preparar sua casa para a recepção do Visitante, providenciando qualquer coisa que lhe parecesse necessária para Seu conforto. Após haver completado os arranjos preliminares para o banquete que decidira oferecer ao Báb nessa noite, Hájí Mirza Jání seguiu ao portão de 'Attár e lá aguardou os sinais da esperada chegada do Báb. Na hora marcada, enquanto escrutava o horizonte, discerniu na distância o que lhe parecia ser uma companhia de soldados de cavaleria que se aproximava do portão da cidade. Assim que se apressava a seu encontro, seus olhos reconheceram o Báb cercado de Sua escolta e vestido nas mesmas roupas e com a mesma expressão que ele havia visto em seu sonho na noite anterior. Hájí Mirza Jání jubilosamente se aproximou Dele e se curvou para Lhe beijar os estribos. O Báb impediu-lhe, dizendo: "Nós havemos de ser vosso Hóspede por três noites. Amanhã é o dia de Naw-Rúz; comemorá-lo-emos juntos em vossa casa." Muhammad Big, que viajara montado junto do Báb, supunha que Ele fosse um conhecido íntimo de Hájí Mirza Jání. Virando-se a ele, disse: "Estou pronto a aquiescer em qualquer coisa que seja o desejo do Siyyid-i- Báb. Eu queria vos pedir, entretanto, que obtenhais a aprovação de meu colega que comigo compartinha a incumbência de conduzir o Siyyid-i- Báb a Teerã." Hájí Mirza Jání submeteu seu pedido, o qual foi terminantemente recusado. "Declino vossa sugestão", disse-lhe. "Tive as mais enfáticas instruções para não permitir que esse Jovem entrasse em qualquer cidade antes de sua chegada na capital. Recebi ordens especiais para que se passássemos a noite fora do portão da cidade, interrompesse a marcha na hora do por do sol e a continuasse no dia seguinte na hora do alvorecer. Não me posso desviar das ordens que me foram dadas." Isto motivou uma alteração acrimoniosa, a qual terminal afinal a favor de Muhammad Big, que conseguiu induzir seu oponente a entregar o Báb à custódia de Hájí Mirza Jání com a condição explícita de que na terceria manhã ele devolvesse seu Hóspede são e salvo às suas mãos. Hájí Mirza Jání, que tivera a intenção de convidar a sua casa a escolta inteira do Báb, foi por Ele aconselhado que abandonasse esse propósito. "Ninguém, senão vós," insistia Ele, "deveria Me acompanhar à vossa casa." Hájí Mirza Jání pediu permissão para custear as despesas dos soldados de cavalaria durante os três dias em Káshán. "É desnecessário," observou o Báb, "se não fosse Minha vontade, nada em absoluto os haveria induzido a Me entregar em vossas mãos. Todas as coisas jazem aprisionadas nas mãos de Seu poder. Nada Lhe é impossível. Ele remove toda dificuldade e supera todo obstáculo." Os soldados de cavalaria alojaram-se em um caravançarai nas imediações do portão da cidade. Muhammad Big, seguindo as instruções do Báb, acompanhou-O até que se aproximaram da casa de Hájí Mirza Jání. Tendo averiguado a localização da casa, regressou, juntando-se a seus companheiros.
A noite em que o Báb chegou em Káshán coincidiu com a véspera do terceiro Naw-Rúz após a declaração de Sua Missão, ou seja o segundo dia do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1263 A.H. (2) Nessa mesma noite, Siyyid Husayn-i-Yazdí, que anteriormente, de acordo com as instruções do Báb, havia vindo a Káshán, foi convidado à casa de Hájí Mirza Jání e admitido à presença de seu Mestre. O Báb estava ditando a ele uma Epístola em honra de Seu anfitrião, quando chegou um amigo deste, um certo Siyyid 'Abdu'l-Báqí, célebre em Káshán por sua erudição. O Báb convidou-o a entrar, permitiu que ouvisse os versículos que Ele estava revelando, mas se recusou a desvendar-lhe Sua identidade. Nas passagens concludentes da Epístola que estava dirigindo a Hájí Mirza Jání, orou por ele, suplicando ao Todo-Poderoso que lhe iluminasse o coração com a luz do conhecimento Divino e desse a sua língua o poder de servir e proclamar a Sua Causa. Embora sem instrução, iletrado, Hájí Mirza Jání pode, em virtude desta oração, impressionar com seu discurso até o mais hábil sacerdote de Káshán. Veio a ser dotado de tal poder que ele conseguia silenciar qualquer pretencioso vão que ousasse desafiar os preceitos de sua Fé. Nem mesmo o arrogante e imperioso Mullá Já'far-i-Naráqí podia, não obstante sua consumada eloqüência, resistir a força de seu argumento e se via forçado a admitir exteriormente os méritos da Causa de seu adversário, se bem que no coração se recusasse a crer em sua verdade.
Siyyid 'Abdu'l-Báqí sentou-se e escutou o Báb. Ouviu Sua voz, observou Seus movimentos, olhou para a expressão em Seu rosto, notou as palavras que manavam sem cessar de Seus lábios e, no entanto, deixou de ser comovido pela sua majestade e pelo seu poder. Envolto nos véus de sua própria vã fantasia e sua erudição, não tinha capacidade para apreciar o que significava as palavras do Báb. Nem mesmo teve a preocupação de indagar o nome ou o caráter do Visitante em cuja presença fora introduzido. Indiferente para as coisas que havia ouvido e visto, retirou-se daquela presença, inconsciente da inigualável oportunidade que ele, com sua apatia, perdera irreparavelmente . Poucos dias depois, ao ser informado do nome do Jovem a quem tratara de um modo tão desatencioso, com tanta indiferença, ele ficou angustiado e cheio de remorso. Era tarde, porém, para procurar Sua presença e expiar tal conduta, pois o Báb havia já partido de Káshán. Em sua tristeza, ele renunciou a sociedade de seus semelhantes e até o fim de seus dias levou uma vida de reclusão sem alívio.
Entre aqueles que tiveram o privilégio de encontrar com o Báb na casa de Hájí Mirza Jání havia um homem, de nome Mihdí, que estava destinado a sofrer martírio mais tarde, no ano de 1268 A.H. (3), em Teerã. A ele e alguns outros, durante aqueles três dias, Hájí Mirza Jání concedeu afetuosa acolhida, ganhando com sua generosa hospitalidade os elogios e a aprovação de seu Mestre. Mesmo aos membros da escolta do Báb, mostrou ele a mesma bondade e, com sua liberalidade e suas maneiras encantadoras, ganhou sua perene gratidão. Na manhã do segundo dia depois do Naw-Rúz, ele, lembrado de sua promessa, entregou o Prisioneiro em suas mãos e, com o coração transbordando de tristeza, Lhe fez sua comovente despedida final.
CAPÍTULO XII
A VIAGEM DO Báb DE KÁSHÁN A TABRÍZ
Atendido pela Sua escolta, o Báb seguiu em direção a Qum (1). Seu encanto sedutor, combinado com uma dignidade irresistível e uma benevolência infalível, havia já desarmado completamente Seus guardas e os transformado. Eles pareciam haver se submetido a Sua vontade e a Seu prazer. Em sua ansiedade de serví-Lo e agradá-Lo, disseram um dia. "É-nos estritamente proibido pelo governo permitir que entreis na cidade de Qum, e recebemos ordens de seguir, por um caminho não usado, diretamente a Teerã. Foi-nos recomendado especialmente que evitássemos o Haram-i-Ma'súmih (2), aquele santuário inviolável sob cujo amparo os mais notórios criminosos são imunes de aprisionamento. Estamos prontos, no entanto, por consideração a Vós, a desatender quaisquer instruções que tenhamos recebido. Se for Vossa vontade, nós sem hesitação Vos conduziremos pelas ruas de Qum, dando-Vos a oportunidade de visitar seu santuário." "O coração do verdadeiro crente é o trono de Deus", comentou o Báb. "Aquele que é a arca da salvação e a inexpugnável cidadela do Todo-Poderoso está agora viajando convosco através desta solidão. Prefiro o caminho do campo em vez de entrar nessa cidade ímpia. Aquela imaculada cujos restos mortais estão enterrados dentro desse santuário, seu irmão e seus ilustres ancestrais deploram, sem dúvida, a má condição desse povo perverso. Com os lábios prestam homenagem a ela; pelos atos amontoam desonra sobre seu nome. Exteriormente servem e reverenciam seu santuário; interiormente lhe deslustram a dignidade."
Sentimentos tão elevados haviam instilado tamanha confiança nos corações daqueles que acompanharam o Báb que, tivesse Ele a qualquer momento desejado virar-se de repente e deixá-los, nenhum dentre Seus guardas teria sentido a mínima agitação, nem haveria tentado perseguí-Lo. Prosseguindo por um caminho que beirava a extremidade norte da cidade de Qum, pararam na aldeia de Qumrúd, que era propriedade de um parente de Muhammad Big e cujos habitantes todos pertenciam à seita dos 'Alíyu'lláhí. A convite do chefe da aldeia, o Báb demorou-se uma noite nesse lugar e ficou comovido pela calorosa e espontânea recepção que aquela gente simples Lhe dera. Antes de prosseguir a Sua viagem, invocou as bênçãos do Todo-Poderoso por ele e alegrou seus corações, assegurando-lhes Sua apreciação e Seu amor.
Após uma marcha de dois dias daquela aldeia, chegaram, na tarde do oitavo dia depois de Naw-Rúz, na fortaleza de Kinár-Gird (3), situada a seis farsangs para o sul de Teerã. Segundo seu plano, alcançariam a capital no dia seguinte e haviam decidido passar a noite na vizinhança dessa fortaleza, quando chegou inesperadamente um mensageiro trazendo uma ordem escrita de Hájí Mirza Aqásí a Muhammad Big. Essa mensagem mandava seguir imediatamente com o Báb à aldeia de Kulayn (4), onde Shaykh-i-Kulaní Muhammad-ibn-i-Ya'qub, autor do Usúl-i-Káfi, que nascera nesse lugar, fora sepultado com seu pai, e cujos santuários são muito honrados pelo povo daquela vizinhança (5). Recebeu Muhammad Big ordens para, em vista de serem impróprias as casas da aldeia, erigir uma tenda especial para o Báb e manter a escolta na vizinhança até receber mais instruções. Na manhã do nono dia após Naw-Rúz, do décimo primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1263 A.H. (6), nas imediações dessa aldeia, que pertencia a Hájí Mirza Aqásí, uma tenda que havia servido para seu próprio uso sempre que ele visitasse esse lugar, foi erigida para o Báb, no declive de uma colina de aprazível situação, entre extensos pomares e prados sorridentes. A tranqüilidade desse lugar, a vegetação luxuriante e o ininterrupto murmúrio de seus riachos agradaram muito ao Báb. Juntaram-se a Ele, dois dias mais tarde Siyyid Husayn-i-Yazdí, Siyyid Hasan, seu irmão; Mullá 'Abdu'l-Karím e Shaykh Hasan-i-Zunúsí, todos os quais foram convidados a alojar-se nas cercanias imediatas de Sua tenda. No décimo quarto dia do mês de Rabí'u'th-Thání (7), no décimo segundo dia depois de Naw-Rúz, Mullá Mihdíy-i-Khu'í e Mullá Muhammad-Míhdíy-i-Kandí chegaram de Teerã. Este último que havia estado estreitamente associado a Bahá'u'lláh em Teerã, fora por Ele incumbido de apresentar ao Báb uma carta selada, juntamente com alguns presentes, as quais, logo que foram entregues em Suas mãos, Lhe provocaram na alma sentimento de insólito deleite. Seu rosto estava radiante de júbilo enquanto Ele prodigalizava ao portador sinais de Sua gratidão e Seu favor.
Essa mensagem, recebida numa hora de incerteza e ansiedade, proporciona consolo e fortaleza ao Báb. Dissipou a melancolia que se apoderara de Seu coração e Lhe imbuiu a alma da certeza da vitória. A tristeza que desde muito pairava sobre Sua face e que os perigos de Seu cativeiro haviam servido para agravar, diminuía visivelmente. Não mais vertia aquelas lágrimas de angústia que haviam jorrado de Seus olhos com tanta profusão desde os dias em que fora preso e partira de Shíráz. A exclamação de "Bem-Amado, Meu Bem-Amado", que em Seu amargo pesar e Sua solidão Ele costumava pronunciar, cedeu a expressões de agradecimento e louvor, de esperança e triunfo. A exultação que reluzia em Sua face jamais O abandonou até o dia quando a notícia do grande desastre que sobreveio aos heróis de Shaykh Tabarsí enublou novamente o resplendor de Seu semblante e Lhe ofuscou o júbilo do coração.
Tenho ouvido Mullá 'Abdu'l-Karím contar o seguinte incidente: "Meus companheiros e eu estávamos profundamente adormecidos quando subitamente o estrépito da cavalaria nos acordou. Breve fomos informados de que a tenda do Báb estava vazia e que aqueles que haviam saído em Sua busca não conseguiram encontrá-Lo. Ouvimos Muhammad Big protesar aos guardas. "Por que vos agitais?" argüia ele. "Sua magnanimidade e nobreza de alma não estão suficientemente estabelecidas em vossos olhos para vos convencer de que jamais Ele, por causa de Sua própria segurança, consentirá que outros sejam envolvidos em embaraço? Ele, sem dúvida, se deve ter retirado no silêncio desta noite de luar, para algum recanto onde possa em sossego buscar comunhão com Deus. Inquestionavelmente regressará a Sua tenda. Nunca Ele nos abandonará." Em sua ansiedade de tranqüilizar seus colegas, Muhammad Big partiu a pé pela estrada que conduz a Teerã. Eu também, com meus companheiros, o segui. Pouco depois, os outros guardas, todos montados, foram vistos marchando atrás de nós. Havíamos galgado cerca de um maydán (8) quando, na pálida luz do crepúsculo da manhã, discernimos ao longe a figura solitária do Báb. Aproximava-se de nós da direção de Teerã. "Acreditastes que Eu havia escapado?" foram Suas palavras a Muhammad Big, enquanto se aproximava. "Longe de mim," foi a resposta instantânea, enquanto se jogava aos pés do Báb, 'nutrir tais pensamentos.' Muhammad Big estava deslumbrado demais, diante da majestade serena que aquela face radiante revelava nessa manhã, para aventurar mais um comentário qualquer. Uma expressão de confiança se fixara em Seu semblante, Suas palavras estavam imbuídas de tão transcendente poder, que um sentimento de reverência profunda envolvia nossas próprias almas. Ninguém se atreveu a interrogá-Lo sobre a causa de tão extraordinária mudança em Seu modo de falar e em Seu comportamento. Nem queria Ele mesmo apaziguar nossa curiosidade e nosso espanto."
Por uma quinzena (9) demorou-se o Báb nesse lugar. A tranqüilidade que Ele fruía nesse ambiente encantador foi bruscamente perturbada com a vinda de uma carta dirigid ao Báb pelo próprio Muhammad Sháh (10), com o seguinte teor: (11) "Por mais que desejemos encontrar convosco, não nos é possível, em vista de nossa partida imediata de nossa capital, vos receber dignamente em Teerã. Temos indicado nosso desejo de que sejais conduzido a Máh-Kú e emitimos às necessárias instruções a 'Alí Khán, guarda da fortaleza, para que vos trate com respeito e consideração. É nossa esperança e nosso plano chamar-vos aqui ao regressarmos à sede de Nosso governo, quando pronunciaremos definitivamente nosso juízo. Esperamos não vos havermos causado nenhum desapontamento e que não hesiteis em nos informar em qualquer tempo caso vos sobrevenham alguns agravos. Eu de bom grado esperaria que vós continuásseis a orar pelo nosso bem-estar e pela prosperidade de nosso reino." (Datada Rabí'u'th-Thání, 1263 A.H.) (12)
Hájí Mirza Aqásí (13) foi, sem dúvida, responsável por haver induzido Muhammad Sháh a dirigir tal comunicação ao Báb. Foi ativado unicamente por um senso de medo (14) de que a entrevista que se ponderava lhe roubasse a posição de inquestionável preeminência nos assuntos do Estado e levasse finalmente a sua queda de poder. Ele não nutria sentimentos de malícia ou ressentimento para com o Báb. Conseguiu (15) afinal persuadir seu soberano e transferir para um recanto remoto e isolado de seu reino esse oponente de quem ele tanto medo tinha, podendo assim aliviar a mente de um pensamento que continuamente o obsedava (16). Que engano estupendo, que erro lastimável! Bem pouco compreendia ele naquele momento que pelas suas intrigas incessantes estava negando a seu rei e a sua pátria os incomparáveis benefícios de uma Revelação Divina a qual, tão somente possuía o poder de livrar a terra do assombroso estado de degradação em que caíra. Pelo seu ato, esse ministro de visão tão curta não somente negou a Muhammad Sháh instrumento supremo com o qual ele teria podido reabilitar um império em rápido declínio, mas também o privou daquele Meio espiritual que o haveria capacitado a estabelecer sua incontestável ascendência sobre os povos e as nações da terra. Por sua inépcia, sua extravagância e seus conselhos pérfidos, minou os fundamentos do Estado, diminuindo-lhe o prestígio, solapando a lealdade de seus súditos e os mergulhando num abismo de miséria (17). Incapaz de ser admoestado pelo exemplo de seus predecessores, com desdém ele desatendia as demandas e os interesses do povo, prosseguia com persistente zelo seus desígnios para seu engrandecimento pessoal e, pela sua dissipação e extravagância, envolveu seu país em guerras arruinosas com os vizinhos. Sa'd-i-Ma'ádh, que nem era de sangue real nem investido de autoridade, atingiu, em virtude de sua retidão de conduta e sua profusa devoção à Causa de Maomé, tão exaltada posição que até o tempo presente os chefes e governantes do Islã continuam a reverenciar sua memória e lhe elogiar os méritos; enquanto que Buzurg-Mihr, o mais capaz, o mais sábio e o mais experiente administrador entre os vizires de Núshíraván-i-Ádil, a despeito de sua posição predominante, foi afinal publicamente desonrado, jogado numa cova, e veio a ser objeto do desprezo e do escárneo do povo. Ele lastimava sua situação infeliz e tão amargamente chorava que perdeu a vista. Nem o exemplo do primeiro nem o mau destino deste último, parece haver despertado aquele ministro presunçoso, para que percebesse os perigos de sua própria posição. Persistiu em seus pensamentos até que ele também foi privado de sua alta posição, perdeu suas riquezas (18) e se mergulhou em desonra e ignomínia. As numerosas propriedades das quais ele à força se apoderara, tirando-as dos humildes e leais súditos do Xá, os móveis suntuosos com que as embelezou, os gastos enormes com labor e tesouros que mandou fazer para benfeitorias - tudo isto foi irreparavelmente perdido dois anos depois de haver ele emitido seu decreto que condenava o Báb a um cruel encarceramento nas inóspitas montanhas de Ádhirbayján. Todas as suas possessões foram confiscadas pelo Estado. Ele mesmo foi desonrado pelo seu soberano, sendo expulso ignominiosamente de Teerã e caiu vítima de doença e pobreza. Destituído de esperança e mergulhado em miséria, languesceu em Karbilá até a hora de sua morte (19).
Assim foi ordenado que o Báb seguisse a Tabríz (20). A mesma escolta, sob o mando de Muhammad Big, atendeu-Lhe em sua jornada à província noroeste de Ádhirbayján. Foi-Lhe permitido escolher um companheiro e um assistente dentre Seus seguidores para estarem com Ele durante Sua estada naquela província. Ele escolheu Siyyid Husayn-i-Yazdí e Siyyid Hasan, seu irmão. Recusou despender consigo próprio os fundos fornecidos pelo governo para as despesas dessa viagem. Todos os estipêndios concedidos pelo Estado, Ele doou-os aos pobres e necessitados, empregando para suas próprias despesas particulares o dinheiro que Ele, como comerciante, ganhara em Búshihr e Shíráz. Por haver sido ordenado que evitassem entrar nas cidades no curso da viagem a Tabríz, alguns dos crentes de Qazvín, informados da aproximação de seu bem-amado Mestre, partiram para a aldeia de Síyáh-Dihán (21), onde puderam encontrar com Ele.
Um deles foi Mullá Iskandar, que fora delegado por Hujját a visitar o Báb em Shíráz e investigar Sua Causa. O Báb incumbiu-o de entregar a seguinte mensagem a Sulaymán Khán-i-Afshár, que era grande admirador do falecido Siyyid Kázím: "Aquele cujas virtudes o falecido siyyid elogiava incessantemente e à aproximação de cuja Revelação ele sempre se referia, está agora revelado. Eu sou aquele Prometido. Levantai-vos e Me livrai da mão do opressor." Quando o Báb entregou essa mensagem a Mullá Iskandar, Sulaymán Khán estava em Zanján e preparando-se para ir a Teerã. Dentro de um período de três dias, essa mensagem o alcançou. Deixou, entretanto, de responder a esse apelo.
Dois dias mais tarde, um amigo de Mullá Iskandar deu informação sobre o apelo do Báb a Hujját, quem à intigação dos ulemás de Zanján, havia sido encarcerado na capital. Imediatamente deu Hujját intruções aos crentes deu sua cidade natal para que empreendessem quaisquer preparativos que fossem requisitados e juntassem forças necessárias para conseguirem a libertação de seu Mestre. Exortou-os a agirem com cautela e tentarem, num momento apropriado, apanhar e levá-Lo a qualquer lugar que Ele desejasse. A estes se juntaram, dentro em breve, vários crentes de Qazvín e Teerã, que se puseram a execultar o plano, segundo as direções de Hujját. Aproximaram-se dos guardas à hora de meia noite e, encontrando-os profundamente adormecidos dirigiam-se ao Báb e O improraram a fugir. "As montanhas de Ádhirbayján também têm suas demandas," foi Sua resposta confiante, enquanto afetuosamente os aconselhava que abandonassem seu projeto e voltassem as suas casas (22).
Aproximando-se do portão de Tabríz, Muhammad Big, sentindo que chegara a hora de sua separação de seu prisioneiro, pediu para entrar em Sua presença e, com olhos lacrimosos, Lhe rogou que desculpasse suas faltas e transgressões. "A viagem de Isfáhán foi longa e árdua. Falhei em cumprir meu dever e Vos servir como eu deveria. Imploroso Vosso perdão e Vos suplico que me concedais Vossa bênção." "Sede tranqüilo, "respondeu o Báb, "Eu vos considero membro de Meu rebanho. Aqueles que abraçarem Minha Causa haverão de vos abençoar e glorificar eternamente, elogiando vossa conduta e exaltando vosso nome (23)." Os outros guardas seguiram o exemplo de seu chefe, imploraram as bênçãos de seu Prisioneiro, Lhe beijaram os pés e com lágrimas nos olhos Lhe deram a última despedida. A cada um o Báb espressou Sua apreciação de sua devotada atenção e lhe assegurou Suas orações por ele. De mau grado O entregaram às mãos do governador de Tabríz, herdeiro ao trono de Muhammad Sháh. Àqueles com quem subseqüentemente tiveram contato, esses devotados assistentes do Báb e testemunhas oculares de Sua sabedoria e poder sobrehumanos, contavam, com reverência e admiração, a história daquelas maravilhas que haviam visto e ouvido, e por esse meio ajudavam a difundir, de seu próprio modo, o conhecimento da nova Revelação.
A notícia da iminente chegada do Báb em Tabríz despertou os crentes dessa cidade. Todos saíram para Seu encontro, ansiosos de dar suas boas vindas a um Mestre tão bem-amado. Os oficiais do governo em cuja custódia o Báb seria entregue recusaram permitir que se aproximassem e recebessem Suas bênçãos. Um jovem, entretanto, não podendo se conter, precipitou-se, descalço, pelo portão da cidade e, em sua impaciência de contemplar a face de seu Bem-Amado, correu uma distância de meio farsang (24) em Sua direção. Assim que se aproximava dos soldados de cavalaria que marchavam na frente do Báb, ele jubilosamente lhe deu boas vindas e, pegando na bainha da roupa de um dentre eles, beijou devotamente seus estribos. "Vós sois os companheiros de meu Bem-Amado," exclamou ele lacrimosamente. "Eu vos estimo como à menina dos meus olhos." Espantaram-lhes tão extaordinária conduta e a intensidade de sua emoção. De imediato, acenderam a seu pedido de atingir a presença do Mestre. Assim que seus olhos O avistaram, irronpia de seus lábios uma exclamação exultante. Prostrou-se e pranteou profusamente. O Báb apeou de Seu corcel, abraçou-o, enxugou-lhe as lágrimas e consolou seu coração agitado. Dentre todos os crentes de Tabríz, esse jovem tão somente, teve a oportunidade de prestar ao Báb sua homenagem; só a ele foi concedida a benção de sentir o toque de Sua mão. Todos os outros tiveram, por força, de se contentar em ver ao longe seu Bem-Amado e com esse vislumbre procuravam satisfazer seu anelo.
Ao chegar em Tabríz, o Báb foi conduzido a uma das principais casas da cidade, reservada para confiná-Lo (25). Um destacamento do regime Násiri guardava a entrada de Sua casa. Com exceção de Siyyid Husayn e seu irmão, nem ao público, nem aos Seus adeptos, era permitido ir ter com Ele. Esse mesmo regimento que fora recrutado dentre os habitantes de Khamsih e ao qual haviam sido conferidas honras especiais, foi escolhido subseqüentemente para dar a descarga que Lhe causou a morte. As circunstâncias de Sua chegada haviam emocionado profundamente o povo da cidade, (26). Alguns foram impelidos por curiosidade, outros desejavam sinceramente certificar-se da veracidade das notícias desvairadas que circulavam a Seu respeito, e ainda outros eram movidos pela sua fé e devoção a atingir Sua presença e Lhe assegurar sua lealdade. Enquanto Ele andava pelas ruas, as aclamações da multidão ressoavam por todos os lados. A grande maioria do povo que Lhe avistava o rosto O saudava com a exclamação de "Alláh-u-Akbar (27)," outros em altas vozes O glorificavam e aplaudiam, alguns poucos invocavam sobre Ele as bênçãos do Todo-Poderoso, enquanto outros eram vistos beijando com reverência o pó de Suas pegadas. Tal fora o clamor causado pela Sua chegada, que um pregoeiro foi ordenado a advertir a população do perigo que aguardava a qualquer um que se aventurasse a procurar Sua presença. "Se alguém fizer uma tentativa de se aproximar do Siyyid-i- Báb ," assim foi o brado - "ou procurar ir ter com ele, no mesmo instante serão confiscados todos os seus bens e ele próprio se verá condenado à prisão perpétua."
No dia após a chegada do Báb, Hájí Muhammad-Taqíy-i-Mílání, comerciante de nome na cidade, aventurou-se, na companhia de Hájí 'Alí-'Askar, a ter uma entrevista com o Báb. Pessoas amigas ou que desejavam seu bem advertiam-lhes que, com tal tentativa, estariam não só correndo o risco de perderem suas possessões, como também estariam pondo em perigo suas vidas. Recusaram-se, porém, a atender a tais conselhos. Ao aproximarem-se da porta da casa onde o Báb estava confinado, foram de imediato presos. Siyyid Hasan, que naquele momento estava saindo da presença do Báb, interveio instantaneamente. "Sou mandado pelo Siyyid-i- Báb", protestou ele com veemência para vos transmitir esta mensagem. 'Permiti que essas visitantes entrem, desde que Eu próprio os tenha convidado a virem ter comigo.' "Já ouvi Hájí 'Alí-'Askar testificar o seguinte: Essa mensagem logo silenciou os opositores. Fomos conduzidos diretamente à Sua presença. Ele nos saudou com estas palavras: 'Aqueles desprezíveis que vigiam no portão de Minha casa foram por Mim destinados a ser uma proteção contra o ímpeto da multidão que se amontoa em redor da casa. Não têm eles o poder de impedir que aqueles que Eu desejo receber atinjam Minha presença.' Por cerca de duas horas, com Ele nos demoramos. Ao despedir-se de nós, Ele me entregou duas pedras de cornalina para anéis, dando-me instruções para mandar gravar nelas os dois versículos que Ele me dera anteriormente, e para mandar montá-las e Lhe trazer assim que ficassem prontas. Ele nos assegurou que em qualquer ocasião em que desejássemos encontrar com Ele, ninguém nos impediria de entrar em Sua presença. Aventurei-me a ir várias vezes a Ele a fim de me certificar de alguns detalhes relativos à incumbência que me dera. Nem uma só vez encontrei a mínima oposição por parte daqueles que guardavam a entrada de Sua casa. Nenhuma palavra ofensiva pronunciaram eles contra mim, nem pareciam esperar a menor remuneração por sua indulgência."
"Recordo como, durante minha associação com Mullá Husayn, me impressionaram as numerosas evidências de sua perspicácia e extraordinário poder. Tive o privilégio de acompanhá-lo em sua viagem de Shíráz a Mashhad, e com ele visitei as cidades de Yazd, Tabas, Bushrúhih e Turbat. Naqueles dias deplorava eu meu triste insucesso em encontrar com o Báb em Shíráz. 'Não te entristeças', assegurava-me com confiança Mullá Husayn, 'o Todo-Poderoso, sem dúvida alguma, te poderá em Tabríz compensar da perda que sofreste em Shíráz. Não apenas uma vez, mas sim, sete vezes poderá Ele te fazer participar da felicidade de Sua presença, para retribuir uma só visita que perdeste. Maravilhei-me da confiança com que pronunciou estas palavras. Até minha visita ao Báb em Tabríz, quando, a despeito de circunstâncias adversas fui em várias ocasiões admitido à Sua presença, é que me lembrei destas palavras de Mullá Husayn e admirei sua extraordinária previsão. Como foi O ouvi dizer estas palavras: 'Louvado seja Deus por haver permitido que completasse o número de tuas visitas e que te proporcionou Sua amorosa proteção."'
CAPÍTULO XIII
O ENCARCERAMENTO DO Báb NA FORTALEZA
MÁH-KÚ
Tem-se ouvido Siyyid Husayn-i-Yazdí relatar o seguinte: "Durante os dez primeiros dias do encarceramento do Báb em Tabríz, ninguém sabia o que Lhe haveria de suceder a seguir. As mais desvairadas conjeturas corriam pela cidade. Um dia aventurei-me a Lhe perguntar se Ele iria permanecer onde estava ou se seria transferido para ainda outro lugar. 'Esqueceste', foi Sua resposta imediata, 'a pergunta que me fizeste em Isfáhán? Por um período de nada menos de nove meses permaneceremos confinados no Jabal-i-Básit (1), donde seremos transferidos para o Jabal-i-Shadíd (2). Ambos estes lugares ficam entre as montanhas de Khuy e situados dos dois lados da cidade que tem esse nome.' Cinco dias depois de haver o Báb pronunciado essa predição, foram emitidas ordens para transferi-Lo e a mim para a fortaleza de Máh-Kú e entregar-nos à custódia de 'Alí Khán-i-Máh-kú'í."
A fortaleza, um edifício de pedra, sólido, com quatro torres, ocupa o cume de uma montanha cujo pé jaz a cidade de Máh-Kú. O único caminho que conduz a fortaleza passa por dentro da cidade, terminando frente a um portão adjacente à sede do governo e que é mantido invariavelmente fechado. Esse portão é distinto daquele da própria fortaleza. Situada nos confins tanto do Império Otomano como do Russo, essa fortaleza tem sido usada, por causa de sua posição tão favorável para avistar os arredores e devido as suas vantagens estratégicas, como centro para fazer reconhecimento. O oficial que comandava essa estação observava, em tempo de guerra, os movimentos do inimigo, avistava as regiões circunvizinhas e relatava a seu governo tais casos de emergência que visem a sua atenção. Do lado no oeste a linha divisória para a fortaleza é o rio Araxes, que marca a fronteira entre o território do Xá e o Império Russo. Para o sul se estende o território do Sultão da Turquia; sendo a cidade fronteira de Bayazid a uma distância de apenas quatro farsangs (3) da montanha de Máh-Kú. O oficial da fronteira que tomava conta da fortaleza era um homem chamado 'Alí Khán. Os habitantes da cidade são todos curdos e pertencem à seita sunita do Islã (4). Os xiitas, que constituem a vasta maioria dos habitantes da Pérsia, têm sido sempre seus declarados e implacáveis inimigos. Esses curdos detestam especialmente os siyyids da seita xiita, a quem consideram os chefes espirituais e os principais agitadores entre seus oponentes. Sendo curda a mãe de 'Alí Khán, o filho era muito estimado e implicitamente obedecido pelo povo de Máh-Kú. Eles o consideravam membro de sua própria comunidade e nele tinham confiança absoluta.
Hájí Mirza Áqásí maquinara deliberadamente relegar o Báb a esse canto do território do Xá tão remoto, tão inóspito e em tão perigosa situação, com o fim único de deter o curso de Sua sempre-crescente influência e de cortar todo laço que O ligava ao corpo de Seus discípulos em toda parte do país. Confiante de que poucas pessoas - se acaso alguma, se aventurasse a penetrar em tão inculta e turbulenta região, ocupada por um povo tão rebelde, ele imaginava totalmente que esse ato de à força islar seu Cativo dos interesses e atividades de Seus seguidores tendesse a sufocar, pouco a pouco, o Movimento desde mesmo seu nascimento e conduzisse a sua extinção final (5). Breve, entretanto, teve ele de perceber que errara gravemente a respeito da natureza da Revelação do Báb e subestimara a força de sua influência. Os espíritos turbulentos desse povo refratário foram dentro de pouco tempo suavizados pelas maneiras meigas do Báb, e seus corações foram abrandados através da influência enobrecedora de Seu amor. Humildade veio a lhes substituir o orgulho diante de Sua inusitada modéstia, e sua arrogância irracional se derretia em face da sabedoria de Suas palavras. Tal era o fervor que o Báb incendiara naqueles corações, que Seu primeiro ato, cada manhã, era procurar um lugar donde Lhe pudessem vislumbrar o semblante e onde pudessem com Ele comungar e suplicar Suas bênçãos para a faina diária. Em casos de dissenção, apressavam-se instintivamente àquele lugar e, fitando Sua prisão, Lhe invocavam o nome e adjuravam um ao outro a declarar a verdade. 'Alí Khán tentou várias vezes induzi-los a desistir dessa prática, mas se via impotente para lhes restringir o entusiasmo. Ele desempenhava suas funções com a máxima severidade, recusando-se a permtir que qualquer um dos declarados discípulos do Báb se demorasse, nem sequer por uma noite, na cidade de Máh-Kú (6).
"Durante as duas primeiras semanas", relatou ainda Siyyid Husayn, "a ninguém foi permitido visitar o Báb. Meu irmão e eu, somente éramos admitidos a Sua presença. Siyyid Hasan, acompanhado de um dos guardas, descia cada dia à cidade e comprava nossas necessidades diárias. Shaykh Hasan-i-Zunúsí, que chegara em Máh-Kú, passou as noites num masjid fora do portão da cidade. Agia como intermediário entre aqueles dos seguidores do Báb que ocasionalmente visitam Máh-Kú e Siyyid Hasan, meu irmão, que por sua vez submetia ao Mestre as petições dos crentes e informava Shaykh Hasan de Sua resposta.
"Um dia o Báb incumbiu meu irmão de informar Shaykh Hasan que Ele Próprio pediria ao 'Alí Khán que alterasse sua atitude para com os crentes que visitam Máh-Kú e que abandonasse sua severidade. 'Diga-lhe', acrescentou, 'que amanhã darei Eu instruções ao guarda para conduzi-lo a este lugar.' Muito me admirei desta mensagem. Como, pensei comigo, seria o tirânico e autoritário 'Alí Khán induzido a relaxar a severidade de sua disciplina? No dia seguinte, muito cedo, estando ainda fechado o portão da fortaleza, nos admiramos ao ouvir um súbito bater na porta, bem sabendo que haviam sido dadas ordens de que não fosse admitida pessoa alguma antes da hora do nascer do sol. Reconhecemos a voz de 'Alí Khán, que parecia estar repreendendo os guardas, um dos quais veio, após pouco tempo, informar-me de que o diretor da fortaleza insistia em que lhe fosse permitido entrar na presença do Báb. Ao transmitir esse recado, recebi ordens de conduzi-lo imediatamente a Sua Presença. Assim que eu estava saindo da porta de Sua antecâmara, encontrei 'Alí Khán em pé no limiar em atitude de submissão completa, percebendo-se em seu rosto uma expressão de inusitada humildade e admiração. Seu orgulho e soberba pareciam haver se desvanecido completamente. Humildemente e com extrema cortesia retribuiu minha saudação e me solicitou que lhe permitisse entrar na presença do Báb. Conduzi-o ao aposento ocupado por meu Mestre. Tremiam-lhe os membros enquanto ele me seguia. Uma agitação interior que ele não podia esconder lhe pairava no rosto. O Báb levantou-se de Seu assento e lhe deu boas vindas. Curvando-se com reverência, 'Alí Khán aproximou-se e se prostrou a Seus pés. 'Livrai-me', suplicava ele, 'de minha perplexidade. Ajuro-Vos, pelo Profeta de Deus, Vosso ilustre Antepassado, a que me dissipeis as dúvidas, pois seu peso quase que me tem esmagado o coração. Eu ia cavalgando pela selva e me aproximava do portão da cidade, quando, na hora do alvorecer, meus olhos subitamente Vos avistaram, enquanto em pé, do lado do rio oferecíes Vossa oração. Com braços estendidos e olhos erguidos ao alto, invocavas o Nome de Deus. Imóvel me mantive e Vos observara. Esperava que terminásseis Vossas devoções, para que me pudesse aproximar e Vos repreender por Vos haverdes aventurado a sair da fortaleza sem a minha permissão. Em Vossa comunhão com Deus parecíeis tão absorto em adoração que estavas completamente esquecido de Vós Próprio. Queitamente me aproximava de Vós; em Vosso estado de enlevo, permanecíeis inteiramente inconsciente de minha presença. De súbito se apoderou de mim grande medo e recuei da idéia de Vos despertar de Vosso êxtase. Decidi deixar-vos, seguir ao encontro dos guardas e repreendê-los por sua conduta negligente. Breve descobri por espanto meu, que tanto o portão exterior como o interior, estavam fechados. Foram abertos a meu pedido, fui conduzido à Vossa Presença e agora Vos encontro para surpresa minha, sentado a minha frente. Estou completamente confundido. Não sei se perdi a razão.' O Báb respondeu dizendo: 'O que testemunhaste é verdadeiro e inegável. Menosprezaste esta Revelação e desdenhosamente desprezastes seu Autor. Deus, o Todo-Misericordioso, não desejando vos afligir com Sua punição, se dignou revelar aos vossos olhos a Verdade. Pela Sua interposição Divina, Ele vos instilou no coração o amor a Seu Escolhido e voz fez reconhecer o poder invencível de Sua Fé."
Esta experiência maravilhosa mudou completamente o coração de 'Alí Khán. Aquelas palavras lhe haviam acalmado a agitação e dominado a animosidade feroz. Por todos os meios dentro de seu poder, determinou ele a expiar seu comportamento passado. "Um pobre, um shaykh", apressou-se a informar ao Báb, "anseia atingir a Vossa Presença. Ele mora num masjid fora do portão de Máh-Kú. Eu Vos suplico que a mim mesmo seja permitido trazê-lo a esse lugar para que ele Vos possa ver. Por este ato espero que minhas más ações sejam perdoadas, que eu seja assistido a apagar as manchas de minha conduta cruel para com Vossos amigos." Atendeu-se seu pedido e de imediato foi ele a Shaykh Hasan-i-Zunúsí e o conduziu à presença de seu Mestre.
'Alí Khán tentou, dentro dos limites que lhe haviam sido impostos, tomar qualquer providência que tendesse a aliviar o rigor do cativeiro do Báb. À noite o portão da fortaleza ainda permanecia fechado; durante o dia, porém, se permitia àqueles a quem o Báb desejava ver, entrarem em Sua Presença, com Ele conversarem e Dele receberem instruções.
Enquanto jazia confinado dentro dos muros da fortaleza o Báb dedicava seu tempo à composição do Bayán Persa - de todas as Suas obras a mais poderosa, a mais iluminadora e compreensiva (7). Nele estabeleceu as leis e os preceitos de Sua Dispensação, anunciou clara e enfaticamente o advento de uma Revelação subseqüente e com persistência exortou os seguidores a buscarem até que encontrassem "Aquele que Deus tornaria manifesto (8), advertindo-lhes que não deixassem os mistérios e as alusões do Bayán lhes impedirem o reconhecimento de Sua Causa (9).
Tenho ouvido Shaykh Hasan-i-Zunúsí dar o seguinte testemunho. "A voz do Báb, enquanto Ele ditava os ensinamentos e princípios de Sua Fé, podia ser claramente ouvida por aqueles que moravam ao pé da montanha. A melodia de Sua entoação o fluxo rítmico dos versículos que manavam de Seus lábios, captava nossos ouvidos e nos penetrava na própria alma. Montanha e vale ressoavam a majestade de Sua voz. Nossos corações vibravam até as profundezas com o apelo de Suas palavras (10)."
A gradativa amenização da disciplina severa imposta sobre o Báb animou um número crescente de Seus discípulos das várias províncias da Pérsia a visitá-Lo na fortaleza de Máh-Kú. Um incessante fluxo de peregrinos fervorosos e devotados se dirigia aos seus portões, graças à gentileza e clemência de 'Alí Khán (11). Após uma estada de três dias, foram invariavelmente despachados pelo Báb, com instruções para regressarem a seus respectivos campos de serviço e continuarem seus labores na consolidação de Sua Fé. Jamais o próprio 'Alí Khán deixou de prestar ao Báb no dia de sexta-feira sua homenagem e a Ele assegurar sua inalterável lealdade e devoção. Presenteava-O freqüentemente com frutos, os mais raros e escolhidos a serem encontrados na vizinhança de Máh-Kú e sempre Lhe oferecia iguarias que pensava seriam de Seu gosto, agradáveis a Seu paladar.
Assim passou o Báb o verão e o outono dentro dos muros daquela fortaleza. Seguiu-se um inverno de tão excepcional severidade que até os implementos de cobre eram afetados pela intensidade do frio. O princípio daquela estação coincidiu com o mês de Muharram do ano de 1264 A.H. (12). A água que o Báb usava para Suas abluções era de tal gélida frieza que suas gotas reluziam enquanto se congelavam em Seu rosto. Invariavelmente Ele, após terminar cada oração, chamava à Sua Presença Siyyid Husayn e pedia que Lhe lesse em voz alta uma passagem de Muhriqu'l-Qulúb, obra essa composta pelo falecido Hájí Mullá Mihdí, bisavô de Hájí Mirza Kammál'u'd-Dín-i-Naráqí, na qual o autor elogia as virtudes, lamenta a morte e narra as circunstâncias do martírio do Imame Husayn. A narração desses sofrimentos provocava emoção intensa no coração do Báb. As lágrimas continuavam a fluir enquanto Ele escutava ao relato das indizíveis indignidades sobre ele amontoadas e da dor agonizante que teve de suportar das mãos de um inimigo pérfido. À medida que diante Dele se desenrolavam as circunstâncias dessa vida trágica, o Báb continuamente se lembrava daquela tragédia ainda maior, destinada a assinalar o advento do prometido Husayn. Para Ele eram essas atrocidades passadas apenas um símbolo que prognosticava as amargas aflições que seu próprio bem-amado Husayn teria que sofrer nas mãos de seus compatriotas. Chorou enquanto Ele imaginava na mente as calamidades que Aquele que se haveria de tornar manifesto estava predestinado a sofrer - calamidades tais como o Imame Husayn, nem mesmo em meio às suas agonias, teve que suportar (13).
Em um de Seus escritos, revelado no ano de 1260 A.H., o Báb declara o seguinte: "O espírito de oração que anima Minha alma é a conseqüência direta de um sonho que tive no ano anterior a Eu declarar Minha Missão. Vi nessa visão a cabeça do Imame Husayn, o Siyyidu'-sh-Shuhadá, pendurada em uma árvore. Gotas de sangue pingavam profusamente de Sua garganta lacerada. Com sentimentos de inexcedível deleite, aproximei-me daquela árvore e, estendendo as mãos, colhi algumas gotas daquele sangue sagrado e as sorvi devotadamente. Ao despertar, senti que o Espírito de Deus havia permeado minha alma e dela se apoderado. Extasiava-se Meu coração com o júbilo de Sua Divina Presença e diante de Meus olhos os mistérios de Sua Revelação se desdobravam em toda a sua glória."
Mal havia Muhammad Sháh condenado o Báb a cativeiro nas remotas fortalezas nas montanhas de Ádhirbayján, quando lhe atingiram súbitos reveses da fortuna, tais como nunca antes conhecera e cujo impacto afetou os próprios fundamentos de seu Estado. Assombroso desastre surpreendeu suas forças incumbidas de manter ordem interna em toda parte das províncias (14). Içou-se o estandarte da rebelião em Khurásán e tamanha foi a consternação provocada por esse levante que a projetada campanha do Xá a Hirát foi imediatamente abandonada. A temeridade e o esbanjamento de Hájí Mirza Áqásí haviam soprado até se inflamarem as brasas do descontentamento, exasperando as massas e as encorajando a incitar sedição e desordens. Os elementos mais turbulentos de Khurásán, habitantes das regiões de Qúchán, Bujnúrd e Shíraván, coligaram-se com o Sálár, filho do Ásifu'd-Dawlih, o tio materno mais velho do Xá e governador da província e repudiaram a autoridade do governo central. Quaisquer forças que fossem expedidas da capital eram derrotadas pelos principais instigadores da rebelião. Já'far-Qulí Khán-i-Námdár e Amír Arslán Khán, filho de Sálár, que conduziam as operações contra as forças do Xá, mostraram crueldade extrema e após haverem reprimido os ataques do inimigo, trucidaram impiedosamente os seus cativos.
Mullá Husayn, nesse tempo, residia em Mashhad (15), a despeito do tumulto provocado por aquela revolta, se esforçava por difundir o conhecimento da nova Revelação. Ao descobrir que o Sálár, em seu desejo de estender o âmbito da rebelião, determinara aproximar-se dele para obter seu apoio, decidiu prontamente partir da cidade a fim de evitar implicar-se nos concluios daquele orgulhoso e rebelde chefe. Na calada da noite, atendido só por Qambar-'Alí, procedeu a pé em direção a Teerã, resolvido a seguir de lá a Ádhirbayján, onde esperava encontrar o Báb. Seus amigos, ao saberem da maneira de sua partida, providenciaram de imediato o que lhe pudesse proporcionar algum conforto em sua longa e árdua jornada e se apressaram a alcançá-lo. Mulla Husayn não aceitou sua assistência. "Fiz votos," disse-lhes, "de andar a pé a inteira distância que me separa de meu Bem-Amado. Não vacilarei em minha resolução antes de haver alcançado meu destino." Até tentou induzir Qambar-'Alí a regressar a Mashhad, mas foi finalmente obrigado a ceder a sua solicitação e lhe ser permitido servi-lo durante toda sua peregrinação a Ádhirbayján.
Em seu caminho a Teerã, Mullá Husayn era entusiasticamente saudado pelos crentes nas várias cidades pelas quais ele passava. Dirigiam-lhe o mesmo pedido e dele recebiam a mesma resposta. Tenho ouvido dos lábios de Aqáy-i-Kalím o seguinte testemunho: "Quando Mullá Husayn chegou em Teerã, eu, na companhia de grande número de crentes, fui visitá-lo. Ele nos parecia ser a verdadeira personificação da constância, da piedade e virtude. Inspirou-nos com sua retidão de conduta e sua apaixonada lealdade. Tais foram a força de seu caráter e o ardor de sua fé que nos sentimos convencidos de que ele só, sem apoio, teria capacidade para conseguir o triunfo da Fé de Deus." Secretamente foi conduzido à presença de Bahá'u'lláh e pouco depois de sua entrevista, procedeu a Ádhirbayján.
Na noite antes de sua chegada em Máh-Kú, que era a véspera do quarto Naw-Rúz após a declaração da Missão do Báb, e que caiu naquele ano, no ano de 1264 A.H. (16), no décimo primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, teve 'Alí Khán um sonho. "Em meu sonho", relata ele, "assustou-me a repentina notícia de que Muhammad, o Profeta de Deus, breve chegaria em Máh-Kú, que deveria seguir diretamente à fortaleza a fim de visitar o Báb e Lhe oferecer suas felicitações pelo advento do festival de Naw-Rúz. Em meu sonho, corri ao Seu encontro, ansioso de estender a tão santo Visitante a minha humilde expressão de boas vindas. Num estado de indescritível alegria, apressei-me a pé em direção ao rio e, ao alcançar a ponte, que estava situada a uma distância de um maydan (17) da cidade de Máh-Kú, vi dois homens que vinham se aproximando de mim. Um deles, pensei, deveria ser o próprio Profeta, enquanto o outro que andava atrás Dele eu supunha ser um de Seus distintos companheiros. Apressei-me a me prostar a Seus pés e me curvava para beijar a bainha de Suas vestes, quando, de súbito, acordei. Grande júbilo inundara minh'alma. Sentia-me como se o próprio Paraíso, com todos os seus deleites, se tivesse amontoado em meu coração. Convencido da realidade de minha visão, fiz minhas abluções, ofereci minha oração, vesti-me em minhas mais ricas roupas e me ungi com perfume. Procedi ao lugar onde, na noite anterior, em meu sonho, eu havia contemplado o semblante do Profeta. Eu dera instruções a meus subordinados para selarem três de meus melhores e mais célebres corcéis e os conduzirem de imediato à ponte. O sol acabava de nascer quando, sem ser escoltado, inteiramente só, sai a pé da cidade de Máh-Kú em direção ao rio. Assim que me aproximava da ponte, discerni, palpitando de espanto, os dois homens que eu havia visto em meu sonho, andando um atrás do outro e vindo em minha direção. Instintivamente caí aos pés daquele que eu acreditava ser o Profeta e devotadamente os beijei. Solicitei-Lhe e a Seu companheiro que montassem os cavalos que eu preparara para sua entrada em Máh-Kú. 'Não', foi Sua resposta, 'fiz votos de realizar toda a viagem a pé. Andarei até o cume desta montanha e lá visitarei vosso Prisioneiro.'"
Essa estranha experiência de 'Alí Khán efetivou uma aprofundização de reverência em sua atitude para com o Báb. Sua fé na potência de sua Revelação tornou-se ainda maior e muito se aumentou sua devoção a Ele. Em atitude de humilde submissão, seguiu a Mullá Husayn até alcançarem o portão da fortaleza. Logo que os olhos de Mullá Husayn atingiram o semblante de seu Mestre, que se via em pé no limiar do portão, ele instantaneamente parou e, curvando-se diante d'Ele, permaneceu imóvel a Seu lado. O Báb estendeu os braços e afetuosamente o abraçou. Tomando-o pela mão, conduziu-o a Seu aposento. Convocou então os amigos a Sua presença e em sua companhia celebrou a Festa de Naw-Rúz. Pratos de doces e dos frutos mais escolhidos haviam sido espalhados diante Dele. Distribuiu-os entre os amigos reunidos e, enquanto oferecia a Mullá Husayn alguns dos marmelos e maçãs, disse: "Estes frutos deliciosos vieram para nós de Milan, o Ard-i-Jannat (18), e foram colhidos especialmente e consagrados a esta Festa pelo Ismu'lláhu'l-Fatíq, Muhammad-Taqí."
Até então a nenhum dos discípulos do Báb, salvo a Siyyid Husayn-i-Yazdí e seu irmão, fora permitido passar a noite dentro da fortaleza. Naquele dia 'Alí Khán foi ao Báb e disse: "Se for vosso desejo reter Mullá Husayn convosco esta noite, estou pronto a conformar-me com Vosso desejo, pois não tenho vontade própria. Por qualquer tempo que queiras que permaneça em Vossa companhia, prometo cumprir Vossa ordem." Os discípulos do Báb continuaram a chegar em Máh-Kú em números sempre crescentes e eram imediatamente e sem a mínima restrição admitidos a Sua Presença.
Um dia, o Báb, na companhia de Mullá Husayn, olhava do telhado da fortaleza sobre a paisagem da região circunvizinha, fitou o oeste e, enquanto via o Araxes seguindo seu curso sinuoso lá longe abaixo, virou-se a Mullá Husayn e disse: "Eis o rio e lisa margem, sobre a qual assim escreveu o poeta Háfiz. 'Ó zéfiro, se tu passares perto da margem do Araxes, implanta um beijo na terra desse vale e torna fragrante teu alento. Salve, mil vezes salve, Ó tu, morada de Salmá! Quão é querida a voz de teus cameleiros e suave o tinido de teus sinos! (19) Os dias de vossa estada neste país aproxima-se de seu fim. Não fosse a brevidade de vossa estadia e nós vos teríamos mostrado a 'morada de Salmá', assim como revelamos aos vossos olhos as 'margens do Araxes.'" Pela "morada de Salmá" o Báb queria dizer a cidade de Salmás, situada na vizinhança de Chihríq e designada Salmás pelos turcos. Continuando Suas observações, o Báb disse: "É a influência imediata do Espírito Santo que faz palavras como estas manarem da língua de poetas e freqüentemente eles próprios não podem apreender o que significam. Também divinamente inspirado é o seguinte Versículo: "Em Shíráz será lançada em tumulto; um Jovem de doce língua aparecerá. Receio que o alento de sua boca agite e perturbe Bagdá." O mistério encerrado neste versículo está agora oculto; será revelado no ano após Hín (20)." O Báb citou subseqüentemente esta bem conhecida tradição: "Tesouros jazem ocultos sob do trono de Deus; a chave a esses tesouros está na língua de poetas." Relatou Ele então a Mullá Husayn aqueles acontecimentos um após outro, que haveriam forçosamente de suceder no futuro, e lhe disse que não os mencionasse a ninguém (21). "Poucos dias após vossa partida deste lugar", informou-lhe o Báb, "eles Nos transferirão a uma outra montanha. Antes de chegardes em vosso destino, a notícia de Nossa partida de Máh-Kú vos terá alcançado."
O que o Báb predissera foi prontamente cumprido. Aqueles incumbidos de vigiar secretamente seus movimentos e a conduta de 'Alí Khán submeteram a Hájí Mirza Aqásí um relatório detalhado no qual se estenderam sobre sua devoção extrema ao seu Prisioneiro e descreveram tais incidentes como tendessem a confirmar suas alegações. "Dia e noite", descreviam-lhe, "o diretor da fortaleza de Máh-Kú pode ser visto associar-se ao seu cativo em condições de irrestrita liberdade e amizade. 'Alí Khán, que obstinadamente se recusou permitir que sua filha casasse com o herdeiro ao trono da Pérsia, alegando que esse ato a tal ponto enfureceria os parentes sunitas de sua mãe que eles, sem hesitação, o matariam e a sua filha também, agora com o mais intenso fervor deseja que essa mesma filha seja esposada com o Báb. Ele já recusou, mas 'Alí Khán ainda persiste em sua solicitação. Não fosse a recusa do prisioneiro, e as núpcias da moça já se teriam celebrado." 'Alí Khán havia realmente pedido isto e até solicitado a Mullá Husayn que intercedesse por ele com o Báb. Não se conseguira, no entanto, Seu consentimento.
Esses relatórios malévolos exerceram uma influência imediata sobre Hájí Mirza Aqásí. Medo e ressentimento mais uma vez impeliram aquele caprichoso ministro a emitir uma ordem peremptória para a transferência do Báb à fortaleza de Chihríq.
Vinte dias após Naw-Rúz o Báb se despediu do povo de Máh-Kú, que, durante seus nove meses de cativeiro havia reconhecido em grau notável o poder de Sua personalidade e a grandeza de Seu caráter. Mullá Husayn, que partira de Máh-Kú a mando do Báb, estava ainda em Tabríz quando lhe veio a notícia da transferência já predita de seu Mestre para Chihríq. Na ocasião de Sua última despedida a Mullá Husayn, dirigiu-lhe estas palavras: "Andaste a pé todo o caminho de tua província nativa a este lugar. A pé também deves regressar até alcançar teu destino; pois teus dias de cavalaria estão ainda por virem. És destinado a exibir tal coragem, tal destreza e heroísmo que eclipsarão os mais poderosos atos dos heróis de antanho. Tuas façanhas destemidas ganharão os elogios e a admiração dos habitantes do Reino eterno. Deves visitar no caminho os crentes de Khuy, de Urúmíyyih, de Marághih, de Milan, de Tabríz, de Zanjá, de Qazvín e de Teerã. A cada um transmitirás a expressão de Meu amor e terno afeto. Tentarás inflamar seus corações de novo com o fogo do amor da Beleza de Deus e te esforçarás para lhes fortificar a fé em Sua Revelação. De Teerã deves proceder a Mázindarán, onde o tesouro oculto de Deus a ti será tornado manifesto. Serão exigidos de ti feitos tão grandes que haverão de eclipsar as mais poderosas realizações do passado. A natureza de tua tarefa será, naquele lugar, a ti revelada, e serás fortalecido e guiado de modo a te tornar apto para prestar teu serviço a Sua Causa.
Na manhã do nono dia após Naw-Rúz, Mullá Husayn partiu, segundo instruções de seu Mestre, em sua jornada a Mázindarán. A Qambar-'Alí dirigiu o Báb estas palavras de despedida: "O Qambar-'Alí de uma era passada gloriar-se-ia por haver o portador de seu nome vivido até testemunhar um Dia que até Ele (22) que era o Senhor de seu senhor suspirava em vão; do qual Ele com anelo intenso falou: 'Oxalá Meus olhos pudessem contemplar as faces de Meus irmãos que tiveram o privilégio de atingir a Seu Dia!'"
1 1260 A.H. (1844 A.D.)
2 1887-8 A.D.
3 Seu título completo é Nabíl-i-A'zam.
NOTAS DE RODAP
CAPÍTULO XIV
A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A MÁZINDARÁN
'Alí Khán convidou cordialmente Mullá Husayn a se demorar alguns dias em sua casa antes de sua partida de Máh-Kú. Expressou um desejo ardente de lhe prover de toda facilidade para sua viagem a Mázindarán. Mullá Husayn, entretanto, recusou adiar sua partida ou se valer dos meios de conforto que 'Alí Khán tão devotadamente colocara à sua disposição.
Fiel às instruções que havia recebido, ele parou em toda cidade e aldeia que o Báb lhe dissera deveria ser visitada, reunindo os fiéis, transmitindo-lhes o amor e as saudações de seu bem-amado Mestre, restaurando-lhes a confiança, animando novamente seu zelo e os exortando a permanecerem firmes em Seu caminho. Em Teerã teve ele mais uma vez o privilégio de entrar na presença de Bahá'u'lláh e de receber de Suas mãos aquele sustento espiritual que o capacitou a enfrentar, com tão indomável coragem, os perigos que contra ele, com tanta ferocidade, acometeram nos dias finais de sua vida.
De Teerã, Mullá Husayn procedeu a Mázindarán, em ansiosa expectativa de testemunhar a revelação do tesouro oculto, segundo lhe prometera seu Mestre. Quddús estava nesse tempo morando em Bárfurúsh, na casa que pertencera originariamente a seu próprio pai. Associava-se livremente às pessoas de todas as classes e pela meiguice de seu caráter e pelo largo âmbito de seus conhecimentos, havia conquistado o afeto e a irrestrita admiração dos habitantes dessa cidade. Ao chegar, nesta cidade Mullá Husayn foi diretamente à casa de Quddús, por quem foi recebido com carinho. O próprio Quddús atendeu a seu hóspede, fazendo o possível para provê-lo de qualquer coisa que parecesse necessária a seu conforto. Com as próprias mãos removeu o pó e lavou a pele empolada de seus pés. Ofereceu-lhe o lugar de honra na companhia de seus amigos reunidos e lhe apresentou, com reverência extrema, cada um dos crentes que aí afluíram a fim de recebê-lo.
Na noite de sua chegada, assim que os crentes convidados para o jantar a fim de conhecerem Mullá Husayn haviam retornado as suas casas o anfitrião, virando-se a seu hóspede, perguntou se queria esclarecê-lo mais detalhadamente sobre suas experiências íntimas com o Báb na fortaleza de Máh-Kú. "Muitas e diversas", respondeu Mullá Husayn, "foram as coisas que ouvi e testemunhei durante os nove dias de minha associação com Ele. Falou-me das coisas relativas a Sua Fé, tanto direta como indiretamente. Nenhuma instrução definida deu-me Ele, porém, quanto ao curso que eu deveria prosseguir quanto a propagação de Sua Causa. Tudo o que me disse foi isto. 'Em teu caminho a Teerã, deverias visitar os crentes em cada cidade e aldeia pela qual passares. De Teerã deves proceder a Mázindarán, pois aí jaz oculto um tesouro que a ti será revelado, um tesouro que desvelará a teus olhos o caráter da tarefa que és destinado a cumprir.' De Suas alusões pude eu, embora indistintamente, perceber a glória de Sua Revelação e discernir os sinais da futura ascendência de Sua Causa. De Suas palavras inferi que seria exigido, afinal, o sacrifício de mim próprio, indigno que sou, em Seu caminho. Pois em ocasiões anteriores, sempre que me despedia de Sua Presença, o Báb me assegurava invariavelmente que eu haveria de ser chamado ainda outra vez a Seu encontro. Desta vez, porém, ao pronunciar Suas palavras de despedida, nenhuma promessa me fez nesse sentido, nem se referiu à possibilidade de eu estar com Ele face a face jamais neste mundo. 'A Festa do Sacrifício', foram Suas últimas palavras a mim, 'rapidamente se aproxima. Levanta-te, envida os máximos esforços e não permites que coisa alguma te detenha de atingir teu destino. Uma vez alcançado teu destino, prepara-te para Nos receber, pois Nós também dentro em breve te seguiremos.'
Quddús perguntou se trouxera algum dos escritos de seu Mestre e, ao ser informado que com ele nenhum tinha, apresentou a seu hóspede as páginas de um manuscrito que tinha em seu poder, pedindo-lhe que lesse determinadas passagens. Assim que havia lido uma página desse manuscrito, submeteu-se seu semblante a uma transformação súbita e completa. Suas feições mostravam uma indefinível expressão de admiração e surpresa. O elevado estilo, a profundidade - acima de tudo, a influência penetrante das palavras que acabava de ler, lhe agitaram intensamente o coração e de seus lábios evocaram os maiores elogios. Pondo de lado o manuscrito, disse: "Bem posso perceber que o Autor destas palavras tirou Sua inspiração daquele Manancial que é imensuravelmente superior às fontes donde se deriva comumente a erudição dos homens. Com isto quero testemunhar de todo coração meu reconhecimento da sublimidade dessas palavras e minha inquestionável aceitação da verdade por elas revelada." Pelo silêncio guardado por Quddús, bem como pela expressão que seu semblante demonstrava, Mullá Husayn se convenceu de que ninguém, senão seu anfitrião poderia ter escrito essas palavras. Instantaneamente levantou-se de seu assento e, em pé, com cabeça curvada, no limiar da porta, declarou com reverência: "O tesouro oculto do qual o Báb falou jaz agora desvelado diante de meus olhos. Sua luz já dissipou as trevas da perplexidade e dúvida. Embora meu Mestre esteja oculto em meio às fortalezas nas montanhas de Adhirbáyján, o sinal de seu esplendor e a revelação de Seu poder estão manifestos diante de mim. Encontrei em Mázindarán o reflexo de Sua glória."
Quão grave, quão assombroso o erro de Hájí Mirza Aqásí! Esse ministro néscio imaginara futilmente que, condenando o Báb a uma vida de exílio desesperador num recanto remoto e isolado de Adhirbáyján, ele assim conseguisse ocultar dos olhos de seus compatriotas aquela Chama do imorredouro Fogo de Deus. Longe estava ele de perceber que, ao colocar num monte a Luz de Deus, estava ajudando a lhe difundir o brilho e proclamar a glória. Pelos seus próprios atos, pelos seus espantosos cálculos errôneos, em vez de ocultar dos olhos dos homens aquela Chama celestial, ele a fez sobressair ainda mais e ajudou a lhe incrementar o ardor. Como era eqüitativo, por outro lado, Mullá Husayn, e quão aguçado e seguro seu juízo dentre aqueles que o haviam conhecido e visto, nenhum poderia, por um momento sequer, questionar a erudição desse jovem, seu encanto, sua alta integridade e espantosa coragem. Tivesse ele, após a morte de Siyyid Kázim, se declarado o prometido Qá'im, os mais distintos entre seus co-discípulos teriam unanimemente reconhecido sua pretensão e se submetido à sua autoridade. Mullá Muhammad-i-Mámáqání, aquele célebre e erudito discípulo de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, depois de conhecer em Tabríz por intermédio de Mullá Husayn as pretensões da nova Revelação, não fizera a seguinte declaração: "Tomo Deus como meu testemunho! Se essa pretensão do Siyyid-i- Báb tivesse sido feita por esse mesmo Mullá Husayn, eu, em vista de suas notáveis características e da amplidão de seus conhecimentos, teria sido o primeiro a campear pela sua causa e proclamá-la a todos. Como ele, entretanto, se dignou de se subordinar a outra pessoa, deixei de ter confiança em suas palavras e tenho recusado responder a seu apelo." E Siyyid Muhammad-Baqír-i-Rashtí, ao ouvir Mullá Husayn tão bem resolver as perplexidades que deste tanto tempo lhe afligia a mente, não deu testemunho de suas altas realizações em tão fervorosos termos como estes: "Eu, que me queria imaginar capaz de confundir e silenciar Siyyid Kázim-i-Rashtí, percebi, quando primeiro conheci e conversei com aquele que se diz ser apenas seu humilde discípulo, quão lastimavelmente havia eu errado em meu juízo. De tal força parece ser dotado esse jovem que, se ele declarasse ser o dia a noite, eu ainda acreditaria ser ele capaz de deduzir provas que demonstrassem concludentemente aos olhos dos eruditos sacerdotes a verdade de sua afirmação."
Na mesma noite em que foi levado ao encontro do Báb, Mullá Husayn, embora de início consciente de sua própria infinita superioridade e predisposto a menosprezar as pretensões avançadas pelo filho de um obscuro mercador de Shiráz, não deixou de perceber, assim que seu anfitrião principiara a desenvolver Seu tema, os incalculáveis benefícios latentes em Sua Revelação. Com entusiasmo abraçou ele Sua Causa e desdenhosamente abandonou qualquer coisa que pudesse impedir seus próprios esforços para compreendê-la devidamente e lhe promover efetivamente os interesses. E ao lhe ser concedida, no devido tempo, a oportunidade de apreciar a transcendente sublimidade dos escritos de Quddús, Mullá Husayn, com sua costumeira sagacidade e inerrante juízo, foi capaz, outrossim, de estimar o verdadeiro valor e mérito daqueles dons especiais de que tanto a pessoa como as palavras de Quddús foram dotadas. A vastidão de seus próprios conhecimentos adquiridos minguava até se tornar insignificante em face das virtudes oriundas de Deus, que a tudo abrangiam, demonstradas pelo espírito desse jovem. Nesse mesmo momento hipotecou ele sua imorredoura lealdade àquele que tão poderosamente espelhava o esplendor de seu próprio bem-amado Mestre. Sentiu ser sua primeira obrigação subordinar-se inteiramente a Quddús, seguir-lhe as pegadas, conformar-se a sua vontade e lhe garantir por todos os meios em seu poder o bem-estar e a segurança. Até a hora de seu martírio, Mullá Husayn permaneceu fiel a sua promessa. Na deferência extrema que daí em diante mostrava a Quddús, ele era motivado somente por uma firme e inalterável convicção da realidade daqueles dons sobrenaturais que tão claramente o distinguiam dos outros co-discípulos. Não houve outra consideração que o induzisse a mostrar tamanha deferência e humildade em sua conduta para com alguém que parecia ser apenas seu igual. O aguçado discernimento de Mullá Husayn rapidamente apreendia a magnitude do poder que nele jazia latente, e a nobreza de seu caráter o impelia a demonstrar de um modo digno seu reconhecimento dessa verdade.
Tal foi a transformação efetivada na atitude de Mullá Husayn para com Quddús que os crentes que se reuniram na manhã seguinte em sua casa admiraram-se extremamente ao verem o hóspede que na noite anterior ocupara o lugar de honra, e sobre quem foram prodigalizadas tanta bondade e hospitalidade, havia cedido seu lugar a seu anfitrião e agora estava em pé, em seu lugar, no limiar, numa atitude de completa humildade. As primeiras palavras que, na companhia dos crentes reunidos, Quddús dirigiu a Mullá Husayn, foram as seguintes: "Agora, nesta mesma hora, deves te levantar e, armado com a vara da sabedoria e do poder, silenciar a hoste dos maus conspiradores que se esforçam por desacreditar o belo nome da Fé de Deus. Deves enfrentar aquela multidão e lhes confundir as forças. Na graça de Deus deves por tua confiança e as suas maquinações considerar uma tentativa fútil de obscurecer o esplendor da Causa. Deves entrevistar o Sa'ídu'l-Ulamá, aquele notório tirano, de coração falso, e destemidamente desvelar diante de seus olhos as características distintas desta Revelação. Daí deverás proceder a Khurásán. Na cidade de Mashhad, deves construir uma casa de tal modo projetada que possa não só servir como nossa residência particular, como também fornecer facilidades adequadas para a recepção de nossos convidados. Para lá, breve deveremos viajar e naquela casa residir. Para lá deverás convidar cada alma receptiva que esperemos possa ser guiada ao Rio da vida eterna. Nós as prepararemos e admoestaremos a formarem grupos e proclamarem a Causa de Deus."
Mullá Husayn partiu no dia seguinte na hora do nascimento do sol a fim de entrevistar o Sa'ídu'l-Ulamá. Sem assistente, inteiramente só, procurou sua presença e lhe transmitiu, assim como Quddús mandara, a Mensagem do novo Dia. Com intrepidez e eloqüência pleiteou, em meio aos discípulos reunidos, a Causa de seu bem-amado Mestre, exortando-o a demolir aqueles ídolos esculpidos pela sua própria vã fantasia e sobre seus fragmentos esmiuçados plantar o estandarte da guia Divina. Apelou a ele que desembaraçasse sua mente dos credos do passado que a agrilhoavam e se apressasse, livre e sem empecilho, para as orlas da salvação eterna. Com característico vigor, superou cada argumento com o qual aquele feiticeiro enganador procurava refutar a verdade da Mensagem Divina e expôs, por meio de sua lógica irrespondível, as falácias de cada doutrina que ele tentava propor. Acometido pelo medo de que a congregação de seus discípulos se reunisse unanimemente em volta da pessoa de Mullá Husayn, o Sa'ídu'l-Ulamá, recorreu ao mais desprezível dos estratagemas, lançando mão da mais abusiva linguagem na esperança de salvaguardar a integridade de sua posição. Arremessou suas calúnias na face de Mullá Husayn e, desdenhando com altivez as provas e os testemunhos aduzidos pelo seu oponente, asseverou confiantemente, sem a mínima justificação de sua parte, a futilidade da Causa que ele fora chamado para abraçar. Assim que Mullá Husayn percebeu sua completa incapacidade para apreender o significado da Mensagem que ele lhe trouxera, levantou-se de seu assento e disse: "Meu argumento não logrou despertar-vos de vosso sono de negligência. Meus atos nos dias vindouros vos provarão o poder da Mensagem que vos dignastes a desprezar." Falou com tal veemência e emoção que o Sa'ídu'l-Ulamá se sentiu completamente confundido. Tão grande foi a consternação de sua alma que nem pode responder. Virou-se então Mullá Husayn a um membro desse auditório que parecia haver sentido a influência de suas palavras e o incumbiu de relatar a Quddús as circunstâncias dessa entrevista. "Diga-lhe," acrescentou, 'Desde que não me mandaste especificamente procurar vossa presença, determinei-me a partir de imediato para Khurásán. Procedo à execução em sua totalidade daquelas coisas que me instruístes a fazer.'"
Sozinho e com o coração inteiramente desligado de tudo menos de Deus, Mullá Husayn partiu em sua jornada a Mashhad. Seu único companheiro enquanto trilhava seu caminho a Khurásán, foi o pensamento de cumprir fielmente os desejos de Quddús, e o que tão somente o sustentava era a consciência de sua infalível promessa. Foi diretamente à casa de Mirza Muhammad-Baqir-i-Qá'íní e dentro em breve conseguiu comprar na vizinhança dessa casa em Bálá-Khíyábán um terreno no qual começou a erigir a casa que fora mandado a construir e à qual deu o nome de Bábíyyih, nome esse que continua a ter até o tempo presente. Pouco depois de ser a casa terminada, Quddús chegou em Mashhad e residiu nessa casa. Um ininterrupto fluxo de visitantes, a quem a energia e o zelo de Mullá Husayn haviam preparado para a aceitação da Fé, manava para a presença de Quddús, reconhecia a pretensão da Causa e espontaneamente se alistou sob sua bandeira. A infalível vigilância com a qual Mullá Husayn laborava na difusão do conhecimento da nova Revelação e a maneira magistral de que Quddús edificava seus aderentes, cujo número sempre crescia, causaram uma onda de entusiasmo que varreu toda a cidade de Mashhad e cujos efeitos se espalharam rapidamente dos confins de Khurásán. A casa de Bábíyyih breve se converteu em um centro de reunião para uma multidão de devotos que estavam inflamados com uma resolução inflexível de demonstrar por todos os meios em seu poder as grandes inerentes energias de sua Fé.
CAPÍTULO XV
A VIAGEM DE TÁHIRIH DE KARBILÁ A KHURÁSÁN
Assim que se aproximava a hora marcada, quando, segundo as dispensações da Providência, haveria de ser rompido o véu que ainda ocultava as verdades fundamentais da Fé, flamejou no coração de Khurásán uma chama de tal intensidade consumidora que os mais formidáveis obstáculos no caminho do reconhecimento final da Causa se dissipavam e esvaiam(1). Esse fogo tamanha conflagração ateou nos corações dos homens que os efeitos de seu poder vivificador se sentiam nas províncias mais remotas da Pérsia. Obliterou todo traço das desconfianças e dúvidas que haviam persistido ainda nos corações dos crentes e até então os impedido de apreender a plena medida da glória da Causa. O decreto do inimigo condenara a isolamento perpétuo Aquele que era a personificação da beleza de Deus, procurando por este meio extinguir para sempre a chama de Seu amor. A mão da Onipotência, entretanto, num tempo em que a hoste de malfeitores contra Ele maquinava obscuramente, estava assiduamente ocupada em lhes confundir as intrigas e nulificar os esforços. Na província no extremo leste da Pérsia, o Todo-Poderoso, através da mão de Quddús, ateou um fogo que ardia com a mais intensa chama nos peitos do povo de Khurásán. E em Karbilá, além dos confins ocidentais dessa terra, Ele acendera a luz de Táhirih, luz esta destinada a difundir seu esplendor sobre a Pérsia toda. De leste e oeste desse país, a voz do Invisível convocou aquelas grandes luzes gêmeas para se apressarem a ir à terra de Tá(2), lugar do alvorecer da glória, a casa de Bahá'u'lláh. Ele mandou que cada uma procurasse a presença daquela Estrela Dalva da Verdade e se movesse em volta de Sua pessoa, que buscasse seu conselho, dobrasse Seus esforços e preparasse o caminho para Sua Revelação vindoura.
Segundo o decreto Divino, nos dias em que Quddús residia ainda em Mashhad, foi revelada da pena de Báb uma Epístola dirigida a todos os crentes da Pérsia, na qual se exortou a todo aderente leal da Fé a "apressar-se a ir à Terra de Khá," a província de Khurásán(3). A notícia dessa alta injunção espalhou-se com admirável rapidez e despertou entusiasmo universal. Chegou aos ouvidos de Táhirih, que, nesse tempo, residia em Karbilá e envidava todo esforço para estender o âmbito da Fé que ela esposara(4). Deixara sua cidade natal de Qazvín e havia, após a morte de Siyyid Kázim, chegado naquela cidade santa, esperando ansiosamente testemunhar os sinais que o falecido siyyid predissera. Em páginas anteriores temos visto como, instintivamente, ela fora levada a descobrir a Revelação do Báb e como, espontaneamente, havia reconhecido sua verdade. Sem advertência ou convite percebeu pairar sobre a cidade de Shíráz a luz do alvorecer da prometida Revelação e se sentiu impelida a escrever sua mensagem e hipotecar sua fidelidade Àquele que era o Revelador dessa luz.
A resposta imediata do Báb à declaração de fé que ela, sem haver atingido Sua presença, foi movida a fazer, lhe animou o zelo e vastamente aumentou a coragem. Ela se levantou para difundir em toda parte Seus ensinamentos, denunciou veementemente a corrupção e a perversidade de sua geração, advogou destemidamente uma revolução fundamental nos hábitos e modos de seu povo(5). Seu espírito indomável foi vivificado pelo fogo de seu amor pelo Báb e a glória de sua visão atingiu realce ainda maior com a descoberta das inestimáveis bênçãos latentes em Sua Revelação. A intrepidez inata e a força de seu caráter foram aumentadas centuplicadamente por sua inabalável convicção da vitória final da Causa que ela abraçara; e sua ilimitada energia foi revitalizada por seu reconhecimento do valor permanente da Missão que ela se havia levantado para defender. Todos que a conheciam em Karbilá ficaram encantados por sua mágica eloqüência e sentiam a fascinação de suas palavras. Ninguém podia resistir ao seu encanto; poucos podiam esperar ao contágio de sua crença. Todos davam testemunho de suas extraordinárias características, maravilhavam-se de sua personalidade assombrosa e se convenciam da sinceridade de suas convicções.
Ganhou-se para a causa, por seu intermédio, a honrada viúva de Siyyid Kázim, nativa de Shíráz e a primeira entre as mulheres de Karbilá a reconhecer sua verdade. Tenho ouvido Shaykh Sultán descrever sua extrema devoção a Táhirih, a quem ela reverenciava como guia espiritual e estimava como sua afetuosa companheira. Ele era também fervoroso admirador do caráter da viúva do Siyyid, a cuja meiguice de modos prestava muitas vezes um ardente tributo. "Tal era sua amizade para Táhirih", freqüentemente se ouvia Shaykh Sultán comentar, "que com extrema relutância consentia que essa heroína, que estava hospedada em sua casa, se ausentasse, nem sequer por uma hora, de sua presença." Tão grande devoção de sua parte não deixou de excitar a curiosidade e vivificar a fé de suas amigas, tanto persas como árabes, que constantemente a visitavam em sua casa. No primeiro ano de sua aceitação da Mensagem, ela subitamente adoeceu e depois de passarem três dias, assim como fora no caso de Siyyid Kázim, partiu dessa vida.
Entre os homens que em Karbilá entusiasticamente abraçaram a Causa do Báb mediante os esforços de Táhirih, havia um certo Shaykh Sálih, árabe residente dessa cidade, que foi o primeiro a derramar seu sangue no caminho da Fé em Teerã. Tão profusa era Táhirih em seus elogios de Shaykh Sálih que alguns suspeitavam ser seu grau igual ao de Quddús. Shaykh Sultán era também um dos que caiu sob o fascínio de Táhirih. Ao regressar de Shíráz, identificou-se com a Fé, audaz e assiduamente lhe promovendo os interesses e fazendo o possível para executar as instruções e desejos de Táhirih. Outro admirador foi Shaykh Muhammad-i-Shibil, pai de Muhammad-Mustafá, árabe nativo de Bagdá, que se destacava entre os ulemás dessa cidade. Com o apoio desse grupo escolhido de defensores firmes e capazes, Táhirih logrou inflamar a imaginação e alistar a lealdade de um número considerável dos habitantes persas e árabes do Iraque, a maioria de quem foi por ela induzida a aliar-se com os irmãos da Pérsia que breve seriam chamados para amoldarem com suas façanhas o destino da Causa de Deus e com seu sangue vital lhe selar o triunfo.
O apelo do Báb, originariamente dirigido à Seus seguidores na Pérsia, foi dentro em breve transmitido aos aderentes de Sua Fé no Iraque. Gloriosamente respondeu Táhirih. Seu exemplo foi seguido de imediato por grande número de seus admiradores fiéis, todos os quais expressaram sua prontidão para viajar de imediato a Khurásán. Os ulemás de Karbilá tentaram dissuadí-la de empreender essa jornada. Táhirih, logo percebendo o motivo que os induzia a oferecer-lhe tal conselho e consciente de seus maus desígnios, dirigiu a cada um desses sofistas uma longa epístola na qual assinalou seus próprios motivos e expôs a dissimulação por parte deles(6).
De Karbilá ela procedeu a Bagdá(7). Uma delegação representativa, composta pelos líderes de maior capacidade entre as comunidades xiita, sunita, cristã e judaica, procurou sua presença e tentou convencê-la da loucura de suas ações. Ela, entretanto, pode lhes silenciar os protestos e os espantou com a força de seu argumento. Desiludidos e confusos, retiraram-se, profundamente conscientes de sua própria impotência(8).
Os ulemás de Kirmánsháh receberam Táhirih com respeito e lhe ofereceram vários presentes em sinal de sua estima e admiração(9). Em Hamadán(10), porém, os líderes eclesiásticos da cidade estavam divididos em sua atitude para com ela. Alguns poucos tentaram secretamente provocar o povo e lhe minar o prestígio; outros foram movidos a lhe elogiar abertamente as virtudes e aplaudir a coragem. "Compete-nos," declararam de seus púlpitos esses amigos, "seguirmos seu nobre exemplo e lhe pedir, reverentemente, que nos desvende os mistérios do Alcorão e resolva as complexidades deste Livro Sagrado. Pois nossas mais altas realizações são apenas uma gota em comparação com a imensidade de seu conhecimento." Enquanto Táhirih estava em Hamadán, vieram vê-la aquelas pessoas que seu pai, Hájí Sálih, havia mandado de Qazvín para lhe dar boas vindas e lhe solicitar, em seu nome, que visitasse sua cidade natal e prolongasse sua estada entre eles(11). Embora relutante, ela consentiu. Antes de partir, disse àqueles que a haviam acompanhado do Iraque que procedessem a sua terra natal. Entre estes se achavam Shaykh Sultán, Shaykh Muhammad-i-Shibil e seu jovem filho, Muhammad-Mustafá, 'Abid e seu filho Násir, a quem se deu subseqüentemente o nome de Hájí 'Abbás. Aqueles de seus companheiros que antes residiam na Pérsia, tais como Siyyid Muhammad-i-Gulpáyigání, cujo pseudônimo era Tá'ír e a quem Táhirih dera o nome de Fata'l-Malíh, e outros também, foram aconselhados a regressar a seus lares. Somente dois de seus companheiros com ela permaneceram - Shaykh Sálih e Ibráhím-i-Gulpáyigání, ambos os quais sorveram da taça do martírio, o primeiro em Teerã e o outro em Qazvín. Deu seus próprios parentes, Mirza Muhammad-'Alí, uma das Letras dos Viventes e seu cunhado e Siyyid 'Abdu'l-Hádí, que fora noivo de sua filha, viajaram com ela por todo o caminho de Karbilá a Qazvín.
Assim que chegou na casa de seu pai, seu primo, o arrogante e falso Mullá Muhammad, filho de Mullá Taqí, que se estimava como sendo, depois de seu pai e seu tio, o de maior capacidade entre todos os mujtahids da Pérsia, mandou certas senhoras de seu próprio lar para persuadirem a Táhirih a transferir sua residência da casa de seu pai para a dele. "Que digam a meu presunçoso e arrogante parente," foi sua resposta audaz às mensageiras: "Se tivesse sido seu desejo realmente ser um par e companheiro fiel para mim, teria se apressado a me encontrar em Karbilá e a pé guiado meu howdah(12) por todo o caminho até Qazvín. Eu, enquanto viajávamos juntos, o teria despertado de seu sono de negligência e lhe mostrado o caminho da verdade. Mas isto não tinha que ser. Passaram-se três anos desde nossa separação. Nem neste mundo nem no próximo poderei eu jamais associar-me a você que já está afastado de minha vida para sempre".
Esta resposta tão austera e inexorável incitou tanto Mullá Muhammad como seu pai a uma explosão de fúria. De imediato pronunciaram-na herege e se esforçaram dia e noite para lhe minar a posição e macular a fama. Táhirih defendia-se veementemente e persistia em expor a depravação de seu caráter(13). Seu pai, um homem pacífico e eqüitativo, deplorava essa disputa acrimoniosa e se esforçou para efetuar uma reconciliação e harmonia entre eles, mas falharam seus esforços.
Continuou esse estado de tensão até o tempo em que, no princípio do mês de Ramadán, no ano de 1263 A. H.(14), chegou em Qazvín um certo Mullá 'Abdu'lláh, nativo de Shíráz e fervoroso admirador tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázim. Subseqüentemente, durante seu julgamento em Teerã, na presença do Sáhib-Díván, esse Mullá 'Abdu'lláh contou o seguinte: "Nunca fui Bábí convicto. Quando cheguei em Qazvín, estava em viagem a Máh-Kú, onde pretendia visitar o Báb e investigar a natureza de Sua Causa. No dia de minha chegada em Qazvín, percebi que a cidade estava em grande tumulto. Assim que passei pelo mercado vi um bando de homens brutais que haviam privado um homem de seu turbante e seus sapatos, amarrado em volta de seu pescoço o turbante, pelo qual o arrastavam pelas ruas. Uma multidão enfurecida atormentava-o com ameaças, pancadas e maldições. 'Sua ofensa imperdoável', disseram-me em resposta à minha indagação, 'é que ele se atreveu a elogiar em público as virtudes de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázim. Em conseqüência, Hájí Mullá Taqí, o Hujjátu'l-Islám, o pronunciou herege e decretou sua expulsão da cidade.'
"Espantou-me a explicação que deram. Como poderia um shaykh, pensei comigo, ser considerado herege e julgado digno de tratamento tão cruel? Desejoso de certificar-me da verdade desse boato através do próprio Mullá Taqí, procedi a sua escola e lhe perguntei se havia realmente pronunciado contra ele tal condenação. 'Sim', retrucou, impassível, 'o deus a quem o falecido Shaykh Ahmad-i-Baharayhí adorava é um deus em quem eu jamais poderei crer.' Tanto a ele como a seus seguidores considero as próprias personificações do erro. Senti-me impelido naquele mesmo momento a bater-lhe no rosto na presença de seus discípulos aí reunidos. Restringi-me, no entanto, e fiz votos de, se Deus quiser, lhe furar os lábios com meu dardo, para que nunca mais pudesse pronunciar tal blasfêmia.
"Logo saí de sua presença e dirigi meus passos ao mercado, onde comprei um punhal e uma lâmina de lança do mais aguçado e fino aço. Escondi-os em meu peito, prontos para satisfazer a paixão que dentro de mim ardia. Aguardando minha oportunidade, entrei, uma noite, no masjid onde ele costumava dirigir a congregação em prece. Esperei até a hora da alvorada, quando vi uma mulher idosa entrar no masjid, levando um tapete, o qual estendeu sobre o assoalho do mihráb(15). Pouco depois vi Mullá Taqí entrar sozinho, andar para o mihráb e oferecer sua oração. Cautelosa e quietamente, eu o segui e fiquei em pé atrás dele. Enquanto se prostrava no chão, eu precipitei-me sobre ele, tirei minha lâmina de lança e a mergulhei em seu pescoço. Ele deu um alto grito. Joguei-o de costas e, desembainhando meu punhal, eu o enfiei bem fundo em sua boca. Com o mesmo punhal o bati em vários lugares no peito e no lado, e o deixei sangrando no mihráb.
"Subi imediatamente ao telhado do masjid, donde presenciei o frenesi e a agitação da população. Uma multidão precipitou-se a entrar e, pondo-o numa maca, o transportou até sua casa. Não podendo identificar o assassino, o povo aproveitou da oportunidade para satisfazer seus instintos mais vis. Lançaram-se um contra outro, com violência atacando e acusando-se mutuamente na presença do governador. Ao saber que numerosas pessoas inocentes haviam sido sujeitadas a graves injúrias e aprisionadas, fui impelido pela voz de minha consciência a confessar meu ato. Assim procurei a presença do governador e lhe disse: 'Se eu vos entregar em suas mãos o autor desse assassinato, prometereis por em liberdade todas as pessoas inocentes que estão sofrendo em seu lugar?' Assim que dele obtivera a necessária afirmação, lhe confessei que eu havia cometido o ato. Ele de início não se dispôs a acreditar em mim. A meu pedido, chamou a velhinha que estendera o tapete no mihrab, mas recusou convencer-se pela evidência por ela dada. Fui finalmente conduzido ao leito de Mullá Taqí, que estava prestes a falecer. Logo que me viu, reconheceu minhas feições. Em sua agitação, ele me apontou com o dedo, indicando que eu o atacara. Assinalou seu desejo de que eu fosse retirado de sua presença. Pouco depois, expirou. Eu fui preso imediatamente, sentenciado de assassinato e aprisionado. O governador, entretanto, deixando de cumprir sua promessa, não libertou os presos."
Agradou-se muito o Sáhib-Díván da franqueza e sinceridade de Mullá 'Abdu'lláh. Deu ele pois, ordens secretas a seus guardas para permitirem que escapasse da prisão. À hora de meia-noite, o prisioneiro se refugiou na casa de Ridá Khán-i-Sardár, que havia recentemente se casado com a irmã do Sipah-Sálár e nesta casa ele permaneceu escondido até a grande lugar de Shaykh Tabarsí, quando se determinou a participar da sorte dos heróicos defensores do forte. Ele, bem como Ridá Khán, que o seguiu até Mázindarán, sorveu, afinal, da taça do martírio.
As circunstâncias do assassinato levaram à fúria a ira dos legítimos herdeiros de Mullá Taqí, que agora se determinaram a tomar vingança de Táhirih. Conseguiram que ela fosse confinada estritamente na casa de seu pai e incumbiram aquelas mulheres que eles haviam escolhido para vigiá-la, de não permitirem que sua cativa saísse de seu quarto exceto a fim de fazer suas abluções diárias. Acusaram-na de haver sido realmente a instigadora do crime. "Ninguém, senão tu," asseveraram, "és culpada pelo assassinato de nosso pai. Tu emitiste a ordem de assassinato." Aqueles que foram tomados presos e confinados, eles os conduziram a Teerã, onde os encarceraram na casa de um dos kad-khudás(16) da capital. Os amigos e herdeiros de Mullá Taqí espalharam-se em todas as direções, denunciando seus cativos como repudiadores da lei do Islã e exigindo para eles a pena de morte imediata.
Bahá'u'lláh, que nesse tempo residia em Teerã, foi informado da lastimável situação desses prisioneiros que haviam sido os companheiros e defensores de Táhirih. Como Ele já conhecia o kad-khudá em cuja casa estavam encarcerados, decidiu visitá-los e intervir por eles. Aquele oficial avarento e falso bem consciente da generosidade extrema de Bahá'u'lláh, na esperança de obter para si vantagens pecuniárias substanciais, exagerou muito o infortúnio que sobreviera aos infelizes prisioneiros. "Estão destituídos das mais exíguas necessidades da vida," insistia o kad-khudá. "Estão famintos e suas roupas são miseravelmente inadequadas." Bahá'u'lláh deu assistência financeira imediata para seu alívio e solicitou ao kad-khudá a amenizar a severidade da disciplina sob a qual eram confinados. Este consentiu a que fossem aliviados alguns poucos que não podiam suportar o peso opressivo de suas correntes, e para os outros fez o possível para lhes suavizar o rigor de seu encarceramento. Incentivado por avareza, informou seus superiores da situação e deu ênfase ao fato de terem alimentos, bem como dinheiro, fornecidos regularmente por Bahá'u'lláh para aqueles aprisionados em sua casa.
Esses oficiais foram por sua vez tentados a derivar da liberdade de Bahá'u'lláh toda vantagem possível. Chamaram-No a sua presença, protestaram contra Sua ação, acusaram-No de cumplicidade no ato pelo qual os cativos haviam sido condenados. "O kad-khudá," replicou Bahá'u'lláh, "defendeu diante de Mim a causa deles e discorreu longamente sobre seus sofrimentos e suas necessidades. Ele próprio deu testemunho de sua inocência e a Mim apelou por ajuda. Em retribuição pelo auxílio que em resposta a seu convite, me senti impelido a prestar, vós agora me acusais de um crime do qual sou inocente." Esperando intimidar Bahá'u'lláh com ameaças de punição imediata, recusaram permitir que Ele regressasse a Sua casa. O encarceramento ao qual teve que sujeitar-se foi a primeira aflição que sobreveio a Bahá'u'lláh no caminho da Causa de Deus, o primeiro aprisionamento que sofreu por causa de Seus bem-amados. Permaneceu em cativeiro por poucos dias, até que Já'far-Qulí Khán, irmão de Mirza Áqá Khán-i-Núrí, que mais tarde foi nomeado Grão Vizir do Xá e alguns outros amigos intervieram por Ele e, ameaçando o kad-khudá em linguagem severa, conseguiram efetivar Sua libertação. Aqueles responsáveis por Seu encarceramento haviam confidentemente esperado receber, como recompensa por Sua liberdade, a soma de mil túmáns(17), mas breve descobriram que tinham que se conformar com a vontade de Já'far-Qulí Khán sem esperança de receberem, nem dele, nem de Bahá'u'lláh, a mínima remuneração. Com desculpas profusas e grande pesar, renderam as suas mãos seu Cativo.
Os herdeiros de Mullá Taqí estavam, entrementes, envidando todo esforço para vingar o sangue de seu distinto parente. Não satisfeitos com aquilo que já haviam feito, dirigiram seu apelo ao próprio Muhammad Sháh tentando conquistar sua simpatia para sua causa. Diz-se haver o Xá respondido do seguinte modo: "Vosso pai, Mullá Taqí, seguramente não poderia ter tido pretensão de ser superior ao Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis. E ele não instruiu a seus discípulos que, caso caísse vítima da espada de Ibn-i-Mulham, o assassino, tão somente, deveria expiar com sua morte seu ato, que nenhum outro, senão ele, deveria ser morto? Por que não deve o assassinato de vosso pai ser vingado de modo semelhante? Declarei a mim seu assassino e emitirei minhas ordens para ele ser entregue em vossas mãos para que lhe possais infligir o castigo merecido."
A atitude inflexível do Xá induziu-os a abandonar as esperanças que haviam nutrido. Declararam Shaykh Sálih o assassino de seu pai, conseguiram prendê-lo e ignominiosamente o mataram. Foi ele o primeiro a derramar seu sangue no solo da Pérsia no caminho da Causa de Deus, o primeiro daquela gloriosa companhia destinada a selar com seu sangue vital o triunfo da santa Fé de Deus. Enquanto o conduziam à cena de seu martírio, sua face ardia de zelo e júbilo. Apressou-se ao pé do cadafalso e foi ao encontro de seu algoz como se estivesse dando boas vindas a um amigo querido de toda a vida. Caiam incessantemente de seus lábios palavras de triunfo e de esperança. "Rejeitei," exclamou ele com exultação, ao se aproximar seu fim, "as esperanças e as crenças dos homens desde o momento em que Te reconheci, Tu que és minha Esperança e minha Crença!". Seus restos mortais foram enterrados no pátio do santuário do Imame Zádih Zayd em Teerã.
O ódio insaciável que animava aqueles responsáveis pelo martírio de Shaykh Sálih impeliu-os a procurarem ainda mais instrumentos para a execução de seus desígnios. Hájí Mirza Aqásí, a quem o Sáhib-Díván longrara convencer da conduta pérfida dos herdeiros de Mullá Taqí, recusou atender seu apelo. Não dissuadidos por causa de sua recusa, submeteram seu caso ao Sadr-i-Ardibílí, homem notoriamente presunçoso e um dos mais arrogantes entre os chefes eclesiásticos da Pérsia. "Vede," argüiram, "a indignidade que foi infligida àqueles cuja função suprema é guardar a integridade da Lei. Como podeis vós, que sois seu expoente ilustre e principal, permitir que tão grave afronta para sua dignidade permaneça impune? Sois realmente incapaz de vingar o sangue daquele ministro do Profeta de Deus que foi trucidado? Não compreendeis que o próprio ato de ser tolerado tão abominável crime soltaria uma torrente de calúnia contra aqueles que são os principais repositórios dos ensinamentos e preceitos de nossa Fé? Vosso silêncio não haverá de encorajar os inimigos do Islã a demolirem a estrutura que vossas próprias mãos ergueram? E, em conseqüência, vossa própria vida não serão posta em perigo?"
O Sadr-i-Ardibílí ficou gravemente apreensivo e em sua impotência procurou seduzir seu soberano. Dirigiu a Muhammad Sháh o seguinte pedido: "Humildemente queria eu implorar a Vossa Majestade que permitais que os cativos acompanhem os herdeiros daquele líder martirizado em sua volta a Qazvín, a fim de que estes, de sua espontânea vontade, lhes possam publicamente perdoar sua ação e facilitar a recuperação de sua liberdade. Tal gesto de sua parte haverá de lhes realçar consideravelmente a posição e conquistar a estima de seus compatriotas." O Xá, completamente inconsciente dos malévolos desígnios daquele astucioso conspirador, acedeu de imediato a seu pedido, mas na condição expressa de que lhe fosse enviada de Qazvín uma declaração escrita informando-lhe que a condição dos prisioneiros após sua libertação era inteiramente satisfatória e que não haveria probabilidade de lhes sobrevir qualquer dano no futuro.
Mal foram os cativos entregues nas mãos dos malfeitores, quando estes se puseram a satisfazer seus sentimentos de ódio implacável para com eles. Na primeira noite depois de haverem sido entregues aos seus inimigos. Hájí Asadu'lláh, irmão de Hájí Alláh-Vardí e tio paterno de Muhammad-Hádí e Muhammad-Javad-i-Farhádí, conhecido mercador de Qazvín que havia adquirido uma reputação por piedade e integridade tão alta como a de seu ilustre irmão, foi cruelmente morto. Bem sabendo que em sua própria cidade natal não lhe poderiam infligir o castigo que desejavam, determinaram-se a tirar-lhe a vida enquanto em Teerã, de um modo que os protegesse de suspeita de assassinato. Na hora de meia-noite perpetraram o ato ignominioso e, na manhã seguinte, anunciaram que doença fora a causa de sua morte. Seus amigos e conhecidos, em sua maioria nativos de Qazvín, nenhum dos quais pudera descobrir o crime que havia extinguido uma vida tão nobre, concederam-lhe um enterro digno de sua posição.
Os outros de seus companheiros, entre eles Mullá Táhir-i-Shírází e Mullá Ibráhím-i Mahallatí, ambos muitos estimados por sua erudição bem como por seu caráter, com selvageria foram assassinados logo após sua chegada em Qazvín. A população inteira, que havia sido assiduamente instigada antes, clamava por sua execução imediata. Um bando de facínoras desavergonhados, munidos de facas, espadas, lanças e machados, investiram contra eles e os despedaçaram com tão desenfreada barbaridade que entre seus membros espalhados não se encontrava nenhum fragmento sequer para sepultura.
Deus misericordioso! Atos de tão incrível selvageria foram perpetrados numa cidade como Qazvín, que se orgulha do fato de que nada menos de cem dos mais eminentes eclesiásticos do Islã residem dentro de seus portões e, no entanto, nenhum se encontrava entre todos os seus habitantes para levantar a voz em protesto contra tão revoltantes assassinatos! Ninguém parecia questionar seu direito de perpetrar atos tão iníquos e vergonhosos. Ninguém parecia perceber a incompatibilidade absoluta entre tais atos ferozes cometidos por aqueles que se diziam os repositórios únicos dos mistérios do Islã e a conduta exemplar daqueles que primeiro manifestaram ao mundo a sua luz. Ninguém se sentiu impelido a exclamar com indignação: "Ó malvada e perversa geração! A que profundezas de infâmia e vergonha vos baixastes! As abominações das quais fostes autores não excederam em sua desumanidade os atos dos mais dos vis dos homens? Não quereis reconhecer que nem a ferocidade dos animais selvagens do campo nem a de qualquer coisa que se mova sobre a Terra, jamais igualou aquela que distingui vossos atos? Por quanto tempo haverá de durar vossa negligência? Não é vossa crença que a eficácia de toda oração congregacional depende da integridade daquele que dirige essa oração? Não tendes declarado repetidas vezes que nenhuma dessas orações é aceitável aos olhos de Deus, a menos que e antes que, o imame por quem a congregação é dirigida haja purgado de todo traço de malícia o seu coração? E, no entanto, aqueles que instigam a perpetração de tais atrocidades e nelas participam, não os julgais os verdadeiros dirigentes de vossa Fé, as próprias personificações da eqüidade e da justiça? Não foi as suas mãos que entregastes as rédeas de vossa Causa e não os considerastes os mestres de vossos destinos?"
A notícia desse ultraje chegou a Teerã e se espalhou com espantosa rapidez por toda a cidade. Hájí Mirza Aqásí protestou veementemente. "Em qual passagem do Alcorão," dizem haver ele exclamado, "em qual tradição de Maomé, se justificou o massacre de várias pessoas a fim de vingar o assassinato de uma só?" Muhammad Sháh também expressou forte desaprovação da conduta pérfida do Sadr-i-Ardibílí e seus confederados. Denunciou-lhe a covardia, baniu-o da capital e o condenou a uma vida de obscuridade em Qum. Essa degradação de seu posto causou satisfação imensa ao Grão Vizir, que havia até então laborado em vão para efetivar sua queda, e a quem essa súbita retirada aliviou das apreensões que a extensão de sua autoridade inspirara. Sua própria denúncia do massacre de Qazvín foi motivada não tanto pela sua simpatia com a Causa das vítimas indefesas, como pela esperança de envolver Sadr-i-Ardibílí em tais embaraços que inevitavelmente o tivessem de desonrar aos olhos de seu soberano.
O fato de não haver o Xá e seu governo infligido castigo imediato aos malfeitores os encorajou a procurar ainda mais meios de satisfazer seu implacável ódio aos seus oponentes. Dirigiram agora a atenção à própria Táhirih e resolveram que ela sofresse de suas mãos a mesma sorte que aos companheiros sobreviera. Enquanto ainda presa, Táhirih, assim que foi informada dos desígnios de seus inimigos, dirigiu a seguinte mensagem a Mullá Muhammad, que sucedera à posição do seu pai e estava agora reconhecido como o Imame Jum'ih de Qazvín: " 'De bom grado com as bocas extinguiriam a luz de Deus, mas Deus só desejava aperfeiçoar Sua luz, embora os infiéis a abominem(18).' Se minha Causa é a Causa da Verdade, se o Senhor a quem adoro não for outro, senão o Deus Uno e Verdadeiro, Ele, antes de haverem passado nove dias, me livrará do julgo de vossa tirania. Se Ele falhar, se não efetivar minha libertação, estareis livres para agirdes como desejardes. Havereis estabelecido irrevogavelmente a falsidade de minha crença." Mullá Muhammad, reconhecendo sua incapacidade para aceitar um desafio tão audaz, não se dignou de tomar conhecimento algum dessa mensagem e tentou por todos os meios astutos executar seu propósito.
Naqueles dias, antes de soar a hora por Táhirih fixada para sua libertação, Bahá'u'lláh indicou Seu desejo de livrá-la do cativeiro e trazê-la a Teerã. Determinou-se a estabelecer, aos olhos do adversário, a verdade das palavras de Táhirih e a frustrar os ardis que os inimigos haviam concebido para sua morte. Assim, pois, foi chamado a Sua presença Muhammad Hádíy-i-Farhádí, a quem foi confiada a tarefa de efetivar a transferência imediata de Táhirih à própria residência de Bahá'u'lláh em Teerã. Muhammad-Hádí foi incumbido de entregar à esposa, Khátún-Ján, uma carta selada e lhe dar instruções para seguir, disfarçada como mendiga, para a casa em que Táhirih estava confinada e entregar em suas mãos a carta, depois do qual deveria esperar um pouco na entrada da casa, até que Táhirih viesse e então apressar-se em a levar e a confiar aos cuidados dele. "Assim que Táhirih estiver em tua companhia," exortou Bahá'u'lláh ao emissário, "deverás partir imediatamente para Teerã. Nesta noite mesma, expedirei às cercanias do portão de Qazvín um subordinado meu com três cavalos, os quais levarás e permanecerás em lugar que será por ti escolhido fora dos muros de Qazvín. A esse lugar deverás conduzir Táhirih, onde montarão os cavalos e, por um caminho pouco freqüentado, esforçar-te a alcançar na hora do amanhecer as imediações da capital. Logo que se abrirem os portões, deverás entrar na cidade e seguir logo a Minha casa. A máxima cautela deve ser exercida para que a identidade de Táhirih não seja revelada. O Todo-poderoso haverá seguramente de te guiar os passos e te cercar de Sua infalível proteção."
Fortificado por essa afirmação de Bahá'u'lláh, Muhammad-Hádí prontamente partiu a fim de levar a cabo as instruções que recebera. Sem que qualquer empecilho o obstruísse, desempenhou sua tarefa, hábil e fielmente, conseguindo entregar Táhirih com segurança, na hora marcada, na casa de seu Mestre. Seu súbito e misterioso desaparecimento de Qazvín encheu de consternação amigos e inimigos igualmente. Inútil foi sua busca nas casas durante toda a noite, e frustrados foram seus esforços por encontrá-la. Até os mais céticos entre os oponentes ficaram atônitos diante do cumprimento da predição por ela pronunciada. Alguns poucos vieram a perceber o caráter sobrenatural da Fé por ela esposada e, contentes, aquiesceram em suas pretensões. Mirza 'Abdu'l-Vahháb, seu próprio irmão, naquele mesmo dia admitiu a verdade da Revelação, mas pelos atos subseqüentemente deixou de demonstrar a sinceridade de sua crença(19).
A hora que Táhirih fixara para sua libertação já a encontrou seguramente estabelecida à sombra protetora de Bahá'u'lláh. Bem sabia ela em cuja presença fora admitida; profundamente consciente estava do caráter sagrado da hospitalidade que tão benevolamente lhe havia sido concedida(20). Assim como acontecera com sua aceitação da Fé proclamada pelo Báb, quando ela, sem ser admoestada ou chamada, saudou Sua Mensagem e lhe reconhecer a verdade, do mesmo modo percebia ela por seu próprio conhecimento intuitivo, a futura glória de Bahá'u'lláh. Foi no ano de 1260, enquanto em Karbilá, que em suas odes se referiu a seu reconhecimento da Verdade a ser por Ele revelada. A mim mesmo foram mostrados em Teerã, na casa de Siyyid Muhammad, a quem Táhirih denominara Fata'l-Malíh, os versos que por seu próprio punho escrevera, cada letra dos quais dava eloqüente testemunho de sua fé nas exaltadas Missões tanto do Báb como de Bahá'u'lláh. Ocorre nessa ode o seguinte verso: "A fulgência da Beleza de Abhá penetrou o véu da noite; eis as almas dos que O amam, dançando, feitas partículas de pó na luz que de Sua face lampejou!" Foi por estar firmemente convicta do invencível poder de Bahá'u'lláh que se sentiu impelida a pronunciar com tanta confiança sua predição e a lançar na face dos inimigos seu desafio tão audaz. Nada menos que uma fé inabalável na infalível eficácia desse poder a teria induzido nas mais tenebrosas horas de seu cativeiro, a asseverar com tamanha coragem e certeza que estava próxima sua vitória.
Poucos dias após a chegada de Táhirih em Teerã, Bahá'u'lláh decidiu mandá-la a Khurásán na companhia dos crentes que estavam se preparando para ir a essa província. Ele também se determinara a deixar a capital e seguir na mesma direção alguns dias depois. Assim, pois, chamou Aqáy-i-Kalím e lhe disse que tomasse de imediato as medidas necessárias para assegurar a transferência de Táhirih, com sua acompanhante, Qánitih, a um lugar fora do portão da capital, donde, mais tarde, procederiam a Khurásán. Preveniu-o que exercesse extremo cuidado e vigilância para que os guardas estacionados na entrada da cidade e que tinham ordens de não permitirem a passagem de mulheres pelos portões sem uma licença, não descobrissem sua identidade e lhe impedissem a partida.
Tenho ouvido Aqáy-i-Kalím contar o seguinte: "Pondo nossa confiança em Deus, saímos montados, Táhirih, sua acompanhante e eu, a um lugar nas imediações da capital. Nenhum dos guardas estacionados no portão de Shimirán fez a mínima objeção, nem indagaram eles a respeito de nosso destino. A uma distância de dois farsangs(21) da capital, apeamos no meio de um pomar abundantemente abastecido de água e situado ao pé de uma montanha e em cujo centro havia uma casa que parecia completamente abandonada. Indo a procura do proprietário, encontrei por acaso um velho ocupado em regar suas plantas. Em resposta a minha pergunta, explicou ele que uma disputa surgira entre o dono e seus inquilinos, em conseqüência da qual os ocupantes haviam abandonado o lugar. 'Pediu-me o dono,' acrescentou, 'que guardasse a propriedade até se resolver a disputa.' Muito me contentou essa informação e o convidei a participar conosco de nosso almoço. Quando mais tarde decidi ir a Teerã, ele consentiu em vigiar e proteger Táhirih e sua acompanhante. Ao entregá-las a seu cuidado, eu lhe assegurei que voltaria àquela noite, eu mesmo, ou enviaria uma pessoa de confiança a quem eu seguiria na manhã seguinte com todos os requisitos para a viagem a Khurásán.
"Ao chegar em Teerã, mandei para onde estava Táhirih, Mullá Báqir, uma das Letras dos Viventes com um acompanhante. Informei Bahá'u'lláh de sua partida, sã e salva, da capital. Muito O contentou a informação que Lhe dei e Ele denominou aquele pomar 'Bágh-i-Jannat'(22). 'Aquela casa', comentou, 'foi providencialmente preparada para sua recepção, a fim de que nela fossem acolhidos os bem-amados de Deus.'
"Demorou-se sete dias Táhirih, nesse lugar, depois do qual partiu, acompanhada de Muhammad-Hasan-i-Qazvíní, de sobrenome Fatá e alguns outros, em direção a Khurásán. Ordenou-me Bahá'u'lláh que arranjasse tudo para sua partida, providenciando qualquer coisa que pudesse ser necessária para a viagem."
CAPÍTULO XVI
A CONFERÊNCIA DE BADASHT
Poucos dias depois de Táhirih iniciar sua jornada, Bahá'u'lláh ordenou a Aqáy-i-Kalím que completasse os necessários preparativos para Sua projetada partida para Khurásán. A seu cuidado entregou os membros de Sua família, pedindo-lhe que providenciasse tudo o que lhes pudesse assegurar bem-estar e segurança.
Quando chegou em Sháh-Rúd, Bahá'u'lláh foi recebido por Quddús, que deixara Mashhad, onde residia e viera Lhe dar boas vindas ao saber de Sua aproximação. A província inteira de Khurásán estava, naqueles dias, passando pela angústia de uma violenta agitação. As atividades que Quddús e Mullá Husayn haviam iniciado, seu zelo, sua coragem, sua linguagem franca, despertaram o povo de sua letargia, acendendo nos corações de alguns os mais nobres sentimentos de fé e devoção e nos peitos de outros, provocando os instintos de apaixonado fanatismo e malícia. Numerosos inquiridores constantemente afluíam de todas as direções a Mashhad, ansiosamente procurando a residência de Mullá Husayn e sendo por ele conduzido à presença de Quddús.
Muito breve a tais proporções se elevou seu número, que isso excitou a apreensão das autoridades. O chefe de polícia via com preocupação e consternação as multidões de pessoas agitadas que incessantemente afluíam a todas as partes da cidade santa. Em seu desejo de assegurar seus direitos, intimidar Mullá Husayn e induzi-lo a restringir o âmbito de suas atividades, emitiu ordens para prender imediatamente o servo especial dele, de nome Hasan, e sujeitá-lo a tratamento cruel e ignominioso. Furaram-lhe o nariz, passaram uma corda pela incisão e com esta como cabresto, pelas ruas o conduziram e exibiram.
Mullá Husayn estava na presença de Quddús quando lhe veio a notícia da aflição infame que a seu servo sobreviera. Receando que se tornasse pesaroso o coração de seu amado chefe, ao saber dessa triste ocorrência, levantou-se e se retirou em silêncio. Breve seus companheiros se reuniram a seu redor, expressaram sua indignação por aquele ataque atroz contra esse tão inocente seguidor de sua Fé e lhe solicitaram que vingasse o ultraje. Mullá Husayn tentou lhes mitigar a ira. "Não deixeis vos afligir e perturbar," exortava ele, "por causa da indignidade que sucedeu a Hasan, pois Husayn está ainda convosco e o entregará em vossas mãos são e salvo amanhã."
Em face de tão solene afirmação, seus companheiros não se aventuraram a comentar mais. Ardiam-lhes os corações, entretanto, com impaciência para reparar aquela injúria amarga. Alguns afinal, decidiram juntar-se e levantar altamente, pelas ruas de Mashhad, o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!"(1), como protesto contra aquela repentina afronta à dignidade de sua Fé. Foi esse brado o primeiro de seu gênero a ser erguido em Khurásán em nome da Causa de Deus. A cidade retumbava com o som daquelas vozes. Os ecos de seus brados alcançaram até às regiões mais distantes da província, erguendo nos corações do povo em grande tumulto e foram o sinal para os tremendos acontecimentos destinados a vir no futuro.
Em meio à confusão que se seguiu, aqueles que seguravam o cabresto pelo qual arrastavam Hasan pelas ruas, pereceram pela espada. Os companheiros de Mullá Husayn conduziram a sua presença o cativo já liberto e lhe informaram da sorte que havia sobrevindo ao opressor. "Recusastes," diz-se haver Mullá Husayn comentado, "tolerar as provações às quais foi Hasan sujeitado; como podereis vos reconciliar com o martírio de Husayn?(2)"
A cidade de Mashhad, que acabava de recuperar sua paz e tranqüilidade após a rebelião que o Sálár provocara, mergulhou-se novamente em confusão e angústia. O Príncipe Hamzih Mirza estacionara com suas tropas e munições a uma distância de quatro farsangs(13) da cidade, pronto para enfrentar qualquer emergência que surgisse, quando, de repente, lhe veio a notícia desses novos distúrbios. De imediato expediu ele um destacamento à cidade, com instruções para obter a assistência do governador na apreensão de Mullá Husayn e conduzi-lo a sua presença. 'Abdu'l-'Alí Khán-i-Marághiyí, capitão da artilharia do príncipe, imediatamente interviu. "Julgo-me," apelou ele, "um dos que amam e admiram Mullá Husayn. Se vós pensais em lhe infligir qualquer mal, imploro-vos que tomeis minha vida e então procedais a executar vosso desígnio, pois eu, enquanto viver, não poderei tolerar o menor desrespeito para com ele."
O príncipe, que bem sabia quanto necessitava desse oficial, sentiu-se muito embaraçado diante dessa inesperada declaração. "Também já encontrei Mullá Husayn," foi sua resposta, em sua tentativa de remover a apreensão de 'Abdul-'Alí Khán. "Eu também lhe nutro a maior devoção. Chamando-o a meu acampamento, espero restringir o âmbito dos distúrbios que têm sido provocados e salvaguardar sua pessoa." O príncipe então dirigiu a Mullá Husayn, por seu próprio punho, uma carta na qual mostrou quanto era desejável que transferisse sua residência por alguns dias a seu quartel e lhe assegurava seu sincero desejo de protegê-lo contra os ataques de seus oponentes enfurecidos. Ordenou que sua própria tenda, belamente ornamentada, fosse erguida na vizinhança de seu acampamento e reservada para a recepção do hóspede esperado.
Ao receber essa comunicação, Mullá Husayn a apresentou a Quddús, quem lhe aconselhou que respondesse ao convite do príncipe. "Nenhum mal te pode suceder," Quddús lhe assegurou. "Quanto a mim, nesta mesma noite partirei na companhia de Mirza Muhammad-'Alíy-i-Qazvíní, uma das Letras dos Viventes, para Mázindarán. Queira Deus, tu também, mais tarde, chefiando uma grande companhia dos fiéis e precedido pelos 'Estandartes Negros' partirás de Mashhad e virás a mim. Haveremos de nos encontrar em qualquer lugar que o Todo-poderoso tenha decretado."
Jubilosamente Mullá Husayn respondeu. Prostrou-se aos pés de Quddús e lhe assegurou sua firme determinação de cumprir com fidelidade as obrigações que ele lhe impusera. Quddús abraçou-o afetuosamente e, beijando-lhe os olhos e a testa, o entregou à infalível proteção do Todo-poderoso. Cedo naquela mesma tarde, Mullá Husayn, montando seu corcel, seguiu com dignidade e calma ao acampamento do Príncipe Hamzih Mirza e foi cerimoniosamente conduzido por 'Abdu'-l'Alí Khán, que juntamente com vários outros oficiais fora designado pelo príncipe para ir a seu encontro e lhe dar boas vindas, à tenda que havia sido erigida especialmente para seu uso.
Naquela mesma noite Quddús chamou a sua presença Mirza Muhammad-Báqir-i-Qá'iní, que construíra o Bábíyyih, juntamente com alguns dos mais proeminentes dentre seus companheiros e os incumbiu de prestarem inquestionável lealdade a Mullá Husayn e lhe obedecerem em tudo o que ele desejasse que fizessem. "Turbulentas são as tempestades que estão a nossa frente", disse-lhes. "Os dias tensos, de violenta comoção, rapidamente se aproximam. Aderi a ele, pois em obediência a seu mando está vossa salvação."
Com estas palavras despediu-se Quddús de seus companheiros e, acompanhado por Mirza Muhammad-'Alíy-i-Qazvíní, partiu de Mashhad. Poucos dias depois, encontrou com Mirza Sulaymán-i-Núrí, quem lhe informou das circunstâncias que atendiam a libertação de Táhirih de seu encarceramento em Qazvín, de sua viagem em direção a Khurásán e da subseqüente partida de Bahá'u'lláh da capital. Mirza Sulaymán, bem como Mirza Muhammad 'Alí, permaneceu na companhia de Quddús até que chegaram em Badasht. Alcançaram essa aldeia na hora do alvorecer e aí encontraram reunidas muitas pessoas a quem reconheceram como seus irmãos de crença. Decidiram, entretanto, continuar sua viagem e assim procederam diretamente a Sháh-Rúd. Quando se aproximavam dessa aldeia, Mirza Sulaymán, que estava seguindo a uma distância atrás deles, encontrou Muhammad-i-Haná-Sáb, que estava viajando a Badasht. Ao indagar sobre o objetivo dessa reunião, Mirza Sulaymán foi informado de que Bahá'u'lláh e Táhirih, poucos dias antes, haviam deixado Sháh-Rúd para essa aldeia; que um grande número de crentes já havia chegado de Isfáhán, Qazvín e outras cidades da Pérsia, e esperavam acompanhar Bahá'u'lláh em Sua projetada jornada a Khurásán. "Diga a Mullá Ahmad-i-Ibdál, que está agora em Badasht," disse Mirza Sulaymán, "que nesta mesma manhã brilhou sobre vós uma luz cujo esplendor deixastes de reconhecer(4)."
Bahá'u'lláh, logo que foi informado por Muhammad-i-Haná-Sáb da chegada de Quddús em Sháh-Rúd, decidiu ir a seu encontro. Acompanhado por Mullá Muhammad-i-Mu'allim-i-Núrí, partiu a cavalo naquela mesma noite para essa aldeia e na manhã seguinte, na hora do nascer do sol, já havia regressado a Badasht com Quddús.
Era o início do verão. Ao chegar, Bahá'u'lláh alugou três jardins, um dos quais designou exclusivamente ao uso de Quddús, outro separou para Táhirih e sua acompanhante e o terceiro reservou para si próprio. Aqueles que se haviam reunido em Badasht eram oitenta e um em número, todos os quais, desde o tempo de sua chegada até o dia de sua dispersão, foram hóspedes de Bahá'u'lláh. Todos os dias revelava Ele uma Epístola que Mirza Sulaymán-i-Núrí entoava na presença dos crentes reunidos. A cada um conferiu Ele um novo nome. Ele Próprio foi daí em diante designado pelo nome de Bahá; à última Letra dos Viventes foi conferido o título de Quddús e a Qurratu'l-Ayn o título de Táhirih. O Báb subseqüentemente revelou uma Epístola especial a cada um dos que se haviam reunido em Badasht, dirigindo-se a cada um pelo nome que lhe fora recentemente conferido. Quando, em época posterior, alguns dos mais rígidos e conservadores dentre os co-discípulos se dignaram de acusar Táhirih de rejeitar indiscretamente as consagradas tradições do passado, o Báb, a quem foram dirigidas essas queixas, nos seguintes termos replicou: "Que haverei eu de dizer a respeito daquela a quem a Língua de Poder e Glória denominou Táhirih (a Pura)?"
Cada dia dessa memorável reunião testemunhou a ab-rogação de mais uma lei e o repúdio a uma tradição desde muito estabelecida. Os véus que guardavam a santidade dos preceitos do Islã foram inexoravelmente rompidos e os ídolos que desde tanto tempo reclamavam a adoração de seus devotos cegos foram bruscamente demolidos. Qual a Fonte, porém, donde procediam essas inovações audazes e desafiadoras, ninguém sabia; qual a Mão que constante e infalivelmente lhes dirigia o curso, ninguém suspeitava. Até a identidade Daquele que conferira um novo nome a cada um dos congregados nessa aldeia permanecia desconhecida àqueles que os haviam recebido. Cada um conjeturava de acordo com seu grau de entendimento. Poucos, acaso alguns, tenuemente desconfiavam ser Bahá'u'lláh o Autor das modificações de vasto alcance que tão destemidamente se introduziam.
Shaykh Abú-Turáb, um dos mais informados quanto à natureza dos desenvolvimentos em Badasht, contou - segundo dizem - o seguinte incidente: "Um mal estar, um dia, confinou Bahá'u'lláh a Seu leito. Quddús, ao saber de Sua indisposição, apressou-se logo a visitá-Lo. Quando foi conduzido a Sua presença, sentou-se à direita de Bahá'u'lláh. Os outros companheiros foram pouco a pouco admitidos a Sua presença e se agruparam a Seu redor. Mal se haviam reunido quando de repente entrou Muhammad-Hasan-i-Qazvíní, mensageiro de Táhirih, recém-denominada Fata'l-Qazvíni, que trazia a Quddús um convite premente de Táhirih para visitá-la em seu próprio jardim. 'Dela já me desliguei inteiramente,' foi sua resposta audaz e decisiva. 'Com ela me recuso a encontrar(5).' O mensageiro logo se retirou, mas breve veio novamente, reiterando a mesma mensagem e apelando para ele que lhe atendesse o chamado urgente. 'Ela insiste em vossa visita,' foram suas palavras. 'Se persistirdes em vossa recusa, ela mesma virá até vós.' Percebendo sua atitude inexorável, o mensageiro desembainhou a espada e a pôs aos pés de Quddús, dizendo: 'Recuso ir sem vós. Ou dignai-vos em me acompanhar à presença de Táhirih, ou me cortai a cabeça com esta espada.' 'Já declarei minha intenção de não visitar Táhirih,' retrucou Quddús irosamente. 'Disposto estou a ceder à alternativa que te dignaste a me apresentar.'
"Muhammad-Hasan, que se sentara aos pés de Quddús, havia estendido o pescoço para receber o golpe fatal, quando de súbito a figura de Táhirih, adornada e desvelada, apareceu diante dos olhos dos companheiros reunidos. Consternação de imediato se apoderou da assembléia inteira(6). Atônitos estavam todos diante dessa repentina e totalmente inesperada aparição. Contemplar-lhe a face sem véu lhes era inconcebível. Até fitar sua sombra era coisa por eles julgada imprópria, desde que a consideravam a verdadeira encarnação de Fátimih(7), aos seus olhos o mais nobre emblema da castidade.
"Quieta, silenciosamente e com a maior dignidade, Táhirih avançou e, indo em direção a Quddús, sentou-se a sua direita. Sua impertubável serenidade estava em nítido contraste com os semblantes assustados dos que lhe contemplavam a face. Medo, ira e perplexidade agitavam as profundezas de suas almas. Essa súbita revelação parecia haver lhes atordoado as faculdades. 'Abdu'l-Kháliq-i-Isfáhání tão severamente abalado estava que cortou sua garganta com as próprias mãos. Coberto de sangue e com gritos de agitação, fugia da face de Táhirih. Alguns outros, seguindo-lhe o exemplo, abandonaram os companheiros e renunciaram à sua Fé. Alguns foram vistos em pé mudos diante dela, confundidos com espanto. Quddús, entremente, permanecera sentado em seu lugar, segurando na mão a espada desembainhada, enquanto o rosto demonstrava um sentido de ira inexpressível. Parecia estar esperando o momento em que pudesse infligir a Táhirih o golpe fatal.
"Sua atitude ameaçadora, entretanto, não conseguia movê-la. Seu semblante mostrava aquela mesma dignidade e confiança evidenciadas no primeiro momento de sua aparição perante os crentes reunidos. Um sentimento de júbilo e triunfo agora lhe iluminava a face. Levantou-se ela de seu assento e, não impedida pelo tumulto que provocara nos corações de seus companheiros, começou a dirigir-se aos que restavam daquela assembléia. Sem a mínima premeditação e em linguagem que mostrava uma semelhança impressionante àquela do Alcorão, fez seu apelo com inigualável eloqüência e fervor profundo. Concluiu o discurso com este versículo do Alcorão: 'Verdadeiramente, em meio a jardins e rios haverão os piedosos de habitar, no assento da verdade, na presença do Rei potente.' Ao pronunciar estas palavras, lançou um olhar furtivo em direção tanto de Bahá'u'lláh como de Quddús, de tal maneira que os que isto presenciavam não podiam dizer a qual dos dois se referia. Imediatamente depois, declarou: 'Sou o Verbo que o Qá'im há de pronunciar, o Verbo que porá em debandada os chefes e nobres da Terra.'(8)
"Virou-se então para Quddús e o repreendeu por haver deixado de cumprir em Khurásán o que ela julgara essencial ao bem-estar da Fé. "Estou livre para seguir as instâncias de minha própria consciência," retrucou Quddús. "Não estou sujeito à vontade e ao bel-prazer de meus companheiros. Retirando dele seu olhar, Táhirih convidou aqueles presentes a celebrarem de um modo digno esta grande ocasião. "Este dia é o dia de festividade e regozijo universal," acrescentou, "o dia em que os grilhões do passado são rompidos. Que os que participaram nesta grande realização se levantem e abracem uns aos outros."
Aquele dia memorável e os que imediatamente o seguiram testemunharam os modificações mais revolucionárias na vida e nos hábitos dos seguidores reunidos do Báb. Seu modo de adorar passou por uma transformação súbita e fundamental. Foram irrevogavelmente rejeitadas as orações e cerimônias pelas quais aqueles devotos haviam sido disciplinados. Grande confusão, entretanto prevalecia entre aqueles que tão zelosamente haviam levantado a fim de advogar essas reformas. Alguns poucos condenavam uma mudança tão radical, como sendo a essência da heresia, e se recusaram a anular o que consideravam ser os invioláveis preceitos do Islã. Alguns aceitavam Táhirih como o juiz único e a única pessoa qualificada para demandar dos fiéis obediência implícita. Outros que denunciaram sua conduta aderiram a Quddús, a quem consideravam como o único representante do Báb, o único que tinha o direito de pronunciar sobre assuntos tão importantes. Ainda outros que reconheciam a autoridade tanto de Táhirih como de Quddús viam o episódio todo como uma provação mandada por Deus designada para separar o verdadeiro do falso e distinguir os fiéis dos desleais.
A própria Táhirih se aventurou em algumas ocasiões a repudiar a autoridade de Quddús. "Julgo-o," dizem haver ela declarado, "um discípulo a quem o Báb me mandou edificar e instruir. Não o vejo a outra luz." Quddús, por sua parte, não deixou de denunciar Táhirih como "a autora de heresia" e aqueles que lhe advogavam as opiniões ele os estigmatizava como "as vítimas do erro". Esse estado de tensão persistiu por alguns dias até que Bahá'u'lláh interviu e, de Sua maneira magistral, efetivou uma reconciliação completa entre eles. Saneou Ele as feridas causadas por aquela controvérsia áspera e os esforços de ambos Ele dirigiu ao caminho do serviço construtivo(9).
Atingira-se o objetivo daquela memorável reunião(10). O toque de clarim da nova Ordem soara. As convenções obsoletas que haviam agrilhoado as consciências dos homens foram audazmente desafiadas e intrepidamente abolidas. Desobstruíra-se o caminho para a proclamação das leis e dos preceitos destinados a conduzir a nova Era. Os que restavam dos companheiros congregados em Badasht decidiram, pois, partir para Mazindárán. Quddús e Táhirih sentaram-se no mesmo howdah(11), preparado para sua viagem por Bahá'u'lláh. No caminho, Táhirih cada dia compunha uma ode que, segundo suas instruções, era entoada por aqueles que a acompanhavam, enquanto seguiam seu howdah. Montanha e vale escoavam os brados com os quais aquele grupo entusiástico, enquanto viajava a Mazindárán, saudava a extinção do velho Dia e o nascimento do Novo.
De vinte e dois dias foi a duração da estada de Bahá'u'lláh em Badasht. Alguns poucos dos seguidores do Báb durante sua viagem a Mázindárán tentaram abusar da liberdade que o repúdio às leis e sanções de uma Fé obsoleta lhes conferira. Viram o ato sem precedentes da parte de Táhirih, o de abandonar o véu, como sinal para transgredir os limites da moderação e satisfazer seus desejos egoístas. Os excessos aos quais alguns poucos chegaram provocaram a ira do Todo-Poderoso e causou sua dispersão imediata. Na vila de Níyálá, passaram por penosas provações, sofrendo feridas severas nas mãos de seus inimigos. Essa dispersão extinguiu o mal que alguns irresponsáveis entre os aderentes da Fé haviam tentado incitar, e Lhe preservou imaculadas a honra e dignidade.
Tenho ouvido o próprio Bahá'u'lláh descrever esse incidente: "Estávamos todos reunidos na aldeia de Níyálá e descansando ao pé de uma montanha, quando, na hora do alvorecer, fomos repentinamente acordados pelas pedras que o povo da vizinhança estava jogando contra nós do cume da montanha. A ferocidade de seu ataque induziu nossos companheiros a fugir em terror e consternação. Vesti Quddús em minhas próprias roupas e o mandei a um lugar seguro, aonde eu pretendia ir a seu encontro. Ao chegar, vi que ele tinha ido embora. Não havia permanecido em Níyalá nenhum de nossos companheiros, exceto Táhirih e um jovem de Shíráz, Mirza 'Abdu'lláh. A violência com que fomos agredidos havia trazido desolação a nosso acampamento. Pessoa alguma pude eu encontrar em cuja custódia pudesse entregar Táhirih, a não ser aquele jovem que, nessa ocasião, mostrou uma coragem e uma determinação verdadeiramente admiráveis. Espada em mão, destemido em face do selvagem assalto dos habitantes da aldeia, que precipitava para saquear nossa propriedade, ele avançou para deter a mão dos agressores. Embora ele mesmo estivesse ferido em várias partes do corpo, arriscava a vida para proteger nossa propriedade. Eu lhe mandei desistir de fazê-lo. Após haver cessado o tumulto, aproximei-me de alguns dos habitantes da aldeia e pude convencê-los da crueldade e ignomínia de sua conduta. Subseqüentemente consegui recuperar uma parte de nossa propriedade saqueada."
Bahá'u'lláh juntamente com Táhirih e sua acompanhante, seguiram para Núr. Shaykh Abú-Turáb foi por Ele escolhido para vigiá-la e garantir sua proteção e segurança. Entrementes se esforçavam os malfeitores para incendiar a ira de Muhammad Sháh contra Bahá'u'lláh e, apontando-O como principal instigador dos distúrbios de Sháh-Rúd e Mázindárán, consegui, afinal, induzir o soberano a mandar prendê-Lo. "Até agora," dizem haver o Xá irosamente comentado, "recusei sancionar qualquer culpa que lhe atribuíssem. O que motivou minha indulgência foi meu reconhecimento dos serviços que a meu país seu pai prestara. Desta vez, porém, me determinei a mandar executá-lo."
Assim, pois, mandou um dos oficiais em Teerã dar instruções a seu filho que residia em Mázindárán para prender Bahá'u'lláh e conduzi-Lo à capital. O filho desse oficial recebeu a comunicação justamente no dia antes da recepção que preparara em homenagem a Bahá'u'lláh, a quem tinha grande devoção. Profundamente se afligiu, mas não divulgou a notícia a ninguém. Bahá'u'lláh, entretanto, percebeu sua tristeza e o aconselhou a colocar sua confiança em Deus. No dia seguinte, enquanto Bahá'u'lláh estava sendo acompanhado por Seu amigo a sua casa, encontraram um cavaleiro que vinha de Teerã. "Muhammad Sháh está morto!" Exclamou o amigo no dialeto de Mázindárán, voltando apressadamente a Ele, após breve conversação com o mensageiro. Tirou a intimação imperial e a mostrou. Perdera o documento sua eficácia. Aquela noite foi passada na companhia de seu hóspede numa atmosfera de ininterrupta calma e alegria.
Nesse meio tempo havia Quddús caído nas mãos de seus oponentes e sido confinado em Sárí na casa de Mirza Muhammad-Taqí, principal mujtahid daquela cidade. Os companheiros restantes, após sua dispersão em Níyálá, se haviam espalhado em várias direções, levando cada um de seus correligionários as notícias dos momentosos acontecimentos de Badasht.
CAPÍTULO XVII
O ENCARCERAMENTO DO Báb NA FORTALEZA DE CHIHRÍQ
O incidente de Níyálá ocorreu em meados do mês de Sha'bán, no na de 1264 A.H.(1) Perto do fim desse mesmo mês, foi o Báb levado a Tabríz, onde sofreu nas mãos de Seus opressores uma injúria severa e humilhante. Essa deliberada afronta à Sua dignidade quase se sincronizou com o ataque dirigido pelos habitantes de Níyálá contra Bahá'u'lláh e Seus companheiros. Um foi apedrejado por um povo ignorante e pugnaz; o outro castigado a bastonada por um cruel e traiçoeiro inimigo.
Relatarei agora as circunstâncias que levaram àquela odiosa indignidade que os perseguidores do Báb se dignaram de Lhe infligir. Segundo as ordens emitidas por Hájí Mirza Áqásí, fora Ele transferido à fortaleza de Chihríq(2) e entregue à guarda de Yahyá Khán-i-Kurd, cuja irmã era esposa de Muhammad Sháh, a mãe de Náyi bu's-Saltanih. Estritas e explícitas instruções foram dadas pelo Grão-Vizir a Yahyá Khán, ordenando-lhe que a ninguém permitisse entrar na presença de seu Prisioneiro. Foi advertido especialmente que não seguisse o exemplo de 'Alí Khán-i-Máhkú-í, que pouco a pouco havia sido levado a desatender as ordens recebidas(3).
A despeito do caráter enfático dessa injunção e em face da inexorável oposição do onipotente Hájí Mirza Aqásí, Yahyá Khán se achou impotente para seguir aquelas instruções. Ele também, logo veio a sentir a fascinação de seu Prisioneiro e, assim que entrou em contato com Seu espírito, se esqueceu do dever que lhe fora ordenado cumprir. Desde o início, o amor do Báb lhe penetrou o coração e conquistou todo o seu ser. Os curdos que viviam em Chihríq, e cujo fanatismo e ódio dos xiitas excediam a aversão que os habitantes de Máh-Kú lhes tinham, foram igualmente sujeitados à transformadora influência do Báb. Tal foi o amor por Ele ateado em seus corações que toda manhã antes de saírem para o trabalho diário, dirigiam os passos à Sua prisão e, fitando de longe a fortaleza que continha o Ente bem-amado, Lhe invocavam o nome e suplicavam Suas bênçãos. Prostravam-se no chão e procuravam refrescar suas almas com a lembrança D'Ele. Relatavam livremente, um ao outro, as maravilhas de Seu poder e glória e contavam os sonhos que davam testemunho do poder criador de Sua influência. A ninguém recusava Yahyá Khán entrada na fortaleza(4). Como Chihríq não tinha capacidade para acomodar o crescente número de visitantes que afluíam aos seus portões, facilitou-lhes a obtenção do alojamento necessário em Iskí-Shahr, a antiga Chihríq, situada à distância de uma hora da fortaleza. Quaisquer provisões requisitadas para o Báb eram compradas na velha cidade e transportadas à Sua prisão.
O Báb, um dia, pedira que lhe fosse comprado algum mel, mas o preço pago lhe parecia exorbitante. Recusou-o, dizendo: "Mel de qualidade superior poderia ter sido comprado, sem dúvida, por um preço menor. Eu que sou vosso exemplo tenho sido mercador de profissão. Incumbe-vos em todas as transações seguir Meu modo. Não deveis fraudar vosso próximo, nem permitir que ele vos fraude. Tal foi o modo de vosso Mestre. Os mais astutos e capazes dos homens não O puderam enganar, nem Ele por Sua parte se dignava de agir de um modo pouco generoso para com as mais desprezíveis e desamparadas das criaturas." Insistiu em que o servo que fizera a compra voltasse e Lhe trouxesse um mel de qualidade superior e preço menos caro.
Durante o cativeiro do Báb na fortaleza de Chihríq, acontecimentos de caráter assustador causaram ao governo grave inquietação. Breve se tornou evidente que alguns dos mais eminentes entre os siyyids, os ulemás e os oficiais de governo de Khuy haviam abraçado a Causa do Prisioneiro e se identificado completamente com Sua Fé. Entre estes se encontravam Mirza Muhammad-'Alí e seu irmão Búyuk-Áqá, sendo ambos siyyids de distinto mérito que se haviam levantado com ardente fervor para proclamar sua Fé a toda espécie e classe de pessoas entre seus compatriotas. Uma corrente contínua de inquiridores e crentes confirmados fluía em ambas as direções entre Khuy e Chihríq, em conseqüência de tais atividades.
Aconteceu nesse tempo que um proeminente oficial de grandes dotes literários, Mirza Asadu'lláh, a quem mais tarde o Báb conferiu o título de Dayyán, e cuja veemente denúncia de Sua Mensagem havia frustrado todos os esforços por convertê-lo, teve um sonho. Ao acordar, determinou-se à não contá-lo a pessoa alguma e, fixando sua escolha em dois versículos do Alcorão, dirigiu ao Báb o seguinte pedido: "Concebi em minha mente três coisas definidas. Peço-vos que me reveleis sua natureza." A Mirza Muhammad-'Alí se pediu que submetesse ao Báb esse pedido por escrito. Poucos dias depois, recebeu uma resposta escrita pelo próprio punho do Báb, na qual expôs em sua totalidade as circunstâncias daquele sonho e revelou os textos exatos daqueles versículos. A exatidão dessa resposta efetivou uma súbita conversão. Embora não acostumado a andar a pé, Mirza Asadu'lláh se apressou a subir por aquele caminho íngreme e pedregoso que conduzia de Khuy à fortaleza. Tentaram seus amigos induzi-lo a seguir a cavalo a Chihríq, mas ele recusou a oferta. Seu encontro com o Báb confirmou-o em sua crença e excitou aquele ardor abrasador que ele até o fim da vida continuou a manifestar.
Nesse mesmo ano, expressara o Báb Seu desejo de que quarenta de Seus companheiros empreendessem, cada um, a composição de um tratado e procurassem, mediante versículos e tradições, estabelecer a validade de Sua Missão. De imediato Seu desejo foi obedecido e devidamente submetido à Sua presença o resultado de seus labores. O tratado de Mirza Asadu'lláh ganhou a admiração incondicional do Báb e o mais alto grau, segundo Sua estimação. Conferiu-lhe o nome de Dayyán e em sua honra revelou o Lawh-i-Hurúfát,(5) no qual fez a seguinte afirmação: "Não tivesse o Ponto do Bayán(6) outro testemunho com o qual estabelecer Sua verdade, bastaria isto - haver Ele revelado uma Epístola como esta, uma Epístola que nem a maior quantidade de erudição poderia produzir."
O povo do Bayán, que compreendeu mal o propósito que baseia essa Epístola, pensou que fosse uma mera exposição da ciência de Jafr(7). Quando, em época posterior, nos primeiros anos do encarceramento de Bahá'u'lláh na cidade-prisão de 'Akká, Jináb-i-Muball-igh, de Shíráz, pediu que desenredasse os mistérios dessa Epístola, foi de Sua pena revelada uma explicação que aqueles que interpretaram mal as palavras do Báb bem poderiam ponderar. Das afirmações do Báb aduziu Bahá'u'lláh irrefutável evidência provando que o aparecimento do Man-Yuzhiruhu'lláh(8) deveria forçosamente ocorrer dentro de nada menos de dezenove anos após a Declaração do Báb. Desde muito havia o mistério do Mustagháth(9) frustrado as mentes mais prescrutadoras entre o povo do Bayán, provando-se um intransponível obstáculo para seu reconhecimento do Prometido. Nessa Epístola desvendara o próprio Báb aquele mistério; ninguém, entretanto, pôde compreender a explicação que Ele dera. Coube a Bahá'u'lláh desvelá-lo aos olhos de todos os homens.
O incansável zelo demonstrado por Mirza Asadu'lláh induziu seu pai, que era amigo íntimo de Hájí Mirza Aqásí, a relatar-lhe as circunstâncias que conduziram à conversão de seu filho e lhe informar de sua negligência em cumprir com os deveres que o Estado lhe impusera. Estendeu-se sobre o fervor com que tão hábil servo do governo se levantara para servir a seu novo Mestre e o sucesso que havia coroado seus esforços.
Mais uma causa de apreensão por parte das autoridades governamentais foi fornecida pela chegada em Chihríq de um dervixe que viera da Índia e que ao encontrar com o Báb, admitiu a verdade de Sua Missão. Todos que conheceram esse dervixe, a quem o Báb denominara Qahru'-lláh, durante sua estada em Iskí-Shahr, sentiram o ardor de seu entusiasmo e foram profundamente impressionados pela tenacidade de sua convicção. Um crescente número de pessoas se enlevavam no encanto de sua personalidade e prontamente reconheciam o dominante poder de Sua Fé. Tal foi a influência que exercia sobre eles que alguns entre os crentes se inclinavam a considerá-lo um expoente da Revelação Divina, embora ele negasse totalmente tais pretensões. Freqüentemente se lhe ouvia relatar o seguinte: "Nos dias em que eu ocupava a exaltada posição de um nababo na Índia, o Báb me apareceu numa visão. Fixou em mim Seu olhar e me conquistou completamente o coração. Levantei-me e havia começado a segui-Lo quando me olhou atentamente e disse: 'De tuas roupas vistosas deves te despir, tua terra natal deves deixar e a pé apressar-te ao Meu encontro em Adhírbáyján. Em Chihríq atingirás o desejo de teu coração.' Segui-Lhe as instruções e alcancei agora minha meta."
A notícia do tumulto que aquele humilde dervixe pôde causar entre os líderes curdos em Chihríq chegou em Tabríz e daí foi comunicada a Teerã. Mal a notícia alcançara a capital, quando ordens foram emitidas para a transferência imediata do Báb para Tabríz, na esperança de se aliviar a agitação que sua prolongada residência naquela localidade havia provocado. Antes de alcançar Chihríq a notícia dessa nova ordem, já havia o Báb incubido 'Azím de informar Qahru'lláh de Seu desejo de que ele regressasse à Índia e lá consagrasse a vida ao serviço de Sua Causa. "Sozinho e a pé," ordenou Ele, "deve regressar para o lugar donde veio. Com o mesmo ardor e desprendimento com que realizou sua peregrinação a este país deve ele agora dirigir-se à sua terra natal e laborar incessantemente a fim de promover os interesses da causa." Ordenou também que a Mirza 'Abdu'l Vahháb-i-Turshízí, que residia em Khuy, desse instruções para seguir de imediato a Urúmíyyíh, onde, lhe disse, breve estaria com ele. O próprio 'Azím recebeu instruções para ir para Tabríz e lá informar Siyyid Ibráhim-i-Khalil de Sua chegada naquela cidade. "Dize-lhe", acrescentou o Báb, "que o fogo de Nimrod breve se acenderá em Tabríz, mas apesar da intensidade de sua chama, dano algum sucederá aos nossos amigos."
Assim que Qahru'lláh recebeu a mensagem de seu Mestre, de pronto se levantou para executar Seus desejos. A qualquer um que desejasse acompanhá-lo, dizia: "Jamais poderás suportar as durezas desta jornada. Abandona o pensamento de ir comigo. Haverias seguramente de perceber no caminho, visto que o Báb ordenou que eu voltasse sozinho para minha terra natal." A força constrangedora de sua resposta silenciou aqueles que pediam que lhes fosse permitido com ele viajarem. Recusou aceitar de qualquer pessoa dinheiro ou roupas. Sozinho, vestido nos mais pobres trajes, com báculo em mão, andou a pé por todo o caminho de volta a seu país. Não se sabe o que em fim lhe sucedeu.
Muhammad-'Alíy-i-Zunúzí, cognominado Anís, era um dos que conheceram a mensagem do Báb em Tabríz e se sentiu inflamado com o desejo de apressar-se a Chihríq e atingir Sua presença. Aquelas palavras haviam nele ateado um irreprimível anelo de se sacrificar em Seu caminho. Siyyid 'Alíy-i-Zunúzí, seu padastro, um notável de Tabríz, apresentou fortes objeções à sua partida da cidade e foi afinal induzido a confiná-lo em sua casa e vigiá-lo estritamente. O filho languescia nesse encarceramento desde o tempo em que o Bem-Amado chegara em Tabríz até ser levado de volta novamente à Sua prisão em Chihríq.
Tenho ouvido Shaykh Hasan-i-Zunúzí relatar o seguinte: "Aproximadamente no mesmo tempo que o Báb dispensou 'Azim de Sua presença, recebi Dele instruções para reunir todas as Epístolas disponíveis, por Ele reveladas durante Seu aprisionamento nas fortalezas de Máh-Kú e Chihríq, e entregá-las às mãos de Siyyid Ibráhim-i-Khalil, que então residia em Tabríz, solicitando-lhe que as escondesse e preservasse com o máximo cuidado.
"Durante minha estada naquela cidade, eu muitas vezes visitava Siyyid 'Alíy-i-Zunúzí, que era parente meu, e freqüentemente o ouvia deplorar a triste sorte do filho. 'Parece haver perdido a razão', queixava ele amargamente. 'Ele por sua conduta, me tem trazido censura e opróbrio. Tenta acalmar a agitação de seu coração e o induza a ocultar suas convicções.' Todo dia que o visitava, testemunhava eu as lágrimas que de seus olhos continuamente choviam. Depois que o Báb havia partido de Tabríz, um dia quando fui vê-lo, admirei-me de notar o júbilo e contentamento que lhe iluminavam o semblante. Seu belo rosto estava engrinaldado de sorrisos enquanto avançava para me receber. 'Os olhos de meu Bem-Amado,' disse ele, enquanto me abraçava, 'viram este rosto, e estes olhos contemplaram Seu semblante.' 'Deixai-me,' acrescentou, 'dizer-vos o segredo de minha felicidade. Depois de haver o Báb sido levado de volta a Chihríq, enquanto eu jazia, um dia, confinado em meu quarto, a Ele voltei meu coração e nestas palavras supliquei: 'Tu vês, ó meu Mais-Amado, meu cativeiro e desamparo, e sabes com que ansiedade anelo contemplar Tua face. Com a luz de Teu semblante dissipa a treva que me oprime o coração.' Que lágrimas de agonizante pesar derramei naquela hora! Tão acabrunhado de emoção estava, que me parecia haver perdido a consciência. De súbito ouvi a voz do Báb, e eis que me chamava! Mandou-me levantar. Contemplei a majestade de Seu semblante, enovante Ele aparecia diante de mim. Sorria enquanto olhava em meus olhos. Precipitei-me e me lancei aos Seus pés. 'Regozija-te,' dizia-me, "aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima ao fogo do inimigo. A ninguém escolherei senão a ti, para participar Comigo da taça do martírio. Assegura-te de que essa promessa que te dou será cumprida. Enlevou-me a beleza daquela visão. Ao voltar a mim, senti-me imerso num oceano de júbilo, um júbilo cujo esplendor todas as tristezas do mundo jamais poderiam obscurecer. Aquela voz continua a ressoar em meus ouvidos. Aquela visão sobre mim paira durante o dia, bem como nas horas da noite. A memória daquele inefável sorriso já dissipou a solitude de minha prisão. Estou firmemente convencido de que não mais se pode adiar a hora em que há de ser cumprida Sua promessa.' Exortei-o a ser paciente e esconder suas emoções. Ele me prometeu não divulgar aquele segredo, e se incumbiu de exercer para com Siyyid 'Alí a máxima tolerância. Apressei-me a assegurar ao pai sua determinação, e consegui que o libertasse de seu encarceramento. Esse jovem, até o dia de seu martírio, continuou a associar-se aos pais e parentes, num estado de completa serenidade e alegria. Tal foi sua conduta para com amigos e parentes que, no dia em que ofereceu sua vida por seu Bem-amado, todo o povo de Tabríz chorou e por ele expressou seus lamentos."
CAPÍTULO XVIII
O INTERROGATÓRIO DO Báb EM TABRÍZ
O Báb, antecipando a hora de Sua aflição que se aproximava, havia dispersado Seus discípulos reunidos em Chihríq e, com serena resignação, aguardava a ordem que haveria de chamá-Lo a Tabríz. Aqueles a cuja custódia Ele fora entregue julgaram que não seria aconselhável passar pela cidade de Khuy, situada no caminho à capital de Adhirbáyján. Decidiram ir via Urúmíyyih e assim evitar as demonstrações que o tão excitado povo de Khuy provavelmente faria como protesto contra a tirania do governo. Quando o Báb chegou em Urúmíyyih, Malik Qásim Mirza O recebeu cerimoniosamente e Lhe concedeu a mais calorosa hospitalidade. Em Sua presença, o príncipe Lhe mostrava deferência extraordinária e se recusava a tolerar o mínimo desrespeito por parte daqueles que tinham permissão para vir ao Seu encontro.
Numa certa sexta-feira, quando o Báb ia ao banho público, o príncipe, tendo curiosidade de provar a coragem e o poder de seu Hóspede, deu ordens ao cavalariço que Lhe oferecesse um dos seus cavalos mais selvagens para montar. O servo apreensivo de que o Báb sofresse algum mal, secretamente se aproximou Dele e tentou induzi-Lo a recusar montar um cavalo que fizera tombar os mais corajosos e hábeis cavaleiros. "Não receieis,' foi Sua resposta. "Faze como te foi mandado e confia-Nos aos cuidado do Todo Poderoso." Os habitantes de Urúmíyyih, havendo sido informados da intenção do príncipe, haviam enchido a praça pública, ansiosos de testemunhar o que ia suceder ao Báb. Logo que o cavalo Lhe foi trazido, aproximou-se dele calmamente e, segurando a rédea que o servo lhe oferecera e acariciando-o meigamente, pôs o pé no estribo. O cavalo permaneceu imóvel a Seu lado, como se consciente do poder que o dominava. A multidão que presenciou esse mais inusitado espetáculo maravilhou-se do comportamento do animal. As sua mentes simples, esse extraordinário incidente parecia nada menos que um milagre. Em seu entusiasmo se apressaram a beijar o estribo do Báb, mas foram impedidos pelos guardas do príncipe, que receavam que tão grande ímpeto do povo Lhe fizesse algum mal. O próprio príncipe, que havia acompanhado seu Hóspede a pé até as proximidades do banho, antes de chegarem à entrada, foi por Ele solicitado a regressar a sua residência. Por todo o caminho, os lacaios do príncipe se esforçavam para conter o povo que, de todos os lados, se apressava para obter um vislumbre do Báb. Ao chegar, dispensou Ele todos que O haviam acompanhado, com exceção do servo particular do príncipe e Siyyid Hasan, os quais esperavam na antecâmara e Lhe assistiram enquanto se despia. Ao regressar do banho, montou o mesmo cavalo e foi aclamado pela mesma multidão. O príncipe, a pé, veio a Seu encontro e O conduziu a sua residência.
Mal o Báb deixara o banho, apressou-se o povo de Urúmíyyih para levar, até a última gota, a água que Lhe havia servido para as abluções. Grande agitação prevalecia nesse dia. O Báb, ao observar essas evidências de irrestrito entusiasmo, lembrou-se da bem- conhecida tradição, comumente atribuída ao Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, a qual se refere especificamente a Adhirbáyján. O lago de Urúmíyyih - afirma essa mesma tradição em suas passagens concludentes - ferverá, transbordará as margens e inundará a cidade. Ao ser informado subseqüentemente de como a grande maioria do povo, por sua espontânea vontade, se levantara para proclamar sua completa lealdade a Sua Causa, comentou Ele calmamente: "Pensam os homens que, quando dizem 'Acreditamos', serão deixados em paz e não serão postos à prova?(1)" Este comentário foi plenamente justificado pela atitude assumida para com Ele por esse mesmo povo ao chegar a notícia do horrendo tratamento por Ele recebido em Tabríz. Dentre aqueles que com tanta ostentação haviam professado sua fé nele, mal existia um punhado que, na hora da provação, perseverasse em sua lealdade a Sua Causa. Destacava-se entre estes, Mullá Imám-Vardí, a tenacidade de cuja fé ninguém, salvo Mullá Jalíl-i-Urúmí, nativo de Urúmíyyih e uma das Letras dos Viventes, podia exceder. A adversidade outro efeito não teve, senão o de intensificar o ardor de sua devoção e reforçar sua crença na justiça da Causa que ele abraçara. Mais tarde atingiu a presença de Bahá'u'lláh, a verdade de Cuja Missão ele prontamente reconheceu e para a promoção da qual se esforçou com o mesmo zelo fervoroso que havia caracterizado suas tentativas anteriores de promover a Causa do Báb. Em reconhecimento de seus serviços de longa data, ele, bem como sua família, foi honrado com numerosas Epístolas da pena de Bahá'u'lláh, nas quais Ele lhe elogiava as realizações e invocava as bênçãos do Onipotente sobre seus esforços. Com inalterável determinação continuou ele a lidar para promover a Fé, até atingir mais de oitenta anos, quando partiu desta vida.
As descrições dos sinais e maravilhas que os inumeráveis admiradores do Báb haviam testemunhado foram breve transmitidos de boca a boca e incentivaram uma onda de entusiasmo sem precedentes que se espalhou com espantosa rapidez sobre o país inteiro. Varreu Teerã e incitou os dignitários eclesiásticos do reino a envidarem contra Ele novos esforços. Tremiam eles diante do progresso de um Movimento que, se lhe fosse permitido seguir o curso, breve engolfaria - tinham certeza - as instituições das quais dependia sua autoridade, ainda mais, sua própria existência. Viam por todos os lados crescentes evidências de uma fé e uma devoção tais como eles próprios não haviam podido evocar, de uma lealdade que atacara desde mesmo a raiz da estrutura erguida por suas próprias mãos e que todos os recursos a seu dispor não haviam até então conseguido minar.
Tabríz, especialmente, passava pelas dores de desenfreada agitação. A notícia da iminente chegada do Báb inflamara a imaginação de seus habitantes e acendera a animosidade mais feroz nos corações dos líderes eclesiásticos de Adhirbáyján. Somente estes, dentre todos os habitantes de Tabríz, se abstiveram de participar nas demonstrações com as quais uma população agradecida aclamava a volta do Báb a sua cidade. Tamanho era o fervor do entusiasmo popular com aquela notícia evocara, que as autoridades decidiram hospedar o Báb num lugar fora dos portões da cidade. Somente àqueles com quem Ele desejava encontrar, foi concedido o privilégio de se aproximarem Dele. A todos os demais foi estritamente proibido o acesso.
Na segunda noite após Sua chegada, o Báb chamou a Sua presença 'Azím e, durante a conversação com ele, asseverou enfaticamente Sua pretensão de não ser outro, senão o prometido Qá'im, porém encontrou relutância em admitir, sem reservas, esta pretensão. Percebendo sua agitação interior, Ele disse: "Amanhã, na presença do Valí'Ahd(2) e em meio aos ulemás e notabilidades da cidade reunidos, proclamarei Minha Missão. Quem quer que se sinta inclinado a Mim exigir outro testemunho, além dos versículos que tenho revelado, deverá do Qá'ím de sua vã fantasia buscar satisfação."
Tenho ouvido 'Azím dar o seguinte testemunho: "Naquela noite estava eu profundamente perturbado. Permaneci acordado e irrequieto até a hora do nascer do sol. Assim que havia oferecido a prece matinal, no entanto, percebi que uma grande transformação sobreviera a mim. Uma nova porta parecia haver se descerrada e estava aberta diante de minha face. Breve vinha nascendo em mim a convicção de que, seu eu fosse leal a minha fé em Maomé, o Apóstolo de Deus, deveria por força também reconhecer sem reservas as pretensões avançadas pelo Báb e me submeter, sem receio ou hesitação, a qualquer coisa que Ele se dignasse a decretar. Esta conclusão aliviou meu coração agitado. Apressei-me em ir ao Báb e Lhe pedir perdão. 'É mais uma evidência da grandeza desta Causa,' disse Ele, 'que até 'Azím(3) tivesse se sentido tão extremamente perturbado e abalado pelo seu poder e pela imensidade de sua pretensão.' 'Assegurai-vos,' acrescentou, 'a graça do Todo-Poderoso vos capacitará a fortalecer o pusilânime e tornar firmes os passos de quem vacila. Tão grande será vossa fé que, se o inimigo vos mutilasse ou despedaçasse o corpo, na esperança de diminuir por um jota ou til o ardor de vosso amor, não conseguiria atingir seu objetivo. Vós, sem dúvida, nos dias vindouros, havereis de encontrar face a face Aquele que é o Senhor de todos os mundos e participar do júbilo de Sua presença.' Estas palavras dissiparam as trevas de minhas apreensões. Daquele dia em diante, jamais um traço sequer de medo ou agitação lançou sobre mim sua sombra."
A detenção do Báb fora dos portões de Tabríz nada adiantava para acalmar a agitação que reinava na cidade. Toda medida de precaução, toda restrição que as autoridades haviam imposto, serviu para agravar uma situação que já se tornara ominosa e ameaçadora. Hájí Mirza Áqásí emitiu suas ordens para a convocação imediata dos dignitários eclesiásticos de Tabríz na residência oficial do governador de Adhirbáyján para o expresso propósito de acusar o Báb publicamente e procurar os meios mais efetivos para a extinção de Sua influência. Hájí Mullá Mahmúd, intitulado o Nizámu'l-'Ulamá, que era tutor de Násiri'd-Dín Mirza, o Vali'Ard(4), Mullá Muhammad-i-Mámáqání, 'Alí-Asghar, o Shaykhu'l-Islám e muitos dos mais distintos shaykhs e doutores de divindade estavam entre aqueles reunidos para esse fim(5). O próprio Násiri'd-Dín Mirza assistiu essa reunião. Coube a presidência a Nizámu'l-'Ulamá' que, logo que se iniciara o processo, encarregou um oficial do exército, em nome da assembléia, de introduzir o Báb em sua presença. Uma multidão de gente havia, nesse meio tempo, assediado a entrada do salão e, com impaciência, aguardava o momento em que Lhe pudesse vislumbrar a face. Tão grande era o número dos que se apressavam para a frente, que teve de ser forçada uma passagem para Ele através daqueles aglomerados junto do portão.
Ao chegar, o Báb observou que cada assento naquele salão estava ocupado, salvo um só, sem a mínima hesitação, procedeu a ocupar aquele assento vazio. A majestade de Seu porte, a expressão de pujante confiança que pousava em Sua fronte - acima de tudo o espírito de poder que se irradiava de todo o Seu ser, pareciam por um momento haver esmagado a alma do corpo daqueles a quem Ele saudara. Um silêncio profundo, misterioso, caia de súbito sobre eles. Nem uma só alma naquela distinta assembléia se atreveu a murmurar uma palavra sequer. Finalmente, a quietude que sobre eles pairava foi interrompida pelo Nizámu'l-'Ulamá. "Quem pretendes ser", perguntou ele ao Báb, "e qual a mensagem que trouxeste?" "Eu Sou," três vezes exclamou o Báb, "Eu Sou, Eu Sou, o Prometido! Sou Aquele cujo nome há mil anos invocais, a cuja menção vos tendes levantado, cujo advento tendes ardentemente desejado presenciar, e a hora de cuja Revelação tendes suplicado a Deus que apressasse. Verdadeiramente, digo, incumbe aos povos, tanto do Oriente como do Ocidente, obedecerem Minha Palavra e hipotecar lealdade a Minha pessoa." Ninguém se aventurou a responder, exceto Mullá Muhammad-i-Mámáqání, um líder da comunidade shaykhí, que havia sido, ele mesmo, discípulo de Siyyid Kázím. Foi ele cuja infidelidade e insinceridade o siyyid havia em lágrimas observado, e a perversidade de cuja natureza ele havia deplorado. Shaykh Hasan-i-Zunúzí, que ouvira Siyyid Kázim fazer essas críticas, me relatou o seguinte: "Admirei-me muito do tom de sua referência a Mullá Muhammad e tinha curiosidade de saber qual seria sua futura conduta para merecer tais expressões de pena e condenação de seu mestre. Antes de descobrir sua atitude nesse dia para com o Báb, eu não percebia o grau de sua arrogância e cegueira. Eu estava em pé, juntamente com outras pessoas fora do salão e pude acompanhar a conversação daqueles que estavam dentro. Mullá Muhammad estava sentado à esquerda do Valí-'Ahd. O Báb ocupava um assento entre eles. Imediatamente depois de haver Ele se declarado O Prometido, um sentimento de reverência se apoderou dos presentes. Silenciosos, confusos, baixaram as cabeças. A palidez de seus rostos traia a agitação de seus corações. Mullá Muhammad, aquele renegado zarolho, de barba branca, repreendeu-O com insolência, dizendo: 'Tu, miserável e imaturo moço de Shiráz! Já convulsionaste e subverteste o Iraque; agora desejas provocar tumulto igual em Adhirbáyján?' 'Vossa Senhoria,' replicou o Báb, 'não vim aqui de Minha própria vontade. Fui chamado a este lugar.' 'Silêncio,' retrucou furiosamente Mullá Muhammad, 'tu perverso e desprezível seguidor de Satanás!' 'Vossa Senhoria,' respondeu outra vez o Báb, 'mantenho o que já declarei.'
"O Nizámu'l-'Ulamá achou melhor desafiar abertamente Sua Missão. 'A pretensão que avançastes,' disse ao Báb, 'é estupenda; deve necessariamente ser sustentada pela mais incontrovertível evidência.' 'A mais poderosa e mais convincente evidência da verdade da Missão do Profeta de Deus,' respondeu o Báb, 'é, deve-se admitir, Sua própria Palavra. Ele mesmo é testemunho desta verdade: "Não lhes é suficiente Nós havermos feito descer a Ti o Livro?"(6) O poder de aduzir tal evidência foi a Mim concedido por Deus. Dentro do espaço de dois dias e duas noites, declaro-vos, poderei revelar versículos tão numerosos que igualarão ao Alcorão inteiro'. 'Descrevei oralmente, se dizeis a verdade,' pediu o Nizámu'l-'Ulamá, 'o procedimento desta reunião em linguagem que se assemelhe à fraseologia dos versículos do Alcorão de modo que o Valí-'Ahd e os sacerdotes aqui congregados possam dar testemunho da verdade de vossa pretensão.' O Báb prontamente acedeu a seu desejo. Mal havia Ele pronunciado as palavras, 'Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo, louvores Àquele que criou os céus e a Terra,' quando Mullá Muhammad-i-Mámáqání interrompeu, chamando-Lhe a atenção a uma infração das regras de gramática. 'Esse nosso Qá'ím, por si próprio designado,' exclamou ele com arrogante desdém, 'desde mesmo o início de seu discurso demonstra sua ignorância das regras mais rudimentares da gramática!' 'O próprio Alcorão,' argüiu o Báb, 'de modo algum concorda com as regras e convenções correntes entre os homens. A Palavra de Deus jamais poderá se sujeitar às limitações de Suas criaturas. Não, as regras e os cânones adotados pelos homens foram deduzidos do texto da Palavra de Deus e nela se baseiam. Esses homens têm descoberto, nos próprios textos daquele Livro Sagrado, nada menos que trezentos exemplos de erros gramaticais, semelhantes àquele que agora tendes criticado. Desde que era a Palavra de Deus, outra alternativa não tiveram, senão resignarem-se a Sua Vontade(7)."
"Repetiu, Ele então, as mesmas palavras que Ele havia pronunciado, às quais Mullá Muhammad fez, outra vez, a mesma objeção. Pouco depois, outra pessoa aventurou-se a dirigir ao Báb esta pergunta: 'A qual tempo, pertence a palavra Ishtartanna'? Em resposta citou o Báb este versículo do Alcorão: 'Longe esteja a glória de teu Senhor, o Senhor de toda grandeza, daquilo que eles Lhe imputam e paz esteja sobre Seus Apóstolos! E louvores a Deus, o Senhor dos mundos.' Imediatamente depois, levantou-se e saiu da reunião(8)."
Desagradou seriamente ao Nizámu'l-'Ulamá, a maneira como fora conduzida a reunião. "Como é vergonhosa," ouviu-se ele mais tarde exclamar, "a descortesia do povo de Tabríz! Qual seria a relação possível entre aqueles fúteis comentários e questões tão importantes, tão momentosas?" Alguns outros, igualmente, se sentiam inclinados a denunciar o tratamento infame que o Báb nessa ocasião recebera. Mullá Muhammad-i-Mámáqání, entretanto, persistia em suas veementes denúncias. "Advirto-vos," protestou altamente, "se permitirdes que esse moço siga irrestrito suas atividades, dia virá em que a população inteira de Tabríz se haja aglomerado em volta de seu estandarte. Se, ao chegar esse dia, ele significar seu desejo de que todos os ulemás de Tabríz, inclusive o próprio Vali-'Ahd, sejam expulsos da cidade e que ele tão somente, assuma as rédeas da autoridade civil e eclesiástica, nenhum de vós que agora vedes com apatia sua causa, se sentirá capaz de lhe fazer oposição efetiva. A cidade inteira ainda mais, toda a província de Ahirbáyján, o apoiará unanimente."
As denúncias persistentes desse mau conspirador excitaram as apreensões das autoridades de Tabríz. Aqueles que seguravam nas mãos as rédeas do poder aconselharam-se sobre as medidas mais efetivas a serem tomadas a fim de resistir ao progresso de Sua Fé. Insistiam alguns na opinião de que, em face do óbvio desrespeito que o Báb mostrara ao Valí-'Ahd, ocupando-lhe o lugar sem sua permissão, e haver deixado de obter o consentimento do presidente da reunião quando se levantou para sair, deveria Ele ser novamente chamado a uma reunião igual e receber das mãos de seus membros um castigo humilhante. Násiri'd-Dín Mirza, porém, recusou concordar com tal proposta. Decidiu-se, afinal, fosse o Báb levado à casa de Mirza 'Alí-Asghar, que era tanto o Shaykhu'l Islám de Tabríz como um siyyid, e das mãos do guarda pessoal do governador recebesse a punição merecida. O guarda recusou-se atender a esse pedido, preferindo não se intrometer numa questão que a seu ver coubesse somente aos ulemás da cidade. O Shaykhu'l-Islám resolveu infligir, ele próprio, o castigo. Chamou o Báb a sua casa e com sua mão, onze vezes aplicou as varas aos Seus pés(9).
Naquele mesmo ano, esse tirano insolente foi atacado de paralisia e, após haver sofrido a dor mais excruciante, teve uma morte miserável. Seu caráter traiçoeiro, ávaro e ambicioso era reconhecido universalmente pelo povo de Tabríz. Notoriamente cruel e sórdido, era temido e detestado pelo povo que gemia sob seu julgo e orava por libertação. As circunstâncias abjetas de sua morte lembraram tanto aos amigos como aos oponentes o castigo que deve necessariamente esperar aqueles a quem nem o temor a Deus nem a voz da consciência pode deter de se comportarem com tão pérfida crueldade para com seus semelhantes. Depois de sua morte, foram abolidas em Tabríz as funções do Shaykhu'l-Islám. Tal foi sua infâmia que o próprio nome da instituição à qual se associara veio a ser abominado pelo povo.
E no entanto, seu comportamento, por mais vil e traiçoeiro que fosse, não foi o único exemplo da conduta nefária que caracterizava a atitude dos dirigentes eclesiásticos, entre seus conterrâneos, para com o Báb. Quão lastimavelmente têm eles errado e quão longe se desviado do caminho da eqüidade e justiça! Com quanto desdém rejeitaram os conselhos do Profeta de Deus e as admoestações dos Imames da Fé! Não declararam estes explicitamente, que, "se um Jovem de Baní-Háshim(10) se manifestasse e convocasse o povo a um novo Livro e a leis novas, todos deveriam se apressar a Ele e Lhe abraçar a Causa?" Embora tenham esses mesmos imames afirmado claramente que "a maioria de Seus inimigos serão os ulemás," esses homens cegos e ignóbeis, entretanto, preferiram seguir o exemplo de seus líderes e considerar a conduta deles o modelo da retidão e justiça. Seguem-lhes nas pegadas, implicitamente lhes obedecem as ordens e se julgam o "povo da salvação", os "eleitos de Deus" e os "guardiões da Verdade".
De Tabríz levaram o Báb de volta a Chihríq, onde novamente foi entregue à guarda de Yahyá Khán. Seus perseguidores haviam tolamente imaginado que por meio de ameaças e intimidação O induziriam a abandonar Sua Missão. Aquela reunião deu ao Báb a oportunidade de expor enfaticamente, na presença dos mais ilustres dignitários congregados na capital de Adhirbáyján, as feições distintas de Sua pretensão, e de confutar, em linguagem resumida e convincente, os argumentos de Seus adversários. A notícia daquela momentosa declaração, que acarretara conseqüências de tão vasto alcance, espalhou-se rapidamente por toda a Pérsia e reanimou mais profundamente os sentimentos dos discípulos do Báb. Estimulou-lhes novamente o zelo, reforçou Sua posição e foi sinal para os tremendos acontecimentos que breve haveriam de convulsionar aquela terra.
Mal regressara o Báb a Chihríq quando escreveu, em linguagem audaz e comovente, uma denúncia do caráter e da ação de Hájí Mirza Aqásí. Nas passagens iniciais dessa epístola, intitulada o Khutbiy-i-Qahríyyih(11), o Autor se dirige ao Grão-Vizir nestes termos. "Ó tu que desacreditaste em Deus e afastaste de Seus sinais a tua face!" Essa longa epístola foi enviada a Hujját, que estava, nesses dias, confinado em Teerã. Teve instruções para ir pessoalmente entregá-la a Hájí Mirza Aqásí.
Tive o privilégio de ouvir dos lábios de Bahá'u'lláh, enquanto na cidade-prisão de 'Akká, o seguinte relato: "Mullá Muhammad-'Alíy-i-Zanjání, pouco depois de haver entregue essa Epístola a Hájí Mirza Aqásí, veio me visitar. Estava na companhia de Mirza Masih-i-Núrí e alguns outros crentes quando ele chegou. Relatou as circunstâncias que acompanhavam a entrega da Epístola e nos recitou o texto inteiro, que tinha cerca de três páginas de comprimento e que ele havia decorado." O tom da referência de Bahá'u'lláh a Hujját indicou quão imensamente Lhe agradaram a pureza e nobreza de sua vida e quanto Ele lhe admirava a inabalável coragem, a vontade indômita, o desprendimento das coisas do mundo e a inalterável constância.
CAPÍTULO XIX
A REVOLTA DE MÁZINDARÁN
No mesmo mês de Shah'bán que testemunhou as indignidades infligidas sobre o Báb em Tabríz e as aflições que sobrevieram a Bahá'u'lláh e Seus companheiros em Níyálá, Mullá Husayn regressou do acampamento do Príncipe Hamzih Mirza a Mashhad donde iria proceder, sete dias depois, a Karbilá, acompanhado por qualquer pessoa que ele desejasse. O príncipe lhe ofereceu certa quantia para lhe custear as despesas da viagem, oferta essa que ele declinou, devolvendo o dinheiro com o pedido de que o despendesse em alívio dos pobres e necessitados. 'Abdu'l-'Alí Khán outrossim ofereceu prover todas as necessidades da projetada peregrinação de Mullá Husayn e expressou sua ansiedade de pagar as despesas de quem quer que ele escolhesse para acompanhá-lo. Tudo o que dele aceitou foram uma espada e um cavalo, ambos dos quais ele era destinado a utilizar com consumada habilidade e coragem, para repelir os assaltos de um inimigo traiçoeiro.
Jamais poderá minha pena descrever adequadamente a devoção que Mullá Husayn incendiara nos corações do povo de Mashhad, nem tentar sondar a profundidade de sua influência. Sua casa, naqueles dias, era continuamente assediada por multidões de pessoas que, ansiosas, solicitavam que lhes fosse permitido acompanhá-lo na viagem que ele planejara. Mães traziam os filhos, irmãs os irmãos, e com lágrimas imploravam que aos aceitasse como suas mais estimadas oferendas no Altar do Sacrifício.
Ainda estava Mullá Husayn em Mashhad quando veio um mensageiro que lhe trazia o turbante do Báb e lhe transmitiu a notícia de que um novo nome, o de Siyyid 'Alí, lhe fora conferido por seu Mestre. "Adorna tua cabeça," foi a mensagem, "com Meu turbante verde, emblema de Minha linhagem e, com o Estandarte Negro(1) desfraldado diante de ti, apressa-te a ir a Jazíriy-i-Khadrá(2) e preste teu auxílio a Meu bem-amado Quddús.
Logo que lhe chegou essa mensagem, Mullá Husayn se levantou para executar o desejo de seu Mestre. Deixando Mashhad para um lugar situado à distância de um farsang(3) da cidade, içou o Estandarte Negro, colocou na cabeça o turbante do Báb, reuniu os companheiros, montou seu corcel e deu o sinal para sua marcha a Jazíriyi-i-Khadrá. Seus companheiros, em número duzentos e dois, entusiasticamente O seguiram. Aquele dia memorável foi o dia dezenove de Sha'bán, no ano de 1264 A. H.(4). Onde quer que parassem, em cada vila e aldeia pela qual passavam, Mullá Husayn e seus co-discípulos proclamavam destemidamente a mensagem do Novo Dia, convidavam o povo a lhe abraçar a verdade e escolhiam dentre aqueles que responderam a seu chamado alguns a quem pediam que a eles se juntassem nessa jornada.
Na cidade de Níshápúr, Hájí 'Abdu'l-Majíd, pai de Badí(5), que era mercador muito conhecido, alistou-se sob a bandeira de Mullá Husayn. Embora sem rival o prestígio de seu pai como dono da mais célebre mina de turquesas de Níshápúr, abandonando todas as honras e todos os benefícios materiais que sua cidade natal lhe conferira, hipotecou sua lealdade incondicional a Mullá Husayn. Na vila de Míyámay, trinta entre os habitantes declararam sua fé e se uniram com aquela companhia. Todos eles, com exceção de Mullá Isá, foram martirizados no forte de Shaykh Tabarsí(6).
Chegando em Chashmih-'Alí, um lugar situado perto da cidade de Dámghán e na estrada para Mázindarán, Mullá Husayn decidiu interromper a viagem e lá demorar por alguns dias. Acampou à sombra de uma árvore grande, ao lado de um ribeirão. "Estamos no ponto onde se separam os caminhos," disse aos companheiros. "Aguardaremos Seu decreto quanto à direção que devemos tomar." Perto do fim do mês de Shavvál(7), surgiu uma ventania violenta que derrubou um ramo grande daquela árvore, e com isso Mullá Husayn comentou: "A árvore da soberania de Muhammad Sháh, segundo a vontade de Deus, foi desarraigada e lançada em terra." No terceiro dia após haver ele pronunciado essa predição, um mensageiro em caminho para Mashhad, chegou de Teerã e anunciou a morte de seu soberano(8). No dia seguinte, a companhia determinou-se a partir para Mázindarán. Ao levantar-se para ir seu líder apontou na direção de Mázindarán e disse: "É este o caminho que conduz à nossa Karbilá. Quem quer que não esteja preparado para as grandes tribulações que jazem em nossa frente que agora se retire para sua casa e desista da viagem." Várias vezes repetia ele essa advertência e, enquanto se aproximava de Savád-Kúh, declarou explicitamente: "Eu, juntamente com setenta e dois de meus companheiros, sofrerei a morte por causa do Bem-Amado. Quem não puder renunciar ao mundo, que parta agora, neste mesmo momento, pois mais tarde não poderá escapar." Vinte de seus companheiros preferiram voltar, sentindo-se impotentes para resistir as provações às quais seu líder continuamente se referia.
A notícia de que se aproximavam da cidade de Bárfurúsh alarmou o Sa'ídu'l-'Ulamá'. A vasta e crescente popularidade de Mullá Husayn, as circunstâncias que acompanhavam sua partida de Mashhad, o Estandarte Negro que flutuava diante dele - acima de tudo, o número, a disciplina e o entusiasmo de seus companheiros, combinaram para provocar o implacável ódio daquele mujtahid cruel e soberbo. Mandou ele que o pregoeiro convocasse o povo de Bárfurúsh ao masjid e anunciasse que seria feito por ele um serão de tão momentosa conseqüência que nenhum aderente leal do Islã nas circunvizinhanças poderia perder a oportunidade de ouvi-lo. Uma imensa multidão de homens e mulheres se aglomerava no masjid, viu-o ascender ao púlpito, jogar no chão o turbante, rasgar a gola de sua camisa e lamentar a triste situação em que a Fé caíra. "Despertai," disse do púlpito em voz retumbante, "pois nossos inimigos estão em nossas próprias portas, prontos para extinguir tudo o que estimamos como puro e santo no Islã! Se deixarmos de lhes resistir, ninguém haverá de sobreviver a sua investida. Aquele que é o líder daquela banda veio sozinho um dia e assistiu minhas aulas. Desprezou-me completamente e me tratou com desdém marcante na presença de meus discípulos. Como eu me recusei a conceder-lhe as honras que ele esperava, levantou-se irosamente e me lançou seu desafio. Num tempo em que Muhammad Sháh estava sentado em seu trono e no auge de seu poder, esse homem teve a temeridade de me atacar com tanta amargura. E agora que a mão protetora de Muhammad Sháh foi subitamente retirada, que excessos não cometerá esse instigador de mal que ora avança, conduzindo sua banda selvagem? É dever de todos os habitantes de Bárfurúsh, tanto jovens como velhos, homens e também mulheres, munirem-se contra esses abjetos destruidores do Islã e por todos os meios em seu poder lhes resistir a investida. Amanhã, na hora do alvorecer, levantai-vos todos e marchai adiante para lhes exterminar as forças."
A congregação inteira se levantou em resposta a seu chamado. Sua apaixonada eloqüência, a inquestionável autoridade que sobre eles exercia, e o medo de perderem suas próprias vidas e bens, combinaram para induzir os habitantes dessa cidade a fazerem toda preparação possível para o esperado encontro. Muniram-se de toda arma que pudessem ou achar ou maquinar e, ao romper do dia saíram da cidade de Bárfurúsh, plenamente determinados a enfrentar e trucidar os inimigos da Fé e lhes saquear os bens(9).
Assim que Mullá Husayn resolvera seguir pelo caminho que conduzia a Mázindarán, logo depois de oferecer sua oração matinal, ordenou ele que os companheiros se desfizessem de todas as possessões. "Deixai atrás todos os vossos pertences," exortou, "e contentai-vos com apenas os corcéis e as espadas, a fim de que todos possam testemunhar vossa renúncia a todas as coisas terrenas e perceber que este pequeno grupo de companheiros eleitos de Deus nenhum desejo nutre de salvaguardar os próprios bens e muito menos de cobiçar os bens alheios." Instantaneamente todos eles obedeceram e, descarregando seus corcéis, se levantaram e jubilosamente o seguiram. O pai de Badí foi o primeiro a pôr de lado a sacola, que continha uma quantidade considerável de turquesas, as quais ele trouxera da mina pertencente ao seu pai. Uma só palavra de Mullá Husayn bastava para induzi-lo a jogar para o lado da estrada o que sem dúvida era seu maior tesouro e aderir ao desejo de seu líder.
À distância de um farsang(10) de Bárfurúsh, Mullá Husayn e seus companheiros encontraram os inimigos. Uma multidão provida de armas e munição havia se aglomerado e lhes obstruía o caminho. Uma expressão feroz de selvageria pousava em suas faces, e as imprecações mais vis caiam incessantemente de seus lábios. Os companheiros, em face do tumulto desse povo irado, fizeram um movimento como se fossem desembainhar as espadas. "Ainda não," ordenou seu líder, "antes de o agressor nos forçar a nos proteger, não deverão nossas espadas sair das bainhas." Mal pronunciara ele estas palavras, quando contra eles se dirigiu o fogo do inimigo. Seis dos companheiros foram de imediato lançados ao chão. "Bem-amado líder," exclamou um deles, "nós nos levantamos e vos seguimos sem outro desejo senão o de nos sacrificarmos no caminho da Causa por nós abraçada. Permiti, nós vos suplicamos, que nos defendamos e não nos deixeis cair tão ignominiosamente vítimas do fogo do inimigo." "Não chegou ainda a hora," respondeu Mullá Husayn, "está ainda incompleto o número." Logo depois, uma bala penetrou o peito de um de seus companheiros, um siyyid de Yazd(11) que havia andado a pé todo o caminho de Mashhad até aquele lugar e que era um de seus mais fortes esteios. Ao ver esse devotado companheiro cair morto aos seus pés, Mullá Husayn ergueu os olhos ao céu e orou. "Vê, ó Deus, meu Deus, a lastimável condição de Teus companheiros eleitos, e testemunha a acolhida que esse povo concedeu a Teus bem-amados. Sabes Tu que outro desejo não nutrimos senão o de guiá-los ao caminho da Verdade e lhes conferir o conhecimento de Tua Revelação. Tu Próprio ordenaste que defendêssemos nossas vidas contra os ataques do inimigo. Fiel a Teu mando, levanto-me agora com os companheiros para resistirmos a investida que contra nós lançaram(12)."
Desembainhando a espada e esporeando o corcel para o meio do inimigo, Mullá Husayn acossou, com maravilhosa intrepidez, aquele que investira contra seu companheiro caído. O oponente, tendo medo de enfrentá-lo, refugiou-se atrás de uma árvore e, erguendo o mosquete, tentou proteger-se. Logo o reconhecendo, Mullá Husayn precipitou-se e com um só golpe cortou através do tronco da árvore, o cano do mosquete e o corpo de seu adversário(13). A força assombrosa desse golpe confundiu o inimigo e lhe paralisou os esforços. Todos fugiram em pânico, em face de tão extraordinária manifestação de destreza, de força e de coragem. Foi essa façanha a primeira de seu gênero a atestar a proeza e o heroísmo de Mullá Husayn, façanha essa que lhe ganhou os elogios do Báb. Quddús igualmente lhe prestou sua homenagem pela serena valentia que Mullá Husayn nessa ocasião exibiu. Diz-se que, ao receber a notícia, citou ele o seguinte versículo do Alcorão: "Assim não fostes vós que os matastes, mas Deus quem os matou; e aqueles dardos foram de Deus e não teus! Ele queria provar os fiéis por uma provação misericordiosa Dele Próprio procedente em verdade, Deus ouve, sabe. Sucedeu isso, para que Deus reduzisse ao nada a astúcia dos infiéis."
Eu mesmo, enquanto em Teerã, no ano de 1265 A. H.(14), um mês após a conclusão daquela luta memorável de Shaykh Tabarsí, ouvi Mirza Ahmad relatar as circunstâncias desse incidente na presença de alguns crentes, entre os quais Mirza Muhammad-Husayn-i-Hakamíy-i-Kirmání, Hájí Mullá Ismá'il-i-Faráhání, Mirza Habídu'lláh-i-Isfáhání e Siyyid Muhammad-i-Isfáhání.
Quando, em época subseqüente, visitei Khurásán e estava hospedado na casa de Mullá Sádiq-i-Khurásání em Mashhad, onde eu fora convidado a ensinar a Causa, pedi a Mirza Muhammad-i-Furúghí, na presença de alguns crentes, entre os quais Nabíl-i-Akbar e o pai de Badí, que me esclarecesse quanto ao verdadeiro caráter daquele espantoso relato. Enfaticamente replicou Mirza Muhammad: "Fui eu mesmo testemunha daquele ato de Mullá Husayn. Não tivesse eu o visto com os próprios olhos, jamais teria acreditado." A propósito disso, o mesmo Mirza Muhammad nos relatou o seguinte: "Após o combate de Vas-Kas, quando o Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, completamente derrotado, fugira da face dos companheiros do Báb, o Amír-Nizám(15) severamente lhe repreendeu. 'Incumbi-vos,' ele lhe escreveu, 'da missão de subjugar um punhado de estudantes jovens, desprezíveis. Coloquei à vossa disposição o exército do Xá e, no entanto, permitistes que sofresse tão ignominiosa derrota. Que haveria vos sucedido, queria eu saber, tivesse eu a vós confiado a missão de derrotar as forças combinadas dos governos russo e otomano?" Achou o príncipe que seria bom entregar ao mensageiro os fragmentos do cano daquela espingarda rachada pela espada de Mullá Husayn, com instruções para apresentá-las, pessoalmente, ao Amír-Nizám. 'Tal é,' foi sua mensagem ao Amír, 'a força desprezível de um adversário que com um só golpe de sua espada demoliu em seis pedaços a árvore, o mosquete e quem o segurava.
"Tão convincente testemunho da força de seu oponente constituía, aos olhos de Amír-Nizám, um desafio do qual nenhum homem de sua posição podia deixar de tomar conhecimento. Resolveu ele reprimir o poder que, por um ato tão atrevido, procurara demonstrar-se contra suas forças. Não podendo, apesar do número preponderante de seus homens, derrotar Mullá Husayn e seus companheiros por meios normais e justificáveis, recorreu miseravelmente à traição e fraude como instrumentos para atingir seu propósito. Mandou o príncipe afixar seu selo ao Corão e hipotecar a honra de seus oficiais para que daí em diante se abstivessem de qualquer ato de hostilidade para com os ocupantes do forte. Por este meio pode ele induzi-los a depor as armas, e assim conseguiu ele infligir aos seus oponentes indefesos uma derrota ingloriosa e esmagadora. Tão notável exibição de destreza e força não pode deixar de atrair a atenção de um número considerável de observadores cujas mentes se haviam mantido, até então, sem mácula de preconceito ou malícia. Evocou o entusiasmo de poetas que, em várias cidades da Pérsia, se sentiam inspirados a celebrar as façanhas do autor de um ato tão audaz. Seus poemas contribuíram à difusão do conhecimento daquele poderoso feito e à imortalização de sua memória. Entre aqueles que prestaram homenagem à valentia de Mullá Husayn, havia um certo Ridá-Qulí Khán-i-Lalih-Báshí, quem, no "Tárikh-i-Násirí" elogiou profusamente a prodigiosa força e inigualada destreza que haviam caracterizado aquele golpe.
Aventurei-me a perguntar a Mirza Muhammad-i-Furúghí se sabia que no "Násikhu't-Tavárík" fora mencionado o fato de haver Mullá Husayn, nos primeiros anos da mocidade, sido instruído na arte da esgrima, que adquirira sua proficiência só após considerável período de treinamento. "É pura invenção," afirmou Mullá Muhammad. "Eu o conheço desde a infância, tendo tido associação com ele como colega de escola e amigo desde muito tempo. Nunca soube de ele possuir tamanha força e poder. Até me julgo superior quanto a vigor e resistência física. Tremia-lhe a mão enquanto escrevia, e muitas vezes expressava ele sua incapacidade de escrever tão completamente e com tanta freqüência como desejava. Isto lhe era um grande empecilho e até sua viagem a Mázindarán continuou ele a sofrer de seus efeitos. No momento em que desembainhou a espada, porém, para repulsar aquele ataque selvagem, um poder misterioso parecia havê-lo subitamente transformado. Em todas as lutas subseqüentes, via-se ser ele o primeiro a avançar e esporear o corcel ao acampamento do agressor. Sem auxílio, enfrentava e combatia as forças combinadas de seus oponentes e ganhava, ele mesmo, a vitória. Nós, que o seguíamos da retaguarda, tínhamos de nos contentar com aqueles que já haviam sido incapacitados e enfraquecidos pelos golpes que eles haviam suportado. Bastava seu nome para aterrorizar os corações de seus adversários. Fugiam à menção dele; quando ele se aproximava, tremiam. Até mesmo aqueles que eram seus constantes companheiros emudeciam de admiração em face dele. Ficávamos atônitos diante da demonstração de sua força estupenda, sua vontade indômita e sua completa intrepidez. Todos nós estávamos convencidos de que ele cessara de ser o Mullá Husayn a quem havíamos conhecido e que nele residia um espírito que Deus, tão somente, poderia conferir.
Este mesmo Mirza Muhammad-i-Furúghí relatou a mim o seguinte: "Mal havia Mullá Husayn dado o golpe memorável contra seu adversário quando desapareceu de nossa vista. Não sabíamos aonde fora. Somente seu servo, Qambar'Alí, pôde seguí-lo. Ele mais tarde nos informou que seu mestre se precipitou contra os inimigos e com um só golpe de sua espada pode derrubar cada um dos que se atreveram a atacá-lo. Desapercebido das balas que sobre ele choviam, forçou passagem através das fileiras do inimigo e tomou rumo para Bárfurúsh. Seguiu diretamente à residência do Sa'ídu'l-'Ulamá, três vezes passou ao redor de sua casa e exclamou: 'Esse desprezível covarde que incitou os habitantes dessa cidade a travar guerra santa contra nós e ignominiosamente se escondeu atrás das paredes de sua casa - que emerja de seu refúgio inglorioso! Que ele, pelo seu exemplo demonstre a sinceridade de seu apelo e a justeza de sua causa. Terá ele esquecido que quem prega uma guerra santa deve forçosamente marchar, à vanguarda de seus seguidores e pelos seus próprios feitos lhes incendiar a devoção e sustentar o entusiasmo?"'
A voz de Mullá Husayn abafava o clamor da multidão. Os habitantes de Bárfurúsh renderam-se e breve ergueram o brado de, "Paz, paz!" Mal se levantara a voz da rendição quando se fizeram ouvir de todos os lados as aclamações dos seguidores de Mullá Husayn que, naquele momento, apareceram, galopando em direção a Bárfurúsh. A exclamação de "Yá Sáhíbu'z-Zamán!"(16) que com altas vozes faziam ressoar, encheu de consternação os corações dos que a ouviram. Os companheiros de Mullá Husayn, que haviam abandonado a esperança de ainda o encontrar vivo, maravilharam-se ao vê-lo sentado ereto em seu cavalo, ileso e em nada afetado pela ferocidade daquela investida. Dele se aproximaram, reverentemente, e lhes beijaram o estribo.
Na tarde daquele dia foi concedida a paz que os habitantes de Bárfurúsh imploravam. A multidão congregada ao seu redor, Mullá Husayn dirigiu estas palavras: "Ó seguidores do Profeta de Deus e xiitas dos imames de Sua Fé! Por que vos levantastes contra nós? Por que julgais o derramamento de nosso sangue um ato meritório aos olhos de Deus? Temos nós alguma vez repudiado a verdade de vossa Fé? É essa a hospitalidade que o Apóstolo de Deus incumbiu Seus seguidores de conceder tanto aos fiéis como aos infiéis? Que fizemos nós para merecermos tal condenação de vossa parte? Considerai: eu só, sem outra arma, senão a espada, pude enfrentar a chuva de balas que sobre mim os habitantes de Bárfurúsh derramaram, e emergi incólume do meio do fogo com qual me assediaste. Tanto minha pessoa como meu cavalo escapou ileso de vosso ataque sobrepujante. Excetuando-se uma ligeira arranhadura recebida em minha face, fostes impotentes para me ferirem. Deus me protegeu e se dignou de estabelecer aos vossos olhos a ascendência de Sua Fé."
Imediatamente depois, Mullá Husayn procedeu ao caravançarai de Sabzih-Maydán. Apeou e, em pé na entrada da estalagem, esperou a chegada de seus companheiros. Assim que se haviam reunido e acomodado nesse lugar, ele mandou buscar pão e água. Os comissionados para trazê-los voltaram com mãos vazias e lhe informaram que não conseguiram obter pão do padeiro nem água da praça pública. "Vós nos tendes exortado," disseram-lhe, "a pormos em Deus nossa confiança e a Sua vontade nos resignarmos. 'Nada nos pode suceder salvo o que Deus nos destinou. Nosso Senhor leal é Ele; que em Deus ponham os fiéis sua confiança!"'(17)
Mullá Husayn mandou fechar os portões do caravançarai. Reunindo seus companheiros, lhes solicitou que permanecessem congregados em sua presença até a hora do pôr do sol. Assim que a noite se aproximava, perguntou se qualquer um dentre eles estaria disposto a se levantar e, renunciando à sua vida por causa de sua Fé, ascender ao telhado da caravançarai e fazer soar o adhán(18). Um jovem alegremente respondeu. Mal caíram de seus lábios as palavras introdutórias de "Alláh-u-Akbar" quando de repente uma bala o atingiu e lhe causou a morte imediata. "Que se levante outro dentre vós," exortava Mullá Husayn, "e, com a mesmíssima renúncia, prossiga a oração que aquele jovem não pôde terminar." Mais um jovem se pôs em pé e assim que pronunciara as palavras. "Dou testemunho de ser Maomé o Apóstolo de Deus," foi ele também lançado ao chão por outra bala do inimigo. Um terceiro jovem, a mando de seu líder, tentou completar a oração que os companheiros martirizados haviam sido forçados a deixar inacabada. Sofreu, igualmente, a mesma sorte. Assim que se aproximava do fim de sua oração e pronunciava as palavras "Não há Deus, senão Deus," ele, por sua vez, tombou morto.
Ao cair o terceiro companheiro, decidiu Mullá Husayn abrir o portão da caravançarai e se levantar, juntamente com os amigos, para repelir esse inesperado ataque por um inimigo traiçoeiro. Com um salto montando o cavalo, deu o sinal para a investida contra os agressores que se haviam aglomerado em frente dos portões e enchido o Sabzih-Maydán. Com espada na mão e seguido de seus companheiros, conseguiu ele dizimar as forças que contra ele se haviam disposto. Aqueles poucos que escaparam de suas espadas fugiram diante deles em pânico, mais uma vez apelando por paz, mais uma vez implorando clemência. Ao anoitecer havia a multidão inteira desvanecido. O Sabzih-Maydán, que poucas horas antes transbordava com a massa fervente de adversários, estava agora abandonado. Aquietara-se o clamor da multidão. O Maydán e suas imediações, com os corpos dos trucidados neles esparzidos, apresentavam um triste e comovente espetáculo, cena esta que dava testemunho da vitória de Deus sobre Seus inimigos.
Essa vitória(19) tão espantosa induziu alguns dos nobres e dirigentes do povo a intervirem junto a Mullá Husayn suplicando que mostrasse misericórdia a seus concidadãos. Vieram a pé para lhe apresentarem a petição. "Deus é nossa Testemunha", imploravam, "de que nenhuma intenção alimentamos, senão a de estabelecer a paz e reconciliação entre nós. Permanecei sentado em vosso corcel por enquanto, até havermos explicado nosso motivo." Observando a sinceridade de seu apelo, apeou e os convidou para entrarem com ele no caravançarai. "Nós, diferentes do povo dessa cidade, sabemos como receber o estranho em nosso meio," disse-lhes, enquanto os mandava sentarem-se ao seu lado e pedia que lhes fosse servido chá. "O Sa'ídu'l-'Ulamá," responderam, "foi tão somente responsável por haver ateado o fogo de tanto dano. O povo de Básfurúsh de modo algum deveria ser implicado no crime por ele cometido. Que se esqueça agora do passado. Queríamos sugerir, no interesse de ambos os lados, que vós e vossos companheiros partais amanhã para Ámul. Bárfurúsh está na agonia de grande excitamento; receamos que sejam novamente instigados a vos atacar." Mullá Husayn, embora insinuando não ser sincero o povo, acedeu a sua proposta; com a qual 'Abbás-Qulí Khán-i-Lárijání(20) e Hájí Mustafá Khán se levantaram juntos e jurando pelo Corão que com eles haviam trazido, solenemente declararam sua intenção de considerá-los seus hóspedes aquela noite e, no dia seguinte, de dar instruções a Khusraw-i-Qádí-Kalá'í(21) e a cem soldados de cavalaria para que lhes garantissem passagem segura através de Shír-Gáh. "A maldição de Deus e de Seus Profetas esteja sobre nós, tanto neste mundo como no vindouro", acrescentaram, "se jamais permitirmos que a vós ou a vossos companheiros seja infligido o menor mal." Logo depois de fazerem essa declaração, chegaram seus amigos que haviam ido buscar alimentos para os companheiros e forragem para os cavalos. Mullá Husayn mandou seus correligionários quebrarem seu jejum, já que nenhum deles nesse dia, que era sexta-feira, dia doze do mês de Dhi'l-Qa'dih(22), tomara qualquer alimento ou bebida desde a hora do alvorecer. Tão grande foi o número de notabilidades e seus companheiros que se amontoaram no caravançarai nesse dia que nem ele nem qualquer de seus companheiros haviam tomado o chá que ofereceram aos visitantes.
Naquela noite, cerca de quatro horas após o pôr-do-sol, Mullá Husayn, juntamente com os amigos, jantou na companhia de 'Abbás-Qulí Khán e Hájí Mustafá Khán. No meio daquela mesma noite, o Sa'idu'l-'Ulamá chamou Khusraw-i-Qádí-Kalá'í e confidencialmente lhe intimou seu desejo de que, a qualquer hora ou em qualquer lugar que ele mesmo decidisse, se apoderasse de todos os bens dos homens entregues a seu cuidado e que eles próprios, sem nenhuma exceção, fossem trucidados. "Não são eles seguidores do Islã?", perguntou Khusraw. "Essas mesmas pessoas, como eu já soube, não preferiram sacrificar três de seus companheiros a deixar inacabado o chamado à oração que haviam erguido? Como poderíamos nós, que nutrimos tais desígnios e perpetramos tais atos, ser considerados dignos deste nome?" Aquele perverso desavergonhado insistiu em que suas ordens fossem fielmente obedecidas. "Mate-os," disse-lhe, enquanto apontava o pescoço com o dedo, "e não tenhais medo. Eu me terei por responsável pelo vosso ato. Eu, no Dia do Juízo, responderei a Deus em vosso nome. Nós que temos em nossas mãos o cetro da autoridade, estamos certamente melhor informados do que vós e podemos melhor julgar do modo mais eficaz de extirpar essa heresia."
À hora do alvorecer, 'Abbás-Qulí Khán pediu que Khusraw fosse conduzido a sua presença, e lhe ordenou que exercesse a máxima consideração para com Mullá Husayn e seus companheiros para lhes garantir passagem segura através de Shír-Gáh, e que recusasse qualquer remuneração que lhe quisessem oferecer. Khusraw fingiu submissão a essas instruções e lhe assegurou que nem ele nem os soldados de sua cavalaria relaxariam sua vigilância ou vacilariam em sua devoção a eles. "Ao regressarmos," acrescentou, "nós vos mostraremos sua própria expressão, por escrito, de sua satisfação com os serviços que lhe teremos prestado."
Quando Khusraw foi conduzido por 'Abbás-Qulí Khán e Hájí Mustafá Khán e outros líderes representativos de Bárfurúsh à presença de Mullá Husayn e lhe foi apresentado, este comentou: "Se fizerdes bem, isso reverterá em vosso próprio benefício; se fizerdes mal, o mal a vós redundará(23)." Se esse homem nos tratar bem, grande será sua recompensa; e se agir traiçoeiramente para conosco grande será sua punição. A Deus queríamos entregar nossa Causa e a Sua vontade estamos completamente resignados."
Pronunciadas estas palavras, Mullá Husayn deu o sinal para a partida. Mais uma vez se ouviu Qambár-'Ali erguer o chamado de seu mestre: "Montai vossos corcéis, ó heróis de Deus!" - chamado esse que ele invariavelmente emitia em tais ocasiões. Ao som destas palavras, todos se apressaram a seus corcéis. Um destacamento da cavalaria de Khusraw marchou em sua frente. Seguiram-se imediatamente Khusraw e Mullá Husayn que, lado a lado, andavam montados no centro da companhia. Na retaguarda seguiram os outros companheiros e, a sua direita e a sua esquerda, marchava o resto dos cem soldados da cavalaria, os quais Khusraw armara como instrumentos prontos para a execução de seu desígnio. Fora combinado que a companhia partisse cedo da manhã de Bárfurúsh e chegassem em Shír-Gáh no mesmo dia ao meio-dia. Duas horas após o nascer do sol, partiram para seu destino. Khusraw tomou intencionalmente o caminho da floresta o qual, julgava ele, melhor serviria seu propósito.
Assim que nele haviam penetrado, Khusraw deu o sinal para ataque. Ferozmente seus homens se jogaram em cima dos companheiros saqueando-lhes os bens, matando alguns, entre os quais o irmão de Mullá Sádiq e tomando presos os restantes. Logo que o grito de agonia e angústia lhe alcançou os ouvidos, Mullá Husayn parou e apeando, protestou contra a pérfida conduta de Khusraw. "A hora do meio-dia já há muito passou", disse-lhe, "e ainda não atingimos nosso destino. Recuso proceder mais convosco; posso dispensar vossa guia e companhia e a de seus homens." Virando-se a Qambar-'Alí, pediu-lhe que estendesse o tapete para a oração, a fim de que oferecesse suas devoções. Estava fazendo as abluções quando Khusraw, que também desmontara, chamou um de seus subordinados e o mandou informar a Mullá Husayn que, se ele queria chegar são e salvo a seu destino, lhe entregasse tanto sua espada como seu cavalo. Recusando responder, Mullá Husayn prosseguiu a oferecer sua oração. Pouco depois, Mirza Muhammad-Taqíy-i-Juvayníy-i-Sabzivárí, homem de talento literário e intrépida coragem, foi a um subordinado que estava preparando o qalyán(24) e lhe pediu que o deixasse levá-lo pessoalmente a Khusraw, pedido esse ao qual ele prontamente acedeu. Mirza Muhammad-Taqí estava se baixando para acender o fogo do qalyán quando de súbito, metendo a mão no peito de Khusraw, retirou de suas vestes seu punhal e em suas vísceras o mergulhou até o cabo(25).
Continuava Mullá Husayn a orar quando de novo foi erguido pelos seus companheiros o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán"(26). Precipitaram-se sobre seus maldosos agressores e, em uma só investida, derrubaram todos, salvo o subordinado que preparara o qalyán. Aterrorizado e indefeso, prostrou-se ele aos pés de Mullá Husayn e lhe implorou socorro. Foi-lhe dado o qalyán ornamentado de jóias que pertencia a seu mestre. Recebeu ele, então, ordens para regressar a Bárfurúsh e contar a 'Abbás-Qulí Khán tudo o que testemunhara. "Diga-lhe," disse Mullá Husayn, "quão fielmente Khusraw cumpriu sua missão. Aquele malvado falso imaginava totalmente que minha missão tivesse terminado, que tanto minha espada como meu cavalo tivessem desempenhado sua função. Pouco sabia que seu trabalho havia apenas começado, que antes de serem inteiramente executados os serviços que possam prestar, nem seu poder nem o poder de qualquer outro além dele, de mim os poderá tirar."
Como a noite se aproximava, a companhia decidiu demorar-se nesse lugar até a hora da alvorada. Ao amanhecer, Mullá Husayn, após haver oferecido sua oração, reuniu os companheiros e lhes disse: "Estamos nos aproximando de nossa Karbilá, nosso destino final." Logo depois, partiu a pé em direção àquele lugar, sendo seguido pelos companheiros. Vendo que alguns poucos estavam tentando levar com eles os bens de Khusraw e seus homens, ordenou-lhes que deixassem atrás tudo, menos suas espadas e seus cavalos. "Cumpre-vos," insistia ele, "chegardes naquele lugar sagrado numa condição de desprendimento completo, totalmente santificados de tudo o que pertence a este mundo"(27). Havia ele andado a distância de um maydán(28) quando alcançou o santuário de Shaykh Tabarsí(29). O Shaykh fora um dos que transmitiram as tradições atribuídas aos imames da Fé e o lugar de sua sepultura era visitado pelo povo da região. Ao alcançar esse lugar, recitou ele o seguinte versículo do Corão: "Ó meu Senhor, abençoa Tu minha chegada neste lugar, pois somente Tu podes conceder tais bênçãos."
Na noite anterior a sua chegada, o guardião do santuário sonhou que o Siyyidu'sh-Shuhadá, o Imame Husayn, viera a Shaykh Tabarsí, acompanhado de nada menos de setenta e dois guerreiros e grande número de seus companheiros. Sonhou que eles se demoraram nesse lugar, travaram a mais heróica das batalhas, triunfando em cada combate sobre as forças do inimigo e que o próprio Profeta de Deus chegou, uma noite, e fez parte dessa abençoada companhia. Quando Mullá Husayn veio no dia seguinte, o guardião de imediato o reconheceu como o herói visto em sua visão, prostrou-se aos seus pés e os beijou devotadamente. Mullá Husayn convidou-o a se sentar ao seu lado e o ouviu relatar sua experiência. "Tudo o que testemunhaste," assegurou ele ao guardião do santuário, "há de se realizar. Aquelas cenas gloriosas serão novamente representadas diante de teus olhos." Esse servo decidiu-se afinal a participar da sorte dos heróicos defensores do forte e caiu vítima, martirizado dentro de seus muros.
No mesmo dia de sua chegada, que era o dia 14 de Dhi'l-Qa'dih(30), Mullá Husayn deu a Mirza Muhammad-Báqír, que construíra o Bábiyyih, as instruções preliminares referentes ao desenho do forte que deveria ser construído para sua defesa. Ao anoitecer do mesmo dia, viram-se subitamente cercados por uma multidão irregular de homens montados que haviam emergido da floresta e se preparavam para disparar contra eles suas armas de fogo. "Somos habitantes de Qádí-Kalá," gritaram. "Viemos vingar o sangue de Khusraw. Antes de passarmos todos na espada, não estaremos satisfeitos." Assediada por uma turba selvagem pronta a lançar-se sobre eles, a companhia teve de desembainhar mais uma vez as espadas, em defesa própria. Erguendo o brado de "Yá Sáhihu'z-Zamán", aos saltos avançaram, repulsaram os agressores e os puseram em fuga. Tão tremendo foi o brado, que aqueles homens montados se desvaneceram tão subitamente como haviam aparecido. Mirza Muhammad Taqíy-i-Juvayní, a seu próprio pedido, assumira o comando desse combate.
Receando que os agressores voltassem para um novo ataque contra eles e recorressem a um massacre geral, seguiram-nos até alcançarem uma vila que pensavam fosse a de Qádí-Kalá. Ao vê-los, todos os homens fugiram apavorados. A mãe de Nazar Khán, proprietária da vila, foi morta, inadvertidamente na escuridão da noite, em meio à confusão que se seguiu. O clamor das mulheres, que protestavam violentamente, dizendo não terem relação alguma com o povo de Qádí-Kalá, breve atingiu os ouvidos de Mirza Muhammad-Taqí, que de pronto ordenou que os companheiros detivessem as mãos até se certificarem do nome e caráter do lugar. Logo descobriram que a vila pertencia a Nazar Khán e que a mulher cuja vida fora sacrificada era sua mãe. Profundamente aflito ao verificar tão lastimável erro da parte dos companheiros, Mirza Muhammad-Taqí pesarosamente exclamou: "Não tencionávamos nós molestar nenhum homem ou mulher dessa vila. Nosso propósito único era conter a violência do povo de Qádí-Kalá, que estava prestes a nos massacrar a todos." Apresentou suas desculpas sinceras pela lamentável tragédia da qual foram seus companheiros os autores inconscientes.
Nazar Khán, que entrementes se escondera em sua casa, convenceu-se da sinceridade do pesar expresso por Mirza Muhammad-Taqí. Embora sofrendo por causa dessa penosa perda, sentiu-se impelido a chamá-lo e convidá-lo a sua casa. Até pediu a Mirza Muhammad-Taqí que o apresentasse a Mullá Husayn, expressando um desejo ardente de conhecer os preceitos de uma Causa capaz de atear nos corações de seus aderentes tão grande fervor.
Na hora da alvorada, Mirza Muhammad Taqí, acompanhado de Nazar Khán, chegou ao santuário de Shaykh Tarbarsí e encontrou Mullá Husayn ocupado em dirigir a oração congregacional. Tal foi o êxtase que se irradiava de seu semblante que Nazar Khán sentiu um impulso irresistível de se juntar àqueles devotos e repetir as mesmas preces que estavam então caindo de seus lábios. Após a conclusão dessa prece, Mullá Husayn foi informado da perda que Nazar Khán sofrera. Ele expressou na mais comovente linguagem os pêsames que ele e a inteira companhia de seus co-discípulos sentiam por ele em sua grande perda. "Deus sabe," ele lhe assegurou, "que nossa intenção única foi proteger nossas vidas; não queríamos perturbar a paz da vizinhança." Mullá Husayn procedeu então a relatar as circunstâncias que provocaram o ataque contra eles dirigido pelo povo de Bárfurúsh e explicou a conduta traiçoeira de Khusraw. De novo lhe assegurou da tristeza que a morte de sua mãe lhe havia causado. "Não aflijais vosso coração," respondeu Nazar Khán, espontaneamente. "Oxalá me tivessem sido dados cem filhos, todos os quais teria eu jubilosamente posto aos vossos pés, como oferenda ao Sáhibu'z-Zamán!" Hipotecou, naquele mesmo momento, sua lealdade imorredoura a Mullá Husayn e se apressou a voltar a sua vila a fim de buscar quaisquer provisões que pudessem ser necessitadas para a companhia.
Mullá Husayn ordenou que os companheiros começassem a construção do forte que fora projetado. A cada grupo designou uma seção do trabalho, encorajando-os a apressarem sua execução. Durante essas operações estavam continuamente importunados pelos habitantes das vilas vizinhas que, instigados persistentemente pelo Sa'ídu'l-'Ulamá, saiam e os agrediam. Cada ataque do inimigo terminava em fracasso e ignomínia. Não detidos pela ferocidade de suas freqüentes investidas, os companheiros resistiam destemidamente aos seus ataques até conseguirem subjugar temporariamente as forças que por todos os lados haviam assediado. Ao ser completado o trabalho da construção, empreendeu Mullá Husayn os preparativos necessários para o assédio que o forte estava destinado a suportar e providenciou, a despeito dos empecilhos que lhe obstavam o caminho, tudo o que parecia ser essencial ao bem-estar dos ocupantes.
Mal se completara o trabalho quando chegou Shaykh Abú-Turáb trazendo a notícia da chegada de Bahá'u'lláh na vila de Nazar Khán. Informou a Mullá Husayn que fora especialmente mandado por Bahá'u'lláh para lhes avisar que seriam todos Seus hóspedes naquela noite e que Ele Próprio estaria com eles naquela mesma tarde. Tenho ouvido Mullá Mirza Muhammad-i-Furúghí contar o seguinte: "As boas novas trazidas por Shaykh Abú-Turáb conferiram ao coração de Mullá Husayn júbilo indescritível. De imediato se apressou para a recepção de Bahá'u'lláh. Ele mesmo participou com eles em varrer e borrifar de água as entradas para o santuário e pessoalmente atendia a qualquer coisa que fosse necessária para a vinda do bem-amado Visitante. Assim que O viu aproximar-se com Nazar Khán precipitou-se em direção a ele, com ternura O abraçou e conduziu ao lugar de honra que para Sua recepção ele reservara. Estávamos demasiado cegos naqueles dias para reconhecermos a glória Daquele que nosso líder, em nosso meio, apresentara com tanta reverência e tão grande amor. O que Mullá Husayn havia percebido, nossa ofuscada visão não podia ainda reconhecer. Com quanta solicitude ele O recebia nos braços! Que sentimentos de extático deleite lhe inundavam o coração ao contemplá-Lo. Tão absorto estava em admiração que de todos nós se esquecia completamente. A tal ponto se extasiava sua alma com a contemplação daquele semblante que nós, esperando sua permissão para nos sentarmos, tivemos de ficar em pé a seu lado por muito tempo. Foi o próprio Bahá'u'lláh que, enfim, nos mandou sentarmos. Breve fomos nós também forçados a sentir, ainda que inadequadamente, o encanto de Seu discurso, embora nenhum de nós percebesse, nem sequer tenuemente, a infinita potência latente em Suas palavras.
Bahá'u'lláh durante essa visita inspecionou o forte e expressou Sua satisfação com o trabalho que havia sido executado. Em Sua conversação com Mullá Husayn, explicou Ele em detalhe tais assuntos como eram vitais ao bem-estar e segurança de seus companheiros. 'A coisa única de que necessitam esse forte e essa companhia,' disse Ele, 'é a presença de Quddús. Sua associação com essa companhia a tornaria completa e perfeita.' Deu instruções a Mullá Husayn para expedir Mullá Mihdíy-i-Khu'í com seis pessoas a Sárí e exigir de Mirza Muhammad-Taqí que de imediato entregasse Quddús em suas mãos. 'O temor a Deus e o medo de Seu castigo,' Ele assegurou a Mullá Husayn, 'o impelirá a render seu cativo sem hesitação.'
"Antes de Sua partida, Bahá'u'lláh os exortou a serem pacientes e resignados à vontade do Todo-Poderoso. 'Se for Sua vontade,' acrescentou, 'ainda outra vez vos visitaremos nesse mesmo lugar, e vos prestaremos Nossa assistência. Fostes escolhido por Deus para serdes a vanguarda de Sua hoste e os fundadores de Sua Fé. Sua hoste, verdadeiramente, haverá de conquistar. Aconteça o que acontecer, a vitória é vossa, uma vitória que é completa e certa.' Com estas palavras, confiou aos cuidados de Deus aqueles corajosos companheiros e regressou à vila com Nazar Khán e Shaykh Abú-Turáb. Daí partiu via Núr a Teerã."
Logo Mullá Husayn se pôs a levar a cabo as instruções que recebera. Chamando Mullá Mihdí, ordenou que procedesse, juntamente com seis outros companheiros, a Sárí e pedisse que o mujtahid libertasse seu prisioneiro. Logo que lhe foi transmitida a mensagem, Mirza Muhammad-Taqí acedeu incondicionalmente a seu pedido. A potência da qual fora dotada aquela mensagem parecia o haver desarmado completamente. "Eu o tenho considerado," apressou-se a assegurar aos mensageiros, "somente como hóspede honrado em minha casa. Indigno seria de mim fingir que eu o houvesse despedido ou libertado. Liberdade tem ele para fazer o que deseja. Se ele quisesse, eu de bom grado o acompanharia."
Mullá Husayn, entrementes, avisara os companheiros da aproximação de Quddús e os exortara a observarem para com ele tal reverência como a que eram impelidos a mostrar ao próprio Báb. "Quanto a mim," acrescentou, "deveis me considerar como seu humilde servo. Deveis lhe prestar tal lealdade que, se ele vos mandasse me tirar a vida, sem hesitação o obedeceríeis. Se vacilardes ou hesitardes, tereis demonstrado vossa deslealdade à Fé. Antes dele vos chamar a sua presença, não devereis vós, de modo algum, vos aventurar a introduzir-vos. Deveríeis abandonar vossos desejos e aderir a sua vontade e seu beneplácito. Deveríeis vos abster de lhe beijar as mãos ou os pés, pois a seu abençoado coração não agradam tais evidências de reverente afeto. Tal deve ser vossa conduta que eu me possa orgulhar de vós diante dele. A glória e a autoridade das quais foi ele investido devem por força ser devidamente reconhecidas até pelos mais insignificantes de seus companheiros. Quem se desviar do espírito e da letra de minhas admoestações, será por uma punição penosa ser seguramente atingido."
O encarceramento de Quddús na casa de Mirza Muhammad-Taqí, o mais eminente mujtahid de Sárí e seu parente, durou noventa e cinco dias. Embora confinado, Quddús era tratado com notável deferência, sendo-lhe permitido receber a maioria dos companheiros que havia estado presente na reunião de Badasht. A ninguém, entretanto, dava ele permissão para permanecer em Sárí. Qualquer um que o visitasse era por ele solicitado, em termos os mais prementes, a alistar-se sob o Estandarte Negro içado por Mullá Husayn. Era o mesmo estandarte do qual assim falara Maomé, o Profeta de Deus: "Fossem vossos olhos contemplar os Estandartes Negros a procederem de Khurásán, apressai-vos em sua direção, ainda que tenhais de vos arrastar sobre a neve, pois proclamam o advento do prometido Mihdí(31), Vice-regente de Deus." Foi içado esse estandarte a mando do Báb, em nome de Quddús e pelas mãos de Mullá Husayn. No alto foi levado, por todo o caminho desde a cidade de Mashhad até o santuário de Shaykh Tabarsí. Durante onze meses, desde o princípio de Sha'bán, no ano de 1264 A. H.(32), até o fim de Jamádíyu'th-Thání, no ano de 1265 A.H.(33), aquele emblema terreno de uma soberania que não era da Terra flutuava continuamente sobre as cabeças daquela pequena e intrépida companhia, convocando a multidão que o contemplava a renunciar ao mundo e esposar a Causa de Deus.
Enquanto em Sárí, Quddús freqüentemente tentava convencer Mirza Muhammad-Taqí da Verdade da Mensagem Divina. Conversava livremente com ele sobre as mais ponderosas e salientes questões relacionadas à Revelação do Báb. Seus comentários audazes e desafiadores eram expressos em linguagem tão branda, tão persuasiva, tão cortez e apresentados com tanta genialidade e humor, que aqueles que o ouviam nem no mínimo grau se sentiam ofendidos. Até interpretavam erroneamente suas alusões ao Livro Sagrado, considerando-as comentários humorísticos que visavam entreter os ouvintes. Mirza Muhammad-Taqí, a despeito de sua crueldade e malvadez nele latentes e que ele subseqüentemente manifestou pela atitude que assumiu ao insistir sobre o extermínio dos defensores restantes do forte de Shaykh Tabarsí, era detido por um poder interior de mostrar a Quddús, enquanto confinado em sua casa, o mínimo desrespeito. Até se sentia incitado a impedir que os habitantes de Sárí ofendessem Quddús e muitas vezes se podia ouví-lo repreendê-los pelo dano que desejavam lhe infligir.
A notícia da iminente chegada de Quddús despertou os ocupantes do forte de Tabarsí. Ao aproximar-se de seu destino, mandou ele um mensageiro em sua frente para anunciar sua vinda. As novas jubilosas deram-lhes coragem e poder reforçados. Excitado a uma explosão de entusiasmo que ele não podia reprimir, Mullá Husayn se levantou e escoltado por cerca de cem de seus companheiros, apressou-se em ir ao encontro do visitante esperado. Colocou duas velas nas mãos de cada um, acendendo-as ele mesmo e ordenou que procedessem ao encontro de Quddús. As trevas da noite foram dissipadas pelo brilho que aqueles corações jubilosos irradiavam enquanto marchavam para diante, ao encontro de seu bem-amado. No meio da floresta de Mázindarán, seus olhos instantaneamente reconheceram a face que haviam ardentemente desejado fitar. Com entusiasmo se conglomeravam em volta de seu corcel e com toda prova de devoção, lhe prestaram sua homenagem de amor e imorredoura lealdade. Segurando ainda nas mãos as velas acesas, seguiram-no a pé em direção a seu destino. Quddús, enquanto ia montado em seu meio, aparecia como o sol que brilhava entre seus satélites. À medida que a companhia trilhava lentamente o caminho ao forte, irrompeu o hino de glorificação e louvor entoado pela companhia de seus entusiásticos admiradores. "Santo, santo, o Senhor nosso Deus, o Senhor dos anjos e do espírito!" Ressoavam suas vozes jubilantes ao seu redor. Mullá Husayn erguia o alegre estribilho, ao qual respondia a companhia inteira. A floresta de Mázindarán ecoava ao som de suas aclamações.
Desta maneira alcançaram o santuário de Shaykh Tabarsí. As primeiras palavras a caírem dos lábios de Quddús, após haver ele apeado e se encostado ao santuário, foram as seguintes: "O melhor para vós será o Baqíyyatu'lláh(34), se sois dos que crêem(35)." Com esta pronunciação se cumpriu a profecia de Maomé, segundo registrada na seguinte tradição: "E quando o Mihdí(36) se tornar manifesto, Ele haverá de se encostar ao Ka'bih e, aos trezentos e treze seguidores ajuntados ao Seu redor, dirigir estas palavras. 'O melhor para vós será o Baqíyyatu'lláh, se sois dos que crêem.'" Por "Baqíyyatu'lláh," Quddús não queria se referir senão a Bahá'u'lláh. Disto deu testemunho Mullá Mirza Muhammad-i-Furughí, quem me relatou o seguinte: "Presente estava eu mesmo quando Quddús apeou de seu cavalo. Eu o vi encostar-se ao santuário e aquelas mesmas palavras o ouvi pronunciar. Mal as dissera quando fez menção de Bahá'u'lláh e, virando-se a Mullá Husayn, indagou sobre Ele. Foi informado de que Ele dera a entender Sua intenção de regressar a esse lugar antes do primeiro dia de Muharram, a menos que Deus decretasse o contrário(37).
"Pouco depois, Quddús entregou a Mullá Husayn várias homilias, pedindo-lhe que as lesse em voz alta aos companheiros reunidos. A primeira homilia que leu foi dedicada inteiramente ao Báb, a segunda a Bahá'u'lláh e a terceira se referia a Táhirih. Aventuramo-nos a expressar a Mullá Husayn nossas dúvidas sobre as referências na segunda homilia, se eram aplicáveis a Bahá'u'lláh, que aparecia ataviado nas vestes da nobreza. Levou-se a questão a Quddús, que nos assegurou que, Deus desejando, seu segredo nos seria revelado no devido tempo. Sendo-nos completamente despercebido, naqueles dias, o caráter da Missão de Bahá'u'lláh, não pudemos compreender o que significavam aquelas alusões, e conjeturávamos futilmente sobre seu provável significado. Em minha ansiedade de desvendar as sutilezas das tradições relativas ao prometido Qá'im, eu várias vezes me aproximei de Quddús e lhe pedi que me esclarecesse sobre esse assunto. Embora ele de início não quisesse, acedeu afinal a meu desejo. A maneira de responder, suas explicações convincentes e iluminadoras, serviram para intensificar o senso de reverência e veneração que sua presença inspirava. Dissipou ele quaisquer dúvidas que ainda restassem em nossas mentes e tais foram as evidências de sua perspicácia que viemos a acreditar que lhe fora concedido o poder de ler nossos pensamentos mais profundos e acalmar o mais violento tumulto em nossos corações.
"Muitas foram as noites em que eu via Mullá Husayn andar à roda do santuário dentro de cujo recinto jazia Quddús adormecido. Quantas vezes eu o via emergir de seu aposento no meio da noite, e quieto, dirigir os passos àquele lugar e sussurrar o mesmo verso com que nós todos havíamos aclamado a vinda do bem-amado visitante! Com que emoção me posso ainda dele lembrar, enquanto a mim se dirigia - na quietude daquelas horas escuras e solitárias que eu dedicava à meditação e prece - e me sussurrava nos ouvidos estas palavras: - 'Bani de vossa mente, ó Mullá Mirza Muhammad, essas sutilezas perplexas e, livrando-vos de seus ardis, levantai-vos e comigo procurai sorver da taça do martírio. Podereis então compreender, ao raiar sobre o mundo o ano de 80(38), o segredo das coisas que ora jazem ocultas de vós.'"
Quddús, ao chegar no santuário de Shaykh Tabarsí, incumbiu Mullá Husayn de se certificar do número dos companheiros reunidos. Um por um, ele os contou, mandando que entrassem, passando pelo portão do forte: trezentos e doze ao todo. Prestes estava, ele próprio, a entrar no forte, a fim de informar Quddús do resultado, quando de súbito um jovem que por todo o caminho de Bárfurúsh a pé se apressara, entrou precipitadamente e, pegando a bainha de suas roupas, implorou que o alistassem entre os companheiros e lhe permitissem que no caminho do Bem-Amado sacrificasse sua vida quando quer que fosse exigida. Logo, a seu desejo se acedeu. Quddús, ao ser informado do número total dos companheiros, comentou: "O que a língua do Profeta de Deus tiver pronunciado sobre o Prometido, haverá por força de ser cumprido(39), para que assim Seu testemunho seja completo aos olhos daqueles sacerdotes que a si próprios estimam como os intérpretes únicos da lei e das tradições do Islã. Por seu intermédio virá o povo a reconhecer a verdade e admitir haverem sido cumpridas as tradições(40)."
Todas as manhãs e todas as tardes, naqueles dias, Quddús chamava Mullá Husayn e os mais distintos dentre seus companheiros e lhes pedia que entoassem os escritos do Báb. Assentado no Maydán, a praça aberta adjacente ao forte e rodeado por seus amigos devotados, escutava ele atentamente as palavras de seu Mestre e, em algumas ocasiões, se podia ouvi-lo sobre elas comentar. Nem as ameaças do inimigo, nem a ferocidade de seus sucessivos ataques, podiam induzi-lo a diminuir o fervor ou interromper a regularidade de suas devoções. Não levando em conta qualquer perigo e esquecido de suas próprias necessidades e desejos, ele continuava, até sob as circunstâncias mais angustiantes, sua comunhão diária com seu Bem-Amado, escrevendo sobre Ele seus louvores, e pedindo novos esforços aos defensores do forte. Embora expostos às balas que continuavam a chover incessantemente sobre os companheiros assediados, ele em nada detido pela ferocidade do ataque, prosseguia seus labores em estado de calma imperturbável. "Com Tua menção minha alma se esposou!" Usava ele exclamar. "Lembrança de Ti é o apoio e o consolo de minha vida! Eu me vanglorio por haver sido o primeiro a sofrer ignominiosamente por amor a Ti, em Shíráz. Anelo a ser o primeiro a sofrer em Teu caminho uma morte digna de Tua Causa."
Em algumas ocasiões pedia ele aos companheiros do Iraque que entoassem várias passagens do Corão, as quais escutava com concentrada atenção e muitas vezes se sentia impelido a desdobrar seu significado. Durante uma de suas entoações encontraram o seguinte versículo: "Com algo de medo e fome, perda de riqueza e vidas e frutos, Nós seguramente vos provaremos; mas levai boas novas aos pacientes." "Estas palavras," dizia Quddús, "foram originariamente reveladas com referência a Jô e as aflições que lhe sobrevieram. Neste dia, porém, são aplicáveis a nós, que somos destinados a sofrer essas mesmas aflições. Tal será a medida de nossa calamidade que ninguém, a não ser aquele dotado de constância e paciência, as poderá sobreviver."
O conhecimento e a sagacidade que Quddús manifestava nessas ocasiões, a confiança com que falava, e a habilidade e iniciativa que demonstrava nas instruções aos companheiros, reforçava sua autoridade e lhe realçava o prestígio. Supunham de início que a profunda reverência que Mullá Husayn lhe mostrava era ditada pelas exigências da situação em vez de ser incentivada por um sentimento espontâneo de devoção a sua pessoa. Seus próprios escritos e comportamento em geral vinham dissipando aos poucos as tais dúvidas e serviram para estabelecê-lo ainda mais firmemente na estima dos companheiros. Nos dias de seu encarceramento na cidade de Sárí, Quddús, a quem Mirza Muhammad-Taqí havia pedido que escrevesse um comentário sobre o Sura de Ikhlás, conhecido como Sura de Qul Huva'lláhu'l-Ahad compôs - só em sua interpretação do Sád de Samad - um tratado três vezes mais volumoso do que o próprio Corão. Essa exposição exaustiva e magistral fizera uma impressão profunda em Mirza Muhammad-Taqí e fora responsável pela consideração notável que ele mostrava para com Quddús, embora no fim tivesse ele conspirado com o Sa'ídu'l-'Ulamá para efetivar a morte dos heróicos mártires de Shaykh Tabarsí. Sobre essa Sura continuou Quddús, enquanto assediado naquele forte, a escrever seu comentário, e a despeito da veemência da investida do inimigo, ele conseguiu compor tantos versículos quanto escrevera previamente em Sárí em sua interpretação dessa mesma carta. A rapidez e a copiosidade de sua composição, os inestimáveis tesouros que seus escritos revelavam, enchiam de admiração os seus companheiros e aos olhos deles lhe justificavam a primazia. Avidamente liam as páginas desse comentário que Mullá Husayn cada dia lhes entregava e ao qual prestava ele seu quinhão de homenagem.
A complementação do forte, com o fornecimento de tudo o que se julgava essencial a sua defesa despertou o entusiasmo dos companheiros de Mullá Husayn e excitou a curiosidade do povo da vizinhança(41). Alguns por simples curiosidade, outros à procura de interesses materiais, e ainda outros motivados pela sua devoção à Causa que essa construção simbolizava, queriam ser admitidos dentro de seus muros e se maravilhavam da rapidez com que fora erguida. Mal havia Quddús se certificado do número de seus ocupantes, quando deu ordem de não se permitir que visitante algum lá entrasse. Os profusos elogios daqueles que já haviam inspecionado o forte foram transmitidos de boca em boca até que chegaram aos ouvidos do Sa'ídu'l-'Ulamá e em seu peito acenderam a chama de implacável ciúme. Em seu ódio por aqueles responsáveis pela sua ereção, proibiu estritamente que qualquer um se aproximasse de seu recinto e exortou todos a boicotarem os companheiros de Mullá Husayn. Apesar da severidade de suas ordens, foram encontrados alguns poucos que não cumpriram seus desejos e prestaram qualquer assistência em seu poder aos que haviam sido tão imerecidamente por ele perseguidos. Tais eram as aflições às quais foram sujeitadas essas pessoas que em certas ocasiões sentiam uma falta penosa das meras necessidades da vida. Em sua hora tenebrosa de adversidade, entretanto, irrompia sobre eles, de súbito, a luz da libertação Divina, lhes abrindo diante da face a porta de alívio inesperado.
A maneira providencial como eram os ocupantes do forte aliviados da aflição que sobre eles pesava agravou para enfurecer a ira do arbitrário e imperioso Sa'ídu'l-'Ulamá. Impelido por um ódio implacável, dirigiu ele um apelo inflamado a Násiri'd-Dín Sháh, que recentemente ascendera ao trono, e se estendeu sobre o perigo que ameaçava sua dinastia, ainda mais, a própria monarquia. "O estandarte de revolta," argüia ele, "foi erguido pela seita abominável dos Bábís. Esse miserável bando de irresponsáveis agitadores teve a ousadia de atacar os próprios fundamentos da autoridade da qual foi investida Vossa Majestade Imperial. Os habitantes de várias vilas já se apressaram a seu estandarte e juraram lealdade a sua Causa. Construíram para si um forte e, nessa maciça cidadela se entrincheiraram, prontos para dirigir uma campanha contra vós. Com inalterável obstinação resolveram proclamar sua soberania independente, soberania essa que baixará ao pó o diadema imperial de vossos ilustres ancestrais. Estais no limiar de vosso reinado. Que triunfo maior poderia assinalar a inauguração de vosso domínio do que a extirpação dessa odiosa seita que se atreveu a conspirar contra vós? Servirá para estabelecer Vossa Majestade na confiança de vosso povo. Realçar-vos-á o prestígio e investirá vossa coroa de imperecível glória. Se vacilardes em vossa política, se mostrardes para com eles a mínima indulgência, sentirei ser meu dever vos advertir que rapidamente se aproxima o dia quando não somente a província de Mázindarán mas a Pérsia inteira, de uma extremidade à outra, terá repudiado vossa autoridade e se rendido a sua Causa."
Násiri'd-Dín Sháh, inexperiente ainda nos assuntos de Estado, referiu a questão aos oficiais que comandavam o exército de Mázindarán e que lhe atendiam(42). Deu-lhes instruções para tomar quaisquer medidas que julgassem apropriada para a exterminação dos perturbadores de seu reino. Hájí Mustafá Khán-i-Turkamán submeteu ao soberano sua opinião: "Venho eu mesmo de Mázindarán. Tenho podido estimar as forças a Sua disposição. O punhado de estudantes sem treinamento e de físico frágil, que eu vi, são absolutamente impotentes para resistir as forças que Vossa Majestade pode comandar. O exército que pensais em expedir é, a meu ver, desnecessário. Um pequeno destacamento desse exército será suficiente para eliminá-los. São completamente indignos do cuidado e da consideração de meu soberano. Quisesse Vossa Majestade, numa mensagem imperial dirigida a meu irmão 'Abdu'lláh Khán-i-Turkamán, indicar vosso desejo de que lhe seja conferida a autoridade necessária para subjugar aquele bando, estou convencido de que ele, num prazo de dois dias, reprimirá sua rebelião e destruirá suas esperanças."
O Xá deu seu consentimento e emitiu seu farmán(43) àquele mesmo 'Abdu'lláh Khán, lhe ordenando que sem demora recrutasse de qualquer parte de seu domínio as forças de que pudesse necessitar para executar seu propósito. Enviou com sua mensagem uma insígnia real, que lhe conferiu como sinal de confiança em sua capacidade para empreender essa tarefa. Ao receber o farmán imperial e o símbolo de honra que seu soberano lhe conferira, ele se sentiu estimulado a nova resolução para executar de um modo digno a sua missão. Dentro de pouco tempo havia ele levantado um exército de cerca de doze mil homens, composto em grande parte das comunidades de Usanlú, Afghán e Kúdár(44). Muniu-os de todas as armas necessárias e os estacionou na vila de Afrá, propriedade de Nazar Khán, donde se avistava o forte de Tabarsí. Assim que fixara seu acampamento nessa elevação, saiu ele para interceptar o suprimento diário de pão para os companheiros de Mullá Husayn. Até água breve lhes seria negada, como se tornava impossível que os assediados deixassem o forte exposto ao fogo do inimigo.
O exército recebeu ordens de levantar várias barricadas na frente do forte e abrir fogo contra qualquer um que por acaso saísse de seu portão. Quddús proibiu os companheiros de saírem para buscar água da vizinhança. "Nosso pão foi interceptado por nosso inimigo," queixou Rasúl-i-Bahnimírí. "Que nos acontecerá se água também nos for negada?" Quddús, que, nesta ocasião, na hora do pôr-do-sol, avistava do terraço do forte, na companhia de Mullá Husayn, o exército do inimigo, a ele se virando, disse: "A escassez de água afligiu nossos companheiros. Deus desejando, nesta mesma noite, um aguaceiro sobrevirá aos nossos oponentes, seguido de uma tempestade de neve, o que nos ajudará a repulsar sua projetada investida."
Naquela mesma noite, o exército de 'Abdu'lláh Khán foi surpreendido por uma chuva torrencial que engolfou aquela seção próxima do forte. Grande parte da munição foi irreparavelmente arruinada. Juntou-se dentro dos muros do forte uma quantidade de água que por um longo período foi suficiente para o consumo dos assediados. Durante a noite seguinte, uma tempestade de neve tal como o povo da vizinhança nunca, nem no auge do inverno, havia visto, agravou consideravelmente o aborrecimento causado pela chuva. Na próxima noite, que era a véspera do dia cinco de Muharram, no ano de 1265 A. H.(45), decidiu Quddús a sair pelo portão do forte. "Louvado seja Deus" disse ele a Rasúl-i-Bahnimírí, enquanto com calma e serenidade passeava pelas proximidades do portão, "que por Sua graça respondeu a nossa prece e fez cair tanta chuva como neve sobre nossos inimigos, tempestade essa que assolou seu acampamento e refrescou nosso forte."
Ao aproximar-se a hora do ataque para o qual o numeroso exército, a despeito das perdas sofridas, assiduamente se preparava, determinou-se Quddús a sair subitamente e lhe dissipar as forças. Duas horas após o nascer do sol, montou ele o corcel e, acompanhado de Mullá Husayn e mais três de seus companheiros, todos os quais iam montados ao seu lado, saíram pelo portão, seguidos pela companhia inteira, a pé. Logo que emergiram, retumbou o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!"(46) brado esse que causou consternação por todo o acampamento do inimigo. O rugido que esses destemidos seguidores do Báb levantaram no meio da floresta de Mázindarán dispersou o inimigo apavorado que jazia em emboscada dentro de seus retiros. O reluzir de suas armas desembainhadas lhes ofuscava a vista, e sua ameaça era suficiente para os estontear e dominar. Diante de seu ímpeto, fugiram em derrota ignominiosa, deixando atrás todas as suas possessões. Dentro do espaço de quarenta e cinco minutos se havia erguido o brado da vitória. Quddús e Mullá Husayn conseguiram dominar o resto do exército derrotado. 'Abdu'lláh Khán-i-Turkamán, com dois de seus oficiais, Habibu'lláh Khán-i-Afghán e Núru'lláh Khán-i-Afghán, juntamente com nada menos de quatrocentos e trinta de seus homens haviam perecido.
Quddús regressou ao forte, enquanto Mullá Husayn ainda se ocupava em prosseguir o trabalho que tão valorosamente havia sido executado. A voz de Siyyid 'Abdu'l-Azím-i-Khu'í logo se ergueu, chamando-o, em nome de Quddús, a voltar de imediato ao forte. "Já repelimos os assaltantes," disse Quddús, "não necessitamos levar avante a punição. É nosso propósito proteger a nós mesmos, a fim de que possamos continuar nossos labores pela regeneração dos homens. Nenhuma intenção temos nós de causar dano desnecessário a quem quer que seja. O que já realizamos é testemunho suficiente do invencível poder de Deus. Nós, uma pequena companhia de Seus seguidores, pudemos, através de Sua graça sustentadora, vencer o exército organizado e treinado de nossos inimigos."
A despeito da luta, nenhum dos seguidores do Báb perdeu a vida durante esse combate. Nem foi gravemente ferido ninguém, a não ser um homem de nome Qulí, que ia montado na frente de Quddús. A todos se ordenou que nada pegassem da propriedade de seus adversários exceto suas espadas e seus cavalos.
Como estavam se tornando evidentes os sinais da reorganização das forças comandadas por 'Abdu'lláh Khán, Quddús ordenou aos companheiros que cavassem um fosso em volta do forte para salvaguardá-los contra uma nova investida. Passaram-se dezenove dias durante os quais se esforçaram ao máximo para completarem a tarefa da qual foram incumbidos. Jubilosamente laboravam, dia e noite, a fim de acelerarem o trabalho que lhes fora confiado.
Pouco depois de terminado o trabalho, foi anunciado que o Príncipe Mihdí-Qulí Mirza(47) estava avançando em direção ao forte, chefiando um exército numeroso, e havia de fato acampado em Shír-Gáh. Poucos dias mais tarde, transferiram o quartel para Vás-Kas. Ao lá chegar, mandou um de seus homens para informar a Mullá Husayn que o Xá lhe ordenara que se certificasse do propósito de suas atividades e pedisse que Mullá Husayn o esclarecesse quanto ao objetivo que mirava. "Diga ao seu mestre," replicou Mullá Husayn, "que negamos em absoluto qualquer intenção ou de subverter os fundamentos da monarquia ou de usurpar a autoridade de Násiri'd-Dín Sháh. Nossa Causa trata da revelação do prometido Qá'im e se associa primariamente aos interesses da ordem eclesiástica deste país. Podemos expor argumentos incontrovertíveis e deduzir infalíveis provas em apoio da verdade da Mensagem da qual somos portadores." Apaixonada sinceridade com a qual Mullá Husayn pleiteou em defesa de sua Causa e os detalhes que citou para demonstrar a validade de suas pretensões, comoveram o coração do mensageiro e trouxeram lágrimas aos seus olhos. "Que devemos fazer?", exclamou ele. "Que o príncipe," respondeu Mullá Husayn, "dê instruções aos ulemás tanto de Sarí como de Bárfurúsh par virem a este lugar e nos pedirem que demonstremos a validade da Revelação proclamada pelo Báb. Que o Corão decida quem diz a verdade. Que o príncipe julgue nosso caso, ele próprio, e pronuncie o veredito. Que ele decida também como nos deveria tratar se não conseguirmos estabelecer, mediante os versículos e as tradições, a verdade desta Causa." O mensageiro expressou sua completa satisfação com a resposta recebida e prometeu que, antes de se passarem três dias, os dignitários eclesiásticos seriam convocados de maneira por ele sugerida.
A promessa feita pelo mensageiro não era destinada a ser cumprida. Três dias depois, o Príncipe Mihdí-Gulí Mirza preparou-se para lançar seu ataque contra os ocupantes do forte em escala até então sem precedentes. Chefiando três regimentos de infantaria e vários regimentos de cavalaria, estacionou sua hoste numa elevação da qual se avistava o lugar e deu o sinal para abrir fogo nessa direção.
O dia não havia ainda amanhecido quando ao sinal de "Montai vossos corcéis, ó heróis de Deus!" Quddús ordenou que os portões do forte fossem novamente abertos. Mullá Husayn e duzentos e dois de seus companheiros correram aos cavalos e seguiram Quddús, enquanto ele ia montado em direção de Vás-Kas. Destemidos diante das forças sobrepujantes contra eles dispostas e não impedidos pela neve e lama acumuladas nas estradas, avançaram, sem pausa, em meio à escuridão que os cercava, em direção à cidadela que servia de base para as operações do inimigo.
O príncipe, que observava os movimentos de Mullá Husayn, viu-o aproximar-se de seu forte e ordenou aos homens que contra ele abrissem fogo. As balas que dispararam não lhe puderam deter o avanço. Ele forçou a entrada pelo portão e se precipitou nos aposentos particulares do príncipe, quem ao perceber de súbito estar em perigo a sua vida, se jogou de uma janela de fundos para o fosso e escapou descalço(48). Sua hoste, privada de seu chefe, e tomada de pânico, fugiu em vergonhosa derrota diante daquele pequeno bando que eles, apesar de seu próprio número vastamente superior e dos recursos que a tesouraria imperial colocara a sua disposição, não conseguiram dominar(49).
Enquanto os vencedores forçavam entrada pela seção do forte reservada para o príncipe, dois outros príncipes de sangue real(50) caíram numa tentativa de derrubar seus oponentes. Assim que penetraram em seus aposentos, descobriram em um de seus quartos, cofres cheios de ouro e prata, tudo o que, por desdém, deixaram de tocar. Com exceção de um pote de pólvora e da espada predileta do príncipe, a qual, como evidência de seu triunfo, levaram a Mullá Husayn, seus companheiros não levaram em conta a suntuosa equipagem que seu dono abandonara em seu desespero. Quando a levaram a Mullá Husayn, descobriram que, por haver uma bala atingido sua própria espada, ele a havia trocado por aquela que Quddús, com a qual estava ocupado em repelir o assaltante.
No ato de abrirem os portões da prisão que tinha estado nas mãos do inimigo, ouviram a voz de Mullá Yúsufí-Ardibíli, que fora apreendido no caminho ao forte e languescia entre os presos. Intercedeu ele pelos companheiros neste sofrimento e conseguiu obter sua libertação imediata.
Na manhã daquele combate memorável, Mullá Husayn reuniu os companheiros ao redor de Quddús nas circunvizinhanças de Vás-Kas, enquanto ele mesmo permanecia montado em antecipação de um novo ataque pelo inimigo. Estava observando seus movimentos, quando de repente notou que uma hoste inumerável de ambos os lados se precipitava em sua direção. Todos se levantaram e, erguendo outra vez o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán", logo avançaram para enfrentar o desafio. Mullá Husayn esporeou o corcel em uma direção, e Quddús e seus companheiros em outra. O destacamento que estava avançando contra Mullá Husayn desviou-se de súbito e, fugindo de sua frente, se uniu com as outras forças inimigas e cercou Quddús e seus companheiros. Num dado momento, dispararam mil balas, uma das quais atingiu a boca de Quddús, tirando alguns de seus dentes e lhe ferindo tanto a língua como a garganta. O forte ruído que a descarga simultânea de mil balas produziu, e que podia ser ouvido a uma distância de dez farsangs(51), encheu de apreensão Mullá Husayn e o fez apressar-se a socorrer os amigos. Ao alcançá-los, apeou e, entregando o cavalo ao seu acompanhante, Qambar-'Alí, correu em direção a Quddús. A cena de seu bem-amado chefe, de cuja boca o sangue caia profusamente, lhe causou receio e consternação. Levantou as mãos horrorizado, prestes a bater em sua própria cabeça, quando Quddús o mandou desistir. Obedecendo instantaneamente ao seu chefe, pediu-lhe permissão para receber de sua mão a espada, a qual logo depois de lhe ser entregue e desembainhada, foi usada para dissipar as forças ao seu redor aglomeradas. Seguido por cento e dez de seus condiscípulos, enfrentou as forças contra ele dispostas. Em uma mão levando a espada de seu bem-amado chefe e, na outra, de seu humilhado oponente, travou contra eles uma batalha desesperada e, dentro de trinta minutos, durante os quais mostrou heroísmo maravilhoso, conseguir pôr em fuga o exército inteiro.
A vergonhosa retirada do exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza facilitou a Mullá Husayn e aos companheiros seu regresso ao forte. Com dor e lástima, conduziram seu chefe ferido ao abrigo de sua cidadela. Ao chegar, dirigiu Quddús por escrito um apelo aos amigos que lhe lamentavam o ferimento e com suas palavras de ânimo lhes suavizou a tristeza. "Deveríamos nos submeter," exortava-os, "à vontade de Deus, qualquer que seja. Deveríamos nos manter firmes e constantes na hora da provação. A pedra do infiel quebrou os dentes do Profeta de Deus, os meus caíram em conseqüência da bala do inimigo. Embora esteja aflito meu corpo, em alegria está imersa minha alma. Minha gratidão a Deus não conhece limites. Se me amam, não permitam que este júbilo seja obscurecido diante dessas lamentações."
Esse memorável confronto ocorreu no dia 25 de Muharram, 1265 A. H.(52). No começo deste mesmo mês, Bahá'u'lláh, fiel à promessa que fizera a Mullá Husayn, partiu de Núr, acompanhado por vários de Seus amigos, para o forte de Tabarsí. Entre aqueles que O acompanharam estavam Hájí Mirza Jáníy-i-Káshání, Mullá Báqir-i-Tabrízi, uma das Letras dos Viventes e Mirza Yahyá, Seu irmão. Bahá'u'lláh indicara Seu desejo de que procedessem diretamente a seu destino, sem permitirem nenhuma pausa nessa jornada. Foi Sua intenção alcançar aquele lugar à noite, pois desde que 'Abdu'lláh Khán assumira o comando, ordens estritas haviam sido emitidas para que nenhum auxílio fosse prestado, sob quaisquer circunstâncias, aos ocupantes do forte.
Guardas estacionados em vários pontos asseguravam o isolamento dos assediados. Seus companheiros, entretanto, Lhe instavam que interrompesse a viagem e procurasse descansar por algumas horas. Embora sabendo que essa demora envolveria grave perigo de serem surpreendidos pelo inimigo, Ele acedeu a essa fervorosa solicitação. Pararam numa casa solitária adjacente à estrada. Depois de ceiarem, Seus companheiros se retiraram para dormir. Só Ele, a despeito das durezas que sofrera, permanecia acordado. Bem conhecia os perigos aos quais estavam expostos, tanto Ele como os amigos e completamente ciente estava das possibilidades envolvidas em Sua chegada antecipada ao forte.
Enquanto Ele vigiava a seu lado, os emissários secretos do inimigo deram aos guardas nas proximidades informações sobre a chegada do grupo e mandaram apanhar imediatamente qualquer coisa que pudessem encontrar em seu poder. "Recebemos ordens estritas," disseram a Bahá'u'lláh, a Quem reconheceram no mesmo instante como líder do grupo, "para prendermos toda pessoa que por acaso encontrássemos nessa vizinhança e para conduzirmos, sem prévia investigação alguma, a Ámul, devendo lá entregá-la nas mãos do governador." "De um modo errado foi o assunto apresentado aos vossos olhos," observou Bahá'u'lláh. "Interpretastes mal o nosso propósito. Eu queria vos aconselhar que procedais de uma maneira que não venha mais tarde a causar-vos arrependimento." Essa admoestação, pronunciada com dignidade e calma, induziu o chefe dos guardas a tratar com consideração e cortesia aqueles a quem prendera. Disse-lhes que montassem em seus cavalos e com eles seguissem para Ámul. Ao aproximarem-se das margens de um rio, Bahá'u'lláh fez um sinal aos Seus companheiros, que estavam a alguma distância dos guardas, para que jogassem na água quaisquer manuscritos que tivessem em seu poder.
Ao amanhecer, enquanto se aproximavam da cidade, foi mandada na frente uma mensagem ao governador interino informando-lhe da chegada de um grupo que fora preso enquanto ia a caminho da fortaleza de Tabarsí. O próprio governador, juntamente com os membros de sua guarda pessoal sendo designado para fazer parte do exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza havia incumbido seu parente de substituí-lo em sua ausência. Assim que lhe chegou a mensagem, foi ele ao masjid de Ámul e convocou os ulemás e principais siyyids da cidade para que se reunissem e ficassem à espera do grupo. Grande foi sua surpresa ao avistar e reconhecer Bahá'u'lláh e profundo seu arrependimento pelas ordens que dera. Fingiu repreendê-Lo pela Sua ação, na esperança de apaziguar o tumulto e mitigar a agitação daqueles reunidos no masjid. "Somos inocentes," declarou Bahá'u'lláh, "da culpa que nos imputam. Nossa inculpabilidade será mais tarde estabelecida diante de vossos olhos. Eu queria vos aconselhar que procedais de uma maneira que não venha mais tarde a causar-vos arrependimento." O governador interino pediu aos ulemás presentes que Lhe fizessem qualquer pergunta que quisessem. Às suas interrogações deu Bahá'u'lláh respostas explícitas e convincentes. Enquanto O interrogavam, descobriram um manuscrito no poder de um de Seus companheiros que eles reconheceram como sendo de autoria do Báb. Entregaram-no ao chefe dos ulemás presentes nessa reunião. Após haver examinado algumas linhas do manuscrito, o pôs de lado e, virando-se para aqueles a seu redor, exclamou: "Essas pessoas que fazem pretensões tão extravagantes, demonstraram nesta mesma frase que acabo de ler, sua ignorância das regras mais rudimentares da ortografia." "Estimado e sábio sacerdote," replicou Bahá'u'lláh, "essas palavras que criticais não são as palavras do Báb. Foram pronunciadas por ninguém menos que o Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, em sua resposta a Kumayl-ibn-i-Zídyád, a quem ele escolhera como seu companheiro."
As circunstâncias que Bahá'u'lláh então relatou com referência à resposta, bem como Seu pronunciamento, convenceram o arrogante mujtahid de seu erro e sua falta de inteligência. Não podendo contradizer tão ponderável afirmação, preferiu guardar silêncio. Um siyyid interjeicionou irosamente: "Essa própria afirmação demonstra de modo concludente ser o autor, ele mesmo, um Bábí e nada menos que um dos principais expositores dos dogmas dessa seita."
Em linguagem veemente instava ele que fossem mortos os seus seguidores. "Esses obscuros sectaristas são os intransigentes inimigos," exclamou, "tanto do Estado como da Fé do Islã! Devemos - custe o que custar - extirpar essa heresia." Foi apoiado em sua denúncia pelos outros siyyids que estavam presentes e que, tornados mais audazes pelas imprecações pronunciadas nessa reunião, insistiram em que o governador acedesse, sem hesitação, a seus desejos.
Viu-se o governador interino em situação embaraçosa, pois sabia que qualquer sinal de indulgência de sua parte lhe acarretaria graves conseqüências quanto à segurança de sua posição. Em seu desejo de refrear as paixões que haviam sido excitadas, ordenou aos subordinados que preparassem os bastões e infligissem aos cativos o castigo merecido. "Deveremos então," acrescentou ele, "aprisioná-los até o regresso do governador, que os mandará a Teerã, onde receberão, nas mãos do soberano, a punição que merecem."
O primeiro a ser amarrado para receber a bastonada foi Mullá Báqir. "Sou apenas um lacaio de Bahá'u'lláh," foi seu apelo - "ia a caminho de Mashhad quando de súbito me prenderam e trouxeram para este lugar." Bahá'u'lláh interveio e conseguiu induzir os opressores a libertá-lo. Intercedeu, outrossim, por Hájí Mirza Jání que, disse Ele, era um simples mercador, e a quem considerava Seu "hóspede," de modo que Ele era responsável por qualquer culpa contra ele imputada. Mirza Yahyá, que iria então ser amarrado, foi também libertado, ao declarar Bahá'u'lláh ser ele Seu assistente. "Nenhum destes homens," disse Ele ao governador interino, "cometeu qualquer crime. Se insistirdes em infligir vossa punição, Eu me ofereço como vítima voluntária de vosso castigo." O governador interino viu-se, contra sua vontade, constrangido a dar ordens que Bahá'u'lláh tão somente fosse escolhido para sofrer a indignidade que ele destinara de início a Seus companheiros(53).
O mesmo tratamento que o Báb recebera cinco meses antes em Tabríz, Bahá'u'lláh agora o sofreu na presença da assembléia dos ulemás de Ámul. O primeiro encarceramento sofrido pelo Báb das mãos de Seus inimigos foi na casa de 'Abdu'l-Hamíd-Khán, chefe de polícia de Shíráz; o primeiro encarceramento de Bahá'u'lláh foi na casa de um dos kad-khudás de Teerã. A segunda prisão do Báb foi no castelo de Máh-Kú; a de Bahá'u'lláh foi na residência particular do governador de Ámul. O Báb sofreu a bastonada no namáz-khánih(54) do Shaykhu'l-Islám de Tabríz; a mesma indignidade foi infligida a Bahá'u'lláh no namáz-khánih no mujtahid de Ámul. O terceiro encarceramento do Báb foi no castelo de Chihríq; o de Bahá'u'lláh foi no Síyáh-Chál(55) de Teerã. O Báb, cujas provações e tribulações haviam precedido, em quase cada instância as de Bahá'u'lláh, havia se oferecido para resgatar Seu Bem-Amado dos perigos que cercavam aquela Vida preciosa; enquanto Bahá'u'lláh, de Sua parte, não consentindo em que Aquele que tanto O amava fosse o único a sofrer, participava toda vez da taça que Lhe tocara os lábios. Tal amor jamais foi visto por olhos de ninguém, nem por coração mortal foi concebida tamanha devoção mútua. Se os ramos de cada árvore se transformassem em penas, e todos os mares em tinta, e se a terra e o céu fossem enrolados em um só pergaminho não se haveria explorado ainda a imensidade desse amor, nem sondado as profundezas dessa devoção.
Bahá'u'lláh e Seus companheiros permaneceram por algum tempo aprisionados em um dos aposentos que formaram parte do masjid. O governador interino, ainda determinado a proteger seu Prisioneiro contra os ataques de um inveterado inimigo, deu instruções secretas aos seus subordinados para abrirem, numa hora em que menos se suspeitasse, uma passagem pela parede do aposento em que os cativos estavam confinados, e transferirem seu Líder de imediato para sua casa. Estava ele mesmo conduzindo Bahá'u'lláh a sua residência quando um siyyid saltou em sua frente e dirigindo contra Ele as mais violentas investidas, levantou a clava que segurava na mão para Nele bater. O governador interino logo se interpôs e, fazendo um apelo ao agressor, "o adjurou pelo Profeta de Deus" a deter sua mão. "O Quê!" bradou o siyyid. "Como vos atreveis a soltar um homem que é o intransigente inimigo da Fé de nossos pais!" Uma multidão de homens brutais havia nesse meio tempo se juntado a seu redor e, com seus gritos de escárneo e abuso, aumentava o clamor por ele levantado. Apesar do crescente tumulto, os assistentes do governador interino conseguiram conduzir Bahá'u'lláh em segurança à residência de seu amo, mostrando nessa ocasião coragem e presença de espírito verdadeiramente admiráveis.
A despeito dos protestos da turba, os demais prisioneiros foram levados à sede do governo e assim escaparam dos perigos com os quais haviam sido ameaçados. O governador interino apresentou a Bahá'u'lláh profusas desculpas pelo tratamento que Lhe fora dado pelo povo de Ámul. "Se não fosse a intervenção da Providência," disse ele, "nenhuma força vos teria podido livrar das mãos desse povo malévolo. Se não fosse o voto que eu fizera de arriscar minha própria vida por vossa causa, eu, também, haveria caído vítima de sua violência e sido espezinhado sob seus pés." Queixou-se amargamente da ultrajante conduta do siyyids de Ámul e denunciou a baixeza de seu caráter. Referiu-se ao tormento ao qual ele próprio era continuamente sujeitado por causa de seus maliciosos desígnios. Pôs-se a servir a Bahá'u'lláh com devoção e bondade e muitas vezes durante sua conversação com Ele se podia ouvi-lo observar: "Longe estou de Vos considerar um prisioneiro em meu lar. Esta casa creio, foi construída expressamente para vos prover um abrigo dos desígnios de vossos inimigos."
Já ouvi o próprio Bahá'u'lláh contar o seguinte: "Jamais se concedeu a um prisioneiro tal tratamento como recebi das mãos do governador interino de Ámul. Ele Me tratou com a máxima consideração e estima. Hospedou-me com toda generosidade, prestando a mais completa atenção a tudo o que se relacionava a Minha segurança e ao Meu conforto. Não pude, entretanto, sair do portão da casa. Meu anfitrião receava que o governador, que era parente de 'Abbás-Qulí Khán-i-Larijání, voltasse da fortaleza de Tabarsí e Me infligisse algum mal. Tentei dissipar-lhe as apreensões. 'A mesma Onipotência,' Eu lhe assegurava, 'que nos livrou das mãos dos malfeitores de Ámul e nos facilitou a recepção por vós com tanta hospitalidade nessa casa, pode mudar o coração do governador e fazê-lo tratar-nos com igual consideração e amor.'
"Uma noite fomos subitamente acordados pelo clamor do povo que se havia juntado fora do portão da casa. A porta foi aberta e se anunciou que o governador havia voltado a Ámul. Nossos companheiros, antecipando um novo ataque, foram completamente surpreendidos ao ouvir a voz do governador repreendendo aqueles que tão veementemente nos denunciaram no dia de nossa chegada. 'Por que razão,' nós o ouvimos protestar em tom alto, 'essas miseráveis criaturas se dignaram de tratar com tanto desrespeito um hóspede cujas mãos estão amarradas e a quem não foi dada a oportunidade de se defender? Qual é sua justificação por haver exigido que ele de imediato fosse morto? Que evidência têm eles com a qual sustentar seu argumento? Se são sinceros em suas pretensões de ser devotadamente ligados ao Islã e lhe ser os guardiães dos interesses, que vão à fortaleza de Shaykh Tabarsí e lá demonstrarem sua capacidade de defender a Fé da qual se professam ser os campeões!"
O que ele havia visto do heroísmo dos defensores da fortaleza, mudara completamente a idéia e o coração do governador de Ámul. Voltou cheio de admiração por uma Causa que antes desprezara e a cujo progresso se opusera fortemente. As cenas que testemunhou haviam lhe desarmado a ira e castigado o orgulho. Humilde e respeitosamente foi ele a Bahá'u'lláh e pediu perdão pela insolência dos habitantes de uma cidade da qual fora escolhido para ser o governador. Serviu-Lhe com devoção extrema, sem levar em conta, de modo algum, sua própria posição e grau. Prestou um ardente tributo a Mullá Husayn, estendendo-se sobre sua habilidade, sua intrepidez, sua destreza e sua nobreza de alma. Poucos dias depois, conseguiu ele arranjar para Bahá'u'lláh e Seus companheiros, uma partida sem perigo, para Teerã.
A intenção de Bahá'u'lláh de participar da sorte dos defensores da fortaleza de Shaykh Tabarsí não foi destinada a se cumprir. Embora Ele Próprio estivesse desejoso de prestar àqueles assediados todo auxílio possível ao Seu alcance, foi-Lhe poupado, através da misteriosa dispensação da Providência, o trágico destino que breve haveria de sobrevir aos principais participantes daquela memorável luta. Tivesse Ele podido alcançar a fortaleza, tivesse Lhe sido permitido unir-se aos membros daquele grupo heróico, como haveria Ele podido desempenhar Seu papel no grande drama que era destino Seu desdobrar? Como teria Ele podido consumar a obra tão gloriosamente concebida e tão maravilhosamente inaugurada? Ele estava na flor da idade quando Lhe veio o chamado de Shiráz. Aos vinte e sete anos levantou-se Ele para consagrar a vida a seu serviço, destemidamente se identificando com seus ensinamentos e se distinguindo pelo papel exemplar que desempenhou em sua difusão. Nenhum esforço era demasiado grande para a energia da qual Ele era dotado, nem sacrifício demasiado doloroso para a devoção com a qual sua fé Lhe inspirara. Ele jogou de lado toda consideração de fama, de riqueza e posição, para prosseguir na tarefa cuja realização escolhera como o anelo de Seu coração. Nem as zombarias de Seus amigos, nem as ameaças de Seus inimigos podiam induzi-Lo a deixar de patrocinar uma Causa que ambos igualmente consideravam como sendo uma seita obscura e proscrita.
O primeiro encarceramento ao qual Ele foi sujeitado em conseqüência do auxílio por Ele prestado aos cativos de Qazvín; a habilidade com que conseguiu a libertação de Táhirih; a maneira exemplar como dirigiu o curso dos turbulentos acontecimentos em Badasht; o modo de salvar a vida de Quddús em Níyálá; a sabedoria que mostrou em Seu controle na situação delicada criada pela impetuosidade de Táhirih e a vigilância por Ele exercida para sua proteção; os conselhos que deu aos defensores da fortaleza de Tabarsí; o plano que Ele concebeu para juntar as forças de Quddús às de Mullá Husayn e seus companheiros; a espontaneidade com que se levantou para apoiar os esforços daqueles corajosos defensores; a magnanimidade que O incentivou a oferecer-se como substituto de Seus companheiros que estavam sob a ameaça de severas indignidades; a serenidade com que Ele enfrentou o penoso tratamento que Lhe foi infligido em conseqüência da tentativa contra a vida de Násiri'd-Dín Sháh, as indignidades que sobre Ele foram amontoadas por todo o caminho de Lavásán até a sede do exército imperial e daí até a capital; as pesadas correntes esfoladoras que Ele suportou enquanto jazia na escuridão do Síyáh-Chál de Teerã todas estas apenas poucos exemplos que dão eloqüente testemunho da posição incomparável ocupada por Ele como Impulsor primaz das forças destinadas a remodelar a face de Sua terra natal. Foi Ele quem liberou essas forças, lhes dirigiu o curso e harmonizou a ação, levando-as finalmente a sua mais alta consumação na Causa que Ele Próprio era destinado a posteriormente revelar.
CAPÍTULO II
A MISSÃO DE SIYYID KÁZIM-I-RASHTÍ
A notícia do passamento de seu bem-amado mestre trouxe indizível pesar ao coração de Siyyid Kázím. Inspirado pelo versículo do Alcorão, "Bem queriam eles com as bocas extinguir a luz de Deus; mas Deus só deseja aperfeiçoar Sua luz, ainda que seja abominada pelos infiéis", levantou-se com o inalterável propósito de consumar a tarefa a ele confiada por Shaykh Ahmad. Após o desaparecimento de tão distinto protetor, viu-se ele vítima da língua difamadora e da implacável inimizade do povo ao seu redor. Eles agrediram sua pessoa, desdenharam seus ensinamentos e aviltaram seu nome. Instigados por um líder xiita, poderoso e notório, Siyyid Ibrahim-i-Qazvíní, coligaram-se aos inimigos de Siyyid Kázím com a determinação de o destruir. Concebeu então Siyyid Kázím o plano de obter o apoio e a boa vontade de um dos dignitários eclesiásticos mais respeitados e eminentes da Pérsia, o célebre Hájí Siyyid Muhammad Báqír-i-Rashtí, que residia em Isfáhán e cuja autoridade se estendia muito além dos confins daquela cidade. Com essa amizade e simpatia, pensou Siyyid Kázím, lhe seria possível prosseguir no curso de suas atividades sem obstáculo e aumentar-se-ia consideravelmente a influência por ele exercida sobre seus discípulos. "Oxalá um dentre vós", ouviam-no dizer muitas vezes aos seguidores, "pudesse levantar e, com desprendimento completo, viajar a Isfáhán e lá entregar àquele sábio Siyyid esta mensagem minha: 'Por que de início mostrastes vós tão notável consideração e afeto para o falecido Shaykh Ahmad e agora, de súbito, vos desligastes do corpo de seus escolhidos discípulos? Por que é que nos abandonastes à mercê de nossos oponentes? Oxalá tal mensageiro, em Deus pondo sua confiança, possa levantar para explicar os quaisquer mistérios que na mente daquele sábio Siyyid tenham causado perplexidade e para lhe dissipar as dúvidas que tenham alienado sua simpatia. Oxalá pudesse dele obter uma declaração solene que atestasse a inquestionável autoridade de Shaykh Ahmad e admitisse serem verídicos e sãos os seus ensinamentos. Oxalá pudesse ele também, após haver obtido tal testemunho, visitar Mashhad e lá conseguir uma declaração semelhante de Mirza'Askarí, o mais eminente líder eclesiástico naquela cidade santa, e, então, tendo completado sua missão, possa regressar em triunfo para este lugar". Repetidas vezes achava Siyyid Kázím oportunidade para reiterar seu apelo. A esse chamado, porém, ninguém se aventurou a responder, exceto um certo Mirza Muhít-i-Kirmání, se expressou disposto a empreender essa missão. A ele Siyyid Kázím replicou: "Acautelai-vos de tocar na cauda do leão. Não menosprezeis a delicadeza e a dificuldade de tal missão". Volvendo a face, então para seu jovem discípulo, Mullá Husayn-i-Bushrú'í, o Bábu'l- Báb, (1) dirigiu-lhe estas palavras: "Levantai-vos e cumpri esta missão, pois eu vos declaro capaz de executar tal tarefa. O Todo-Poderoso com Sua graça vos assistirá, e de êxito haverá Ele de vos coroar os esforços".
Mullá Husayn com júbilo se pôs em pé, beijou a orla das vestes do instrutor e, jurando-lhe, lealdade de pronto partiu em sua jornada. Com inteiro desprendimento e nobre resolução, empreendeu a consecução do objetivo. Ao chegar em Isfáhán de imediato procurou a presença do sábio Siyyid. Humildemente vestido e coberto do pó da viagem, diante da presença dos discípulos ricamente trajados daquele líder distinto, pareceu uma figura sem importância ou valor. Sem ser observado, intrépido, avançou a um lugar frente ao assento que o célebre instrutor ocupava. Invocando em auxílio toda a coragem e confiança nele inspiradas pelas instruções de Siyyid Kázím, dirigiu-se a Hájí Siyyid Muhammad-Báqír nestas palavras: "Ouvi, ó Siyyid, as minhas palavras, pois a resposta ao meu apelo há de garantir a salvação da Fé do Profeta de Deus, e a recusa a considerar a minha mensagem causar-lhe-á prejuízo lastimável". Estas palavras audazes e corajosas, com franqueza e força pronunciadas, produziram no Siyyid surpreendente impressão. De súbito interrompeu ele seu discurso e, desconsiderando o auditório, escutou com concentrada atenção a mensagem trazida pelo estranho visitante. Seus discípulos, atônitos perante tão extraordinária conduta, repreenderam o abrupto intruso, denunciando-lhe as presunçosas pretensões. Com gentileza extrema, em firme e digna linguagem, Mullá Husayn sutilmente se referiu à descortesia e baixeza dos presentes, mostrando-se surpreso diante da arrogância e vanglória destes. Plenamente contentou-se o Siyyid com o porte e o argumento impressionantes da parte do visitante. Deplorou a indigna conduta de seus próprios discípulos, pedindo que a desculpasse. A fim de lhe compensar essa ingratidão, mostrou ao jovem toda gentileza concebível, assegurando-lhe seu apoio e com ele instando que transmitisse sua mensagem. Com isso lhe informou Mullá Husayn a natureza e o objetivo da missão da qual fora incumbido. O sábio Siyyid a isso replicou: "Como de início acreditávamos que Shaykh Ahmad, como também Siyyid Kázím, não eram motivados por outro desejo senão o de promover a causa do conhecimento e salvaguardar os sagrados interesses da Fé, nós nos sentíamos impelidos a prestar-lhes o mais sincero auxílio e lhes elogiar os ensinamentos. Em anos subseqüentes, porém, temos notado em seus escritos tantas afirmações contraditórias e alusões obscuras e misteriosas que achamos aconselhável guardar silêncio por algum tempo, abstendo-nos tanto de censura como de aplauso." Respondeu Mullá Husayn: "Não posso senão deplorar tal silêncio de vossa parte, pois firmemente creio que isso envolve a perda de uma esplêndida oportunidade para promover a causa da Verdade. Cumpre-vos expor especificamente tais passagens em seus escritos que vos parecem misteriosos ou inconsistentes com os preceitos da Fé, e eu, com o auxílio de Deus, me incumbirei de expor seu verdadeiro significado". O porte, a dignidade e a confiança que caracterizavam a conduta desse inesperado visitante, causaram profunda impressão em Hájí Siyyid Muhammad Báqir. Solicitou-lhe que não insistisse no assunto no momento, mas esperasse até o dia seguinte, quando, em conversa particular, lhe pudesse falar de suas próprias dúvidas e receios. Mullá Husayn, no entanto, julgando que a demora poderia prejudicar a causa tão querida de seu coração, insistiu em ter com ele uma conferência imediata acerca dos graves problemas que se sentia impelido a resolver e com capacidade para isto fazer. Comoveu-se o Siyyid até as lágrimas diante do entusiasmo juvenil, da sinceridade e confiança serena que o semblante de Mullá Husayn tão admiravelmente demonstrava. De imediato mandou-o buscar algumas das obras escritas por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím e pôs-se a interrogar Mullá Husayn a respeito daquelas passagens que lhe haviam provocado o desagrado e a surpresa. A cada referência o mensageiro replicou com característico vigor, com conhecimento magistral e modéstia decorosa.
Assim continuou ele a expor, na presença dos discípulos reunidos, os ensinamentos de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím, lhes vindicando a verdade e defendendo a causa, até a hora em que o muezim, chamando à oração os fiéis, de súbito interrompeu o curso de seu argumento. No dia seguinte, do mesmo modo, na presença de uma assembléia grande e representativa e, face a face com o Siyyid, reassumiu sua eloqüente defesa da elevada missão que a Shaykh Ahmad e a seu sucessor fora confiada pela Providência toda-poderosa. Um silêncio profundo caiu sobre seus ouvintes. Pasmaram-se diante da força de seu argumento e do tom e estilo de sua palestra. O Siyyid prometeu publicamente que ele mesmo, no dia seguinte, faria por escrito uma declaração que desse testemunho da eminente posição de Shaykh Ahmad, como também de Shaykh Kázím, e denunciasse qualquer um que se desviasse de seu caminho como alguém que da Fé do próprio Profeta se tivesse afastado. Outrossim daria ele testemunho de sua penetrante percepção, de sua compreensão correta e profunda dos mistérios que a Fé de Maomé entesourava. Cumprindo sua promessa, de próprio punho o Siyyid redigiu a prometida declaração. Longamente escreveu, prestando um tributo, no curso do testemunho, ao caráter e à erudição de Mullá Husayn. Em termos fervorosos se referiu a Siyyid Kázím, desculpando-se pela atitude anterior e expressando a esperança de que, nos dias vindouros, pela lastimável conduta passada para com ele, lhe fosse possível compensá-la. Aos seus discípulos, ele próprio leu o texto desse testemunho escrito, entregando-o em seguida a Mullá Husayn sem lacrá-lo, autorizando-o a compartilhar com qualquer um que quisesse o conteúdo, a fim de que todos assim conhecessem o grau de sua devoção a Siyyid Kázím.
Mal Mullá Husayn se retirara, o Siyyid incumbiu a um de seus atendentes de confiança de seguir as pegadas do visitante, para que descobrisse o lugar onde residia. O atendente seguiu-o até um prédio modesto, que servia de madrisih (2), onde o viu entrar num quarto que, além de um tapete muito gasto, nada de mobília possuía. Viu-o chegar, oferecer sua oração de agradecimento a Deus e se deitar naquele tapete, com seu 'abá (3), unicamente para se cobrir. Após haver relatado ao seu mestre tudo o que observara, o atendente foi incumbido de entregar a Mullá Husayn a quantia de cem túmáns (4) e de lhe expressar as sinceras desculpas de seu mestre por não haver podido oferecer a tão notável mensageiro a hospitalidade digna de sua posição. A essa oferta enviou Mullá Husayn a seguinte resposta: "Diga ao seu mestre que sua verdadeira dádiva a mim foi o espírito de eqüidade com que me recebeu e o espírito aberto que o levou, a despeito de seu elevado grau, a responder à mensagem trazida por mim, um estranho humilde. Devolva esse dinheiro ao seu mestre, pois eu, como mensageiro, recompensa alguma peço, nem remuneração. 'Nutrimos vossas almas por amor a Deus; de vós nenhuma recompensa nem agradecimento buscamos.' (5) Minha oração pelo seu mestre é que nenhum prestígio terreno jamais o possa impedir de reconhecer e atestar a Verdade". (6) Hájí Siyyid Muhammad-Báqir faleceu antes do ano sessenta A.H., ano que testemunhou o nascimento da Fé proclamada pelo Báb. Até seu último momento permaneceu ele um destemido defensor e fervoroso admirador de Siyyid Kázím.
Tendo cumprido a primeira parte de sua missão, Mullá Husayn envio ao seu mestre em Karbilá esse testemunho escrito por Hájí Siyyid Muhammad-Báqir, e para Mashhad dirigiu seus passos, determinado a entregar, da melhor maneira possível, a mensagem que estava incumbido de dar a Mirza 'Askarí. Logo que a carta, junto com a declaração escrita pelo Siyyid, foi entregue a Siyyid Kázím, este se regozijou tanto que de pronto mandou a Mullá Husayn sua resposta, expressando sua grata apreciação pelo modo exemplar como ele desempenhara sua incumbência. Tão extasiado estava com a carta recebida que, interrompendo o curso de sua conferência, leu-a aos seus discípulos, bem como o testemunho nela incluso. Mais tarde compartilhou com eles a epístola que ele próprio escrevera a Mullá Husayn, em reconhecimento ao notável serviço que este prestara. Nela Siyyid Kázím tão ardente tributo rendia a suas altas realizações, a sua habilidade e ao seu caráter que alguns dos que a ouviram desconfiavam ser Mullá Husayn aquele Prometido a quem seu mestre incessantemente se referia, Aquele que ele tantas vezes declarava estar vivendo em seu próprio meio, mas ainda desconhecido de todos. Essa comunicação recomendou a Mullá Husayn o temor a Deus e o exortava a considerá-lo o mais potente instrumento com que resistir à investida do inimigo e a característica distintiva de todo verdadeiro seguidor da Fé. Estava expressa em termos de tão terna afeição que ninguém que a lesse poderia duvidar de que quem a escreveu estava se despedindo do seu bem-amado discípulo, não nutrindo nenhuma esperança de encontrá-lo jamais neste mundo.
Naqueles dias, Siyyid Kázím se tornava cada vez mais consciente da aproximação da Hora em que o Prometido haveria de se revelar. (7) Ele compreendia quanto eram densos os véus que impediam aqueles que o buscavam de apreender a glória do Manifestante oculto. Por isso envidou os máximos esforços para remover gradativamente, com cautela e sabedoria, quaisquer barreiras que pudessem obstruir o caminho do pleno reconhecimento daquele Tesouro oculto de Deus. Repetidas vezes instava ele a seus discípulos que se lembrassem do fato de que Aquele cujo advento esperavam não apareceria nem de Jábulqá nem de Jábulsá (8). Até sugeria a possibilidade de sua presença em seu próprio meio. "Vós O vedes com os próprios olhos", freqüentemente ele observava, "e no entanto não O reconheceis!" Aos discípulos que o interrogavam sobre os sinais do Manifestante, dizia: "Ele é de linhagem nobre. É descendente do Profeta de Deus, da família de Háshim. É jovem e possui conhecimento inato. Sua erudição deriva não dos ensinamentos de Shaykh Ahmad, mas sim, de Deus. Meu conhecimento é apenas uma gota em comparação com a imensidão de Seu conhecimento; minhas realizações, uma partícula de pó em face das maravilhas de sua graça e poder. Não, imensurável é a diferença. Ele é de altura média, abstém-se de fumar e é de extrema devoção e piedade" (9). Certos discípulos do Siyyid, a despeito dos testemunhos de seu mestre, acreditaram ser ele o Prometido, pois os sinais aludidos nele os reconheceram. Um destes foi um certo Mullá Mihdíy-i-Khu'í, que chegou até a tornar pública tal opinião. Com isso o Siyyid se desagradou tão seriamente que o teria expulso da companhia de seus escolhidos seguidores, não tivesse ele pedido perdão e expressado arrependimento pela sua ação.
O próprio Shaykh Hasan-i-Zunúzí informou-me que ele também tinha essas dúvidas e suplicava a Deus que fosse confirmado em sua crença se sua suposição tivesse andamento e que, se não, que fosse livrado dessa vã fantasia. "Estava tão perturbado", relatou-me ele um vez, "que por vários dias nem comer nem dormir eu podia. Meus dias foram passados no serviço de Siyyid Kázím, a quem estava extremamente afeiçoado. Um dia, na hora do alvorecer, fui de súbito acordado por Mullá Naw-Rúz, um de seus servos íntimos, que, muito excitado, mandou-me levantar e o seguir. Fomos à casa de Siyyid Kázím, a quem encontramos inteiramente vestido com o seu 'abá, e, pronto para sair de casa; pediu-me que o acompanhasse. 'Uma Pessoa altamente estimada e distinta chegou', disse ele. 'Creio, que nos incumbe visitá-Lo." Principiava a brilhar à luz matinal quando estava com ele caminhando pelas ruas de Karbilá. Logo chegamos a uma casa, em cuja porta estava um Jovem, como se estivesse na expectativa de nos receber. Ele usava um turbante verde, e Seu semblante revelava uma expressão de humildade e gentileza como jamais poderei descrever. Aproximou-se de nós tranqüilamente, estendeu Seus braços para Siyyid Kázím e afetuosamente o abraçou. Sua afabilidade e benevolência estavam em contraste marcante com o senso de reverência profunda que caracterizava a atitude de Siyyid Kázím para com Ele. Sem falar uma palavra e baixando a cabeça, recebeu as muitas expressões de afeto e estima com os quais o Jovem o saudava. Logo fomos por Ele conduzidos ao andar superior da casa, onde entramos numa sala adornada de flores e impregnada do mais delicioso perfume. Convidou-nos a sentar. Não sabíamos, porém, que assentos acupávamos, realmente, de tão subjugado o senso de deleite que de nós se apoderara. Vimos uma taça de prata que havia sido colocada no centro da sala e que nosso jovem Anfitrião, pouco depois de nos sentarmos, encheu-a até transbordar e a Siyyid Kázím ofereceu dizendo: "Uma poção de uma pura bebida dar-lhes-á o Seu Senhor (10)." Siyyid Kázím com ambas as mãos segurou a taça e a sorveu. Um sentimento de júbilo reverente lhe encheu o ser, sentimento esse que não podia conter. A mim, também, foi dada uma taça cheia dessa bebida, embora não me fosse dirigida nenhuma palavra. Tudo o que foi dito nesse memorável encontro foi o versículo do Alcorão acima mencionado. Pouco depois, levantou-se o Anfitrião de Seu assento e, acompanhando-nos até o limiar da casa, despediu-se. Estava eu mudo de admiração, sem saber como expressar a cordialidade de Sua acolhida, a dignidade de Seu porte, o encanto daquela face e a deliciosa fragrância daquela bebida. Como foi grande meu espanto ao ver meu instrutor, sem a mínima hesitação, sorver aquela bebida santa de uma taça de prata, cujo uso, segundo os preceitos do Islã, aos fiéis é vedado. Não sabia explicar o motivo que induziu o Siyyid a manifestar tão profunda reverência na presença daquele Jovem - uma reverência que nem a vista do santuário do Siyyidu'sh-Shuhadá lhe havia podido despertar. Três dias depois, vi aquele mesmo Jovem chegar e tomar Seu assento em meio à companhia dos discípulos reunidos de Siyyid Kázím. Estava sentado próximo ao limiar e com a mesma modéstia e dignidade de porte escutava o discurso do Siyyid. Assim que seus olhos notaram a presença daquele Jovem, o Siyyid interrompeu sua palestra e guardou silêncio. Com isso, um de seus discípulos solicitou-lhe que reassumisse o argumento que ficara inacabado. 'Que mais direi eu?', respondeu Siyyid Kázím, enquanto volvia a face em direção ao Báb. 'Eis que a verdade está mais manifesta do que o raio de luz que incide sobre aquele colo!' Logo observei que o raio ao qual o Siyyid se referiu incidira sobre o colo daquele mesmo Jovem a quem recentemente visitamos. 'Então', perguntou o inquiridor, 'porque não revelas Seu nome nem identificas Sua pessoa?' Replicou a isso o Siyyid, apontando com o dedo a própria garganta, o que implicava que, fosse ele divulgar Seu nome, ambos instantaneamente seriam mortos. Isso aumentou ainda mais a minha perplexidade. Já ouvira meu instrutor observar ser tão grande a perversidade dessa geração que, fosse ele com o dedo apontar o Prometido e dizer, Ele, em verdade, é o Bem-Amado, o desejo de vossos corações e do meu', ainda assim deixariam de O reconhecer e de Lhe dar crédito. Vi o Siyyid realmente apontar com o dedo para o raio de luz que incidira sobre aquele colo e, no entanto, o que isso significava nenhum dos presentes parecia compreender o seu significado. Eu, de minha parte, estava convencido de que o próprio Siyyid jamais poderia ser o Prometido, mas um mistério a todos nós inescrutável se ocultava naquele estranho e atraente jovem. Várias vezes me aventurava a me aproximar de Siyyid Kázím e dele solicitar uma elucidação desse mistério. Cada vez que eu me aproximava, sentia dominar-me um senso de temor que sua personalidade tão poderosamente inspirava. E não raras vezes eu o ouvia observar: "Ó Shaykh Hasan, regozijai-vos por ser vosso nome Hasan (louvável); Hasan vosso princípio e Hasan vosso fim. Tivestes o privilégio de alcançar o dia de Shaykh Ahmad, tendes estado intimamente associado a mim e, em dias vindouros, a vós caberá o inestimável prazer de testemunhar 'o que jamais olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem coração algum concebeu.'"
"Freqüentemente sentia-me impelido a procurar, eu só, a presença daquele Jovem Háshimita e tentar sondar-lhe o mistério. Observava-o várias vezes enquanto Ele permanecia em atitude de oração na porta do santuário do Imame Husayn. Tão absorto em Suas devoções estava que parecia se haver esquecido por completo de tudo a Sua volta. Lágrimas dos olhos lhe choviam e dos lábios fluíam palavras de glorificação e louvor, cujo poder e beleza eram tais que nem as mais nobres passagens de nossas Sagradas Escrituras poderiam esperar exceder. As palavras 'Ó Deus, meu Deus, meu Bem-Amado, Desejo de meu coração' com tal freqüência e ardor eram pronunciadas que os peregrinos visitantes que estavam próximos o bastante para ouvi-lo interrompiam instintivamente o curso de suas devoções, maravilhando-se com as manifestações de piedade e veneração de tão jovem semblante. De igual modo, comoviam-se em lágrimas, d'Ele aprendendo a lição da adoração verdadeira. Uma vez completadas Suas preces, o Jovem, sem atravessar o limiar do santuário, ou tentar dirigir àqueles ao Seu redor uma palavra sequer, em silêncio se retirava para sua casa. Eu sentia o impulso de me dirigir a Ele, mas, cada vez que me aventurava a me aproximar, detinha-me uma força que eu nem explicar ou resistir podia. As minhas indagações trouxeram a informação de que Ele era residente em Shiráz, mercador de profissão e não pertencia a nenhuma das ordens eclesiásticas. Informaram-me, ainda mais, que Ele, bem como os tios e outros parentes, contavam-se entre aqueles que amavam e admiravam o Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. Pouco depois, eu soube que Ele havia partido para Najáf, a caminho de Shiráz. Esse Jovem havia me inflamado o coração. Perseguia-me a memória daquela visão. Minha alma com a Sua estava unida, até o dia em que aos meus ouvidos chegou um chamado de um Jovem de Shíráz que proclamava ser o Báb. Pela minha mente, logo ficou claro pensamento de que tal pessoa nenhuma outra poderia ser senão aquele mesmo Jovem visto por mim em Karbilá, o Jovem que era o desejo de meu coração.
"Quando, mais tarde, eu de Karbilá a Shíráz viajei, soube que Ele partira em peregrinação a Meca e Medina. Encontrei-o na Sua volta e tentei, apesar dos muitos obstáculos no caminho, permanecer em estreita associação a Ele. Quando, posteriormente, foi encarcerado na fortaleza de Máh-Kú, na província de Ádhirbáyján, fui incumbido de transcrever os versículos que Ele ditava ao Seu amanuense. Toda noite, por um período de nove meses, durante o qual foi prisioneiro naquela fortaleza, revelava Ele, após haver oferecido Suas preces noturnas, um comentário sobre um juz' (11) do Alcorão. No fim de cada mês, era assim completado um comentário sobre esse livro sagrado inteiro. Durante o encarceramento em Máh-Kú, nove comentários sobre todo o Alcorão foram por Ele revelados. Os textos desses comentários foram entregues em Tabríz aos cuidados de um certo Siyyid Ibráhím-Khalíl, com a advertência de ocultá-los até que chegasse o tempo para sua publicação. Seu destino é incerto até agora.
"A respeito de um desses comentários perguntou-me, um dia, o Báb: 'Qual preferes, este comentário que acabo de revelar ou o Ahsanu'l-Qisas, Meu comentário anterior sobre a Sura de José? Qual dos dois é superior, segundo tua avaliação?' 'Para mim', respondi, 'o Ahsanu'l-Qisas parece ser dotado de maior poder e encanto.' Sorriu de minha observação e disse: 'Não conheces ainda o tom e o teor desse comentário mais recente. As verdades neste entesouradas haverão de capacitar o inquiridor, mais rápida e efetivamente, a atingir o objeto de sua busca.'
"Continuei intimamente associado a Ele até aquele grande encontro de Shaykh Tabarsí. Ao ser informado desse acontecimento, o Báb mandou todos os seus companheiros apressarem-se para aquele local e prestarem todo o auxílio possível a Quddús, Seu heróico e distinto discípulo. Dirigindo-se a mim certo dia, disse Ele: 'Se não fosse Meu encarceramento no Jabal-i-Shadíd, a fortaleza de Chihríq, ter-Me-ia incumbido de prestar Minha assistência pessoal ao Meu bem-amado Quddús. Participação naquela luta não te é ordenada. Deverias prosseguir a Karbilá e naquela cidade santa residir, desde que te seja destinado contemplar com os próprios olhos o belo semblante do prometido Husayn. Ao fitares aquela face radiante, lembra-te também de Mim. Transmite-Lhe a expressão de Minha devoção afetuosa'. Ainda, com ênfase, acrescentou estas palavras: 'Em verdade, digo, Eu confiei a ti uma grande missão. Acautela-te para que teu coração não esmoreça, para que não esqueças a glória da qual te investi'."
"Pouco depois viajei para Karbilá, residindo, segundo mandado, naquela cidade santa. Receando que a prolongada demora naquele centro de peregrinação provocasse suspeitas, decidi casar. Comecei a ganhar a vida como escriba. Quantas aflições caíram sobre mim das mãos dos shaykhís - aqueles que se professavam seguidores de Shaykh Ahmad e contudo deixaram de reconhecer o Báb! Tendo em mente os conselhos daquele bem-amado Jovem, submeti-me com paciência às indignidades sobre mim infligidas. Por dois anos naquela cidade residi. Entrementes, de Sua prisão terrena foi libertado aquele Jovem santo; através do martírio, livrou-se Ele das crueldades atrozes que nos derradeiros anos de Sua vida O assediaram.
Dezesseis meses lunares, menos de vinte e dois dias, haviam se passado desde o dia do martírio do Báb, quando, no dia de 'Arafih (12), no ano de 1267 A.H. (13), enquanto eu passeava pelo portal do pátio interior do santuário do Imame Husayn, meus olhos pousaram, pela primeira vez, em Bahá'u'lláh. Que haverei de relatar sobre o semblante que contemplei! A beleza daquela face, as delicadas feições que nenhuma pena ou pincel ousam descrever, Seu olhar penetrante, Sua expressão bondosa, a majestade de Seu porte, a doçura de Seu sorriso, o cabelo luxuriante, preto de azeviche, em minha alma deixaram uma indelével impressão. Nesse tempo era eu idoso, curvado pela velhice. Com quanto amor Ele se aproximou de mim! Tomou minha mão, num tom que demonstrava ao mesmo tempo poder e beleza, dirigiu a mim estas palavras: 'Neste mesmo dia é meu propósito tornar-te conhecido como um Bábí em toda Karbilá'. Ainda segurando-me a mão, continuou a conversar comigo. Continuamos juntos por toda a extensão da rua do mercado e Ele finalmente disse: 'Louvado seja Deus por haveres permanecido em Karbilá e visto com teus próprios olhos a face do prometido Husayn'. Nesse mesmo instante recordei a promessa que me fizera o Báb. Suas palavras, que eu supunha se referissem a um futuro remoto, não as havia compartilhado com ninguém. Estas palavras de Bahá'u'lláh comoveram-me até as profundezas de meu ser. Sentia-me impelido a proclamar a um povo desatento, naquele mesmo momento, com toda minha alma e poder, o advento do prometido Husayn. Disse-me, porém, Ele, que contivesse meus sentimentos e ocultasse minhas emoções. 'Ainda não', sussurrou em meus ouvidos, 'a Hora designada aproxima-se. Ainda não soou. Tem confiança e sê paciente.' Desde aquele momento, desvaneceram-se todas as minhas tristezas. Minha alma inundava de júbilo. Naqueles dias eu estava tão pobre que durante a maior parte do tempo passava fome. Senti-me tão rico, entretanto, que todos os tesouros da Terra se dissolviam até se tornarem inexistentes quando comparados com aquilo que já possuía. 'Tal é a Graça de Deus; a quem Ele queira, a confere: Ele, verdadeiramente, é de bondade imensa.'"
Após esta digressão, volto agora a meu tema. Estava referindo-me à ânsia com que Siyyid Kázím se determinara a romper aqueles véus que se interpunham entre o povo de seu tempo e o reconhecimento da manifestação prometida . Nas páginas introdutórias de suas obras, intituladas Sharh-i-Qasídih e Sharh-i-Khutbih (14), ele alude em linguagem velada ao abençoado nome de Bahá'u'lláh. Num livreto, último escrito por ele, menciona explicitamente o nome do Báb com sua referência ao termo "Dhikru'lláh-i-A'zam". Neste escreve: "Ao dirigir-me a esse nobre 'Dhikr (15), esta poderosa voz de Deus, digo: 'Estou apreensivo pelo povo, para que não te faça mal. Estou apreensivo de meu próprio ser, para que eu também não te magoe. Tenho temor de ti, tremo ante tua autoridade, sinto pavor da era que vives. Fosse eu entesourar-te como o menino de meus olhos, até o Dia da Ressurreição, não te haveria dado provas suficientes de minha devoção a ti' (16)."
Quão profundos foram os sofrimentos de Siyyid Kázím nas mãos do povo da malícia! Quanto dano lhe infligiu aquela geração perversa! Durante anos sofreu em silêncio, suportando com heróica paciência todas as indignidades, todas as calúnias e denúncias que foram acumuladas sobre ele. Era seu destino, no entanto, testemunhar nos últimos anos de sua vida como a mão vingadora de Deus "destruiu com total aniquilamento" aqueles que se lhe opuseram, o caluniaram e contra ele conspiraram. Naquele tempo os discípulos de Siyyid Ibrahim, aquele notório inimigo de Siyyid Kázím, agregaram-se com o fim de incitar sedição e danos e pôr em perigo a vida de seu formidável adversário. Por todos os meios ao alcance deles tentaram envenenar as mentes de seus admiradores e amigos, minar-lhe a autoridade e desacreditar o seu nome. Não se levantou uma só voz em protesto contra a agitação que assiduamente estava sendo preparada por essa gente ímpia e traiçoeira, cada um dos quais se dizia o expoente da verdadeira sabedoria e repositórios dos mistérios da Fé de Deus. Ninguém tratou de os admoestar ou despertar. Adquiriram tal poder e incitaram tal luta que conseguiram expulsar de Karbilá, de maneira vergonhosa, o representante oficial do governo otomano e tomaram para seus próprios fins sórdidos qualquer renda que lhe cabia arrecadar. Sua atitude ameaçadora incentivou o governo central em Constantinopla a mandar um oficial militar à cena da agitação com plenas instruções para extinguir o fogo da rebeldia. Com as forças sob seu comando, esse oficial assediou a cidade e enviou a Siyyid Kázím uma comunicação em que lhe rogava que pacificasse os ânimos a população excitada. Apelou para ele, pedindo que aconselhasse moderação aos seus habitantes, que os induzisse a atenuar sua obstinação e a se submeter voluntariamente ao seu governo. Prometeu que fosse eles atender aos seus conselhos, incumbir-se-ia de lhes garantir a segurança e proteção, proclamaria uma anistia geral e se esforçaria por lhes promover o bem-estar. Advertia-lhes, porém, que, caso recusassem se submeter, suas vidas estariam em perigo, uma grande calamidade, certamente, lhes sobreviria.
Ao receber esta comunicação formal, Siyyid Kázím mandou chamar à sua presença os principais instigadores do movimento e, com a maior sabedoria e afeto, os exortou a deixar de causar agitação e a entregar suas armas. Falou com eloqüência tão persuasiva, com tanta sinceridade e desprendimento que seus corações se abrandaram e sua resistência se conteve. Comprometeram-se solenemente a abrir, na manhã seguinte, os portais da cidade e a se apresentar em companhia de Siyyid Kázím, ao oficial que comandava as forças sitiantes. Foi combinado que o Siyyid interviesse em seu favor e obtivesse para eles o que lhes assegurasse a tranqüilidade e o bem-estar. Mal haviam deixado a presença do Siyyid quando os ulemás, os principais instigadores da rebelião, levantaram-se unanimemente para frustrar esse plano. Bem consciente de que tal intervenção da parte do Siyyid, que já lhes havia excitado a inveja, serviria para lhes aumentar o prestígio e consolidar a autoridade, determinaram-se a persuadir os elementos tolos e inflamáveis da população a sair à noite e atacar as forças do inimigo. Asseguraram-lhes a vitória por causa de um sonho que um de seus membros tivera, no qual havia visto 'Abbás (17) e fora por ele incumbido de incitar seus seguidores a fazer guerra santa contra os sitiadores, prometendo-lhes êxito final. Iludidos por essa promessa vã, rejeitaram a advertência daquele conselheiro sábio e judicioso e se levantaram para executar os desígnios de seus líderes insensatos. Siyyid Kázím, que bem conhecia a má influência que incitou essa revolta, enviou um informe detalhado e fiel sobre a situação ao comandante turco, e este tornou a escrever a Siyyid Kázím, reiterando seu apelo para uma solução pacífica da questão. Declarou, ainda mais, que em dado momento ele forçaria os portões da cidadela e consideraria a casa do Siyyid como o único lugar de refúgio para um inimigo derrotado. Esta declaração, o Siyyid a fez circular por toda a cidade. Só serviu para incentivar a zombaria e o desprezo por parte da população. Ao ser informado da maneira como fora recebida esta declaração, o Siyyid observou: "Em verdade, o que lhes ameaça é para o amanhecer. Não está próximo o amanhecer." (18)
Ao romper da alvorada, à hora marcada, as forças do inimigo bombardearam as muralhas da cidadela e lhe demoliram as paredes, entraram na cidade e pilharam e massacraram um número considerável da população. Muitos fugiram consternados para o pátio do santuário do Imame Husayn. Outros buscaram refúgio no santuário de 'Abbás. Os que amavam e honravam Siyyid Kázím recorreram a sua casa. Tão grande foi a multidão que se apressava ao amparo de sua residência que se tornou necessário apossar-se de algumas casas adjacentes a fim de acomodar a multidão de refugiados que se apinhava às suas portas. Tão vasta e excitada estava a multidão que lhe enchia a casa que se verificou, uma vez apaziguado o tumulto, haverem morrido nada menos que vinte e duas pessoas.
Que consternação se apoderou dos residentes e visitantes na cidade santa! Com que severidade os vitoriosos trataram seu inimigo aterrorizado! Com que audácia desrespeitaram os sagrados direitos e prerrogativas de que a piedade de inúmeros peregrinos muçulmanos investira os lugares santos de Karbilá! Recusaram reconhecer tanto o santuário do Imame Husayn quanto o sagrado mausoléu de 'Abbás como refúgios invioláveis para os milhares que fugiram ante a ira vingadora de um povo estrangeiro. Os sagrados recintos de ambos os santuários regaram-se com o sangue das vítimas. Um lugar, e somente um, poderia afirmar seu direito de refúgio para os inocentes e fiéis dentre a população. Esse lugar era a residência de Siyyid Kázím. Sua casa, com as dependências, era considerada dotada de tal santidade como nem o mais sagrado santuário do Islã havia podido conservar. Essa extraordinária manifestação da ira vingadora de Deus foi uma lição prática para aqueles que se sentiam inclinados a menosprezar a posição desse homem santo. Esse acontecimento memorável (19) realizou-se no dia 8 de Dhi'l-Hijjih no ano de 1258 A.H. (20)
Admite-se como evidente que, em cada era e revelação aqueles cuja missão é proclamar a Verdade ou preparar o caminho para sua aceitação têm encontrado invariavelmente a oposição de alguns poderosos adversários que lhes desafiaram a autoridade e tentaram perverter seus ensinamentos. Quer por fraude ou fingimento, por calúnia ou opressão, estes têm conseguido por algum tempo enganar os mal informados e levar para o mau caminho os fracos. Desejosos de manter seu domínio sobre os pensamentos e consciências dos homens, eles têm podido, enquanto a Fé de Deus permanecesse oculta, gozar dos frutos de uma ascendência fugaz e precária. Mal se proclamava a Fé, entretanto, quando viam, com grande consternação, que os efeitos de suas más intrigas empalideciam ante a luz nascente do novo Dia de Deus. Ante os cadentes raios daquele Orbe nascente, todas as suas maquinações e más ações eram reduzidas ao nada e breve se tornavam algo esquecido.
Em torno de Siyyid Kázím haviam se congregado, também, várias pessoas vãs e ignóbeis que simulavam lhe ter devoção e afeto; que professavam ser fiéis e piedosos e se diziam os únicos repositórios dos mistérios entesourados nas palavras de Shaykh Ahmad e de seu sucessor. Ocupavam os lugares de honra na companhia dos discípulos reunidos de Siyyid Kázím. A estes dirigia ele seus discursos e mostrava notável consideração e cortesia. E, no entanto, muitas vezes em frases veladas e sutis, ele aludia a sua cegueira, sua vanglória e sua incapacidade completa para apreender os mistérios da expressão divina. Entre suas alusões está a seguinte: "Ninguém pode compreender minha linguagem, salvo quem é gerado por mim". Freqüentemente citava estas palavras: "Estou atônito diante da visão. Estou mudo de assombro e vejo o mundo privado do poder de ouvir. Estou impotente para divulgar o mistério e percebo que o povo é incapaz de lhe suportar o peso". Em outra ocasião comentou: "Muitos são aqueles que afirmam haver atingido união com o Bem-amado, e contudo aquele Bem-Amado recusa admitir sua pretensão. Pelas lágrimas que derrama por seu Amado, pode o verdadeiro amante se distinguir do falso". Muitas vezes ele dizia: "Aquele destinado a se manifestar depois de mim é de linhagem pura, de ilustre descendência, da semente de Fátimih. É de altura mediana e livre de qualquer defeito físico". (21)
Tenho ouvido Shaykh Abú-Turáb (22) contar o seguinte: "Eu, junto com alguns dos discípulos de Siyyid Kázím, considerava as alusões a essas deficiências que o Siyyid declarava ausentes no Prometido, como dirigidas, especificamente, a três indivíduos dentre nossos condiscípulos. Nós até os designávamos por apelações que indicavam seus defeitos físicos. Um deles era Hájí Mirza Karím Khán (23) filho de Ibrahim Khán-i-Qájár-i-Kirmání, a quem faltava uma vista e que tinha barba rala. Outro era Mirza Hasan-i-Gawhar, um homem de excepcional corpulência. O terceiro era Mirza Muhít-i-Shá'ir-í-Kirmání, extraordinariamente magro e alto. Estávamos convencidos de que estes não eram senão aqueles a quem o Siyyid aludia constantemente como as pessoas vãs e infiéis que no fim revelariam o que realmente eram e deixariam aparecer sua ingratidão e insensatez. Quanto a Hájí Mirza Karím Khán, que durante anos sentava-se aos pés de Siyyid Kázím e dele adquiriu toda a sua, assim chamada, erudição, ele, afinal, obteve permissão de seu mestre para se estabelecer em Kirmán e ali ocupar-se em promover os interesses do Islã e disseminar aquelas tradições que se agrupavam ao redor da sagrada memória dos Imames da Fé.
"Estive presente na biblioteca de Siyyid Kázím quando, certo dia, chegou uma ajudante de Hájí Mirza Karím Khán, segurando na mão um livro, o qual ele ofereceu ao Siyyid em nome de seu mestre, pedindo-lhe que o examinasse e indicasse com próprio punho sua aprovação do conteúdo. O Siyyid leu trechos desse livro e então o devolveu ao ajudante com esta mensagem: 'Diga ao seu mestre que ele, melhor do que qualquer outro, pode estimar o valor de seu próprio livro'. O ajudante havia se retirado quando o Siyyid, com voz pesarosa, fez esta observação: 'Maldito seja ele! Há muitos anos está associado comigo e, agora que pretende partir, seu único objetivo, após tantos anos de estudo e convivência, é difundir por meio de seu livro essas doutrinas heréticas e atéias, as quais quer agora que eu endosse. Tem combinado com alguns hipócritas ambiciosos, mirando estabelecer-se em Kirmán, a fim de assumir, após minha partida deste mundo, as rédeas da indiscutida chefia. Quão lastimavelmente errou em seu juízo! Pois a brisa da Revelação Divina, soprando do Alvorecer da guia, seguramente lhe apagará a luz e destruirá a influência. A árvore de seu esforço outro fruto não dará afinal, senão o da amarga desilusão e do remorso atormentador. Em verdade digo, haverás de ver isso com os próprios olhos. Minha oração por ti é que sejas protegido da perniciosa influência que ele, o anti-Cristo da prometida Revelação, futuramente exercerá'. Mandou-me ocultar esta predição até o Dia da Ressurreição, o Dia em que a Mão da Onipotência terá revelado os segredos que agora jazem ocultos no peito dos homens. 'Nesse Dia', ele me exortou, 'levante-te com inabalável propósito e determinação para o triunfo da Fé de Deus. Proclama aos quatro ventos tudo o que tens ouvido e visto'". Esse mesmo Shaykh Abú-Turáb, que nos primeiros dias da Revelação anunciada pelo Báb pensou que era melhor e mais prudente não se identificar com Sua Causa, nutria no coração o mais fervoroso amor pelo Manifestante revelado, e em sua fé permaneceu tão firme e imóvel como a rocha. No fim, esse fogo abafado lançou chamas em sua alma e foi responsável por conduta tal de sua parte que causou seu encarceramento em Teerã, na mesma masmorra em que fora confinado Bahá'u'lláh. Continuou firme até o fim e coroou uma vida de amoroso sacrifício com a glória do martírio.
À medida que se aproximava o fim dos dias de Siyyid Kázím, sempre que se encontrava com seus discípulos, quer em conversação particular ou em discurso público, exortava-os dizendo: "Ó meus bem-amados companheiros! Acautelai-vos acautelai-vos, para que depois de mim as efêmeras vaidades do mundo não vos enganem. Cuidado para que não vos torneis arrogantes e esquecidos de Deus. Incumbe-vos renunciar todo conforto, todos os parentes e bens terrenos, em vossa busca Daquele que é o Desejo de vossos corações e do meu. Dispersai-vos por toda parte, desprendei-vos de todas as coisas terrenas e com humildade e orações suplicai a vosso Senhor que vos sustente e guie. Nunca cedais em vossa determinação de buscar e encontrar Aquele que se oculta atrás dos véus da glória. Perseverai até o tempo em que Ele, vosso verdadeiro Guia e Mestre, bondosamente vos ajudará, capacitando-vos a reconhecê-Lo. Sede firmes até o dia em que Ele vos escolherá como os companheiros e heróicos defensores do prometido Qá'im. Bem-aventurado cada um de vós que sorver o cálix do martírio em Seu caminho. Aqueles de vós que Deus, em Sua sabedoria, preservar e guardar para que testemunhem o ocaso daquela Estrela de Guia Divina, o Arauto do Sol da Revelação Divina, deverão ser pacientes, deverão permanecer confiantes e constantes. Esses dentre vós não devem vacilar nem se desalentar, pois logo depois do primeiro trombetear que há de castigar a Terra com extermínio e morte, ouvir-se-á ainda outro chamado, com o qual todas as coisas serão vivificadas e renovadas. Então se revelará o significado destes sagrados versículos: 'E houve um toque de trombeta, e todos os que estão no Céu e todos os que estão na Terra expiraram, salvo aqueles que Deus permitiu viver. Então soou outro toque e eis que, levantando-se, olharam ao redor. A Terra brilhava com a luz de seu Senhor e se estabeleceu o Livro e fez levantarem os Profetas e as testemunhas; e se julgou entre eles com eqüidade e a ninguém se fez injustiça'. (24) Em verdade digo, após o Qá'im, o Qayyúm (25) manifestar-se-á. Pois quando a estrela dAquele tiver se posto, o sol da beleza de Husayn haverá de surgir e iluminar o mundo inteiro. Então se desdobrarão em toda a sua glória o 'mistério'e o 'segredo' de que falou Shaykh Ahmad, quando disse: 'O mistério desta Causa há de se tornar manifesto, e o segredo desta Mensagem deve forçosamente ser divulgado'. Haver alcançado esse Dia dos dias é haver alcançado a glória culminante das gerações passadas, e uma só boa ação executada nessa era é igual à piedosa adoração de incontáveis séculos. Com que freqüência aquela alma venerável, Shaykh Ahmad, recitava esses versículos do Alcorão já citados! Quanta ênfase pôs ele em seu significado como prognósticos do advento daquelas duas Revelações gêmeas que hão de seguir uma a outra em rápida sucessão, cada uma das quais é destinada a inundar o mundo com toda a sua glória! Quantas vezes exclamava: 'Bem-aventurado aquele que reconhecer seus significado e contemplar seu esplendor!' Quão freqüentemente, dirigindo-se a mim, ele observava: 'Nenhum de nós há de viver até contemplar sua fulgurante glória. Mas muitos dos fiéis dentre vossos discípulos haverão de ver o Dia que nós, desafortunadamente, jamais poderemos esperar contemplar!' Ó meus bem-amados companheiros! Como é grande, muito grande, a Causa! Quão elevada a posição a qual vos chamo! Quão grande a missão para a qual vos tenho ensinado e preparado! Envidai os máximos esforços e fixai vosso olhar em Sua promessa. Suplico a Deus que por Sua graça vos ajude a sobreviver às tempestades de provações e tribulações que forçosamente haverão de vos assediar, que vos dê o poder de sair incólumes e triunfantes de seu meio e vos leve a vosso elevado destino".
Todo ano, no mês de Dhi-l-Qa'dih, o Siyyid ia de Karbilá a Kázimayn (26) a fim de visitar os santuários dos imames. Regressava a Karbilá em tempo de visitar, no dia de 'Arafih, o santuário do Imame Husayn. Naquele ano, último de sua vida, fiel a seu costume, partiu de Karbilá nos primeiros dias do mês de Dhi'l-Qa-dih, no ano de 1259 A.H. (27), acompanhado por um grupo de seus companheiros e amigos. No quarto dia desse mês chegou em Masjid-i-Baráthá, situado na estrada principal entre Bagdá e Kázimayn, em tempo de oferecer sua oração do meio-dia. Pediu ao muezim que convocasse os fiéis para se reunirem e orarem. Em pé na sombra de uma palmeira que ficava em frente ao masjid, ele fez parte da congregação e mal concluíra suas devoções quando, de repente, um árabe apareceu, aproximou-se do Siyyid e o abraçou. "Há três dias", disse ele, "cuidava eu de meu rebanho nesse pasto adjacente quando, subitamente, o sono me sobreveio. Em meu sonho vi Maomé, o Apóstolo de Deus, Que a mim se dirigiu com estas palavras: 'Dá ouvidos, ó pastor, a Minhas palavras e as entesoura dentro de teu coração. Pois estas palavras Minhas são a incumbência de Deus que entrego a teu cuidado. Se lhes fores fiéis, grande será tua recompensa. Se as desprezar, severa retribuição haverá de te sobrevir. Ouve-Me; é esta a incumbência que te confio: Permanece na vizinhança de Masjid-i-Baráthá. No terceiro dia depois deste sonho, um descendente de Minha casa, Siyyid Kázím de nome, com seus amigos e outros companheiros, chegará ao meio-dia sob sombra da palmeira nas proximidades do masjid. Ali oferecerá suas orações. Assim que teus olhos o fitarem, procura sua presença e lhe transmite Minhas carinhosas saudações. Dize-lhe, de Mim: Regozija-te, pois a hora de tua partida está próxima. Quando tiveres feito tuas visitas em Kázimayn e tiveres regressado a Karbilá, três dias após tua volta, no dia de Arafih (28), alçarás vôo a Mim. Pouco depois, se tornará manifesto Aquele que é a Verdade. Então o mundo será iluminado pela luz de Seu semblante'". Um sorriso iluminou o rosto de Siyyid Kázím ao ouvir completar-se a descrição do sonho, segundo foi relatado por esse pastor. Disse ele: "Da verdade do sonho que tiveste, não há dúvida". Seus companheiros ficaram profundamente pesarosos. Volvendo-se a eles, disse: "Não é vosso amor a mim devido ao Verdadeiro, cujo advento todos nós esperamos? Não desejareis que eu morra, para que o Prometido seja revelado?" Este episódio em sua totalidade tem sido a mim relatado por nada menos que dez pessoas, todas as quais estiveram presentes nessa ocasião e testificaram sua exatidão. E no entanto muitos dos que viram com os próprios olhos tão maravilhosos sinais rejeitaram a Verdade e repudiaram Sua Mensagem!"
Esse estranho acontecimento foi muito comentado. Entristeceu o coração dos que em verdade amavam Siyyid Kázím. A estes, com infinita ternura e júbilo, dirigiu palavras de alento e consolo. Ele lhes acalmou o coração atribulado, fortificou a fé e avivou o zelo. Com dignidade e calma completou sua peregrinação e regressou a Karbilá. No mesmo dia de sua chegada, adoeceu, tendo de ficar acamado. Seus inimigos espalharam o boato de que ele fora envenenado pelo governador de Bagdá. Isso era pura calúnia e absolutamente falso, pois o governador mesmo tivera confiança incondicional em Siyyid Kázím, sempre o considerando um líder de talento notável, possuidor de um caráter irrepreensível (29). No dia de 'Arafih, no ano de 1259 A.H., com a experiente idade de sessenta anos, Siyyid Kázim, de acordo com a visão daquele humilde pastor, despediu-se deste mundo, deixando atrás de si um grupo de discípulos sinceros e devotados, que, purificados de todo desejo terreno, partiram em busca de seu prometido Bem-Amado. Seus restos sagrados foram enterrados dentro do recinto do santuário do Imame Husayn. (30) Seu falecimento provocou em Karbilá um tumulto similar àquela agitação que se apoderara do povo no ano anterior (31), na véspera do dia de 'Arafih, quando o inimigo vitorioso forçara os portões da cidadela e massacrara um número considerável de seus habitantes assediados. Um ano antes, nesse dia, sua casa fora o único refúgio de paz e segurança para os desolados e sem teto, enquanto agora havia se tornado uma casa de pesar onde aqueles para quem ele havia sido um amigo e um amparo choravam sua perda e lamentavam seu falecimento. (32)
CAPÍTULO XX
A REVOLTA DE MÁZINDARÁN
(Continuação)
As forças sob o mando do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza haviam, entrementes, se recuperado do estado de desmoralização completa em que haviam caído e estavam agora se preparando para renovar seu ataque contra os ocupantes da fortaleza de Tabarsí. Encontravam-se estes novamente cercados por uma hoste numerosa em cuja vanguarda marchavam 'Abbás-Qulí Khán-i-Lárínjání e Sulaymán Khán-i-Afshár i-Shahríyárí que, juntamente com vários regimentos de infantaria e cavalaria, se haviam apressado a reforçar a companhia dos soldados do príncipe(1). Suas forças combinadas acamparam na vizinhança do forte(2) e procederam a erigir uma série de sete barricadas a seu redor. Com arrogância extrema, procuravam de início exibir a amplidão das forças a seu dispor e com crescente zelo se exercitavam diariamente no uso de suas armas.
A escassez de água havia, entrementes, obrigado os sitiados a cavar um poço dentro do cercado do forte. No dia em que o trabalho seria completado, no oitavo dia do mês de Rabí'u'l-Avval(3), Mullá Husayn, que presenciava a execução dessa tarefa pelos companheiros, observou. "Hoje teremos toda a água de que necessitarmos para nosso banho. Purificados de todas as corrupções terrenas, iremos em busca da corte do Todo-Poderoso e nos apressaremos a atingir nossa morada eterna. Quem quer que deseje participar da taça do martírio, que se prepare e aguarde a hora em que possa com seu sangue vital selar sua fé em sua Causa. Que esta noite, antes da hora do alvorecer, os que desejam se unir comigo estejam prontos para sair de trás destes muros e, mais uma vez pondo em debandada as forças negras que se assediaram o caminho, ascendam sem obstáculo às alturas da glória."
Naquela mesma tarde, Mullá Husayn fez suas abluções, pôs vestes novas, ataviou a cabeça com o turbante do Báb e se preparou para o encontro iminente. Uma indefinível alegria lhe iluminava a face. Serenamente se referiu à hora de sua partida e até seus derradeiros momentos continuou a animar o zelo de seus companheiros. Sozinho com Quddús, que tão poderosamente lhe fazia lembrar seu Bem-Amado, ele, enquanto sentado aos seus pés nos momentos finais de sua vida terrena, se desafogou de tudo o que uma alma extasiada não mais podia reprimir. Pouco depois de meia noite, assim que nascera a estrela da manhã, estrela essa que lhe prenunciava a luz matinal de sua reunião eterna com seu Bem-Amado, pôs-se em pé e montando seu corcel, deu o sinal para se abrir o portão do forte. Enquanto saía montado na frente de trezentos e treze de seus companheiros para encontrar o inimigo, o grito de "Yá Sáhibu'z-Zamán!"(4) novamente irrompia - um brado tão intenso e poderoso que floresta, forte e acampamento vibraram com seu eco retumbante.
Mullá Husayn primeiro investiu contra a barricada cujo defensor era Zakaríyyáy-i-Qádí Kalá'í, um dos mais valentes oficiais do inimigo. Dentro de pouco tempo havia ele rompido essa barricada, disposto de seu comandante e debandando seus homens. Precipitando-se adiante com a mesma celeridade e intrepidez, superou a resistência tanto da segunda como da terceira barricada, difundindo, à medida que avançava, desespero e consternação entre os inimigos. Não detidos pelas balas que sobre ele e seus companheiros continuamente choviam, caminharam para a frente até haver capturado e derrubado todas as restantes barricadas. Em meio ao tumulto que se seguia, 'Abbás-Qulí Khán-i-Láríjání, trepara numa árvore e, escondendo-se nos ramos, ficou de emboscada à espera dos oponentes. Protegido pela escuridão que o cercava, pode de seu esconderijo acompanhar os movimentos de Mullá Husayn e seus companheiros, que estavam expostos ao forte clarão da conflagração que haviam levantado. O corcel de Mullá Husayn emaranhou-se, de súbito, no cabo de uma tenda adjacente e Mullá Husayn, antes de poder desembaraçar-se, foi atingido no peito por uma bala de seu ardiloso agressor. Embora o tiro fosse bem sucedido, 'Abbás-Qulí Khán não percebia a identidade do cavaleiro que ele ferira. Mullá Husayn, que sangrava profusamente apeou, cambaleando, deu alguns passos e, não podendo proceder adiante, caiu exausto no chão. Dois de seus jovens companheiros, de Khurásán, Qulí e Hasan, vieram socorrê-lo e o levaram ao forte(5).
Tenho ouvido Mullá Sadíq e Mullá Mirza Muhammad-i-Furúghí relatarem o seguinte: "Estávamos entre aqueles que haviam permanecido no forte com Quddús. Logo que Mullá Husayn foi trazido, parecendo estar inconsciente, pediram que nos retirássemos. "Deixem-me a sós com ele," foram as palavras de Quddús, enquanto mandava Mirza Muhammad-Báqir fechar a porta e recusar a entrada a qualquer um que o desejasse ver. "Há certos assuntos confidenciais que eu desejo que somente ele saiba. Ficamos atônitos, poucos momentos depois, quando ouvimos a voz de Mullá Husayn respondendo às perguntas de Quddús. Durante duas horas continuaram a conversar, um com outro. Admirávamos ver Mirza Muhammad-Báqir tão profundamente agitado. "Eu estava vendo Quddús," informou-nos subseqüentemente, "por uma fenda na porta. Assim que chamou seu nome, vi Mullá Husayn levantar e se sentar, de sua maneira usual, de cócoras, ao seu lado. Com a cabeça inclinada e olhando para baixo, escutava toda palavra que caia dos lábios de Quddús e lhe respondia as perguntas. "Apressaste a hora de tua partida," pude ouvir Quddús observar, "e me abandonaste à mercê de meus inimigos. Queira Deus, breve nos reuniremos e eu saborearei a doçura dos inefáveis deleites celestiais." Consegui apanhar as seguintes palavras pronunciadas por Mullá Husayn: "Seja minha vida um resgate por ti. Estás contente comigo?"
Passou um largo tempo antes de Quddús mandar Mirza Muhammad-Báqir abrir a porta e admitir seus companheiros. "Eu lhe disse meu último adeus," declarou, enquanto entrávamos no aposento. Coisas que eu anteriormente julgava que não me era permitido pronunciar, agora com ele partilhei. Vimos, ao aproximar-nos, que Mullá Husayn havia expirado. Um leve sorriso ainda pairava em seu rosto. Tal foi a paz em seu semblante que ele parecia haver adormecido. Quddús tratou do enterro, vestiu-o de sua própria camisa e deu instruções para colocá-lo em seu lugar de repouso próximo do santuário do Shaykh Tabarsí, do lado sul(6). "Bem-aventurado estás por haver até tua derradeira hora permanecido fiel ao Convênio de Deus," disse, enquanto nos olhos e na testa lhe dava um beijo de despedida. "Não permita Deus, rogo-Lhe, que qualquer divisão entre tu e eu jamais seja causada." De um modo tão penetrante falou, que os sete companheiros que estavam em pé ao seu lado choraram profusamente e sentiam o desejo de que em seu lugar estivessem sido sacrificados. Quddús com as próprias mãos colocou o corpo no túmulo e acautelou aos que lhe estavam perto que guardassem segredo o seu lugar de descanso e nem mesmo aos companheiros o revelassem. Mais tarde deu instruções para que os corpos dos trinta e seis mártires caídos durante aquele encontro fossem enterrados em uma mesma sepultura, ao lado norte do santuário de Shaykh Tabarsí. "Que os amados de Deus," ouviam-no observar enquanto os entregava a seu túmulo, "atentem para o exemplo destes mártires de nossa Fé. Que eles sejam e permaneçam tão unidos em vida como estes agora estão em sua morte."
Nada menos de noventa dos companheiros foram feridos naquela noite, dos quais a maioria sucumbiu. Desde o dia de sua chegada em Bárfurúsh até o dia em que foram primeiro atacados, que caiu no dia doze de Dhi'l-Qa'dih no ano de 1264 A. H.(7), até o dia do falecimento de Mullá Husayn, ocorrido na hora do amanhecer, no dia nove de Rabí'u'l-Avval, no ano de 1265 A. H.(8), o número de mártires, segundo o cálculo de Mirza Muhammad-Báqir, atingira um total de setenta e dois.
Desde o tempo em que Mullá Husayn foi atacado pelos seus inimigos até o tempo de seu martírio, houve um período de cento e dezesseis dias, período esse tornado memorável pelas façanhas tão heróicas que até mesmo os mais veementes inimigos se sentiam constrangidos a confessar sua admiração. Em quatro ocasiões distintas atingiu ele tais alturas de coragem e poder como poucos, em verdade, podiam alcançar. O primeiro encontrou realizou-se no dia doze de Dhi'l-Qa'dih(9), nas imediações de Bárfurúsh; o segundo, nos arredores do forte de Shaykh Tabarsí, no quinto dia do mês de Muharram(10), contra as forças de 'Abdu'lláh Khán-i-Turkamán; o terceiro, em Vás-Kas, no vigésimo quinto dia de Muharram(11), e foi dirigido contra o exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza. A última e mais memorável batalha de todas foi dirigida contra as forças combinadas de 'Abbás-Qulí Khán, do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza e de Sulaymán Khán-i-i-Afshár, auxiliadas por uma companhia de quarenta e cinco oficiais de habilidade provada e experiência madura. De cada um desses encontros violentos e ferozes, Mullá Husayn, a despeito das forças sobrepujantes contra ele dispostas, saía ileso e triunfante. Em cada encontro se distinguia por tais atos de valor, de cavalheirismo, de habilidade e de força, que qualquer um destes, sozinho, bastaria para estabelecer para todo o sempre o caráter transcendente de uma Fé por cuja proteção ele tão destemidamente lutara e na senda da qual tão nobremente morrera. As qualidades de mente e de caráter que, desde a própria juventude ele demonstrava, a profundidade de seus conhecimentos, a tenacidade de sua fé, sua coragem intrépida, a unicidade de propósitos, seu alto senso de justiça e sua inabalável devoção assinalavam-no como figura que sobressaía entre aqueles que, pelas suas vidas, deram testemunho da glória e do poder da nova Revelação. Ele tinha trinta e seis anos quando sorveu da taça do martírio. Com idade de dezoito havia conhecido, em Karbilá, Siyyid Kázim-i-Rashtí e durante nove anos ficado sentado a seus pés, embebendo-se da instrução destinada a prepará-lo para a aceitação da Mensagem do Báb. Os nove anos restantes de sua vida foram passados em meio a uma atividade incessante, febril, que o levou afinal ao campo do martírio, em circunstâncias que derramaram imperecível lustre sobre a história de seu país(12).
Uma derrota tão completa e tão humilhante paralisou por algum tempo os esforços do inimigo. Quarenta e cinco dias passaram antes de poderem mais uma vez reunir suas forças e renovar sua investida. Durante esse intervalo, que terminou com o dia de Naw-Rúz, o frio intenso que prevalecia induziu-os a adiar sua aventura contra um oponente que os havia coberto de tanto opróbrio e vergonha. Embora seus ataques tivessem sido suspensos, os oficiais que comandavam os remanescentes do exército imperial haviam dado ordens estritas proibindo a chegada no forte de qualquer espécie de reforço. Quando o suprimento de suas provisões estava quase esgotado, Quddús deu instruções a Mirza Muhammad-Báqir para distribuir entre seus companheiros o arroz que Mullá Husayn armazenara para a ocasião em que fosse necessário. Quando cada um havia recebido a sua porção Quddús, convocando-os, disse: "Qualquer um que se sinta bastante forte para resistir às calamidades que breve nos hão de suceder, que permaneça conosco neste forte. E qualquer um que em si perceba o menor traço de hesitação e medo, que se vá deste recinto. Que saia de imediato, antes de haver o inimigo novamente reunido suas forças e nos atacado. Dentro em breve nos será vedada passagem diante de nossa face; muito breve haveremos de encontrar a mais severa dificuldade e cair vítimas de devastadoras aflições."
Na mesma noite em que Quddús fizera essa advertência, um siyyid de Qum, Mirza Husayn-i-Mutavallí, foi levado a trair seus companheiros. "Por que é," escrevia ele a 'Abbás-Qulí Khán-i-Láríjání, "que deixastes inacabado o trabalho que iniciastes? Já tendes disposto de um formidável oponente. Com a eliminação de Mullá Husayn, que era a força impulsora atrás destes muros, demolistes o pilar do qual dependiam a força e a segurança do forte. Tivésseis tido paciência por mais um dia, haveríeis seguramente obtido para vós os louros da vitória. Com nada mais de cem homens, dou minha palavra, dentro de dois dias podereis capturar o forte e conseguir a rendição incondicional de seus ocupantes. Estão exaustos de fome e passando por graves provações." A carta selada foi entregue a um certo Siyyid 'Alíy-i-Zargar que, enquanto levava consigo a porção do arroz que recebera de Quddús, saiu às escondidas da fortaleza na hora de meia-noite e levou a 'Abbás-Qulí Khán, a quem já conhecia. Veio-lhe essa mensagem num tempo em que ele havia buscado refúgio numa aldeia situada a uma distância de quatro farsangs(13) do forte e quando não sabia se deveria ou não regressar à capital e se apresentar a seu soberano após uma derrota tão humilhante, ou se retirar para sua casa em Láríján, onde seguramente haveria de enfrentar as repreensões de seus parentes e amigos.
Acabava ele de levantar da cama quando, na hora do nascer do sol, o siyyid lhe trouxe a carta. A notícia da morte de Mullá Husayn fortaleceu-o a tomar nova resolução. Com receio de que o mensageiro espalhasse a notícia concernente à morte de tão temível oponente, matou-o instantaneamente e então maquinou por alguma astúcia extraordinária desviar de si a suspeita do assassinato. Resolvido a tirar a máxima vantagem da desgraça dos sitiados e do esgotamento de suas forças, empreendeu de imediato os necessários preparativos para o reinício de seus ataques. Dez dias antes do Naw-Rúz havia ele acampado à distância de meio farsang do forte e se certificado da exatidão da mensagem que o pérfido siyyid lhe trouxera. Na esperança de obter para si toda a honra possível de haver conseguido afinal, a rendição de seus oponentes, não consentiu em revelar, nem mesmo aos seus oficiais mais íntimos, a informação recebida.
Mal rompera o dia quando ele içou seu estandarte(14) e, marchando na vanguarda de dois regimentos de infantaria e cavalaria, cercou a fortaleza e deu ordem de fogo contra as sentinelas que guardavam as torres. "O traidor," informou Quddús a Mirza Muhammad-Báqir, que se apressara a avisá-lo da gravidade da situação, "anunciou a 'Abbás-Qulí Khán a morte de Mullá Husayn. Ele agora, tornado audaz por causa de sua eliminação, está determinado a tomar de assalto nossa cidadela e obter para si a honra de ser seu único conquistador. Faze uma investida e com o auxílio de dezoito homens marchando ao teu lado, administra o devido castigo ao agressor e sua hoste. Deixa-o verificar que embora Mullá Husayn não mais existia, o invencível poder de Deus continua ainda a sustentar seus companheiros e fazê-los triunfarem sobre as forças de seus inimigos."
Mal escolhera Mirza Muhammad-Báqir seus companheiros quando mandou abrir-se de par em par o portão do forte. De salto montaram os corcéis e, levantando o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" arremessaram-se ao acampamento do inimigo. O exército inteiro fugiu em confusão diante de tão violento ímpeto. Com poucas exceções, conseguiram escapar. Chegaram a Bárfurúsh completamente desmoralizados e acabrunhados de vergonha. Tão abalado de medo estava 'Abbás-Qulí Khán que caiu de seu cavalo. Em sua aflição deixando uma das botas penduradas no estribo correu, meio calçado e confuso, na direção que fora tomada pelo exército. Cheio de desespero, apressou-se ao príncipe e confessou o ignominioso infortúnio que ele sofrera (15). Mirza Muhammad-Báqir, por sua parte, saindo daquele encontro, juntamente com seus dezoito companheiros, todos ilesos, e segurando na mão o estandarte que um inimigo apavorado abandonara, retirou-se com exultação ao forte onde submeteu essa evidência de sua vitória a seu chefe que nele havia inspirado tamanha coragem.
Uma derrota tão completa trouxe alívio imediato aos companheiros aflitos. Cimentou-lhes a unidade e os lembrou novamente da eficácia daquele poder do qual sua Fé os dotara. Seu alimento, infelizmente, estava agora reduzido a carne dos cavalos que haviam trazido com eles do acampamento abandonado pelo inimigo. Com inabalável energia suportavam as aflições que de todos os lados os assediavam. Seus corações concentravam-se nos desejos de Quddús; qualquer outra coisa pouco lhes importava. Nem a severidade de seu sofrimento, nem as ameaças contínuas do inimigo puderam fazê-los desviarem-se, nem sequer pela largura de um fio de cabelo, do caminho que os falecidos companheiros haviam tão heroicamente trilhado. Houve alguns poucos que subseqüentemente, na hora mais tenebrosa da adversidade, falharam. A pusilanimidade que esse elemento desprezível foi constrangido a mostrar, entretanto, empalideceu, tornando-se insignificante em face do espírito radiante manifestado pela grande maioria de seus companheiros, de ânimo firme, na hora da consumação do destino.
O Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, que estacionara em Sárí, recebeu com grande deleite a notícia da derrota que sobreviera às forças sob o comando imediato de seu colega 'Abbás-Qulí Khán. Embora desejoso, ele mesmo, de extirpar o bando que havia procurado abrigo atrás dos muros do forte, regozijou-se ao saber do insucesso de seu rival em ganhar a vitória por ele cobiçada (16). Escreveu de imediato a Teerã, ordenando que sem demora fosse despachado às proximidades do forte um reforço de bombas e artilharia de camelos, com todo o equipamento necessário, estando ele determinado a efetuar desta vez, a subjugação completa de seus obstinados ocupantes.
Enquanto seus inimigos se preparavam para ainda outro e mais feroz ataque contra sua cidadela, os companheiros de Quddús, totalmente indiferentes para o sofrimento atormentador que os afligia, aclamaram com gratidão e júbilo a aproximação do Naw-Rúz. Durante esse festival expressaram livremente seus sentimentos de agradecimento e louvor pelas múltiplas bênçãos que o Todo-Poderoso lhes concedera. Embora oprimidos de fome, entregavam-se ao júbilo e canção, desdenhando inteiramente o perigo que os cercava. O forte ressoava com a atribuição de glória e louvor que, tanto de dia como à noite, ascendia dos corações daquele grupo jubiloso. O versículo, "Santo, santo, o Senhor nosso Deus, Senhor dos anjos e do espírito," procedia incessantemente de seus lábios, intensificando-lhes o entusiasmo e lhes reanimando a coragem.
Tudo o que restava do gado que trouxeram com eles para o forte, era uma vaca que Hájí Nasíru'd-Dín-i-Qazvíní guardara e de cujo leite ele todo dia fazia um pudim para a mesa de Quddús. Não consentindo em negar aos companheiros famintos seu quinhão do manjar para ele preparado pelo seu devotado companheiro, Quddús invariavelmente, após haver tomado algumas colheres de chá desse alimento, distribuía entre eles o restante. "Deixei de apreciar," nós o ouvíamos muitas vezes observar, "desde a partida de Mullá Husayn, o alimento e a bebida que para mim preparam. Meu coração sangra ao ver a meu redor meus companheiros famintos, exaustos e definhados." A despeito dessas circunstâncias adversas, ele continuou infalivelmente a elucidar em seu comentário o que significava o Sád de Samad e a exortar os amigos a perseverarem até mesmo o fim em seus heróicos esforços. De manhã e ao anoitecer, Mirza Muhammad-Báqir entoava, na presença dos crentes reunidos, versículos desse comentário, cuja leitura despertava seu entusiasmo e lhes aviva as esperanças.
Tenho ouvido Mullá Mirza Muhammad-i-Furúghí atestar o seguinte: "Deus sabe que havíamos deixado de sentir fome de alimentos. Nossos pensamentos não mais se dirigiam a assuntos relativos ao nosso pão de cada dia. Tão extasiados estávamos pela melodia encantadora daqueles versículos que, fossemos continuar nesse estado durante anos, possibilidade alguma teria havido de um traço de tédio ou fadiga nos ofuscar o entusiasmo ou estragar nossa alegria. E sempre que a falta de nutrimento tendia a nos minar a vitalidade e nos diminuir as forças, Mirza Muhammad-Báqir apressava-se a Quddús e lhe avisava de nossa aflitiva situação. Um vislumbre de sua face, a mágica de suas palavras, enquanto ele entre nós andava, transmutava em júbilo áureo nosso desalento. Éramos reforçados com um poder de tal intensidade que, tivessem as hostes de nossos inimigos de súbito em nossa frente aparecido, haveríamos nos sentido capazes de lhes subjugar as forças."
No dia de Naw-Rúz, que caiu no dia vinte e quatro de Rabí'u'th-Thání no ano de 1265 A. H. (17), Quddús referiu-se, em uma mensagem escrita a seus companheiros, à aproximação de tais provações que lhes viria no encalço o martírio de um número considerável de seus amigos. Poucos dias depois, uma hoste inumerável (18), comandada pelo Príncipe Míhdí-Qulí Mirza (19) e auxiliada pelas forças combinadas de Sulaymán Khán-i-Afshár, de 'Abbás-Qulí Khán-i-Láríjání e de Ja'far-Qulí Khán, ajudados por cerca de quarenta outros oficiais, acamparam na vizinhança do forte e iniciaram a construção de uma série de trincheiras e barricadas nas imediações (20). No nono dia do mês de Bahá (21), o oficial em comando deu ordens àqueles incumbidos da artilharia, que atirassem em direção aos sitiados. Enquanto o bombardeio progredia, Quddús emergiu de seu aposento e andou ao centro do forte. Sua face engrinaldava-se em sorrisos e seu porte revelava a maior tranqüilidade. Enquanto andava, uma bala de canhão caiu de súbito em sua frente. "Como esses jactanciosos agressores," observou ele calmamente, rolando-a ao mesmo tempo com o pé, "estão de todo inconscientes do poder da ira vingativa de Deus! Terão eles se esquecido de que uma criatura tão insignificante como o mosquito foi capaz de extinguir a vida do onipotente Nimród? Não terão ouvido dizer que o rugido da tempestade foi suficiente para destruir o povo de 'Ád e Thamúd e lhes aniquilar as forças? Será que, com tão desprezíveis evidências de sua crueldade, aspiram a intimidar os heróis de Deus, aos olhos de quem a pompa da realeza nada mais é que uma sombra vazia?" "Sois," acrescentou ele, enquanto se volvia a seus amigos, "aqueles mesmos companheiros de quem Maomé, o Apóstolo de Deus, assim falou: 'Óh, quanto almejo contemplar o semblante de meus irmãos: meus irmãos que aparecerão no fim do mundo! Bem-aventurados somos nós, bem-aventurados são eles; maior é sua bem-aventurança do que a nossa.' Acautelai-vos para que não deixeis a usurpação do ego e do desejo deteriorar tão gloriosa posição. Não temais as ameaças os malfeitores, nem vos consterneis diante do clamor dos ímpios. Cada um de vós tem sua hora designada e, quando chegar aquela hora, nem os assaltos de vosso inimigo, nem os esforços de vossos amigos poderão retardar ou adiantar essa hora. Se os poderes da terra contra vós se coligassem, serão impotentes, antes de soar aquela hora, de diminuir por um jota ou um til a duração de vossa vida. Se por apenas um momento deixásseis vossos corações agitarem-se à face do troar dessas armas que, com crescente violência continuarão a chover suas balas sobre este forte, vós vos havereis arremessado para fora da cidadela da proteção Divina."
Tão poderoso apelo não pode deixar de inspirar confiança nos corações dos que o ouviram. Viu-se, porém, que um pequeno grupo cujos semblantes demonstravam vacilação e medo se havia agachado num canto protegido do forte e com inveja e admiração contemplavam o zelo que animava seus companheiros (22).
O exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza por alguns dias continuou a atirar em direção do forte. Seus homens admiravam-se ao verificar que o estrondo de suas armas não conseguira silenciar a voz de oração e as aclamações de júbilo que os sitiados erguiam em respostas as suas ameaças. Em lugar da rendição incondicional que esperavam, o chamado do muezim (23), a entoação dos versículos do Alcorão e o coro de vozes jubilantes que cantavam hinos de graças e louvor atingiam seus ouvidos incessantemente.
Exasperado diante dessas evidências de inapagável fervor e impelido por um desejo ardente de extinguir o entusiasmo que surgia dentro dos peitos de seus oponentes, Já'far-Qulí Khán erigiu uma torre, sobre a qual colocou seu canhão (24) e dessa elevação dirigia seu fogo ao coração do forte. Quddús de imediato chamou Mirza Muhammad-Báqir e lhe deu instruções para fazer novamente uma investida e infligir ao "jactancioso recém-chegado" uma humilhação não menos esmagadora do que aquela sofrida por 'Abbás-Qulí Khán. "Que saiba," acrescentou ele, "que os valentes guerreiros de Deus quando constrangidos e forçados pela fome, são capazes de manifestar tais façanhas, de tal heroísmo como nenhum ser mortal comum pode mostrar. Que saiba que, quanto maior sua fome, mais devastadoras serão os feitos de sua exasperação."
Mais uma vez mandou Mirza Muhammad-Báqir que dezoito de seus companheiros se apressassem a montar seus corcéis e o seguissem. Abriram-se os portões do forte e o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" - mais feroz e mais emocionante do que nunca - espalhou pânico e consternação nas fileiras do inimigo. Já'far-Qulí Khán, com trinta de seus homens, caiu diante da espada dos adversários, quando, então, estes correram à torre, capturaram as armas e as arremessaram ao chão. Investiram em seguida sobre o entrincheiramento, demoliram grande parte e, se não fosse a escuridão que se aproximava, teriam capturado e destruído o resto.
Triunfantes e ilesos, retiraram-se ao forte, levando consigo alguns dos garanhões mais fortes e bem nutridos que o inimigo havia deixado atrás. Passaram-se alguns dias sem nenhum sinal de um contra-ataque (25). Uma súbita explosão em um dos depósitos de munições do inimigo, causando a morte de vários oficiais da artilharia e alguns de seus companheiros de combate, forçou-os a suspender, durante um mês inteiro, seus ataques contra a fortaleza (26). Graças a essa cessação de hostilidades, puderam os companheiros de vez em quando sair de sua cidadela e colher qualquer erva que encontrassem no campo para lhes apaziguar a fome. A carne dos cavalos, até mesmo o couro das selas, haviam sido consumidos por esses oprimidos companheiros. Ferviam a grama e devoravam-na com avidez que causava pena (27). À medida que se declinavam suas forças e eles languesciam, exaustos, dentro dos muros de seu forte, Quddús aumentava suas visitas a eles, com suas palavras de alegria e de esperança se esforçando para lhes aliviar o peso da angústia.
Mal começara o mês de Jamádíyu'th-Thaní (28) quando de novo se ouviu a artilharia do inimigo descarregar suas chuvas de balas sobre o forte. Simultaneamente com o estrondo dos canhões, investiu contra ele um destacamento do exército chefiado por vários oficiais e composto por alguns regimentos de infantaria e cavalaria. O ruído de sua aproximação impeliu Quddús a chamar logo seu destemido tenente, Mirza Muhammad-Báqir e mandá-lo sair com trinta e seis de seus companheiros para lhes repelir o ataque. "Desde nossa ocupação desta fortaleza," acrescentou ele, "jamais tentamos, sob quaisquer circunstâncias, dirigir uma ofensiva contra nossos oponentes. Antes deles desencadearem sobre nós seus ataque, não nos levantamos para defender nossas vidas. Tivéssemos nós acariciado a ambição de travar contra eles uma guerra santa, tivéssemos nós acalentado a menor intenção de conseguir ascedência sobre os infiéis, através do poder de nossas armas, não haveríamos permanecido até hoje sitiados dentro destes muros. A força de nossas armas haveria até agora, assim como aconteceu com os companheiros de Maomé em dias passados, convulsionado as nações da terra e as preparado para a aceitação de nossa Mensagem. Não foi esse o caminho, entretanto, que escolhemos para trilhar. Sempre, desde que nos retiramos para este forte, tem sido nosso propósito único e inalterável vindicar o exaltado caráter de nossa missão através de nossos feitos e nossa prontidão para derramar nosso sangue no caminho de nossa Fé. Aproxima-se rapidamente a hora em que poderemos consumar essa tarefa."
Mirza Muhammad-Báqir ainda outra vez, com um salto, montou seu cavalo e, com os trinta e seis companheiros que selecionara, confrontou e dispersou as forças que o haviam assediado. Quando entrou novamente pelo portão, levava consigo a bandeira que um inimigo alarmado abandonara logo que fora erguido e retumbante brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" Cinco de seus companheiros sofreram martírio durante aquele encontro, os quais levou do forte e enterrou em uma só sepultura, próxima do lugar de descanso de seus companheiros caídos.
O Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, atônito diante de mais essa evidência de inesgotável vitalidade de seus oponentes, consultou com seus chefes de estado-maior, exortando-os a inventar algum meio pelo qual ele pudesse terminar rapidamente esse empreendimento dispendioso. Durante três dias deliberou com eles e finalmente chegou à conclusão de que o mais aconselhável era suspender toda espécie de hostilidade por alguns dias na esperança de que os sitiados, exaustos de fome e aguilhoados pelo desespero, decidissem sair de seu refúgio e submeter-se à rendição incondicional.
Enquanto o príncipe esperava a consumação do plano que ele concebera, chegou de Teerã um mensageiro trazendo-lhe o farmán (29) de seu soberano. Esse homem era residente da aldeia de Kand, um lugar não distante da capital. Conseguiu ele obter permissão do príncipe para entrar no forte e tentar induzir dois de seus ocupantes, Mullá Mihdí e seu irmão Mullá Báqir-i-Kandí, a escaparem do iminente perigo ao qual estavam expostas suas vidas. Assim que se aproximava de seus muros, chamou as sentinelas e lhes pediu que informassem a Mullá Mihdíy-i-Kandí que um conhecido seu desejava vê-lo. Mullá Míhdí relatou isso a Quddús, que lhe deu permissão para encontrar com seu amigo.
Tenho ouvido Aqáy-i-Kalím narrar o seguinte, assim como lhe foi contado por aquele mesmo mensageiro, e a quem conheceu em Teerã. "Vi," informou-me o mensageiro, "Mullá Mihdí aparecer em cima do muro, seu semblante revelando uma expressão de resolução austera que desafiava descrição. Parecia tão feroz como um leão, cingido de espada, em cima de uma comprida camisa branca, segundo o modo dos árabes, e com um lenço branco em volta da cabeça. "O que é que procurais?" perguntou impacientemente. "Diga depressa, pois receio que meu mestre me chame e note minha ausência." A determinação que ardia em seus olhos me confundia. Seu aspecto e sua maneira deixaram-me mudo de espanto. Relampagueou pela minha mente, de súbito, o pensamento de que eu pudesse despertar em seu coração um sentimento, adormecido. Lembrei-o de seu filho pequeno, Rahmán, que ele deixara atrás na aldeia em sua ansiedade de se alistar sob o estandarte de Mullá Hussayn. Em seu grande afeto pela criança compusera ele especialmente um poema que entoava enquanto balançava seu berço e o embalava para adormecê-lo. "Seu bem-amado Rahmán," eu disse, "almeja pelo afeto que outrora lhe prodigalizava. Está sozinho, abandonado, e anela vê-lo." "Diga-lhe por mim," foi a resposta instantânea do pai, "que o amor do verdadeiro Rahmán (30), um amor que transcende todo amor terreno, a tal ponto me encheu o coração que nenhum lugar deixou para outro amor além do Seu." Essas palavras lacinantes comoveram-me a lágrimas. "Amaldiçoados," exclamei com indignação, "sejam aqueles que a vós e vossos co-discípulos consideram como pessoas que se tenham desviado do caminho de Deus!" "E se eu me aventurasse a entrar no forte e juntar-me a vós?" perguntei-lhe. "Se vosso motivo é buscar e encontrar a Verdade," replicou ele calmamente, "com satisfação vos mostrarei o caminho. E se é vosso desejo me visitar como um velho amigo de toda a vida, dar-vos-ei as boas vindas de que falou o Profeta: 'Daí boas vindas a vossos hóspedes ainda que sejam dos infiéis.' Fiel a esta injunção, eu vos oferecerei a grama fervida e os ossos moídos que me servem de alimento - o melhor que para vós eu posso obter. Mas se for vossa intenção me fazer mal, eu me defenderei - advirto-vos - e vos arremessarei das alturas destes muros ao chão." Sua inabalável obstinação convenceu-me a futilidade de meus esforços. Pude perceber que de tal entusiasmo estava ele inflamado que, fossem os sacerdotes do reino reunir-se e se esforçar por dissuadi-lo do caminho que escolhera seguir ele, sozinho e sem auxílio, lhes frustraria os esforços. Nem conseguiriam todos os potentados da terra - estava eu convencido - seduzi-lo do Bem-Amado do desejo de seu coração. "Que o cálice" - senti-me impelido a dizer - "saboreado pelos vossos lábios vos traga todas as bênçãos que almejais." "O príncipe," acrescentei, "promete que quem quer que saia desse forte estará salvo de perigo e dele receberá até uma passagem segura, bem como quaisquer despesas que possa necessitar para a viagem a sua casa." Ele prometeu transmitir aos seus companheiros a mensagem do príncipe. "Há alguma coisa mais que desejais dizer-me," acrescentou. "Estou impaciente para voltar ao meu mestre." "Que Deus," respondi, "vos ajude em realizar vosso propósito." "Em verdade, Ele já me ajudou!" exclamou ele em exultação. "De que outro modo poderia eu me ter livrado da escuridão de minha casa-prisão em Kand? Como teria eu podido alcançar esta exaltada cidadela?" Mal pronunciara estas palavras quando, virando de mim a face, desapareceu de minha vista!"
Lodo depois de se reunir com seus companheiros, Mullá Mihdí transmitiu-lhes a mensagem do príncipe. Nesse mesmo dia à tarde, Siyyid Mirza Husayn-i-Mutavalli, acompanhado de seu servo, deixando o forte, foi diretamente encontrar-se com o príncipe em seu acampamento. No dia seguinte, Rasúl-i-Bahnimírí e mais alguns de seus companheiros, não mais podendo resistir a devastação da fome e encorajados pelas explícitas promessas do príncipe, tristemente e contra sua vontade, se separaram dos amigos. Mal haviam saído do forte quando todos instantaneamente foram trucidados, segundo a ordem de 'Abbás-Qulí Khán-i-Láríjání.
Durante poucos dias após esse incidente, o inimigo, anda acampado nas proximidades do forte, restringiu-se de qualquer ato de hostilidade para com Quddús e seus companheiros. Na manhã de quarta-feira, no décimo sexto dia de Jamádíyu'th-Thání (31), um emissário do príncipe chegou no forte e pediu que dois representantes fossem delegados pelos sitiados para fazerem negociações confidenciais com eles na esperança de chegarem a um acordo pacífico sobre as questões entre eles pendentes (32).
Assim deu Quddús instruções a Mullá Yúsuf-i-Ardibílí e Siyyid Ridáy-i-Khurásání para agirem como seus representantes, dizendo-lhes que informassem ao príncipe que estava disposto a aceder a seu desejo. Mihdí-Qulí Mirza recebeu-os com cortesia e os convidou a tomar o chá que ele preparara. "Consideraríamos," disseram, declinando de seu convite, "que seria um ato de deslealdade de nossa parte, fossemos compartilhar alimento ou bebida enquanto nosso bem-amado líder enlanguesce esgotado e faminto na fortaleza." "As hostilidades entre nós," observou o príncipe, "têm sido indevidamente prolongadas. Nós, de ambos os lados, temos combatido longamente e sofrido penosamente. É meu fervoroso desejo conseguir um ajuste amigável de nossas diferenças." Segurou um exemplar do Alcorão que jazia de seu lado e, de próprio punho, escreveu, em confirmação de sua declaração, as seguintes palavras na margem da Sura introdutória. "Juro por este mais sagrado Livro, pela justiça de Deus, Quem o revelou e pela Missão Daquele que foi inspirado com seus versículos, que nenhum outro propósito acaricio, senão o de promover paz e amizade entre nós. Saí de vossa cidadela e tende certeza de que nenhuma mão contra vós será estendida. Vós próprios e vossos companheiros, solenemente declaro, estão à sombra protetora do Todo-Poderoso de Maomé, Seu Profeta, e de Násiri'd-Dín-Sháh, nosso soberano. Hipoteco minha honra que homem algum quer seja neste exército ou nesta vizinhança, jamais tentará vos atacar. A maldição de Deus, o onipotente Vingador, sobre mim esteja, se em meu coração acaricio outro desejo, senão o que declarei."
Afixou seu selo à sua declaração e, entregando o Alcorão nas mãos de Mullá Yúsuf, lhe pediu que transmitisse suas saudações a seu líder e lhe apresentasse esta afirmação formal escrita. "De acordo com minha declaração," acrescentou ele, "nesta mesma tarde, despacharei ao portão do forte alguns cavalos, os quais espero que ele e seus principais companheiros aceitem e montem, de virem às proximidades deste acampamento, onde terá sido erguida para sua recepção uma tenda especial. Eu lhes pediria que sejam nossos hóspedes até a hora em que eu possa arranjar seu regresso, a minha custa, para seus lares."
Quddús recebeu o Alcorão da mão de seu mensageiro, beijou-o reverentemente e disse: "Ó nosso Senhor, decide entre nós e entre nosso povo com verdade; pois o melhor para decidir és Tu (33)." Imediatamente depois, ordenou que os companheiros restantes se preparassem para deixar o forte. "Com nossa resposta a seu convite," disse-lhes, "dar-lhes-emos oportunidade para demonstrar a sinceridade de suas intenções."
Ao aproximar-se a hora de sua partida, Quddús ataviou a cabeça com o turbante verde que o Báb lhe enviara na ocasião em que mandou aquele que Mullá Husayn usou no dia de seu martírio. No portão do forte montaram os cavalos postos a seus dispor, Quddús montando o corcel predileto do príncipe enviado por ele para seu uso. Seus companheiros principais, estando entre eles vários siyyids e eruditos sacerdotes, montaram atrás dele e foram seguidos pelos restantes, que marchavam a pé, levando com eles tudo o que restava de suas armas e seus pertences. Assim que a companhia, em número de duzentos e dois, alcançou a tenda que, à ordem do príncipe, fora erguida para Quddús na vizinhança do banho público da aldeia de Dízvá, donde se avistava o acampamento do inimigo, todos apearam e procederam a ocupar seus alojamentos nas proximidades dessa tenda.
Pouco depois de sua chegada, Quddús saiu de sua tenda e, reunindo os companheiros, lhes dirigiu estas palavras: "Deveis mostrar renúncia exemplar, pois tal comportamento de sua parte exaltará nossa Causa e lhe redundará em glória. Qualquer coisa menos que desprendimento completo servirá apenas para lhe macular a pureza do nome e obscurecer o esplendor. Rogai ao Todo-Poderoso que, até mesmo em vossa última hora, Ele, através de Sua graça, vos ajude a contribuir vossa parte a exaltação de sua Fé."
Poucas horas depois do pôr-do-sol, foi-lhes servido jantar trazido do acampamento do príncipe. O alimento, oferecido em bandejas separadas cada uma designada a um grupo de trinta companheiros, era pobre e insuficiente. "Nove de nós," relataram subseqüentemente aqueles que estavam com Quddús, "foram chamados por nosso líder para compartilhar o jantar que fora servido em sua tenda. Como ele recusou prová-lo, nós também, seguindo seu exemplo, abstivemo-nos de comer. Os servos que nos atenderam deleitaram-se em tomar os pratos que nós havíamos recusado tocar e, com apreciação e avidez, lhes devoraram o conteúdo." Alguns dos companheiros foram ouvidos falando aos servos, pedindo permissão para comprar deles, por exorbitante que fosse o preço, o pão de que necessitavam. Quddús desaprovou veementemente sua conduta e lhes repreendeu por haverem pedido isso. Se não fosse a intercessão de Mirza Muhammad-Báqir, ele os teria punido severamente por haverem tão completamente desatendido suas fervorosas exortações.
Ao amanhecer, chegou um mensageiro chamando Mirza Muhammad Báqir à presença do príncipe. Com o consentimento de Quddús, respondeu a esse convite e regressou, uma hora depois trazendo a seu chefe a informação de que o príncipe, na presença de Sulaymán Khán-i-Afshár, reiterara as promessas já feitas e o tratara com grande consideração e bondade. "Meu juramento," assegurou-me Mirza Muhammad Báqir "explanou irrevogável e sagrado". Citou o caso de Ja'far-Qulí Khán que, não obstante seu ignominioso massacre de milhares de soldados do exército imperial, durante a insurreição fomentada pelo Sálár, foi perdido por seu soberano e prontamente investido de novas honras por Muhmmad-Sháh. O príncipe pretende acompanhar-vos amanhã pela manhã ao banho público, donde procederá a vossa tenda, depois do qual fornecerá os cavalos necessários para transportar a companhia inteira a Sang-Sar, devendo eles daí se dispersar, regressando alguns a seus lares no Iraque, enquanto outros seguirão a Khurásán. A pedido de Sulaymán Khán, que argüia que a presença de tão grande ajuntamento num centro assim fortificado como Sang-Sar incorreria risco, o príncipe decidiu que a companhia se dispersasse, antes, em Firúz-Kúh. "Sou da opinião de que aquilo que sua língua professa seu coração não acredita em absoluto." Quddús, que compartilhava essa opinião, mandou seus companheiros dispersarem-se naquela mesma noite, dizendo que ele mesmo breve procederia a Bárfurúsh. Apressaram-se em lhe implorar que não se separasse deles e solicitaram permissão para continuar a fruir as bênçãos de sua companhia. Aconselhou-os que fossem calmos e pacientes e lhes assegurou que - fossem quais fossem as aflições que o futuro ainda revelasse - seriam reunidos novamente. "Não choreis," foram suas palavras de despedida, "a reunião que haverá de seguir esta separação será tal que durará eternamente. Entregamos nossa Causa ao cuidado de Deus; qualquer que seja Sua vontade e Seu beneplácito, isto aceitaremos jubilosamente."
O príncipe deixou de cumprir sua promessa. Em vez de ir ao encontro de Quddús em sua tenda, chamou-o, com alguns de seus companheiros, para seu quartel e lhe informou, logo que alcançaram a tenda do Farrásh-Báshí (34), que ele mesmo o chamaria a sua presença ao meio-dia. Pouco depois, alguns dos servos do príncipe foram aos companheiros restantes e lhes disseram que Quddús dera permissão para que se reunissem com ele no quartel do exército. Vários deles foram enganados por essa informação, ficando presos e sendo, afinal, vendidos como escravos. Essas infelizes vítimas constituem o remanescente dos companheiros do forte de Shaykh Tabarsí, que sobreviveram àquela luta heróica e a quem foi poupada a vida a fim de que transmitissem aos conterrâneos a lastimável história de seus sofrimentos e provações.
Logo após, os servos do príncipe instaram com Mullá Yúsuf que informasse os companheiros restantes do desejo de Quddús de que se desarmassem imediatamente. "Que é que lhes direis exatamente?" perguntaram-lhe, enquanto o conduziam a um lugar a alguma distância do quartel do exército. "Eu lhes advertirei," foi a resposta audaz, "que doravante qualquer que seja a natureza da mensagem que vos digneis de lhes entregar em nome de seu líder, tal mensagem nada é senão simples mentira." Mal escaparam de seus lábios estas palavras quando ele foi impiedosamente trucidado.
Depois desse ato selvagem dirigiram a atenção ao forte, saquearam o que continha e procederam a bombardeá-lo e demoli-lo completamente (35). De imediato, então, cercaram os companheiros restantes e atiraram contra eles. Qualquer um que escapasse às balas era morto pelas espadas dos oficiais e pelas lanças de seus homens (36). Até na própria agonia da morte, desses invencíveis heróis podiam ser ouvidos estas palavras, "Santo, Santo, Ó Senhor nosso Deus, Senhor dos anjos e do espírito" - palavras essas que haviam em momentos de exaltação caído de seus lábios e agora foram por eles repetidas, não com menos fervor, na hora culminante de suas vidas.
Assim que essas atrocidades haviam sido perpetradas, o príncipe ordenou que aqueles detidos como cativos fossem trazidos, um após outro, a sua presença. No caso daqueles que eram homens de reconhecida posição, tais como o pai de Badí (37), Mullá Mirza Muhammad-i-Furughí e Hájí Nasír-i-Qazvíní (38), ordenou aos subordinados que os conduzissem a Teerã e obtivessem de cada um deles um resgate por sua liberdade em proporção direta a sua capacidade e riqueza. Quanto ao resto, deu ordens aos seus algozes que fossem mortos de imediato. Alguns foram despedaçados com espadas (39), outros rachados; alguns foram amarrados a árvores e crivados de balas, enquanto outros ainda foram atirados das bocas de canhões e entregues às chamas (40).
Mal terminara essa horripilante chacina quando três dos companheiros de Quddús, que eram residentes de Sang-Sar, foram levados à presença do príncipe. Um deles foi Siyyid Ahmad, cujo pai, Mirza Muhammad-'Alí, um devotado admirador de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, fora um homem de grande erudição e notável mérito. Ele, acompanhado por este mesmo Siyyid Ahmad e seu irmão, Mír Abu-l-Qásim, morto na mesma noite em que Mullá Husayn foi assassinado, havia partido para Karbilá no ano anterior à declaração do Báb, com o propósito de apresentar seus dois filhos a Siyyid Kázim. Antes de sua chegada, o siyyid partira desta vida. Determinou ele imediatamente seguir a Najaf. Enquanto nessa cidade, o Profeta Maomé lhe apareceu uma noite em sonho, mandando o Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, lhe anunciar que depois de sua morte ambos os filhos, Siyyid Ahmad e Mír Abu'l-Qásim, atingiriam a presença do prometido Qá'im e sofreriam, cada um, o martírio em Seu caminho. Assim que acordou, chamou o filho Siyyid Ahmad e lhe informou de sua vontade e seus últimos desejos. No último dia após esse sonho ele faleceu.
Em Song-Sar duas outras pessoas, Karbilá'í 'Alí e Karbilá'í Abú-Muhammad, ambos conhecidos por sua piedade e sua percepção espiritual, esforçaram-se por preparar o povo para aceitar a prometida Revelação, cujo advento, pressentiam, rapidamente se aproximava. No ano de 1264 A. H. (41), anunciaram publicamente que naquele mesmo ano um homem de nome Siyyid 'Alí, precedido por um Estandarte Negro e acompanhado por alguns de seus companheiros escolhidos, sairia de Khurásán e procederia a Mázindarán. Exortaram cada aderente leal do Islã a levantar-se e prestar-lhe todo o auxílio possível. "O estandarte que ele içará," declararam, "não será outro senão o estandarte do prometido Qá'ím; aquele que haverá de desfraldá-lo, nenhum outro, será senão Seu tenente e o promotor principal de Sua Causa. Quem o seguir, será salvo, e quem dele se desviar, será um dos caídos." Karbilá'í Abú-Muhammad exortou seus dois filhos, Abu'l-Qásim e Muhammad-'Alí, a se levantarem para o triunfo da nova Revelação e sacrificarem toda consideração material a fim de atingirem esse objetivo. Tanto Karbilá'í Abú-Muhammad como Karbilá'í 'Alí morreram na primavera daquele mesmo ano.
Esses dois filhos de Karbilá'í Abú-Muhammad foram os dois companheiros que haviam sido levados juntamente com Siyyid Ahmad, à presença do príncipe. Mullá Zaynu'l-Abidín-i-ShahMirzadí, um dos fidedignos e eruditos conselheiros do governo, informou o príncipe de sua história, relatando as experiências e atividades de seus respectivos pais. "Por que razão," perguntou-se a Siyyid Ahmad, "desejastes trilhar uma senda que tem envolvido a vós e aos vossos parentes em tais circunstâncias de miséria e desonra? Não poderíeis ter ficado satisfeito com o vasto número de sacerdotes eruditos e ilustres que se encontram nesta terra e no Iraque?" "Minha fé nesta Causa," retrucou ele destemidamente, "não nasceu de vã imitação. Indaguei desapaixonadamente de seus preceitos e estou convencido de sua verdade.
Quando em Najaf, aventurei-me a pedir ao preeminente mujtahid daquela cidade Shaykh Muhammad-Hasan-i-Najafí que me expusesse certas verdades relacionadas aos princípios secundários que baseiam os ensinamentos do Islã. Ele se recusou a aceder a meu pedido. Reiterei meu apelo, quando ele irosamente me repreendeu, persistindo em sua recusa. Como se pode esperar, em vista dessa experiência, que eu busque esclarecimento sobre os artigos abstrusos da Fé do Islã, de um sacerdote, por mais ilustre que seja, que se recusa a responder a minha pergunta a respeito de assuntos tão simples e comuns e expressa sua indignação por eu haver assim o interrogado?" "Qual é vossa crença concernente a Hájí Muhammad-'Alí?" perguntou o príncipe. "Acreditamos," respondeu ele, "que Mullá Husayn foi o portador do estandarte do qual disse Maomé: "Se vossos olhos avistarem os Estandartes Negros procedendo de Khurásán, apressai-vos em sua direção, ainda que tenhais de vos arrastar sobre a neve. - Por esta razão renunciamos ao mundo e nos tempos congregado em volta de seu estandarte - estandarte esse que é apenas um símbolo de nossa Fé. Se desejais me conceder um favor, mandai vosso algoz pôr fim a mim e me permitir a reunir-me com o grupo de meus companheiros imortais. Pois o mundo e todos os seus encantos deixaram de me seduzir. Anseio por partir desta vida e regressar a meu Deus." O príncipe, não disposto a sacrificar a vida de um siyyid, recusou dar ordens para sua execução. Seus dois companheiros porém, foram mortos imediatamente. Ele, com seu irmão Siyyid Abú-Tálib, foi entregue nas mãos de Mullá Zaynu'l-Ábidín, com instruções para conduzi-los a Sang-Sar.
Entrementes, Mirza Muhammad-Taqí, acompanhado de sete dos ulemás de Sárí, partiu dessa cidade a fim de participar no ato meritório de infligir a pena de morte aos companheiros de Quddús. Ao saberem que já haviam sido trucidados, Mirza Muhammad-Taqí instou o príncipe a reconsiderar sua decisão e ordenar a execução imediata de Siyyid Ahmad, argüindo que sua chegada em Sárí seria sinal para novos distúrbios tão graves como aqueles que já os haviam afligido. Aquiesceu afinal, o príncipe, sob uma condição expressa de que ele fosse considerado seu hóspede até sua própria chegada em Sárí, quando então ele tomaria quaisquer providências necessárias para impedi-lo de perturbar a paz da vizinhança.
Mal partira Mirza Muhammad-Taqí em direção a Sárí quando começou a envilecer Siyyid Ahmad e seu pai. "Por que maltratar um hóspede," instava seu cativo, "que o príncipe entregou a vosso cuidado? Por que desatender a injunção do Profeta - Honra teu hóspede, ainda que seja um infiel?" Incitado a um estouro de fúria, Mirza Muhammad-Taqí, junto com seus sete companheiros, desembainharam as espadas e lhe despedaçaram o corpo. Com a última respiração era ouvido Siyyid Ahmad a invocar o socorro do Sáhibu'z-Zamán. Quanto a seu irmão, Siyyid Abú-Tálib, ele foi conduzido são e salvo a Sang-Sar por Mullá Zaynu'l-Ábidín, e até hoje reside com seu irmão, Siyyid Muhammad Ridá, em Mázindarán. Ambos ocupam-se no serviço da Causa e são contados entre seus ativos sustentáculos.
Após haver completado seu trabalho o príncipe, acompanhado de Quddús, regressou a Bárfurúsh. Chegaram na tarde de sexta-feira, dia dezoito de Jamádíyu'th-Thání (42). O Sa'ídu'l-'Ulamá, com todos os ulemás da cidade saíram para dar boas vindas ao príncipe e felicitá-lo por seu regresso triunfante. A cidade inteira estava decorada de bandeiras para celebrar a vitória e as fogueiras que flamejavam à noite deram testemunho da alegria com que uma população grata saudava a volta do príncipe. Três dias de festividades passaram, durante os quais ele nenhum indício deu quanto a sua intenção relativa ao destino de Quddús. Vacilava em seu desígnio, estando extremamente indisposto a maltratar seu cativo. A princípio, recusou ele a permitir que o povo desse expansão a seu implacável ódio e conseguiu lhes restringir a fúria. Fora seu plano original conduzi-lo a Teerã e, entregando-o nas mãos de seu soberano, aliviar-se da responsabilidade que sobre ele pesava.
A inextinguível hostilidade do Sa'ídu'l-'Ulamá, entretanto, impediu a execução desse plano. O ódio que Quddús e sua Causa nele inspiravam flamejava até atingir fúria frenética, à medida que ele testemunhava as crescentes evidências da inclinação do príncipe a permitir que tão formidável inimigo lhes escapasse das mãos. Protestava dia e noite e, com toda a astúcia que seu fértil cérebro podia maquinar, tentava dissuadi-lo de prosseguir um plano que ele achava a um tempo desastroso e covarde. Na fúria de seu desespero, apelou o povo e tentou, inflamando-lhe as paixões, despertar em seus corações os mais vis sentimentos de vingança. Bárfurúsh inteira fora incitada pela persistência de seu chamado. Sua habilidade diabólica breve lhe conquistou a simpatia e o apoio das massas. "Fiz votos," imperiosamente protestava ele, "de me negar alimento e repouso enquanto não puder com as próprias mãos dar fim à vida de Hají Muhammad-'Alí!" As ameaças de uma multidão agitada reforçaram-lhe o apelo e conseguiram despertar as apreensões do príncipe. Receando perigo a sua própria vida, o príncipe convocou a sua presença os principais ulemás de Bárfurúsh com o fim de lhes consultar quanto às medidas a ser tomadas para mitigar a tumultuosa excitação do povo. Todos aqueles convidados responderam com exceção de Mullá Muhammad-i-Hamzih, que pediu que lhe fosse escusada a assistência a essa reunião. Anteriormente, em várias ocasiões, durante o assédio do forte, havia ele se esforçado por persuadir o povo a se abster da violência. A ele Quddús entregara, poucos dias antes de abandonar o forte, por intermédio de um de seus companheiros fiéis de Mázindarán, um alforje trancado que continha o texto de sua própria interpretação do Sád e Samad, bem como seus outros escritos e papéis que possuía, cujo destino permanece desconhecido até hoje.
Assim que os ulemás se reuniram, o príncipe mandou trazer Quddús à presença dele. Desde o dia em que abandonou o forte Quddús, que havia sido entregue à custódia do Farrsáh-Báshí, não fora chamado à presença do príncipe. Quando entrou, o príncipe levantou-se e o convidou a se sentar a seu lado. Virando-se ao Sa'ídu'l-'Ulamá, solicitou-lhe que suas conversações com ele procedessem concienciosa e desapaixonadamente. "Vossas discussões," asseverou, "devem girar em volta dos versículos do Alcorão e das tradições de Maomé e nestes se basear, pois somente por meio destes podeis demonstrar a verdade ou a falsidade de vossos argumentos." "Por que razão," inquiriu impertinentemente o Sa'ídu'l-'Ulamá, "tendes vós, se dignado de colocar na cabeça um turbante verde, arrogando a vós um direito que somente aquele que é verdadeiro descendente do Profeta pode para si reclamar? Não sabeis que quem desafia essa sagrada tradição é amaldiçoado de Deus?" "Foi Siyyid Murtadá," respondeu Quddús calmamente, "a quem todos os ulemás reconhecidos elogiam e estimam, descendente do Profeta por lado do pai ou da mãe?" Um daqueles presentes nessa reunião declarou instantaneamente haver sido só a mãe um siyyid. "Por que, então, fazer objeção a mim," replicou Quddús, "desde que minha mãe foi sempre reconhecida pelos habitantes desta cidade como descendente direta do Imame Hasan? Não foi ela, por causa de sua linhagem, honrada, ainda mais, venerada, por cada um de vós?"
Ninguém se atreveu a contradizer. O Sa'ídu'l-'Ulamá estourou em excesso de indignação e desespero. Irosamente jogou seu turbante ao chão e se levantou para sair da reunião. "Este homem," vociferou ele, antes de partir, "conseguiu provar a vós que é descendente do Imame Hasan. Dentro em breve justificará ele a pretensão de ser portador de Deus e revelador de Sua vontade!" O príncipe sentiu-se movido a fazer essa declaração: "Lavo as mãos de toda responsabilidade por qualquer dano que possa sobrevir a este homem. Tendes liberdade para fazer com ele o que quiserdes. Vós mesmos tereis de responder a Deus no Dia do Juízo." Imediatamente depois de haver dito essas palavras, mandou trazer o cavalo e, acompanhado de seus cortesões, partiu para Sárí. Intimidado pelas imprecações dos ulemás e esquecido de seu juramento, abjetamente entregou Quddús às mãos de um inimigo inexorável, àqueles lobos vorazes que latejavam pelo momento em que pudessem, com desenfreada violência, agarrar sua presa e sobre ela desatar as mais ferozes paixões de vingança e ódio.
Mal o príncipe os libertara das restrições que ele lhes havia imposto, quando os ulemás e o povo de Bárfurúsh, agindo sob as ordens do Sa'ídu'l-'Ulamá (43), se levantaram para perpetrar no corpo de sua vítima atos de crueldade tão atroz que nenhuma pena os pode descrever. Pelo testemunho de Bahá'u'lláh, aquele jovem heróico, ainda no limiar de sua vida, foi sujeitado a tais torturas e sofreu tal morte como nem mesmo Jesus teve de enfrentar na hora de Sua maior angústia. A ausência de qualquer restrição por parte das autoridades governamentais, a engenhosa barbaridade que os negociantes de tortura e Bárfurúsh tão habilmente exibiram, o fanatismo feroz que ardia nos peitos de seus habitantes xiitas, o apoio moral que lhes foi prestado pelos dignitários de Ireja e Estado na capital - acima de tudo, os atos de heroísmo que sua vítima e seus companheiros haviam realizado, aumentando-lhes a irritação - tudo combinava para reforçar a mão dos agressores e incrementar a diabólica ferocidade que caracterizava seu martírio.
Tais foram as circunstâncias que o Báb, então confinado no castelo de Chihriq não pode, durante um período de seis meses, nem escrever nem ditar. A profunda tristeza que Ele sentia emudecera a voz da revelação e silenciara Sua pena. Quão profundamente lastimava Ele Sua perda! Que gemidos de angústia deve Ele ter erguido quando Lhe alcançou os ouvidos e se desdobrou diante dos olhos a história do assédio, dos indizíveis sofrimentos, da vergonhosa traição e do massacre geral dos companheiros de Shaykh Tabarsí! Que dores agonizantes deve Ele ter sentido ao saber do tratamento ignominioso ao qual foi submetido Seu bem-amado Quddús, em sua hora de martírio, pelas mãos do povo de Bárfurúsh; como foi despido das vestimentas; como o turbante que Ele lhe dera tinha sido conspurcado; como descalço, com a cabeça descoberta e carregado de correntes, o fizeram marchar pelas ruas, seguido e zombado pela inteira população da cidade; como a turba gritante o execrava e nele cuspia; como foi atacado com facas e machados pela escória de seus habitantes fêmeas; como seu corpo foi furado e mutilado e afinal, entregue as chamas!
Ouviu-se Quddús, em meio a seus tormentos, sussurrar perdão para seus inimigos. "Perdoa, ó meu Deus," exclamou, "as trangressões desse povo. Trata-os com Tua misericórdia, pois não sabem o que nós já descobrimos e estimamos. Esforcei-me para mostrar-lhes o caminho que conduz a sua salvação; vê como se levantaram para me afligir e matar! Mostra-lhes, ó Deus, o caminho da verdade e em fé transforma Tu sua ignorância." Em sua hora de agonia, o Siyyid-i-Qumí, que tão traiçoeiramente abandonara o forte, foi visto a passar por seu lado. Observando seu estado de desamparo, bateu-lhe no rosto. "Pretendeste," gritou com arrogante escárneo, "ser tua voz a voz de Deus. Se falas a verdade, rompe os laços e liberta-te das mãos de teus inimigos." Quddús fitou os olhos em sua face, suspirou profundamente e disse: "Que Deus vos recompense vosso ato, desde que contribuístes a aumentar o número de minhas aflições." Aproximando-se do Sabzih-Maydán, levantou a voz, dizendo: "Oxalá estivesse comigo minha mãe para ver com os próprios olhos o esplendor de minhas núpcias!" Mal pronunciara estas palavras, quando a multidão enfurecida sobre ele caiu e despedaçando-lhe o corpo, lançou os membros esmiuçados no fogo já aceso para esse fim. No meio da noite, o que ainda restava dos fragmentos daquele corpo queimado e mutilado foi colhido pela mão de um amigo devotado (44) e enterrado em um lugar não muito distante da cena de seu martírio (45).
Seria apropriado a esta altura registrarmos os nomes daqueles mártires que participaram da defesa do forte de Shaykh Tabarsí, na esperança de que gerações ainda por vir se posam lembrar com orgulho e gratidão dos nomes, não menos que dos atos, daqueles pioneiros que, pela sua vida e pela sua morte, tanto enriqueceram os anais da Fé imortal de Deus. Os nomes desses pioneiros que tenho podido colher de várias fontes - o que devo especialmente a Ismu'lláhu'l-Mím, Ismu'lláhu'l-Javád e Ismu'lláhu'l-Asad procedo agora a enumerar, confiante de que seus nomes possam permanecer para sempre nas línguas dos homens, assim como suas almas no mundo do além têm sido investidas da luz de glória imperecível seus nomes possam permanecer do mesmo modo, para sempre nas línguas dos homens; que sua menção possa continuar a evocar um espírito semelhante de entusiasmo e devoção nos corações daqueles a quem essa herança de inestimável valor foi transmitida. De meus informantes, não só tenho podido colher os nomes da maioria dos que caíram durante aquele memorável assédio, mas também consegui obter uma lista representativa, embora incompleta, de todos aqueles mártires que, desde o ano de 60 (46) até o dia presente - a última parte do mês de Rabí'u'l-Avval no ano de 1306 A. H. (47) - sacrificaram a vida no caminho da Causa de Deus. É minha intenção mencionar cada um desses nomes em relação ao acontecimento especial com que principalmente se liga. Quanto àqueles que sorveram o cálice do martírio enquanto defendiam o forte de Tabarsí, seus nomes são os seguintes:
1. Primeiro e proeminente entre eles está Quddús, a quem o Báb conferiu o nome de Ismu'lláh'u'l-Ákhar (48). Ele, a Última Letra dos Viventes e o companheiro escolhido pelo Báb em Sua peregrinação a Meca e Medina, juntamente com Mullá Sádiq e Mullá 'Alí-Akbar-i-Ardistání, foi o primeiro a sofrer perseguição em solo persa por amor à Causa de Deus. Ele tinha apenas dezoito anos de idade quando deixou sua cidade natal de Bárfurúsh para Karbilá. Por cerca de quatro anos ficou sentado aos pés de Siyyid Kázim e, com a iade de vinte e dois anos, se encontrou com seu Bem-Amado em Shíráz e O reconheceu. Cinco anos mais tarde no vigésimo terceiro dia de Jamádiyu'th-Thání, no ano de 1265 A. H. (49), foi seu destino, no Sabzih-Maydán e Bárfurúsh, cair vítima da mais requintada e desenfreada barbaridade nas mãos do inimigo. O Báb e, posteriormente, Bahá'u'lláh lamentaram em inúmeras Epístolas e orações sua perda, prodigalizando-lhe seus elogios. Tal a honra que lhe foi conferida por Bahá'u'lláh que, em Seu comentário sobre o versículo de Kullu't-Ta'ám (50), que Ele revelou enquanto em Bagdá, lhe concedeu o proeminente grau de Nuqtiy-i-Ukhrá (51), grau esse a nenhum outro inferior, senão ao do próprio Báb (52).
2. Mullá Husayn, cognominado de Bábu'l- Báb, o primeiro a reconhecer e abraçar a nova Revelação. Também ele com a idade de dezoito, partiu de sua cidade natal de Bushrúyih em Khurásán, para Karbilá, e por um período de nove anos, permaneceu intimamente associado a Siyyid Kázim. Quatro anos antes da declaração do Báb, agindo de acordo com as instruções de Siyyid Kázim, encontrou-se em Isfahán com o erudito mujtahid Siyyid Báqir-i-Rashtí e, em Mashhad, Mirza 'Askarí, a ambos os quais entregou, com dignidade e eloqüência, as mensagens que lhe haviam sido confiadas pelo seu mestre. As circunstâncias que acompanharam seu martírio evocaram no Báb indizível tristeza, tristeza essa que achou expressão em tão grande número de elogios e orações que seu volume seria equivalente a três vezes o do Alcorão. Em uma de Suas Epístolas de Visitação, o Báb assevera que o próprio pó da terra onde jazem sepultados os restos mortais de Mullá Husayn é dotado de tal potência que proporciona felicidade aos desconsolados e cura os enfermos. No Kitáb'u'lláh elogia com ênfase ainda maior as virtudes de Mullá Husayn. "Se não fosse ele," escreveu, "Deus não teria se estabelecido no assento de Sua misericórdia, nem ascendido ao trono da glória eterna!" (53)
3. Mirza Muhammad-Hasan, irmão de Mullá Husayn.
4. Mirza Mamad-Báqir, sobrinho de Mullá Husayn. Ele bem como Mirza Muhammad-Hasan, acompanhou Mullá Husayn de Bushrúyih a Karbilá e daí a Shiráz, onde abraçaram a Mensagem do Báb e foram inscritos entre as Letras dos Viventes. Com exceção da viagem de Mullá Husayn ao castelo de Máh-Kú, continuaram a acompanhá-lo até o tempo em que sofreram martírio no forte de Tabarsí.
5. O cunhado de Mullá Husayn, pai de Mirza Abu'l-Hasan e Mirza Muhammad-Husayn, ambos agora em Bushríyih, em cujas mãos foi entregue a Varaqatu'l-Firdaws, irmã de Mullá Husayn. Ambos são firmes e devotados aderentes da Fé.
6. O filho de Mullá Ahmad, irmão mais velho de Mullá Mirza Muhammad-i-Furúghí. Ele, diferente do tio, Mullá Mirza Muhammad, sofreu martírio e era, segundo testeunha este último, um jovem de grande piedade e se distinguiu por sua erudição e sua integridade de caráter.
7. Mirza Muhammad-Báqir, conhecido por Harátí, embora originariamente residisse em Qáyin. Era parente íntimo do pai de Nabil-i-Akbar e foi o primeiro em Mashhad a abraçar a Causa. Foi ele quem construiu o Bábíyyih e serviu a Quddús devotadamente durante sua estada nessa cidade. Quando Mullá Husayn içou o Estandarte Negro ele, juntamente com seu filho, Mirza Muhammad-Kázim, estava ansioso de se alistar sob sua bandeira e com ele partiu para Mázindarán. Esse filho foi salvo afinal e cresceu, sendo hoje um fervoroso e ativo promotor da Fé em Mashhad. Foi Mirza Muhammad-Báqir que serviu como porta-estandarte da companhia, que desenhou a planta do forte, seus muros e torres e o fosso que o cercava, que foi o sucessor de Mullá Husayn em organizar as forças de seus companheiros e em dirigir a investida contra o inimigo e que ocupava o lugar de íntimo companheiro, tenente e fiel conselheiro de Quddús até a hora em que caiu, um mártir no caminho da Causa.
8. Mirza Muhammad-Taqíy-i-Juvayní, nativo de Sabzihvár, que se distinguiu pela sua habilidade literária, a quem Mullá Husayn muitas vezes confiava a tarefa de dirigir a investida contra os atacantes. Sua cabeça e a de um companheiro, Mirza Muhammad-Báqír, foram enfiadas em lanças e levadas pelas ruas de Bárfurúsh em meio aos gritos e brados de um povo excitado.
9. Qambar-'Alí, o destemido e fiel servo de Mullá Husayn, que o acompanhou em sua viagem a Máh-Kú e sofreu martírio na mesma noite em que seu mestre caiu vítima das balas do inimigo.
10. Hasan e
11. Qulí, que, juntamente com um homem de nome Iskandar, nativo de Zanján, levaram o corpo de Mullá Husayn ao forte na noite de seu martírio e o pôs aos pés de Quddús. Ele, este mesmo Hasan, foi quem por ordens do chefe de polícia de Mashhad, foi conduzido e cabresto pelas ruas da cidade.
12. Muhammad-Hasan, irmão de Mullá Sádiq, que os camaradas de Khusraw mataram no caminho entre Bárfurúsh e o forte de Tabarsí. Ele se distinguiu por sua inabalável constância e havia sido um dos servos no santuário do Imame Ridá.
13. Siyyid Ridá que, com Mullá Yúsuf-i-Ardibílí, foi incumbido por Quddús de um encontro com o príncipe e ao regressar, trouxe consigo o exemplar selado do Alcorão com o juramento que o príncipe escrevera. Era um dos bem conhecidos siyyids de Khurásán, de renome por sua erudição bem como pela integridade de seu caráter.
14. Mullá Mardán-'Alí, um dos companheiros notáveis de Khurásán, residente da aldeia de Míyámay, onde está situada, entre Sabzihvár e Sháh-Rúd, uma cidadela bem fortificada. Ele, com trinta e três companheiros, alistou-se sob a bandeira de Mullá Husayn no dia em que este passou por aquela aldeia. Foi no masjid de Míyámay, para o qual Mullá Husayn se havia retirado a fim de oferecer a oração congregacional de sexta-feira, que ele fez seu apelo profundamente comovedor, destacando o cumprimento da tradição sobre o Estandarte Negro a ser içado em Khurásán e se declarando seu portador. Seu eloqüente discurso impressionou profundamente seus ouvintes, tanto que, nesse mesmo dia, a maioria dos que o ouviu, a maior parte dos quais eram homens de mérito sobressalente, se levantaram e o seguiram. Somente um daqueles trinta e três companheiros, um de nome Mullá 'Isá, sobreviveu, e seus filhos estão atualmente na aldeia de Míyámay, ativos no serviço da Causa. Os nomes dos companheiros dessa aldeia que foram martirizados são os seguintes:
15. Mullá Muhammad-Mihdí,
16. Mullá Muhammad-Ja'far,
17. Mullá Muhammad-ibn-i-Mullá Muhammad,
18. Mullá Rahím,
19. Mullá Muhammad-Ridá,
20. Mullá Muhammad-Husayn,
21. Mullá Muhammad,
22. Mullá Yúsuf,
23. Mullá Ya'qúb,
24. Mullá 'Alí,
25. Mullá Zaynu'l-'Abidín,
26. Mullá Muhammad, filho de Mullá Zaynu'l-'Abidín,
27. Mullá Báqir,
28. Mullá 'Abdu'l-Muhammad,
29. Mullá Abu'l-Hasan,
30. Mullá Ismá'íl,
31. Mullá 'Abdu'l-'Alí,
32. Mullá Áqá- Bábá,
33. Mullá 'Abdu'l-Javád,
34. Mullá Muhammad Husayn,
35. Mullá Muhammad-Báqir,
36. Mullá Muhammad,
37. Hájí Hasan,
38. Karbilá'í 'Alí,
39. Mullá Karbilá'í 'Alí,
40. Karbilá'í Núr-Muhammad,
41. Mamad-Ibráhím,
42. Muhammad-Sá'im,
43. Muhammad-Hádí,
44. Siyyid Mihdí,
45. Abú-Muhammad,
Dos companheiros da aldeia de Sang-Sar, que forma parte do distrito de Simnán, dezoito foram martirizados. Seus nomes são os seguintes:
46. Siyyid Ahmad, cujo corpo foi despedaçado por Mirza Muhammad-Taqí e pelos sete ulemás de Sarí. Era um sacerdote de renome e muito estimado por sua eloqüência e sua piedade.
47. Mirza Abu'l-Qásim, irmão de Siyyid Ahmad, ganhou a coroa do martírio na mesma noite em que Mullá Husayn foi morto.
48. Mirza Mihdí, tio paterno de Siyyid Ahmad.
49. Mirza Ibráhím, o cunhado de Siyyid Ahmad,
50. Safar-'Alí, filho de Karbilá'í 'Alí, que, com Karbilá'í Muhammad, se esforçara tão fervorosamente para despertar o povo de Sang-Sar de seu sono de negligência. Ambos foram impedidos pelas suas enfermidades de seguir ao forte de Tabarsí.
51. Muhammad-'Alí filho de Karbilá'í Abú-Muhammad,
52. Abu'l-Qásim, irmão de Muhammad-'Alí,
53. Karbilá'í Ibrahim,
54. 'Alí-Ahmad,
55. Mullá 'Alí-Akbar,
56. Mullá Husayn-'Alí,
57. 'Abbás-'Alí,
58. Husayn-'Alí,
59. Mullá 'Alí-Asghar,
60. Karbilá'í Ismá'íl,
61. 'Alí Khán,
62. Mamad-Ibráhím,
63. 'Abdu'l-'Azím,
Da aldeia de Shah-Mirzad, dois cairam enquanto defendiam o forte:
64. Mullá Abú-Rahím e
65. Karbilá'í Kázim.
Quanto aos aderentes da Fé em Mázindarán, vinte e sete mártires foram até agora registrados:
66. Mullá Riday-i-Sháh,
67. 'Azím,
68. Karbilá'í Muhammad-Ja'far,
69. Siyyid Husayn,
70. Muhammad-Báqir,
71. Siyyid Raízáq,
72. Ustád Ibráhím,
73. Mullá Sa'id-i-Zirih-Kinárí,
74. Ridáy-i-'Arab,
75. Rasúl-i-Bahnimírí,
76. Muhammad-Husayn, irmão de Rasúl-i-Bahnimírí,
77. Táhir,
78. Shafí',
79. Qásim,
80. Mullá Muhammad-Ján,
81. Masíh, irmão de Mullá Muhammad-Ján,
82. Itá- Bábá,
83. Yúsuf,
84. Fadlu'lláh,
85. Bábá,
86. Safí-Qulí,
87. Nizám,
88. Rúhu'lláh,
89. 'Alí-Qulí,
90. Sultán,
91. Ja'far,
92. Khalíl,
Dos crentes de Savád-Kúh, os cinco nomes seguintes foram até agora verificados:
93. Karbilá-í Qambar-Kálish,
94. Mullá Nád-'Alíy-i-Mutavallí,
95. 'Abdu'l-Haqq,
96. Itábakí-Chupán,
97. Filho de Itábaki-Chúpán,
Da cidade de Ardistán, os seguintes sofreram martírio:
98. Mirza 'Abdu'-Vási', filho de Hájí 'Abdul-Vaháb,
100. Muhammad-Husayn, filho de Hájí Muhammad-Sádiq,
101. Muhammad-Mihdí, filho de Hájí Muhammad-Ibráhím,
102. Mirza Ahmad, filho de Muhsin,
103. Mirza Muhammad, filho de Mír Muhammad-Taqí,
Da cidade de Isfáhán, trinta foram até agora registrados:
104. Mullá Ja'far, o peneirador de trigo, cujo nome foi mencionado pelo Báb no Bayán Persa.
105. Ustád Áqá, cognominado Buzurg-Banná,
106. Ustád Hasan, filho de Ustád Áqá,
107. Ustád Muhammad, filho de Ustád Áqá,
108. Muhammad-Husayn, filho de Ustád Áqá, cujo irmão mais moço, Ustád Ja'far, foi vendido várias vezes pelos inimigos, até que alcançou sua cidade natal, onde atualmente reside.
109. Ustád Qurbán-'Alíy-i-Banná,
110. 'Alí-Akbar, filho de Ustád Qurbán-'Alíy-i-Banná,
111. 'Abdu'lláh, filho de Ustád Qurbán-'Alíy-i-Banná,
112. Muhammad-i-Báqir-Naqsh, tio materno de Siyyid Yahyá filho de Mirza Muhammad-'Alíy-i-Nahrí. Ele tinha quatorze anos de idade e foi martirizado naquela mesma noite em que Mullá Husayn foi morto.
113. Mullá Muhammad-Taqí,
114. Mullá Muhammad-Ridá, ambos sendo irmãos do falecido 'Abdu's-Sálih, o jardineiro do Ridvan em Akká.
115. Mullá Ahmad-i-Saffár,
116. Mullá Husayn-i-Miskar,
117. Ahmad-i-Payvandí,
118. Hasan-i-Sha'r-Báf-i-Yazdí
119. Muhammad-Taqí,
120. Muhammad-'Attár, irmão de Hasan-i-Sha'r-Báf,
121. Mullá 'Abdu'l-Kháliq, que cortou sua garganta em Badasht e a quem Táhirih deu o nome de Dhabíh.
122. Husayn,
123. Abu'l-Qásim, irmão de Husayn,
124. Mirza Muhammad-Ridá,
125. Mullá Haydar, irmão de Mirza Muhammad-Ridá,
126. Mirza Mihdí,
127. Muhammad-Ibráhím,
128. Muhammad Husayn, cognominado Dastmál-Girih-Zan,
129. Muhammad-Hasan-i-Chít-Sáz, conhecido fabricante de tecidos, que atingiu a presença do Báb,
130. Muhammad-Husayn-i-'Attár,
131. Ustád Hájí Muhammad-i-Banná,
132. Mahmúd-i-Muqári'í, conhecido negociante em tecidos. Era recém-casado e havia atingido a presença do Báb no castelo de Chihríq. O Báb solicitou-lhe que seguisse a Jazíriy-i-Khadrá e prestasse auxílio a Quddús. Enquanto em Teerã, recebeu uma carta do irmão anunciando-lhe o nascimento de um filho e lhe instando que se apressasse a Isfáhán para vê-lo e depois procedesse a qualquer lugar para que se sentisse inclinado. "Estou demasiado aceso com o amor a esta Causa para poder devotar alguma atenção a meu filho. Estou impaciente para estar com Quddús e alistar-me sob sua bandeira."
133. Siyyid Muhammad-Ridáy-i-Pá-Qal'iyí, eminente siyyid e sacerdote altamente estimado, cuja declaração de seu propósito de se alistar sob o estandarte de Mullá Husayn causou grande tumulto entre os ulemás de Isfáhán.
Entre os crentes de Shíráz, os seguintes atingiram o grau de martírio:
134. Mullá 'Abdu'lláh, conhecido também pelo nome de Mirza Sálih,
135. Mullá Zaynu'l-'Abidín,
136. Mirza Muhammad,
Dos aderentes da Fé em Yazd, somente quatro foram até agora registrados:
137. O siyyid que foi a pé todo o caminho de Khurásán a Bárfurúsh, onde caiu vítima da bala do inimigo.
138. Siyyid Ahmad, pai de Siyyid Husayn-i-'Azíz, amanuense do Báb,
139. Mirza Muhammad-'Alí, filho de Siyyid Ahmad, que foi decapitado pela bala de um canhão, enquanto permanecia na entrada do forte e a quem, por causa de sua tenra idade, Quddús tinha grande amor e admiração.
140. Shaykh 'Alí, filho de Shaykh 'Abdu'l-Kháliq-i-Yazdí, residente de Mashhad, um jovem cujo entusiasmo e incansável energia eram muito elogiados por Mullá Husayn e Quddús.
Dos crentes de Qazvín, os seguintes foram martirizados:
141. Mirza Muhammad-'Alí, sacerdote de renome, cujo pai, Hájí Mullá 'Abdu'l-Vahháb, foi um dos mais eminentes mujtahids de Qazvín. Ele atingiu a prsença do Báb em Shíráz e foi inscrito como uma das Letras dos Viventes.
142. Muhammad-Hádí, conhecido negociante, filho de Hájí 'Abdu'l-Karím, cognominado Bághbán-Báshí,
143. Siyyid Ahmad,
144. Mirza 'Abdu'l-Jalíl, sacerdote de renome,
145. Mirza Mihdí,
146. Da aldeia de Lahárd, um homem chamado Hájí Muhammad-'Alí, que havia sofrido muito em conseqüência do assassínio de Mullá Taqí em Qazvín.
Dos crentes de Khuy, os seguintes sofreram martírio.
147. Mullá Mihdí, eminente sacerdote, que fora um dos estimados discípulos de Siyyid Kázim. Era célebre por sua erudição, sua eloqüência e sua firmeza de fé.
148. Mullá Mahmúd-i-Khu'í, irmão de Mullá Mihdí, uma das Letras dos Viventes e um sacerdote de renome.
149. Mullá Yúsuf-i-Ardibílí, uma das Letras dos Viventes, notável por sua erudição, seu entusiasmo e sua eloqüência. Foi ele quem causou as apreensões de Hájí Karím Khán ao chegar em Kirmán e aterrorizou os corações de seus adversários. "Este homem," se ouviu Hájí Karím Khán dizer a sua congregação, "deve forçosamente ser expulso desta cidade, pois se lhe for permitido permanecer, ele seguramente causará o mesmo tumulto em Kirmán que já causou em Shíráz. O dano que ele infligirá será irreparável. A mágica de sua eloqüência e a força de sua personalidade, se não já excedem as de Mullá Husayn, certamente não lhes são inferiores." Assim pode ele forçá-lo a abreviar sua estada em Kirmán e impedi-lo de, do púlpito, se dirigir ao povo. O Báb deu-lhe as seguintes instruções: "Deves visitar as cidades e várias localidades da Pérsia e convocar seus habitantes à Causa de Deus. No primeiro dia do mês de Muharram no ano de 1265 A. H. (54) deves estar em Mázindarán e te levantar para prestar a Quddús todo o auxílio que puderes." Mullá Yúsuf, fiel às instruções de seu Mestre, recusou prolongar sua estada além de uma semana em qualquer das cidades ou localidades visitadas. Ao chegar em Mázindarán, foi preso pelas forças do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, quem imediatamente o reconheceu e mandou encarcerar. Foi ele solto, afinal, como já observamos, pelos companheiros de Mullá Husayn no dia da batalha de Vás-Kas.
150. Mullá Jalíl-i-Urúmí, uma das Letras dos Viventes, célebre por sua erudição, sua eloqüência, e pela tenacidade de sua fé.
151. Mullá Ahmad, residente de Marághih, uma das Letras dos Viventes e eminente discípulo de Siyyid Kázim.
152. Mullá Mihdíy-i-Kandí, companheiro de Bahá'u'lláh e instrutor das crianças de Sua casa.
153. Mullá Báqir, irmão de Mullá Mihdí, sendo amobs homens de considerável erudição, de cujas habilidades Bahá'u'lláh dá testemunho no "Kitáb-i-Iqán."
154. Siyyid Kázim, residente de Zanján e um de seus conhecidos mercadores. Ele atingiu a presença do Báb em Shíráz e O acompanhou a Isfáhán. Seu irmão, Siyyid Murtadá, foi um dos Sete Mártires de Teerã.
155. Iskandar, também residente de Zanján, que, com Hasan e Qulí, levou o corpo de Mullá Husayn ao forte.
156. Ismá'íl,
157. Karbilá'í-'Abdu'l-'Alí,
158. 'Abdu'l-Muhammad,
159. Hájí 'Abbás,
160. Siyyid Ahmad - todos residentes de Zanján.
161. Siyyid Husayn-i-Kuláh-Dúz, residente de Bárfurúsh, cuja cabeça foi posta numa lança e exibida nas ruas.
162. Mullá Hasan-i-Rashtí,
163. Mullá Hasan-i-Bayájmandí,
164. Mullá Ni'matu'lláh-i-Bárfurúshí,
165. Mullá Muhammad-Taqíy-i-Qarákhílí,
166. Ustád Zaynu'l-'Abidín,
167. Ustád Qásim, filho de Ustád Zaynu'l-Abidín,
168. Ustád 'Alí-Akbar, irmão de Ustád Zaynu'l-Abidín.
Os três últimos foram pedreiros de profissão, nativos de Kirmán, e residiram em Qáyin na província de Khurásán.
169 e 170. Mullá Ridáy-i-Sháh e um jovem de Bahnimir foram trucidados dois dias depois que Quddús abandonou a fortaleza, no Panj-Shanbih-Bázár de Bárfurúsh. Hájí Mullá Muhammad-i-Hamzih, cognominado Sharí'at-Madár, conseguiu enterrar seus corpos na vizinhança de Masjid-i-Kázim-Big e induzir seu assassino a se arrepender e pedir perdão.
171. Mullá Muhammad-i-Mu'allim-i-Núrí, íntimo companheiro de Bahá'u'lláh e com Ele estreitamente associado em Núr, em Teerã e em Mázindarán. Era famoso por sua inteligência e erudição e foi sujeitado às mais severas atrocidades que sobrevieram a qualquer defensor do forte de Tabarsí, excetuando-se somente Quddús. O príncipe havia prometido libertá-lo se ele exevrasse o nome de Quddús, e lhe tinha dado sua palavra que, se ele consentisse em se retratar, o levaria a Teerã e o faria o instrutor de seus filhos. "Nunca consentirei," respondeu, "em vilificar o bem-amado de Deus a mando de um homem como vós. Fosseis vós me conferir o reino inteiro da Pérsia, nem por um momento voltaria a face de meu bem-amado mestre. Meu corpo está à mercê de vós, minh'alma não tendes o poder de dominar. Torturai-me como quiserdes, a fim de que eu vos possa demonstrar a verdade do versículo: 'Desejai, pois, a morte, se sois homens da verdade (55).'" O príncipe, enfurecido com sua resposta, deu ordens para que seu corpo fosse despedaçado e não fossem poupados esforços para lhe infligir o mais humilhante castigo.
172. Hájí Muhammad-i-Karrádí, cuja casa era situada em uma das alamedas de palmeiras adjacentes à velha cidade de Bagdá, homem de grande coragem, que lutara e chefiara cem homens na guerra contra Ibráhím Páshá do Egito. Fora fervoroso discípulo de Siyyid Kázim, sendo autor de um longo poema no qual se estendia sobre as virtudes e os méritos do siyyid. Tinha a idade de setenta e cinco anos quando abraçou a Fé do Báb, a quem, semelhantemente, elogiou em um poema minucioso e eloqüente. Distinguiu-se pelos atos heróicos durante o assédio do forte e foi, afinal, vítima das balas do inimigo.
173. Sa'íd-i-Jabbáví, nativo de Bagdá, que exibiu coragem extraordinária durante o assédio. Embora gravemente ferido, com um tiro no abdômen, conseguiu ir à pé até alcançar a presença de Quddús. Jubilosamente se lançou a seus pés e expirou.
As circunstâncias do martírio destes dois últimos companheiros foram relatadas por Siyyid Abú-Tálib-i-Sang-Sarí, um dos que sobreviveram àquele memorável assédio, em uma comunicação dirigida a Bahá'u'lláh. Nela relata ele também sua própria história, bem como a de seus dois irmãos, Siyyid Ahmad e Mír Abu'l-Qásim, ambos martirizados enquanto defendiam o forte. "No dia em que Khusraw foi morto," escreveu ele, "aconteceu que eu era hóspede de um certo Karbilá'í 'Alí-Ján, o kad-khudá (56) de uma das aldeias nas proximidades do forte. Ele havia ido dar sua assistência para a proteção de Khusraw e, ao regressar, me relatou as circunstâncias que acompanharam sua morte. Nesse mesmo dia informou-me um mensageiro de que dois árabes haviam chegado naquela aldeia e estavam ansisos de se unir com os ocupantes do forte. Expressaram seu medo do povo da aldeia de Qádí-Kalá e prometeram recompensar amplamente qualquer um que consentisse em conduzi-los a seu destino. Recordei os conselhos de meu pai, Mír Muhammad-'Alí, que me exortava a levantar-me e ajudar a promover a Causa do Báb. De imediato decidi aproveitar a oportunidade a mim apresentada e, na companhia desses dois árabes, e com o auxílio do kad-khudá, alcancei o forte, encontrei com Mullá Husayn e determinei consagrar os dias restantes de minha vida ao serviço da Causa que ele se dignara seguir."
Os nomes de alguns dos oficiais que se distinguiram entre os opositores dos companheiros de Quddús, são os seguintes:
1. O Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, irmão do falecido Muhammad Sháh,
2. Sulaymán Khán-i-Afshár,
3. Hájí Mustafá Khán-i-Súr-Tíj,
4. 'Abdu'lláh Khán, irmão de Hájí Mustafá Khán,
5. 'Abbás-Qulí Khán-i-Láríjání, que fuzilou Mullá Husayn,
6. Núru'lláh Khán-i-Afghán,
7. Habídu'lláh Khán-i-Afghán,
8. Dhu'Faqár Khán-i-Karávulí,
9. 'Alí-Asghar Khán-i-Dungi'í,
10. Khudá-Murád Khán-i-Kurd,
11. Khálíl Khán-i-Savád-Kúhí,
12. Ja'far-Qulí Khán-i-Surkh-Karri'í,
13. O Sartíp do Fawj-i-Kalbát,
14. Zakaríyyáy-i-Qádí-Kalá'í, primo de Khusraw e seu sucessor.
Quanto àqueles crentes que participaram naquele assédio memorável e sobreviveram a seu trágico fim, não pude até agora certificar-me de seu número ou de seus nomes completamente. Contentei-me com uma lista representativa, embora incompleta, dos nomes de seus mártires, confiante de que, nos dias vindouros, os valorosos promotores da Fé se levantarão para preencher essa lacuna e através de suas pesquisas e sua diligência, conseguirão remediar as imperfeições desta descrição, absolutamente inadequada, daquilo que para sempre permanecerá um dos mais comovedores episódios dos tempos modernos.
CAPÍTULO XXI
OS SETE MÁRTIRES DE TEERÃ
A notícia do trágico destino que sobreviera aos heróis de Tabarsí trouxe imensurável tristeza ao coração do Báb. Confinado em Seu castelo-prisão de Chihríq, afastado do pequeno grupo de Seus discípulos em luta, Ele notava com ansiedade intensa o progresso de seus labores e, com inalterável zelo, orava por sua vitória. Como foi grande Sua tristeza quando, nos primeiros dias de Sha'bán no ano de 1265 A. H. (1), veio a saber das provações que lhes cercavam o caminho, da agonia por eles sofrida, da traição à qual um inimigo exasperado se sentira compelido a recorrer e da abominável carnificina com a qual sua carreira terminara.
"O Báb estava de coração dilacerado," relatou subseqüentemente Seu amanuense, Siyyid Husayn-i-'Azíz, "ao receber essa inesperada notícia. Estava esmagado de pesar, um pesar que Lhe emudeceu a voz e silenciou a pena. Durante nove dias recusou Ele a receber qualquer de Seus amigos. A mim mesmo, embora Seu íntimo e constante assistente, foi recusado acesso. Qualquer que fosse o alimento ou a bebida que Lhe oferecêssemos, Ele não estava disposto a tocá-lo. Lágrimas choviam continuamente de Seus lábios e expressões de angústia caiam de Seus lábios sem cessar. Eu podia ouvir, por detrás da cortina, como Ele desabafava Seus pesares enquanto, no isolamento de Sua cela, comungava com Seu Bem-Amado. Tentei anotar as efusões de Sua tristeza à medida que emanavam de Seu coração ferido. Suspeitando que eu estava tentando preservar as lamentações que Ele expressava, mandou que eu destruísse qualquer coisa que tivesse anotado. Nada resta dos gemidos e prantos com os quais aquele coração sobrecarregado procurava aliviar-se das dores que o haviam acabrunhado. Por um período de cinco meses Ele languescia, imerso em um oceano de abatimento e tristeza."
Com o advento de Muharram no ano de 1266 A. H. (2), o Báb reassumiu o cargo que Ele se sentira compelido a interromper. A primeira página que escreveu foi dedicada à memória de Mullá Husayn. Na Epístola de Visitação revelada em sua honra elogiou, em termos comoventes, a inalterável fidelidade com que serviu a Quddús durante todo o assédio do forte de Tabarsí. Prodigalizou Seus elogios pela conduta magnânima, contou suas façanhas e asseverou sua indubitável reunião no mundo do além com o mestre a quem tão nobremente servira. Escreveu que breve, também, estaria Ele com aqueles seres gêmeos imortais, dos quais cada um com sua vida e com sua morte havia prestado imperecível brilho à Fé de Deus. Por uma semana inteira continuou o Báb a escrever Seus elogios a Quddús, a Mullá Husayn e a Seus outros companheiros que ganharam a coroa do martírio em Tabarsí.
Assim que completara esses elogios daqueles que haviam imortalizado seus nomes na defesa do forte, Ele chamou no dia de Áshúrá (3), Mullá Ádí-Guzal (4), um dos crentes de Marághih que, havia dois meses, Lhe servia de assistente no lugar de Siyyid Hasan, irmão de Siyyid Husayn-i-'Azíz. Recebeu-o carinhosamente, conferiu-lhe o nome Sayyáh, entregou a seu cuidado as Epístolas de Visitação que revelara em memória dos mártires de Tabarsí e o mandou fazer, em Seu nome, uma peregrinação àquele recinto. "Levante-te," solicitou-lhe Ele, "e, com desprendimento completo segue, nos trajes de viajante, a Mázindarán, onde deves visitar em Meu nome, o lugar que encerra os corpos daqueles imortais que, com seu sangue selaram sua fé em Minha Causa. Quando te aproximares das cercanias daquele terreno sagrado, tira os sapatos e, curvando a cabeça em reverência a sua memória, invoca seus nomes e em atitude de oração anda em volta de seu santuário. Traz-me de volta como lembrança de tua visita um punhado daquela terra sagrada que cobre os restos mortais de Meus bem-amados, Quddús e Mullá Husayn. Esforça-te para regressar antes do dia do Naw-Rúz, a fim de que possa celebrar comigo esse festival, o único, provavelmente, que hei de ver."
Fiel às instruções recebidas, Sayyáh partiu em sua peregrinação a Mázindarán. Chegou ao destino no primeiro dia de Rabí'u'l-Avval no ano de 1266 A. H. (5) e, antes do nono dia do mesmo mês (6), o primeiro aniversário do martírio de Mullá Husayn, havia ele consumado a visita e cumprido a missão que lhe fora confiada. Daí procedeu a Teerã.
Tenho ouvido Áqáy-i-Kalím, que recebeu Sayyáh na entrada da casa de Bahá'u'lláh em Teerã, relatar o seguinte: "Foi em pleno inverno quando Sayyáh, voltando de sua peregrinação, veio visitar Bahá'u'lláh. A despeito do frio e da neve de um inverno rigoroso, ele apareceu nas vestes de um dervixe, com roupas pobres, descalço e desgrenhado. Seu coração estava inflamado com a chama que aquela peregrinação ateara. Logo que Siyyid Yayáy-i-Dárábí, cognominado Vahíd, então hospedado na casa de Bahá'u'lláh, foi informado do regresso de Sayyáh do forte de Tabarsí, ele, esquecido da pompa e cerimônia à qual um homem de sua posição estava acostumado, precipitadamente lançou-se aos pés do peregrino. Em seus braços segurando-lhe as pernas, que haviam sido cobertas de lama até os joelhos, beijou-as devotadamente. Admirei-me muito naquele dia, das numerosas evidências de amorosa solicitude mostrada por Bahá'u'lláh a Vahíd. Conferiu-lhe tais favores como jamais eu O havia visto prestar a qualquer pessoa. A Sua maneira de conversar não deixou em mim dúvida alguma de que esse mesmo Vahíd se distinguira, dentro em breve, por façanhas não menos notáveis do que aqueles que haviam imortalizado os defensores do forte de Tabarsí."
Sayyáh permaneceu alguns dias naquela casa. Ele não pode perceber no entanto como Vahíd, a natureza daquele poder que jazia latente em seu Anfitrião. Embora a ele mesmo Bahá'u'lláh mostrasse extremo favor, ele não apreendeu o significado das bênçãos que lhe estavam sendo prodigalizadas. Eu o tenho ouvido assim relatar as experiências durante sua estada em Famagusta: "Diante da excessiva bondade de Bahá'u'lláh, fiquei atônito. Quanto a Vahíd, não obstante a sua eminente posição, ele, a mim dava preferência em vez de si próprio, invariavelmente, quando na presença de seu anfitrião. No dia de minha chegada de Mázindarán, ele até beijou os pés. Assombrei-me da recepção que me foi concedida nessa casa. Embora imerso num mar de graças, deixei de apreciar, naqueles dias, a posição então ocupada por Bahá'u'lláh, nem pude eu suspeitar, nem sequer levemente, a natureza da Missão que Ele era destinado a cumprir."
Antes da partida de Sayyáh de Teerã, Bahá'u'lláh lhe entregou uma epístola, o texto da qual Ele ditara a Mirza Yahyá (7) e a mandou em nome dele. Pouco depois, foi recebida uma resposta escrita pelo Báb de próprio punho, na qual Ele entrega Mirza Yahyá aos cuidados de Bahá'u'lláh e recomenda que seja prestada atenção a sua educação e a seu treino. Essa comunicação o povo do Bayán (8) tem interpretado erroneamente como evidência das exageradas pretensões (9) avançadas em favor de seu líder. Embora o texto dessa resposta esteja absolutamente destituído de tais pretensões e não contenha referência alguma a sua alegada posição, além do elogio que confere a Bahá'u'lláh e o pedido sobre a educação de Mirza Yahyá, seus adeptos, entretanto, têm imaginado futilmente que essa carta constituía uma asserção da autoridade da qual eles o têm investido (10).
A esta altura de minha narrativa, quando já tenho relatado os acontecimentos mais salientes durante o ano de 1265 A. H. (11), lembro-me que esse mesmo ano testemunhou o acontecimento mais significativo de minha própria vida, acontecimento esse que assinalou meu renascimento espiritual, minha libertação dos grilhões do passado e minha aceitação da mensagem desta Revelação. Solicito a indulgência do leitor se me estender em demasia sobre as circunstâncias dos anos iniciais de minha vida e relatar com minúcias excessivas os acontecimentos que levaram a minha conversão. Meu pai pertencia à tribo de Táhirí, cujos membros viviam como nômades na província de Khurásán. Seu nome era Ghulám 'Alí, filho de Husayn-i-'Arab. Casou com a filha de Kalb-'Alí, tendo com ela três filhos e três filhas. Eu fui o segundo filho e me foi dado o nome de Yár-Muhammad. Nasci no décimo oitavo dia de Safar no ano de 1247 A. H. (12), na aldeia de Zarand. Era pastor de profissão e recebi em meus primeiros anos uma educação muito rudimentar. Eu ansiava por devotar mais tempo a meus estudos, mas não me foi possível, devido às exigências de minha situação. Lia com avidez o Alcorão e decorei algumas de suas passagens, as quais entoava enquanto seguia meu rebanho nos campos. Eu amava a solidão e à noite, fitava as estrelas com deleite e assombro. No silêncio da selva, recitava certas orações atribuídas ao Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis e enquanto eu volvia a face para o Qiblih (13), suplicava ao Todo-Poderoso que guiasse meus passos e me ajudasse a encontrar a Verdade.
Meu pai muitas vezes me levava com ele a Qum, onde conheci os ensinamentos do Islã e os modos e as maneiras de seus dirigentes. Ele era um devotado seguidor dessa Fé e intimamente associado com os líderes eclesiásticos que se congregavam nessa cidade. Eu observava-o enquanto ele orava no Masjid-i-Imám-Hasan e executava, com escrupuloso cuidado e extrema piedade todos os rituais e cerimônias prescritas por sua Fé. Eu ouvia a pregação de vários eminentes mujtahids que haviam chegado de Najaf, assistia suas conferências e escutava seus debates. Gradualmente vim a perceber sua insinceridade e a detestar a vileza de seu caráter. Por ansioso que eu estivesse de me certificar da fidedignidade dos credos e dogmas que eles queriam me impor, nem pude achar tempo nem obter as facilidades com que satisfazer meu desejo. Freqüentemente era eu repreendido por meu pai por causa de minha temeridade e inquietação. "Receio," observava ele muitas vezes, "que tua aversão a esses mujtahids te possa algum dia envolver em grandes dificuldades e te trazer censura e opróbrio."
Estava na aldeia de Rubát-Karím, visitando um tio materno quando, no décimo dia após o Naw-Rúz, no ano de 1263 A. H. (14), ouvi por acaso no masjid dessa aldeia uma conversação entre dois homens por meio da qual primeiro conheci a Revelação do Báb. "Já soubeste," perguntou um deles, "que o Siyyid-i- Báb foi conduzido à aldeia de Kinár-Gird e está procedendo a Teerã?" Verificando que o amigo ignorava esse episódio, procedeu a relatar toda a história do Báb, descrevendo em detalhe a circunstâncias em que foi feita Sua Declaração, Seu aprisionamento em Shiráz, Sua partida para Isfáhán, a recepção que Lhe foi dada pelo Imám-Jum'ih como por Manúchihr Khán, os prodígios e maravilhas por Ele manifestados e o veredito que os ulemás de Isfáhán haviam contra Ele pronunciado. Cada detalhe daquela narração despertou minha curiosidade e excitou em mim intensa admiração por um Homem que podia exercer tão mágica influência sobre seus conterrâneos. Sua luz parecia me haver inundado a alma; sentia-me como se já estivesse convertido para Sua Causa.
De Rubát-Karím regressei a Zarand. Meu pai comentou minha inquietação e se admirou de meu comportamento. Eu não tinha mais apetite nem desejo de dormir, mas estava determinado a esconder de meu pai o segredo de minha agitação interior, para que a descoberta não viesse a impedir eventualmente a realização de minhas esperanças. Permaneci nesse estado até que um certo Siyyid Husayn-i-Zavárí'í veio a Zarand e me pode esclarecer sobre um assunto que se tornara a dominante paixão de minha vida. Esse conhecimento desenvolveu-se rapidamente em uma amizade que me animou e com ele compartilhar o anelo de meu coração. Para grande surpresa minha, descobri estar ele já cativado pelo segredo do tema que eu começara a lhe revelar. "Um de meus primos," relatou ele, "Siyyid Ismá'íl-i-Zavárí'í de nome, convenceu-me da verdade da Mensagem proclamada pelo Siyyid-i- Báb. Informou-me de que várias vezes se encontrara com o Siyyid-i- Báb na casa do Imám-Jum'ih de Isfáhán e de fato O havia visto revelar, na presença de Seu anfitrião, um comentário sobre a Sura de Va'l-'Asr (15). A rapidez com que o Báb compunha e Seu estilo dinâmico e original lhe haviam excitado a surpresa e a admiração. Espantou-lhe verificar que, enquanto revelava Seu comentário e sem diminuir a celeridade com que escrevia, Ele pode responder a quaisquer perguntas que aqueles presentes se sentissem movidos a Lhe fazer. A intrepidez com a qual meu primo se levantou para pregar a Mensagem, incitou a hostilidade dos kand-khudás (16) e siyyids de Zavárih, e estes o obrigaram a regressar a Isfáhán, onde recentemente residira. Eu, também, não podendo permanecer em Zavárih, parti para Káshán, cidade em que passei o inverno e onde conheci Hájí Mirza Jání, de quem meu primo havia falado e quem me deu um tratado escrito pelo Báb, intitulado 'Risáliy-i-'Adlíyyih,' o qual ele me solicitava a ler cuidadosamente e lhe devolver depois de alguns dias. Fiquei tão encantado pelo tema e pela linguagem desse tratado que de imediato procedi a transcrever o texto inteiro. Quando fui devolvê-lo a seu dono, soube com profunda tristeza que eu havia perdido a oportunidade de conhecer seu Autor. 'O próprio Siyyid-i- Báb,' disse-me ele 'chegou na véspera do dia de Naw-Rúz e passou três noites como hóspede em minha casa. Ele está agora viajando a Teerã e se partires imediatamente, de certo O alcançarás.' Logo me levantei e parti, indo a pé todo o caminho de Káshán até uma fortaleza na vizinhança de Kinár-Gird. Eu estava descansando na sombra de seus muros, quando um homem de aspecto amável saiu da fortaleza e me perguntou quem eu era e aonde ia. 'Sou um pobre siyyid,' respondi, 'em viagem e estranho nesse lugar.' Ele me levou a sua casa e me convidou a passar a noite como seu hóspede. Durante nossa conversação, ele disse: 'Suspeito que sois um seguidor do Siyyid que passou alguns dias nesta fortaleza, donde foi transferido para a aldeia de Kulayn, e que, há três dias passados, partiu para Adhirbáyján. Eu me julgo um de Seus aderentes. Meu nome é Hájí Zaynu'l-Abidín. Era minha intenção não me separar Dele, mas Ele me mandou permanecer neste lugar e transmitir a quaisquer de Seus amigos com quem me encontrasse neste lugar Suas amorosas saudações e dissuadi-los de O seguir. "Dize-lhes," instruiu-me Ele, "que consagrem suas vidas ao serviço de Minha Causa, para que porventura as barreiras que impedem o progresso desta Fé sejam removidas e assim possam Meus seguidores, com segurança e liberdade, adorar seu Deus e observar os preceitos de sua Fé." Abandonei meu projeto de imediato e, em vez de voltar a Qum, decidi vir a este lugar.'"
A história que este Siyyid Husayn-i-Zavári'í me relatou serviu para me aliviar a agitação. Ele partilhou comigo a cópia do "Risáliy-i-'Adlíyyih" que havia trazido consigo, a leitura do qual me fortaleceu e reanimou a alma. Naqueles dias era eu discípulo de um siyyid que me ensinava o Alcorão e cuja incapacidade de me esclarecer sobre os preceitos de sua Fé se tornava cada vez mais evidente aos meus olhos. Siyyid Husayn, a quem pedi mais informação a respeito da Causa, me aconselhou que procurasse me encontrar com Siyyid Ismá'íl-i-Zavárí'i, cujo costume era, invariavelmente, visitar toda primavera, os santuários dos imám-zádihs (17) de Qum. Induzi meu pai, que não queria se separar de mim, a me mandar àquela cidade com o fim de aperfeiçoar meu conhecimento da língua árabe. Tomei o cuidado de lhe ocultar meu verdadeiro propósito, receoso de que sua revelação o envolvesse em alguns embaraços com o Qádí (18) e os ulemás de Zarand e me impedisse de atingir meu objetivo.
Enquanto estive em Qum, vieram minha mãe, minha irmã e meu irmão visitar-me na ocasião do festival de Naw-Rúz e passaram comigo cerca de um mês. Durante sua visita, pude esclarecer minha mãe e minha irmã sobre a nova Revelação, e consegui acender em seus corações o amor de seu Autor. Poucos dias após seu regresso a Zarand, veio Siyyid Ismá'il, a quem eu com impaciência esperava e, no decorrer de suas dissertações comigo, pode ele expor em detalhe tudo o que era necessário para me conquistar completamente para a Causa. Deu ele ênfase à continuidade da Revelação Divina, asseverando a unidade fundamental dos Profetas do passado e explicando sua estreita relação à Missão do Báb. Revelou-me ele também a natureza do trabalho realizado por Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í a Siyyid Kázim-i-Rashtí, de nenhum dos quais ouvira eu, antes disso, falar. Perguntei a respeito do dever, no tempo atual, de cada aderente fiel da Fé. "A injunção do Báb", respondeu ele, "é que todos aqueles que aceitaram Sua Mensagem devem ir a Mázindarán e prestar auxílio a Quddús, que está agora cercado pelas forças de um inimigo implacável." Expressei minha ansiedade de acompanhá-lo, pois ele mesmo tencionava viajar ao forte de Tabarsí. Aconselhou-me ele, entretanto, a permanecer em Qum na companhia de um certo Mirza Fath'lláh-i-Hakkák, jovem de minha idade recentemente por ele guiado à Causa, até receber sua mensagem de Teerã.
Em vão esperei essa mensagem e, vendo que não vinha dele notícia alguma, decidi partir para a capital. Meu amigo Mirza Fath'lláh seguiu-se subseqüentemente. Foi afinal preso e participou da sorte daqueles que foram mortos no ano de 1268 A. H. (19) em conseqüência da tentativa contra a vida do Xá. Ao chegar em Teerã, fui diretamente ao Masjid-i-Sháh, em frente de um madrisih (20), na entrada do qual eu mais tarde, inesperadamente, encontrei Siyyid Ismá'íl-i-Zavárí'i. Apressou-se ele a me informar que acabava de me escrever uma carta e estava prestes a despachá-la a Qum.
Estávamos nos preparando para sair para Mázindarán, quando nos veio a notícia de que os defensores do forte de Tabarsí haviam sido traiçoeiramente trucidados e que o próprio forte fora arrasado. Acabrunhou-nos de angústia essa notícia horrenda e lamentamos o trágico destino daqueles que tão heroicamente defenderam sua bem-amada Causa. Um dia, inesperadamente, encontrei com meu tio materno. Naw-Rúz 'Alí, que havia vindo expressamente para me buscar. Informei Siyyid Ismá'il, quem me aconselhou que fosse a Zarand e não incitasse mais hostilidades por parte dos que estavam insistindo em minha volta.
Ao chegar na minha aldeia natal, tive êxito em convencer meu irmão da verdade da Causa já abraçada por minha mãe e minha irmã. Consegui também induzir meu pai a permitir que eu saísse outra vez para Teerã. Fui residir no mesmo madrisih onde fora acomodado na visita anterior e lá encontrei com um certo Mullá 'Abdu'l-Karím, a quem, eu soube subseqüentemente, Bahá'u'lláh dera o nome de Mirza Ahmad. Ele me recebeu afetuosamente e me disse que Siyyid Ismá'il me entregara a seu cuidado e desejava que permanecesse em sua companhia até o regresso dele a Teerã. Os dias passados na companhia de Mirza Ahmad jamais serão esquecidos. Verifiquei ser ele a própria encarnação do amor e da bondade. As palavras com as quais ele me inspirava e me animava a fé estão indelevelmente gravadas em meu coração.
Por seu intermédio fui apresentado aos discípulos do Báb, com quem me associei e de quem obtive mais completas informações sobre os ensinamentos da Fé. Mirza Ahmad naqueles dias ganhava o sustento como escrivão e dedicava as noites ao trabalho de copiar o Bayán Persa e outros escritos do Báb. As cópias que ele tão devotadamente preparava eram dadas de presente a seus co-discípulos. Fui eu mesmo várias vezes portador desses presentes dele à esposa de Mullá Mihdíy-i-Kandí, que abandonara o filho recém-nascido e se apressara a se unir com os ocupantes do forte de Tabarsí.
Durante aqueles dias fui informado de que Táhirih, que sempre desde o término da reunião em Badasht, residira em Núr, havia chegado em Teerã e estava confinado na casa de Mahmúd Khán-i-Kalantar onde, embora presa, era tratada com consideração e cortesia.
Um dia Mirza Ahmad conduziu-me à casa de Bahá'u'lláh cuja esposa, a Varagatu'l-'Ulyá (21), mãe do Maior Ramo (22), já havia curado meus olhos com um ungüento que ela mesma preparara e me enviara por este mesmo Mirza Ahmad. A primeira pessoa que encontrei nessa casa foi aquele mesmo bem-amado Filho seu, então uma criança de seis anos. Ele deu-me um sorriso de boas-vindas enquanto ficava em pé na porta do aposento ocupado por Bahá'u'lláh. Passei essa porta e fui conduzido à presença de Mirza Yahyá, inteiramente inconsciente da posição Daquele que ocupava o aposento que eu deixara atrás. Ao encontrar face a face com Mirza Yahyá, fiquei chocado, logo que observei suas feições e notei sua conversação, ao perceber como era ele completamente indigno da posição à qual pretendera.
Em outra ocasião, quando visitei a mesma casa, eu estava prestes a entrar no aposento ocupado por Mirza Yahyá quando Aqáy-i-Kalím, a quem conhecera anteriormente, de mim se aproximou e me pediu, porque Isfandíyár, seu servo, havia ido ao mercado e não voltando ainda, que eu levasse "Aqá" (23) ao Madrisiy-i-Mirza-Sálih em seu lugar e então regressasse aí. De bom grado consenti e, enquanto me preparava para sair, vi o Maior Ramo, uma criança de extraordinária beleza, que usava o kuláh (24) e o jubbiy-i-hizári'í (25), sair do aposento ocupado pelo Seu Pai e descer a escada que conduzia ao portão da casa. Avancei e estendi os braços para levá-lo. "Andaremos juntos," disse-me, enquanto tomou minha mão e me conduziu para fora da casa. Conversamos enquanto caminhávamos de mãos dadas em direção ao madrisih, conhecido naqueles dias pelo nome de Pá-Mínár. Ao chegarmos em Sua sala de aula, Ele se virou a mim e disse: "Venha outra vez esta tarde e leva-me de volta a minha casa, pois Isfandíyár não poderá vir buscar-me. Meu Pai precisará dele hoje." Com prazer aquiesci e regressei de imediato à casa de Bahá'u'lláh. Lá novamente encontrei com Mirza Yahyá, quem entregou em minhas mãos uma carta, a qual ele me pediu levasse ao Madrisiy-i-Badr e desse a Bahá'u'lláh, o qual seria encontrado no aposento ocupado por Mullá Báqir-i-Bastámí. Pediu-me que trouxesse a resposta imediatamente. Cumpri a tarefa e regressei ao madrisih em tempo para conduzir o Maior Ramo a Sua casa.
Um dia fui convidado por Mirza Ahmad para conhecer Hají Mirza 'Alí, tio materno do Báb, que recentemente regressara de Chihríq e estava hospedado na casa de Muhammad Bib-i-Chapárchí nas proximidades do portão de Shimírán. Impressionaram-me, ao fitar-lhe a face, a nobreza de suas feições e a serenidade de seu semblante. Visitas subseqüentes serviram para aumentar minha admiração pela doçura de seu temperamento, por sua piedade mística e força de caráter. Recordo muito bem como, em uma ocasião, Aqáy-i-Kalím lhe solicitava, numa certa reunião, que saísse de Teerã, então em estado de grande fermento, e escapasse de sua perigosa atmosfera. "Por que preocupar-se com minha segurança," respondeu ele, confiante. "Oxalá pudesse eu também participar do banquete que a mão da Providência está oferecendo a Seus escolhidos!"
Pouco depois, os instigadores do mal conseguiram fomentar um grave distúrbio na cidade. A causa imediata disso foi a ação de um certo siyyid de Kashán que residia no Madrisiy-i-Dáru'sh-Shafá, em quem o conhecido Siyyid Muhammad confiara e a quem ele declarara haver convertido aos ensinamentos do Báb. Mirza Muhammad-Husayn-i-Kirmání, que tinha acomodações naquele mesmo madrisih e que era conferencista de renome sobre as doutrinas metafísicas do Islã, tentou várias vezes induzir Siyyid Muhammad, que era um de seus discípulos, a cortar relações com esse siyyid, por não achá-lo digno de confiança e lhe recusar acesso à reunião dos crentes. Siyyid Muhammad, entretanto, não se dispôs a ser admoestado por essa advertência e continuou a se associar com ele até o princípio do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1266 A. H. (26), quando o siyyid traiçoeiro foi a um certo Siyyid Husayn, um dos ulemás de Káshán, em cujas mãos entregou os nomes e endereços de cerca de cinqüenta dos crentes que então residiam em Teerã. Essa mesma lista foi submetida imediatamente por Siyyid Husayn a Mahmúd Khán-i-Kalantar, que ordenou que todos eles fossem presos. Quatorze foram apreendidos e levados à presença das autoridades.
No dia em que foram presos, por acaso, eu estava com meu irmão e meu tio materno recém-chegados de Zarand e hospedados em um caraansarai fora do portão de Naw. Na manhã seguinte, partiram em direção a Zarand e eu, ao voltar ao Madrisiy-i-Dáru'sh-Shafá, descobri em meu quarto um pacote, em cima do qual estava colocada uma carta endereçada a mim por Mirza Ahmad. A carta informou-me de que o siyyid traiçoeiro nos havia denunciado, incitando uma violenta comoção na capital. "O pacote que deixei neste quarto," escreveu ele, "contém todos os sagrados escritos que possuo. Se conseguires alcançar são e salvo este lugar, leva-os ao caravansarai de Hájí Nad'Alí, onde encontrarás em um de seus aposentos um homem desse nome, nativo de Qazvín, a quem entregarás o pacote junto com a carta que o acompanha. Daí procederás de imediato, ao Masjid-i-Sháh, onde espero poder contigo encontrar." Seguindo suas instruções, entreguei o pacote ao Hájí e consegui alcançar o masjid, onde encontrei Mirza Ahmad. Relatou-me ele como havia sido atacado e como buscara refúgio no masjid, pois neste recinto estaria imune a mais agressão.
Entrementes, Bahá'u'lláh enviara do Madrisiy-i-Sadr uma mensagem a Mirza Ahmad, informando-lhe dos desígnios de Amír-Nizám que, já em três ocasiões diferentes havia exigido do Imam-Jum'ih que o prendesse. Foi também advertido de que o Amír, não levando em conta o direito de asilo do qual o masjid fora investido, tencionava prender aqueles que haviam buscado refúgio nesse santuário. Instou a Mirza Ahmad que partisse disfarçado para Qum e lhe incumbiu de me mandar de volta para minha casa em Zarand.
Nesse tempo, meus parentes, que me haviam reconhecido no Masjid-i-Sháh, me instaram a partir para Zarand, com o argumento de que meu pai, havendo recebido a notícia errada de que eu estava preso, com execução pendente, estava gravemente aflito e que era meu dever apressar-me a aliviá-lo de suas ansiedades. Seguindo o conselho de Mirza Ahmad, quem me exortou a tomar essa oportunidade mandada por Deus, parti para Zarand e celebrei com minha família a Festa de Naw-Rúz - Festa essa que era duplamente abençoada por coincidir com o quinto dia de Jamádíyu'l-Avval no ano de 1266 A. H. (27), o aniversário do dia em que o Báb declarara Sua Missão. O Naw-Rúz daquele ano foi mencionado no "Kitáb-i-Panj-Sha'n" uma das últimas obras do Báb. "O sexto Naw-Rúz", escreveu Ele nesse Livro, "após a Declaração do Ponto do Bayán (28), caiu no quinto dia de Jamadíyu'l-Avval, no sétimo ano lunar depois daquela mesma Declaração." Nessa mesma passagem, o Báb menciona o fato de que o Naw-Rúz seria o último que Ele era destinado a celebrar nesta terra.
Em meio às festividades que meus parentes celebraram em Zarand, meu coração estava fixado em Teerã e meus pensamentos se concentravam na sorte que poderia ter sobrevindo a meus co-discípulos naquela cidade agitada. Ansiava por saber de sua segurança. Embora na casa de meu pai, cercado pela solicitude paterna, sentia-me oprimido pelo pensamento de estar afastado daquele pequeno grupo, cujos perigos eu bem podia imaginar e de cujas aflições anelava participar. A terrível ansiedade em que eu vivia enquanto confinado em minha casa foi aliviada inesperadamente pela chegada de Sádiq-i-Tabrízí, que veio de Teerã e foi recebido na casa de meu pai. Embora me livrasse das incertezas que tão severamente sobre mim pesavam, ele, para meu profundo horror, desdobrou aos meus ouvidos uma narração de tão horripilante crueldade que as ansiedades da incerteza empalideceram diante da luz macabra que aquela história lúgubre projetou sobre meu coração.
As circunstâncias do martírio de meus irmãos que foram presos em Teerã - pois foi esse seu destino - procedo agora a relatar. Os quatorze discípulos do Báb que haviam sido apreendidos, permaneceram encarcerados na casa de Mahmúd Khán-i-Kalantar desde o primeiro até o vigésimo segundo dia do mês de Rabí'u'th-Thání (29), Táhirih também estava confinada no andar superior dessa mesma casa. Toda espécie de mau tratamento sofreram eles. Seus perseguidores mediante todos os ardis, tentaram, induzi-los a fornecer a informação da qual necessitavam, mas não conseguiram obter uma resposta satisfatória. Entre os cativos se achava um certo Muhammad-Husayn-i-Marághi'í, que obstinadamente se recusava a pronunciar uma só palavra a despeito da severa pressão que lhe aplicaram. Torturavam-no, recorriam a todas as medidas possíveis a fim de extorquir dele qualquer sugestão que lhes pudesse servir aos fins, mas não conseguiram atingir seu objetivo. Tal foi a inabalável teimosia dele, que seus opressores pensavam que fosse um mudo. Perguntaram a Hájí Mullá Ismá'il, quem o havia convertido para sua Fé, se ele podia ou não falar. "Ele está emudecido, mas não é um mudo," respondeu, "possui fluência e está livre de qualquer impedimento." Logo que o chamou por seu nome, a vítima respondeu, assegurando-lhe que estava pronto para aquiescer a sua vontade.
Convencidos de que não tinham o poder de lhes alterar a vontade, levaram a questão a Mahmúd Khán quem, por sua vez, submeteu seu caso ao Amír-Nizám, Mirza Khán (30), o Grão-Vizir de Násirid-Dín-Sháh. O soberano nesse tempo, desistia de interferência direta no que se referia a essa comunidade perseguida, e muitas vezes ignorava as decisões sendo tomadas a respeito de seus membros. Seu Grão-Vizir foi investido de plenos poderes para tratá-los da maneira que ele achasse conveniente. Ninguém questionava suas decisões, nem se atrevia a desaprovar o modo como exercia sua autoridade. De imediato, emitiu ele uma ordem peremptória ameaçando de execução qualquer um dos quatorze presos que se recusasse a retratar sua fé. Sete foram compelidos a ceder diante da pressão que lhes foi aplicada e foram imediatamente postos em liberdade. Os sete restantes constituem os Sete Mártires de Teerã:
1. Hájí Mirza Siyyid 'Alí, cognominado Khál-i-'A'zam (31), tio materno do Báb e um dos principais mercadores de Shiráz. Foi esse mesmo tio a cuja custódia o Báb, após a morte de Seu pai, foi entregue e que, quando seu Sobrinho regressou de Sua peregrinação a Hijáz e foi preso por Husayn Khán, assumiu inteira responsabilidade por Ele, hipotecando por escrito sua palavra. Foi ele quem O cercava, enquanto entregue a seus cuidados de infalível solicitude, quem Lhe servia com tanta devoção e era o intermediário entre Ele e a multidão de Seus seguidores que se aglomeravam em Shiráz a fim de vê-Lo. Seu filho único, Siyyid Javád, morreu na infância. Em meados do ano de 1265 A. H. (32), esse mesmo Hájí Mirza Siyyid 'Alí saiu de Shiráz e visitou o Báb no castelo de Chihríq. Daí foi a Teerã e, embora ele nenhuma ocupação especial tivesse, permaneceu nessa cidade até que irrompeu a sedição que levou afinal a seu martírio.
Ainda que seus amigos lhe solicitassem que escapasse do tumulto que rapidamente se aproximava, ele se recusou a atender tal conselho e até sua última hora enfrentou, completamente resignado, a perseguição à qual o sujeitaram. Um número considerável entre os mais afluentes mercadores, conhecido dele, ofereceram pagar seu resgate, oferta essa que ele rejeitou. Finalmente foi ele levado à presença do Amír-Nizám. "O Magistrado-Chefe deste império," informou-lhe o Grão-Vizir, "repugna infligir o menor dano aos descendentes do Profeta. Eminentes mercadores de Shiráz e Teerã estão prontos ainda mais, estão ansiosos de pagar vosso resgate. Até intercedeu por vós o Maliku't-Tujjár. Basta uma palavra vossa de retratação para vos libertar e garantir o regresso, com honras, a vossa cidade natal. Hipoteco minha palavra que, se quereis aquiescer, os dias restantes de vossa vida serão passados com honra e dignidade à sombra protetora de vosso soberano." "Vossa Excelência," replicou audazmente Hájí Mirza Siyyid 'Alí, "se outros antes de mim, que jubilosamente sorveram o cálice do martírio, se dignaram de rejeitar um apelo como esse que me fazeis agora, sabei com certeza que eu não estou menos desejoso de declinar tal pedido. Meu repúdio às verdades encerradas nesta Revelação seria equivalente a uma rejeição de todas as Revelações que a precederam. Recusar reconhecer a Missão do Siyyid-i- Báb seria apostatar a Fé de meus antepassados e negar o caráter Divino da Mensagem que Maomé, Jesus, Moisés e todos os Profetas do passado revelaram. Deus sabe que qualquer coisa que tenha ouvido e lido dos dizeres e dos atos daqueles Mensageiros, eu mesmo tive o privilégio de testemunhar neste Jovem, neste bem-amado Parente meu, desde seus primeiros anos até este, o trigésimo ano de Sua vida. Tudo Nele me faz lembrar de Seu ilustre Ancestral e dos imames de Sua Fé, cujas vidas nossas tradições registradas descreveram. Peço de vós somente que me permitais ser o primeiro a sacrificar a vida no caminho de meu bem-amado Parente."
O Amír ficou estupefato diante dessa resposta. Num frenesi de desespero, e sem pronunciar nem sequer uma palavra, fez um sinal para levá-lo e ser decapitado. Enquanto a vítima estava sendo conduzida a sua morta, ouviam-se estas palavras de Háfiz por ele repetidas várias vezes: "Grande é minha gratidão a Ti, ó meu Deus, por me haveres concedido tão generosamente tudo o que tenho Te pedido." "Ouvi-me, ó povo," exclamou ele à multidão que se amontoava a seu redor. "De bom grado tenho me oferecido em holocausto no caminho da Causa de Deus. A inteira província de Fárs, bem como a do Iraque, além dos confins da Pérsia, dará prontamente testemunho de minha integridade de conduta, minha sincera piedade e minha linhagem nobre. Por mais de mil anos orais e tornais a orar, pedindo que o prometido Qá'im se manifeste. Ao ouvirdes mencionar Seu Nome, quantas vezes tendes exclamado, do íntimo do coração: - 'Apressa, ó Deus, Sua vinda; remove toda barreira que impede Seu aparecimento!' - E agora que Ele veio, vós O tendes expulsado em exílio desesperador, num canto remoto e seqüestrado de Adhirbáyján, e vos tendes levantado para exterminar Seus companheiros. Fosse eu invocar sobre vos a maldição de Deus, certo estou de que a divina ira vingadora vos afligiria penosamente. Tal não é, entretanto, minha súplica. Com o último suspiro oro que o Todo Poderoso remova a mácula de vosso pecado e vos faça acordar do sono da negligência (33)."
Estas palavras comoveram muito profundamente seu algoz. Fingindo que a espada que ele segurava em prontidão em suas mãos precisasse ser novamente amolada, saiu apressadamente, determinado a nunca mais voltar. "Quando me foi designado este serviço," ouviu-se ele queixar, enquanto chorava amargamente, "incumbiram-se de entregar em minhas mãos somente assassinos convictos e salteadores de estradas. Agora me mandam derramar o sangue de uma pessoa não menos santa que o próprio Imame Músáy-i-Kázim!" (34) Pouco depois, ele partiu para Khurasán e lá tentou ganhar a vida como porteiro e pregoeiro. Aos crentes daquela província, relatou ele a história daquela tragédia e expressou arrependimento pelo ato que fora compelido a perpetrar. Cada vez que recordava aquele incidente, cada vez que lhe era mencionado o nome de Hájí Mirza Siyyid 'Alí, as lágrimas que ele não podia reprimir corriam de seus olhos, lágrimas que testemunharam o afeto que aquele homem santo lhe instilara no coração.
2. Mirza Qurbán-'Alí (35), nativo de Bárfurúsh na província de Mázindarán e proeminente figura na comunidade, conhecido pelo nome de Ni'matu'lláhí. Era homem de sincera piedade e dotado de uma natureza muito nobre. Tal era a pureza de sua vida que um número considerável entre as notabilidades de Mázindarán, de Khurásán e Teerã lhe haviam hipotecado sua lealdade e o estimavam como a verdadeira personificação da virtude. Tanto apreço lhe deram seus conterrâneos, que, na ocasião de sua peregrinação a Karbilá, uma vasta Congregação de devotados admiradores se amontoaram em seu caminho a fim de lhe prestar homenagem. Em Hamadán, bem como em Kirmansháh, um grande número de pessoas sentia a influência de sua personalidade e se uniu à companhia de seus seguidores. Onde quer que ele fosse, era saudado pelas aclamações do povo. Essas demonstrações de entusiasmo popular lhe eram, entretanto, extremamente desagradáveis. Ele evitava a multidão e desdenhava a pompa e a cerimônia de liderança. No caminho a Karbilá, enquanto passava por Mandalíj, um shaykh de grande influência a tal ponto ficou encantado com ele que renunciou a tudo o que havia anteriormente estimado e, deixando amigos e discípulos, o seguiu até Ya'qúbíyyih. Mirza Qurbán-'Alí porém, conseguiu induzi-lo a regresar a Mandalíj e reassumir o trabalho que ele abandonara.
Ao regressar de sua peregrinação, Mirza Qurbán-'Alí conheceu Mullá Husayn e por seu intermédio abraçou a verdade da Causa. Devido à doença, não pode juntar-se aos defensores do forte de Tabarsí, e, se não fosse sua inabilidade de viajar a Mázindarán, teria sido ele o primeiro a se unir com seus ocupantes. Depois de Mullá Husayn, entre os discípulos do Báb, Vahid era a pessoa a quem ele estava mais ligado. Durante minha visita a Teerã, fui informado de que ele consagrara a vida ao serviço da Causa e se levantara com devoção exemplar para lhe promover os interesses em toda parte. Muitas vezes eu ouvia Mirza Qurbán-'Alí, que estava então na capital, deplorar aquela doença. "Quão profundamente lastimo," eu várias vezes o ouvia dizer, "haver sido privado de meu quinhão da taça da qual Mullá Husayn e seus companheiros sorveram! Anseio por me unir com Vahíd e me alistar sob sua bandeira e me esforçar para compensar por minha falha anterior." Estava se preparando para sair de Teerã quando de repente foi preso. Seus trajes modestos deram testemunho do grau de seu desprendimento. Vestido em uma túnica branca, segundo o costume dos árabes, 'abá (36) de tecido grosso e usando o toucado do povo do Iraque parecia, quando andava nas ruas, a própria personificação da renúncia. Aderia escrupulosamente a todas as práticas de sua Fé e com piedade exemplar fazia suas devoções. "O próprio Báb se conforma às práticas de Sua Fé em seus mais minuciosos detalhes", freqüentemente ele dizia. "Deverei eu, de minha parte, descuidar das coisas que são observadas por meu Líder?"
Quando Mirza Qurbán-'Alí foi apreendido e levado à presença do Amír-Nizám, houve uma comoção tal como Teerã raramente experimentara. Grandes multidões de pessoas se aglomeravam nas entradas da sede do governo, ansiosas para saber o que lhe aconteceria. "Desde ontem à noite," disse o Amír, logo que o viu, "tenho sido assediado por oficiais estaduais de todas as classes, que vieram interceder vigorosamente por vós (37). Do que tenho sabido sobre vossa posição e a influência que vossas palavras exercem, não sois muito inferior ao próprio Siyyid-i- Báb. Tivésseis reclamado para vós a posição de líder, melhor teria sido do que declarar vossa lealdade a alguém que vos é por certo inferior em conhecimento." "O conhecimento por mim adquirido," replicou ele audazmente, "levou-me a me curvar em lealdade diante Daquele que reconheço como meu Senhor e meu Líder. Desde que atingir a idade de adulto, tenho considerado como os motivos dominantes de minha vida, a justiça e a eqüidade. Eu O tenho julgado eqüitativamente e chegado à conclusão de que, se é falso esse Jovem, cujo transcendente poder é atestado por amigo e inimigo igualmente, então todo Profeta de Deus, desde tempos imemoriais até o dia presente deve ser denunciado como a própria personificação da falsidade! Eu posso me assegurar da inquestionável devoção de mais de mil admiradores e, no entanto, sou impotente para mudar o coração do menor deles. Esse Jovem, porém, provou-se capaz de transformar, com o elixir de Seu amor, as almas dos mais rebaixados entre Seus semelhantes. Sobre mil pessoas como eu, tem Ele, só e sem apoio, exercido uma influência tal que, embora elas nem mesmo atingissem Sua presença, rejeitaram seus próprios desejos e se aderiram apaixonadamente a Sua vontade. Com plena consciência de que o sacrifício por eles feito é inadequado, anseiam, no entanto, por oferecer a vida em holocausto por amor a Ele, na esperança de que seja digna de ser mencionada em Sua Corte mais essa evidência de sua devoção."
"Sejam de Deus, ou não, as vossas palavras," observou o Amír-Nizám, "tenho aversão de pronunciar a sentença de morte contra o possuidor de tão exaltada posição." "Por que hesitar?", exclamou a vítima, impaciente. "Não estais ciente de que todos os nomes descendem do Céu? Aquele cujo nome é 'Alí (38), em cuja senda estou oferecendo minha vida, inscreveu desde tempos imemoriais meu nome, Qurbán-'Alí (39), no pergaminho de Seus escolhidos mártires. É este, em verdade, o dia em que celebro o festival de Qurbán, o dia em que haverei de selar com o sangue vital minha fé em Sua Causa. Não hesiteis pois, e tende certeza de que eu jamais vos culparei por vosso ato. Quanto mais depressa me tirardes a cabeça, maior será minha gratidão a vós." "Tirem-no deste lugar!", exclamou o Amír. "Um momento a mais, e esse dervixe terá lançado sobre mim seu encanto!" "Vós sois prova contra essa magia," replicou Mirza Qurbán-'Alí, "a qual pode cativar somente os puros de coração. A vós e àqueles que vos são iguais, jamais se poderá fazer compreender o poder encantador do elixir Divino que, veloz como um piscar de olhos, transforma as almas dos homens."
Exasperado com a resposta, o Amír-Nizám levantou-se de seu assento e, com todo o seu corpo trêmulo de ira, exclamou. "Nada, senão a lâmina da espada, pode silenciar esse povo iludido!" "Desnecessário é," disse ele aos algozes que lhe atendiam, "trazer a minha presença mais membros dessa odiosa seita. Palavras são impotentes para lhes vencer a obstinação inabalável. A qualquer um que possais induzir a retratar sua fé, soltai; quanto aos outros, tirai-lhes suas cabeças."
À medida que se aproximava da cena de sua morte, Mirza Qurbán-'Alí, intoxicado diante da perspectiva de iminente reunião com seu Bem-Amado, soltou jubilosas exclamações de exultação. "Apressai-vos a matar-me," exclamou com extático deleite, "pois com esta morte me tereis oferecido o cálice da vida eterna. Se bem que possais agora me extinguir o alento esmorecido, com uma miríade de vidas haverá meu Bem-Amado de me recompensar - vidas tais como nenhum coração mortal pode conceber!" "Escutai minhas palavras, vós que professais ser seguidores do Apóstolo de Deus," implorou, enquanto dirigia o olhar para a multidão de espectadores. "Maomé, o Sol da guia Divina, que em época anterior surgiu por cima do horizonte de Hijáz, novamente hoje, na pessoa de 'Ali-Muhammad, se levantou da Aurora de Shiráz, emitindo o mesmo brilho e conferindo o mesmo ardor. Uma rosa é uma rosa, seja qual for o jardim e o tempo em que floresça." Vendo por todos os lados como o povo estava surdo para seu chamado, exclamou: "Oh, a perversidade dessa geração! Como lhe passa despercebida a fragrância que aquela Rosa imperecível difundiu! Embora minha alma transborde de êxtase, não posso achar um coração, infelizmente, para comigo participar de seu encanto, nem mente para lhe apreender a glória."
Ao ver o corpo de Hájí Mirza Siyyid 'Alí, decapitado e sangrento a seus pés, sua excitação febril atingiu o auge. "Saudai," exclamou, enquanto sobre ele se prostrava, "saudai o dia de nosso regozijo mútuo, o dia de nossa reunião com nosso Bem-Amado!" "Aproximai-vos," chamou ao algoz, enquanto segurava nos braços o corpo, "aplicai vosso golpe, pois meu companheiro fiel não consente em se livrar de meu abraço e me chama para me apressar com ele em ir à corte do Bem-Amado." Um golpe pelo algoz caiu, de imediato sobre sua nuca. Poucos momentos mais tarde e a alma daquele grande homem se havia expirado. Esse golpe cruel despertou naqueles que o presenciaram, sentimentos de indignação e compaixão ao mesmo tempo. Gemidos de tristeza e lamentos ascenderam dos corações da multidão, provocando uma agonia que fazia lembrar as exclamações de pesar com que o povo, todo ano, saudava o dia de 'Áshúrá (40).
3. Veio então a vez de Hájí Mullá Ismá'íl-i-Qumí, nativo de Faráhán. Na juventude havia ele partido para Karbilá em busca da Verdade que ele diligentemente se esforçava por descobrir. Ele se associara a todos os principais ulemás de Najaf e Karbilá, havia se sentado aos pés de Siyyid Kázim e dele adquirido o conhecimento e a compreensão que lhe facilitaram, poucos anos depois, quando estava em Shiráz, reconhecer a Revelação do Báb. Distinguiu-se ele pela tenacidade de sua fé e pelo fervor de sua devoção. Assim que lhe veio a injunção do Báb, ordenando que Seus seguidores se apressassem a Khurásán, ele entusiasticamente respondeu, juntou-se aos companheiros que estavam procedendo a Badasht, onde recebeu o nome de Sirru'l-Vujúd. Enquanto na companhia deles, sua compreensão da Causa tornou-se mais profunda e seu zelo em promovê-la aumentou em proporção correspondente. Veio a ser a própria personificação do desprendimento e se sentia cada vez mais e mais impaciente para demonstrar de um modo digno o espírito que sua Fé havia nele inspirado. Na exposição do significado dos versículos do Alcorão e das tradições do Islã, mostrava percepção que poucos podiam rivalizar e a eloqüência com que expunha essas verdades lhe ganhou a admiração de seus co-discípulos. Nos dias em que o forte de Tabarsí se havia tornado o ponto onde se concentravam os discípulos do Báb, ele, acamado com doença padecia em desconsolação não podendo prestar seu auxílio e desempenhar seu papel em defendê-lo. Logo que recuperara a saúde, ao saber que aquele memorável assédio havia terminado com o massacre de seus co-discípulos, levantou-se com reforçada determinação para compensar, com seus labores abnegados, a perda sofrida pela Causa. Essa determinação levou-o, afinal, ao campo do martírio conferindo-lhe a coroa de mártir.
Conduzido ao cadafalso e esperando o momento de sua execução, lançou seu olhar para aqueles mártires gêmeos que o haviam precedido e ainda jaziam abraçados. "Bem fizestes, amados companheiros!", exclamou ele, enquanto fitava suas cabeças sangrentas. "Transformastes Teerã em um paraíso! Oxalá tivesse eu vos precedido!" Tirando do bolso uma moeda, a qual deu a seu algoz, pediu-lhe que comprasse para ele algo com que adoçar a boca. Tomou uma parte e lhe deu o resto, dizendo: "Já perdoei vosso ato; aproximai-vos e infligi vosso golpe. Há trinta anos anseio por presenciar este dia abençoado e receava levar esse desejo ao túmulo sem que fosse cumprido." "Aceita-me, ó meu Deus!" exclamou, enquanto volvia os olhos para o céu, "embora eu não o mereça, e conceda inscrever meu nome no pergaminho daqueles imortais que colocaram suas vidas no altar do sacrifício." Ainda oferecia suas devoções, quando o algoz, a seu pedido, lhe interrompeu de súbito sua oração (41).
4. Mal expirara ele, quando Siyyid Husayn-i-Turshízí, o mujtahid, foi conduzido por sua vez ao cadafalso. Era nativo de Turshíz, uma aldeia de Khurásán, e altamente estimado por sua piedade e sua retidão de conduta. Ele havia estudado por alguns anos em Najaf e foi por seus colegas mujtahids incumbido de proceder a Khurásán e lá propagar os princípios que lhe haviam sido ensinados. Ao chegar em Kázimayn, encontrou com Hájí Muhammad-Taqíy-i-Kirmání, um velho conhecido seu, que era um dos principais mercadores de Kirmán e que abrira um ramo de seu negócio em Khurásán. Como estava em viagem à Pérsia, decidiu acompanhá-lo. Esse Hájí Muhammad-Taqí fora amigo íntimo de Hájí Mirza Siyyid 'Alí, tio materno do Báb, e por seu intermédio havia ele sido convertido à Causa, no ano de 1264 A.H. (42), enquanto se preparava para sair de Shiráz em peregrinação a Karbilá. Ao ser informado da viagem planejada a Chihríq por Hájí Mirza Siyyid 'Alí com o fim de visitar o Báb, ele expressou seu ardente desejo de acompanhá-lo. Hájí Mirza Siyyid 'Alí lhe aconselhou que executasse seu primeiro propósito, procedesse a Karbilá e lá aguardasse sua carta, a qual lhe informaria se seria, ou não, aconselhável juntar-se a ele. De Chihríq foi Hájí Mirza Siyyid 'Alí ordenado a partir para Teerã, na esperança de que, após uma breve demora na capital, ele pudesse renovar sua visita ao Sobrinho. Enquanto em Chihríq, expressou sua aversão para regressar a Shiráz, pois não mais podia suportar a crescente arrogância de seus habitantes. Quando chegou em Teerã, pediu a Hájí Muhammad-Taqí que o acompanhasse. Siyyid Husayn foi com ele de Bagdá até a capital e, por seu intermédio, se converteu à Fé.
Ao enfrentar a multidão que a seu redor se aglomerara a fim de presenciar seu martírio, Siyyid Husayn levantou a voz e disse: "Ouvi-me, ó seguidores do Islã! Meu nome é Husayn e sou descendente do Siyyidu'sh-Shuhadá, que também tinha esse nome (43). Os mujtahids das cidades santas de Najaf e Karbilá têm dado unanimente testemunho de minha posição como autorizado expositor da lei e dos ensinamentos de sua Fé. Foi só recentemente que ouvi pela primeira vez o nome do Siyyid-i- Báb. O domínio que eu atingira sobre as sutilezas dos ensinamentos islâmicos me capacitou a apreciação do valor da Mensagem trazido pelo Siyyid-i- Báb. Estou convencido de que, fosse eu negar a Verdade por Ele revelada, teria eu, por este mesmo ato, renunciado minha lealdade a todas as Revelações precedentes. Solicito a cada um de vós que convoque os ulemás e mujtahids desta cidade para uma reunião, na qual eu em sua presença me incumbirei de estabelecer a verdade desta Causa. Que eles então julguem se posso, ou não, demonstrar a validade das pretensões avançadas pelo Báb. Se lhes satisfazerem as provas que aduzirei para sustentar meu argumento, que desistam de derramar o sangue dos inocentes; e seu eu falhar, que me inflijam o castigo merecido." Mal haviam estas palavras saído de seus lábios, quando um oficial no serviço do Amír-Nizám se interpôs arrogantemente, dizendo: "Trago comigo vossa sentença de morte assinada e selada por sete dos reconhecidos mujtahids de Teerã, que de próprio punho vos pronunciaram um infiel. Eu mesmo serei responsável perante Deus por vosso sangue no Dia do Juízo e atribuirei a responsabilidade àqueles líderes em cuja opinião nos pedem por nossa confiança e a cujas decisões fomos compelidos a nos submeter." Com estas palavras desembainhou o punhal e lhe infligiu tão violento golpe que instantaneamente ele caiu morto a seus pés.
5. Pouco depois, Hájí Muhammad-Taqíy-i-Kirmání foi conduzido à cena da execução. O espetáculo macabro com o qual se defrontou provocou-lhe veemente indignação. "Aproximai-vos, tirano miserável e sem coração," exclamou ele, enquanto se volvia para seu perseguidor, "e apressai-vos a me matar, pois estou impaciente para me juntar a meu bem-amado Husayn. Sobreviver a ele é um tormento que não posso suportar."
6. Assim que Hájí Muhammad-Taqí pronunciara estas palavras, Siyyid Murtadá, um dos proeminentes mercadores de Zanján, apressou-se a preceder aos companheiros. Lançou-se sobre o corpo de Hájí Muhammad-Taqí e alegou que, sendo um siyyid, seu martírio seria mais meritório aos olhos de Deus do que o de Hájí-Muhammad-Taqí. Enquanto o algoz desembainhou a espada, Siyyid Murtadá invocava a memória de seu irmão martirizado, que lutara lado a lado com Mullá Husayn; e tais foram suas referências que os espectadores se maravilharam da inalterável tenacidade da fé que lhe inspirava.
7. Em meio a esse tumulto que as palavras comovedoras de Siyyid Murtadá provocara, Muhammad-Husayn-i-Marághi'í avançou precipitadamente e implorou que lhe fosse permitido ser martirizado de imediato, antes de serem trucidados seus companheiros. Assim que lançou o olhar sobre o corpo de Hájí Mullá Ismá'íl-i-Qumí, para quem ele tinha afeto profundo, precipitou-se sobre ele e segurando-o em seu abraço, exclamou: "Jamais consentirei em me separar de meu muito amado amigo, em quem tenho depositado a máxima confiança e de quem tantas evidências tenho recebido de um afeto sincero e profundo!"
Sua ansiedade de preceder um ao outro em sacrificar a vida pela sua Fé assombrou a multidão, e não sabiam com certeza qual dos três companheiros seria preferido. Instaram com tal fervor que, finalmente, foram degolados todos os três, ao mesmo tempo.
Tão grande fé e tamanha evidência de crueldade desenfreada, olhos humanos raramente contemplaram. Embora fossem poucos em número, no entanto, ao recordarmos as circunstâncias de seu martírio, somos compelidos a reconhecer o caráter estupendo daquela força capaz de evocar tão insólito espírito de sacrifício. Quando nos lembramos da exaltada posição que essas vítimas haviam ocupado, quando observamos o grau de sua renúncia e a vitalidade de sua fé e recordamos a pressão exercida de fontes influentes a fim de afastar o perigo que lhes ameaçava a vida - acima de tudo, quando concebemos em nossas mentes o espírito que desafiou as atrocidades que um impiedoso inimigo se degradou a ponto de lhes infligir, somos impelidos a considerar esse episódio uma das mais trágicas ocorrências nos anais desta Causa (44).
A esta altura em minha narrativa tive o privilégio de submeter a Bahá'u'lláh as partes da obra já revistas e completadas. Quão profusamente foram recompensados meus labores por Aquele cujo favor, tão somente, busco, e para a satisfação de quem empreendi esta tarefa! Benevolamente chamou-me Ele a Sua presença e me concedeu Suas bênçãos. Eu estava em minha casa na cidade-prisão de Akká, onde residia, nas proximidades da casa de Áqáy-i-Kalím, quando me veio a notícia de que meu Bem-Amado me chamara. Daquele dia, o sétimo do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1306 A. H. (45), jamais esquecerei. Aqui reproduzo, em suma, Suas palavras dirigidas a mim naquela memorável ocasião:
"Em uma Epístola que ontem revelamos, explicamos o significado das palavras 'Afastai vossos olhos' (46) no decorrer de Nossa referência às circunstâncias que acompanharam a reunião em Badasht. Celebrávamos, na companhia de várias eminentes notabilidades, as núpcias de um dos príncipes de sangue real em Teerã, quando Siyyid Ahmad-i-Yazdí, pai de Siyyid Husayn, amanuense do Báb, apareceu de súbito na porta. Ele nos fez sinal, e parecendo-nos haver trazido uma mensagem importante que ele desejava entregar imediatamente. Nós, entretanto, não podíamos no momento deixar a reunião e lhe indicamos que esperasse. Ao dispersar-se a reunião, ele nos informou que Táhirih fora confinada estritamente em Qazvín, estando em grave perigo sua vida. De imediato, chamamos Muhammad-Hádiy-i-Farhádv e lhe demos as instruções necessárias para libertá-la de seu cativeiro e conduzi-la à capital. Desde que o inimigo se havia apoderado de Nossa casa, já não poderíamos acomodá-la por um tempo indefinido. Assim providenciamos sua transferência de Nossa casa para a do Ministro de Guerra (47), que naqueles dias fora desonrado por seu soberano e deportado a Káshán. A sua irmã, que ainda se contava no número de Nossos amigos, pedimos fosse a anfitriã de Táhirih.
Táhirih permaneceu em sua companhia até que o chamado do Báb, mandando que seguíssemos a Khurásán, chegou a Nossos ouvidos. Decidimos que Táhirih procedesse de imediato a essa província e incumbimos Mirza (48) de conduzi-la a um lugar fora do portão da cidade e daí a qualquer localidade que ele julgasse aconselhável nessa vizinhança. Ela foi conduzida a um pomar perto do qual havia uma casa abandonada, onde encontraram um homem velho que era seu zelador. Mirza Músá, ao regressar, nos informou da recepção que lhes fora dada e elogiou muito a beleza da paisagem circunvizinha. Providenciamos, subseqüentemente, sua partida para Khurásán, prometendo para lá seguir dentro de poucos dias.
"Breve Nos reunimos com ela em Badasht, onde alugamos um jardim para seu uso, e escolhemos o mesmo Muhammad-Hádí que conseguira sua libertação, como vigia. Cerca de setenta de Nossos companheiros estavam conosco, acomodados em um lugar nas proximidades desse jardim.
"Adoecemos um dia, ficando acamado. Táhirih mandou um pedido de permissão para Nos visitar. Admiramo-Nos de sua mensagem e não sabíamos como deveríamos responder. Subitamente, Nós a vimos na porta, com o rosto desvelado diante de Nós. Quão bem Mirza Aqá Jan (49) comentou esse incidente. 'A face de Fatimih', disse ele, 'haverá de se revelar no Dia do Juízo e aparecer desvelada diante dos olhos dos homens. Nesse momento se fará ouvir a voz do Invisível dizendo: "Tirai vossos olhos daquilo que tendes visto."
Que grande consternação apoderou-se dos companheiros naquele dia! Receio e perplexidade inundaram seus corações. Alguns, não podendo tolerar o que para eles assinalava desprezo revoltante dos costumes estabelecidos do Islã, fugiram horrorizados de sua face. Estarrecidos, buscaram refúgio em um castelo abandonado na vizinhança. Entre aqueles que, escandalizando-se pela sua conduta, se afastaram completamente, havia Siyyid-i-Nahrí (50) e seu irmão Mirza Hádí, a ambos dos quais mandamos dizer que era desnecessário abandonar seus companheiros e buscar refúgio em um castelo.
"Dispersaram-se afinal Nossos amigos, deixando-Nos à mercê de Nossos inimigos. Quando, mais tarde, fomos a Ámul, tamanho foi o tumulto provocado pelo povo, que mais de quatro mil pessoas se haviam congregado no masjid e se amontoado nos telhados de suas casas. O mullá principal da cidade Nos denunciou veementemente. 'Tendes pervertido a Fé do Islã', gritou ele em seu dialeto mázindarání, 'e lhe maculado a fama! Na noite passada eu vos vi em sonho entrar no masjid, onde se amontoava uma multidão ávida de presenciar vossa chegada. Enquanto a turba se apinhava ao vosso redor, olhei e eis, o Qá'ím estava num canto donde fitava vosso semblante, sendo demonstrada em Suas feições grande surpresa. Considero esse sonho uma evidência de vosso desvio do caminho da Verdade.' Nós lhe asseguramos que a expressão de surpresa naquele semblante era sinal da forte desaprovação, por parte do Qá'ím, do tratamento que ele e seus concidadãos Nos deram. Interrogou-nos a respeito da Missão do Báb. Nós lhe informamos que, embora nunca houvéssemos com Ele encontrado face a face, nutríamos, no entanto, grande afeição por Ele. Expressamos Nossa convicção profunda de que nenhuma ação Dele, sob quaisquer circunstâncias, fora contrária à Fé do Islã.
"O mullá e seus seguidores, entretanto, recusaram acreditar em Nós e rejeitaram Nosso testemunho como uma perversão da verdade. Confinaram-Nos, afinal, e proibiram que Nossos amigos Conosco encontrassem. O governador interino de Ámul conseguiu libertar-Nos de Nosso encarceramento. Por uma abertura no muro que ele mandou que seus homens fizessem, possibilitou-Nos a saída daquele aposento e Nos conduziu a sua casa. Mal os habitantes foram informados desse ato, quando contra Nós se levantaram, assediaram a residência do governador, Nos apedrejaram e Nos lançaram na face as mais vis invectivas.
"Na ocasião em que tencionávamos enviar Muhammad-Hádiy-i-Farhádi a Qazvín, a fim de consumar a libertação de Táhirih e conduzi-la a Teerã, Shaykh Abú-Turáb Nos escreveu, insistindo que tal tentativa acarretava graves riscos e poderia causar um tumulto sem precedentes. Recusamos-Nos a ser dissuadidos de Nosso propósito. Esse Shaykh era um homem de bom coração, simples e humilde em temperamento e se comportava com grande dignidade. Falta-lhe, porém, coragem e determinação e em certas ocasiões, ele demonstrava fraqueza."
Deveria se acrescentar agora uma palavra sobre as etapas finais da tragédia que deu testemunho do heroísmo dos Sete Mártires de Teerã. Durante três dias e três noites permaneceram abandonados no Sabzih-Maydán, adjacente ao palácio imperial, expostos a indignidades indizíveis que um inimigo inexorável sobre eles amontoava. Milhares de xiitas devotos aglomeravam-se ao redor de seus cadáveres, neles batiam com os pés e lhes cuspiam nas faces. Eram apedrejados, amaldiçoados e zombados pela irosa multidão. Pilhas de refugo eram jogadas sobre seus restos mortais pelos espectadores, e as mais vis atrocidades perpetradas em seus corpos. Nenhuma voz se levantou em protesto, nenhuma mão se estendeu para deter o braço do bárbaro opressor.
Depois de haverem mitigado o tumulto de sua paixão, enterram-nos fora do portão da capital, em um lugar entre os limites do cemitério público, adjacente ao fosso, entre os portões de Naw e de Sháh'Abdu'l-'zím. Foram todos colocados na mesma sepultura, assim permanecendo unidos em corpo, como haviam sido em espírito durante os dias de sua vida terrena (51).
A notícia de seu martírio veio como mais um golpe para o Báb, já imerso em tristeza por causa do destino que sobreviera aos heróis de Tabarsí. Na Epístola detalhada que Ele revelou em sua honra - cada palavra da qual deu testemunho da exaltada posição que aos Seus olhos eles ocupavam - referiu-se a esses heróis como aqueles mesmos "Sete Bodes" mencionados nas tradições do Islã, que no Dia do Juízo "andarão na frente do prometido Qá'im." Simbolizarão com sua vida o mais nobre espírito de heroísmo e, pela sua morte, haverão de manifestar verdadeira aquiescência em Sua vontade. Andar na frente do Qá'ím, explicou o Báb, significava que seu martírio precederá ao do próprio Qá'im, quem é seu Pastor. O que o Báb predissera, veio a ser cumprido, já que Seu próprio martírio ocorreu quatro meses depois, em Tabríz.
Aquele ano memorável testemunhou, além do martírio do Báb e de Seus sete companheiros em Teerã, os momentosos acontecimentos de Nayríz, os quais culminaram na morte de Vahíd. Perto do fim daquele mesmo ano, Zanján também se tornou o centro de uma tempestade que se enfurecia com excepcional violência em todo o distrito circunvizinho, trazendo em seu rastro o massacre de um vasto número dos mais firmes dos discípulos do Báb. Esse ano, tornado memorável pelo heroísmo magnífico que aqueles intrépidos defensores de Sua Fé demonstraram - sem mencionarmos as maravilhosas circunstâncias que acompanharam Seu próprio martírio - deve permanecer para sempre um dos mais gloriosos capítulos já registrados na sangrenta história dessa Fé. Toda a face da terra foi enegrecida pelas atrocidades que um inimigo cruel e ávido perpetrou irrestrita e persistentemente. De Khurásán, nos confins ocidentais da Pérsia até Tabríz, cena do martírio do Báb, e desde as cidades do norte, como Zanján e Teerã, estendendo-se para o sul até Nayríz, na província de Fárs, o país inteiro estava envolto de trevas - trevas que prenunciavam o alvorecer da Revelação que o esperado Husayn breve haveria de manifestar, uma Revelação mais potente e mais gloriosa do que aquela que o próprio Báb proclamara (52).
CAPÍTULO XXII
A REVOLTA DE NAYRÍZ
Nos primeiros dias do assédio do forte de Tabarsí, Vahíd estava ocupado em difundir os ensinamentos da Causa em Burújird, bem como na província de Kurdistán. Ele havia resolvido ganhar a maioria dos habitantes daquelas regiões para a Fé do Báb e planejado seguir de lá a Fárs, onde continuaria seus labores. Logo que soube da partida de Mullá Husayn para Mázindarán, apressou-se em ir à capital e empreendeu os preparativos necessários para sua viagem ao forte de Tabarsí. Prestes estava para sair, quando Bahá'u'lláh veio de Mázindarán e lhe informou da impossibilidade de se unir com seus irmãos. Essa notícia muito o entristeceu, e seu único consolo naqueles dias consistia em visitar Bahá'u'lláh freqüentemente e obter o benefício de Seus sábios e inestimáveis conselhos (1).
Vahíd determinou-se, afinal, a proceder a Qazvín e lá continuar o trabalho em que antes se havia ocupado. Daí partiu para Qum e Káshán, onde encontrou com os co-discípulos e pode lhes estimular o entusiasmo e reanimar os esforços. Continuou a viagem a Isfáhán, Ardistán e Ardikán, proclamando em cada uma destas cidades, com deleite e intrepidez, os ensinamentos fundamentais de seu Mestre, e conseguindo ganhar um número considerável de hábeis defensores da Causa. Chegou em Yazd em tempo de celebrar com os irmãos as festividades de Naw-Rúz, e estes expressaram seu grande prazer em recebê-lo, muito se animando com sua presença. Como era homem de influência e renome, possuía ele, além de sua casa em Yazd, onde se estabelecera a esposa com os quatro filhos, uma casa em Dáráb, a morada de seus ancestrais, e outra em Nayráz, ricamente aparelhada.
Vahíd chegou em Yazd no primeiro dia do mês de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1266 A. H. (2), o quinto dia do qual, aniversário da Declaração do Báb, coincidiu com a festa de Naw-Rúz. Os principais ulemás e notabilidades da cidade vieram todos nesse dia para saudá-lo e lhe apresentar seus votos de felicidade. Navvab-i-Radaví, o mais mesquinho e mais proeminente entre seus adversários, estava presente nessa ocasião e fez algumas insinuações maliciosas sobre a extravagância e o esplendor dessa recepção. "O banquete imperial do Xá," ouviu-se ele observar, "dificilmente pode esperar rivalizar a suntuosa refeição que nos oferecestes. Desconfio que, além deste festival nacional que hoje celebramos, estais comemorando outro." A resposta audaz e sarcástica de Vahíd provocou o riso dos que estavam presentes. Todos aplaudiram por ser apropriada sua observação, em vista da avareza e da malícia do Navvab. Nunca havendo sido metido a ridículo em uma companhia tão grande e distinta, o Navvab se sentiu ferido por aquela resposta. O fogo que se abafava em sua mente contra o opositor, agora flamejou com crescente intensidade e o impeliu a satisfazer sua sede de vingança.
Vahíd aproveitou a ocasião para proclamar nessa reunião, destemidamente e sem reserva, os princípios básicos de sua Fé e demonstrar sua validade. A maioria dos que o ouviram conhecia apenas parcialmente as feições distintas da Causa ignorando seu pleno significado. Alguns entre eles se sentiram irresistivelmente atraídos e, logo, a abraçaram; os demais, não podendo lhe desafiar publicamente as pretensões, denunciaram-na em seus corações e juraram se valer de todos os meios em seu poder para extirpá-la. Diante da eloqüência e da intrepidez com que ele expunha a Verdade, inflamava-lhes a hostilidade e mais forte se tornava a determinação de tentar, sem demora, lhe derrubar a influência. Aquele mesmo dia testemunhou a combinação de suas forças contra ele, e assinalou o início de um episódio destinado a trazer em seu rastro tanto sofrimento e aflição (3).
Destruir a vida de Vahíd veio a lhes ser o objetivo supremo de suas atividades. Espalharam a notícia de que, no dia de Naw-Rúz, em meios aos reunidos dignitários da cidade, tanto civis como eclesiásticos, Siyyid Yahyáy-i-Dárábí tivera a audácia de desvelar as desafiadoras feições da Fé do Báb, e aduzira, para os fins de seu argumento, provas e evidências colhidas do Alcorão, bem como das tradições do Islã. "Embora seus ouvintes," insistiam eles, "fossem alguns dos mais ilustres dos mujtahids da cidade, não se encontrou entre aquela congregação quem se aventurasse a protestar contra suas veementes asserções das pretensões de sua crença. Os que o ouviam guardavam silêncio, fato esse responsável pela onda de entusiasmo a seu favor que varreu a cidade, trazendo a seus pés nada menos que a metade de seus habitantes, enquanto os restantes estão sendo rapidamente atraídos."
Tal notícia espalhou-se como uma conflagração por toda a cidade de Yazd e pelo distrito circunvizinho, ateando por um lado, a chama de violento ódio e por outro, sendo a causa de um considerável aumento dos que já se haviam identificado com essa Fé. De Ardikán e Mashhád, bem como das cidades e aldeias mais longínquas, multidões, ávidas de saber da nova Mensagem, se aglomeravam na casa de Vahíd. "Que deveremos fazer?" perguntavam-lhe. "Qual o modo que nos aconselhas para demonstrarmos a sinceridade de nossa fé e a intensidade de nossa devoção?" Desde a manhã até a noite, Vahíd absorvia-se em lhes resolver as perplexidades e dirigir os passos no caminho do serviço.
Durante quarenta dias persistiu essa atividade febril por parte dos zelosos aderentes, tanto mulheres como homens. Sua casa se tornara o centro para reunir uma hoste inumerável de devotos que anelavam por demonstrar dignamente o espírito da Fé que lhes havia inflamado a alma. A comoção que se seguiu forneceu ao Navvab-i-Radaví um novo pretexto para alistar em seus esforços contra o adversário o apoio do governador da cidade (4), que era jovem e inexperiente nos assuntos de Estado. Logo caiu ele vítima das intrigas e maquinações daquele perverso conspirador, que conseguiu induzi-lo a despachar uma força de homens armados para assediar a casa de Vahíd. Enquanto um regimento do exército procedia a esse lugar, uma turba composta dos elementos degradados da cidade, à instigação do Navvab, dirigia seus passos ao mesmo lugar, determinada a intimidar os ocupantes com suas ameaças e imprecações.
Embora cercado por forças hostis de todos os lados, Vahíd continuou, da janela do andar superior de sua casa, a animar o zelo de seus aderentes e esclarecer qualquer coisa que ainda estivesse obscura em suas mentes. Diante do espetáculo de um regimento inteiro reforçado por um povo enfurecido, preparando-se para atacá-los, dirigiram-se a Vahíd em sua aflição e lhe imploraram que lhes guiasse os passos. "Esta própria espada que jaz em minha frente," foi sua resposta, enquanto permanecia sentado do lado da janela, "foi dada a mim pelo próprio Qá'im. Deus sabe, tivesse eu sido por Ele autorizado a travar uma guerra santa contra esse povo, eu só, se nenhum auxílio, teria aniquilado suas forças. É ordenado, porém, que eu me abstenha de tal ato." "Esse mesmo corcel," acrescentou ele, ao avistar o cavalo que seu servidor Hasan havia selado e trazido para a frente de sua casa, "o falecido Xá Muhammad me deu para usar ao empreender a missão da qual me incumbira, a de conduzir uma investigação imparcial da natureza da Fé proclamada pelo Siyyid-i- Báb. Pediu-me que lhe trouxesse pessoalmente os resultados da indagação, por ser eu o único entre os principais eclesiásticos de Teerã em quem ele podia depositar implícita confiança. Empreendi essa missão, firmemente resolvido a refutar os argumentos desse siyyid, a induzi-Lo a abandonar Suas idéias e reconhecer meu grau de líder, e determinado a conduzi-Lo comigo a Teerã como testemunho do triunfo realizado. Quando, entretanto, entrei em Sua presença e Lhe ouvi as palavras, ocorreu o contrário daquilo que eu imaginara. Durante minha primeira audiência com Ele, fiquei completamente embaraçado e confuso; até o fim da segunda, me sentia tão impotente e ignorante como uma criança; a terceira me encontrou tão humilde como o pó sob Seus pés. Em verdade havia Ele cessado de ser o siyyid desprezível que eu anteriormente imaginara. Para mim era Ele a manifestação do próprio Deus, a viva personificação do Espírito Divino. Sempre desde aquele dia, tenho ansiado por sacrificar minha vida por amor a Ele. Regozijo-me por estar se aproximando rapidamente o dia que eu almejava testemunhar."
Vendo a agitação que se apoderara dos amigos, exortou-lhes que permanecessem calmos e pacientes e tivessem certeza de que o onipotente Vingador infligiria, dentro em breve, com Sua própria mão invisível, uma derrota esmagadora sobre as forças dispostas contra Seus bem-amados. Mal pronunciara estas palavras quando veio a notícia de que um certo Muhammad-Abdu'lláh, que ninguém suspeitava estar ainda vivo, havia de repente aparecido com alguns de seus companheiros, que também não tinham sido vistos mais e, levando o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" (5), se haviam precipitado contra os assaltantes, dispersando-lhes as forças. Demonstrou tal coragem que o destacamento inteiro, abandonando as armas, buscaram refúgio, junto com o governador, no forte de Nárín.
Naquela noite, Muhammad-'Abdu'lláh pediu que o conduzissem à presença de Vahíd. Assegurou-lhe sua fé na Causa e lhe informou dos planos que concebera para subjugar o inimigo. "Embora vossa intervenção," replicou Vahíd, "tenha afastado desta casa hoje o perigo de uma calamidade imprevista, deveis reconhecer no entanto, que até agora nossa contenda com essas pessoas se limitou a um argumento que se centraliza na Revelação do Sáhibu'z-Zamán. O Navvab, porém, doravante será induzido a instigar o povo contra nós, alegando haver eu me levantado para estabelecer minha soberania indisputável sobre a província inteira e com a intenção de estendê-la sobre toda a Pérsia." Aconselhou-lhe Vahíd que de imediato partisse da cidade e o entregasse ao cuidado e proteção do Onipotente. "Antes de chegar a hora marcada," ele assegurou, "nem sequer o mínimo dano poderá o inimigo nos infligir."
Muhammad-'Abdu'lláh entretanto, preferiu não levar em conta o conselho de Vahíd. "Seria covarde," ouviu-se ele comentar enquanto se retirava, "se abandonasse meus amigos à mercê de um adversário irado e sanguinário. Qual então, seria a diferença entre mim e aqueles que, desertaram o Siyyidu'sh-Shuhadá (6), no dia Ashúrá (7), deixando-o desamparado no campo de Karbilá? Um Deus de misericórdia, tenho confiança, será indulgente para comigo e perdoará minha ação."
Com essas palavras, dirigiu os passos ao forte de Nárín e compeliu as forças aglomeradas nas cercanias a buscar um refúgio inglorioso dentro dos muros do forte; conseguiu que o governador permanecesse confinado junto com aqueles assediados. Ele mesmo vigiava, pronto para interceptar quaisquer reforços que tentassem alcançá-los.
O Navvab, entrementes, conseguira incitar um tumulto geral com a participação da massa dos habitantes. Quando se preparavam para atacar sua casa, Vahíd chamou Siyyid 'Abdu'l-'Azím-i-Khu'í cognominado Siyyid-i-Khál-Dár que havia participado por alguns dias na defesa do forte de Tabarsí, a dignidade de cujo porte atraia atenção geral e mandou que montasse seu próprio corcel e dirigisse publicamente, pelas ruas e bazares, um apelo em seu nome à população inteira, exortando-lhes que abraçassem a Causa do Sáhibu'd-Zamán. "Que saibam," acrescentou ele, "que eu nenhuma intenção tenho de contra eles travar guerra santa. Sejam advertidos, porém, de que, se persistirem em assediar minha casa e continuarem seus ataques contra mim, desafiando completamente minha posição e linhagem, serei constrangido, como medida de defesa própria, a lhes fazer resistência e dispersar suas forças. Se preferirem rejeitar meu conselho e ceder aos sussurros do astucioso Navvab, mandarei que sete de meus companheiros lhes repulsem ignominiosamente suas forças e esmaguem suas esperanças."
O Siyyid-i-Khál-Dár montou de um salto o corcel e, acompanhado por quatro de seus irmãos escolhidos, seguiu pelo mercado e fez ressoar, em acentos de sobrepujante majestade, a advertência que fora incumbido de proclamar. Não contente com a mensagem que lhe fora confiada, aventurou-se a acrescentar, de seu próprio modo inimitável algumas palavras com as quais tentou realçar o efeito que a proclamação produzira. "Acautelai-vos," bradou ele, "se desprezardes nosso apelo. Minha voz erguida advirto-vos, se há de provar suficiente para fazer tremerem os próprios muros de vosso forte, e a força de meu braço será capaz de quebrar a resistência de seus portões!"
Sua voz estentórea ressoava como uma trombeta, difundindo consternações nos corações daqueles que a ouviam. Unânime a população apavorada declarou sua intenção de depor as espadas e deixar de molestar Vahíd, cuja linhagem prometeram daí em diante reconhecer e respeitar.
Constrangido por haver o povo recusado terminantemente a lutar contra o Vahíd, o Navvab induziu-o a dirigir o ataque contra Muhammad-'Abdu'lláh e seus companheiros, estacionados nas proximidades do forte. O choque dessas forças levou o governador a sair de seu refúgio e dar ordens ao destacamento assediado para juntar-se com aqueles recrutados pelo Navvab. Muhammad-'Abdu'lláh havia começado a dispersar a turba que se precipitara da cidade para investir contra ele quando, de súbito, foi atacado pelo fogo que as tropas abriram sobre ele por ordem do governador. Uma bala atingiu-lhe o pé, jogando-o no chão. Alguns de seus companheiros também foram feridos. Depressa seu irmão retirou-o para um lugar de segurança, donde o levou a seu pedido, à casa de Vahíd.
O inimigo seguiu-o até essa casa, com a determinação absoluta de o prender e trucidar. O clamor do povo que se aglomerara em volta de sua casa compeliu Vahíd a mandar que Mullá Muhammad-Ridáy-i-Manshádí um dos ulemás mais esclarecidos de Manshhád, que havia rejeitado o turbante e se oferecido como seu vigia, saísse, com o auxílio de seis companheiros, que ele deveria escolher, dispersasse suas forças. "Que levante a voz, cada um de vós," ordenou-lhes, "e repita sete vezes a palavra 'Alláh-u-Akbar (8) e, na sétima invocação, salte a frente, todos ao mesmo tempo, em meio a vossos assaltantes."
Mullá Muhammad-Ridá, a quem Bahá'u'lláh dera o nome de Rada'r-Rúh, pôs-se em pé e, com seus companheiros, procedeu diretamente a cumprir as instruções recebidas. Aqueles que o acompanharam, embora de físico frágil e inexperiente na arte da esgrima, estavam inflamados com uma fé que os tornou o terror de seus adversários. Sete dos mais temíveis entre o inimigo pereceram naquele dia, que era o dia vinte e sete do mês de Jamádíyu'th-Thání (9). "Mal havíamos derrotado o inimigo," relatou Mullá Muhammad-Ridá, "e voltado à casa de Vahíd, quando encontramos Muhammad-'Abdu'lláh, que jazia ferido em nossa frente. Ele foi levado a nosso líder e participou do alimento do qual este fora servido, depois do qual o retiraram para um esconderijo, onde permaneceu em segredo até se recuperar da ferida. Foi apreendido afinal e trucidado pelo inimigo."
Naquela mesma noite, Vahíd mandou os companheiros dispersarem-se e exercerem a máxima vigilância para lhes garantir a segurança. Aconselhou a esposa que se retirasse, com os filhos e todos os pertences, para a casa do pai, deixando atrás qualquer coisa que a ele pessoalmente pertencesse. "Esta residência palaciana," informou-lhe ele, "construí com a intenção única de que fosse afinal demolida na senda da Causa, e o imponente mobiliário com que a adornei foi comprado na esperança de que algum dia eu pudesse sacrificá-lo por amor a meu Bem-Amado. Então amigo e inimigo igualmente virão a compreender que quem possuía esta casa foi dotado de tão grande e inestimável herança que nenhuma mansão terrestre, não importando quão suntuosamente e com quanta magnificência estivesse adornada, tinha valor aos seus olhos; que se rebaixara, segundo sua estimativa, ao estado de uma pilha de ossos, ao qual somente os cães da terra se sentiriam atraídos. Oxalá pudesse tão irrefutável evidência do espírito de renúncia abrir os olhos desse povo perverso e nele despertar o desejo de seguir nas pegadas daquele que demonstrou esse espírito!"
No segundo quarto daquela mesma noite, Vahíd levantou-se e, juntando os escritos do Báb que estavam em seu poder, bem como cópias de todos os tratados que ele mesmo compusera, confiou-os a seu servidor Hasan e mandou que os levasse a um lugar fora do portão da cidade, onde a estrada se desviava em direção a Mihráz. Ordenou-lhe aguardar sua chegada e o advertiu de que, fosse ele desobedecer suas instruções, com ele nunca mais poderia se encontrar.
Logo que Hasan montou o cavalo e se preparou para sair, os gritos dos sentinelas, que vigiavam a entrada do forte, chegaram a seus ouvidos. Receando que o prendessem e apanhassem os preciosos manuscritos em seu poder, decidiu seguir por um caminho diferente daquele que seu mestre lhe ordenara tomar. Enquanto passava atrás do forte, os sentinelas, reconhecendo-o, fuzilaram seu cavalo e o tomaram preso.
Vahíd, entrementes, preparava-se para sair de Yazd. Deixando os dois filhos, Siyyid Ismá'il e Siyyid 'Alí-Muhammad, entregues ao cuidado da mãe partiu acompanhado por seus outros dois filhos, Siyyid Ahmad e Siyyid Mihdí, juntamente com dois de seus companheiros, ambos residentes de Yazd, que lhe haviam pedido permissão para acompanhá-lo em sua viagem. O primeiro, Ghulám-Ridá de nome, era homem de coragem excepcional, enquanto o último Ghulám-Ridáy-i-Kúchik, se distinguira na arte de pontaria. Escolheu o mesmo caminho que ele havia aconselhado a seu servo a tomar e, lá chegando são e salvo nesse lugar, admirou-se de não encontrar Hasan. Vahíd sabia imediatamente que ele desobedecera suas instruções e fora apreendido pelo inimigo. Deplorou-lhe a sorte e se lembrou da ação de Muhammad-'Abdu'lláh, que de modo semelhante não se conformara com sua vontade e em conseqüência havia sofrido dano. Foram subseqüentemente informados de que na manhã daquele mesmo dia Hasan foi atirado da boca de um canhão (10) e que um certo Mirza Hasan, que havia sido imame de um dos distritos de Yazd, um homem conhecido por sua piedade, fora preso uma hora depois e sujeitado à mesma sorte de seu companheiro.
A notícia de que Vahíd partira de Yazd incitou o inimigo a novos esforços. Logo foram a sua casa, saquearam-lhe as possessões e a demoliram completamente (11). Ele próprio, entrementes, dirigia os passos a Nayríz. Embora não acostumado a caminhar, andou a pé naquela noite sete farsangs (12), enquanto os filhos foram carregados pelos companheiros por uma parte da viagem. Durante o dia seguinte, ele se escondeu nos recessos de uma montanha nas cercanias. Seu irmão, que residia nessa vizinhança e que lhe tinha afeição profunda, ao saber de sua chegada, lhe mandou secretamente quaisquer provisões que ele necessitasse. Naquele mesmo dia um corpo dos subordinados do governador, que haviam partido montados à procura de Vahíd, chegaram naquela aldeia, procuraram-no na casa de seu irmão, onde suspeitavam que ele estivesse escondido, e se apoderaram de muitos de seus bens. Não podendo encontrá-lo, regressaram a Yazd.
Enquanto isso, Vahíd caminhava através das montanhas até alcançar o distrito de Bavánát-i-Fárs. A maioria de seus habitantes, que se contavam entre seus fervorosos admiradores, abraçou prontamente a Causa. Um deles foi o muito conhecido Hájí Siyyid Ismá'il, o Shaykhu'l-Islam de Bavánát. Um número considerável deles acompanhou-o até a aldeia de Fasá, onde os habitantes se recusaram a responder à Mensagem que ele os convidou a seguir.
Por todo o seu caminho, em qualquer lugar que parasse, o primeiro pensamento de Vahíd, logo depois de apear, era procurar o masjid da vizinhança, onde ele convocava o povo para ouvi-lo anunciar as boas novas do Novo Dia. De todo inconsciente das fadigas de sua jornada, ele prontamente subia ao púlpito e destemidamente proclamava à congregação o caráter da Fé que ele se levantara para defender. Apenas uma noite passava ele nesse lugar quando havia conseguido ganhar para a Causa almas das quais pudesse confiar para propagá-la após sua partida. De outro modo, continuava ele imediatamente sua marcha, recusando associar-se mais com eles. "Por qualquer aldeia que eu passe," observava ele muitas vezes, "e não consiga inalar a fragrância da fé, nem seu alimento nem sua bebida têm para mim sabor."
Ao chegar na aldeia de Rúníz, no distrito de Fasá, Vahíd decidiu demorar-se por alguns dias. Aqueles corações que lhe pareciam receptivos a seu chamado, ele se esforçava por atrair e inflamar com o fogo do amor de Deus. Logo que chegou a Nayríz a notícia de sua chegada, a população inteira do bairro de Shinár-Súkhtih apressou-se a sair a seu encontro. Pessoas de outros distritos também, impelidas pelo seu amor e admiração por ele, decidiram juntar-se a eles. Receando que Zaynu'l-'Abidín Khán, gobernador de Nayríz, fizesse objeção a sua visita, a maior parte deles partiu à noite. Só do distrito de Shinár-Sukhtih mais de cem estudantes, precedidos pelo seu líder, Hájí Shaykh 'Abdu'l-'Alí, sogro de Vahíd, e um juiz de reconhecido prestígio em todo aquele distrito, sentiram-se impelidos a se unir com algumas das mais eminentes notabilidades para saudar o esperado visitante antes de sua chegada nessa cidade. Entre esses figuravam Mullá 'Abdu'l-Husayn, homem venerável de oitenta anos, altamente estimado por sua piedade e sua erudição; Mullá Báqir, que era o imame do distrito de Shinár-Súkhtih; Mirza Husayn-i-Quth, o kad-khudá (13) do distrito de Bázár, com todos seus parentes, Mirza Abu'l-Qásim, parente do governador; Hájí Muhammad-Taqí, que Bahá'u'lláh mencionou no "Súriy-i-Ayyúb", junto com seu genro; Mirza Nawrá e Mirza 'Alí-Ridá, ambos do distrito de Sádát (14).
Todos estes, alguns durante o dia e outros à noite, foram até a aldeia de Rúníz a fim de dar boas vindas ao visitante e lhe assegurar sua inalterável devoção. Embora o Báb tivesse revelado uma Epístola geral dirigida especialmente àqueles que haviam recentemente abraçado Sua Causa em Nayríz, os que a receberam continuavam todavia inconscientes de seu significado e seus princípios fundamentais. Coube a Vahíd esclarecê-los quanto a seu verdadeiro propósito e lhes expor as feições que a distinguiam.
Logo que Zaynu'l-'Abidín Khán soube do considerável êxodo ocorrido com o fim de dar boas vindas a Vahíd, despachou um mensageiro especial para alcançar aqueles que já haviam partido e lhes informar de sua determinação de tirar a vida, tornar cativas as esposas e confiscar os bens de qualquer um que persistisse em lhe hipotecar lealdade. Nenhum daqueles que haviam partido atendeu essa advertência mas, antes, se aderiram ainda mais apaixonadamente a seu líder. Consternou-se o governador diante de sua inabalável determinação e seu desdenhoso desprezo de seu mensageiro, e receoso de que contra ele se levantassem, decidiu transferir sua residência para a aldeia de Qutrih, onde morara originalmente e situada a uma distância de oito farsangs (15) de Nayríz. Ele escolheu essa aldeia porque nas proximidades havia uma fortaleza maciça que ele poderia utilizar como lugar de refúgio em caso de perigo e, além disso, tinha certeza de que seus habitantes estavam treinados na arte da pontaria e de que poderia contar com eles para defendê-lo quando quer que os chamasse.
Vahíd nesse entrementes partira de Rúníz para o santuário de Pír-Murád, situado fora da aldeia de Istahbánát. A despeito da interdição pronunciada pelos ulemás dessa aldeia contra sua entrada, nada menos que vinte de seus habitantes saíram para lhe dar boas vindas e acompanharam-no até Nayríz. Ao chegarem, na manhã do dia quinze de Rajab (16), a primeira coisa que Vahíd fez, logo que entrou em seu distrito nativo de Shinár-Súkhtih, mesmo antes de ir a sua própria casa, foi entrar no masjid e chamar a congregação lá reunida, para reconhecer e abraçar a Mensagem do Báb. Impaciente para se dirigir à multidão que o esperava, ainda vestindo as roupas cobertas de poeira, ascendeu ao púlpito e com eloqüência tão convincente falou que a assistência inteira foi eletrizida por seu apelo (17). Nada menos de mil pessoas, todas nativas do distrito de Shinár-Súkhtih, e quinhentas outras dos vários distritos de Nayríz, todas as quais se haviam amontoado no prédio, responderam espontaneamente. "Ouvimos e obedecemos!" exclamou a jubilosa multidão, com irrestrito entusiasmo, enquanto avançava para lhe assegurar sua homenagem e sua gratidão. O efeito mágico que esse apaixonado discurso teve nos corações dos que o ouviram foi tal como Nayríz nunca antes presenciara.
"Meu objetivo único," continuou Vahíd, enquanto esclarecia sua assistência, assim que a primeira onda de excitamento se acalmara, "em vir a Nayríz, é o de proclamar a Causa de Deus. Agradeço a Ele e O glorifico por me haver possibilitado tocar vossos corações com Sua Mensagem. Desnecessário é que eu demore mais em vosso meio, pois receio que, se prolongar minha estada, o governador vos possa tratar mal por minha causa. Ele pode buscar reforços de Shiráz e destruir vossos lares e vos sujeitar a incalculáveis indignidades." "Estamos prontos e resignados à vontade de Deus," respondeu uníssona a congregação. "Conceda-nos Deus Sua graça para que possamos resistir às calamidades que ainda nos podem sobrevir. Não podemos, entretanto, reconciliar-nos com tão abrupta e apressada separação de vós."
Assim que estas palavras caíram de seus lábios, homens e mulheres, de mãos dadas, conduziram Vahíd em triunfo para sua casa. Com entusiasmo extremo, exultação e júbilo cercaram-no e, com salvas e exclamações, acompanharam-no até a própria entrada de sua casa.
Os poucos dias durante os quais Vahíd consentiu em demorar-se em Nayríz, foram passados pela maior parte no masjid, onde ele continuou, com a costumeira eloqüência e sem a menor reserva, a elucidar os ensinamentos fundamentais que ele recebera de seu Mestre. Cada dia testemunhava um aumento no número de sua assistência, e de todos os lados se tornavam mais e mais manifestas as evidências de sua influência maravilhosa.
A fascinação que ele exercia no povo não pode deixar de aumentar a fúria e a hostilidade latente de Zaynu'l-'Abidín Khán. Incitado a novos esforços, mandou levantar um exército com o declarado objetivo de erradicar uma Causa que, achava, rapidamente lhe solapava a própria posição. Breve conseguiu ele recrutar cerca de mil homens, consistindo tanto de cavalaria como de infantaria, todos os quais bem treinados na arte da guerra e munidos de amplos armamentos. Seu plano era, por uma súbita investida, tomá-lo preso.
Ao ser informado dos desígnios do governador, Vahíd ordenou que aqueles vinte companheiros, os quais haviam partido de Istahbánát a fim de lhe dar boas vindas e o acompanhado até Nayríz, ocupassem o forte de Khájih, situado na vizinhança do distrito de Shinár-Súkhtih. Escolheu Shaykh Hádí, filho de Shaykh Muhsin, para chefiar a companhia, e solicitou os seguidores que residiam naquele distrito a fortificarem os portões, as torres e os muros dessa cidadela.
O governador havia entrementes transferido a sede para sua própria casa no distrito de Bázár. A força por ele levantada acompanhou-o e ocupou o forte situado nas cercanias. Suas torres e seus muros, os quais ele começou a reforçar, tinham vista para a cidade inteira. Havendo forçado Siyyid Abú-Tálib, o kad-khudá (18) desse distrito e um dos companheiros de Vahíd, a evacuar sua casa, fortificou o telhado e sobre ele estacionando alguns de seus homens, comandados por Muhammad-'Alí Khán, deu ordens para abrir fogo contra o adversário. O primeiro a sofrer foi aquele mesmo Mullá 'Abdu'l-Husayn que, a despeito de sua idade avançada, fora a fé para dar boas vindas a Vahíd. Estava oferecendo sua oração no telhado de sua casa quando uma bala lhe feriu o pé direito, fazendo-o sangrar profusamente. Esse golpe cruel evocou a compaixão de Vahíd, quem se apressou, em uma mensagem por escrito àquele sofredor, a lhe expressar seu pesar pela ferida infligida e a alegrá-lo com pensamento de que ele, nessa etapa avançada de sua vida, foi o primeiro a ser escolhido para cair vítima na senda da Causa.
Tão repentino ataque consternou alguns dos companheiros que haviam apressadamente abraçado a Mensagem, sem lhe apreciar o pleno significado. Tão severamente se abalou sua fé, que um pequeno número foi induzido, na calada da noite a se separar de seus companheiros e se aliar às forças do inimigo. Mal fora Vahíd informado de sua ação quando, na hora do alvorecer, se levantou e, montando seu corcel e acompanhado por alguns de seus amigos, saiu para o forte de Khájih, onde fixou residência.
Sua chegada foi sinal para um novo ataque contra ele. Zaynu'l-'Abidín Khán despachou imediatamente seu irmão mais velho, 'Alí-Asghar Khán, juntamente com mil homens, todos munidos de armas e bem treinados, para assediarem aquele forte, no qual setenta e dois companheiros já se haviam refugiado. Na hora do amanhecer, certo número deles, agindo de acordo com as instruções de Vahíd, saiu e com extraordinária rapidez forçou os assediantes a se dispersarem.
Não mais que três dos companheiros morreram durante esse encontro. O primeiro foi Táju'd-Dín, um homem notável pela sua intrepidez, cuja profissão era a fabricação do kuláh (19) de lá; o segundo foi Zagníl, filho de Iskandar, um agricultor; o terceiro foi Mirza Abu'l-Qásim, homem de mérito proeminente.
Essa derrota completa e repentina despertou as apreensões do Príncipe Fírúz Mirza, o Nusratu'd-Dawlih, governador de Shiráz, que deu ordens para o extermínio imediato dos ocupantes do forte. Zaynu'l-Abidín Khán despachou um dos subordinados do príncipe a Vahíd para com ele instar que, em vista das relações críticas entre eles, partisse de Nayríz, na esperança de que breve se extinguisse o dano que fora provocado. "Diga-lhe," replicou Vahíd, "que meus dois filhos, juntamente com seus assistentes, são toda a companhia que tenho comigo. Se minha presença nesta cidade há de causar dano, estou pronto para partir. Por que é que, em vez de nos conceder a acolhida merecida por um descendente do Profeta, ele nos privou de água e incitou seus homens a nos assediarem e atacarem? Se ele persistir em nos negar as necessidades da vida, advirto-o de que sete de meus companheiros, os quais ele considera os mais desprezíveis entre os homens, haverão de infligir as suas forças combinadas uma derrota humilhante."
Vendo que Zaynu'l-'Abidín Khán não levava em conta sua advertência, Vahíd mandou seus companheiros saírem do forte e punirem os assaltantes. Com admirável coragem e confiança, embora extremamente jovens quanto à idade e de todo inexperientes no uso de armas, conseguiram desmoralizar um exército treinado e organizado. O próprio 'Alí-Asghar Khán pereceu, e dois de seus filhos foram presos. Zaynu'l-'Abidín Khán, com o que ainda restava de suas forças dispersas, retirou-se ignominiosamente para a aldeia de Qutrih, informou o príncipe da gravidade da situação e o solicitou a enviar reforços imediatos, frisando a especial necessidade de artilharia pesada e um destacamento grande, tanto de infantaria como de cavalaria.
Vahíd, por sua parte, certificando-se de que o inimigo estava determinado a exterminá-los, mandou fortalecer as defesas do forte, construir uma cisterna para água dentro do recinto e erguer fora dos portões as tendas que haviam levado. Designou a certos de seus companheiros, naquele dia, funções e deveres especiais. Karbilá'í Mirza Muhammad foi indicado para guarda dos portões do forte; Shaykh Yúsuf, como guardião dos fundos; Karbilá'í Muhammad, filho de Shamsu'd-Dín, como superintendente dos jardins adjacentes ao forte e das barricadas; Mirza Ahmad, tio de 'Alíy-i-Sardár, foi designado oficial para vigiar a torre do moinho conhecido pelo nome de Chinár, situado na vizinhança do forte; Shaykháy-i-Shívih-Kash para ser o executor; Mirza Muhammad-Jafar, primo de Zaynu'l-'Abidín Khán, para ser o cronista; Mirza Fadlu'lláh como leitor destes registros; Mashhadí Taqí-Baqqál, para ser o carcereiro; Hájí Muhammad-Taqí, o escrivão; e Ghulám-Ridáy-i-Yazdí para ser o capitão das forças. Além dos setenta e dois companheiros que estavam com ele no forte, os que o haviam acompanhado de Istahbánát a Nayríz, Vahíd foi induzido, à instância de Siyyid Ja'far-i-Yazdí, um sacerdote muito conhecido e Shaykh-'Abdu'l-'Alí, o sogro de Vahíd, a admitir ao forte alguns residentes do distrito de Bázár juntamente com vários de seus próprios parentes.
Zaynu'l-'Abidín Khán renovou seu apelo ao príncipe e, desta vez, mandou junto com seu pedido, que era para reforços urgentes e adequados, a soma de cinco mil túmans (20) como seu presente pessoal a ele. Confiou sua carta a um de seus amigos íntimos, Mullá Báqír e, permitindo que montasse seu próprio corcel, deu-lhe instruções para entregá-la pessoalmente ao príncipe. Ele o escolhera em virtude de sua intrepidez, da fluência de seu discurso e de seu tato. Mullá Báqír tomou um caminho pouco freqüentado e, após uma viagem de um dia, chegou a um lugar chamado Hudashtak, na vizinhança do qual havia um forte a cujo redor tribos que vagavam pelo campo as vezes levantavam suas tendas.
Mullá Báqír apeou perto de uma dessas tendas e, enquanto conversava com seus ocupantes, veio Hájí Siyyid Ismá'íl, o Shaykhu'l-Islám de Bavánát. Obtivera ele licença de Vahíd para proceder a sua aldeia nativa a fim de tratar de algum assunto urgente, devendo regressar imediatamente a Nayríz. Após o almoço, viu que um cavalo ricamente ajaezado estava amarrado aos cabos de uma das tendas vizinhas. Ao ser informado de que pertencia a um dos amigos do Zaynu'l-'Abidín Khán, que chegara de Nayríz em viagem para Shíráz, Hájí Siyyid Ismá'il, que era homem de coração excepcional, foi de imediato àquela tenda, montou no cavalo e, desembainhando a espada, disse austeramente ao dono da tenda, com quem Mullá Báqír ainda conversava, estas palavras: "Apreende esse vilão que fugiu da face do Sáhibu'z-Zamán (21). Amarra-lhe as mãos e o entrega a mim." Aterrados pelas palavras e pela maneira de Hájí Mullá Ismá'il, os ocupantes da tenda obedeceram imediatamente. Amarraram suas mãos e entregaram a corda que haviam usado a Hájí Siyyid Ismá'il, que esporeou o corcel em direção a Nayríz, obrigando seu cativo a segui-lo. A uma distância de dois farsangs dessa cidade, alcançou a aldeia de Rastáq, onde entregou seu cativo às mãos de seu kad-khudá, cujo nome era Hájí Akbar, solicitando-o a conduzi-lo à presença de Vahíd. Este, ao entrevistá-lo, indagou quanto ao objetivo de sua jornada a Shiráz e dele recebeu uma resposta franca e minuciosa. Embora Vahíd estivesse disposto a perdoá-lo, Mullá Báqír, no entanto, por causa de sua atitude para com ele, foi morto afinal pelas mãos dos companheiros.
Zaynu'l-'Abidín Khán, longe de relaxar sua determinação de solicitar o auxílio de que precisava de Shíráz, fez um apelo mais veemente ao príncipe desta vez, instando-o a redobrar seus esforços para exterminar o que ele considerava a mais grave ameaça à segurança de sua província. Não se contentando com essa fervorosa súplica, despachou a Shíráz vários de seus homens fidedignos, carregados de presentes para o príncipe, esperando por esse meio induzi-lo a agir logo. Em mais um esforço ainda para assegurar o êxito de suas tentativas, dirigiu ele vários apelos aos principais ulemás e siyyids de Shíráz, nos quais imputava a Vahíd objetivos obviamente falsos, se estendia sobre suas atividades subversivas e os exortava a interceder com o príncipe e implorar-lhe a apressar o despacho de reforços.
Prontamente acedeu o príncipe a seu pedido. Deu instruções a 'Abdu'lláh Khán, o Shujá'u'l-Mulk, para sair de imediato para Nayríz, acompanhado pelos regimentos dos Itamadání e Sílákhurí, chefiados por vários oficiais e assistidos por uma força adequada de artilharia. Além disso, mandou seu representante em Nayríz recrutar todos os homens aptos do distrito circunvizinho, inclusive das aldeias de Istahbánát, Íraj, Panj-Ma'ádin, Qutrih, Bashnih, Dih-Cháh, Mushkán e Rastáq. A estes acrescentou os membros da tribo conhecida pelo nome Vísbaklaríyyih, a quem mandou unirem-se ao exército de Zaynu'l-'Abidín Khán.
Uma hoste inumerável cercou de súbito forte em que Vahíd e seus companheiros estavam assediados e começou a cavar trincheiras a seu redor e levantar barricadas ao longo dessas trincheiras (22). Mal se terminara esse trabalho quando se abriu fogo contra eles. Uma bala atingiu o cavalo em que montava um dos assistentes de Vahíd enquanto vigiava o portão. Outra bala seguiu de imediato a primeira e penetrou a torre por cima desse portão. No decorrer desse bombardeio, um dos companheiros, apontando com a espingarda o oficial que comandava a artilharia, matou-o instantaneamente e, em conseqüência, o ruído dos canhões foi silenciado logo. Os assaltantes com isso se retiraram, escondendo-se dentro das trincheiras. Naquela noite, nem os assediados nem os atacantes se aventuraram a sair de seus abrigos.
Na segunda noite porém, Vahíd chamou Shulám-Ridáy-i-Yazdí e ordenou que ele com quatorze de seus companheiros saíssem do forte e repelissem o inimigo. Os que foram chamados para cumprir tal tarefa eram pela maior parte homens de idade avançada, os quais ninguém teria pensado serem capazes de enfrentar o choque de tão tremenda luta. Entre eles havia um sapateiro que, embora com a idade de mais de noventa anos, mostrou tanto entusiasmo e vigor como nenhum jovem poderia esperar exceder. Outros dos quatorze era meros rapazinhos que não tiveram ainda o mínimo preparo para encarar os perigos e suportar a tensão que tal investida acarretava. Idade pouco importava, no entanto, para aqueles heróis a quem uma intrépida vontade e uma inalterável confiança no alto destino de sua Causa haviam transformado completamente. Deu-lhe instruções seu líder para se dividirem logo depois de deixarem o abrigo do forte e, levantando simultaneamente o brado de "Alláh-u-Akbar!" (23) saltarem no meio do inimigo.
Tão logo o sinal havia sido dado, quando eles levantaram e apressando-se a seus corcéis e rifles, saíram pelo portão do forte. Não intimidados, em absoluto, pelo fogo que jorrava das bocas dos canhões, nem pelas balas que choviam sobre suas cabeças, precipitaram-se no meio de seus adversários. Esse repentino encontro durou nada menos de oito horas, e em curso aquela destemida companhia demonstrou tamanha habilidade de bravura que os veteranos nas fileiras do inimigo se assombravam. Da cidade de Nayríz, bem como de suas fortificações nas cercanias, reforços apressaram-se ao auxílio daquela pequena companhia que tão valorosamente resistira as forças combinadas de um exército inteiro. À medida que se estendia o âmbito da luta levantaram-se de todos os lados as vozes das mulheres de Nayríz que haviam ocorrido aos telhados de suas casas para aclamar o heroísmo que de um modo tão impressionante se exibia. Suas salvas exultantes adicionavam-se ao ruído dos canhões, acrescentando-se ainda maior intensidade com a exclamação de "Alláh-u-Akbar!" a qual os companheiros, em um frenesi de excitamento, ergueram em meio a esse tumulto. A comoção causada pelos elementos femininos, sua espantosa audácia e confiança em si próprias, desmoralizaram completamente os oponentes e lhes paralizaram os esforços. O acampamento do inimigo estava desolado e deserto, oferecendo um triste espetáculo enquanto regressaram ao forte. Levaram consigo, além dos gravemente feridos, nada menos que sessenta mortos, entre os quais os seguintes:
1. Ghulám-Ridáy-i-Yazdí (não deve ser confundido com o capitão das forças que tinha o mesmo nome),
2. Um irmão de Ghulám-Ridáy-i-Yazdí.
3. 'Alí, filho de Khayru'lláh,
4. Khájih Husayn-i-Qannád, filho de Khájih Ghaní,
5. Asghar, filho de Mullá Mihdí,
6. Karbilá'í 'Abdu'l-Karím.
7. Husayn, filho de Mashhadí Muhammad,
8. Zaynu'l-Ábidín, filho de Mashhadí Báqir-i-Sabbágh,
9. Mullá Ja'far-i-Mudhahhíb,
10. 'Abdu'lláh, filho de Mullá Músá,
11. Muhammad, filho de Mashhadí Rajab-i-Haddád,
12. Karbilá'í Hasan, filho de Karbilá'í Shamsu'd-Dín-i-Malikí-Dúz,
13. Karbilá'í Mirza Muhammad-i-Zárí,
14. Karbilá'í Báqir-i-Kafsh-Dúz,
15. Mirza Ahmad, filho de Mirza Husayn-i-Káshí-Sáz,
16. Mullá Hasan, filho de Mullá 'Abdu'lláh,
17. Mashhadí Hájí Muhammad,
18. Abú-Tálib, filho de Mír Ahmad-i-Nukhud-Biríz,
19. Akbar, filho de Muhammad-i-'Áshúr,
20. Taqíy-i-Yazdí,
21. Mullá 'Alí, filho de Mullá Ja'far,
22. Karbilá'í Mirza Husayn,
23. Husayn Khán, filho de Sharíf,
24. Karbilá'í Qurbán,
25. Khájih Kázim, filho de Khájih 'Alí,
26. Aqá, filho de Hájí 'Alí,
27. Mirza Nawrá, filho de Mirza Mu'íná.
Tão completo insucesso convenceu a Zaynu'l-'Ábidín Khán e seu estado-maior da futilidade de seus esforços para compelir, através de uma luta aberta, a submissão de seus adversários (24). Assim como aconteceu no caso do exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza, que falhara miseravelmente em sua tentativa de dominar os adversários abertamente no campo, traição e fraude provaram-se, afinal, ser as únicas armas com que um povo covarde pode subjugar um inimigo invencível. Pelos ardis aos quais Zaynu'l-'Ábidín Khán e seu estado-maior se recorreram enfim, deixaram patente que, a despeito dos vastos recursos a seu dispor e do apoio moral que lhes fora prestado pelo governador de Fárs e pelos habitantes da província inteira, não tinham o poder de dominar o que era aparentemente apenas um punhado de pessoas desprezíveis e sem o menor treino. Em seus corações estavam convencidos de que, atrás dos muros daquele forte estava reunida um bando de voluntários que nenhuma força sob seu comando podia enfrentar e vencer.
Erguendo o brado de paz, procuraram, através de astúcia tão vil, seduzir aqueles corações puros e nobres. Suspenderam por alguns dias toda espécie de hostilidade, depois do qual dirigira aos assediados um solene apelo por escrito, cujo teor foi o seguinte: "Até agora, por sermos ignorantes do verdadeiro caráter de vossa Fé, permitimos que os instigadores do mal nos induzissem a crer que cada um de vós tivesse violado os sagrados preceitos do Islã. Por isso foi que contra vós nos levantamos, esforçando-nos por extirpar vossa Fé. Durante estes últimos poucos dias, tornamo-nos cientes do fato de que em vossas atividades nenhum motivo político se encobre que nenhum de vós alimenta qualquer inclinação de subverter os alicerces do Estado. Nós também nos convencemos do fato de que em vossos ensinamentos não se envolve nenhuma divergência grave dos ensinamentos fundamentais do Islã. Parece que apenas sustentais a pretensão de haver aparecido um homem cujas palavras sejam inspiradas, cujo testemunho é certo, e a quem todos os aderentes do Islã devem reconhecer e apoiar. De modo algum poderemos nos convencer da validade dessa pretensão a menos que consintais em depositar absoluta confiança em nossa sinceridade e aceitar nosso pedido para que deixeis certos de vossos representantes saírem do forte e encontrar conosco neste acampamento, onde poderemos, dentro de poucos dias, certificar-nos do caráter de vossa crença. Se vos provardes capazes de demonstrar as verdadeiras pretensões de vossa Fé, nós também prontamente a abraçaremos, pois não somos inimigos da Verdade e nenhum de nós deseja negá-la. A vosso líder temos sempre reconhecido como um dos mais fortes defensores do Islã e o consideramos nosso exemplo e guia. Este Alcorão, ao qual afixamos nossos selos, é testemunho da integridade de nosso propósito. Que esse sagrado Livro decida se é verdadeira ou falsa a pretensão que avançais. A maldição de Deus e de Seu Profeta esteja sobre nós se tentarmos vos enganar. Se aceitardes nosso convite, salvareis da destruição um exército inteiro, enquanto vossa recusa o deixará suspenso, em dúvida. Hipotecamos nossa palavra de que, uma vez convencidos da verdade de vossa Mensagem, nos esforçaremos para demonstrar o mesmo zelo e devoção que vós, de um modo tão impressionante, já manifestastes. Vossos amigos serão nossos amigos, e vossos inimigos, nossos inimigos. O que vosso líder se dignar de ordenar, o mesmo nos comprometeremos a obedecer. Por outro lado, se não pudermos nos convencer da verdade de vossa pretensão, prometemos solenemente que de modo algum interferiremos em vosso regresso com segurança ao forte, e estaremos prontos para continuar nossa luta contra vós. Nós vos imploramos que recuseis derramar mais sangue antes de tentardes estabelecer a verdade de vossa Causa."
Vahíd recebeu o Alcorão com profunda reverência e o beijou devotadamente. "Nossa hora marcada soou," observou ele. "Nossa aceitação de seu convite os fará sentirem a baixeza de sua traição." "Embora consciente de seus desígnios," acrescentou, enquanto se virava para seus companheiros, "sinto ser meu dever aceitar seu chamado e tomar a oportunidade para tentar mais uma vez desdobrar as verdades e minha bem-amada Fé." Mandou que continuassem a desempenhar seus deveres e não confiassem, em absoluto naquilo que seus adversários talvez professassem crer. Ordenou, além disso, que suspendessem toda espécie de hostilidade, aguardando futuro aviso dele.
Com estas palavras ele se despediu dos companheiros e, acompanhado de cinco auxiliares, entre os quais Mullá 'Alíy-i-Mudhahhib e o traiçoeiro Hájí Siyyid 'Ábid partiu para o acampamento do inimigo. Zaynu'l-'Ábidín Khán, estado-maior, saíram para lhe dar boas vindas. Receberam-no cerimoniosamente e o conduziram a uma tenda especialmente preparada para sua recepção, onde o apresentaram aos demais oficiais. Sentou-se em uma cadeira, enquanto o resto da companhia ficava em sua frente, em pé, com exceção de Zaynu'l-'Ábidín Khán, Shujá'u'l-Mulk e um outro oficial, aos quais indicou que se sentassem. Tais foram as palavras que a eles dirigiu, que nem sequer um homem cujo coração fosse de pedra pudesse deixar de lhes sentir o poder. Bahá'u'lláh, no "Súriy-i-Sabr" imortalizou esse nobre apelo, revelando a plena medida de seu significado. "Venho a vós", declarou Vahíd, "munido do testemunho que meu Senhor me confiou. Não sou eu descendente do Profeta de Deus? Por que vos levantastes para me matar? Por que razão pronunciastes a sentença de minha morte, recusando reconhecer os inquestionáveis direitos dos quais minha linhagem me investiu?"
A majestade de seu porte, acrescentada a sua eloqüência penetrante, confundia seus ouvintes. Durante três dias e três noites, ofereceram-lhe profusa hospitalidade e o tratamento com respeito notável. Na oração congregacional seguiam-lhe invariavelmente a direção e, atentos, escutavam o discurso. Se bem que exteriormente parecessem estar se curvando diante de sua vontade, secretamente, entretanto, maquinavam contra sua vida e conspiravam a exterminar os restantes de seus companheiros. Bem sabiam que, fossem lhe infligir o menor dano enquanto seus companheiros permanecessem entrincheirados atrás dos muros do forte, estariam se expondo a um perigo ainda maior do que aquele que já foram obrigados a enfrentar. Tremiam diante da fúria e da vingança das mulheres, não menos do que perante a bravura e a habilidade dos homens. Haviam verificado serem todos os recursos do exército impotentes para dominar um punhado de jovens imaturos e de decrépitos homens idosos. Nada menos de uma estratégia audaz e bem planejada lhes poderia assegurar a vitória final. O medo que lhes enchia os corações era em grande parte inspirado pelas palavras de Zaynu'l-'Ábidín Khán quem, com inalterável determinação, procurava manter sem diminuição o ódio com que lhes inflamara a alma. As repetidas exortações de Vahíd lhe haviam incitado suas apreensões de que pela mágica das palavras, ele conseguisse induzi-los a transferir a lealdade a um adversário tão eloqüente.
Decidiram Zaynu'l-'Ábidín Khán e seus amigos finalmente, pedir a Vahíd que de próprio punho dirigisse uma mensagem aos companheiros que ainda estavam dentro do forte, informando-lhes que fora efetivada uma amigável solução de suas diferenças e os solicitando a unir-se com ele no quartel do exército ou a regressar a suas casas. Embora não disposto a aceder a tal pedido, Vahíd foi forçado, afinal, a se submeter. Além dessa mensagem, em uma segunda carta, ele informou os companheiros confidencialmente dos maus desígnios do inimigo e lhes advertiu que não se deixassem enganar. Entregou ambas as cartas a Hájí Siyyid 'Abíd, mandando-lhe que destruísse a primeira carta e entregasse a segunda aos seus companheiros. Incumbiu-o, além disso, de encorajá-los a escolher os mais capazes dentre eles para saírem na calada da noite e dispersarem as forças do inimigo.
Mal recebera Hájí Siyyid 'Abíd essas instruções, quando as comunicou traiçoeiramente a Zaynu'l-'Ábidín Khán. Este tentou imediatamente induzi-lo a instar os ocupantes do forte, em nome de seu líder a se dispersarem, e lhe prometeu retribuir esse serviço com um generoso galardão. O mensageiro desleal entregou a primeira carta aos companheiros de Vahíd e lhes informou que seu líder conseguira conquistar para sua Fé o exército inteiro e que, em vista dessa conversão, lhes aconselhava que voltassem para suas casas.
Embora extremamente perplexos diante de tal mensagem, os companheiros não se sentiam capazes de desatender os desejos que Vahíd tão claramente expressara. Contra sua vontade se dispersaram, deixando desprotegidas todas as fortificações. Obedientes às ordens escritas pelo seu líder, alguns deles abandonaram as armas e dirigiram os passos a Nayríz.
Zaynu'l-'Ábidín Khán, antecipando a evacuação imediata do forte, enviou um destacamento de suas forças para lhes interceptar a entrada na cidade. Logo foram rodeados por uma multidão de homens armados que recebiam do quartel do exército reforços contínuos. Vendo-se assim inesperadamente cercados, determinaram-se a repulsar o ataque por todos os meios em seu poder e alcançar o Masjid-i-Jámí' o mais rapidamente possível. Com as espadas e espingardas que alguns levavam, outros por meio de paus e pedras somente, tentaram forçar passagem para a cidade. O brado de "Alláh-u-Akbar!" (25) surgia novamente, mais feroz e mais impelente do que nunca. Alguns poucos sofreram martírio enquanto forçavam passagem através das fileiras de seus traiçoeiros agressores. Os outros ainda que feridos e assaltados por novos reforços que os cercavam por todos os lados, conseguiram, afinal, alcançar o abrigo do masjid.
Entrementes, o notório Mullá Hasan, filho de Mullá Muhammad-'Alí, oficial do exército de Zaynu'l-'Ábidín Khán conseguiu, juntamente com seus homens, passar na frente dos adversários e, escondendo-se em um dos minaretes desse masjid, esperava em emboscada os fugitivos. Assim que o grupo dos companheiros dispersos se aproximava do masjid, abriu fogo contra eles. Um certo Mullá Husayn, reconhecendo-o e erguendo o brado de "Alláh-u-Akbar!", escalou o minarete, apontou a espingarda àquele oficial covarde e o lançou ao chão. Seus amigos levaram-no a um lugar de segurança onde ele pode se recuperar da ferida.
Os companheiros, não mais podendo obter abrigo no masjid, foram obrigados a se esconder em qualquer lugar seguro que pudessem encontrar, até a hora em que se pudessem certificar da sorte de seu líder. Seu primeiro pensamento após essa traição foi procurar sua presença e seguir quaisquer instruções que ele lhes desejasse dar. Não puderam, entretanto, descobrir o que lhe acontecera e tremiam ao pensarem que ele talvez tivesse sido morto.
Nesse entretanto, Zaynu'l-'Ábidín Khán e seu estado-maior, tornados mais audazes com a debandada dos companheiros, se esforçavam deligentemente em descobrir meios de fugir das obrigações que lhes foram impostas pelo seu juramento solene e proceder sem obstáculos ao extermínio de seu oponente principal. Envidaram esforços para pôr de lado, mediante algum ardil enganoso, suas sagradas promessas e acelerar o cumprimento de um desejo desde muito nutrido. Em meio as suas deliberações, 'Abbás-Qulí Khán, um homem notório por sua falta de compaixão, sua desumanidade lhes assegurou que, se a lembrança de seu juramento lhes estava causando perplexidade, ele próprio, não havendo de forma alguma, participado nessa declaração, estava pronto para executar aquilo que eles se sentiam incapazes de efetivar. Num acesso de indignação ele disse: "Eu posso, a qualquer momento, apreender e executar a quem quer que eu julgue culpado por haver violado as leis do país." Logo, todos aqueles cujos parentes haviam perecido foram chamados para executar a sentença de morte pronunciada contra Vahíd. O primeiro a se apresentar foi Mullá Rida, cujo irmão, Mullá Báqir, fora preso pelo Shaykhu'l-Islám de Bavánát; o próximo foi um homem de nome Safar, cujo irmão Sha'bán perecera; o terceiro foi Áqá Khán, cujo pai, 'Alí-Asghar Khán, irmão mais velho de Zaynu'l-'Ábidín Khán, sofrera a mesma sorte.
Ávidos de levar a cabo a sugestão de 'Abbás-Qulí Khán, esses homens arrancaram o turbante da cabeça de Vahíd, enrolaram-no em volta de seu pescoço e, amarrando-o a um cavalo, ignominiosamente o arrastaram pelas ruas (26). As indignidades que sobre ele foram amontoadas faziam àqueles que presenciaram esse horrendo espetáculo, lembrarem-se do destino trágico do Imame Husayn, cujo corpo foi abandonado à mercê de um inimigo enfurecido e impiedosamente espezinhado por uma numerosa multidão de cavalaria. As mulheres de Nayríz, levadas ao máximo grau de excitação pelos gritos de triunfo que um inimigo sanguinário erguia, e com o acompanhamento de tambores e címbalos, desenfreavam seus sentimentos de irrestrito fanatismo. Alegremente dançavam a seu redor, desdenhosas das palavras que Vahíd, em meio a sua agonia, dissera - palavras que o Imame Husayn em época anterior e em circunstâncias similares, havia pronunciado. "Tu sabes, ó meu Bem-Amado, que abandonei o mundo por Teu amor e em Ti somente pus minha confiança. Impaciente estou para a Ti me apressar, pois a beleza de Teu semblante se desvelou aos meus olhos. Tu testemunhas os maus desígnios que meu maléfico perseguidor contra mim nutriu. Não, jamais me submeterei a seus desejos nem lhe hipotecarei minha lealdade."
Assim veio a findar uma nobre e heróica vida. Tão memorável e brilhante carreira, distinguida por conhecimentos tão vastos (27), coragem tão intrépida e tão raro espírito de sacrifício, deveria certamente ser coroada por uma morte tão gloriosa como aquela que consumou seu martírio (28). A extinção dessa vida foi sinal para uma investida selvagem contras as vidas e os bens daqueles que com sua Fé se haviam identificado. Nada menos de cinco mil homens foram incumbidos dessa abominável tarefa. Os homens foram presos, acorrentados, sujeitos à tortura e finalmente trucidados. Capturando as mulheres e crianças, sujeitaram-nas a brutalidades que nenhuma pena ousa descrever. Confiscavam-lhes as propriedades e destruíram as casas. Incendiaram e arrasaram o forte de Khájih. A maioria dos homens foi conduzida primeiro a Shiráz, acorrentada, onde a maior parte deles sofreu uma morte cruel (29). Aqueles a quem Zaynu'l-'Ábidín Khán, para fins de proveito pessoal, mergulhara em tenebrosas masmorras subterrâneas, foram entregues - logo que foi atingido seu objetivo - nas mãos de seus servis subordinados, os quais neles perpetraram atos de indizível brutalidade (30). Fizeram-nos primeiro marchar pelas ruas de Nayríz, depois do qual os sujeitaram a tratamento atroz na esperança de lhes extrair qualquer vantagem material que até então seus perseguidores anteriores não tivessem podido obter. Uma vez aplacada sua cobiça, infligiram a cada vítima uma morte agonizante. Todo e qualquer instrumento de tortura que seus algozes pudessem tramar foi utilizado para lhes satisfazer a sede de vingança. Foram ferreados, as unhas foram arrancadas, chicotearam-nos e lhes fizeram incisões no nariz através das quais passaram uma corda, com martelo lhes bateram pregos nas mãos e nos pés e nesse lastimável estado arrastaram-nos pelas ruas, objeto de desprezo e zombaria por parte de todo o povo.
Entre eles havia um certo Siyyid Ja'far-i-Yazdí, que em dias anteriores exercera imensa influência e era altamente honrado pelo povo. Tão grande era o respeito a ele mostrado que Zaynu'l-'Ábidín Khán lhe concedia superioridade, tratando-o com extrema deferência e cortesia. O turbante desse mesmo homem ele agora mandou enodar e lançar no fogo. Despido do emblema de sua linhagem, foi exposto aos olhos do público, que marchavam na sua frente, acabrunhando-o de abuso e ridículo (31).
Outra vítima de sua tirania foi Hájí Muhammad-Taqí, quem gozara em tempos idos, de tal reputação pela honestidade e justiça que sua opinião era invariavelmente considerada pelos juízes do tribunal como a última palavra em seu julgamento. Um homem tão grande, tão estimado foi em pleno inverno, despido de suas roupas e jogado em um lago, sendo então severamente chicoteado. Siyyid Ja'far e Shaykh 'Abdu'l-'Alí, que era o sogro de Vahíd e o principal sacerdote de Nayríz, bem como um juiz de renome, juntamente com Siyyid Husayn, uma das notabilidades da cidade, foram destinados a sofrer a mesma sorte. Enquanto eles estavam expostos ao frio, a escória da plebe foi paga para amontoar sobre seus corpos trêmulos as mais abomináveis crueldades. Mais de um homem pobre, que se apressava a obter a recompensa prometida para esse ato vil, sentiu revolta ao ser informado da natureza da tarefa que ele fora chamado para desempenhar e, rejeitando o dinheiro, afastou-se com repugnância e desdém (32).
O dia do martírio de Vahíd foi o dia dezoito do mês de Sha'ban, no ano de 1266 A. H. (33). Dez dias depois, o Báb foi fuzilado em Tabríz.
CAPÍTULO XXIII
MARTÍRIO DO Báb
A história da tragédia que assinalou as etapas finais do tumulto de Nayríz espalhou-se por toda a Pérsia e ateou um espantoso entusiasmo nos corações dos que a ouviram. Lançou em consternação as autoridades na capital e se animou a tomar uma resolução oriunda do desespero. Especialmente se atemorizou o Amir-Nizám, Grão-Vizir de Násiri'd-Dín Sháh, diante das repetidas manifestações de uma vontade indomável, de uma feroz e inflexível tenacidade de fé. Se bem que as forças do exército imperial tivessem triunfado em toda parte, e ainda que os companheiros de Mullá Husayn e Vahíd fossem sucessivamente ceifados em uma impiedosa carnificina pelas mãos de seus oficiais, estava claro e evidente, no entanto, às mentes astuciosas dos governantes de Teerã que o espírito responsável por um heroísmo tão raro, não fora de modo algum vencido, que seu poder estava longe de ser quebrado. A lealdade que os remanescentes daquela companhia debandada tinham a seu Líder cativo permanecia ainda intacta. A despeito dos pavorosos prejuízos por eles sofridos, nada conseguira ainda minar essa lealdade ou solapar essa fé. Longe de estar extinto, esse espírito ardera, mais intenso e devastador do que nunca. Exasperada ao se lembrar das indignidades sofridas, essa companhia perseguida aderia cada vez mais apaixonadamente a sua Fé e, como sempre crescente fervor e esperança, se dirigia a seu Líder (1). Acima de tudo, Aquele que ateara essa chama e nutrira esse espírito estava ainda vivo e, apesar de Seu isolamento, podia ainda exercer a plena medida de Sua influência. Nem sequer uma ininterrupta vigilância pudera deter a maré que havia varrido toda a face do país, tendo como sua força motriz a continuada existência do Báb. Extinguir essa luz, sufocar a corrente em sua própria origem, e a torrente que trouxera tamanha devastação no encalço, secaria. Tal foi o pensamento que dominou o Grão-Vizir de Naziri'd-Dín Sháh. A esse ministro insensato levá-Lo até à morte parecia ser o modo mais eficaz de fazer seu país se recuperar do ignomínio em que - pensava ele - se havia mergulhado (2).
Incitado à ação, convocou seus conselheiros, participou-lhes seus receios e suas esperanças, e lhes informou da natureza de seus planos. "Vejam," exclamou ele, "a tempestade provocada pela Fé do Siyyid-i- Báb nos corações de meus conterrâneos! Nada menos que sua execução pública poderá, em minha opinião, restaurar a tranqüilidade e paz deste país desvairado. Quem se atreverá a calcular as forças que pereceram durante os encontros em Shaykh Tabarsí? Quem poderá avaliar os esforços envidados a fim de obter aquela vitória? Mal se suprimira o distúrbio que havia convulsionado Mázindarán, quando as chamas de outra sedição se atearam na província de Fárs, seguindo-lhe na pista tanto sofrimento para meu povo. Mal conseguimos extinguir a revolta que devastara o sul, quando irrompeu outra insurreição no norte, varrendo em seu vórtice Zanján e suas cercanias. Se há um remédio que me possam aconselhar, que me informem, pois meu propósito único é assegurar a paz e honra de meus compatriotas."
Nem uma só voz ousou aventurar uma resposta, salvo a de Mirza Aqá Khán-i-Núrí, o Ministro de Guerra, quem argüiu que, se por causa dos atos perpetrados por um bando de irresponsáveis agitadores, executassem um siyyid exilado, seria este um ato de crueldade patente. Lembrou o exemplo do falecido Muhammad Sháh, cuja invariável prática fora não levar em conta as calúnias infames continuamente levadas a sua atenção pelos inimigos desse siyyid. O Amir Nízám desagradou-se extremamente. "Tais considerações," protestou, "são inteiramente irrelevantes à questão com a qual defrontamos. Os interesses do Estado estão em perigo, e de modo algum poderemos tolerar esses periódicos tumultos. Não foi o Imame Husayn, vista de suma necessidade de se salvaguardar a unidade do Estado, executado por aquelas mesmas pessoas que o haviam visto receber em mais de uma ocasião provas de excepcional afeto de Maomé, seu avô? Não recusaram em tais circunstâncias considerar os direitos que sua linhagem lhe havia conferido? Nada menos que o remédio que eu recomendo pode desarraigar esse mal e nos trazer a paz pela qual ansiamos."
Desatendendo a advertência de seu conselheiro, procedeu o Amír-Nízám ao despacho de suas ordens a Navvab Hamzih Mirza, governador de Adhirbáyján - que se destacava entre os príncipes de sangue real por seu coração bondoso e sua conduta reta - para chamar o Báb a Tabríz (3). Tomou cuidado para não deixar o príncipe perceber seu verdadeiro propósito. O Navvab, supondo ser a intenção do ministro possibilitar ao seu Cativo o regresso a Sua casa, imediatamente dirigiu a um de seus oficiais de confiança instruções para proceder acompanhado de uma escolta montada, a Chihríq, onde o Báb ainda se encontrava confinado e conduzi-Lo de volta a Tabríz. Confiou-O a seu cuidado, instando-lhe que O tratassem com a máxima consideração.
Quarenta dias antes da chegada desse oficial em Chihríq, o Báb juntou todos os documentos e Epístolas em Seu poder e, pondo-os juntamente com Seu estojo de penas, Seus sinetes e anéis de ágata em um cofre, entregou-os aos cuidados de Mullá Báqir, uma das Letras dos Viventes. A ele confiou também uma carta endereçada a Mirza Ahmad, Seu amanuense, na qual mandava inclusa a chave desse cofre. Instou-lhe que tomasse o máximo cuidado com essa incumbência, acentuando seu caráter sagrado e mandando ocultar seu conteúdo de todos, salvo de Mirza Ahmad.
Logo partiu Mullá Báqir para Qazvín. Dentro de dezoito dias alcançou essa cidade e lá foi informado que Mirza Ahmad havia partido em direção a Qum. Saiu logo para esse destino, ai chegando em meados do mês de Shá'bán (4). Eu estava, nesse tempo em Qum, acompanhado por um certo Sádiq-i-Tabrízí, a quem Mirza Ahmad havia mandado me buscar em Zarand. Eu estava residindo na mesma casa com Mirza Ahmad, casa que ele alugara no bairro de Bagh-Panbih. Naqueles dias Shaykh 'Azím, Siyyid Ismá'íl e alguns outros companheiros também residiam conosco. Mullá Báqir entregou a encomenda nas mãos de Mirza Ahmad e este, instado por Shaykh 'Azím, abriu-o em nossa presença. Maravilhamo-nos ao ver, entre os objetos que o cofre continha, um rolo de papel azul, da mais delicada textura, no qual o Báb, em Sua própria bela letra, de fino escrito shikastih, escrevera, em forma de uma estrela de cinco pontas, cerca de quinhentos versos, consistindo todos, de derivados da palavra "Bahá" (5). O estado do rolo era de perfeita preservação, sem mácula, e à primeira vista, dava a impressão de ser página impressa em vez de manuscrita. Tão fina e intrincada era a caligrafia que, quando se olhava de uma distância, o escrito parecia um simples fluxo de tinta sobre o papel. Admiração apoderou-se de nós enquanto contemplávamos uma obra magistral que nenhum calígrafo, acreditávamos, poderia rivalizar. O rolo foi posto novamente no cofre e entregue outra vez a Mirza Ahmad que, nesse mesmo dia em que o recebera, procedeu a Teerã. Antes de partir, ele nos informou que nada podia ser divulgado acerca dessa carta, senão a instrução para entregar a encomenda nas mãos de Jináb-i-Bahá (6) em Teerã (7). Quanto a mim, Mirza Ahmad me mandou seguir a Zarand, onde meu pai ansiosamente esperava minha volta.
Fiel às instruções recebidas de Navvab Hamzih Mirza, aquele oficial conduziu o Báb a Tabríz, mostrando-Lhe o maior respeito e considerações. O príncipe dera instruções a um de seus amigos para acomodá-Lo em sua casa e tratá-Lo com deferência extrema. Três dias após a chegada do Báb, foi recebida uma nova ordem do Grão-Vizir mandando que levasse a efeito a execução de seu Prisioneiro no mesmo dia em que chegasse o farmán (8). Quem quer que se professasse Seu seguidor seria também condenado à morte. O regimento armênio de Urúmíyyih, cujo coronel era Sám Khán, recebeu ordens para fuzilá-Lo, no pátio do quartel de Tabríz situado no centro da cidade.
O príncipe expressou sua consternação ao portador do farmán, Mirza Hasan Khán, o Vizir-Nizám e irmão do Grão-Vizir. "O Amír," disse-lhe ele, "faria melhor se a mim confiasse serviços de mais mérito do que este, do qual ele agora me incumbe. A tarefa de mim exigida é tal que só um homem ignóbil aceitaria. Eu não sou nem Ibn-i-Zíyád nem Ibn-i-Sa'd (9), para ser compelido a trucidar um homem inocente, da linhagem do Profeta de Deus." Mirza Hasan Khán relatou essas palavras do príncipe a seu irmão, quem logo ordenou que ele mesmo, sem demora e integralmente, cumprisse as instruções já dadas. "Alivia-nos," instava o Vazír a seu irmão, "desta ansiedade que pesa sobre nossos corações, e levemos essa questão a um término antes de se irromper sobre nós o mês de Ramadán, a fim de podermos entrar no período do jejum com ininterrupta tranqüilidade." Mirza Hasan Khán tentou informar o príncipe dessas novas instruções, mas falhou em seus esforços, pois o príncipe fingindo doença, recusou recebê-lo. Não impedido, em absoluto, por essa recusa, mandou que o Báb e aqueles em Sua companhia fossem imediatamente transferidos da casa na qual estavam hospedados para um dos compartimentos do quartel e, além disso, deu instruções a Sam Khán para despachar dez de seus homens a fim de guardar a entrada do compartimento no qual seria confinado.
Privado de Seu turbante e Seu cinto, os emblemas gêmeos de Sua linhagem nobre, o Báb, acompanhado de Siyyid Husayn, Seu amanuense, foi sujeitado a ainda outro encarceramento, o qual - bem sabia Ele - era apenas um passo adiante no caminho que O conduziria àquela meta que Ele para Si Próprio determinara. Aquele dia testemunhou uma comoção tremenda na cidade de Tabríz. A grande convulsão que nas idéias de seus habitantes estava associada com o Dia do Juízo, parecia, afinal, lhes haver sobrevindo. Jamais experimentara essa cidade um tumulto tão violento e tão misterioso como aquele que agitou seus habitantes no dia em que o Báb foi conduzido ao lugar destinado a ser a cena de Seu martírio. Enquanto Ele se aproximava do pátio do quartel, saltou de súbito em Sua frente um jovem que, em sua ansiedade para alcançá-Lo, havia forçado seu caminho através da multidão, sem levar em conta, de modo algum, os riscos e perigos que tal tentativa poderia acarretar. Sua face estava pálida, seus pés estavam descalços, seu cabelo desgrenhado. Ofegando de agitação e exausto de fadiga, lançou-se aos pés do Báb e, segurando a bainha de Suas vestes, implorou-Lhe apaixonadamente: "Não me afastes de Ti, ó Mestre. Onde quer que Tu vás, permite que eu Te siga." "Muhammad-'Alí," respondeu o Báb, "levanta-te e tem confiança de que estarás Comigo (10). Amanhã haverás tu de testemunhar o que Deus decretou." Dois outros companheiros, não podendo se conter, precipitaram-se em Lhe assegurar sua inalterável lealdade. Estes, juntamente com Mirza Muhammad-'Alí-i-Zunúzí, foram apreendidos e postos na mesma cela em que foram confinados o Báb e Siyyid Husayn.
Tenho ouvido Siyyid Husayn dar testemunho do seguinte: "Naquela noite a face do Báb estava ardente de júbilo, um júbilo como jamais brilhara de Seu semblante. Indiferente para a tempestade que a Seu redor se enfurecia, conversava conosco com alegria e jovialidade. As tristezas que sobre Ele tão gravemente pesavam, pareciam haver se desvanecido por completo. Seu peso dissolvera-se, aparentemente, na consciência da vitória próxima. 'Amanhã,' disse-nos Ele, 'será o dia de Meu martírio. Oxalá pudesse um de vós agora se levantar e, com as próprias mãos, pôr fim a Minha vida. Prefiro ser morto pela mão de um amigo, antes de pela mão do inimigo.' Lágrimas choviam de nossos olhos enquanto O ouvíamos expressar seu desejo. Apavorávamo-nos, porém, ante o pensamento de tirarmos com as próprias mãos uma vida tão preciosa. Recusamos e guardamos silêncio. Mirza Muhammad-'Alí de súbito se levantou, anunciando que estava pronto para obedecer qualquer coisa que o Báb desejasse. 'Esse mesmo jovem que se levantou para aceder à Minha vontade,' declarou o Báb, depois de havermos nós intervido e o forçado a abandonar tal pensamento, 'juntamente comigo sofrerá o martírio. Será ele quem Eu escolherei para compartilhar dessa coroa.'"
Cedo na manhã seguinte, Mirza Hasan Khán mandou seu farrásh-báshí (11) conduzir o Báb à presença dos principais mujtahids da cidade e deles obter a autorização exigida para Sua execução (12). Quando o Báb estava saindo do quartel, Siyyid Husayn Lhe perguntou o que ele deveria fazer. "Não confesses sua fé," Ele lhe aconselhou. "Assim poderás, ao chegar a hora, transmitir àqueles destinados a te ouvir, as coisas das quais somente tu estás ciente." Ele estava ocupado em conversar com Siyyid Husayn confidencialmente quando, de súbito, o farrásh-báshí interrompeu e segurando Siyyid Husayn pela mão, o apartou e repreendeu com severidade. "Antes de Eu lhe haver dito todas aquelas coisas que desejo dizer," o Báb advertiu ao farrásh-báshí, "nenhum poder terreno haverá de me silenciar. Embora o mundo inteiro contra Mim se arme serão impotentes, entretanto, para Me deter de cumprir até a última palavra Minha intenção." Espantou-se o farrásh-báshí diante de tão audaz asserção. Não respondeu porém, e mandou Siyyid Husayn levantar-se e segui-lo.
Quando Mirza Muhammad-'Alí foi conducido à presença dos mujtahids, instaram-lhes repetidas vezes que, em vista da posição ocupada pelo seu padrasto, Siyyid 'Alí-i-Zunúzí, retratasse sua fé. "Jamais," exclamou ele, "hei de renunciar, meu Mestre. Ele é a essência de minha fé e o objeto de minha mais verdadeira adoração. N'Ele encontrei meu paraíso e em observância a Sua lei reconheço a arca de minha salvação." "Cala-te!" vociferou Mullá Muhammad-i-Mámáqání, diante de quem esse jovem fora levado. "Tais palavras demonstram tua loucura; bem posso desculpar as palavras pelas quais não és responsável." "Não estou louco," retorquiu ele. "Tal acusação deveria antes, ser feita contra vós que sentenciastes à morte um homem não menos santo que o prometido Qá'im. Não é louco aquele que tem abraçado Sua Fé e anseia por derramar seu sangue em Seu caminho."
O Báb, por Sua vez, foi conduzido à presença de Mullá Muhammad-i-Mámáqání. Tão logo O reconhecera, apanhou a sentença de morte que ele mesmo escrevera anteriormente e, dando-a a seu subordinado, lhe mandou entregá-la ao farrásh-báshí. "Desnecessário é," gritou ele, "trazer a minha presença o Siyyid-i- Báb. Essa sentença escrevi naquele mesmo dia em que o conheci na reunião presidida pelo Vali-'Ahd. É, seguramente, o mesmo homem que vi naquela ocasião e ele não tem cedido, neste entrementes, nenhuma de suas pretensões."
Daí foi o Báb conduzido à casa de Mirza Báqir, filho de Mirza Ahmad, a quem ele recentemente sucedera. Ao chegarem, encontraram seu subordinado em pé no portão, segurando na mão a sentença de morte do Báb. "Não há necessidade de entrar," disse-lhes. "Meu mestre já se certificou de haver seu pai tido razão ao pronunciar a sentença de morte. Melhor não pode ele fazer do que lhe seguir o exemplo."
Mullá Murtadá-Qulí, seguindo nas pegadas dos dois outros mujtahids, havia emitido antes seu próprio testemunho por escrito e recusou encontrar-se face a face com seu temido oponente. Assim que o farrásh-báshí obtivera os documentos necessários, entregou seu Cativo logo às mãos de Sám Khán, assegurando-lhe que poderia agora proceder a desempenhar sua tarefa, já que havia obtido a sanção das autoridades civis e eclesiásticas do reino.
Siyyid Husayn havia permanecido confinado no mesmo compartimento onde passara a noite anterior com o Báb. Estavam prestes a colocar Mirza Muhammad-'Alí nesse mesmo compartimento quando ele, em prantos, lhe implorou permissão para permanecer com seu Mestre. Foi ele então entregue às mãos de Sám Khán com ordens de executá-lo também, caso ele persistisse em sua recusa de negar sua Fé.
Sám Khán, neste ínterim, estava se sentindo cada vez mais afetado pelo comportamento de Seu Cativo e pelo tratamento que Ele estava recebendo. Apoderou-se dele grande medo de que com sua ação atraísse sobre si a ira de Deus. "Eu professo a Fé Cristã," explicou ele ao Báb, "e nenhum desejo mau alimento contra vós. Se vossa Causa for a Causa da Verdade, habilitai-me a me aliviar da obrigação de derramar vosso sangue." "Segui vossas instruções," respondeu o Báb, "e se for sincera vossa intenção, o Onipotente poderá certamente vos aliviar de vossa perplexidade."
Sám Khán mandou seus homens bater um prego no pilar entre a porta do compartimento que Siyyid Husayn ocupava e a entrada para o adjacente, e segurar dois cabos àquele prego, dos quais o Báb e Seu companheiro seriam suspensos separadamente (13). Mirza Muhammad 'Alí implorou a Sám Khán que o colocasse de tal modo que seu próprio corpo protegesse o do Báb (14). Foi suspenso afinal em tal posição que sua cabeça repousava no peito de seu Mestre. Logo que foram seguramente suspensos, um regimento de soldados se dispôs em três fileiras, cada uma de duzentos e cinqüenta homens, os quais tiveram ordens de abrir fogo, cada um por sua vez, até haver o destacamento inteiro lançado a descarga de suas balas (15). Tão espessa foi a fumaça proveniente dos tiros dos setecentos e cinqüenta fuzis que a luz do sol de meio-dia se converteu em trevas. Havia se amontoado no telhado do quartel, bem como em cima das casas adjacentes, cerca de dez mil pessoas, todas as quais testemunharam aquela triste e comovedora cena.
Assim que se dissipara a nuvem de fumaça, uma assombrada multidão contemplava uma cena que seus olhos mal podiam acreditar. Lá, em pé diante deles, vivo e ileso, estava o companheiro do Báb, enquanto Ele próprio, são e salvo, desaparecera de sua vista. Embora os cabos pelos quais foram suspensos fossem despedaçados pelas balas, seus corpos no entanto, haviam milagrosamente escapado aos tiros (16). Até mesmo a túnica usada por Mirza Muhammad-'Alí nenhuma mancha mostrava, a despeito da espessura da fumaça. "O Siyyid-i- Báb desvaneceu de nossa vista!" exclamava a multidão perplexa. Saíram em frenética busca Dele e afinal, O encontraram sentado no mesmo compartimento no qual ficara na noite anterior, ocupado em completar a conversação com Siyyid Husayn, que fora interrompida. Uma expressão de imperturbável calma se manifestava em Sua face. Seu corpo emergira ileso da chuva de balas contra Ele dirigida pelo regimento. "Terminei Minha conversação com Siyyid Husayn," disse o Báb ao farrásh-báshí. "Agora podeis proceder ao cumprimento de vossa intenção." O homem estava demasiadamente abalado para continuar o que já tentara. Recusando levar a cabo seu dever, ele naquele mesmo momento partiu da cena e se despediu de seu posto. Relatou ele tudo o que havia presenciado a seu vizinho, Mirza Siyyid Muhsin, uma das notabilidades de Tabríz que, ao ouvir sua narração, se converteu à Fé.
Tive o privilégio de conhecer, subseqüentemente, esse mesmo Mirza Siyyid Muhsin, que me conduziu à cena do martírio do Báb e me mostrou a parece onde fora suspenso. Fui levado ao compartimento no qual O haviam encontrado conversando com Siyyid Husayn e foi me mostrado o lugar exato onde Ele havia estado sentado. Vi o mesmo prego que Seus inimigos haviam batido com martelo na parede e ao qual fora ligado o cabo que sustentava Seu corpo.
Atônito também ficara Sám Khán diante da força desta tremenda revelação. Ordenou que seus homens saíssem imediatamente do quartel e recusou jamais se associar, ele próprio ou seu regimento, a qualquer ato que implicasse no menor dano ao Báb. Jurou, enquanto se retirava do pátio, nunca mais assumir tal tarefa, ainda que sua recusa lhe acarretasse a perda da própria vida.
Mal partira Sám Khán quando Aqá Ján Khán-i-Khamsih, coronel da guarda pessoal, conhecido também pelos nomes de Khamsih e Násírí, ofereceu cumprir a ordem de execução. Na mesma parede e do mesmo modo foram o Báb e Seu companheiro suspensos, enquanto o regimento se dispôs em fileiras para sobre eles abrir fogo. De modo contrário ao da ocasião anterior, quando os tiros despedaçaram apenas as cordas pelas quais haviam sido suspensos, desta vez seus corpos foram despedaçados e misturados em uma só massa de carne e ossos (17). "Tivésseis vós acreditado em Mim, ó perversa geração" - foram as últimas palavras do Báb à multidão que O fitava enquanto o regimento se preparava para a descarga final - "cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, era superior à maioria de vós e de bom grado se teria sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que vós Me tereis reconhecido; naquele dia, Eu terei deixado de estar convosco (18)."
No momento exato em que atiraram, surgiu um vendaval de severidade excepcional e varreu a cidade inteira. Um redemoinho de pó de incrível densidade obscureceu a luz do sol e cegava os olhos do povo. Toda a cidade permaneceu envolta nessa escuridão desde meio-dia até à noite. Nem tão estranho fenômeno, seguindo de imediato aquele ainda mais espantoso acontecimento - o insucesso do regimento de Sám Khán em lesar o Báb - pôde comover os corações do povo de Tabríz e induzi-lo a fazer pausa e refletir sobre o significado de eventos tão momentosos. Testemunharam o efeito que tão maravilhosa ocorrência produzira em Sám Khán; presenciaram a consternação do farrásh-báshí e o viram tomar sua irrevogável decisão; puderam até examinar aquela túnica que, apesar da descarga de tantas balas, havia permanecido inteira e sem mancha; puderam ler na face do Báb, depois de haver Ele emergido ileso daquela tempestade, a expressão de inalterável serenidade enquanto continuava Sua conversação com Siyyid Husayn; e, no entanto nenhum deles quis se encarregar de indagar sobre o significado desses insólitos sinais e maravilhas.
O martírio do Báb ocorreu ao meio-dia no domingo, dia 28 de Sha'bán, no ano de 1266 A. H. (19), trinta e um anos lunares, sete meses e vinte e sete dias desde o dia de Seu nascimento em Shíráz.
Ao anoitecer daquele mesmo dia, os corpos esmigalhados do Báb e de Seu companheiro foram removidos do pátio do quartel e deixados na margem do fosso fora do portão da cidade. Quatro companhias, consistindo cada uma de dez sentinelas, receberam ordens de vigiá-los por turnos. Na manhã após o dia do martírio, o cônsul russo em Tabríz, acompanhado por um artista, foi ao lugar e mandou traçar um desenho dos restos mortais, assim como lá jaziam, do lado do fosso (20).
Tenho ouvido Hájí 'Alí-'Askar relatar o seguinte: "Um oficial do consulado russo, a quem eu tinha parentesco, mostrou-me esse desenho no mesmo dia em que foi traçado. O retrato do Báb que contemplei era tão fiel! Nenhuma bala havia atingido Sua fronte, Suas faces ou Seus lábios. Fitei um sorriso que parecia estar ainda pairando sobre Seu semblante. Seu corpo, porém, fora severamente mutilado. Eu podia reconhecer os braços e a cabeça de Seu companheiro, que parecia estar sustentando-O em seu abraço. Enquanto horrorizado, eu contemplava aquele quadro, que me persistia na consciência, e via como aqueles nobres traços haviam sido desfigurados meu coração desfalecia dentro de mim. Em angústia virei a face e, conseguindo chegar a minha casa, me tranquei em meu quarto. Durante três dias e três noites não podia dormir nem me alimentar, tão completamente acabrunhado estava de emoção. Aquela vida curta e tumultuosa, com todas as suas tristezas, seus transtornos e seus desterros, coroada afinal, com o martírio que tão reverente admiração inspirava, parecia representar-se de novo diante de meus olhos. Torcia-me na cama, contraindo-me de dor e agonia."
Na tarde do segundo dia após o martírio do Báb, Hájí Sulaymán Khán, filho de Yahyá Khán, veio a Bágh-Mishih, um subúrbio de Tabríz, e foi recebido na casa do Kalantar (21), um de seus amigos e confidentes, que era dervixe e membro da comunidade sufi. Hájí Sulaymán Khán partira de Teerã ao ser informado do iminente perigo que ameaçava a vida do Báb, com o objetivo de conseguir Sua libertação. Consternou-se ao chegar tarde demais para levar a cabo sua intenção. Logo que seu anfitrião lhe informou das circunstâncias que haviam resultado na apreensão e sentença do Báb e lhe relatou os eventos que acompanharam Seu martírio, ele resolveu instantaneamente levar os corpos das vítimas, ainda que corresse o risco de pôr em perigo a própria vida. O Kalantar aconselhou que esperasse e seguisse sua sugestão em vez de se expor àquilo que lhe traria, segundo seu parecer, morte inevitável. Instou-lhe que transferisse sua residência a outra casa e aguardasse a chegada, naquela noite, de um certo Hájí Alláh-Yár quem, disse ele, estaria pronto para executar o que ele quisesse. Na hora marcada, Hájí Sulaymán Khán encontrou com Hájí Alláh-Yár que conseguiu, no meio daquela mesma noite, transportar os corpos da margem do fosso para a fábrica de seda que era propriedade de um dos crentes de Milán. No dia seguinte foram colocados em um caixão especialmente construído em madeira e, segundo as instruções de Hájí Sulaymán Khán, transferidos a um lugar de segurança. As sentinelas, entrementes, tentaram justificar-se pela desculpa de que, enquanto dormiam, animais selvagens haviam levado os corpos (22). Seus superiores, por sua parte, não querendo comprometer sua própria honra, esconderam a verdade, não divulgando-a às autoridades (23).
Hájí Sulaymán Khán de imediato levou o assunto ao conhecimento de Bahá'u'lláh, que estava então em Teerã e que deu instruções a Aqáy-i-Kalím para mandar um mensageiro especial a Tabríz com o fim de transferir os corpos para a capital. Essa decisão foi motivada pelos desejos que o próprio Báb expressara no "Zíyárat-i-Sháh-'Abdu'l-'Azím" uma Epístola que Ele revelara enquanto na vizinhança daquele santuário e entregou a um certo Mirza Sulaymán-i-Khatíb, com instruções para ele proceder a esse lugar, juntamente com alguns crentes, e dentro desse recinto entoá-la (24). "Bem-aventurado sois vós," em tais palavras o Báb se dirigia, nas passagens concludentes dessa Epístola, ao santo lá sepultado, "por haverdes encontrado vosso lugar de descanso emRayy, à sombra de Meu Bem-Amado. Oxalá pudesse Eu ser sepultado dentro do recinto desse solo sagrado!"
Estava eu mesmo em Teerã, na companhia de Mirza Ahmad, quando chegaram os corpos do Báb e de Seu companheiro. Bahá'u'lláh havia, neste ínterim, partido para Karbilá, de acordo com as instruções do Amír-Nízám. Áqáy-i-Kalím, com Mirza Ahmad, transferiram aqueles restos mortais do Imám-Zadih-Hasan (25), onde foram primeiro levados, para um lugar que permaneceu desconhecido de todos, menos deles mesmos. Esse lugar continuou em segredo até a partida de Bahá'u'lláh para Adrianópolis, quando Aqáy-i-Kalím foi incumbido de informar a Munir, um de seus co-discípulos, o sítio atual em que os corpos haviam sido colocados. Apesar de sua procura, não conseguiu encontrá-lo. Foi descoberto subseqüentemente por Jamál, velho aderente da Fé, a quem o segredo foi confiado enquanto Bahá'u'lláh estava ainda em Adrianópolis. Esse lugar está até agora desconhecido dos crentes, nem pode qualquer pessoa conjeturar para onde os restos mortais serão finalmente transferidos.
A primeira pessoa em Teerã a saber das circunstâncias que acompanharam aquele martírio cruel foi, depois do Grão-Vizir, Mirza Aqá Khán-i-Núrí, que havia sido exilado a Kashan por Muhammad-Sháh quando o Báb estava passando por aquela cidade. Ele assegurara a Hájí Mirza Jání, por cujo intermédio ele havia conhecido os preceitos da Fé que, se mediante o amor que ele tinha pela nova Revelação, pudesse recuperar a posição perdida, ele envidaria os máximos esforços em prol do bem-estar e da segurança dessa comunidade que era alvo de tanta perseguição. Hájí Mirza Jání relatou isso a seu Mestre, que lhe incumbiu de assegurar ao ministro desonrado que dentro em breve seria chamado a Teerã e investido, por seu soberano, de uma posição secundária a nenhuma outra, senão a do próprio Xá. Foi advertido de não se esquecer de sua promessa e de se esforçar para levar a cabo sua intenção. Deleitou-se com essa mensagem e renovou a promessa que ele havia dado.
Ao chegar-lhe a notícia do martírio do Báb, já havia ele conseguido a promoção, recebendo o título de I'timádu'd-Dawlih, e ele esperava ser elevado à posição de Grão-Vizir. Apressou-se a informar Bahá'u'lláh, a Quem conhecia intimamente, da notícia recebida, expressando a esperança de que a conflagração que ele receava, pudesse algum dia trazer indizível calamidade a Ele, tivesse sido finalmente extinta. "De modo algum," replicou Bahá'u'lláh. "Se isso é verdade, podeis ter certeza de que a chama que se ateou arderá mais intensamente do que nunca, em virtude desse próprio ato e causará uma conflagração tal que as forças combinadas dos estadistas deste reino serão impotentes para extinguir." O que estas palavras significavam, Mirza Áqá Khán era destinado a apreciar subseqüentemente. Mal poderia ele imaginar, quando foi pronunciada esta predição, que a Fé, após haver sofrido um golpe tão esmagador, pudesse sobreviver ao seu Autor. Ele mesmo, em uma ocasião, fora curado por Bahá'u'lláh de uma doença, quando toda esperança de recuperação havia sido abandonada.
Seu filho, o Nizámu'l-Mulk, perguntou-lhe um dia se não achava que Bahá'u'lláh, apesar de se haver mostrado o mais capaz entre todos os filhos do falecido Vizir, falhara, não correspondendo à tradição de Seu pai e assim desapontando as esperanças Nele depositadas. "Meu filho," respondeu ele, "acreditas realmente ser ele um filho indigno de seu pai? Tudo o que qualquer um de nós pode esperar alcançar é apenas uma lealdade efêmera e precária que se desvanecerá logo que terminarem nossos dias. Nossa vida mortal jamais poderá estar livre das vicissitudes que cercam o caminho de nossa ambição terrena. Pudéssemos por acaso mesmo segurar, durante o tempo de nossa vida, a honra de nosso nome, quem pode dizer se, após nossa morte, a calúnia não venha a macular nossa memória e desfazer o trabalho por nós realizado? Até mesmo aqueles que, enquanto nós estamos ainda vivos nos honram com seus lábios, haveriam de, em seus corações, nos condenar e vilificar, fossemos nós, por apenas um momento, deixar de lhes promover os interesses. Não é assim, porém, com Bahá'u'lláh. Diferente dos grandes da terra, qualquer que seja sua raça ou grau, ele é objeto de um amor e devoção tais que o tempo não pode diminuir nem o inimigo eliminar. Sua soberania, as sombras da morte jamais poderão obscurecer, nem a língua do caluniador solapar. Tal é o domínio de sua influência que nenhum entre aqueles que o amam se atreve, na calada da noite, evocar a memória do mais minúsculo desejo que pudesse, ainda que remotamente, ser visto como contrário a sua vontade. O número dos que assim o amam haverá de aumentar em grande escala. O amor que eles lhe têm jamais decrescerá - antes, será transmitido de geração a geração até que o mundo seja inundado de sua glória."
A maliciosa persistência com a qual um inimigo feroz tentou lesar e finalmente destruir a vida do Báb, em seu rastro trouxe para a Pérsia e seus habitantes indizíveis calamidades. Os homens que perpetraram tais atrocidades caíram vítimas de remorso mordaz, e dentro de um período incrivelmente curto tiveram que sofrer morte ignominiosa. Quanto às massas que presenciaram com sombria indiferença a tragédia que se representava diante de seus olhos e deixaram de levantar um dedo em protesto contra aquelas hediondas crueldades, elas por sua vez caíram vítimas de uma miséria que todos os recursos da terra e a energia dos estadistas eram impotentes para aliviar. O vento da adversidade soprou ferozmente sobre elas, abalando até seus fundamentos a prosperidade material. Desde aquele dia mesmo em que a mão do assaltante se estendeu contra o Báb e tentou dar o golpe fatal à Sua Fé, aflição após aflição esmagou o espírito daquele povo ingrato, levando-o até a própria beira da bancarrota nacional. Pragas cujos próprios nomes lhes deram quase desconhecidos, salvo por uma breve referência nos livros empoeirados que poucos tinham disposição para ler, caírem sobre elas com uma fúria da qual ninguém pode escapar. O flagelo, onde quer que grassasse, espalhava devastação. Príncipe e camponês sentiram-lhe de igual o aguilhão e se curvaram sob seu jugo. Agarrava o povo, recusando-se a relaxar o aperto de suas mãos. Tão malignas como a febre que dizimou a província de Gílan, essas repentinas provações continuaram a assolar a terra. Embora tão aflitivas essas calamidades, a ira vingadora de Deus não se limitou a esses infortúnios que sobrevieram a um povo perverso e infiel. Fez-se sentir em cada ser vivente que respirava na face daquela terra atribulada. Afetou a vida das plantas e dos animais igualmente, e fez o povo sentir a magnitude de sua angústia. Fome acrescentou seus horrores ao estupendo peso das aflições sob as quais o povo gemia. O sombrio espectro da morte pela fome andava em sua caçada, e a perspectiva de expirar lenta e dolorosamente persistia em sua visão. Tanto o povo como o governo suspirava pelo alívio que em parte nenhuma podiam obter. Receberam do cálice da angústia até a escória, completamente inconscientes da mão que o trouxera aos seus lábios e da Pessoa por cuja causa tiveram que sofrer.
Primeiro a levantar-se para perseguir o Báb, outro não foi, senão Husayn Khán, o governador de Shiráz. Seu vergonhoso tratamento de seu Cativo custou-lhe as vidas de milhares que haviam sido entregues a sua proteção e que anuíram aos seus atos. Sua província foi devastada por uma praga que a levou até a beira da destruição. Empobrecida e exausta, Fárs elanguescia, impotente sob seu peso, pedindo a caridade de seus vizinhos e a ajuda de seus amigos. O próprio Husayn Khán presenciou com amargura a anulação de todos os seus labores, foi condenado a viver na obscuridade durante os dias que lhe restavam e foi cambaleando ao seu túmulo, abandonado e esquecido, tanto pelos amigos como pelos inimigos.
O segundo a tentar desafiar a Fé do Báb e lhe deter o progresso, foi Hájí Mirza Aqásí. Ele foi quem, por motivos egoístas e a fim de cortejar o favor dos abjetos ulemás de seu tempo, se interpôs entre o Báb e Muhammad Sháh e se esforçou por impedir que se encontrassem. Ele foi quem pronunciou o desterro de seu temido Cativo para um isolado recanto de Aghirbáyján e, com vigilância tenaz, mantinha guarda sobre Seu isolamento. A ele foi dirigida aquela Epístola denunciadora na qual seu Prisioneiro prognosticou seu triste destino e expôs sua infâmia. Mal passaram um ano e seis meses depois que o Báb chegara às proximidades de Teerã, quando a vingança Divina tirou-o do poder e o impeliu a buscar abrigo dentro do inglorioso recinto do santuário de Sháh-'Abdu'l-'Azím, um refugiado da ira de seu próprio povo. Daí a mão do Vingador o forçou a um exílio além dos confins de sua terra natal, mergulhando-o em um oceano de aflições até que encontrou sua morte em circunstâncias de abjeta pobreza e indizível angústia.
Quanto ao regimento que, a despeito do inexplicável insucesso de Sám Khán e seus homens em destruir a vida do Báb, se havia oferecido para renovar aquela tentativa, conseguindo, afinal, Lhe cravar o corpo com suas balas, duzentos e cinqüenta de seus membros encontraram sua morte naquele mesmo ano, juntamente com seus oficiais, num terrível terremoto. Enquanto descansavam, em um quente dia de verão, à sombra de um muro em seu caminho entre Ardibíl e Tabríz, absortos em seus jogos e prazeres, a inteira estrutura de repente desmoronou e caiu sobre eles, não deixando nenhum sobrevivente. Os restantes quinhentos sofreram a mesma sorte que suas próprias mãos infligiram ao Báb. Três anos após Seu martírio, esse regimento amotinou-se e seus membros foram com isso impiedosamente fuzilados por ordem de Mirza Sádiq Khán-i-Núrí. Não contente com uma primeira descarga, ordenou que uma segunda fosse descarregada a fim de assegurar que nenhum dos amotinados tivesse sobrevivido. Seus corpos foram depois cravados de dardos e lanças e deixados expostos à vista do povo de Tabríz. Naquele dia muitos dos habitantes da cidade, recordando as circunstâncias do martírio do Báb, admiraram-se do mesmo destino que sobreviera àqueles que O haviam trucidado. "Poderia ser, por acaso, a vingança de Deus," ouvia-se alguns poucos sussurrarem um ao outro, "que tem levado o regimento inteiro a um fim tão desonroso e trágico? Se aquele jovem foi um impostor mentiroso, por que têm seus perseguidores sofrido tão severo castigo?" Estas dúvidas assim expressas chegaram aos ouvidos dos principais mujtahids da cidade, dos quais grande medo se apoderou, levando-os a mandar punir severamente todos aqueles que alimentavam tais dúvidas. Alguns foram chicoteados, outros foram multados, e todos foram advertidos que desistissem desses sussurros, os quais só poderiam revivificar a memória de um terrível adversário e novamente atear entusiasmo pela Sua Causa.
O principal incitador das forças que precipitaram o martírio do Báb, o Amír-Nízám, e também seu irmão, o Vazír-Nízám, seu maior cúmplice, foram, dentro de dois anos depois daquele ato selvagem, sujeitados a um horrível castigo, que terminou miseravelmente em suas mortes. O sangue do Amír-Nízám mancha, até mesmo o dia de hoje, a parede do banho de Fín (26), como testemunho das atrocidades que sua própria mão perpetrara (27).
CAPÍTULO XXIV
A REVOLTA DE ZANJÁN
A fagulha que incendiara as grandes conflagrações de Mázindarán e Nayríz já havia inflamado Zanján (1) e suas cercanias quando o Báb encontrou Sua morte em Tabríz. Por profunda que fosse Sua tristeza sobre o lastimável e calamitoso destino que sobreviera os heróis de Shaykh Tabarsí, a notícia dos sofrimentos não menos trágicos que foram a sorte de Vahíd e seus companheiros, veio como mais um golpe para Seu coração, já oprimido pelo peso de múltiplas aflições. A consciência dos perigos que se espessavam a Seu redor; a memória da indignidade que Ele suportou a última vez que foi conduzido a Tabríz; a pressão de um prolongado e rigoroso cativeiro em meio aos fortificados recintos das montanhas de Adhirbáyján; a horrenda carnificina que assinalou as etapas concludentes das revoltas de Mázindarán e Nayríz; os ultrajes a Sua Fé perpetrados pelos perseguidores dos Sete Mártires de Teerã - nem eram estas todas as tribulações que nublaram os dias restantes de uma vida que rapidamente minguava. Já estava Ele prostrado diante da severidade desses golpes quando Lhe alcançaram as notícias dos acontecimentos em Zanján, os quais então começavam a prognosticar suas tristes conseqüências finais, servindo isso para consumar a angústia de Seus últimos dias. Quanta agonia não deve Ele ter suportado à medida que as sombras da morte rapidamente O cercavam! Em toda área, quer no norte ou no sul, os campões de Sua Fé foram sujeitados a sofrimentos imerecidos, havendo sido infamemente enganados, roubados de seus bens e desumanamente massacrados. E agora, como se para encher até transbordar Seu cálice de dores, irrompeu a tempestade de Zanján, a mais violenta e devastadora delas todas (2).
Procedo agora a relatar as circunstâncias que fizeram daquele evento um dos mais emocionantes episódios na história desta Revelação. Sua figura principal foi Hujját-i-Zanjání, cujo nome era Mullá Muhammad 'Alí (3), um dos mais capazes dignitários eclesiásticos de sua época e certamente um dos mais temidos campeões da Causa. Seu pai, Mullá Rahím-i-Zanjání, foi um dos mais eminentes mujtahids de Zanján, muito estimado por sua piedade, sua erudição e força de caráter. Mullá Muhammad'Alí, cognominado Hujját, nasceu no ano de 1227 A. H. (4). Desde menino, mostrou ele tamanha capacidade que seu pai prodigalizava cuidados em sua educação. Mandou-o a Najaf, onde ele se distinguiu por sua perspicácia, sua habilidade e seu fogoso ardor (5). Seus conhecimentos e sua aguçada inteligência excitaram a admiração de seus amigos, enquanto sua franqueza e força de caráter fizeram-no o terror de seus adversários. Seu pai lhe aconselhou que não regressasse a Zanján, onde seus inimigos estavam contra ele conspirando. De acordo com isso decidiu estabelecer residência em Hamadán (6), onde se casou com uma parenta e morou por cerca de dois anos e meio. Veio-lhe então a notícia do falecimento de seu pai, quando resolveu partir para sua cidade natal. A ovação que ele recebeu ao chegar, inflamou a hostilidade dos ulemás, os quais a despeito de sua oposição manifesta, de suas mãos receberam todas as provas de consideração e bondade (7).
Do púlpito do masjid erigido pelos seus amigos em sua honra, exortou a vasta multidão, lá reunida a fim de ouvi-lo, a se abster de excessiva indulgência para consigo próprio e a exercer moderação em todos os seus atos (8). Ele suprimiu inexoravelmente toda forma de abuso e pelo seu exemplo animou o povo a aderir rigidamente aos princípios inculcados pelo Alcorão. Com tão grande cuidado e tanta habilidade ensinava ele os discípulos, que estes excederam em conhecimentos e compreensão os reconhecidos ulemás de Zanján. Durante dezessete anos prosseguiu seus labores meritórios e conseguiu purificar as mentes e os corações de seus concidadãos de qualquer coisa que parecesse ser contrária ao espírito e aos ensinamentos de sua Fé (9).
Quando lhe veio a Chamado de Shíráz, ele despachou seu mensageiro fidedigno, Mullá Iskandar para indagar sobre as pretensões da nova Revelação, tal foi sua resposta a essa Mensagem que seus inimigos foram incitados a redobrar contra ele seus ataques. Não havendo podido, antes, desonrá-lo aos olhos do governo e do povo, tentaram agora denunciá-lo como defensor de uma heresia e repudiador de tudo o que havia de sagrado e acariciado no Islã. "Sua reputação pela justiça, piedade, sabedoria e erudição," sussurravam um ao outro, "tem sido tal que nos era impossível lhe enfraquecer sua posição. Quando chamado a Teerã, na presença de Muhammad Sháh, não conseguiu ele, com sua eloqüência magnética, ganhar sua simpatia e dele fazer um de seus devotados admiradores? Agora, entretanto, havendo ele tão abertamente se tornado campeão da Causa do Siyyid-i- Báb, podemos seguramente ter sucesso em obter do governo a ordem para sua apreensão e seu banimento de nossa cidade."
Assim redigiram uma petição a Muhammad-Sháh, na qual tentaram, por meio de todo ardil que suas mentes malévolas e astuciosas puderam inventar, desacreditar seu nome. "Enquanto ainda se professando seguidor de nossa Fé," queixaram-se eles, "com a ajuda de seus discípulos ele tem podido repudiar nossa autoridade. Agora que se identificou com a causa do Siyyid-i- Báb e converteu àquele odioso credo dois terços da população de Zanján, que humilhação não infligirá ele a nós! A multidão que se aglomera nos seus portões não mais cabe no masjid inteiro. Tal é sua influência que o masjid que pertencia a seu pai e aquele que foi erigido em sua honra foram ligados, tornando-se um só edifício a fim de acomodar a sempre crescente congregação que se apressa avidamente para segui-lo na oração. Aproxima-se o tempo rapidamente quando não só Zanján, como também as aldeias vizinhas haverão se declarado seus aderentes."
O Xá muito se admirou do tom e da linguagem em que os peticionários tentaram acusar Hujját. Participou seu espanto a Mirza Nazar-'Alí, o Hakím-Báshí, e se lembrou do fervoroso tributo que muitos visitantes a Zanján prestaram às habilidades e integridade do acusado. Decidiu chamá-lo, juntamente com seus opositores, a Teerã. Em uma reunião especial que ele próprio, juntamente com Hájí Mirza Áqásí e os principais oficiais do governo, bem como alguns dos ulemás reconhecidos convocaram, pediu que os dirigentes eclesiásticos de Zanján vindicassem as queixas que haviam avançado. Quaisquer perguntas que eles a respeito dos ensinamentos de sua Fé, fizessem a Hujját, ele respondia de um modo que não pudesse deixar de ganhar a admiração incondicional de seus ouvintes e estabelecer a confiança do soberano em sua inocência. O Xá expressou sua plena satisfação e recompensou Hujját amplamente pela excelente maneira com que conseguira refutar as alegações de seus inimigos. Ordenou-lhe que regressasse a Zanján e continuasse seus valiosos serviços à causa de seu povo, assegurando-lhe que sob todas as circunstâncias lhe daria seu apoio e pedindo que lhe informasse de qualquer dificuldade com que ele talvez tivesse que se defrontar no futuro (10).
Sua chegada em Zanján foi sinal para uma explosão feroz da parte de seus humilhados opositores. À medida que sua hostilidade se multiplicava, as provas de devoção por parte dos amigos e defensores aumentava em grau correspondente (11). Inteiramente desdenhoso de suas maquinações, prosseguia com inalterável zelo as atividades (12). Os princípios liberais que ele destemida e incessantemente promovia atacaram pela própria raiz a estrutura que um inimigo intolerante havia laboriosamente erigido. Presenciaram com fúria impotente o rompimento de sua própria autoridade e o colapso de suas instituições.
Foi nesses dias que seu emissário especial, Mashhadí Ahmad, que fora despachado confidencialmente a Shíráz com uma petição e presentes para o Báb, chegou em Zanján e lhe entregou nas mãos enquanto ele discursava aos discípulos, uma carta lacrada de seu Bem-Amado. Na Epístola recebida, o Báb lhe conferiu um de Seus próprios títulos, o de Hujját, e lhe solicitou que proclamasse do púlpito, sem a mínima reserva, os ensinamentos fundamentais de Sua Fé. Assim que foi informado dos desejos de seu Mestre, ele imediatamente declarou sua resolução de se dedicar à pronta execução de qualquer injunção contida na Epístola. Dissolveu logo a classe, ordenando que os discípulos fechassem os livros, e declarou sua intenção de encerrar seus cursos de estudo. "De que proveito," disse ele, "são estudo e pesquisas para aqueles que já encontraram a Verdade e por que se esforçar para adquirir erudição quando Aquele que é o Objeto de todo o conhecimento se manifesta?"
Assim que tentou dirigir a congregação em oferecer a oração de sexta-feira, segundo o Báb (13) lhe solicitara, o Imám-Jum'ih, que havia até então cumprido esse dever, protestou veementemente, asseverando ser esse direito o exclusivo privilégio de seus próprios antecessores, a ele conferido pelo seu soberano, direito esse que ninguém, por mais exaltada sua posição, podia usurpar. "Esse direito," retorquiu Hujját, "foi superado pela autoridade da qual o próprio Qa'im me investiu. Ele ordenou que eu assumisse publicamente essa função, e não posso permitir que qualquer pessoa infrinja esse direito. Se eu for agredido, tomarei medidas para me defender e para proteger as vidas de meus companheiros."
Sua destemida insistência no dever que lhe fora imposto pelo Báb fez os ulemás de Zanján aliarem-se com o Imám-Jum'ih (14) e levaram suas queixas a Hají Mirza Áqásí, diante de quem argüiram que Hujját desafiara a validade de reconhecidas instituições e lhes espezinhara os direitos. "Devemos fugir desta cidade com nossas famílias e nossos pertences," insistiam, "e deixar a seu cuidado exclusivo os destinos de seu povo, ou obter de Muhammad Sháh um édito para sua imediata expulsão deste país, pois acreditamos firmemente que estaríamos solicitando desgraça se permitíssemos que ele ficasse sobre seu solo." Embora Hají Mirza Áqásí nutrisse no coração desconfiança da ordem eclesiástica de seu país e tivesse uma aversão natural para suas crenças e práticas, ele foi forçado afinal a submeter a questão a Muhammad Sháh, que ordenou a transferência de Hujját de Zanján para a capital.
Um curdo, de nome Qilíj Khán, foi pelo Xá incumbido de entregar o chamado real a Hujját. O Báb neste entrementes chegara na vizinhança de Teerã em Seu caminho para Tabríz. Antes da chegada do mensageiro real em Zanján, Hujját enviara um dos amigos, um certo Khán-Muhammad-i-Túb-Chí, a seu Mestre com uma petição na qual solicitava lhe fosse permitido salvá-Lo das mãos do inimigo. O Báb assegurou-lhe que Sua salvação, o Todo-Poderoso tão somente poderia realizar e que ninguém podia escapar de Seu decreto ou se evadir de Sua lei. "Quanto a vosso encontro Comigo," acrescentou, "este breve haverá de se realizar no mundo do além, na morada de imperecível glória."
No dia em que Hujját recebeu essa mensagem, Qilíj Khán chegou em Zanján, lhe informou das ordens recebidas e partiu, acompanhado por ele, para a capital. Sua chegada em Teerã coincidiu com a partida do Báb da aldeia de Kulayn, onde Ele fora detido por alguns dias.
As autoridades, apreensivas de que um encontro entre o Báb e Hujját causasse novas comoções, haviam tomado as precauções necessárias para assegurar a ausência de Hujját de Zanján durante a passagem do Báb pela cidade. Os companheiros que estavam seguindo Hujját a alguma distância em seu caminho à capital foram por ele solicitados a regressar e tentar encontrar seu Mestre e lhe assegurar de sua prontidão para vir livrá-Lo. Enquanto de volta a seus lares, encontraram o Báb, que expressou novamente Seu desejo de que nenhum de Seus amigos tentasse libertá-Lo de Seu cativeiro. Até ordenou que dissessem aos crentes entre seus concidadãos que não se aproximassem Dele e sim O evitassem onde quer que estivesse.
Mal essa mensagem fora entregue àqueles que haviam saído para lhe dar boas vindas no momento de Sua Aproximação da cidade, quando começaram a lamentar e deplorar sua sorte. Não puderam, entretanto, resistir ao impulso que os impelia a sair a Seu encontro, esquecidos do desejo por Ele expresso.
Logo que foram encontrados pelos guardas que marchavam na dianteira de seu Cativo, foram impiedosamente dispersos. Quando alcançaram uma bifurcação da estrada, surgiu uma altercação entre Muhammad Big-i-Chápárchí e seu colega, que havia sido despachado de Teerã para ajudar a conduzir o Báb a Tabríz. Muhammad Big insistia que seu Prisioneiro fosse levado à cidade, onde lhe seria permitido passar a noite no caravançarai de Mirza Ma'sum-i-Tabíb, pai de Mirza Muhammad-'Alíy-i-Tabíb, mártir da Fé, antes de continuar sua marcha para Adhirbáyján. Alegou que se passassem a noite fora do portão, estariam expondo suas vidas a perigo e animando os opositores a tentar um ataque contra eles. Conseguiu afinal, convencer o colega de que devesse conduzir o Báb àquele caravançarai. Quando passavam pelas ruas, espantaram-se ao ver a multidão que se apinhara nos telhados das casas, tão grande era sua ansiedade de obter um vislumbre da face do Prisioneiro.
Mirza Ma'súm, antigo dono do caravançarai, havia morrido recentemente, e seu filho mais velho, Mirza Muhammad-'Alí, o mais eminente médico de Hamadán quem, embora não um crente, tinha amor sincero pelo Báb, chegara em Zanján e estava de luto pelo seu pai. Ele recebeu o Báb amorosamente no caravançarai que ele, com cuidado especial, preparara antecipadamente para Sua recepção. Até tarde naquela noite permaneceu em Sua presença, aceitando incondicionalmente a Sua Causa.
"Naquela mesma noite que testemunhou minha conversão," eu o ouvi relatar subseqüentemente, "levantei-me antes do amanhecer, acendi minha lanterna e, precedido pelo servo de meu pai, dirigi meus passos ao caravançarai. Os guardas que estavam estacionados na entrada, reconhecendo-me, permitiram que eu entrasse. O Báb estava fazendo Suas abluções quando fui conduzido a Sua presença. Impressionou-me muito vê-lo absorto em Suas devoções. Encheu-me o coração um sentimento de júbilo reverente, enquanto atrás Dele eu permanecia, orando. Preparei, eu mesmo, Seu chá e quando O estava lhe oferecendo, Ele me solicitou que partisse para Hamadán. 'Esta cidade,' disse Ele, 'será precipitada em grande tumulto e em suas ruas correrá sangue'. Expressei meu desejo de ser permitido a derramar meu sangue em Seu caminho. Assegurou-me Ele que não viera ainda a hora de meu martírio e me disse que eu me resignasse a qualquer coisa que fosse decretada por Deus. Na hora do nascer do sol, enquanto Ele montava Seu cavalo e se preparava para partir, Lhe implorei, que me deixasse segui-Lo, mas Ele aconselhou-me que ficasse e me assegurou Suas orações infalíveis. Resignando-me a Sua vontade, com pesar eu O via desaparecer de minha vista."
Ao chegar em Teerã, Hujját foi conduzido à presença de Hají Mirza Áqásí que, em nome do Xá e em seu próprio, expressou seu aborrecimento por causa da intensa hostilidade que sua conduta levantara entre os ulemás de Zanján. "Muhammad Sháh e eu," disse-lhe, "somos continuamente assediados por denúncias verbais e por escrito contra vós. Dificilmente pude acreditar em sua acusação relativa ao vosso abandono da Fé de vossos antepassados. Nem se inclina o Xá em tais asserções. Ele mandou que eu vos chamasse a sua capital e induzisse a refutar essas acusações. Entristece-me ouvir que um homem que considero infinitamente superior em conhecimento e habilidade ao Siyyid-i- Báb quis identificar-se com seu credo." "Não é assim," respondeu Hujját, "Deus sabe que, se esse mesmo Siyyid fosse confiar a mim o mais humilde serviço em seu lar, isso eu julgaria uma honra tal que os mais altos favores de meu soberano jamais poderiam esperar exceder." "Isso nunca pode ser!" bradou Hájí Mirza Áqásí. "É minha firme e inalterável convicção," reafirmou Hujját, "que esse Siyyid de Shíráz é, em verdade, Aquele cujo advento vós mesmo como todos os povos do mundo, estais ansiosamente esperando. Ele é nosso Senhor, nosso prometido Salvador."
Hájí Mirza Áqásí relatou isso a Muhammad-Sháh, a quem expressou seus receios de que, fossem permitir tão temível adversário - julgado pelo próprio soberano o mais hábil dos ulemás de seu reino - prosseguir irrestritamente o curso de suas atividades, seria esta uma política que acarretava o mais grave perigo ao Estado. O Xá, não favorável a dar crédito a tais relatos, atribuindo-os à malícia e inveja dos inimigos do acusado, ordenou convocar uma reunião especial na qual se lhe pediria que vindicasse sua posição em presença dos ulemás reunidos da capital.
Houve várias reuniões com esse propósito, em cada uma das quais Hujját expôs com eloqüência as pretensões básicas de sua Fé, confundindo os argumentos daqueles que tentaram lhe fazer oposição. "Não é a seguinte tradição," declarou ele audazmente, "reconhecida de modo igual pelo islã xiita e pelo sunita: - 'Deixo entre vós meus testemunhos gêmeos, o Livro de Deus e minha família?' - Em vossa opinião, não passou o segundo destes testemunhos, e não é nosso único meio de guia em conseqüência, contido no testemunho do Livro Sagrado? Solicito-vos a medir toda pretensão avançada por qualquer um de nós, pelo padrão estabelecido naquele Livro, e considerá-lo a autoridade suprema pela qual pode ser julgada a justeza de nosso argumento." Não podendo defender a questão contra ele, se aventuraram a pedir-lhe, como último recurso, que apresentasse um milagre para estabelecer a verdade de sua asserção. "Qual o milagre maior," exclamou ele, "do que o de haver Ele me dado o poder de triunfar, só e sem auxílio, pela simples força de meu argumento, contra as hostes combinadas dos mujtahids e ulemás de Teerã?"
A maneira magistral de Hujját, em refutar as inseguras pretensões avançadas pelos seus adversários ganhou-lhe o favor de seu soberano, não mais sendo ele, desde aquele dia, dominado pelas insinuações de seus inimigos. Embora a inteira companhia dos ulemás de Zanján, bem como muitos dos dirigentes eclesiásticos de Teerã, o tivessem declarado um infiel e condenado à morte, Muhammad Sháh continuou, entretanto, a lhe conferir seus favores e lhe assegurar que podia contar com seu apoio. Hájí Mirza Áqásí, embora não fosse de coração amigo de Hujját, não podia, em face dessas inquestionáveis evidências de favor real, resistir abertamente a sua influência e, com suas freqüentes visitas a sua casa e os presentes que com profusão lhe dava, aquele insincero ministro procurava esconder seu ressentimento e sua inveja.
Hujját era virtualmente prisioneiro em Teerã. Não podia transpor os portões da capital, nem lhe era permitido livre contato com os amigos. Os crentes entre seus concidadãos resolveram, afinal, enviar uma delegação para lhe pedir novas instruções sobre sua atitude para com os princípios e leis de sua Fé. Ele os incumbiu de observar com lealdade absoluta as admoestações recebidas do Báb por intermédio dos mensageiros que ele mandara investigar Sua Causa. Enumerou uma série de preceitos alguns dos quais constituíam uma bem definida divergência das tradições estabelecidas do Islã. "Siyyid Kázim-Zanjání," ele lhes assegurou, "estava intimamente associado a meu Mestre tanto em Shíráz, como em Isfáhán. Ele, como também Mullá Iskandar e Mashhadí Ahmad, ambos os quais mandei ao Seu encontro, tem declarado positivamente ser Ele próprio o primeiro a praticar os preceitos que impôs aos fiéis. Compete pois, a nós que somos Seus aderentes, seguir-Lhe o nobre exemplo."
Assim que essas explícitas instruções foram lidas a seus companheiros, eles se tornaram inflamados com um desejo irresistível de aceder a sua vontade. Entusiasticamente assumiram a tarefa de executar as leis da nova Dispensação e, abandonando os costumes e práticas anteriores, sem a mínima hesitação se identificaram com suas pretensões. Até crianças pequenas eram encorajadas a seguir escrupulosamente as admoestações do Báb. "Nosso bem-amado Mestre," eram ensinadas a dizer, "é, Ele Próprio o primeiro a praticá-la. Por que devemos nós, que somos Seus discípulos privilegiados, hesitar em fazê-las os princípios dominantes de nossas vidas?".
Hujját era ainda cativo em Teerã quando lhe veio a notícia do assédio do forte de Tabarsí. Ardentemente desejava ele, e deplorava isto lhe ser impossível, compartir da sorte de seus companheiros que com tão esplêndido heroísmo lutavam pela emancipação de sua Fé. Seu consolo único naqueles dias era sua estreita associação com Bahá'u'lláh, de quem ele recebeu o poder sustentador que lhe possibilitou, em época subseqüente, distinguir-se por façanhas não menos notáveis do que aquelas manifestadas por essa companhia nas horas mais tenebrosas de sua memorável luta.
Ele estava ainda em Teerã quando Muhammad Sháh faleceu, deixando o trono a seu filho Násiri'd-Dín Sháh (15). O Amír-Nizám, o novo Grão-Vizir, decidiu tornar mais rigorosa a prisão de Hujját e, neste ínterim, procurar um meio de destruí-lo. Esse cativo, ao ser informado da iminência do perigo que lhe ameaçava a vida, resolveu sair disfarçado de Teerã e se juntar aos companheiros, que ansiosamente aguardavam sua volta.
A chegada em sua cidade natal, ao ser anunciada aos companheiros por um certo Karbilá'í Valí-'Attar, foi sinal para uma tremenda demonstração de devotada lealdade por parte de seus numerosos admiradores. Aglomeraram-se homens, mulheres e crianças para lhe dar boas vindas e renovar seus protestos de duradouro e inalterável afeto (16). O governador de Zanján, Majdu'd-Dawlih (17), tio materno de Násíri'd-Dín Sháh, assombrado diante da espontaneidade dessa ovação ordenou, na fúria de seu desespero, que a língua de Karbilá'í Valí-'Attar fosse de imediato arrancada. Embora de coração detestasse Hujját, ele fingia ser seu amigo que desejava seu bem. Visitava-o freqüentemente, mostrando-lhe consideração sem limites e, no entanto, secretamente estava conspirando contra sua vida e aguardando o momento em que lhe pudesse infligir o golpe fatal.
Essa hostilidade latente seria breve transformada até romper em chama, por um incidente que era em si, de pouca importância. Forneceu a ocasião, uma briga repentina entre duas crianças de Zanján, uma das quais era de um parente de um dos companheiros de Hujját. O governador de imediato mandou apreender a criança e a confinar estritamente. Uma quantia foi oferecida ao governador pelos crentes, a fim de induzi-lo a libertar seu jovem prisioneiro. Ele recusou a oferta quando, então queixaram-se a Hujját, que protestou veementemente. "Essa criança," escreveu ele ao governador, "é nova demais para ser considerada responsável pela sua conduta. Se merece castigo é seu pai e não a criança, que se deve fazer sofrer."
Vendo que o apelo não fora atendido, renovou ele seu protesto e o entregou às mãos de um de seus amigos, homens de influência, Mir Jalíl, pai de Siyyid Ashraf e mártir da Fé, incumbindo-o de apresentá-lo pessoalmente ao governador. Os guardas estacionados na entrada da casa recusaram de início, admiti-lo. Indignado com isso, ele ameaçou forçar acesso pelo portão e conseguiu superar-lhes a resistência pela simples ameaça de desembainhar a espada e o governador enfurecido, foi obrigado a libertar a criança.
O fato de o governador haver acedido incondicionalmente a demanda de Mir Jalíl provocou a furiosa indignação dos ulemás. Protestaram violentamente, reprovando sua submissão às ameaças com as quais os oponentes haviam tentado intimidá-lo. Expressaram-lhe seu receio de que, por haver ele assim cedido, seriam encorajados a exigir dele ainda mais, e habilitados assumir, dentro em breve, as rédeas da autoridade e exclui-lo de participar da administração do governo, induziram-no afinal, a autorizar a prisão de Hujját, convencidos de que com este ato se pudesse deter o progresso de sua influência.
O governador, com relutância, consentiu. Repetidamente asseguravam-lhe os ulemás que sua ação em nenhuma circunstância viria a por em perigo a paz e segurança da cidade. Dois de seus aderentes, Pahlaván (18) Asadu'lláh e Pahlaván Safar-'Alí, sendo ambos notórios por sua brutalidade e sua força prodigiosa, ofereceram-se para prender Hujját e entregá-lo algemado ao governador. A cada um se prometeu uma generosa recompensa em retribuição desse serviço. Vestido em sua armadura, com capacetes nas cabeças, e lhes seguindo um bando de rufiões recrutados dentre os mais degradados da população, partiram para executar seu propósito. Os ulemás neste ínterim estavam diligentemente ocupados em incitar a população e animá-la a redobrar os esforços.
Logo que os emissários chegaram no bairro em que Hujját residia, defrontaram-se inesperadamente com Mir Saláh, um de seus mais temerosos adeptos que, juntamente com sete de seus companheiros armados, fez forte oposição ao avanço deles. Perguntou a Asadu'lláh onde ia e ao receber dele uma resposta insultante, desembainhou a espada e, com o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" (19), saltou em cima dele e lhe feriu na testa. A audácia de Mir Saláh a despeito da armadura pesada que o adversário usava, assustou o bando inteiro, causando sua fuga em várias direções (20).
O brado que aquele intrépido defensor da Fé levantou nesse dia foi ouvido pela primeira vez em Zanján - um brado que espalhou pânico pela cidade. O governador, atemorizado por sua força tremenda, perguntou o que poderia significar aquele brado e de quem foi a voz que o pudera levantar. Ficou gravemente agitado quando lhe disseram que era a senha dos companheiros de Hujját, com a qual pediam a assistência do Qa'im na hora da angústia.
Os remanescentes daquele bando amedrontado pouco depois, encontraram Shaykh Muhammad-i-Túb-Chí, a quem reconheceram imediatamente como um de seus mais hábeis adversários. Vendo-o desarmado caíram sobre ele e com um machado que um deles levava, golpearam-no, ferindo-lhe a cabeça. Levaram-no ao governador e mal haviam deixado o homem ferido, quando certo Siyyid Abu'l-Qásin, um dos mujtahids de Zanján o qual estava presente, se precipitou contra ele com o canivete e o apunhalou no peito. O governador também desembainhou a espada, lhe bateu na boca e foi seguido pelos atendentes que, com as armas a seu dispor, consumaram o assassinato de sua desventurada vítima. Enquanto sobre ele choviam seus golpes, ouviram-no, inconsciente de seus sofrimentos, dizer: "Agradeço-Te, ó meu Deus, por me haveres concedido a coroa do martírio." Ele foi o primeiro entre os crentes de Zanján a ofertar a vida no caminho da Causa. Sua morte, ocorrida na sexta-feira, dia quatro de Rajab, no ano de 1266 A. H. (21), precedeu por quarenta e cinco dias o martírio de Vahíd e por cinqüenta e cinco dias, o do Báb.
O sangue que naquele dia se derramou, longe de apaziguar a hostilidade do inimigo, serviu para, ainda mais, lhe inflamar as paixões, para lhe reforçar a determinação de sujeitar ao mesmo destino o restante dos companheiros. Encorajados pelo fato de que a tácita aprovação do governador fora dada as suas intenções expressas, resolveram trucidar todos aqueles em que pudessem pôr as mãos, sem antes obterem a expressa autorização dos oficiais do governo. Comprometeram-se solenemente entre si a não descansar antes de haverem extinguido o fogo daquilo que consideravam uma vergonhosa heresia (22). Forçaram o governador a mandar um pregoeiro proclamar por todo o Zanján que quem quisesse por em perigo sua vida, deixar serem confiscados seus bens, expor a esposa e os filhos à miséria e à vergonha, poderia aliar-se a Hujját e seus companheiros; e aqueles que desejavam assegurar seu próprio bem-estar e honra, bem como o de suas famílias, deveriam retirar-se da vizinhança em que residiam aqueles companheiros e procurar o abrigo da proteção do soberano.
Essa advertência, de imediato, dividiu os habitantes em dois grupos distintos e severamente pôs à prova a fé dos que não estavam firmes ainda em sua lealdade à Causa. Deu origem às mais comovedoras cenas, causou a separação de pais e filhos, a alienação de irmãos e de outros parentes. Todo laço de afeto terreno parecia dissolver-se nesse dia, e as promessas solenes foram rejeitadas a favor de uma lealdade mais poderosa e mais sagrada do que qualquer lealdade deste mundo. Zanján caiu vítima da mais frenética agitação. O grito de angústia que membros de famílias divididas levantavam ao céu em um frenesi de desespero, confundia-se com as blasfemas vociferações que um inimigo ameaçador lhes arremessava. Exclamações de júbilo a todo momento saudavam aqueles que, desprendendo-se de seus lares e parentes, se alistavam como espontâneos defensores da Causa de Hujját. O acampamento do inimigo zumbia de febril atividade em preparação para a grande luta na qual eles haviam secretamente resolvido entrar. Precipitaram-se a mandar das aldeias vizinhas reforços para a cidade, segundo ordens do governador, e animados pelos mujtahids, siyds e ulemás que o apoiaram (23).
Imperturbável diante do crescente tumulto, Hujját subiu ao púlpito e, erguendo a voz, proclamou à congregação: "A mão da Onipotência neste dia, separou a verdade da falsidade e dividiu a luz da guia, das trevas do erro. Não consinto a que vós sofrais algum mal por minha causa. O objetivo único do governador e dos ulemás que o apóiam, é me apreender e me matar. Não nutrem outra ambição. Têm sede de meu sangue e não procuram outro, além de mim. Qualquer um entre os que sinta o menor desejo de salvaguardar sua vida contra os perigos que nos cercam, qualquer um que hesite em oferecer a vida por nossa Causa - que ele, antes de ser tarde demais, se retire deste lugar e volte para aquele donde veio (24)."
Nesse dia mais de três mil homens foram recrutados das aldeias circunvizinhas de Zanján pelo governador. Neste ínterim Mír Saláh, acompanhado por alguns de seus companheiros, tendo observado a crescente agitação de seus oponentes, procurou a presença de Hujját e o exortou, como medida de precaução, a transferir sua residência ao forte de Alí-Mardán Khán (25), adjacente ao bairro em que ele morava. Hujját deu seu consentimento e ordenou que as mulheres e crianças, com as provisões necessárias, fossem levadas ao forte. Embora estivesse ocupado pelos donos, os companheiros induziram-nos afinal a se retirarem, dando-lhes em troca as casas em que eles mesmos haviam residido.
O inimigo entrementes se preparava para lançou contra eles um ataque violento. Mal um destacamento de suas forças abrira fogo contra as barricadas levantadas pelos companheiros, quando Mír Ridá, um siyyid de excepcional coragem pediu a seu líder que lhe permitisse tentar apreender o governador e trazê-lo preso ao forte. Hujját, não consentindo com esse pedido, lhe aconselhou que não arriscasse a vida.
Tão acabrunhado de medo estava o governador ao ser informado da intenção desse siyyid, que decidiu sair imediatamente de Zanján. Foi dissuadido de tomar tal medida entretanto, por um certo siyyid que argüia que sua partida seria sinal para tão graves distúrbios, que o desonrariam aos olhos de seus superiores. O próprio siyyid, como evidência de sua sinceridade, partiu para lançar uma ofensiva contra os ocupantes do forte. Mal dera ele o sinal para o ataque e começara a avançar na vanguarda de um bando de trinta de seus companheiros, quando inesperadamente, encontrou com dois de seus adversários, os quais marchavam em sua direção com as espadas desembainhadas. Acreditando que eles pretendiam assaltá-lo, ele com seu bando inteiro foram de repente tomados de pânico, voltou imediatamente a sua casa e, esquecido de tudo o que assegurara ao governador, permaneceu durante todo o dia fechado em seu quarto. Os que estavam com ele dispersaram-se prontamente, desistindo da idéia de prosseguir o ataque. Foram subseqüentemente informados de que os dois homens com quem haviam encontrado não lhes tinham nenhuma intenção hostil, que iriam simplesmente cumprir uma comissão que lhes fora confiada.
A esse episódio humilhante seguiram-se, dentro em breve, várias tentativas similares por parte daqueles que apoiavam o governador, todas as quais falharam completamente na consecução de seu propósito. Cada vez que se apressavam a atacar o forte, Hujját mandava uma pequena parte de seus companheiros, cujo número era de três mil, para emergir de seu abrigo e dissipar essas forças. Nenhuma vez ao dar tais ordens, deixou ele de acautelar aos discípulos contra desnecessário derramamento de sangue. Lembrava-lhes constantemente de que sua ação era de caráter puramente defensivo, e seu propósito único era preservar inviolada a segurança de suas mulheres e seus filhos. "É-nos proibido," ouvia-se ele freqüentemente observar, "travar guerra santa, sob quaisquer circunstâncias contra os descrentes, não importa qual seja sua atitude para conosco."
Esse estado de coisas continuou (26) até que as ordens do Amír-Nizám chegaram a um dos generais do exército imperial de nome Sadru'd-Dawlih-Isfáhání (27), que havia partido em comando de dois regimentos, para o Adhirbáyján. As ordens por escrito do Grão-Vizir lhe alcançaram em Khansih, mandando que cancelasse a projetada viagem e seguisse imediatamente a Zanján e lá prestasse sua assistência às forças que haviam sido juntadas pelo governo. "Fostes incumbido por vosso soberano," escrevia-lhe o Amír Nizám, "de subjulgar o bando de malfeitores em Zanján e suas cercanias. É privilégio vosso esmagar-lhes as esperanças e exterminar as forças. Tão insigne serviço, em tão crítico momento, vos ganhará o mais alto favor do Xá, bem como o aplauso e a estima do seu povo."
Esse farmán animador incitou a imaginação do ambicioso Sadrú'd-Dawlih. Marchou ele instantaneamente para Zanján na vanguarda de seus dois regimentos, organizou as forças que o governador colocara a seu dispor e deu ordens para um ataque por todas as forças combinadas contra o forte e seus defensores (28). A luta enfurecia-se nas cercanias do forte durante três dias e três noites, enquanto os assediados, sob a direção de Hujját, resistiam com esplêndida bravura a feroz investida dos atacantes. Nem seu número preponderante, nem a superioridade de seu equipamento e treino, podia habilitá-los a reduzir os intrépidos companheiros à rendição incondicional (29). Inabaláveis diante do fogo de canhão que sobre eles caia feito um dilúvio e esquecidos tanto de fome como de sono, precipitaram-se do forte em impetuosa investida, completamente alheios aos perigos aos quais tal ataque os expunha. Às imprecações com que a hoste oponente saudava sua saída de seu abrigo, bradavam sua resposta de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" e, enlevados pelo encanto dessa invocação, arremessaram-se contra o inimigo, dispersando-lhe as forças. A freqüência e o êxito dessas investidas desmoralizavam seus atacantes e os convenceram da futilidade de seus esforços. Breve foram obrigados a admitir sua incapacidade de ganhar uma vitória decisiva. O próprio Sadru'd-Dawlih teve que confessar que após haverem transcorrido nove meses de combate contínuo, de todos os homens que originariamente pertenciam a seus dois regimentos, nada mais que trinta soldados aleijados foram deixados para apoiá-lo. Acabrunhado de humilhação, foi forçado, afinal a admitir sua incapacidade de atemorizar o espírito de seus oponentes. Foi degradado e severamente repreendido pelo seu soberano. As esperanças por ele acariciadas foram, em conseqüência dessa derrota, irreparavelmente esmagadas.
Tão abjeta derrota lançou em consternação os corações do povo de Zanján. Poucos consentiam, após aquele desastre, em arriscar suas vidas em desesperançosos encontros. Somente aqueles obrigados a combater se aventuravam a renovar os ataques contra os assediados. O peso da luta foi suportado mormente pelos regimentos que estavam sendo despachados sucessivamente de Teerã para esse fim. Enquanto os habitantes da cidade, em particular a classe comercial, lucraram muito com repentino fluxo de tão grande número de forças os companheiros de Hujját sofreram necessidade e privação dentro dos muros do forte. Seus suprimentos diminuíam rapidamente; sua única esperança de receber alguns alimentos de fora estava nos esforços, muitas vezes mal sucedidos, de um pequeno número de mulheres que conseguiam, sob vários pretextos, aproximar-se do forte e lhes vender, por preços exorbitantes, as provisões das quais eles tão aflitivamente necessitavam.
Embora oprimidos pela forme e vexados por investidas ferozes e repentinas, eles mantinham com inalterável determinação a defesa do forte. Sustentados por uma esperança que as adversidades por mais numerosas que fossem, não poderiam ofuscar, conseguiram erigir nada menos que vinte e oito barricadas, cada uma das quais foi entregue ao cuidado de um grupo de dezenove de seus co-discípulos. Em cada barricada foram estacionados mais dezenove companheiros como sentinelas, cuja função era observar e comunicar os movimentos do inimigo.
Freqüentemente eram surpreendidos pela voz do pregoeiro, mandado pelo inimigo às proximidades do forte a fim de induzir os ocupantes a abandonar Hujját e sua Causa. "O governador da província," proclamou ele, "e o comandante em chefe também estão prontos a perdoar e oferecer uma passagem segura a qualquer um entre vós que decida deixar o forte e renunciar a sua fé. Tal homem será amplamente recompensado pelo seu soberano que, além de lhe prodigalizar dádivas, o investirá da dignidade de um grau nobre. Tanto o Xá como seus representantes hipotecaram sua honra que não deixarão de cumprir a promessa por eles feita." A esse chamado os assediados, unissonamente, davam respostas desdenhosas e decisivas.
Evidência adicional do espírito da sublime renúncia que animava esses valorosos companheiros, foi fornecida pela conduta de uma mocinha de aldeia que, de sua espontânea vontade, se determinou a compartilhar da sorte do bando de mulheres e crianças que se haviam aliado aos defensores do forte. Seu nome era Zaynab, seu lugar de residência, uma pequenina aldeia nas proximidades de Zanján. Ela era graciosa, de belas feições e estava inflamada com uma fé sublime e dotada de intrépida coragem. Ao ver as provações e durezas que os companheiros tiveram de suportar, sentiu-se impelida por um irrepressível desejo de se disfarçar em trajes masculinos e participar na repulsa dos repetidos ataques do inimigo. Vestindo uma túnica e pondo na cabeça um toucado igual ao dos companheiros, ela cortou o cabelo, cingiu-se de espada e, apanhando uma espingarda e um escudo, introduziu-se em suas fileiras. Ninguém suspeitava que era moça quando ela saltou para frente tomando seu lugar atrás da barricada. Logo que o inimigo atacou, ela desembainhou a espada e, erguendo o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" precipitou-se, com incrível audácia contra as forças dispostas em sua frente. Amigo e inimigo maravilharam-se, naquele dia, de uma coragem e uma engenhosidade que raramente seus olhos haviam contemplado. Seus inimigos pronunciaram-na uma maldição que uma Providência irada sobre eles lançara. Desesperados, abandonando suas barricadas, figuram em vergonhosa derrota diante dela.
Hujját, observando de uma das torres os movimentos do inimigo, reconheceu-a e se maravilhou da proeza mostrada por essa mocinha. Começara ela a perseguir os atacantes, quando ele deu ordens aos homens que a mandassem regressar ao forte e desistir da tentativa. "Nenhum homem", ouviu-se ele dizer, ao vê-la precipitar-se no fogo contra ela dirigido pelo inimigo, "se demonstrou capaz de tal vitalidade e tão grande coragem". Quando por ele interrogada quanto ao motivo de sua conduta, ela em lágrimas disse: "Meu coração doía de compaixão e tristeza ao contemplar a lida e os sofrimentos de meus co-discípulos. Avancei por um impulso interior ao qual não pude resistir. Receava que me negasse o privilégio de compartilhar da sorte de meus companheiros masculinos." "Você é certamente a mesma Zaynab", perguntou-lhe Hujját, "que se ofereceu para se unir aos companheiros do forte?" "Sou", respondeu ela. "Posso lhe assegurar em confiança que ninguém até agora descobriu meu sexo. Vós, somente, me reconhecestes. Ajuro-vos pelo Báb, que não me neguei aquele inestimável privilégio, a coroa do martírio, o único desejo de minha vida."
Impressionaram profundamente Hujját, o tom e a maneira de seu apelo. Ele tentou acalmar o tumulto de sua alma, assegurou-lhe suas orações por ela e lhe deu o nome de Rustam-'Alí em sinal de sua nobre coragem. "Este é o Dia da Ressurreição," disse-lhe, "o dia em que todos os segredos serão revelados (30)". Não pela sua aparência exterior, mas sim, pelo caráter de suas crenças e por seu modo de viver julga Deus Suas criaturas, sejam homens ou mulheres. Embora uma mocinha de tenra idade e imatura em experiência, demonstrasse tal vitalidade e engenhosidade como poucos homens poderiam esperar exceder. Ele acedeu a seu pedido e lhe advertiu que não transgredisse os limites que sua Fé lhes impusera. "Somos instados a defender nossas vidas", lembrava-lhe ele, "contra um adversário traiçoeiro e não a travar contra ele guerra santa".
Por um período de não menos de cinco meses, essa mocinha continuou a resistir, com heroísmo não igualado, às forças do inimigo. Desdenhando de alimento e sono, lidava com assiduidade febril pela Causa que ela mais amava. Pelo exemplo de sua esplêndida audácia, estimulava a coragem dos poucos que vacilavam, lembrando-os do dever que cada um deveria cumprir. A espada que levara permanecia, durante todo esse período, a seu lado. Nos breves intervalos de sono que ela podia obter, era vista com a cabeça descansando na espada, e com seu escudo cobrindo o corpo. Para cada um de seus companheiros era determinado um posto a ser por ele guardado e defendido, ao passo que essa destemida mocinha, somente, tinha liberdade para se mover em qualquer direção que ela quisesse. Sempre no auge e na vanguarda do tumulto que a seu redor se enfurecia, Zaynab estava a todo instante pronta para apressar-se a salvar qualquer posto que o adversário ameaçasse e a prestar assistência a qualquer um que necessitasse de ser por ela animado ou apoiado. Quando já no fim de sua vida se aproximava, seus inimigos descobriram seu segredo, mas continuaram, apesar de saberem que era uma moça, a temer sua influência e a tremer quando ela avançava. Bastava o som estridente de sua voz para lhes consternar os corações e enchê-los de desespero.
Um dia, vendo que seus companheiros estavam sendo cercados subitamente pelas forças inimigas, Zaynab, angustiada correu a Hujját e, jogando-se a seus pés lhe implorou, com os olhos cheios de lágrimas, que lhe permitisse apressar-se a socorrê-los. "Sinto que minha vida se aproxima de seu fim," acrescentou ela. "Posso, eu mesma, cair sob a espada do agressor. Perdoai, suplico-vos minhas transgressões e intercedei por mim com meu Mestre, por amor a Quem anseio sacrificar minha vida."
Hujját, estava emocionado demais para responder. Encorajada por seu silêncio, o qual ela interpretou como sinal de seu consentimento ao apelo que lhe fizera, Zaynab saltou para fora do portão e, sete vezes erguendo o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!", apressou-se a deter a mão que já trucidara vários de seus companheiros. "Por que enodoar com vossos atos o belo nome do Islã?" ela exclamou, enquanto contra eles se precipitava. "Por que fugir abjetamente diante de nossa face, se sois defensores da verdade?" Ela correu às barricadas que o inimigo erigia, pôs em debandada aqueles que guardavam as três primeiras das defesas e estava no ato de vencer a quarta, quando, sob uma chuva de balas, ela caiu morta no chão. Voz alguma entre seus oponentes atreveu-se a questionar sua castidade ou desprezar a sublimidade de sua fé e as qualidades imperecíveis de seu caráter. Tal foi sua devoção que, após sua morte nada menos que vinte mulheres, conhecidas dela, abraçaram a Causa do Báb. Para elas, Zaynab deixara de ser a jovem camponesa que haviam conhecido; era a própria encarnação dos mais nobres princípios da conduta humana, uma incorporação viva do espírito que somente uma Fé como a sua poderia manifestar.
Os mensageiros que serviam de intermédio entre Hujját e seus companheiros receberam instruções um dia para informar os guardas das barricadas que deveriam seguir a injunção do Báb a Seus seguidores, a de repetir dezenove vezes, toda noite, cada uma das seguintes invocações "Alláh-u-Akbar", (31) "Alláh-u-A'zam", (32) "Alláh-u-Ajmal", (33) "Alláh-u-Abhá" (34 e "Alláh-u-Athar" (35). Na mesma noite em que foi recebida essa ordem, todos os defensores das barricadas exclamaram simultaneamente essas palavras, erguendo um brado tão forte e penetrante que fez o inimigo acordar bruscamente de seu sono, abandonar em pavor o acampamento e se apressar às cercanias da residência do governador e procurar abrigo nas casas vizinhas. Alguns poucos foram tão chocados e aterrorizados que instantaneamente caíram mortos. Um número considerável dos habitantes de Zanján fugiu tomado de pânico, para as aldeias adjacentes. Muitos acreditaram que esse estupendo clamor fosse um sinal que prenunciava o Dia do Juízo; para outros significava a emissão, por parte de Hujját, de um novo chamado que seria o prelúdio de uma súbita ofensiva contra eles mais terrível do que qualquer uma já experimentada.
"Que teria sido", ouviu-se Hujját comentar ao ser informado do terror que essa invocação repentina causava, "se me tivesse sido permitido por meu Mestre travar guerra santa contra esses infames covardes! Sou por Ele ordenado a instilar nos corações dos homens os princípios enobrecedores da caridade e do amor e de me refrear de toda violência desnecessária. Meu objetivo e o de meus companheiros é, e sempre será, servir lealmente a nosso soberano e desejar o bem de seu povo. Tivesse eu preferido seguir as pegadas dos ulemás de Zanján, teria por toda a vida continuado a ser objeto da adoração servil desse povo. Jamais consentirei em trocar, por todos os tesouros e todas as honras que este mundo me puder conferir, a imorredoura lealdade que tenho hipotecado à Sua Causa."
A memória daquela noite ainda persiste nas mentes dos que presenciaram seu temor e assombro. Tenho ouvido diversas testemunhas oculares expressarem em termos vividos o contraste entre o tumulto e desordem que no acampamento do inimigo reinavam e a atmosfera de reverente devoção que predominava no forte. Enquanto aqueles no forte invocavam o nome de Deus e suplicavam Sua guia e misericórdia, seus oponentes, tanto oficiais como suas forças, estavam ocupados em atos de libertinagem e vergonha. Embora debilitados e exaustos, os ocupantes do forte continuaram a observar suas vigílias e a entoar tais hinos como o Báb instruíra que repetissem. No acampamento do inimigo, nessa mesma hora, retumbavam estrondosas gargalhadas, imprecações e blasfêmias. Nessa noite, em especial, mal ressoara a invocação, quando os oficiais dissolutos, que seguravam nas mãos seus copos de vinho, os deixaram cair no chão instantaneamente e se precipitaram para fora, descalços como se estarrecidos por aquele estentóreo brado. Mesas de jogo foram entornadas em meio à desordem que se seguiu. Meio vestidos e com cabeças descobertas, alguns correram para a mata, enquanto outros se apressavam às casas dos ulemás e os acordaram de seu sono. Alarmados e assombrados, estes começaram a dirigir, um ao outro, as mais veementes invectivas por haverem ateado o fogo de tão grande mal.
Logo que o inimigo descobrira o propósito daquele alto clamor, voltaram para seus pontos tranqüilos, mas muito humilhados por sua experiência. Os oficiais mandaram certo número de seus homens ficar de emboscada e abrir fogo para qualquer direção de que procedessem novamente aquelas vozes. Desse modo conseguiram matar, toda noite, vários dos companheiros. Imperturbáveis diante das perdas que eles repetidamente sofriam, os que apoiavam Hujját continuaram a erguer sua invocação com inalterado fervor, desdenhando os perigos aos quais se expunham ao oferecer a oração. A medida que seu número diminuía, mais alta se tornava essa oração e mais penetrante. Nem a iminência da morte pode induzir os intrépidos defensores do forte a desistirem daquilo que julgavam ser a mais nobre e a mais poderosa lembrança de seu Bem-Amado.
Ainda se enfurecia o combate, quando Hujját se sentiu impelido a dirigir sua mensagem escrita a Násírí'd-Dín Sháh. "Os súditos de Vossa Majestade", escreveu a ele, "vos consideram tanto seu governante temporal como o supremo custódio de sua Fé. A vós dirigem um apelo por justiça e olham para vós como o supremo protetor de seus direitos. Nossa controvérsia era, primariamente, só com os ulemás de Zanján, sob nenhuma circunstância envolvendo vosso governo ou povo. Eu mesmo fui chamado a Teerã por vosso predecessor e por ele solicitado a expor as pretensões básicas de minha Fé. O falecido Xá estava inteiramente satisfeito e muito comentou meus esforços. Resignei-me a deixar minha casa e estabelecer residência em Teerã, sem outra intenção senão mitigar a tempestade que se enfurecia em volta de minha pessoa, e extinguir o fogo que os malfeitores acenderam. Embora livre para regressar a minha casa, preferi permanecer na capital, dependendo inteiramente da justiça de meu soberano. Nos primeiros dias de vosso reinado, o Amír-Nizám, enquanto continuava ainda o tumulto de Mázindarán, suspeitava de mim de traição e estava determinado a destruir minha vida. Não encontrando em Teerã quem me pudesse proteger, resolvi, em defesa própria, fugir para a Zanján, onde reassumi meus labores e fiz tudo dentro de meu alcance a fim de promover os verdadeiros interesses do Islã. Prosseguia eu meu trabalho, quando Majdu'd-Dawlih contra mim se levantou. Várias vezes eu lhe fazia apelos para que exercesse moderação e justiça, mas se recusava a aceder a meu pedido. Instigado pelos ulemás de Zanján e encorajados pela adulação que lhe profigavam, determinou-se ele a me apreender. Meus amigos interviram, tentando lhe deter a mão. Ele continuou a incitar o povo contra mim e eles, por sua vez, agiram de um modo que levou à situação atual. Vossa Majestade até agora tem deixado de conceder benévolo amparo a nós, que somos as inocentes vítimas de tão feroz crueldade. Nossos inimigos tentaram até representar nossa Causa aos olhos de Vossa Majestade como uma conspiração contra a autoridade da qual fostes investido. Certamente todo observador imparcial admitirá logo que em nossos corações nenhuma intenção de tal natureza é nutrida. Nosso objetivo único é promover os melhores interesses de vosso governo e de vosso povo. Eu e meus principais companheiros nos mantemos em prontidão para ir a Teerã, a fim de podermos estabelecer em vossa presença, bem como na de nossos maiores oponentes, a verdade de nossa Causa."
Não se contentando com apenas sua própria petição, solicitou a seus mais eminentes defensores que dirigissem ao Xá apelos similares, reforçando seu pedido por justiça.
Assim que o mensageiro que levava a Teerã esses pedidos se pôs a caminho, foi apreendido e obrigado a voltar, sendo levado à presença do governador. Enfurecido pela ação dos oponentes, mandou que o mensageiro fosse morto imediatamente. Destruiu as petições e em seu lugar escreveu ao Xá cartas cheias de abuso e insultos e, afixando as assinaturas de Hujját e seus principais companheiros, as despachou a Teerã.
A tal ponto o Xá se indignou, após perscrutar essas insolentes petições, que deu ordens para o despacho imediato de dois regimentos equipados de espingardas e munições a Zanján, mandando que não deixassem sobreviver nenhum aderente de Hujját.
A notícia do martírio do Báb viera, neste ínterim, aos ocupantes do forte, tão penosamente oprimidos, através de Siyyid Hasan, irmão de Siyyid Husayn, amanuense do Báb, tendo ele chegado de Adhirbáyján em seu caminho para Qazvín. Espalhou-se a notícia entre as forças inimigas, sendo por elas acolhida com gritos de delirante regozijo. Apressaram-se a ridicularizar e zombar dos esforços de Seus aderentes. "Por que razão", gritaram com escárneo arrogante, "desejareis, de agora em diante, vos sacrificar? Aquele em cujo caminho ansiais por oferecer vossas vidas, caiu vítima, Ele próprio, às balas de um inimigo triunfante. Seu corpo, mesmo agora, está perdido tanto para seu inimigos como para seus amigos. Por que persistir em vossa obstinácia quando basta uma palavra para vos livrar de vossa angústia?" Por mais que se esforçassem para minar a confiança da comunidade pesarosa, não conseguiram, afinal, induzir nem sequer o mais fraco entre eles a abandonar o forte ou retratar sua Fé.
O Amír-Nizám instava seu soberano, entrementes, a despachar mais reforços a Zanján. Muhammad Khán, o Amír-Túmán, com cinco regimentos sob seu comando e equipado com uma quantidade considerável de armas e munições, foi incumbido, finalmente, de demolir o forte e eliminar os ocupantes.
Durante os vinte dias em que as hostilidades estavam suspensas, 'Aziz Khán-i-Mukrí, chamado Sardár-i-Kull, que estava em missão militar a Íraván (36) chegou em Zanján e conseguiu encontrar-se com Hujját por intermédio de seu anfitrião, Siyyid Alí Khán. Este relatou a 'Azíz Khán as circunstâncias de uma entrevista comovedora que ele tivera com Hujját, quando obteve toda a informação que ele necessitava sobre as intenções e propostas dos assediados. "Fosse o governo", dissera-lhe Hujját, "recusar considerar meu apelo, eu, com sua permissão, estaria disposto a partir com minha família para um lugar além dos confins desta terra. Caso recusasse aceder mesmo a este pedido, e persistisse em nos atacar, nós nos sentiríamos impelidos a nos levantar e defender. 'Aziz Khán assegurou a Siyyid 'Alí Khán que faria todo possível para induzir as autoridades a efetivar uma rápida solução desse problema. Mal havia Siyyid 'Alí Khán se retirado, quando 'Azíz Khán foi surpreendido pelo farrásh (37) do Amír-Nizám que havia vindo com o fim de apreender Siyyid 'Alí Khán e conduzi-lo à capital. Tomado de grande medo, ele, para afastar de si qualquer suspeita, começou a aviltar Hujját e a denunciá-lo abertamente diante do farrásh. Por este meio pode ele desviar o perigo que lhe ameaçava a própria vida.
A chegada de Amíz-Túmán foi sinal para o reinício de hostilidades em escala jamais vista por Zanján. Dezessete regimentos de cavalaria e infantaria se haviam reunido sob seu estandarte, e combateram sob seu comando (38). Nada menos que quatorze canhões foram, segundo suas ordens, dirigidos contra o forte. Cinco regimentos adicionais, recrutados da vizinhança pelo Amír, estavam, sendo por ele treinados como reforços. Na mesma noite em que chegou, emitiu ordens para fazer soarem as trombetas como sinal para o reinício do ataque. Ordenou que os oficiais que comandavam a artilharia abrissem fogo instantaneamente contra os assediados. Mal começara a ressoar dos canhões, distintamente ouvido a uma distância de cerca de quatorze farsangs (39), quando Hujját mandou seus companheiros fazerem uso dos dois canhões que eles mesmos haviam construído. Um foi transportado a uma posição elevada que dominava o quartel do Amír. Uma bala atingiu sua tenda e feriu mortalmente seu corcel. O inimigo durante este tempo dirigia seu fogo contra o forte com impiedosa fúria, e conseguira matar grande número de ocupantes.
Com o decorrer dos dias, tornou-se cada vez mais evidente que as forças sob o comando do Amír-Túmán, a despeito de sua grande superioridade em número, equipamento e treino, não puderam alcançar a vitória que haviam credulamente antecipado. A morte de Farrukh Khán, filho de Yahyá Khán e irmão de Hájí Sulaymán Khán, um dos generais do exército inimigo, incitou a indignação do Amír-Nizám, que dirigiu uma comunicação veemente ao oficial em comando, repreendendo-lhe por não haver conseguido forçar os assediados a renderem-se incondicionalmente. "Maculastes o belo nome de nosso país," ele lhes escreveu, "desmoralizastes o exército e desperdiçastes as vidas de seus oficiais mais capazes." Mandou-lhe manter a mais estrita disciplina entre os subordinados e limpar o acampamento de toda mancha de libertinagem e vício. Instou-lhe, além disso, a consultar com os chefes do povo de Zanján, advertindo-lhe que se não conseguisse atingir seu objetivo, seria degradado de sua posição. "Se vossos esforços combinados", ele acrescentou, "se provarem ser impotentes para forçá-los a se submeter, eu mesmo procederei a Zanján e ordenarei um massacre geral de seus habitantes, nada importando sua posição ou crença. Uma cidade que pode trazer tanta humilhação ao Xá e aflição a seu povo é completamente indigna da clemência de nosso soberano."
Em um frenesi de desespero, o Amír-Túmán convocou todos os Kad-Khudás (40) e chefes do povo, mostrou-lhes o texto dessa carta e com suas fervorosas instâncias conseguiu despertá-los para ação imediata. Até o dia seguinte, todo homem apto de Zanján havia se alistado sob o estandarte do Amír-Túmán. Comandada por seus Kad-Khudás e procedida por quatro regimentos, uma vasta multidão do povo marchou, acompanhada do som de trombetas e toque de tambores, em direção ao forte. Intrépidos diante de seu clamor, os companheiros de Hujját ergueram simultaneamente o brado de "Yá Sahibu'z-Zamán!", então enxamearam-se fora dos portões e com ímpeto contra eles investiram. Esse encontro foi o mais feroz, o combate mais desesperado até então ocorrido. A flor dos defensores de Hujját caiu nesse dia, vítimas de uma impiedosa carnificina. Muitos foram os filhos trucidados em circunstâncias de desenfreada crueldade na vista das mães, enquanto irmãs contemplavam com horror e angústia as cabeças dos irmãos erguidas sobre lanças e brutalmente desfiguradas pelas armas dos inimigos. Em meio a um tumulto em que o impetuoso entusiasmo dos companheiros de Hujját enfrentava a fúria e o barbarismo de um inimigo exasperado, as vozes de mulheres, que lutavam lado a lado com os homens, eram de vez em quando ouvidas, animando o zelo de seus co-discípulos. A vitória que milagrosamente se ganhou nesse dia foi em grande parte devida aos brados de exultação que essas mulheres erguiam face a um poderoso adversário - brados que se tornavam mais penetrantes em virtude de seus próprios atos de heroísmo e sacrifício. Disfarçadas em trajes de homem, algumas se haviam precipitado para a frente em sua ansiedade de substituir seus irmãos caídos, enquanto se viam outras carregando nos ombros vasilhas de água com que tentavam aliviar a sede e restaurar as forças dos feridos. Confusão reinava, durante esse tempo, no acampamento do inimigo. Privados de água e perturbados pela deserção em suas fileiras, lutavam em uma batalha na qual estavam perdendo, vendo-se impelidos a se retirar e impossibilitados de vencer. Nada menos que trezentos companheiros, naquele dia, sorveram do cálice do martírio.
Um dos adeptos de Hujját, era um homem chamado Muhsim, cuja função era soar o adhán (41). Sua voz era dotada de um ardor e um tom melodioso que nenhum homem nessa vizinhança podia igualar. Sua reverberação enquanto ele convocava à prece os fiéis, distintamente se percebia até nas aldeias adjacentes, onde penetrava nos corações dos que a ouviam. Muitas vezes os devotos nessa região, em cujos ouvidos ressoava a voz de Muhsin, expressavam sua indignação pelas acusações de heresia, imputada a Hujját e aos seus amigos. Tão alto se tornaram seus protestos que alcançaram afinal, os ouvidos do principal mujtahid de Zanján que, não conseguindo lhes impor silêncio, instou ao Amír-Túmán que buscasse algum meio de erradicar das mentes do povo a crença na piedade e retidão de Hujját e seus companheiros. "Dia e noite", queixou-se ele, "me esforço através de meu discurso público, não menos que em conversa particular com indivíduos, para lhes instilar na mente a convicção de ser aquele miserável bando o inimigo renhido do Profeta e o destruidor de Sua Fé. O bando daquele homem mau, Muhsin às minhas palavras rouba a influência, e meus esforços nulifica. Exterminar aquele homem vil é, seguramente, vossa primeira obrigação."
O Amír, de início, recusou considerar seu apelo. "Vós e os que vos são iguais," ele replicou, "deveis ser considerados responsáveis por haverdes declarado a necessidade de travar guerra santa contra eles. Nós somos apenas os servos do governo e é nosso dever obedecermos as ordens que recebemos. Se, entretanto, tendes em mira pôr fim à sua vida, deveis estar preparado para fazer o devido sacrifício." O Siyyid entendeu de imediato o propósito da alusão do Amír. Logo que voltou à sua casa, mandou-lhe, pela mão de um mensageiro, o presente de cem túmáns (42).
Logo ordenou a Amír que alguns de seus homens renomados por sua pontaria, esperassem em emboscada a Muhsin e o fuzilassem enquanto no ato de entoar a oração. Na hora do alvorecer, enquanto Muhsin erguia o brado de "Lá Iláh-a-Illa'lláh," (43) uma bala atingiu-lhe na boca, matando-o instantaneamente. Hujját, ao ser informado desse ato cruel, mandou que outro de seus companheiros ascendesse a torre e continuasse a oração de onde Mushin deixara. Embora lhe fosse poupada a vida até a cessação de hostilidades ele, juntamente com certos de seus irmãos teve, afinal, que sofrer uma morte não menos atroz que a de seu co-discípulo.
Ao se aproximarem de seu fim os dias do assédio, Hujját instou com todos os que eram noivos para que celebrassem suas núpcias. Para cada jovem solteiro entre os assediados, escolheu ele uma esposa e, dentro dos limites dos meios a seu dispor, contribuiu do próprio bolso qualquer coisa que pudesse aumentar o conforto e a alegria dos recém-casados. Vendeu todas as jóias que sua esposa possuía e, com o dinheiro, providenciou qualquer coisa que lhe fosse possível obter para dar prazer e felicidade àqueles que ele unira em matrimônio. Durante mais de três meses continuaram as festividades - festividades essas, intercaladas com os terrores e as durezas de um muito prolongado assédio. Quantas vezes, pelo clamor de um inimigo que avançava, eram abafadas as aclamações de júbilo com as quais a noiva e o noivo se saudavam! Quão subitamente se silenciava a voz do regozijo diante do brado de "Yá Sahibu'z-Zamán!", que convocava os fiéis a se levantarem e repulsarem o invasor! Com quanta ternura a noiva implorava ao noivo para se demorar um pouco mais a seu lado antes de se precipitar para ganhar a coroa do martírio! "Não posso dar mais tempo," respondia ele. "Devo apressar-me a obter a coroa da glória. Nós seguramente haveremos de nos encontrar de novo nas plagas do grande Além, sítio de uma reunião bem-aventurada e eterna".
Nada menos que duzentos jovens foram unidos em núpcias durante aqueles dias tumultuosos. Alguns por um mês, outros por poucos dias, e ainda outros por apenas um breve momento, puderam demorar-se tranqüilos na companhia de suas esposas, mas ao se tocar o tambor que anunciava a hora da partida, nenhum dentre eles deixou de responder jubilosamente ao chamado. De bom grado oferecia-se cada um, sem exceção, como um sacrifício a seu verdadeiro Bem-Amado; todos, afinal, sorveram do cálice do martírio. Não é de se admirar haver sido esse lugar - que fora teatro de indizíveis sofrimentos e testemunha de tamanho heroísmo - nomeado pelo Báb de Ard-i-A'lá (44), título esse que permanece por todo o tempo ligado com Seu próprio nome abençoado.
Entre os companheiros haviam um certo Karbilá'í'Abdu'l-Báqí, pai de sete filhos, cinco dos quais Hujját fez entrarem em matrimônio. Mal terminaram as cerimônias nupciais, quando, subitamente, gritos de terror anunciaram o reinício da ofensiva contra eles. Logo se puseram em pé e deixando suas esposas queridas, precipitaram-se instantaneamente em repulsar o invasor. Um após outro, caíram todos os cinco no decorrer desse encontro. O mais velho deles, jovem muito estimado por sua inteligência, e de renome por sua coragem, foi capturado e conduzido à presença de Amír-Túmán.
"Deitem-no no chão," gritou o Amír enfurecido, "e incendeiem sobre seu peito, que se atreveu a nutrir tão grande amor a Hujját, um fogo que haverá de consumi-lo." "Homem miserável." exclamou o jovem destemido, "nem chama alguma que as mãos de vossos homens conseguirem atear, poderá destruir o amor que arde em meu coração." O louvor a seu Bem-Amado persistiu em seus lábios até o último momento de sua vida.
Entre as mulheres que se distinguiram pela tenacidade de sua fé, havia uma de nome Umm-i-Ashraf (45), casada pouco antes de irromper o tumulto de Zanján. Estava dentro do forte quando nasceu seu filho Ashraf. Tanto a mãe como o filho sobreviveram ao massacre que assinalou as etapas finais daquela tragédia. Anos depois, quando esse filho havia crescido, tornando-se jovem muito promissor, foi envolvido nas perseguições que afligiram seus irmãos. Os inimigos, não podendo persuadi-lo a se retratar, tentaram alarmar sua mãe e convencê-la da necessidade de salvá-lo, antes de ser tarde demais, do destino que lhe esperava. "Eu te deserdarei como meu filho," exclamou a mãe, ao ser levada face a face com ele, "se inclinardes teu coração para tão malévolos sussurros e os deixares te desviarem da Verdade." Fiel às advertências da mãe, Ashraf enfrentou a morte com calma intrépida. Embora fosse ela mesma testemunha das crueldades que a seu filho infligiram, não lamentou, e nenhuma lágrima foi vista. Essa maravilhosa mãe mostrou uma coragem e uma fortaleza que assombraram aqueles que perpetraram tão ignóbil ato. "Recordo agora," exclamou ela, enquanto lançava um olhar de despedida para o cadáver de seu filho, "um voto feito por mim no dia de teu nascimento, enquanto assediada no forte de Alí-Mardán Khán. Regozijo-me porque tu, único filho que Deus me deu, me possibilitaste a cumprir minha promessa."
Minha pena é impotente para descrever, muito menos lhe prestar o merecido tributo, o entusiasmo consumidor que ardia naqueles valorosos corações. Por violentos que fossem os ventos da adversidade, não tinham o poder de lhe extinguir a chama. Homens e mulheres labutaram com um não diminuído fervor para fortalecer as defesas do forte e reconstruir tudo o que o inimigo havia demolido. Qualquer momento de lazer que lhes fosse disponível, dedicavam-no à oração. Cada pensamento, cada desejo era subordinado a suprema necessidade de guardar sua cidadela contra as investidas do agressor. O papel desempenhado pelas mulheres nessas operações não foi menos árduo do que aquele levado a cabo pelos seus companheiros. Toda mulher, fosse de qualquer posição ou idade, participou energicamente na tarefa comum. Costuravam as vestimentas, assavam o pão, cuidavam dos enfermos e feridos, faziam reparos nas barricadas, limpavam os pátios e terraços das balas e dos projéteis lançados sobre eles pelo inimigo e em último lugar, mas não de menor importância - alegravam aqueles cujos corações desfaleciam e animavam a fé dos vacilantes (46). Até as crianças participavam, dando à causa comum toda a assistência em seu poder, e parecendo estar inflamados por um entusiasmo não menos extraordinário do que o demonstrado pelos seus pais e mães.
Tal foi o espírito de solidariedade que caracterizava seus labores, e tamanho o heroísmo de suas façanhas, que o inimigo foi levado a crer que seu número atingia nada menos que dez mil. Admitia-se geralmente que um suprimento contínuo de provisões, de um modo inexplicável, se encaminhava ao forte e que novos reforços estavam sendo constantemente despachados de Nayríz, de Khurásán e de Tabríz. O poder dos assediados parecia-lhes ser tão inabalável como sempre e inesgotáveis os recursos.
O Amír-Túmán, exasperado diante de sua inalterável tenacidade e incitado pelos protestos e repreensões das autoridades em Teerã, determinou-se a recorrer às armas abjetas da traição a fim de conseguir a submissão completa dos assediados (47). Firmemente convencido da futilidade de seus esforços para enfrentar os oponentes honradamente no campo, usou de astúcia, ordenando a suspensão de hostilidades e mandando circular a informação de que o Xá decidiria abandonar toda a tentativa. Representou seu soberano como oposto, desde o início, à idéia de apoiar as forças em luta em Mázindarán e Nayríz, dizendo haver ele deplorado o derramamento de tanto sangue por uma causa tão insignificante. O povo de Zanján e das aldeias circunvizinhas foi levado a crer que Násiri'd-Dín Sháh havia realmente mandado o Amír-Túmán negociar uma solução amigável das questões entre ele e Hujját, e que era sua intenção por término, o mais rapidamente possível, a esse infeliz estado de coisas.
Confiante de que o povo fora enganado por sua astuciosa trama, redigiu um apelo pela paz, no qual assegurou a Hujját a sinceridade de sua intenção de conseguir um acordo durável entre ele e seus partidários. Acompanhou essa declaração um exemplar selado do Alcorão, como testemunho de ser sagrada sua promessa. "Meu soberano," acrescentou ele, "vos perdoou. Com isso declaro solenemente estardes vós, bem como vossos seguidores, sob a proteção de Sua Majestade Imperial. Este Livro de Deus é meu testemunho de que, se qualquer um de vós decidir sair do forte, ele estará salvo de todo perigo."
Reverentemente recebeu Hujját o Alcorão, da mão do mensageiro e, logo após haver lido o apelo, mandou o portador informar seu mestre que enviaria uma resposta no decorrer do dia seguinte. Naquela noite, reuniu ele seus principais companheiros e lhes falou de suas dúvidas quanto à sinceridade das declarações do inimigo. "Os atos traiçoeiros de Mázindarán e de Nayríz estão vívidos ainda em nossas mentes. O que foi contra eles perpetrado, o mesmo pretendem perpetrar contra nós. Em deferência ao Alcorão, entretanto, responderemos a seu convite, despachando a seu acampamento um grupo de nossos companheiros, a fim de que seja assim exposta sua falsidade."
Tenho ouvido Ustád Mihr-'Alíy-i-Haddád, que sobreviveu ao massacre de Zanján, relatar o seguinte: "Eu era uma das nove crianças, nenhuma das quais tinha mais de dez anos, que acompanharam a delegação enviada por Hujját ao Amír Túmán. O restante consistia de homens de mais de oitenta anos de idade. Entre eles se encontravam Karbilá'í Mawlá-Qulí-Ágá-Dádásh, Darvísh-Saláh, Muhammad-Rahím e Muhammad. Darvísh-Saláh era uma figura muito imponente, alto de estatura, de barba branca e de singular formosura. Era muito estimado por sua conduta honrosa e justa. Sua intercessão em prol dos espezinhados recebia invariavelmente, a consideração e simpatia das devidas autoridades. Após sua conversão, renunciou ele a todas as honras que havia recebido e, embora de idade muito avançada, se alistou entre os defensores do forte. Ele marchou em nossa frente, levando o Alcorão selado, enquanto nos conduziam a presença do Amír-Túmán.
"Ao alcançarmos sua tenda, ficamos em pé na entrada, aguardando suas ordens. A nossa saudação ele não respondeu, tratando-nos com desprezo marcante. Deixou-nos ficar em pé durante meia hora, antes de se dignar dirigir-se a nós um tom de severa repreensão. "Um povo mais miserável e sem vergonha do que esse," gritou ele com altivo desdém, "jamais foi visto!" Ele havia arremessado contra nós suas denúncias, quando um dos companheiros, o mais idoso e débil entre eles, implorou permissão para lhe dizer algumas palavras e, ao obter licença, embora fosse ele iletrado, falou de uma maneira que não pode deixar de nos causar admiração profunda. "Deus sabe," argüia ele, "que somos e para sempre permaneceremos súditos leais e respeitadores da lei de nosso soberano não tendo outro desejo, senão o de promover os verdadeiros interesses de seu governo e seu povo. Acusações lastimavelmente falsas foram feitas contra nós por pessoas malévolas. Nenhum dos representantes do Xá se inclinou a nos proteger ou nos amparar; não se encontrou quem defendesse nossa Causa perante ele. Repetidas vezes lhe fazíamos apelos, mas ele desatendia nossas súplicas e se mantinha surdo para nosso chamado. Nossos inimigos, tornados audazes diante da indiferença que caracterizava a atitude das autoridades vigentes, atacavam-nos de todos os lados, saqueando-nos os bens, violando a honra de nossas esposas e filhas e capturando nossas crianças. Desprotegidos pelo governo e cercados por nossos inimigos, sentimo-nos forçados a nos levantar e defender nossas vidas."
"O Amír Túmán virou-se a seu tenente e perguntou que ação lhe aconselhava. 'Estou em dúvida,' acrescentou o Amír, 'quanto a resposta que deveria dar a esse homem. Fosse eu religioso de coração, eu sem hesitar, abraçaria sua Causa.' 'Nada, senão a espada,' replicou o tenente, 'nos livrará dessa abominação de heresia.' 'Ainda seguro em minha mão o Alcorão,' interpôs Darvísh-Saláh, 'e levo a declaração que vós, de vossa espontânea vontade, vos dignastes fazer. Serão as palavras que acabamos de ouvir, nossa recompensa por havermos respondido a vosso apelo?'"
"O Amír Túmán, em uma explosão de fúria, mandou arrancar a barba de Darvísh-Saláh e jogá-lo, juntamente com aqueles que o acompanhavam, em uma masmorra. Eu e as outras crianças estávamos assustados e tentamos escapar. Levantando o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" apressamo-nos em direção a nossas barricadas. Alcançaram-nos e prenderam algumas de nós. Enquanto eu fugia, o homem que me perseguia pegou na bainha de minha roupa. Arranquei-me de sua mão e consegui alcançar, já completamente exausto, o portão que conduzia às proximidades do forte. Como foi grande minha surpresa ao ver um dos companheiros, de nome Ímán-Qulí, ser selvagemente mutilado pelo inimigo. Horrorizado, fitava eu aquela cena, ciente que era, de que naquele mesmo dia a cessação de hostilidades fora proclamada e as mais solenes promessas dadas de que nenhum ato de violência seria cometida. Fui logo informado de que a vítima fora traída por seu irmão, havendo este sob o pretexto de desejar falar com ele, o entregou a seus perseguidores.
"Apressei-me imediatamente a procurar Hujját, que me recebeu com afeto e, limpando a poeira de meu rosto e me vestindo com roupas novas convidou-me a sentar a seu lado e mandou contar-lhe o que havia acontecido com seus companheiros. Descrevi tudo o que havia visto. 'É o tumulto do dia da Ressurreição,' explicou ele, 'um tumulto tal como o mundo jamais viu. É este o dia em que "o homem haverá de fugir de seu irmão, e de sua mãe e seu pai, e de sua esposa e seus filhos" (48). É este o dia em que o homem, não se contentando com a infidelidade ao irmão, sacrifica sua substância a fim de derramar o sangue de seu parente mais próximo. É este o dia em que "cada mulher que amamenta haverá de abandonar sua criancinha e cada mulher prenhe se livrará desse peso. E tu verás homens ébrios e, no entanto, não estão ébrios mas é o poderoso castigo de Deus!" (49)
Sentando-se no centro do maydán (50), Hujját convocou seus seguidores. Quando chegaram, levantou-se e em pé, ereto em seu meio, lhes disse estas palavras! "Estou muito satisfeito com vossos destemidos esforços, meus bem-amados companheiros. Nossos inimigos estão determinados a destruir-nos. Não nutrem outro desejo. Foi sua intenção com suas astúcias induzir-vos a sair do forte e então vos trucidar impiedosamente, segundo o desejo de seus corações. Vendo que sua perfídia fora exposta, eles, na fúria de sua ira, maltrataram e aprisionaram os mais idosos e os mais jovens entre vós. Está claro que, enquanto não capturarem este forte e vos dispersarem, não vão depor as armas, nem cessarão suas perseguições contra nós. Vossa mais prolongada presença neste forte levará, afinal, à vossa captura pelo inimigo, o qual certamente, desonrará vossas esposas e trucidará vossos filhos. É melhor pois, que escapeis na calada da noite, levando convosco as esposas e crianças. Que cada um busque um lugar de segurança até a hora em que haja passado essa tirania. Eu permanecerei só, para enfrentar o inimigo. Seria melhor que minha morte lhes aliviasse a sede por vingança em vez de deixar vós todos perecer."
Os companheiros, profundamente comovidos, com lágrimas nos olhos, declararam sua firme resolução de permanecer a seu lado até o fim. "Jamais poderemos consentir," exclamaram, "em vos abandonar à mercê de um inimigo sanguinário. Nossas vidas não são mais preciosas que vossa vida, nem são nossas famílias de mais nobre linhagem do que vossos parentes. Qualquer calamidade que vos possa suceder, é a que de bom grado aceitaremos para nós."
Todos, menos alguns poucos, cumpriram fielmente sua promessa. Estes, não podendo suportar a sempre crescente angústia de um assédio prolongado, e encorajados pelo conselho que o próprio Hujját lhes dera, retiraram-se para um lugar de segurança, afastado do forte, assim separando-se do resto de seus co-discípulos.
O Amír-Túmán, revigorando-se com uma resolução oriunda do desespero, mandou que todos os homens aptos em Zanján se juntassem nas proximidades do acampamento, prontos para receber suas ordens. Reorganizou as forças de seus regimentos, nomeou-lhes os oficiais e os acrescentou à hoste de recrutas novos que se haviam aglomerado na cidade. Mandou que nada menos de dezesseis regimentos, sendo cada um equipado com dez canhões, marchassem contra o forte. Oito desses regimentos foram incumbidos de atacar o forte toda manhã, depois do qual as forças restantes os substituiriam na ofensiva até ao anoitecer. O próprio Amír entrou no combate, sendo visto na parte da manhã de cada dia, a dirigir os esforços de seu exército, assegurando-lhes a recompensa que os esperava no caso de seu êxito e lhes advertindo do castigo que, no caso de sua derrota, o soberano lhes infligiria.
Durante um mês inteiro o assédio continuou. Não se contentando com os ataques, o inimigo os atacava à noite também. A ferocidade de suas investidas, a força sobrepujante de seu número e a rápida sucessão dos assaltos dizimavam as fileiras dos companheiros e lhes agravavam a aflição. Reforços para o inimigo continuavam a afluir de todas as direções, enquanto os assediados languesciam em um estado de miséria e fome (51).
O Amír-Nizám, neste ínterim, decidiu fortalecer as mãos do Amír-Túmán pela nomeação de Hasan-'Alí Khán-i-Karrúsí, a quem deu ordens para marchar a Zanján com dois regimentos sunitas sob seu mando. Sua chegada foi o sinal para a concentração da artilharia do inimigo contra o forte. Um tremendo bombardeio ameaçou a estrutura de destruição imediata. Prolongou-se por alguns dias, durante os quais a cidadela se manteve firme a despeito do crescente fogo contra ela dirigido. Os amigos de Hujját, durante aqueles dias, mostraram intrepidez e habilidade que até os mais renhidos inimigos eram forçados a admirar.
Um dia, enquanto o bombardeio ainda procedia, uma bala atingiu Hujját no braço direito enquanto ele estava fazendo suas abluções. Apesar de suas ordens ao criado que não informasse sua esposa da ferida que recebera, tal foi a angústia desse homem que não pode ocultar a emoção. Suas lágrimas mostraram sua aflição e logo que a esposa de Hujját soube da ferida infligida ao marido, correu aflita, e o encontrou absorto em oração, num estado de imperturbável calma. Embora sangrando profusamente da ferida, sua face retinha sua expressão de confiança serena. "Perdoa esse povo, ó Deus," ouviram-no dizer, "pois eles não sabem o que fazem. Que lhe tenhas misericórdia, pois aqueles que o desencaminharam são, tão somente, responsáveis pelas más ações que as mãos desse povo cometeram."
Hujját tentou acalmar a agitação que se apoderara da esposa e dos parentes ao verem o sangue que lhe cobria o corpo. "Regozijem-se", disse-lhes, "pois ainda estou com vocês, e desejo que se resignem inteiramente à vontade de Deus. O que agora estão vendo é apenas uma gota em comparação com o oceano de aflições que jorrará na hora de minha morte. Qualquer que seja Seu decreto, é nosso dever aquiescermos e nos curvarmos diante de Sua Vontade."
Mal lhes chegara a notícia de haver ele sido ferido, quando os companheiros, deixando de lado as armas, a ele se apressaram. O inimigo, neste ínterim, aproveitando a ausência momentânea dos adversários, redobrou o ataque contra o forte e conseguiu forçar a passagem pelo portão (52). Nesse dia capturaram nada menos que cem das mulheres e crianças e pilharam todas as suas possessões. A despeito da severidade daquele inverno, essas cativas foram deixadas ao relento durante pelo menos quinze dias e noites, expostas a um frio intenso, tal como Zanján raras vezes experimentara. Vestidas nas mais leves roupas, sem agasalho algum para protegê-las, foram abandonadas, sem alimento ou abrigo, no mato. Sua única proteção era a gaze que lhes cobria a cabeça, com a qual em vão tentavam agasalhar as faces contra o vento gélido que impiedosamente sobre elas soprava. Multidões de mulheres, a maioria das quais lhe era inferior quanto à posição social, aglomeravam-se vindo dos vários bairros de Zanján, na cena de seus sofrimentos e lhes prodigalizavam desprezo e ridículo. "Agora achastes vosso Deus," exclamaram, mofando delas, enquanto dançavam freneticamente a seu redor, "e fostes por ele recompensadas abundantemente." Cuspiram-lhes nas faces e sobre elas amontoaram as mais vis invectivas.
A captura do forte, embora roubasse os companheiros de Hujját de seu principal instrumento de defesa, não conseguiu lhes intimidar o espírito nem desanimar os esforços. Todos os bens em que o inimigo podia por a mão foram pilhados e quaisquer mulheres e crianças que fossem deixadas indefesas, foram tornadas cativas. Os companheiros restantes, juntamente com o resto das mulheres e crianças, amontoaram-se nas casas das imediações da residência de Hujját. Dividiram-se em cinco companhias, consistindo cada uma de dezenove vezes dezenove companheiros. De cada uma dessas companhias, dezenove precipitavam-se juntos, erguendo unissonamente o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!", e arremessavam-se em meio ao inimigo, cujas forças conseguiam dispersar. As vozes levantadas por esses noventa e cinco companheiros bastavam, por si só, para paralisar os esforços dos agressores e lhes esmagar o espírito.
Continuou por alguns dias tal estado de coisas, acarretando não somente humilhação como prejuízo a um inimigo que se julgara capaz de atingir uma vitória imediata e insigne. Muitos foram mortos no decorrer desses encontros. Oficiais, para a consternação de seus superiores, começavam a desertar de seus postos, capitães de artilharia abandonavam os canhões, enquanto os soldados rasos do exército estavam desmoralizados e completamente exaustos. O próprio Amír-Túmán cansava-se das medidas coercivas às quais fora compelido a recorrer, a fim de manter a disciplina de seus homens e não permitir que diminuísse sua eficiência e seu vigor. Viu-se impelido novamente a consultar os oficiais restantes e procurar um remédio desesperado para uma situação que acarretava grave perigo para sua própria vida, bem como para a vida dos habitantes de Zanján. "Estou cansado," confessou ele, "da resistência feroz desse povo. Anima-lhe, evidentemente, um espírito que nosso soberano, por mais que se esforce para encorajá-los, jamais poderá incitar em nossos homens. Tamanha abnegação, certamente, ninguém nas fileiras de nosso exército é capaz de manifestar. Nenhum poder de que eu posso valer-me conseguirá despertar meus homens do abismo de desespero no qual caíram. Quer triunfando, quer derrotados, estes soldados acreditam que são destinados à condenação eterna."
Suas maduras deliberações resultaram na decisão de cavar passagens subterrâneas desde o local ocupado por seu acampamento até um lugar debaixo do recinto onde se situavam as moradas dos aderentes de Hujját. Estavam determinados a destruir por explosão essas casas e por este meio forçá-los a se render incondicionalmente. Durante um mês inteiro trabalharam para encher essas passagens subterrâneas de toda espécie de explosivo e, ao mesmo tempo, continuaram a demolir, com diabólica crueldade, as casas que permaneciam em pé. Desejando acelerar o trabalho de destruição, o Amír-Túmán mandou os oficiais responsáveis pela artilharia dirigirem seu fogo à residência de Hujját pois, como os prédios que intervinham entre essa casa, e o acampamento do inimigo haviam sido arrasados e não restava outro obstáculo que impedisse sua destruição final.
Uma parte de sua morada já havia ruído quando Hujját, que ainda residia dentro de suas paredes, virou-se à esposa Khadíjih, que segurava nos braços Hádí, seu bebê e lhe advertiu de que rapidamente se aproximava o dia em que ela e o bebê pudessem ser tornados cativos, e lhe solicitou que estivesse preparada para aquele dia. Ela estava dando vazão a sua angústia quando uma bala de canhão atingiu o quarto por ela ocupado, matando-a instantaneamente. A criancinha que ela segurava ao peito caiu no braseiro ao seu lado vindo a morrer pouco depois, em conseqüência dos ferimentos sofridos, na casa de Mirza Abu'l-Qásím, o mujtahid de Zanján.
Hujját, embora cheio de pesar, recusou entregar-se a inútil tristeza. "No dia em que encontrei Teu Bem-Amado, ó meu Deus," exclamou, "e Nele reconheci a Manifestação de Teu Espírito eterno, previ as tribulações que por amor a Ti eu haveria de sofrer. Por grandes que tenham sido minhas tristezas até agora, jamais poderão ser comparadas com as agonias que eu de bom grado sofreria em Teu nome. Como pode esta minha miserável vida, a perda de minha esposa e de meu filho e o sacrifício de meus parentes e companheiros, comparar com as bênçãos que o reconhecimento de Teu Manifestante me conferiu! Oxalá fossem minha uma miríades de vidas, Oxalá possuísse eu as riquezas de toda a terra e sua glória, para que eu as pudesse renunciar a todas elas, livre e jubilosamente em Teu caminho."
A trágica perda sofrida por seu bem-amado líder e a penosa ferida que lhe fora infligida, angustiaram os companheiros de Hujját, enchendo-os de veemente indignação. Determinaram-se a fazer um último esforço desesperado para vingar o sangue de seus irmãos trucidados. Hujját, no entanto, dissuadiu-os de fazer tal tentativa, exortando-lhes que não apressassem o desfecho do conflito. Solicitou-lhes que se resignassem à vontade de Deus e se mantivessem calmos e firmes até o fim, quando quer que esse fim viesse.
Com o passar do tempo seu número diminuía, seus sofrimentos multiplicavam-se e se reduzia a área dentro da qual se podiam sentir seguros. Na manhã do quinto dia do mês de Rabi'u'l-Avval, no ano de 1267 A. H. (53), Hujját, que já por dezenove dias vinha suportando a dor aguda causada pelo ferimento estava orando, havendo se prostrado com a face no chão invocando o nome do Báb quando, de repente, faleceu.
Sua morte súbita veio como um choque severo para os parentes e companheiros. Profundo foi seu pesar pelo trespasse de um líder tão capaz, de tanta habilidade, tão grande inspirador; a perda era irreparável. Dois de seus companheiros, Dín Muhammad-Vazír e Mír Ridáy-i-Sardár, incumbiram-se imediatamente, antes de o inimigo ficar ciente de sua morte, de enterrar os restos mortais em um lugar que nem os parentes nem os amigos podiam suspeitar. À meia-noite, o corpo foi levado a um aposento que pertencia a Dín-Muhammad-Vazír, onde foi sepultado. Demoliram esse aposento, a fim de salvaguardar de desecração os restos mortais e exerceram o máximo cuidado para manter em segredo o lugar.
Mais de quinhentas mulheres que sobreviveram àquela terrível tragédia, imediatamente após a morte de Hujját, reuniram-se em sua casa. Os companheiros, a despeito da morte de seu líder, continuaram a enfrentar, com zelo inalterável as forças dos assaltantes. Da grande multidão que se havia agregado em volta do estandarte de Hujját, restavam somente duzentos homens vigorosos; os demais haviam morrido ou ficado completamente incapacitados pelos ferimentos recebidos.
Ao saber do desaparecimento do líder tão inspirador, o inimigo fortaleceu sua resistência e decidiu eliminar o que ainda restava das forças temíveis que eles não haviam podido dominar. Lançaram um ataque geral, mais feroz e mais determinado do que qualquer anterior. Animados pelo toque dos tambores e pelo som das trombetas e encorajados pelos gritos de exultação soltados pelo povo arremessaram-se contra os companheiros com irrestrita ferocidade, resolvidos a não descansar antes de se haver aniquilado a companhia inteira. À face dessa investida feroz, os companheiros mas uma vez ergueram o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" e se precipitaram, intrépidos, para continuar a luta heróica até que todos haviam sido trucidados ou tomados cativos.
Mal se perpetrara esse massacre, quando o sinal foi dado para uma pilhagem sem precedentes quanto a seu âmbito e sua ferocidade. Não tivesse o Amír-Túmán emitido ordens para poupar o que restava da casa e dos bens de Hujját e se abster de atos de violência contra seus parentes, o exército feroz teria feito ataques ainda mais maliciosos. Era sua intenção informar as autoridades em Teerã e delas procurar quaisquer instruções que lhe quisessem dar. Não conseguiu, entretanto, restringir indefinidamente o espírito de violência que animava seus homens. Os ulemás de Zanján, exaltados com a vitória que lhes custara tanto esforço e perda de vidas, envolvendo-lhes em grau tão sem precedentes a reputação e o prestígio, agora envidaram esforços para incitar o povo a cometer todo ultraje imaginário contra a vida dos homens cativos e contra a honra de suas mulheres. As sentinelas que guardavam a entrada para a casa em que Hujját havia morado, foram expulsas de seus postos no tumulto geral que se seguiu. O povo juntou-se ao exército para saquear a propriedade e assaltar as pessoas dos poucos que ainda sobreviviam àquela memorável luta. Nem o Amír-Túmán, nem o governador pode satisfazer a sede de pilhagem e vingança que se apoderara da cidade inteira. Não mais existiam ordem e disciplina em meio à confusão geral.
O governador da província, entretanto, conseguiu induzir os oficiais do exército a ajuntar os cativos na casa de um certo Hájí Ghulám e mantê-los em custódia até a chegada de novas instruções de Teerã. A companhia inteira foi amontoada como ovelhas naquele miserável lugar, exposta ao frio de um inverno rigoroso. O recinto em que estavam confinados não tinha teto, nem mobília. Durante alguns dias ficaram sem alimento. Daí as mulheres foram transferidas para a casa de um mujtahid de nome Mirza Abu'l-Qásim, na esperança de que ele as induzisse a se retratarem em troca de sua liberdade. O mujtahid avarento, porém, com a ajuda de suas esposas, irmãs e filhas, conseguira apoderar-se de tudo o que lhes fora permitido levar; ele as dispojara de suas vestes, substituindo-as por trajes miseráveis, e apropriou-se de quaisquer objetos de valor que pudesse encontrar entre seus pertences.
Após sofrerem indizíveis durezas, essas mulheres cativas obtiveram permissão para procurar a companhia de seus parentes, sob a condição de que estes assumissem plena responsabilidade por seu futuro comportamento. O resto foi disperso pelas aldeias vizinhas, cujos habitantes, diferentes do povo de Zanján, acolheram os recém vindos com tratamento que era a um tempo afetuoso e genuíno. A família de Hujját, no entanto, foi detida em Zanján até a chegada de instruções definitivas de Teerã.
Quanto aos feridos, ficaram presos, aguardando o tempo em que as autoridades na capital mandassem dizer de que modo devessem ser tratados. Neste ínterim, tal foi a severidade do frio ao qual foram expostos e tão grandes as crueldades às quais foram sujeitados que, dentro de poucos dias, todos pereceram.
Os cativos restantes foram entregues pelo Amír-Túmán às mãos dos regimentos de Karrúsí, Khamsih e 'Iráqí, com ordens para sua execução imediata. Conduziram-nos em procissão com acompanhamento de tambores e trombetas, ao acampamento onde o exército estava estacionado (54). Todos esses regimentos se uniram em contribuir para o horror das abominações perpetradas contra os pobres sofredores. Armados de lanças e dardos, arremessaram-se contra os setenta e seis companheiros que ainda restavam, furando e mutilando-lhes os corpos com uma impiedade selvagem que ultrapassava os atos nefários de até os mais requintados inventores de tortura que existiam entre sua raça. O espírito de vingança que naquele dia dominava esses homens bárbaros, excedeu todos os limites. Regimento rivalizava com regimento em cometer as mais hediondas atrocidades que suas mentes engenhosas podiam inventar. Preparavam-se para uma nova investida contra as vítimas, quando um certo Hájí Muhammad-Husayn, pai de Abá-Basír levantou-se e, erguendo o chamado do Adhán (55), emocionou a multidão que a seu redor se reunira. Se bem que estivesse na hora de sua morte, tão intenso foi o fervor e tal a majestade com que ressoavam suas palavras "Alláh-u-Akbar," (56) que o inteiro regimento de 'Iráqí proclamou de imediato sua recusa a continuar sua participação em atos tão ignominiosos. Desertando de seus postos e levantando o brado de "Yá 'Alí", fugiram daquele lugar em horror e repugnância. "Maldito seja o Amír-Túmán!" podia-se ouvi-los exclamarem, enquanto viravam as costas para aquela cena de carnificina e horror. "Aquele miserável enganou-nos! Com diabólica persistência procurava ele convencer-nos da deslealdade desse povo ao Imame 'Alí e seus parentes. Jamais, embora sejamos todos mortos, consentiremos em participar de atos tão criminosos."
Vários desses cativos foram atirados de canhões, outros foram despidos completamente, depois do qual despejaram água gelada sobre seus corpos e então os açoitaram severamente. A outros ainda eles untaram de melaço e deixaram na neve para perecerem. Apesar da ignomínia e das crueldades que os fizeram sofrer, não se soube de nenhum desses cativos que se retratasse ou que pronunciasse uma palavra viosa contra seus perseguidores. Nem sequer um sussurro de descontentamento escapou de seus lábios, nem seus semblantes demonstraram uma sombra de arrependimento ou tristeza. As maiores adversidades não puderam obscurecer a luz que resplandecia naquelas faces; palavra alguma, por mais insultante que fosse, podia lhes perturbar a serenidade de expressão (57).
Mal os perseguidores terminaram seu trabalho, quando começaram a procurar o corpo de Hujját, o lugar de cujo sepultamento os companheiros haviam cuidadosamente ocultado. Torturas das mais desumanas se haviam provado inúteis para induzi-los a revelar a identidade desse lugar. O governador, exasperado diante do insucesso de sua procura, pediu que lhe trouxessem o filho de Hujját, criança de sete anos, de nome Husayn, a fim de que o induzisse a revelar o segredo (58). "Meu filho," disse-lhe ele, enquanto o acariciava com meiguice, "estou cheio de pesar ao saber de todas as aflições que a seus pais sobrevieram. Não eu e sim, os mujtahids de Zanján devem ser tidos responsáveis pelas abominações cometidas. Estou disposto agora a conceder aos restos mortais de teu pai um sepultamento digno e desejo expiar os atos ignominiosos contra ele perpetrados." Com suas suaves insinuações, conseguiu induzir a criança a revelar o segredo e de imediato mandou seus homens buscar o corpo. Mal fora entregue em suas mãos o objeto de seu desejo, quando deu ordens para que fosse por uma corda arrastado pelas ruas de Zanján, com acompanhamento de tambores e trombetas. Durante três dias e três noites, indizíveis ultrajes foram amontoados sobre o corpo, o qual jazia exposto aos olhos do povo de maydán (59). Na terceira noite se espalhou a informação de que alguns homens montados haviam conseguido levar o que restava do corpo para um lugar de segurança na direção de Qazvín. Quanto aos parentes de Hujját, ordens foram recebidas de Teerã para conduzi-los a Shíráz, e entregá-los às mãos do governador. Lá languesciam em pobreza e miséria. Quaisquer possessões que ainda lhes restassem, o governador as apanhou para si, condenando as vítimas de sua capacidade a buscar abrigo em uma casa dilapidada, em ruínas. O filho mais novo de Hujját, Mihdí, morreu em conseqüência das privações que ele e a família tiveram de sofrer e foi enterrado em meio às ruínas que lhe haviam servido de abrigo.
Nove anos após o término daquela memorável luta, tive o privilégio de visitar Zanján e contemplar a cena daquela nefanda carnificina. Pesaroso e horrorizado, eu olhava para as ruínas do forte de 'Alí-Mardán Khán e pisava no chão que fora saturado do sangue de seus defensores imortais. Pude discernir em seus portões e muros traços de carnificina que assinalou sua rendição ao inimigo e descobrir nas próprias pedras que haviam servido de barricadas, manchas do sangue tão profusamente derramado nessas imediações.
Quanto ao número dos que caíram durante esses encontros, não se fez ainda um cálculo acurado. Tão numerosos foram aqueles que participaram naquela luta, e tão prolongado o assédio ao qual resistiram, que certificar-me de seus nomes e seu número seria uma tarefa que eu hesitaria em empreender. Uma lista provisória de tais nomes, que os leitores bem poderiam consultar, foi preparada por Ismu'lláhu'l-Mín e Ismu'lláhu'l-Asad. Muitas e contraditórias são as informações relativas ao número exato dos que lutaram e caíram sob a bandeira de Hujját em Zanján. Estimaram alguns que o número de mártires atinja mil; segundo outros, eram mais numerosos. Tenho ouvido dizer que um dos companheiros de Hujját que tentou anotar os nomes dos que haviam sofrido martírio, deixara uma declaração por escrito na qual calculou o número dos que caíram antes da morte de Hujját como mil quinhentos e noventa e oito, enquanto os que sofreram martírio depois, se pensava haverem sido, ao todo, duzentas e duas pessoas.
Tudo o que tenho relatado sobre os acontecimentos em Zanján, devo primariamente a Mirza Muhammad-'Alíy-i-Tabíb-i-Zanjání, a Abá-Basír e a Siyyid Ashraf, todos mártires da Fé, cada um dos quais eu conhecia intimamente. O resto de minha narrativa baseia-se no manuscrito que um certo Mullá Husayn-i-Zanjání escreveu e enviou à presença de Bahá'u'lláh, no qual registrou toda a informação que pode colher de várias fontes sobre os eventos ligados àquele episódio.
O que tenho relatado sobre a luta de Mázindarán, outrossim, foi em grande parte inspirado pela narrativa escrita que foi enviada a Terra Santa por um certo Siyyid Abú-Tálib-i-ShahMirzardí, bem como pelo breve resumo aqui preparado por um dos crentes de nome Mirza Haydar-'Alíy-i-Ardistání. Certos fatos a respeito daquela luta tenho obtido, além disso, de pessoas que realmente nela participaram, tais como Mullá Muhammad-Sádiq-i-Muqaddas, Mullá Mirza Muhammad-i-Furúghí e Hájí 'Abdu'l-Majíd, pai de Badí' e mártir da Fé.
Quanto aos eventos relacionados à vida e aos feitos de Vahíd, obtive minha informação sobre aquilo que ocorreu em Yazd, de Rida'r-Rúh, um de seus companheiros íntimos. A parte de minha narrativa que trata das etapas posteriores daquela luta em Nayríz, é derivada de tal informação como eu pude colher da minuciosa relação mandada à Terra Santa por um crente daquela cidade, chamado Mullá Shafí, que fizera uma investigação cuidadosa do assunto e o relatou a Bahá'u'lláh. Qualquer coisa que minha pena tenha deixado de anotar, futuras gerações, espero, haverão de colher e preservar para a posteridade. Muitas, confesso, são as lacunas nesta narrativa, pelas quais peço a indulgência de meus leitores. É minha fervorosa esperança que essas lacunas sejam preenchidas por aqueles que, depois de mim, se levantarão para compilar uma narrativa adequada e exaustiva desses eventos emocionantes cujo significado nós, por enquanto, apenas palidamente podemos discernir.
CAPÍTULO XXV
A VIAGEM DE Bahá'u'lláh A KARBILÁ
Sempre, desde que comecei a escrever minha narrativa, tem sido minha firme intenção incluir em tais histórias que eu pudesse contar sobre os primeiros dias desta Revelação, aquelas jóias de inestimável valor que foi privilégio meu ouvir, de tempos em tempos, dos lábios de Bahá'u'lláh. Essas palavras, algumas das quais dirigidas a mim somente, outras das quais eu participava juntamente com meus co-discípulos, enquanto sentados em Sua presença, se referiam principalmente aos próprios episódios que tenho tentado descrever. Os comentários de Bahá'u'lláh sobre a conferência de Badasht e Suas referências ao tumulto que assinalou suas etapas finais, as quais mencionei em capítulo anterior, são apenas alguns exemplos das passagens com que espero enriquecer e enobrecer minha narrativa.
Ao terminar a descrição da luta de Zanján, fui conduzido a Sua presença e recebi, juntamente com vários outros crentes, as bênçãos que Ele, em duas ocasiões, se dignou nos conferir. Ambas as visitas ocorreram durante os quatro dias que Bahá'u'lláh decidiu demorar-se na casa de Áqáy-i-Kalím. Na segunda, como também na quarta noite após haver Ele chegado, na casa de Seu irmão, o que aconteceu no sétimo dia do mês de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1306 A. H. (1), eu, na companhia de alguns peregrinos de Sarvistán e Farán, bem como de um pequeno número de crentes que lá residiam, fui admitido a Sua presença. As palavras que Ele nos dirigiu permanecem gravadas para sempre em meu coração e creio que é meu dever para com meus leitores de compartilhar com eles a substância de Seu discurso.
"Louvores a Deus," disse Ele, "que já foi revelado tudo o que é essencial para se dizer àqueles que acreditam nesta Revelação. Seus deveres foram claramente definidos e os atos que se espera sejam por eles realizados foram em Nosso Livro expostos de um modo óbvio. Agora é o tempo em que devem levantar-se e cumprir seu dever. Que traduzam para feitos as exortações que Nós lhes temos dado. Que se acautelem para que o amor que têm por Deus, um amor que tão radiantemente lhes arde no coração, não os faça transgredir os confins da moderação e ultrapassar os limites que para eles estabelecemos. A respeito desse assunto, assim escrevemos, enquanto no Iraque, a Hájí Mirza Músáy-i-Qumí: 'Tal deverá ser a discrição por vós exercida que, fosseis sorver dos mananciais da fé e certeza, todos os rios do conhecimento, jamais deveríeis permitir que vossos lábios divulgassem, quer fosse a amigo ou a estranho, a maravilha da poção da qual participastes. Embora vosso coração esteja inflamado de Seu amor, acautelai-vos para que olho algum descubra vossa agitação interior e ainda que vossa alma se intumesça como um oceano, não deixeis a serenidade de vosso semblante se perturbar, nem o modo de vossa conduta revelar a intensidade de vossas emoções.'
"Sabe Deus que em tempo algum tentamos Nos ocultar ou esconder a Causa que Nos foi ordenada proclamar. Embora não usássemos as vestes dos sábios, temos repetidas vezes enfrentado os homens de grande erudição, tanto em Núr como em Mázindarán, apresentando-lhes nossos argumentos com eles raciocinando, e temos conseguido persuadir da verdade desta Revelação. Jamais vacilamos em Nossa determinação; jamais hesitamos em aceitar o desafio de qualquer direção que viesse. Qualquer um a quem falássemos naqueles dias, Nós o encontramos receptivos a Nosso chamado e pronto para se identificar com seus preceitos. Não fosse o comportamento ignominioso do povo do Bayán, que pelos seus atos macularam a obra por Nós realizada, Núr e Mázindarán teriam sido conquistadas inteiramente para esta Causa e, até agora, incluídas no número de suas cidadelas principais.
"Em uma ocasião em que as forças do Príncipe Mihdí-Qulí Mirza haviam assediado o forte de Tabarsí, resolvemos partir de Núr e prestar Nossa assistência aos heróicos defensores. Havíamos tencionado mandar 'Abdu'l-Vahháb, um de Nossos companheiros, em Nossa frente e lhe pedir que anunciasse aos assediados Nossa aproximação. Embora estivessem cercados pelas forças inimigas, havíamos decidido compartilhar da sorte daqueles fiéis companheiros e correr os riscos com os quais eles se defrontavam. Isto, entretanto, não havia de ser. A mão da Onipotência Nos salvou desse destino e Nos preservou para o trabalho a Nós destinado. De acordo com a inescrutável sabedoria de Deus, a intenção que havíamos formado, foi por certo habitantes de Núr comunicado, antes de Nossa chegada ao forte, a Mirza Taqí, o governador de Ámul, que mandou seus homens Nos interceptarem. Enquanto repousávamos e tomávamos Nosso chá, Nós nos vimos de repente cercados por alguns homens montados que se apoderavam de Nossos pertences e capturaram Nossos corcéis. Deram-Nos em troca de Nosso próprio cavalo, um animal pobremente aparelhado, que achamos extremamente incômodo montar. Os outros de Nossos companheiros foram conduzidos algemados, a Ámul. Apesar do tumulto provocado por Nossa chegada e em face da oposição dos ulemás, Mirza Taqí, conseguiu libertar-Nos de suas mãos e Nos conduzir à sua própria casa. Mostrou-Nos a mais calorosa hospitalidade. Em algumas ocasiões cedia à pressão que os ulemás continuamente sobre ele exerciam e se sentia impotente para lhes frustrar as tentativas de Nos lesar. Estávamos ainda em sua casa, quando o Sardár, que fora ao encontro do exército em Mázindarán, regressou a Ámul. Logo que foi informado das indignidades por Nós sofridas, ele repreendeu Mirza Taqí pela fraqueza que mostrara em Nos proteger contra Nossos inimigos. 'De que importância,' perguntou indignado, 'são as denúncias desse povo ignorante? Como é que vos permitistes ser movido pelo seu clamor? Deveríeis vos ter contentado por haverdes impedido o grupo de chegar a seu destino e, em vez de os deterdes nessa casa, haver providenciado seu regresso seguro e imediato a Teerã.'
"Enquanto em Sárí, fomos novamente expostos aos ultrajes por parte do povo. Se bem que as notabilidades dessa cidade fossem pela maior parte Nossos amigos e tivessem em várias ocasiões conosco encontrado em Teerã, mal havia o povo da cidade Nos reconhecido enquanto andávamos com Quddús nas ruas, quando começou a arremessar contra nós suas invectivas. Com o grito de ' Bábí! Bábí!' éramos saudados, onde quer que fossemos. Não pudemos escapar as suas amargas denúncias.
"Em Teerã fomos duas vezes aprisionados em conseqüência de Nos havermos levantado para defender a Causa dos inocentes contra um impiedoso opressor. O primeiro encarceramento ao qual fomos sujeitados seguiu o assassinato de Mullá Taqíy-i-Qazvíní e foi causado pela assistência que fomos movidos a prestar àqueles a quem foi infligido sem merecimento, um severo castigo. Nossa segunda prisão, infinitamente mais severa, foi precipitada pela tentativa que irresponsáveis seguidores da Fé fizeram contra a vida do Xá. Esse evento causou nosso desterro a Bagdá. Pouco depois de Nossa chegada, Nos retiramos para as montanhas de Kurdistán, onde por algum tempo levamos uma vida de solidão completa. Procuramos abrigo no cume de uma montanha remota situada a uns três dias de distância da mais próxima morada humana. Faltavam completamente os confortos da vida. Permanecemos em inteiro isolamento de Nossos semelhantes até que um certo Shaykh Ismá'íl descobriu nossa morada e nos trouxe o alimento de que necessitávamos.
"Ao regressarmos a Bagdá, vimos com grande espanto, que a Causa do Báb fora penosamente negligenciada, que sua influência minguara e seu próprio nome quase se submergira no esquecimento. Levantamo-Nos para ressuscitar Sua Causa e salvá-la da decadência e corrupção. Num tempo em que medo e perplexidade se haviam apoderado firmemente de nossos companheiros reafirmamos, com intrepidez e determinação, suas verdades essenciais, e convocamos todos aqueles que se haviam tornado indiferentes para esposarem com entusiasmo a Fé da qual tão lamentavelmente tinham descuidado. Enviamos Nosso apelo aos povos do mundo, convidando-os a contemplarem a luz de Sua Revelação.
"Após Nossa partida de Adrianópolis, surgiu uma discussão entre os oficiais do governo em Constantinopla sobre Nosso destino - se Nós e Nossos companheiros deveríamos ou não ser jogados no mar. A notícia dessa discussão chegou na Pérsia e deu origem ao boato de que fora esta, realmente, a sorte que Nos sobreviera. Em Khurásán, em especial, Nossos amigos ficaram profundamente perturbados. Mirza Ahmad-i-Azghandí, assim que foi informado dessa notícia - dizem - asseverou que sob nenhuma circunstância poderia ele dar crédito a tal boato. 'A Revelação do Báb,' - disse ele - 'deve, se isso for verdade, ser considerada absolutamente destituída de fundamento.' - A notícia de havermos chegado, são e salvo na cidade-prisão de 'Akká, regozijou os corações de Nossos amigos e tornou mais profunda a admiração dos crentes de Khurásán pela fé de Mirza Ahmad, aumentando sua confiança nele.
"De Nossa, a Maior Prisão, sentimo-Nos movidos a dirigir aos vários governantes e cabeças coroadas do mundo Epístolas nas quais os convocamos a se levantarem e abraçarem a Causa de Deus. Ao Xá da Pérsia mandamos Nosso mensageiro Badí', em cujas mãos confiamos a Epístola. Foi ele quem a levantou no alto, diante dos olhos da multidão e, erguendo a voz, fez um apelo a seu soberano para que atendesse às palavras naquela Epístola contidas. As outras Epístolas igualmente, chegaram a seu destino. À Epístola que dirigimos ao imperador da França, uma resposta foi recebida de seu ministro, estando o original dessa resposta agora em poder do Maior Ramo (2). A ele dirigimos estas palavras: 'Ó Rei de Paris! Dize ao padre que não mais toque os sinos. Por Deus o Verdadeiro! Apareceu o Sino Mais Poderoso na forma Daquele que é o Maior Nome e os dedos da vontade de teu Senhor, o Excelso, o Altíssimo, o fazem soar no céu da imortalidade em Seu Nome, o Todo-Glorioso.' - Somente a Epístola que dirigimos ao Czar da Rússia não logrou chegar a seu destino. Outras Epístolas, porém foram recebidas e aquela Epístola será afinal entregue em suas mãos.
"Sede gratos a Deus por haver Ele vos capacitado a reconhecer Sua Causa. Qualquer um que receba esta benção deve ter realizado, anteriormente a sua aceitação, algum feito o qual, embora ele próprio estivesse inconsciente de seu caráter, foi ordenado por Deus como um meio pelo qual ele tem sido guiado a encontrar e abraçar a Verdade. Quanto àqueles que ficaram privados dessa benção, seus atos, tão somente, os impediram de reconhecer a verdade desta Revelação. Nutrimos a esperança de que vós, havendo atingido a esta luz, envideis os máximos esforços para banirdes as trevas da superstição e descrença do meio do povo. Que vossas ações proclamem vossa fé e vos capacitem a guiar os errantes aos caminhos da salvação eterna. A memória desta noite jamais será apagada. Que nunca se oblitere com o passar do tempo; que sua menção para sempre persista nos lábios dos homens."
O sétimo Naw-Rúz após a Declaração do Báb caiu no décimo sexto dia do mês de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1267 A. H. (3), um mês e meio após o término da luta de Zanján. Naquele mesmo ano, perto do fim da primavera, nos primeiros dias do mês de Shabán (4), Bahá'u'lláh partiu da capital para Karbilá. Eu, nessa ocasião, morava em Kirmánshá, na companhia de Mirza Ahmad, amanuense do Báb, a quem Bahá'u'lláh mandara colecionar e transcrever todos os escritos sagrados, estando os originais, pela maior parte, em seu poder. Estive em Zarand, na casa de meu pai, quando aos Sete Mártires de Teerã sobreveio seu destino cruel. Consegui subseqüentemente partir para Qum, sob o pretexto de desejar visitar o santuário. Não podendo localizar Mirza Ahmad, com quem desejava me encontrar, partir para Káshán, seguindo o conselho de Hájí Mirza Músáy-i-Qumí, que me informou que a única pessoa capaz de me esclarecer quanto ao paradeiro de Mirza Ahmad era 'Azím, então residente em Káshán. Com ele voltei a Qum, onde fui apresentado a um certo Siyyid Abu'l-Qásim-i-'Aláqih-Band-i-Isfáhání, que previamente acompanhara Mirza Ahmad em sua viagem a Kirmánsháh. 'Azím deu-lhe instruções para me conduzir ao portão da cidade, onde ele me informaria do lugar em que Mirza Ahmad residia e providenciaria minha partida para Hamadán. Siyyid 'Abdu'l-Qásim, por sua vez, me referiu a Mirza Muhammad-'Alíy-i-Tabíb-i-Zanjání quem, ele disse, eu haveria de encontrar seguramente em Hamadán, e quem me informaria do lugar onde eu pudesse encontrar Mirza Ahmad. Segui suas instruções e fui mandado, por esse Mirza Muhammad-'Alí, a Kirmánsháh, para lá encontrar com um certo mercador, de nome Ghulám-Husayn-i-Shushtarí, que me conduziria à casa em que Mirza Ahmad residia.
Poucos dias após minha chegada, Mirza Ahmad me informou que, durante sua estada em Qum havia conseguido ensinar a Causa a Íldirím Mirza, irmão de Khánlar Mirza, a quem ele queria apresentar um exemplar do "Dalá'il-i-Sab'ih" (5) e expressou seu desejo de que eu fosse seu portador. Íldirím Mirza era naquele tempo governador de Khurram-Ábád, na província de Luristán e havia acampado com seu exército nas montanhas de Khávih-Válishtar. Com o máximo prazer acedi a seu pedido, expressando-lhe minha prontidão para sair imediatamente nessa jornada. Com um guia curdo foram atrevessadas montanhas e florestas durante seis dias e seis noites até que alcançamos o quartel do governador. Entreguei em suas mãos a incumbência e trouxe de volta comigo uma mensagem por ele escrita a Mirza Ahmad, expressando sua apreciação do presente e lhe assegurando sua devoção à Causa de seu Autor.
Ao regressar, recebi de Mirza Ahmad as jubilosas novas da chegada de Bahá'u'lláh em Kirmánsháh. Enquanto estávamos sendo conduzidos a Sua presença, nós O encontramos - sendo este o mês de Ramandan - ocupado em ler o Alcorão e assim tivemos a benção de ouvi-lo ler versículos desse sagrado Livro. Apresentei-lhe a mensagem escrita por Íldirím Mirza a Mirza Ahmad. "A fé que um membro da dinastia de Qájár professa," comentou Ele, depois de ler a carta, "não é fidedigna. Suas declarações são insinceras. Esperando que algum dia os Bábís assassinarão o soberano, ele nutre no coração a esperança de ser por eles aclamado o sucessor. O amor pelo Báb que ele professa é atuado por esse motivo." Dentro de poucos meses reconhecemos a verdade de Suas palavras. Esse mesmo Íldirím Mirza deu ordens para a execução de um certo Siyyid Basír-i-Hindí, fervoroso aderente da Fé.
Seria apropriado a esta altura, desviar-nos do curso de nossa narrativa e nos referirmos, em poucas palavras, às circunstâncias da conversão e morte desse mártir. Entre os discípulos solicitados pelo Báb, nos primeiros dias de Sua Missão, a dispersarem e ensiarem Sua Causa, havia um certo Shaykh Sa'íd-i-Hindí, uma das Letras dos Viventes, a quem seu Mestre mandara viajar através da Índia e proclamar a seu povo os preceitos de Sua Revelação. Shaykh Sa'íd, no curso de suas viagen, visitou a cidade de Mooltán, onde conheceu esse Siyyid Basír (6) que, embora cego pode, com os olhos interiores, perceber de imediato o significado da mensagem que Shaykh Sa'íd lhe trouxera. Os vastos conhecimentos que ele havia adquirido, longe de impedi-lo de apreciar o valor da Causa à qual foi chamado, o capacitaram a abranger seu significado e compreender a grandeza de seu poder. Pondo atrás de si e se desprendendo de amigos e parentes, levantou-se com a firme resolução de prestar seu quinhão de serviço à Causa que ele abraçara. Seu primeiro ato foi empreender uma peregrinação a Shíráz, na esperança de encontrar com seu Bem-Amado. Ao chegar nessa cidade, foi informado, para sua surpresa e pesar, de que o Báb fora banido às montanhas de Ádhirbáyján, onde levava uma vida de solidão ininterrupta. Logo seguiu a Teerã e daí partiu para Núr, onde se encontrou com Bahá'u'lláh. Esse encontro lhe aliviou o coração da carga de tristeza causada pelo insucesso em ver seu Mestre. Àqueles que vieram subseqüentemente a conhecer, de qualquer classe ou credo, participou ele as alegrias e as bênçãos que recebera, com tanta abundância das mãos de Bahá'u'lláh, podendo dotá-los de alguma medida do poder do qual seu contato com Ele investira seu mais íntimo ser.
Tenho ouvido Shaykh Shahíd-i-Mázkán relatar o seguinte: "Tive o privilégio de conhecer Siyyid Basír no auge do verão durante sua passagem por Qansar, onde vão os principais residentes de Káshán a fim de escapar do calor dessa cidade. Dia e noite eu o encontrava ocupado em discutir com os mais eminentes ulemás, que se haviam congregado nessa aldeia. Com habilidade e perspicácia, com eles tratava das sutilezas de sua Fé, expondo-lhes sem medo ou reserva os ensinamentos fundamentais da Causa e lhes refutando, em absoluto, os argumentos. Pessoa alguma, por maiores que fossem seus conhecimentos e experiências, conseguia rejeitar as evidências por ele apresentadas para sustentar as pretensões. Tal era sua percepção e tal sua familiaridade com os ensinamentos e preceitos do Islã que seus adversários o imaginavam um feiticeiro, cuja perniciosa influência lhes pudesse, receavam, roubar sua posição."
De igual modo tenho ouvido Mullá Ibráhim, cognominado Mullá-Báshí, que foi martirizado em Sultán-Ábád, relatar sua impressão de Siyyid Basír: "Perto do fim de sua vida, Siyyid Basír passou por Sultán-Ábád, onde com ele eu pude encontrar. Ele estava continuamente associado com os principais ulemás. Ninguém lhe podia exceder em seu conhecimento do Alcorão e domínio das tradições atribuídas a Maomé. Ele mostrava um entendimento que o tornava o terror de seus adversários. Muitas vezes seus oponentes questionavam a exatidão de suas citações ou rejeitavam a existência da tradição que ele apresentava para sustentar seu argumento. Com infalível exatidão estabelecia ele a verdade de seu argumento com sua referência ao texto do 'Usúl-i-Káfí' e do 'Biháru'l-Anvár', (7) do qual tirava, logo, a tradição especial que demonstrava a verdade de suas palavras. Mantinha-se sem rival tanto na fluência de seu argumento como na facilidade com que expunha as provas incontestáveis em apoio de seu tema."
De Sultán-Ábád, procedeu Siyyid Basír a Luristán, onde visitou o acampamento de Íldirím Mirza, por quem foi recebido com notável respeito e consideração. No curso de sua conversa com ele um dia, o Siyyid, que era homem de grande coragem, se referiu a Muhammad Sháh em termos que incitaram a ira feroz de Íldirím Mirza. Ficou ele furioso por causa do tom e da veemência de seus comentários e ordenou que a língua lhe fosse arrancada através da nuca. Com assombrosa fortaleza suportou o siyyid essa tortura desumana, mas sucumbiu à dor que seu opressor impiedosamente lhe infligira. Na mesma semana uma carta na qual Íldirím Mirza injuriara o irmão, Khánlar Mirza, foi descoberta por este e de imediato ele obteve o consentimento de seu soberano para tratá-lo de qualquer maneira que ele quisesse. Khánlar Mirza, que tinha um ódio implacável por seu irmão, mandou que fosse despido e levado nu e acorrentado a Ardibíl, onde foi encarcerado e, afinal, morreu.
Bahá'u'lláh passou o mês inteiro de Ramandán em Kirmánsháh. Shukru'lláh-i-Núrí, um parente Seu, e Mirza Muhammad-i-Mázindarán, que sobrevivera a luta de Tabarsí, foram os únicos companheiros que Ele escolheu para acompanhá-Lo a Karbilá. Ouvi o próprio Bahá'u'lláh dar as razões de Sua partida de Teerã. "O Amír-Nizám," disse-nos Ele, "pediu-Nos um dia que fossemos vê-lo. Ele nos recebeu cordialmente e revelou o propósito de Nos haver chamado a sua presença. 'Estou bem ciente,' insinuou ele suavemente 'da natureza e da influência de vossas atividades e estou firmemente convencido de que, se não fosse o apoio e a assistência por vós prestados a Mullá Husayn e seus companheiros, nem ele, nem seu bando de estudantes inexperientes teria sido capaz de resistir por sete meses as forças do governo imperial. A habilidade e destreza com que pudestes dirigir e animar aqueles esforços não deixam de me despertar a admiração. Não tenho podido obter evidência para estabelecer vossa cumplicidade no caso. Acho uma pena que uma pessoa tão capaz fique vadia, não lhe sendo concedida oportunidade para servir a seu país e seu soberano. Veio-me o pensamento de vos sugerir que visiteis Karbilá nestes dias em que o Xá está considerando uma viagem a Isfáhán. É minha intenção, quando ele voltar, poder vos conferir a posição de Amír-Díván, função esta poderíeis admiravelmente desempenhar.' Protestamos veementemente contra tais acusações e recusamos aceitar a posição que ele esperava Nos oferecer. Poucos dias depois dessa entrevista, saímos de Teerã para Karbilá."
Antes da partida de Bahá'u'lláh de Kirmánsháh, Ele chamou a Sua presença Mirza Ahmad e também a mim e nos mandou partir para Teerã. Fui incumbido de encontrar com Mirza Yahyá imediatamente depois de minha chegada e levá-lo comigo ao forte de Dhu'l-Fakár Khán, situado nas proximidades de Sháhrúd, lá com ele permanecendo até o regresso de Bahá'u'lláh à capital. A Mirza Ahmad foi ordenado que se detivesse em Teerã até Sua chegada e lhe foi entregue uma caixa de doces e uma carta endereçada a Áqáy-i-Kalím, quem deveria despachar o presente a Mázindarán, onde residiam o Maior Ramo e Sua mãe.
Mirza Yahyá, a quem entreguei a mensagem, recusou partir de Teerã e queria, em vez disso, que eu partisse para Qazvín. Obrigou-me a aceder a seu desejo e levar comigo algumas cartas que ele me mandou entregar a certos amigos seus nessa cidade. Ao regressar a Teerã, fui constrangido, diante da insistência de meus parentes, a sair para Zarand. Mirza Ahmad, entretanto, prometeu providenciar novamente meu regresso à capital, promessa esta que ele cumpriu. Dois meses mais tarde, eu estava outra vez residindo com ele em um caravansarai fora do portão de Naw, onde passei em sua companhia, todo o inverno. Ele dedicava seus dias à transcrição do Bayán Persa e do "Dalá'il-i-Sab'ih", trabalho este que ele executava com entusiasmo admirável. Entregou a mim dois exemplares deste último, pedindo-me que os apresentasse em seu nome a Mustaw-fíyu'l-Mamálik-i-Áshtíyání e Mirza Siyyid 'Aliy-i-Tafarshí, cognominado Majdu'l-Ashráf. O primeiro foi tão afetado que se convenceu completamente da verdade da Fé. Quanto a Mirza Siyyid 'Alí, as opiniões por ele expressas foram de um caráter totalmente diverso. Em uma reunião na qual 'Aqáy-i-Kalím estava presente, comentou de um modo desfavorável sobre as contínuas atividades dos crentes. "Essa seita", declarou ele publicamente, "ainda vive. Seus emissários trabalham assiduamente, difundindo os ensinamentos de seu líder. Um deles, um jovem, veio me visitar outro dia e me apresentou um tratado que eu considero extremamente perigoso. Qualquer um dentre a plebe que leia esse livro, se enganará seguramente com seu tom." Áqáy-i-Kalím, de imediato, percebeu de suas referências que Mirza Ahmad lhe havia mandado o livro e que eu servira de mensageiro. Nesse mesmo dia Áqáy-i-Kalím convidou-me a visitá-lo e me aconselhou que voltasse a minha casa em Zarand. Pediu-me que induzisse Mirza Ahmad a partir imediatamente para Qum, pois nós dois, em sua opinião, estávamos expostos a grande perigo. Agindo de acordo com as intruções de Mirza Ahmad consegui induzir o siyyid a devolver o Livro que lhe fora oferecido. Pouco depois, despedi-me de Mirza Ahmad, com quem nunca mais me encontrei. Acompanhei-lhe até Sháh-'Abdu'l-Azím, donde ele partiu para Qum, enquanto eu segui meu caminho para Zarand.
O mês de Shavvál, no ano de 1267 A. H. (8), testemunhou a chegada de Bahá'u'lláh em Karbilá. No caminho para essa cidade santa, Ele se demorou alguns dias em Bagdá, cidade essa que Ele breve haveria de visitar novamente e onde Sua Causa era destinada a amadurecer e se desvelar diante do mundo. Ao chegar em Karbilá soube que alguns de sus principais residentes, entre os quais Shaykh Sultán e Hájí Siyyid Javád, haviam caído vítimas da perniciosa influência de um certo Siyyid-i-'Ulluvv e se declaravam seus aderentes. Estavam imersos em superstições e acreditavam que seu líder era a própria encarnação do Espírito Santo. Shaykh Sultán figurava entre seus mais fervorosos discípulos e se considerava a si próprio em segundo lugar, depois de seu mestre, como o proeminente líder de seus conterrâneos. Bahá'u'lláh em várias ocasiões se encontrou com ele e com Suas palavras de conselho e de benevolência, pode lhe purificar a mente de suas vãs fantasias e livrá-lo do estado de servitude abjeta em que se submergira. Ganhou sua completa lealdade à Causa do Báb e lhe ateou no coração o desejo de propagar a Fé. Seus co-discípulos, testemunhando os efeitos de sua imediata e maravilhosa conversão foram levados, um após outro, a abandonar sua lealdade anterior e abraçar a Causa que se colega se levantara para defender. Abandonado e desprezado pelos antigos aderentes, o Siyyid-i-'Ulluvv foi, afinal, levado a reconhecer a autoridade de Bahá'u'lláh e admitir a superioridade de Sua posição. Ele chegou até ao ponto de expressar arrependimento por seus atos e de dar sua palavra que jamais advogaria as teorias e os princípios com os quais se havia identificado.
Foi durante essa visita a Karbilá que Bahá'u'lláh, enquanto andava pelas ruas, encontrou Shaykh Hasan-i-Zunúsi, a quem confiou o segredo que Ele era destinado a revelar posteriormente em Bagdá. Viu que ele buscava ansiosamente o prometido Husayn, a quem o Báb com tanto amor se referira, prometendo-lhe que o encontraria em Karbilá. Já temos, em capítulo anterior, narrado as circunstâncias que levaram a seu encontro com Bahá'u'lláh. Desde aquele dia Shaykh Hasan estava como que magnetizado pelo encanto de seu Mestre novamente encontrado e, não fosse a cautela que lhe fora solicitado exercer, teria proclamado aos habitantes de Karbilá a volta do prometido Husayn cujo aparecimento esperavam.
Entre aqueles que vieram a sentir esse poder, figurava Mirza Muhammad-'Alíy-i-Tabíb-i-Zanjání, em cujo coração se implantava uma semente destinada a crescer e florescer em uma fé tenaz que os fogos da perseguição impotentes seriam para extingui-la. De sua devoção, sua magnanimidade e sua dedicação a um único objetivo, o próprio Bahá'u'lláh deu testemunho. Essa fé o levou afinal, ao campo do martírio. De destino igual participou Mirza 'Abdu'l-Vahháb-i-Shírází, filho de Hájí 'Abdu'l-Majíd, proprietário de uma loja em Karbilá, que se sentiu impelido a renunciar a todas as possessões e seguir seu Mestre. Foi aconselhado, entretanto, a que não abandonasse seu trabalho e sim, continuasse a ganhar seu sustento, até o tempo em que fosse chamado a Teerã. Bahá'u'lláh exortou-o a ser paciente e o encorajou a ampliar o âmbito de seus negócios, dando-lhe certa quantia para esse fim. Não podendo concentrar sua atenção em seu ofício porém, Mirza 'Abdu'l-Vahháb apresseou-se a Teerã, onde permaneceu até ser aprisionado na masmorra na qual seu Mestre estava confinado, onde sofreu martírio por amor a Ele.
De igual modo foi Shaykh 'Alí-Mirzay-i-Shírází atraído à Causa a qual fora chamado e a qual ele serviu com uma abnegação e devoção além de todo louvor, mantendo-se até o último momento de sua vida um destemido defensor. A amigo e inimigo, igualmente, contava ele suas experiências em virtude da maravilhosa influência que a presença de Bahá'u'lláh sobre ele exercia, e os sinais e prodígios por ele testemunhados durante e após os dias de sua conversão ele os descrevia entusiasticamente.
CAPÍTULO XXVI
ATENTADO CONTRA A VIDA DO XÁ E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
Na ocasião do oitavo Naw-Rúz após a Declaração do Báb, que caiu no vigésimo sétimo dia do mês de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1268 A. H. (1), Bahá'u'lláh encontrava-se ainda no Iraque, ocupado em disseminar os ensinamentos da Nova Revelação e lhe tornar firmes os fundamentos. Demonstrando um entusiasmo e uma habilidade que faziam lembrar Suas atividades nos primeiros dias do movimento em Núr e Mázindarán, continuou Ele a Se devotar à tarefa de reanimar as energias, organizar as forças e dirigir as atividades dos companheiros do Báb, tão largamente dispersos. Era Ele a luz única em meio às trevas que cercavam os discípulos desconcertados os quais, por um lado, haviam testemunhado o martírio cruel de seu bem-amado Líder e por outro, o trágico destino de seus companheiros. Ele, tão somente, pode inspirar neles a coragem e fortaleza necessárias para que suportassem as numerosas aflições sobre eles amontoadas; somente Ele tinha capacidade para prepará-los para a pesada tarefa com a qual eram destinados a arcar, e pode habituá-los a desafiar a tempestade e os perigos que breve eles haveriam de enfrentar.
Na primavera daquele ano, Mirza Taqí Khán, o Amír-Nizám, o Grão-Vizir de Násirí'd-Dín Sháh, autor de tão infames ultrajes contra o Báb e seus companheiros, foi morto em um banho público em Fín, perto de Káshán (2), tendo sido miseravelmente frustrado em sua tentativa de deter o ímpeto da Fé a qual ele lutara tão desesperadamente para esmagar. Sua própria fama e honra eram destinadas a perecer afinal, com sua morte e não a influência daquela vida que ele procurara extinguir. Durante os três anos em que ocupava o posto de Grão-Vizir da Pérsia, seu ministério maculou-se com feitos da pior infâmia. Que atrocidades não foram perpetradas pelas suas mãos, enquanto se estendiam para demolir a estrutura que o Báb erguera! A que medidas traiçoeiras não recorria ele em sua fúria impotente, a fim de solapar a vitalidade de uma Causa que ele temia e odiava! O primeiro ano de sua administração foi marcado pela investida feroz do exército imperial de Násirí-d-Dín Sháh contra os defensores do forte de Tabarsí. Quão impiedosamente conduziu ele a campanha de repressão contra aqueles aderentes da Fé Divina! Que fúria e eloqüência exibiu em seu apelo por exterminar as vidas de Quddús e Mullá Husayn e de trezentos e treze dos melhores e mais nobres de seus conterrâneos! O segundo ano de seu ministério, estava lutando com determinação selvagem, para extirpar a Fé na capital. Ele foi quem autorizou e encorajou a apreensão dos crentes que residiam nessa cidade, e ordenou a execução dos Sete Mártires de Teerã. Ele foi quem desencadeou a ofensiva contra Vahíd e seus companheiros, quem inspirou aquela campanha de vingança que animou os perseguidores, instigando-os a cometer as abominações com as quais aquele episódio estará para sempre associado. Nesse mesmo ano se testemunhou outro golpe, um mais terrível do que qualquer até então infligido por ele àquela comunidade tão perseguida - golpe esse que levou a um trágico fim a vida Daquele que era a Fonte de todas as forças que ele em vão tentara reprimir. Os últimos anos da vida daquele Vizir permanecerão para sempre assinalados pela mais revoltante das vastas campanhas que sua mente engenhosa planejou, sendo uma campanha que envolveu a destruição das vidas de Hujját e de nada menos que mil e oitocentos de seus companheiros. Tais foram as feições que distinguiram uma carreira iniciada e finda em um reinado de terror cujo igual a Pérsia raramente havia visto.
Sucedeu-lhe Mirza Áqá Khán-i-Núrí (3) que, no início de seu ministério, se esforçou para efetivar uma reconciliação entre o governo do qual era ele o chefe, e Bahá'u'lláh, considerado por ele o mais capaz dos discípulos do Báb. Enviou-lhe uma carta cordial, pedindo-lhe que voltasse a Teerã e expressando sua ansiedade de com Ele se encontrar. Bahá'u'lláh, antes de receber essa carta, já decidira partir do Iraque para a Pérsia.
Ele chegou na capital no mês de Rajab (4), sendo-lhe dada boas vindas pelo irmão do Grão-Vizir, Ja'far-Qulí Khán, que recebera instruções especiais para sair ao Seu encontro. Durante um mês inteiro foi Ele o hóspede de honra do Grão-Vizir o qual havia incumbido o irmão de representá-lo no papel de anfitrião. Tamanho foi o número de notabilidades e dignitários da capital que se congregavam a Seu redor, que Ele se viu impossibilitado de voltar a Sua própria casa. Permaneceu nessa casa até Sua partida para Shimírán.
Tenho ouvido dizer que durante essa jornada Bahá'u'lláh teve oportunidade de encontrar com 'Azím, que desde muito tempo estava tentando vê-lo e que, nessa entrevista foi aconselhado, em termos os mais enfáticos a abandonar o plano que ele havia concebido. Bahá'u'lláh condenou seus desígnios, desligou-se inteiramente do ato que ele tencionava cometer e lhe advertiu de que tal tentativa precipitaria novos desastres de magnitude sem precedentes.
Bahá'u'lláh procedeu a Lavásán, tendo parado na aldeia de Afchih, propriedade do Grão-Vizir, quando lhe veio a notícia da tentativa contra a vida de Násiri'd-Dín Sháh, Jáfar-Qulí Khán ainda era Seu anfitrião em nome do Amír-Nizám. Este ato criminoso foi perpetrado perto do fim do mês de Shavvál, no ano de 1268 A. H. (6), por dois obscuros e irresponsáveis jovens, um de nome Sádiq-i-Tabrízí e o outro, Fathu'lláh-i-Qumí ambos ganhavam a vida em Teerã. Em uma ocasião em que o exército imperial, chefiado pelo próprio Xá, havia acampado em Shimírán, esses dois jovens ignorantes, em um frenesi de desespero, levantaram-se para vingar o sangue de seus irmãos trucidados (7). A loucura que caracterizou seu ato foi demonstrada pelo fato de que, ao fazerem tal tentativa contra a vida de seu soberano, em vez de empregarem armas efetivas que pudessem assegurar o êxito de sua arriscada façanha, esses jovens carregaram suas pistolas de balas que nenhuma pessoa de razão jamais pensaria em usar para tal fim. Se sua ação tivesse sido instigada por um homem de juízo e bom senso, ele certamente nunca lhes teria permitido executar sua intenção com instrumentos tão ridiculamente ineficazes (8).
Esse ato, embora cometido por fanáticos desequilibrados e débeis mentais e apesar de haver sido desde o início, enfaticamente condenado por uma pessoa não menos responsável que Bahá'u'lláh, foi o sinal para irromper uma série de perseguições e massacres de tão bárbara ferocidade que só poderiam ser comparados às atrocidades de Mázindarán e Zanján. A tempestade à qual esse ato deu origem mergulhou Teerã inteira em consternação e angústia. Envolvia a vida dos principais companheiros que haviam sobrevivido ás calamidades às quais sua Fé fora tão cruel e repetidamente sujeitada. Ainda se no furor desta tempestade, Bahá'u'lláh com alguns de Seus tenentes mais capazes, foi imerso na escuridão de uma masmorra, nauseabunda e cheia de doenças, enquanto lhe colocaram no pescoço correntes de um peso que só criminosos notórios eram condenados a suportar. Por nada menos de quatro meses, tolerou Ele esse peso e tamanha foi a intensidade de Seu sofrimento que os traços dessa crueldade permaneceram gravados em Seu corpo durante todos os dias de Sua vida.
Tão grave ameaça a seu soberano e às instituições de seu reino incitou a indignação do inteiro corpo da ordem eclesiástica da Pérsia. Em sua opinião, um ato tão audaz exigia punição imediata e condizente. Medidas de severidade sem precedentes, clamavam eles, deveriam ser tomadas, a fim de deter a maré que estava engolfando tanto o governo, como a Fé do Islã. A despeito da moderação que os seguidores do Báb haviam exercido em toda parte do país, sempre, desde o início da Fé; apesar das repetidas exortações dos principais discípulos a seus irmãos de Fé, mandando-lhes abster de atos de violência, lealmente obedecer a seu governo e desmentir qualquer intenção de guerra santa, seus inimigos perseveraram em seus deliberados esforços para deturparem diante das autoridades a natureza e o propósito dessa Fé. Agora que um ato de tão momentosas conseqüências fora cometido, que acusações não seriam esses mesmos inimigos incentivados a atribuir à Causa com a qual os perpetradores do crime haviam estado associados! Parecia haver vindo o momento, em que podiam afinal despertar os governantes do país para a necessidade de se extirpar, tão rapidamente quanto possível, uma heresia que parecia ameaçar os próprios fundamentos do Estado.
Ja'far-Qulí Khán, que estava em Shimírán quando se fez a tentativa contra a vida do Xá, escreveu de imediato uma carta a Bahá'u'lláh, informando-O do ocorrido. "A mãe do Xá," escreveu ele, "está inflamada de ira. Está vos denunciando abertamente perante a corte e o povo como 'aquele que pretendia assassinar' seu filho. Ela está tentando envolver nesse ato também Mirza Áqá Khán, acusando-o de ser vosso cúmplice." Instou a Bahá'u'lláh que permanecesse escondido por algum tempo naquela vizinhança, até que a paixão do povo se tivesse acalmado. Despachou a Afchih um velho e experiente mensageiro, a quem ordenou que ficasse ao dispor de seu Hóspede e se mantivesse em prontidão para acompanhá-Lo até qualquer lugar de segurança que Ele desejasse.
Bahá'u'lláh recusou valer-Se da oportunidade oferecida por Ja'far-Qulí Khán. Desatendendo ao mensageiro e lhe rejeitando a proposta, partiu montado, na manhã seguinte com tranqüila confiança, indo de Lavásán, onde estava hospedado, à sede do exército imperial então estacionado em Níyávarán, no distrito de Shimírán. Quando chegou na aldeia de Zarkandih, sede da legação russa, situada a uma distância de um maydán (9) de Niyávarán, veio a Seu encontro Mirza Majíd, Seu cunhado, que ocupava o posto de secretário do ministro russo (10) e foi por ele convidado a se hospedar em sua casa, a qual era adjacente àquela de seu superior. Os subordinados de Hájí 'Alí Khán, o Hájibu'd-Dawlih reconhecendo-O, foram imediatamente avisar seu Mestre quem, por sua vez, levou a informação ao conhecimento do Xá.
A notícia da chegada de Bahá'u'lláh causou grande surpresa entre os oficiais do exército imperial. O próprio Násiri'd-Dín Sháh espantou-se diante do passo audaz e inesperado que fora dado por um homem a quem se acusava de ser o principal instigador da tentativa contra sua vida. Imediatamente mandou à legação um de seus oficiais de confiança, exigindo que o Acusado fosse entregue em suas mãos. O ministro russo recusou e pediu a Bahá'u'lláh que procedesse à residência de Mirza Áqá Khán, o Grão-Vizir, sendo este o lugar que ele considerava o mais apropriado nestas circunstâncias. Acedeu Ele a seu pedido e o ministro então comunicou formalmente ao Grão-Vizir seu desejo de que o máximo cuidado exercido para garantir a segurança e proteção da incumbência que seu governo lhe estava entregando, e advertindo-lhe que o teria por responsável caso deixasse de cumprir com seu desejo (11).
Mirza Áqá Khán, embora se incumbisse de dar as mais completas garantias, segundo lhe foram exigidas, e se bem que recebesse Bahá'u'lláh em sua casa com toda demonstração de respeito, estava entretanto, demasiado apreensivo pela segurança de sua própria posição para conceder a seu Hóspede o tratamento que se esperava.
Quando Bahá'u'lláh estava partindo da aldeia de Zarkandih, a filha do ministro, sentindo-se muito aflita por causa dos perigos que Lhe ameaçavam a vida, ficou tão profundamente emocionada que não pode restringir as lágrimas. "De que proveito," ouviu-se ela apelar para o pai, "é a autoridade da qual foste investido, se és impotente para estender tua proteção a um hóspede que recebestes em tua casa?" O ministro, que tinha grande afeto pela filha, comoveu-se ao ver suas lágrimas e tentou confortá-la, assegurando-lhe que faria tudo em seu poder para afastar o perigo que ameaçava a vida de Bahá'u'lláh.
Nesse dia irrompeu no exército de Násiri'd-Dín Sháh um estado de violento tumulto. As ordens peremptórias do soberano, seguindo-se tão rapidamente após a tentativa contra sua vida, provocaram os mais exagerados boatos e excitaram as mais ferozes paixões nos corações do povo da região. Espalhou-se a agitação até Teerã, crescendo até atingirem um estado de fúria flamejante, as brasas de ódio que os inimigos da Causa ainda guardavam latentes em seus corações. Confusão, sem precedentes em seu âmbito, reinava na capital. Bastava uma palavra de denúncia, um sinal ou um sussurro, para sujeitar uma pessoa inocente a uma perseguição que nenhuma pena se atreve a tentar descrever. Segurança de vida e propriedade haviam se desvanecido completamente. As mais altas autoridades eclesiásticas na capital de mãos dadas com os mais prestigiosos membros do governo, infligiram o que esperavam fosse o golpe fatal a um inimigo que, por oito anos, tão gravemente abalava a paz do país e que nenhuma astúcia nem violência conseguira ainda silenciar (12).
Bahá'u'lláh, agora que o Báb deixara este mundo, aparecia a seus olhos como o arqui-inimigo cuma apreensão e prisão eles julgavam ser seu primeiro dever. Figurava-lhes como a reincarnação do Espírito que o Báb tão poderosamente manifestara, o Espírito através do qual Ele pudera efetivar tão completa transformação nas vidas e nos hábitos de seus conterrâneos. As precauções tomadas pelo ministro russo e a advertência por ele pronunciada não puderam deter a mão estendida com tão firme determinação contra aquela Vida preciosa.
Na viagem de Shimírán a Teerã, Bahá'u'lláh foi várias vezes despojado das vestes e acabrunhado de abuso e ridículo. A pé e exposto aos impiedosos raios do solstício de verão, foi Ele obrigado a percorrer a inteira distância desde Shimárán até a masmorra já mencionada. Por todo o caminho era Ele apedrejado e vilificado pelas turbas às quais Seus inimigos haviam podido convencer de Ser Ele o inimigo renhido de seu soberano e demolidor de seu reino. Faltam-me palavras para descrever o horroroso tratamento a Ele infligido, enquanto O levavam ao Síyáh-Chál de Teerã (13). Quando se aproximava dessa masmorra, viu-se uma velha e decrépita mulher emergir do meio da multidão, com uma pedra na mão, ansiosa de jogá-la no rosto de Bahá'u'lláh. Seus olhos cintilavam com uma determinação e um fanatismo de que poucos milhares de sua idade seriam capazes. Todo o seu corpo tremia de fúria, enquanto ela avançava, levantando a mão para contra Ele lançar seu projétil. "Pelo Siyyidu'sh-Shuhadá (14), vos adjuro", apelava, enquanto ela corria para alcançar aqueles em cujas mãos Bahá'u'lláh fora entregue, "dêem-me oportunidade para jogar minha pedra em seu rosto!" "Não deixem essa mulher ficar desapontada," foram as palavras de Bahá'u'lláh a Seus guardas, quando a viu apressar-se atrás Dele. "Não lhe neguem o que considera um ato meritório aos olhos de Deus."
O Síyáh-Chál, onde Bahá'u'lláh foi confinado, orignalmente um reservatório de água para um dos banhos públicos de Teerã, era a masmorra subterrânea na qual se costumava confinar criminosos do pior tipo. A escuridão, a imundície e o caráter dos presos combinaram para tornar essa pestilenta masmorra o lugar mais abominável ao qual seres humanos pudessem ser condenados. Seus pés foram postos em um tronco e ao redor de Seu pescoço prenderam as correntes de Qará-Guhar, notórias em toda a Pérsia por seu peso mortificante (15). Durante três dias e três noites, nenhuma espécie de alimento ou bebida foi dada a Bahá'u'lláh. Tanto repouso, como sono, Lhe era impossível. O lugar estava infestado de verminose e o fedor dessa morada sombria era suficiente para esmagar os próprios espíritos daqueles condenados a sofrer seus horrores. Tais eram as condições às quais Ele estava sujeitado que até um dos algozes que O vigiavam se comoveu. Várias vezes esse homem tentava induzi-Lo a tomar um pouco de chá que ele conseguira trazer para a masmorra escondido debaixo de suas roupas. Bahá'u'lláh, no entanto, recusava bebê-lo. Membros de Sua família freqüentemente tentavam persuadir os guardas a deixá-los levar à Sua prisão o alimento que haviam para Ele preparado. Embora de início nem o mais fervente apelo pudesse induzir os guardas a relaxarem a severidade de sua disciplina, pouco a pouco, entretanto, vieram a ceder à importunação de Seus amigos. Ninguém podia ter certeza, porém de o alimento chegar finalmente em Suas mãos, ou Dele consentir em comê-Lo, enquanto vários de Seus companheiros de prisão languesciam de fome ante Seus olhos. Certo é que maior miséria do que aquela que sobreveio a essas inocentes vítimas da ira de seu soberano, dificilmente se poderia imaginar (16).
Quanto ao jovem Sádiq-i-Tabrízí, o sofrimento a ele destinado foi tão cruel como humilhante. Apanharam-no no momento em que se precipitava em direção ao Xá, a quem já havia jogado do cavalo, esperando batê-lo com a espada que ele segurava na mão. O Shátir-Báshí, juntamente com os atendentes do Mustawfíyu'l-Mamálik, contra ele investiram e, sem tentarem saber quem ele era, no mesmo instante o trucidaram. Desejando apaziguar a agitação do povo cortaram seu corpo no meio e suspenderam cada metade para ser vista pelo público na entrada dos portões de Shimírán e Sháh 'Abdu'l'Azím (17). Seus outros dois companheiros, Fathu'lláh-i-Hakkák-i-Qumí e Hájí Qásim-i-Nayrízí, que haviam conseguido inflingir apenas leves ferimentos ao Xá, foram sujeitados a tratamento desumano, que causou afinal, sua morte. Fathu'lláh, embora sofrendo indizíveis crueldades, obstinadamente recusou responder às perguntas que lhe fizeram. O silêncio que manteve em face de múltiplas torturas levou seus perseguidores a acreditar que lhe faltava a faculdade da fala. Exasperados pelo insucesso de seus esforços, lhe despejaram na garganta chumbo derretido, ato esse que pôs término aos sofrimentos.
Seu companheiro, Hájí Qásim, foi tratado com uma selvageria ainda mais revoltante. No mesmo dia em que Hájí Sulaymán Khán estava sujeitado àquele terrível sofrimento, essa pobre criatura estava recebendo tratamento semelhante nas mãos de seus perseguidores em Shimírán. Despojaram-no das roupas, furaram-lhe a carne e nela inseriram velas acesas, e fizeram-no assim marchar diante dos olhos de uma turba que gritava e o amaldiçoava. Parecia insaciável o espírito de vingança que animava aqueles em cujas mãos ele foi entregue. Dia após dia novas vítimas eram forçadas a expiar com o sangue um crime que nunca cometeram, às circunstâncias do qual eles ignoravam completamente. Todo ardil engenhoso que os atormentadores de Teerã puderam empregar foi aplicado com impiedosa severidade nos corpos desses infelizes que nem foram levados a julgamento nem interrogados, sendo-lhes negado inteiramente seu direito de apelar e provar sua inocência.
Cada um daqueles dias de terror viu o martírio de dois companheiros do Báb, um dos quais era trucidado em Teerã, enquanto o outro encontrava seu destino em Shimírán. Ambos eram sujeitados ao mesmo modo de tortura, sendo ambos entregues ao público para tirar vingança. Aqueles encarcerados eram distribuídos entre as várias classes do povo, cujos mensageiros todo dia visitavam a masmorra e exigiam sua vítima (18). Conduzindo-a à cena de sua morte, davam o sinal para um ataque geral, quando, então, homens e mulheres cercavam sua presa, despedaçavam-lhe o corpo e de tal maneira o mutilavam que de sua forma original não restava um traço sequer. Tão grande impiedade espantava até os mais brutais dos algozes, cujas mãos, por mais acostumadas que estivessem à matança humana, jamais haviam perpetrado as atrocidades das quais essas pessoas se provaram ser capazes (19).
De todas as torturas que um inimigo insaciável infligiu às suas vítimas, nenhuma foi mais revoltante do que aquela que caracterizou a morte de Hájí Sulaymán Khán. Era filho de Yahyá Khán, um dos oficiais no serviço do Náyibu's-Saltanih, que era o pai de Muhammad Sháh. Reteve ele essa mesma posição nos primeiros dias do reinado de Muhammad Sháh. Hájí Sulaymán Khán mostrava desde os primeiros anos marcante aversão para posição e cargo. Desde o dia em que aceitara a Causa do Báb os ocupações triviais em que o povo a seu redor estava imerso excitavam sua compaixão e seu desprezo. A vaidade de suas ambições fora abundamente demonstrada aos seus olhos. Cedo na juventude sentiu ele um ardente desejo de escapar do tumulto da cidade e buscar refúgio na cidade santa de Karbilá. Aí veio a conhecer Siyyid Kázim e se tornou um de seus mais fervorosos defensores. Sua piedade sincera, frugalidade e seu amor à reclusão figuravam entre as qualidades principais de seu caráter. Demorou-se em Karbilá até o dia em que o Chamado de Shíráz lhe atingiu por intermédio de Mullá Yusuf-i-Ardibílí e Mullá Mihdíy-i-Khu'í, ambos os quais se contavam entre seus mais conhecidos amigos. Entusiasticamente abraçou ele a Mensagem do Báb (20). Tencionara, ao regressar de Karbilá a Teerã, unir-se com os defensores do forte de Tabarsí, mas chegou muito tarde para realizar tal propósito. Permaneceu na capital e continuou a usar o tipo de vestimenta que adotara em Karbilá. O pequeno turbante que ele usava e a túnica branca que seu 'abá (21) preto escondia, não agradavam o Amír-Nizám, que o induziu a rejeitar essas roupas e se vestir em uniforme militar. Fizeram-no usar o Kuláh (22), um toucado que se considerava mais de acordo com a posição ocupada por seu pai. Apesar de Amír insistir que ele aceitasse um posto no serviço do governo, obstinadamente recusou aceder a seu pedido. A maior parte de seu tempo era passada na companhia dos discípulos do Báb, especialmente daqueles companheiros Dele que sobreviveram à luta de Tabarsí. Ele os cercava com um cuidado e uma benevolência verdadeiramente admiráveis. Ele e seu pai tinham tanta influência que o Amír-Nizám foi induzido a lhe poupar a vida e de fato, a se abster de qualquer ato de violência contra ele. Embora estivesse presente em Teerã quando os sete companheiros do Báb com os quais estava intimamente associado foram martirizados, nem os oficiais do governo, nem qualquer um da plebe se atreveram a exigir sua apreensão. Até em Tabríz, onde viajara com o propósito de salvar a vida do Báb, nenhum dentre os habitantes dessa cidade ousou levantar contra ele um dedo sequer. O Amír-Nizám, que estava devidamente informado de todos os seus serviços à Causa do Báb, preferiu não levar em conta seus atos, em vez de precipitar um conflito com ele e o pai.
Pouco depois do martírio de um certo Mullá Zaynu'l-Abidín-i-Yazdí, espalhou-se um boato de que aqueles que o governo tencionava executar, entre os quais Siyyid Husayn, amanuense do Báb, e Táhirih - seriam postos em liberdade e que seria abandonada definitivamente a perseguição de seus amigos. Divulgou-se a notícia em toda parte, que o Amír-Nizám, julgando estar próxima a hora de sua morte, fora acabrunhado de súbito por grande medo e, numa agonia de arrependimento, exclamara: "Sou perseguido pela visão do Siyyid-i- Báb, de cujo martírio fui eu a causa. Posso agora ver que terrível erro cometi. Eu deveria ter restringido a violência daqueles que me instaram a derramar seu sangue de seus companheiros. Agora percebo que os interesses do Estado exigiam isso." Seu sucessor Mirza Áqá Khán, igualmente se inclinava a isso nos primeiros dias de sua administração e tencionava inaugurar seu ministério com uma reconciliação permanente entre ele e os seguidores do Báb. Já estava ele se preparando para cumprir sua tarefa quando a tentativa contra a vida do Xá arrasou seus planos e lançou a capital em um estado de confusão sem precedentes.
Tenho ouvido o Maior Ramo (23), que naqueles dias era criança de apenas oito anos de idade, relatar uma de Suas experiências, quando se aventurou a sair da casa em que Ele então residia. "Nós havíamos procurado abrigo", ele nos disse, "na casa de Meu tio, Mirza Ismá'il. Teerã estava na agonia da mais frenética agitação. Eu em certas ocasiões Me aventurava a sair dessa casa e atravessar a rua para ir ao mercado. Mal atravessava Eu o limiar e dava um passo na rua, quando meninos de Minha idade, que estavam correndo por lá, se amontoavam a Meu redor gritando, ' Bábí! Bábí!' Bem conhecendo o estado de agitação que se havia apoderado de todos os habitantes da capital tanto jovens como velhos, deliberadamente não levei em conta seu clamor e quietamente Me retirava para Minha casa. Aconteceu um dia que Eu estava andando sozinho pelo mercado, tencionando ir para a casa de Meu tio. Ao olhar para trás, vi um bando de pequenos rufiões correndo rapidamente a fim de Me alcançarem. Estava atirando pedras contra Mim e gritando em tom ameaçador, ' Bábí! Bábí!' Só intimidando-os, parecia-Me, poderia evitar o perigo que Me ameaçava. Virei-Me para trás e Me precipitei em direção a eles com tão firme determinação que fugiram apavorados e se desvaneceram. Eu podia ouvir de longe seu grito, 'O pequeno Bábí está nos perseguindo depressa. Ele de certo vai nos alcançar e vai matar a nós todos!' Enquanto Eu dirigia os passos para casa, ouvi um homem exclamar bem alto: 'Fizeste muito bem, ó criança corajosa, destemida! Ninguém de tua idade jamais teria podido, sem auxílio, resistir o ataque deles.' Depois daquele dia nunca mais fui molestado por qualquer um dos meninos da rua, nem ouvi mais nenhuma palavra ofensiva cair de seus lábios."
Entre aqueles que, em meio à confusão geral, foram apreendidos e aprisionados, se incluía Hájí Sulaymán Khán, as circunstâncias de cujo martírio irei relatar agora. Os fatos que menciono foram por mim cuidadosamente examinados e verificados e eu os devo pela maior parte, a Áqáy-i-Kalím que estava, ele próprio em Teerã naqueles dias e teve que participar dos terrores e sofrimentos de seus irmãos de Fé. "No dia mesmo do martírio de Hájí Sulaymán Khán," informou-me ele, "aconteceu que eu estava presente com Mirza 'Adu'l-Majíd, numa reunião em Teerã assistida por um número considerável das notabilidades e dos dignitários da capital. Entre eles se encontrava Hájí Mullá Mahmúd, o Nizámu'l-Ulamá, quem pediu ao Kalantar que descrevesse as verdadeiras circunstâncias da morte de Hájí Sulaymán Khán. O Kalantar assinalou com o dedo a Mirza Taqí, o Kad-Khudá (24) que, disse ele, conduzira a vítima desde o palácio imperial até o lugar de sua execução, fora do portão de Naw. Pediu-se então, a Mirza Taqí que relatasse aos presentes tudo o que ele havia visto e ouvido. 'Eu e meus auxiliares,' disse ele, 'recebemos ordens para comprar nove velas e inseri-las, nós mesmos, em buracos fundos que deveríamos cortar em sua carne. Instruíram-nos que acendêssemos cada uma dessas velas e o conduzíssemos pelo mercado, com o acompanhamento de tambores e trombetas até o lugar de sua execução. Ordenaram que lá cortássemos seu corpo no meio e suspendêssemos cada metade a um dos dois lados do portão de Naw. Ele mesmo escolheu a maneira como desejava ser martirizado. Násiri'd-Dín Sháh havia mandado Hájíbu'd-Dawlih (25) indagar na cumplicidade do acusado e, caso se convencesse de sua inocência, induzi-lo a se retratar. Se ele se submetesse lhe seria poupada a vida e seria ele detido, pendente a julgamento final de seu caso. Se ele recusasse, seria morto de qualquer modo que ele mesmo desejasse.
"As investigações de Hájibu'd-Dawlih convenceram-no da inocência de Hájí Sulaymán Khán. Logo que o acusado fora informado das instruções de seu soberano, ouviu-se ele exclamar jubilosamente: "Nunca, enquanto meu sangue vital continuar a pulsar em minhas veias, haverei de consentir em retratar minha fé em meu Bem-Amado! Este mundo que o Comandante dos Fiéis (26) comparou à carniça, jamais me seduzirá do Desejo de meu coração." Pediram-lhe que determinasse a maneira como desejava morrer. "Que furem minha carne", foi a resposta instantânea, " e em cada ferida coloquem uma vela. Que acendam nove velas em todo o meu corpo e nesse estado, seja eu conduzido pelas ruas de Teerã. Convocai a multidão para testemunhar a glória de meu martírio, de modo que a memória de minha morte permaneça gravada em seus corações e lhes ajude, ao recordarem a intensidade de minha tribulação, a reconhecer a Luz que eu abracei. Depois de haver eu chegado ao pé do cadafalso e pronunciado a última oração de minha vida terrena, parti meu corpo em dois e suspendei meus membros de cada lado do portão de Teerã, para que a multidão que por baixo passa, testemunhe o amor que a Fé do Báb tem ateado nos corações de Seus discípulos e veja as provas de sua devoção."
"Hájibu'd-Dawlih mandou seus homens cumprirem os desejos expressados por Hájí Sulaymán Khán e me incumbiu de conduzi-lo pelo mercado até o lugar de sua execução. Quando entregaram à vítima as velas que haviam comprado e estavam prestes a lhe furar o peito com suas facas, ele fez uma súbita tentativa de apanhar a arma das mãos trêmulas do algoz, a fim de mergulhá-la, ele mesmo, em sua própria carne. "Porque temer e hesitar?" exclamou ele, enquanto estendia o braço para arrancar de suas mãos a faca. "Deixem-me cumprir eu mesmo a tarefa e acender as velas." Receando que ele nos atacasse, ordenei a meus homens que resistissem sua tentativa e lhe amarrassem as mãos para trás. "Deixem-me," instava ele, "apontar com os dedos os lugares nos quais desejo que enfiem seu punhal, pois nenhum outro pedido tenho a fazer, senão este."
"Pediu-lhes ele que fizessem dois orifícios no peito, dois nos ombros, um na nuca e os outros quatro nas costas. Com calma estóica, suportou essas torturas. Em seus olhos ardia a chama de uma firmeza imperturbável, enquanto ele mantinha um silêncio misterioso e ininterrupto. Nem o alarido da multidão, nem o espetáculo do sangue que corria por toda parte de seu corpo pode induzi-lo a interromper esse silêncio. Impassivo e sereno permaneceu até que todas as nove velas haviam sido colocadas e acendidas.
"Ao se consumar tudo para sua marcha à cena de sua morte, ele, ereto como uma seta e com aquela mesma inabalável fortaleza que em sua face fulgia, deu um passo para frente, para conduzir a multidão que a seu redor se apinhava até o lugar destinado a ser a cena de seu martírio. De poucos em poucos passos interrompia ele a marcha e, contemplando os espectadores atônitos, exclamava: "Qual a pompa ou o fausto maior do que estes que acompanham meu progresso para ganhar a coroa da glória! Glorificado seja o Báb, que pode atear tal devoção nos peitos dos que lhe amam e dotá-los de um poder maior do que o dos reis!" Em alguns momentos, como se estivesse intoxicado do fervor dessa devoção, ele exclamava: "O Abraão de uma época passada enquanto suplicava a Deus, na hora de angústia extrema, que lhe fizesse descer o alívio pelo qual Sua alma ansiava, ouviu a voz do Invisível proclamar: "Ó fogo! Sê tu frio e para Abraão uma segurança! (27)' Mas este Sulaymán está implorando das profundezas de se coração extasiado: 'Senhor, Senhor, deixa Teu fogo queimar incessantemente dentro de mim e permite que sua chama me consuma o ser.'" Quando seus olhos viram a cera agitar-se e oscilar nas feridas, irrompeu dele uma aclamação de frenético deleite: "Oxalá estivesse aqui para testemunhar meu estado, Aquele cuja mão me inflamou a alma." "Não pensem que eu esteja intoxicado com o vinho desta terra!" exclamou ele à vasta multidão atônita diante de sua conduta. "É o amor de meu Bem-Amado que me inundou a alma e fez que eu me sentisse como se estivesse dotado de uma soberania que até os reis poderiam invejar!"
"Não posso recordar as exclamações de júbilo que caiam de seus lábios à medida que ele se aproximava de seu fim. Todas das quais me posso lembrar são apenas poucas das palavras comovedoras que, em seus momentos de exultação, ele se sentia impelido a exclamar à congregação de espectadores. Faltam-me palavras para descrever a expressão naquele semblante ou medir o efeito de que suas palavras surtiram na multidão.
"Ele estava ainda no bazar quando por uma brisa que soprou foi avivada a flama das velas colocadas sobre seu peito. Como se derretiam rapidamente, as chamas alcançaram o nível das feridas nas quais haviam sido enfiadas. Nós que seguíamos a poucos passos atrás dele, podíamos ouvir distintamente o pipocar de sua carne. O espetáculo do sangue e do fogo lhe cobriam o corpo e em vez de silenciar sua voz, parecia aumentar seu inextinguível entusiasmo. Ainda se podia ouvi-lo, agora se dirigindo às chamas, enquanto elas consumiam suas feridas: "Perdestes há muito vosso aguilhão, ó chamas e vos foi roubado o poder de me infligir dor. Apressai-vos, pois dessas línguas de fogo posso ouvir a voz que me chama a meu Bem-Amado!"
"Dor e sofrimento pareciam se haver dissolvido no ardor daquele entusiasmo. Envolto de chamas, andou ele assim como um conquistador poderia ter marchado à cena de sua vitória. Movia-se em meio à turba excitada feito uma luz flamejante entre as trevas que o cercavam. Ao alcançar o pé do cadafalso, novamente levantou ele a voz em um apelo final à multidão de espectadores. 'Este Sulaymán que vedes agora diante de vós, vítima de fogo e coberto de sangue, não gozava até recentemente todos os favores e todas as riquezas que este mundo pode porporcionar? Qual poderia ser a causa de haver ele renunciado esta glória terrena e aceito em troca tão grande degradação e sofrimento?". Prostando-se em direção ao santuário do Imáme-Zádih Hasan, murmurou certas palavras em árabe, as quais eu não pude entender. "Está agora terminado meu trabalho!" exclamou ele ao algoz, logo que concluiu sua oração. "Venha fazer o seu!" Ele ainda vivia quando com machado lhe partiram no meio o corpo. O louvor a seu Bem-Amado, apesar de tão incríveis sofrimentos, pairava sobre seus lábios até o último momento de sua vida (28).
"Essa trágica narrativa comoveu até as próprias profundezas da alma daqueles que ouviram. O Nizámu'l-'Ulamá, que escutava atentamente todos os detalhes torceu as mãos de horror e desespero. 'Como é estranha esta Causa, muito estranha!' exclamou. Sem acrescentar nenhuma palavra mais, nenhum outro comentário ele imediatamente depois, se levantou e partiu." (29)
Naqueles dias de incessante turbulência se testemunhou o martírio de ainda outro eminente discípulo do Báb. Uma mulher, pessoa essa de não menos destaque que a própria heróica Táhirih, foi engolfada na tempestade que então enfurecia com implacável violência em toda parte da capital. O que eu agora começo a relatar sobre as circunstâncias de seu martírio foi obtido e pessoas que podiam fornecer informações fidedignas, algumas das quais foram elas mesmas, testemunhas dos acontecimentos que estou tentando descrever. Sua estadia em Teerã foi notável por ser ocasião de muitas provas do caloroso afeto e da alta estima que lhe tinham as mais eminentes mulheres da capital. Ela atingira de fato, naquele tempo, o auge de sua popularidade (30). A casa em que ela estava confinada estava assediada por suas admiradores apinhando-se nas portas, ansiosas de entrar em sua presença em busca do benefício de seus conhecimentos (31). Entre essas senhoras, a esposa de Kalántar (32) distinguia-se pela reverência extrema que mostrava a Táhirih. Desempenhando o papel de anfitriã, apresentava-lhe a flor da população feminina de Teerã, servia-lhe com entusiasmo extraordinário e nunca deixou de contribuir o que podia para aprofundar sua influência entre as mulheres da casa. Pessoas com as quais a esposa do Kalántar estava intimamente relacionada a ouviram contar o seguinte: "Uma noite, enquanto Táhirih estava hospedada em minha casa, fui chamada à sua presença e a encontrei totalmente adornada, vestida de seda nívea. Seu aposento emitia a fragrância do mais fino perfume. Expressei-lhe minha surpresa, nunca a havendo visto assim. 'Estou-me preparando para encontrar com meu Bem-Amado' disse-me, 'e desejo livrar-te dos cuidados e ansiedades de meu encarceramento.' Assustei-me, de início e chorei ao pensar em ser dela separada. 'Não chores,' disse-me, querendo me consolar. 'Não veio ainda o tempo de tua lamentação. Desejo te participar meus últimos pedidos, pois a hora em que serei apreendida e condenada a sofrer martírio aproxima-se rapidamente. Eu queria te pedir que deixeis teu filho me acompanhar à cena de minha morte e evitar que os guardas e o algoz em cujas mãos serei entregue me obriguem a me despir destas vestes. É também meu desejo que meu corpo seja jogado em uma cova e que esta seja enchida de terra e pedras. Três dias após minha morte, uma mulher virá te visitar, a quem darás este pacote que agora entrego em tuas mãos. Meu último pedido é que a ninguém permitas de agora em diante entrar em meu aposento. Desde agora até o tempo em que serei chamada a partir desta casa, que a ninguém seja permitido perturbar minhas devoções. Neste dia tenciono jejuar e este jejum não havrei de quebrar antes de ser levada para ficar face à face com meu Bem-Amado.' Solicitou-me com essas palavras, trancar a porta de seu aposento e não abri-la antes de soar a hora de sua partida. Instou-me também que guardasse em sigilo a notícia de sua morte até o tempo em que seus inimigos a revelassem eles mesmos.
"O grande amor que eu por ela nutria no coração, tão somente, me possibilitou aceder às suas instruções. Se não fosse o desejo predominante sentido por mim de cumprir sua vontade, jamais haveria eu consentido em me privar de um momento de sua presença. Tranquei a porta de seu aposento e me retirei para o meu próprio em estado de irreprimível tristeza. Insone e desconsolada permaneci deitada em meu leito. Lacerou-me a alma o pensar em seu eminente martírio. 'Senhor, Senhor,' orava eu em meu desespero, 'afasta dela, se for Tua vontade, o cálice do qual seus lábios desejam sorver.' Durante aquele dia e noite, eu várias vezes não podendo me conter levantei e fui furtivamente ao limiar daquele aposento, permanecendo em silêncio na sua porta, ansiosa de ouvir quaisquer palavras que de seus lábios caíssem. Encantou-me a melodia daquela voz que entoava louvor a seu Bem-Amado. Dificilmente podia eu me manter em pé, tamanha foi minha agitação. Quatro horas após o pôr-do-sol ouvi bater na porta. Apressei-me de imediato a meu filho e o informei dos desejos de Táhirih. Deu-me ele a palavra que cumpriria todas as instruções que ela me dera. Aconteceu que naquela noite meu esposo estava ausente. Meu filho que abriu a porta, me informou que os farráshes (33) de 'Azíz Khán-i-Sardár estavam em pé no portão, exigindo que Táhirih fosse entregue imediatamente em suas mãos. Aterrorizada com essa notícia, fui cambaleando à sua porta a qual, com mãos trêmulas destranquei, encontrando-a velada e pronta para deixar seu apartamento. Estava andando de um lado para o outro quando entrei e estava entoando uma litania que expressava tanta tristeza como triunfo. Assim que me viu se aproximou e me beijou. Pôs em minha mão a chave de seu pequeno cofre, no qual ela me disse haver deixado para mim algumas coisas insignificantes como uma lembrança de sua estada em minha casa. 'Sempre que abrires este cofre,' disse ela, 'e olhares para as coisas que contém, lembra-te de mim, eu espero e te regozijarás por causa de minha felicidade.'
"Com estas palavras se despediu de mim pela última vez e acompanhada por meu filho desapareceu de minha vista. Que dor angustiante senti naquele momento, ao ver sua bela figura desvanecer-se, pouco a pouco, na distância! Ela montou o corcel que o Sardár mandara e escoltada por meu filho e alguns atendentes que marchavam a cada lado, seguiu ao jardim que seria a cena de seu martírio.
"Três horas depois meu filho voltou, com o rosto inundado de lágrimas e fazendo imprecações contra o Sardár e seus tenentes abjetos. Tentei acalmar sua agitação e fazendo-o sentar-se a meu lado, lhe pedi que relatasse da forma mais completa que pudesse, as circunstâncias de sua morte. 'Mãe,' respondeu ele em prantos, 'quase não posso tentar descrever o que meus olhos testemunharam.' Procedemos diretamente ao jardim de Ílkhání (34), fora do portão da cidade. Fiquei horrorizado ao encontrar o Sardár e seus tenentes absorvidos em atos vergonhosos de devassidão, enrubescidos de vinho e rebentando de gargalhadas. Ao alcançar o portão Táhirih apeou e me chamando, pediu que eu agisse como seu intermediário com o Sardár, a quem ela não se inclinava a dirigir em meio dessa orgia. "Aparentemente desejam me estrangular" disse-me. "Separei há muito tempo, um lenço de seda que eu esperava ser usado para esse fim. Entrego-o em vossas mãos e desejo que induzas aquele bêbado dissoluto a usá-lo como o meio pelo qual ele pode pôr termo à minha vida."
"Quando fui ao Sardár, o encontrei em estado da mais vil embriagues. "Interrompam a alegria de nosso festival!" eu o ouvi bradar enquanto dele me aproximava. "Que seja estrangulada aquela miserável, e jogado em uma cova seu corpo!" Admirei-me muito dessa ordem. Acreditando ser desnecessário aventurar-me a lhe fazer qualquer pedido, fui a dois de seus atendentes que eu já conhecia e lhe dei o lenço que Táhirih havia a mim confiado. Consentiram em lhe satisfazer o pedido. Esse mesmo lenço foi amarrado em volta de seu pescoço tornando-se o instrumento de seu martírio. Imediatamente depois apressei-me ao jardineiro e lhe perguntei se poderia sugerir um lugar em que eu pudesse esconder o corpo. Fiquei muito contente quando me indicou um poço que se havia cavado recentemente e deixado sem acabar. Com a ajuda de alguns outros, eu a baixei para dentro de seu sepulcro e da maneira que ela mesma desejara, enchi o poço de terra e pedras. Aqueles que a viram em seus últimos momentos foram profundamente afetados. Baixando os olhos e envoltos de silêncio pesarosamente se dispersaram, deixando sua vítima, aquela que dera tão imperecível brilho a seu país, sepultada sob um monte de pedras que eles com as próprias mãos, haviam sobre ela empilhado."
"Lágrimas escaldantes derramei enquanto meu filho desdobrava diante de meus olhos esta trágica narrativa. A tal ponto me emocionei que cai inconsciente, prostrada no chão. Ao recuperar os sentidos, encontrei meu filho em um estado de agonia não menos intensa do que minha própria. Estava deitado em seu leito em apaixonados prantos de devoção. Vendo meu estado aproximou-se, querendo me confortar. 'Tuas lágrimas,' disse ele, 'aos olhos de meu pai, te denunciarão.' Considerações de grau e posição haverão de induzi-lo sem dúvida, a nos abandonar e cortar quaisquer laços que o prendam a esta casa. Se deixarmos de reprimir nossas lágrimas; ele nos acusará perante Nasiri'd-Dín Sháh, como vítimas do encanto de um odioso inimigo. Obtendo o consentimento do soberano para nossa morte ele, provavelmente, com as próprias mãos procederá a nos trucidar. Por que devemos nós, que nunca abraçamos aquela Causa, deixar-nos sofrer tal sorte em suas mãos? Tudo o que nos compete fazer é defendê-la contra aqueles que a denunciam como a própria negação da castidade e da honra. Deveríamos sempre entesourar em nossos corações seu amor e face a um inimigo caluniador, sustentar a integridade daquela vida."
"Suas palavras mitigaram minha agitação interior. Fui buscar seu cofre e com a chave que ela colocara em minha mão o abri. Encontrei um pequeno frasco do mais escolhido perfume, ao lado do qual havia um rosário, um colar de coral e três anéis nos quais estavam engastadas pedras de turquesa, cornalina e rubi. Enquanto contemplando seus pertences terrenos, eu meditava sobre as circunstâncias de sua vida tão cheia de acontecimentos e vibrando de admiração recordava sua intrépida coragem, seu zelo, seu alto senso de dever e sua inequestionável devoção. Lembrei-me de suas realizações literárias e meditei sobre os encarceramentos, a ignomínia e a calúnia que ela havia enfrentado com uma fortaleza como nenhuma outra mulher em sua terra poderia manifestar. Pairava na memória a visão daquele rosto cativante que jazia agora, lamentavelmente, sepultado debaixo de um monte de terra e pedras. A lembrança de sua apaixonada eloqüência enchia de carinho meu coração, enquanto eu repetia a mim mesma as palavras que tantas vezes haviam caído de seus lábios. A consciência da vastidão de seus conhecimentos e do seu domínio das Sagradas Escrituras do Islã, relampejaram através de minha mente que de súbito me desconcertou. Acima de tudo, sua apaixonada lealdade à Fé que ela abraçara, seu fervor enquanto lhe defendia a causa, os serviços que lhe prestava, as angústias e tribulações que ela sofria pelo amor que lhe tinha, o exemplo que dera aos seguidores, o ímpeto que fornecera a sua promoção, o nome que ela para si havia esculpido nos corações de seus conterrâneos, tudo isso eu recordava enquanto ficava em pé, em frente de seu cofre, perguntando a mim mesma o quê poderia ter induzido essa tão grande mulher a renunciar todas as riquezas e honras as quais estivera rodeada e se identificar com a causa de um jovem obscuro de Shíráz. Qual teria sido o segredo, perguntava a mim mesma, do poder que a apartara de seu lar e dos seus parentes, que a sustentou durante toda a sua tempestuosa carreira e afinal a levou ao túmulo? Poderia essa força, ponderava eu, ser de Deus? Poderia ter sido a mão do Todo-Poderoso que guiou seu destino e lhe dirigiu o curso em meio aos perigos de sua vida?
"No terceiro dia após seu martírio (35), veio a mulher cuja vinda ela prometera. Perguntei-lhe o nome e verificando ser o mesmo que Táhirih me dissera, entreguei em suas mãos o pacote que me havia sido confiado. Nunca antes tinha eu visto essa mulher e nunca mais a vi." (36)
O nome daquela mulher imortal era Fátimih, nome esse que seu pai lhe conferira. Foi cognominada de Umm-i-Salmih, por sua família e parentes, os quais também a designaram como Zakíyyih. Ela nasceu no ano de 1233 A. H. (37), o mesmo que testemunhou o nascimento de Bahá'u'lláh. Tinha trinta e seis anos quando sofreu martírio em Teerã. Possam gerações futuras apresentar uma digna descrição de uma vida que contemporâneos deixaram de reconhecer adequadamente. Possam futuros historiadores perceber a plena medida de sua influência e registrar os serviços incomparáveis que essa grande mulher prestou a sua terra e ao seu povo. Que os seguidores da Fé, a qual bem serviu, se esforcem para lhe seguir o exemplo, que relatem seus feitos, colecionem seus escritos, desvendem o segredo dos seus talentos e lhe consagrem para todo o sempre, um lugar na memória e nos afetos dos povos e raças da terra (38).
Outra figura de destaque entre os discípulos do Báb, que foi morta durante o período turbulento que sobreviera a Teerã foi Siyyid Husayn-i-Yazdí, amanuense do Báb tanto em Máh-Kú como em Chihríq. Tal foi seu conhecimento dos ensinamentos da Fé que o Báb em uma Epístola dirigida a Mirza Yahyá, exortou este a buscar dele esclarecimento em qualquer assunto pertencente aos sagrados escritos. Homem de elevada posição e experiência, em quem o Báb depositava absoluta confiança e com quem fora intimamente associado, sofreu ele, após o martírio de seu Mestre em Tabríz, a agonia de um longo encarceramento na masmorra subterrânea de Teerã, o qual terminou com seu martírio. Bahá'u'lláh muito ajudou a suavizar as durezas que ele sofria. Todo mês, regularmente, mandou-lhe Ele qualquer auxílio financeiro de que necessitava. Ele era elogiado e admirado até pelos carcereiros que o vigiavam. A longa e íntima associação com o Báb, durante os últimos e mais tempestuosos dias de Sua vida, lhe havia aprofundado a compreensão e dotado a alma de um poder que ele era destinado a manifestar mais e mais, à medida que os dias de sua vida terrena se aproximavam do fim. Jazia ele na prisão, ansiando pelo dia em que seria chamado para sofrer uma morte similar àquela de seu Mestre. Tendo-lhe sido negado o privilégio de ser martirizado no mesmo dia do Báb, privilégio este que fora seu supremo desejo atingir, esperava agora ansiosamente a hora em que ele, por sua vez, pudesse sorver até a própria escória do cálice que tocara os lábios do Báb. Inúmeras vezes os oficiais de maior destaque de Teerã se esforçavam por induzi-lo a aceitar seu oferecimento de livrá-lo dos rigores da prisão, bem como da perspectiva de uma morte ainda mais cruel. Firmemente ele recusava. Seus olhos vertiam lágrimas oriundas de seu fervoroso desejo de ver mais uma vez aquela face cujo esplendor se irradiara tão brilhantemente em meio às trevas de um encarceramento cruel em Adhirbáyján e cujo ardor aquecia as gélidas noites de inverno. Enquanto ele meditava, na negrura de sua cela de prisão, sobre aqueles dias de êxtase passados na presença de seu Mestre, veio-lhe Alguém que tão somente pode através da luz de Sua presença banir a angústia que de sua alma se apoderara. Seu Confortador não foi outro, senão o próprio Bahá'u'lláh, Em sua companhia teve Siyyid Husayn o privilégio de permanecer até a hora de sua morte. A mão de 'Aziz Khán-i-Sardár, a qual havia abatido Táhirih, foi a que infligiu o golpe fatal ao amanuense do Báb e certa época Seu companheiro de prisão em Adhirbáyján. Desnecessário é deter-me sobre as circunstâncias da morte que aquele sanguinário Sardár lhe inflingiu. Basta dizer que ele também, assim como aqueles que lhe precederam sorveu em circunstâncias de vergonhosa crueldade do cálice pelo qual, desde tanto tempo e tão profundamente, ansiava.
Procedo agora a relatar o que sobreveio aos companheiros restantes do Báb, àqueles privilegiados a compartilhar com Bahá'u'lláh os horrores do encarceramento. De seus próprios lábios tenho várias vezes ouvido o seguinte relato: "Todos os que foram abatidos pela tempestade que enfurecia naquele ano memorável em Teerã vieram a ser Nossos companheiros de prisão no Síyáh-Chál, onde estávamos confinados. Nós todos estávamos amontoados em uma só cela; os pés em tronco e em volta de nossos pescoços amarrada a corrente mais mortificante. O ar que respirávamos estava impregnado das mais fétidas impurezas, enquanto o chão em que estávamos sentados esta coberto de imundície e infestado de verminose. Não se permitia que um raio de luz penetrasse naquela pestilenta masmorra ou lhe aquecesse o frio gélido. Fomos colocados em duas fileiras, uma em frente à outra. Nós lhes havíamos ensinado a repetir certos versículos os quais, toda noite eles entoavam com extremo fervor. 'Deus me é suficiente; Ele, em verdade, é o Todo-suficiente', entoava uma das fileiras, enquanto a outra respondia: 'Que Nele os confiantes confiem.' O coro dessas vozes jubilosas continuava a ressoar até as primeiras horas da manhã. Sua reverberação enchia a masmorra e penetrando seus muros maciços, alcançava os ouvidos de Násirid-Dín-Sháh, cujo palácio se situava não muito longe do lugar onde estávamos encarcerados. 'Que significa esse ruído?' dizem haver ele exclamado: 'É a antífona que os Bábís estão entoando em sua prisão', responderam. O Xá nenhum outro comentário fez, nem tentou restringir o entusiasmo que seus prisioneiros, a despeito dos horrores de seu encarceramento, continuaram a mostrar.
"Um dia, trouxeram à Nossa prisão uma bandeja de carne assada a qual, informaram-Nos, o Xá ordenara fosse distribuída entre os presos. 'O Xá,' disseram-Nos, 'fiel a um voto que fizera, dignou-se hoje oferecer a todos vós este carneiro em cumprimento de sua promessa.' Um silêncio profundo caiu sobre Nossos companheiros, que esperavam que Nós respondêssemos em seu nome. 'Devolvemos a vós essa dádiva', respondemos Nós, 'bem podemos dispensar essa oferta'. A resposta que demos teria irritado muito os guardas, se eles não tivessem estado ávidos de devorar o alimento que havíamos recusado tocar. A despeito da fome que afligia Nossos companheiros somente um dentre eles, um certo Mirza Husayn-i-Mulatavallíy-i-Qumí, mostrou algum desejo de comer do alimento que o soberano se dignara espalhar diante de Nós. Com uma fortaleza verdadeiramente heróica Nossos companheiros de prisão, sem nenhum murmúrio se sujeitaram a suportar a lastimável situação à qual foram reduzidos. De seus lábios caiam incessantemente Louvores a Deus, em vez de uma queixa contra o tratamento ao qual foram submetidos, pelo Xá - Louvor com o qual tentavam distrair-se das durezas de um cativeiro cruel.
"Cada dia, Nossos carcereiros, entrando em Nossa cela chamavam o nome de um de Nossos companheiros, mandando-o levantar-se e segui-lo até o pé do cadafalso. Com que fervor aquele a quem pertencia esse nome respondia ao solene chamado! Livrado de suas correntes alegremente se punha em pé e em estado de irrepressível deleite se aproximava de Nós e Nos abraçava. Procurávamos confortá-lo assegurando-lhe uma vida eterna no mundo do além e inundando-lhe o coração de esperança e júbilo. O mandávamos partir para ganhar a coroa da glória. Abraçava ele por sua vez, os restantes companheiros de prisão, cada um por sua vez e então saia para morrer, tão destemidamente como ele vivera. Logo após o martírio de cada um desses companheiros o algoz, que se havia tornado amigável a Nós, informava-Nos das circunstâncias da morte de sua vítima e da alegria com que suportara seus sofrimentos até mesmo o fim.
"Fomos acordados uma noite antes do alvorecer, por Mirza 'Abdu'l-Vahháb-i-Shírází, que estava amarrado Conosco pelas mesmas correntes. Ele havia partido de Kázimayn e Nos seguido até Teerã, onde foi apreendido e encarcerado. Ele agora nos perguntou se estávamos acordados e em seguida relatou a Nós seu sonho. 'Tenho estado nesta noite,' disse ele, 'voando em um espaço de infinita vastidão e beleza. Eu parecia ser erguido sobre asas que me levavam para onde quer que eu quisesse ir. Uma emoção de deleite estático me inundava a alma. Eu voava em meio a essa imensidão com uma rapidez e facilidade que não posso descrever.' 'Hoje', respondemos, 'será tua vez para te sacrificar por esta Causa. Que permaneça firme e constante até o fim. Então te encontrarás voando naquele mesmo espaço ilimitado com que sonhaste, atravessando com a mesma facilidade e rapidez o reino da soberania imortal e contemplando com aquele mesmo êxtase o Horizonte Infinito.'
"Naquela manhã o carcereiro entrou novamente em Nossa cela e esta vez chamou o nome de 'Abdu'l-Vahháb. Livrando-se das correntes pôs-se logo em pé, abraçou cada um de seus companheiros de prisão e tomando-Nos em seus braços Nos apertou afetuosamente ao coração. Nesse momento descobrimos que ele não tinha sapatos para calçar. Nós demos os Nossos e com uma palavra final de conforto e alegria Nós o mandamos à cena de seu martírio. Mais tarde seu algoz veio a Nós, elogiando em linguagem fervorosa o espírito que esse jovem mostrara. Como éramos gratos a Deus por esse testemunho dado pelo próprio algoz!"
Todo esse sofrimento e a vingança cruel que as autoridades haviam tirado dos que fizeram a tentativa contra a vida de seu soberano, não bastaram para aplacar a ira da mãe do Xá. Dia e noite persistia ela em seu vindictivo clamor exigindo a execução de Bahá'u'lláh por ela considerado o verdadeiro autor do crime. "Entregai-o ao algoz!" gritava ela insistentemente às autoridades. "Que humilhação maior que esta eu que sou a mãe do Xá, ser impotente para inflingir àquele criminoso o castigo que um ato tão pusilânime merece!" Seu brado por vingança, que uma fúria impotente servia para intensificar, era fadado a ficar sem resposta. A despeito de suas tramas, Bahá'u'lláh foi poupado do destino que ela tão inoportunamente se esforçara por precipitar. O Prisioneiro foi libertado afinal de Seu encarceramento e pôde desdobrar e estabelecer além dos confins do reino de seu filho, uma soberania com a possibilidade da qual jamais poderia ela ter sonhado. O sangue que no decorrer daquele ano fatídico em Teerã, foi derramado por aquela companhia heróica com a qual Bahá'u'lláh fora aprisionado, foi o resgate pago para livrá-lo da mão de um inimigo que tencionava impedi-lo de cumprir o desígnio para o qual Deus o destinara. Sempre desde o tempo em que Ele esposara a Causa do Báb, perdeu Ele uma oportunidade para servir de campeão da Fé que abraçara, expondo-se aos perigos que os seguidores da Fé tiveram que enfrentar nos primeiros anos. Foi o primeiro dos discípulos do Báb a dar o exemplo da renúncia e do serviço à Causa. Sua vida, entretanto, se bem que assediada pelos riscos e perigos que uma carreira como a Sua haveria infalivelmente de encontrar, foi poupada por aquela mesma Providência que O escolhera para uma tarefa que Ele, de acordo com Sua sabedoria não podia proclamar publicamente.
O terror que convulsionou Teerã foi apenas um dos muitos riscos e perigos aos quais foi exposta a vida de Bahá'u'lláh. Homens, mulheres e crianças na capital tremiam diante da impiedade com que o inimigo perseguia suas vítimas. Um jovem, de nome 'Abbás, antigo criado de Hájí Sulaymán Khán e por causa do largo círculo de amigos cultivados por seu mestre, completamente informado dos nomes e endereços e do número dos discípulos do Báb, foi empregado pelo inimigo como instrumento pronto, em mão, para a prossecução de seus desígnios. Ele se havia identificado com a Fé de seu mestre e se considerava um dos zelosos defensores. No início do tumulto, ele foi preso e instado a trair todos os que ele sabia estavam associados à Fé. Tentaram, mediante toda maneira de recompensa, induzi-lo a revelar aqueles que foram os co-discípulos de seu mestre, advertindo-lhe que, se recusasse informar-lhes de seus nomes, ele seria sujeitado a torturas desumanas. Ele deu a palavra que acederia a seus desejos e informaria aos assistentes de Hájí 'Alí Khán, o Hájibu'd-Dawlih, o Farrásh-Báshí, seus nomes e endereços. Conduziram-no através das ruas de Teerã, mandando-o apontar cada um que ele reconhecia como seguidor do Báb. Várias pessoas que ele nunca havia visto e conhecido foram desse modo entregues nas mãos dos assistentes de Hájí 'Alí Khán - pessoas que jamais tiveram qualquer contato com o Báb e Sua Causa. Essas pessoas só puderam recuperar a liberdade mediante uma pesada gratificação àqueles que a haviam apreendido. Tal foi a cobiça desses subordinados do Hájibu'd-Dawlih que pediram especialmente a 'Abbás que saudasse como sinal de traição cada pessoa que ele pensava, desejaria e poderia pagar uma quantia grande como resgate. Até forçavam-no a denunciar essas pessoas, ameaçando-lhe de grave perigo à sua própria vida caso ele recusasse. Freqüentemente prometiam dar-lhe uma parte do dinheiro que estavam determinados a extorquir das vítimas.
Na esperança de que O denunciasse, levaram esse 'Abbás ao Síyáh-Chál para apresentá-lo a Bahá'u'lláh, com quem ele havia encontrado anteriormente, em várias ocasiões, na companhia de seu mestre. Prometeram que a mãe do Xá lhe recompensaria amplamente tal denúncia. Cada vez que era conduzido à presença de Bahá'u'lláh, 'Abbás depois de haver permanecido por alguns momentos em pé diante Dele contemplando-Lhe a face, saia do lugar, negando enfaticamente O haver visto alguma vez. Vendo assim fracassados seus esforços, recorreram ao veneno, na esperança de ganhar o favor da mãe de seu soberano. Conseguiram interceptar o alimento que seu Prisioneiro fora permitido receber de sua casa e nele introduzir o veneno esperando que lhe fosse fatal. Essa medida, embora prejudicasse durante alguns anos a saúde de Bahá'u'lláh, não atingiu seu propósito.
O inimigo foi induzido, a deixar de considerá-lo o principal instigador daquele tentativa, e decidiu transferir a responsabilidade por esse ato a 'Azim, a quem agora acusaram de ser o verdadeiro autor do crime. Tentaram por esse meio ganhar o favor da mãe do Xá, favor esse que muito cobiçavam. Hájí 'Alí Khán com grande prezer lhes secundou os esforços. Como ele mesmo nenhuma parte tomara no encarceramento de Bahá'u'lláh aproveitou a ocasião que se ofereceu para denunciar 'Azim, já havendo conseguido apreendê-lo, como o principal instigador e o responsável.
O ministro russo, que por intermédio de um de seus agentes, estava acompanhando o desenrolar da situação e sendo informado constantemente da condição de Bahá'u'lláh, dirigiu ao Grão-Vizir, através de seu intérprete, uma mensagem em linguagem veemente na qual protestava contra sua ação e sugeriu que um mensageiro, na companhia de um dos representantes de confiança do governo e de Hájibu'd-Dawlih, fosse ao Síyál-Chál para pedir àquele recentemente reconhecido como líder que declarasse publicamente sua opinião no tocante à prisão de Bahá'u'lláh. "Qualquer declaração que esse líder faça," escreveu ele, "quer seja em elogios ou em denúncia, deveria, em minha opinião, ser imediatamente anotada e servir de base para o julgamento final a ser pronunciado nessa questão."
O Grão-Vizir prometeu ao intérprete que seguiria o conselho do ministro, até marcou uma hora para o mensageiro encontrar com o representante do governo e Hájibu'd-Dawlih e com eles seguir ao Síyál-Chál.
Quando se perguntou a 'Azim se ele considerava Bahá'u'lláh o responsável líder do grupo que fizera a tentativa contra a vida do Xá, ele respondeu: "O Líder dessa comunidade não foi outro, senão o Siyyid-i- Báb, trucidado em Tabríz e cujo martírio me induziu a me levantar e vingar Sua morte. Eu tão somente concebi esse plano e tentei executá-lo. O jovem que arrancou o Xá de seu cavalo não foi outro, senão Sádiq-i-Tabrízí, servidor em uma confeitaria em Teerã que esteve a meu serviço durante 2 anos. Ele estava inflamado com um desejo, ainda mais fervoroso do que o meu próprio, de vingar o martírio de seu Líder. Agiu com demasiada pressa entretanto, e não pode assegurar o êxito de sua tentativa."
As palavras de sua declaração foram anotadas tanto pelo intérprete do ministro, como pelo representante do Grão-Vizir os quais submeteram os relatórios a Mirza Aqá Khán. Os documentos entregues em suas mãos foram em grande parte responsáveis pela libertação de Bahá'u'lláh de Seu encarceramento.
Entregaram 'Azim em conseqüência disso aos ulemás, os quais, embora estivessem ansiosos de apressar sua morte, foram impelidos pela hesitação de Mirza Abúl Qásim, o Imame-Jum'ih de Teerã. Hájibu'd-Dawlih, por causa da aproximação do mês de Muharram, induziu os ulemás a se reuniram no andar superior do quartel, onde conseguiu obter a presença do Imame-Jum'ih, o qual ainda persistia em recusar dar seu consentimento para a morte de 'Azim. Ele deu instruções para trazer o acusado a esse lugar e deixá-lo esperar aí o julgamento que contra ele seria pronunciado. Com violência foi ele conduzido pelas ruas, sendo acabrunhado de ridículo e aviltado pelo povo. Mediante uma trama sutil inventada pelo inimigo, conseguiram um veredito de morte. Um siyyid munido de clava precipitou-se contra e lhe esmagou a cabeça. Seu exemplo foi seguido pelo povo, que com paus, pedras e punhais o agrediu, mutilando-lhe o corpo. Hájí Mirza Jámí também foi um dos que sofreram martírio no curso da agitação subseqüente à tentativa contra a vida do Xá. Por não estar o Grão-Vizir inclinado a levá-lo, deram fim à sua vida secretamente.
A confragação que se ateou na capital espalhou-se às províncias adjacentes, levando em seu rastro devastação e miséria a incontáveis pessoas inocentes, contra os súditos do Xá. Assolou Mázindarán onde residia Bahá'u'lláh, e foi sinal para atos de violência que visavam todos os Seus bens nessa província. Dois dos devotados discípulos do Báb, Muhammad-Taqí Khán e 'Abdu'l-Vahháb, ambos residentes de Núr, sofreram martírio em conseqüência desse tumulto.
Os inimigos da Fé, desapontados ao verificarem que a libertação de Bahá'u'lláh do cárcere estava quase assegurada, tentaram intimidar seu soberano e por este meio envolver Bahá'u'lláh em novas complicações, assim acarretando Sua morte. A insensatez de Mirza Yahyá que, impelido por suas fúteis esperanças, procurara obter para si e para o bando de seus néscios aderentes uma supremacia que até então inutilmente se esforçara para ganhar, forneceu ao inimigo mais um pretexto para incitar o Xá a tomar medidas drásticas para a destruição de qualquer influência que seu Prisioneiro ainda retivesse em Mázindarán.
As alarmantes notícias recebidas pelo Xá, que mal se recuperara dos ferimentos, provocou uma terrível sede de vingança. Ele chamou o Grão-Vizir e lhe repreendeu por não haver podido manter ordem e disciplina entre o povo de sua própria província, que lhe era ligado por laços de parentesco. Embaraçado pela repreensão de seu soberano, expressou sua prontidão para cumprir qualquer instrução que ele lhe desse. Foi mandado despachar a essa província, de imediato, vários regimentos, com estritas ordens de reprimir com mão implacável aqueles que perturbavam a paz pública.
O Grão-Vizir, embora tivesse plena consciência do caráter exagerado das notícias que lhe haviam sido submetidas, se viu constrangido, diante da insistência do Xá, a despachar o regimento de Sháh-Sún, chefiado por Husayn-'Alí Khán-i-Sháh-Sún, à aldeia de Tákur, no distrito de Núr, onde estava situada a casa de Bahá'u'lláh. Entregou o comando supremo às mãos de seu sobrinho, Mirza Abú-Talib Khán, cunhado de Mirza Hasan, que era irmão de Bahá'u'lláh por parte de pai. Mirza Áqá Khán solicitou-lhe que exercesse a máxima precaução e moderação enquanto acampando nessa aldeia. "Quaisquer excessos," advertia-lhe ele, "que sejam cometidos por vossos homens, terão um efeito desfavorável no prestígio de Mirza Hasan, causando aflição a vossa própria irmã." Mandou-lhe investigar a natureza dessas notícias e não acampar por mais de três dias na vizinhança daquela aldeia.
O Grão-Vizir depois chamou Husayn-'Alí Khán e o exortou a comportar-se com a máxima circunspecção e sabedoria. "Mirza Abú-Tálib," disse-lhe, "é ainda jovem e inexperiente. Eu o escolhi especialmente devido a seu parentesco com Mirza Hasan. Tenho confiança de que ele, por causa de sua irmã, se absterá de causar desnecessário dano aos habitantes de Tákur. Vós, por lhe serdes superior em idade e experiência, deveis dar-lhe um nobre exemplo e lhe acentuar a necessidade de servir os interesses tanto do governo como do povo. Nunca deveis permitir que ele empreenda quaisquer operações sem haver previamente vos consultado." Assegurou a Husayn-'Alí Khán que emitira instruções por escrito aos chefes daquele distrito incumbindo-lhe de lhe prestarem auxílio quando quer que fosse exigido.
Mirza Abú-Tálib Khán, inflamado de orgulho e entusiasmo, esqueceu os conselhos de moderação que o Grão-Vizir lhe dera. Recusou deixar-se influenciar pelos prementes apelos de Husayn-'Alí Khán, que lhe solicitava que não provocasse um conflito desnecessário com o povo. Mal alcançara ele o desfiladeiro que dividia o distrito de Núr da província adjacente, a qual não era muito distante de Tákur, quando mandou seus homens prepararem-se para atacar o povo dessa aldeia. Husayn-'Alí Khán correu a ele em desespero e lhe implorou que se abstivesse de tal ato. "Cabe a mim," retorquiu Mirza Abú-Tálib altivamente, "que sou vosso superior, decidir quais medidas devem ser tomadas e de que modo devo servir a meu soberano."
Um ataque repentino foi lançado sobre o povo indefeso de Tákur. Surpreendidos por uma investida tão inesperada e feroz, apelaram a Mirza Hasan, o qual pediu que fosse conduzido à presença de Mirza Abú-Tálib, sendo-lhe recusado, porém acesso; "Diga-lhe," foi a mensagem do comandante, "que por seu soberano estou incumbido de ordenar um massacre geral do povo desta aldeia, capturar suas mulheres e lhes confiscar os bens. Por consideração a vós, entretanto, estou disposto a poupar as mulheres que se refugiarem em vossa casa."
Mirza Hasan, indignado diante dessa recusa, lhe censurou severamente e, denunciando a ação do Xá, voltou a sua casa. Os homens dessa aldeia haviam nesse ínterim deixado suas moradas e buscado refúgio nas montanhas circunvizinhas. Suas mulheres, abandonadas a sua sorte dirigiram-se para a casa de Mirza Hasan, de quem imploravam proteção contra o inimigo.
O primeiro ato de Mirza Abú-Tálib Khán foi dirigido contra a casa de Bahá'u'lláh herdada do Vizír, Seu pai, e da qual era Ele o único possuidor. Essa casa havia sido mobiliada regiamente, sendo decorada com vasos de valor inestimável. Ordenou a seus homens que arrombassem todos os seus tesouros e levassem o seu conteúdo. Tudo o que era impossível se levar, ele mandou destruir. Algumas coisas foram demolidas, outras queimadas. Até os aposentos, os quais eram mais imponentes do que os do palácio de Teerã, foram a tal ponto desfigurados que não tinham mais conserto; as vigas foram queimadas, sendo completamente arruinadas as decorações.
Em seguida dirigiu ele a atenção às casas do povo, as quais arrasou, tomando para si e para seus homens quaisquer objetos de valor nelas contidos. A aldeia inteira, despojada e abandonada pelos habitantes de sexo masculino, foi entregue às chamas. Não podendo encontrar nenhum homem apto, ele ordenou que uma busca fosse conduzida nas montanhas circunvizinhas. Qualquer um que fosse encontrado seria ou fuzilado ou preso. Os únicos que eles conseguiram capturar foram alguns homens idosos e pastores que não haviam podido seguir para mais longe em sua tentativa de escapar do inimigo. Descobriram dois homens a alguma distância deitados do lado de um córrego no declive de uma montanha. Suas armas que reluziam nos raios do sol os haviam traído. Encontrando-os adormecidos, os agressores fuzilaram ambos do outro lado do córrego que entre eles e suas vítimas se interpunha. Foram reconhecidos como 'Abdu'l-Vahháb e Muhammad-Taqí Khán. O primeiro morreu instantaneamente, o último foi gravemente ferido. Foram levados à presença de Mirza Abú-Tálib, que fez o possível para preservar a vida da vítima, pois devido a sua famosa coragem, ele desejava levá-lo a Teerã como troféu de sua vitória. Falharam seus esforços, no entanto, vindo Muhammad-Taqí Khán, a morrer em conseqüência de seus ferimentos, dois dias depois. Os poucos homens que eles haviam podido capturar foram levados, acorrentados a Teerã e lançados na mesma masmorra subterrânea em que Bahá'u'lláh fora confinado. Entre eles se encontrava Mullá 'Alí- Bábá, que, juntamente com vários companheiros de prisão, pereceu naquela masmorra por causa das privações que tivera de suportar.
No ano seguinte, uma praga acometeu a esse mesmo Mirza Abú-Tálib e levaram-no em estado de extrema aflição a Shimírán. Abandonado até pelos parentes mais próximos, jazia ele em sua cama, até que o mesmo Mirza Hasan a quem ele tão arrogantemente insultara, ofereceu-lhe tratar as feridas e fazer companhia em seus dias de humilhação e solidão. Quando ele estava à beira da morte o Grão-Vizir lhe visitou, não encontrando a sua cabeceira pessoa alguma salvo o homem que ele havia tratado de uma maneira tão insultante. Naquele mesmo dia expirou o miserável tirano amargamente desapontado por haverem falhado todas as esperanças tão enternecidamente por ele acariciadas.
A comoção que de Teerã se apoderara e cujos efeitos se havia sentido severamente em Núr e nos distritos circunvizinhos, espalhou-se até Yazd e Nayríz, onde um número considerável dos discípulos do Báb foi apreendido e desumanamente martirizado. A Pérsia inteira parecia realmente haver sentido o choque dessa grande convulsão. Sua maré varreu até as mais remotas aldeolas das províncias distantes, trazendo em seu rastro sofrimentos indizíveis para os remanescentes de uma comunidade perseguida. Governadores, não menos que seus subordinados, inflamados de avareza e vingança, aproveitaram a ocasião para enriquecerem a si próprios e obterem o favor de seu soberano. Sem misericórdia, moderação ou vergonha, empregaram qualquer meio, por mais vil e ilegítimo que fosse, para extorquir de pessoas inocentes os benefícios que eles próprios cobiçavam. Abandonando todo princípio de justiça e decência, apreendiam, aprisionavam e torturavam qualquer um que suspeitassem fosse Bábí e se apressavam a informar a Násiri'd-Dín-Sháh em Teerã das vitórias ganhas sobre um detestado oponente.
Em Nayríz os plenos efeitos desse tumulto revelaram-se no tratamento dado por seus governantes e seu povo aos seguidores do Báb. Quase dois meses após a tentativa contra a vida do Xá, um jovem de nome Mirza 'Alí, cuja excepcional coragem lhe ganhara o cognome de 'Aliy-i-Sardár, se distinguiu pela solicitude extrema que ele estendeu aos sobreviventes da luta que havia terminado com a morte de Vahíd e seus aderentes. Freqüentemente era ele visto na calada da noite emergir de seu abrigo para levar qualquer auxílio dentro de seu alcance às viúvas e aos órfãos que haviam sofrido as conseqüências daquela tragédia. Aos necessitados distribuía ele alimentos e roupas com nobre generosidade, tratava-lhes os ferimentos e os confortava em sua tristeza. O espetáculo dos sofrimentos contínuos dessas pessoas inocentes provocou a intensa indignação de alguns dos companheiros de Mirza 'Alí, levando-os a se incumbir de tirar vingança de Zaynu'l-'Abidín Khán, que ainda residia em Nayríz e a quem consideravam o autor de seus infortúnios. Acreditando estar ele nutrindo no coração um desejo de sujeitá-los a ainda mais aflições, determinaram-se a lhe tirar a vida. Surpreenderam-no no banho público, onde conseguiram efetuar seu propósito. Isso levou a um tumulto que em suas etapas finais fazia lembrar o horror da carnificina de Zanján.
A viúva de Zaynu'l-'Abidín Khán instou a Mirza Náim, então residente em Shíráz, em cujas mãos estavam as rédeas da autoridade, que vingasse o sangue de seu esposo, prometendo que em recompensa lhe doaria todas as suas jóias e a seu nome transferiria qualquer de seus bens que ele desejasse. Mediante perfídia as autoridades conseguiram apreender um número considerável dos seguidores do Báb, muitos dos quais foram barbaramente chicoteados. Todos foram jogados na prisão enquanto se aguardava instruções de Teerã. A lista de nomes recebidas pelo Grão-Vizir foi por ele submetida, juntamente com o relatório que a acompanhava, ao Xá, o qual expressou sua satisfação extrema com o êxito que coroara os esforços de seu representante em Shíráz, a quem ele recompensou amplamente por seu insigne serviço. Exigiu que todos os cativos fossem levados à capital.
Não tentarei registrar as várias circunstâncias que levaram à carnificina que assinalou o término daquele episódio. Eu referiria meu leitor à narrativa gráfica e detalhada escrita por Mirza Shafí'-i-Nayrízí em um livreto separado, no qual ele se refere acurada e veementemente a cada detalhe desse evento comovedor. Basta dizer que nada menos que cento e oitenta dos valorosos discípulos do Báb sofreram martírio. Igual número foi ferido e, embora incapacitado, recebeu ordens de partir para Teerã. Apenas vinte e oito pessoas entre eles sobreviveram às durezas da viagem até a capital. Dessas vinte e oite, quinze foram levadas ao cadafalso no mesmo dia de sua chegada. As restantes foram encarceradas, tendo que sofrer durante dois anos as mais horríveis atrocidades. Embora libertadas afinal, muitas pereceram no caminho para suas casas, estando exaustas pelas provações de um longo e cruel cativeiro.
Um grande número de seus co-discípulos foi trucidado em Shiráz por ordem de Tahmásb-Mirza. As cabeças de duzentas dessas vítimas foram colocadas em baionetas e levantadas em triunfo pelos opressores até Ábádih, uma aldeia em Fárs. Tencionavam levá-las a Teerã, quando um mensageiro real os mandou abonandonar esse projeto e eles então decidiram enterrar as cabeças nessa aldeia.
Quanto às mulheres, seiscentas em número, a metade foi posta em liberdade em Nayríz, enquanto as restantes foram levadas, tendo que viajar montadas, duas juntas em cada cavalo, sem sela, até Shiráz, onde, após haverem sido sujeitadas a severas torturas, foram abandonadas a sua sorte. Muitas pereceram no caminho para essa cidade; muitas renderam a vida em meio às aflições que tiveram de suportar antes de recobrarem sua liberdade. Minha pena estremece de horror ao tentar descrever o que sucedeu àqueles intrépidos homens e mulheres que tiveram de sofrer tão severamente pela sua Fé. A desenfreada barbaridade que caracterizava o tratamento a eles proporcionado atingiu a máxima profundidade de infâmia nas etapas finais deste episódio lastimável.
O que tenho tentado relatar dos horrores do assédio de Zanján, das indignidades amontoadas sobre Hujját e seus aderentes, empalidece face a evidente ferocidade das atrocidades perpetradas poucos anos depois em Nayríz e Shiráz. Uma pena mais capaz do que a minha para descrever em todos os seus trágicos detalhes essa indizível selvageria, será encontrada, espero, a fim de registrar uma narrativa, que por horrendas que sejam suas feições, há de permanecer para sempre como uma das mais nobres evidências da fé que a Causa do Báb pode inspirar em Seus seguidores (39).
A confissão de 'Azim livrou Bahá'u'lláh do perigo no qual Sua vida fora exposta. As circunstâncias da morte daquele que se declarara o principal instigador daquele crime serviram para mitigar a ira com a qual um povo enfurecido clamava pelo castigo imediato de tão ousada tentativa. Os gritos de fúria e vingança, os apelos por pronta retribuição, até então focalizados em Bahá'u'lláh, agora Dele se desviavam. A ferocidade daquelas reivindicadoras denúncias suavizava pouco a pouco. Tornava-se mais firme nas mentes das autoridades responsáveis em Teerã a convicção de que Bahá'u'lláh, até então considerado o arqui-inimigo de Nasiri'd-Din-Sháh, não estava de modo algum envolvido em qualquer conspiração contra a vida do soberano. Mirza Áqá Khán foi, portanto, encorajado a enviar seu representante, um homem de confiança, chamado Hájí 'Alí, ao Síyáh-Chál, com o fim de apresentar ao Prisioneiro a ordem para Sua libertação.
O que esse emissário contemplou ao chegar encheu-o de tristeza e espanto. O espetáculo diante de seus olhos foi tal que ele dificilmente podia acreditar. Ele chorou ao ver Bahá'u'lláh acorrentado a um chão infestado de verminose, o pescoço sob o peso de cadeias vexatórias, a face acabrunhada de tristeza, mal vestido e desgrenhado, respirando o ar pestilento dessa, a mais terrível das masmorras. "Maldito seja Mirza Áqá Khán!" exclamou ele, ao reconhecer Bahá'u'lláh nas trevas que O cercavam. "Sabe Deus jamais eu imaginara que vós poderíeis ter sido sujeitado a tão humilhante cativeiro. Jamais teria eu imaginado que o Grão-Vizir pudesse atrever-se a cometer um ato tão abominável."
Removeu ele o manto dos próprios ombros e o ofereceu a Bahá'u'lláh, suplicando-lhe que o vestisse quando na presença do ministro e seus conselheiros. Bahá'u'lláh declinou a oferta e usando os trajes de prisioneiro, seguiu logo à sede do governo imperial.
As primeiras palavras que o Grão-Vizir se sentiu movido a dirigir a seu Cativo foram as seguintes: "Tivésseis vos dignado seguir meu conselho e tivésseis vos desassociado da fé do Siyyid-i- Báb, jamais haveríeis sofrido as dores e as indignidades que sobre vós se amontoaram." "Tivésseis vós, por vossa vez," replicou Bahá'u'lláh, "seguido meus conselhos, os assuntos do governo não haveriam chegado a um estado tão crítico."
O Grão-Vizir lembrou imediatamente a conversação tida com Ele na ocasião do martírio do Báb. As palavras: "A chama que se ateou arderá mais intensamente do que nunca" relampejou através da mente de Mirza Áqá Khán. "A advertência que pronunciastes," observou ele, "infelizmente se cumpriu. Que é que vós agora aconselhais que eu faça?" "Ordenai aos governantes do reino" - foi a resposta instantânea, "que cessem de derramar o sangue dos inocentes, que cessem de lhes saquear os bens, que cessem de desonrar suas mulheres e lesar suas crianças. Que cessem de perseguir a Fé do Báb; que abandonem a vã esperança de eliminar seus seguidores."
Nesse mesmo dia foram emitidas ordens, mediante uma circular dirigida a todos os governantes do reino mandando-lhes desistir de seus atos cruéis e ignominiosos. "Basta o que já fizestes," escreveu-lhes Mirza Áqá Khán. "Cessai de apreender e punir o povo. Não mais pertubeis a paz e tranqüilidade de vossos conterrâneos." O governo do Xá havia deliberado sobre as medidas mais efetivas a serem tomadas a fim de livrar o país, de uma vez por todas, daquela maldição da qual fora afligido. Mal recuperara Bahá'u'lláh Sua liberdade, quando Lhe foi entregue a decisão do governo informando-Lhe que, dentro de um mês após a emissão dessa ordem, com Sua família, deveria partir de Teerã para um lugar além dos confins da Pérsia.
O ministro russo, logo que soube das medidas que o governo tencionava tomar ofereceu levar Bahá'u'lláh sob sua proteção e O convidou a vir à Rússia. Bahá'u'lláh declinou a oferta preferindo, em lugar disso, partir para o Iraque. Nove meses após Seu regresso de Karbilá, no primeiro dia do mês de Rabí'u'th-Thání, no ano de 1269 A. H. (40) Bahá'u'lláh, acompanhado pelos membros de Sua família, entre os quais o Maior Ramo (41) e Áqáy-i-Kalím (42) e escoltado por um membro da guarda pessoal do Xá e por um representante oficial da legação russa, partiu de Teerã em Sua viagem a Bagdá.
EPÍLOGO
Jamais a sorte da Fé proclamada pelo Báb caira a um nível tão baixo do que quando Bahá'u'lláh foi exilado de Sua terra natal para o Iraque. A Causa pela qual o Báb dera a vida, pela qual Bahá'u'lláh labutava e sofrera, parecia estar no próprio limiar da extinção. Parecia que se lhe haviam gasto a força e quebrado irreparavelmente a resistência. Eventos desalentadores e desastres, cada qual mais devastador em seu efeito do que o anterior, haviam sucedido um ao outro, com deslumbrante rapidez, solapando-lhe a vitalidade e diminuindo a esperança de seus mais intrépidos defensores. De fato, para um leitor superficial das páginas da narrativa de Nabíl, a história inteira, desde mesmo o princípio, parece ser uma simples enumeração de vicissitudes e massacres, de humilhação e desapontamentos, sendo cada um mais severo do que o precedente e culminando, afinal, no exílio de Bahá'u'lláh de Seu próprio país. Para o leitor cétido, que não esteja disposto a reconhecer a potência celestial de que foi detoda essa Fé, o inteiro conceito que evoluira na mente de seu Autor parece haver sido predestinado ao fracasso. A obra do Báb, tão gloriosamente concebida e empreendida com tanto heroísmo, parecia haver terminado em um desastre colossal. Para tal leitor, a vida do infortunado Jovem de Shiráz parecia julgando-se pelos golpes cruéis que ela sustentara, ser uma das mais tristes e mais infrutíferas já destinadas aos homens mortais. Aquela breve e heróica carreira que tão célere como um meteoro, relampejou através do firmamento da Pérsia por algum tempo parecendo haver trazido, na treva que cercava o país, a tão almejada luz da salvação eterna, foi enfim, mergulhada em um abismo de escuridão e desespero.
Todo passo que Ele dava, todo esforço que Ele fazia, servira apenas para intensificar as tristezas e desilusões que Lhe pesavam sobre a alma. O plano por Ele concebido, mesmo no início de Sua carreira - o de inaugurar Sua Missão com uma proclamação pública nas cidades santas de Meca e Medina, não alcançou o esperado êxito. O Xerife de Meca a quem Quddús foi mandado entregar Sua Mensagem, lhe deu tal recepção que por sua gélida indiferença demonstrou o desdenhoso desprezo por parte do governante de Hijáz e custódio de seu Ka'bih, para com a Causa de um Jovem de Shíráz. De igual modo se frustrou desesperadamente o projeto que tinha em mente, o de regressar triunfante de Sua peregrinação e estabelecer Sua Causa nas cidades de Karbilá e Najaf, no próprio coração dessa cidadela da ortodoxia xiita. O programa que Ele elaborara, cujos itens essenciais Ele já havia comunicado aos dezenove escolhidos dentre Seus discípulos, deixou em sua maior parte de ser cumprido. A moderação que Ele os exortara a observar foi esquecida no primeiro fluxo de entusiasmo que se apoderou dos primeiros missionários de Sua Fé, sendo essa conduta responsável em grande parte pelo insucesso das esperanças que Ele tão carinhosamente nutrira. O Mu'tamid, aquele sábio e sagaz governante que tão habilmente afastara o perigo que ameaçava essa preciosa Vida, provando sua capacidade para lhe prestar serviços de tal distinção como poucos de Seus companheiros mais modestos poderiam ter esperado lhe oferecer, foi subitamente Lhe retirado, deixando-O à mercê do pérfido Gurgín Khán, o mais detestável e inescrupuloso de todos os Seus inimigos. A única oportunidade que o Báb tinha para se encontrar com Muhammad Sháh, encontro esse que Ele Próprio pedira e no qual havia focalizado suas esperanças mais acariciadas, foi derrubada ao chão pela intervenção daquele covarde e caprichoso Hájí Mirza Áqásí, que tremia ao pensar na possibilidade de Seu contato com o soberano, já indevidamente inclinado a favorecer essa Causa, provar-se fatal a seus próprios interesses. As tentativas, inspiradas e iniciadas pelo Báb as quais dois de Seus mais eminentes discípulos, Mullá 'Alíy-i-Bastámí e Shaykh Sa'íd-i-Hindí, fizeram a fim de introduzir a Fé em um território turco e o outro na Índia, terminaram em lastimável insucesso. O primeiro empreendimento faliu logo de início por causa do martírio cruel de quem o promoveu, enquanto o segundo foi produtivo dentro daquilo que poderia parecer um resultado insignificante, sendo seu único fruto a conversão de um certo siyyid, cuja acidentada carreira de serviço foi levada a um súbito fim em Luvastán pela ação do pérfido Íldirím Mirza. O cativeiro ao qual foi condenado o próprio Báb durante a maior parte dos anos de Seu ministério; Seu isolamento nas remotas cidadelas nas montanhas de Adhirbáyján do corpo de Seus seguidores, os quais estavam sendo penosamente perseguidos por um inimigo voraz; acima de tudo, a tragédia de Seu próprio martírio, tão intensa, tão terrivelmente humilhante, parecia haver assinalado as ínfimas profundezas da ignomínia que uma Causa tão nobre, desde a hora mesma de seu nascimento, era destinada a sofrer. Sua morte, a culminação de uma célere e tempestuosa carreira, pareceria haver posto o selo do fracasso em uma tarefa que, por heróica que fosse nos esforços que ela inspirou foi impossível de ser realizada.
Por muito que Ele Próprio sofrera, a agonia que teve de suportar foi apenas uma gota em comparação com as calamidades que haveria de chover sobre a multidão de Seus declarados seguidores. O cálice de tristeza que tocara Seus lábios tinha de ser sorvido até a própria escória por aqueles que, após Ele, ainda permaneciam. A catástrofe de Shaykh Tabarsí, que lhe roubou os mais hábeis tenentes, Quddús e Mullá Husayn, e que engolfou nada menos de trezentos e treze de Seus intrépidos companheiros, veio como o golpe mais cruel que até então sobre Ele caira e envolveu em uma mortalha de escuridão os dias finais de Sua vida em rápido declínio. A luta de Nayríz, com os horrores e crueldades que a acompanhavam envolvendo a perda de Vahíd, o mais erudito, o de maior prestígio e o mais capacitado entre os seguidores do Báb, foi mais um golpe aos recursos inúmeros daqueles que continuavam a erguer altamente a tocha em suas mãos. O assédio de Zanján - vindo logo no encalço do desastre que sobreviera à Fé em Nayríz e assinalado pela carnificina com a qual o nome dessa província permanecerá sempre associada, dizimou em grau ainda maior as fileiras dos defensores da Fé e os privou da força sustentadora que a presença de Hujját neles inspirava. Com ele desaparecera a última figura de destaque entre os líderes representativos da Fé, os quais, em virtude de sua autoridade eclesiástica, sua erudição, sua intrepidez e sua força de caráter, se elevaram acima da generalidade de seus co-discípulos. Uma carnificina impiedosa ceifara a flor dos seguidores do Báb, deixando atrás uma vasta companhia de mulheres e crianças escravizadas que gemiam sob o jugo de um inimigo implacável. Seus líderes que tanto por seu conhecimento como por seu exemplo alimentavam e sustentavam a chama que ardia naqueles valorosos corações, também haviam perecido, ficando seu trabalho aparentemente abandonado em meio à confusão que afligia uma comunidade perseguida.
De todos os que haviam mostrado capazes de levar avante a tarefa que o Báb transmitira a Seus aderentes, restava tão somente Bahá'u'lláh (1). Todos os demais haviam sido mortos pela espada do inimigo. Mirza Yahyá, líder nominal dos que sobreviveram ao Báb, havia ingloriosamente, nas montanhas de Mázindarán, buscado refúgio dos perigos do tumulto que se apoderara da capital. No disfarce de um dervixe, Kashkúl (2) em mão, desertara ele os companheiros e fugira da cena do perigo para as florestas de Gilán. Siyyid Husayn, amanuense do Báb e Mirza Ahmad, seu colaborador, ambos bem versados nos ensinamentos e nas implicações do recém-revelado Bayán, e possuindo capacidade - em virtude de seu íntimo contato com seu Mestre e sua familiaridade com os preceitos de Sua Fé - para esclarecer o entendimento e consolidar os alicerces da fé de seus companheiros, jaziam acorrentados no Síyáh-Chál de Teerã, excluídos inteiramente do corpo dos crentes que tanto necessitavam de seus conselhos, e sendo ambos destinados a sofrer muito breve um martírio cruel. Até Seu próprio tio materno que sempre, desde Sua infância, O havia cercado de uma solicitude paterna que nenhum pai poderia ter excedido e lhe prestara insgines serviços nos primeiros dias de Seus sofrimentos em Shiráz e que , se tivesse sido permitido de sobreviver a Ele por apenas poucos anos, poderia ter prestado serviços inestimáveis a Sua Causa - languescia na prisão, abandonado e sem esperança de continuar algum dia o trabalho tão acariciado em seu coração. Táhirih, aquele flamejante emblema de Sua Causa que, tanto pela indomável coragem como por seu caráter impetuoso, sua fé inabalável, seu veemente ardor e seus vastos conhecimentos, parecia durante algum tempo ter a possibilidade de ganhar todas as mulheres da Pérsia para a Causa de seu Bem-Amado, caiu lamentavelmente, na mesma hroa em que a vitória parecia estar próxima, vítima da ira de um inimigo caluniador. Às pessoas presentes no momento em que seu corpo era colocado na cova que lhe servia de sepultura, a influência de seu trabalho, cujo curso foi tão prematuramente interrompido, parecia se haver completamente extinguido. As restantes Letras dos Viventes, nomeados pelo Báb, ou haviam perecido pela espada ou estavam agrilhoadas na prisão, ou levavam uma vida obscura em algum canto remoto do reino. Os volumosos escritos do Báb sofreram, pela maior parte uma sorte não menos humilhante do que aquela que sobreviera a Seus discípulos. Muitas de Suas copiosas obras foram inteiramente obliteradas, sendo outras rasgadas e reduzidas a cinzas, algumas foram corrompidas, uma grande quantidade foi apreendida pelo inimigo e as restantes obras jaziam - uma massa de manuscritos não organizados nem decifrados - precariamente escondidos e largamente espalhados entre os sobreviventes de Seus companheiros.
A Fé que o Báb proclamara e pela qual Ele tudo dera, havia realmente atingido o seu mais baixo limiar. Os fogos contra ele ateados haviam quase consumido a estrutura da qual dependia sua contínua existência. As asas da morte pareciam estar sobre ela pairando. Extermínio completo e irremediável parecia lhe ameaçar a própria vida. Em meio às sombras que rapidamente se juntavam a seu redor, só brilhava a figura de Bahá'u'lláh como o potencial Salvador de uma Causa que rapidamente se aproximava de seu fim. Os sinais de perspicácia, de coragem e sagacidade que Ele mostrara em mais de uma ocasião sempre que Se levantara para ser o Campeão da Causa do Báb, pareciam qualificá-Lo para ressuscitar o destino de uma Fé agonizante, se Lhe fosse assegurada a vida e Sua permanência na Pérsia. Mas isso não haveria de ser. Uma catástrofe, sem precedentes na inteira história dessa Fé, precipitou uma perseguição mais feroz que qualquer uma até então ocorrida, e desta vez impeliu para seu vórtice a própria pessoa de Bahá'u'lláh. As ternas esperanças que os remanescentes seguidores do Báb ainda nutriam foram demolidas em meio à confusão que se seguiu. Pois Bahá'u'lláh, sua única esperança e o objetivo único de sua confiança, foi a tal ponto abatido pela severidade daquela turbulência que não mais se poderia acreditar ser possível uma recuperação. Após haver sido Ele despojado de todas as Suas possessões em Núr e Teerã, sendo denunciado como o instigador primaz de uma tentativa covarde contra a vida de Seu soberano, abandonado pelos parentes e desprezado por Seus antigos admiradores e amigos, mergulhado em uma masmorra tenebrosa e pestilenta e, afinal, com os membros de Sua família forçado a um desesperançoso exílio além dos confins de Sua terra natal, todas as esperanças que se haviam centralizado ao redor Dele como o possível Redentor de uma Fé aflita, pareciam por um momento se haverem esvaecido completamente.
Não é de se admirar que Násiri'd-Dín Sháh, sob cujos olhos e por cuja instigação esses golpes estavam sendo infligidos, já se orgulhava de ser o demolidor de uma Causa contra a qual ele tão consistentemente batalhara e que aparentemente ele pudera, enfim, esmagar. Não é de se admirar haver ele imaginado, enquanto sentava a refletir sobre as sucessivas etapas desse vasto e sangrento empreendimento que, pelo ato de exílio que suas mãos haviam assinado, estava tocando os sinos da morte daquela odiosa heresia que tanto aterrorizara os corações de seu povo. A Násiri'd-Dín Sháh parecia, naquele momento supremo, que o encanto daquele terror, que a maré que varrera seu país estava finalmente se virando e restituindo a seus conterrâneos a paz pela qual gemia. Agora que o Báb não mais existia; agora que os poderosos pilares que sustentavam Sua Causa foram esmagados em pó; agora que a massa de seus devotos, por toda a extensão de seu domínio, estava intimidada e exausta; agora que o próprio Bahá'u'lláh, a única esperança que restava para essa comunidade sem líder, já fora forçado ao exílio e de Sua espontânea vontade buscara refúgio nas proximidades da cidadela do fanatismo xiita, desvanecera-se para sempre o espectro que desde sua ascendência ao trono lhe perseguira. Nunca mais imaginava o Xá, haveria ele de saber daquele detestável Movimento que, se pudesse acreditar em seus melhores conselheiros, rapidamente se retirava para a penumbra da impotência e do olvido (3).
Até aos seguidores da Fé que sobreviveram às abominações amontoadas sobre sua Causa, até mesmo aquela pequena caravana que no auge do inverno caminhava através da neve das montanhas na fronteira do Iraque (4), poderia a Causa do Báb ter parecido por um momento haver falhado - bem se pode imaginar - na realização de seu propósito. As forças das trevas que a haviam cercado de todos os lados pareciam haver triunfado afinal, e extinguido a luz acesa por aquele Jovem Príncipe de Glória em Sua Terra.
Aos olhos de Násiri'd-Dín Sháh, em todo caso, o poder que por algum tempo parecia haver varrido para dentro de sua órbita todas as forças do reino havia cessado de contar. Malfadada desde seu próprio nascimento, a Fé fora finalmente forçada a render-se diante da violência dos golpes de espada que ele infligira. A Fé sofrera uma ruptura certamente bem merecida, livrado dessa maldição, que durante muitas noites lhe roubara o sono, pode ele agora com a atenção concentrada, aplicar-se à tarefa de salvar sua terra dos efeitos devastadores daquela imensa ilusão. Doravante era sua verdadeira missão, assim como ele a concebera, possibilitar tanto à Igreja como ao Estado consolidarem seus alicerces e reforçarem suas fileiras contra a intrusão de heresias similares que pudessem em um dia futuro envenenar a vida de seus conterrâneos.
Como era vão o que ele imaginava e vasta sua própria ilusão! A Causa que ele futilmente imaginara estar esmagada, ainda vivia, destinada a emergir do meio daquela convulsão tão grande, mais forte, mais pura e mais nobre do que nunca. A Causa que, à mente daquele insensato monarca, parecia estar se precipitando para a destruição, apenas passava pelas violentas provas de uma fase de transição que haveria de levá-la mais um passo adiante na vereda de seu alto destino. Desdobrava-se um novo capítulo em sua história, capítulo esse mais glorioso do que qualquer um que tivesse assinalado seu nascimento ou Sua aurora. A repressão que aquele monarca acreditara haver conseguido em selar seu destino foi apenas a etapa inicial em uma evolução destinada a florescer, na plenitude do tempo, em uma Revelação mais poderosa do que qualquer uma que o próprio Báb tivesse proclamado. A semente por Sua mão lançada, embora fosse por algum tempo sujeitada à fúria de uma tempestade de inigualável violência, e se bem que, mais tarde fosse transplantada para um solo estranho, haveria de continuar a se desenvolver e crescer, no devido tempo, em uma Árvore fadada a estender sua sombra sobre todas as raças e todos os povos da terra. Embora os discípulos do Báb fossem torturados e trucidados, e Seus companheiros humilhados e esmagados; ainda que Seus seguidores decrescessem em número; embora a voz da própria Fé fosse silenciada pela arma da violência; embora sua sorte chegasse a ponto de desespero; se bem que seus mais aptos defensores cometessem apostasia, a promessa, entretanto encaixada dentro da concha de Sua palavra, mão alguma conseguiria violar nem poder algum haveria de lhe impedir a germinação e crescimento.
Em verdade, já podiam ser discernidos, em meio às trevas que cercavam Bahá'u'lláh no Síyáh-Chál de Teerã (5), os primeiros vislumbres da Revelação nascente da qual o Báb se declarara o Arauto, e à aproximação e a certeza da qual Ele tão rapidamente se referira (6). A força oriunda da momentosa Revelação liberada pelo Báb, a qual em época posterior haveria de se desdobrar em toda a sua glória e rodear o globo, já pulsava nas veias de Bahá'u'lláh, enquanto Ele jazia em Sua cela, exposto à espada de Seu algoz. A voz queita que, na hora de amarga agonia anunciou ao Prisioneiro a Revelação da qual foi Ele escolhido para ser o Porta Voz, não podia ter alcançado certamente, os ouvidos do monarca que já preparava a celebração do extermínio da Fé da qual o campeão fora seu Cativo. O encarceramento o qual aquele que o causara acreditou haver estigmatizado de infâmia o belo nome de Bahá'u'lláh, e que ele considerava um prelúdio ao exílio para o Iraque ainda mais humilhante, foi na realidade a própria cena onde se testemunharam os primeiros impulsos daquele Movimento do qual Bahá'u'lláh viria a ser o Autor, Movimento esse que primeiro se tornaria conhecido na cidade de Bagdá e subseqüentemente, seria proclamado, da cidade-prisão de 'Akká, ao Xá, como também aos outros governantes e cabeças coroadas do mundo.
Pouco imaginava Násiri'd-Dín Sháh que pelo próprio ato de pronunciar contra Bahá'u'lláh a sentença de exílio, ele estava ajudando a desdobrar o irreprimível Plano de Deus e que ele mesmo era apenas instrumento na execução desse Desígnio. Pouco imaginava ele que, enquanto seu reinado se aproximava do fim, haveria de testemunhar uma revivificação das próprias forças que ele tão zelosamente tentara exterminar, uma revivificação que manifestaria tal vitalidade que ele, na hora do mais tenebroso desespero, jamais acreditou fosse possuída por essa Fé. Não só dentro dos confins de seu próprio domínio (7), não só por todos os territórios adjacentes do Iraque e da Rússia, mas até a Índia no Oriente (8) e até o Egito e a Turquia européia, no Ocidente, uma recrudescência da Fé, tal como ele nunca esperara, o despertou dos sonhos que tão credulamente acariciara. A Causa do Báb parecia se haver ressuscitado da morte. Apresentou-se sob uma forma infinitamente mais imponente do que qualquer outra sob a qual aparecera no passado. O novo ímpeto que, a despeito de seus cálculos, a personalidade de Bahá'u'lláh e acima de tudo a inerente força da Revelação por Ele personificada haviam prestado à Causa do Báb, foi tal como Násiri'd-Dín Sháh jamais imaginara. A rapidez com que uma Fé adormecida se revivificara e consolidara dentro de seu próprio território; sua expansão até Estados além de seus confins; as estupendas pretensões por Bahá'u'lláh quase em meio à cidadela onde se dignara residir; a declaração pública dessa pretensão na Turquia européia e Sua proclamação às cabeças coroadas da Terra em Epístolas desafiadoras, uma das quais o próprio Xá era destinado a receber; o entusiasmo que esse anúncio evocou nos corações de incontáveis seguidores; a transferência do centro de Sua Causa à Terra Santa; o gradativo relaxamento da severidade de Sua prisão que caracterizou os últimos dias de Sua vida; a anulação do interdito que o Sultão da Turquia impusera em Seu contato com visitantes e peregrinos, os quais de várias partes do Oriente afluíam à Sua prisão; o despertar de um espírito de investigação entre os pensamentos do Ocidente; a completa desintegração das forças que haviam tentado efetivar um cisma nas fileiras de Seus seguidores e a sorte que sobreviera a seu principal instigador; acima de tudo a sublimidade daqueles ensinamentos nos quais Suas obras publicadas abundavam e que estavam sendo lidos, disseminados e expostos por um sempre crescente número de adeptos no Turquestão Russo, no Iraque, na Índia, na Síria e até na Turquia Européia, estes figuravam entre os principais fatores que de um modo convincente revelaram aos olhos do Xá o caráter invencível de uma Fé que ele acreditava haver podido, ele mesmo, refrear e destruir. A futilidade de seus esforços, por mais que ele tentasse ocultar seus sentimentos, era demasiadamente clara. A Causa do Báb, o nascimento e as tribulações da qual ele próprio testemunhara e cujo progresso triunfante ele agora presenciava, surgira de suas cinzas, semelhante à fênix, e estava avançando pelo caminho que a levaria a realizações nem sonhadas (9).
O próprio Nabíl pouco imaginava que dentro de quarenta anos depois dele escrever sua narrativa, a Revelação de Bahá'u'lláh, flor e fruto de todas as passadas eras tivesse podido a tal ponto avançar no caminho que conduzia a seu reconhecimento e triunfo no mundo inteiro. Pouco imaginava ele que, em menos de quarenta anos após a morte de Bahá'u'lláh, Sua Causa rompendo os confins da Pérsia e do Oriente, tivesse penetrado até às mais longínquas regiões do globo e cercado toda a terra. Dificilmente haveria ele acreditado a predição, se lhe fosse dito que a Causa teria, dentro desse período, implantado seu estandarte no coração do continente americano, despertando atenção nas principais capitais da Europa, se expandindo até os confins sulinos da África e estabelecido seus postos avançados até na Australásia. Dificilmente sua imaginação, se bem que inflamada por uma convicção quanto ao destino de sua Fé, o teria levado a tal ponto que ele pudesse conceber em sua mente o Túmulo-Santuário do Báb - o destino final de cujos restos mortais ele confessa ignorar entesourado no coração do Carmelo, um lugar de peregrinação e um farol a iluminar numerosos visitantes de todos os recantos da terra. Dificilmente poderia ele ter imaginado que a humilde morada de Bahá'u'lláh - que se perdia em meio aos tortuosos becos da velha Bagdá algum dia, em conseqüência das intrigas de um inimigo infatigável, viesse a exigir a atenção dos representantes reunidos das principais potências da Europa e tornar-se objeto de suas sérias deliberações. Pouco imaginava ele - não obstante todo o louvor que em sua narrativa lhe prodigaliza - que procederia do Maior Ramo (10), um poder que dentro de um curto período despertasse os Estados do norte do continente americano para receberem a glória da Revelação que Bahá'u'lláh lhe legara. Pouco imaginava ele que as dinastias daqueles monarcas as evidências de cuja tirania ele tão vividamente relata em sua narrativa fossem cambalear e cair, sofrendo a mesma sorte que seus representantes tão desesperadamente se haviam esforçado por infligir aos oponentes que eles tanto temiam. Pouco imaginava ele que toda a hierarquia eclesiástica de seu país, arqui-instigadora e o pronto instrumento das abominações amontoadas sobre sua Fé, fosse tão rápida e facilmente derrubada pelas próprias forças que tentara dominar. Nunca haveria ele acreditado que as mais altas instituições do Islã sunita - o sultanato e o califado (11), aqueles opressores gêmeos da Fé de Bahá'u'lláh - fossem derrubados tão impiedosamente pelas próprias mãos dos professores aderentes da Fé do Islã. Pouco imaginava ele que, lado a lado com a constante expansão da Causa de Bahá'u'lláh, as forças de consolidação e administração interna a tal ponto pregredissem que apresentassem ao mundo o espetáculo único de uma Comunidade de povos, mundial em suas ramificações, unida em seu propósito, coordenada em seus esforços e inflamada por um zelo e um entusiasmo que as maiores adversidades não poderiam extinguir.
Quem sabe, entretanto, quais realizações maiores do que qualquer uma testemunhada no passado ou no presente não esperam ainda aqueles a cujas mãos foi confiada tão preciosa herança? Quem sabe se não vai emergir do caos que agita a face da sociedade moderna e mais cedo do que pensamos, a Ordem Mundial de Bahá'u'lláh, cujo mero esboço se discerne apenas ligeiramente entre as comunidades espalhadas pelo mundo inteiro portadoras de Seu nome? Pois, por grande e maravilhosas que tenham sido as realizações do passado, a glória da idade áurea da Causa, cuja promessa se encaixa dentro da concha das palavras imortais de Bahá'u'lláh, ainda está para ser revelada. Por violenta que pareça a investida das forças das trevas que possam ainda afligir esta Causa, por mais desesperada e prolongada que seja essa luta e por severas que sejam as desilusões que ela ainda tenha de sofrer, a ascendência que esta Fé no fim haverá de conseguir será tal como nenhuma outra jamais, em toda a sua história, atingiu. A fusão das comunidades do Oriente e Ocidente em uma Fraternidade mundial - aquela da qual têm cantado os poetas e os sonhadores, a promessa da qual se entesoura no próprio âmago da Revelação concebida por Bahá'u'lláh; o reconhecimento de Sua lei como o laço indissolúvel que une os povos e nações da terra; e a proclamação do reinado da Paz Maior - são apenas poucos entre os capítulos da história gloriosa que a consumação da Fé de Bahá'u'lláh haverá de desdobrar.
Quem sabe se triunfos jamais excedidos em esplendor não esperam a multidão dos dedicados seguidores de Bahá'u'lláh? De certo estamos próximos demais da estrutura colossal que Sua mão ergueu, para podermos, na presente etapa da evolução de Sua Revelação, pretender formar um conceito sequer da plena medida de sua prometida glória. Sua história passada, maculada com o sangue de incontáveis mártires, bem pode em nós inspirar o pensamento de que - nada importando o que sobrevenha ainda a esta Causa, por temíveis que sejam as forças que ainda a possam atacar, por numerosos que sejam os reveses que inevitavelmente haverá de sofrer sua marcha para a frente, jamais será detida e ela continuará a avançar até que a última promessa, entesourada dentro das palavras de Bahá'u'lláh, haja sido completamente cumprida.
APÊNDICE
Lista das Obras Mais Conhecidas do Báb
1. O Bayán Persa.
2. O Bayán Árabe.
3. O Qayyúmu'l-Asmá.
4. O Sahífatu'l-Haramayn.
5. O Dalá'il-i-Sab'ih.
6. Comentário sobre a Sura de Kawthar.
7. Comentário sobre a Sura de Va'l-'Asr.
8. O Kitáb-i-Asmá'.
9. Sahífiy-i-Ja'faríyyih.
10. Sahífiy-i-Makhdhúmíyyih.
11. Zíyárat-i-Sháh-'Abdu'l-'Azím.
12. Kitáb-i-Panj-Sha'n.
13. Sahífiy-i-Radavíyyih.
14. Risáliy-i-'Adlíyyih.
15. Risáliy-i-Fighíyyih.
16. Risáliy-i-Dhahabíyyih.
17. Kitábu'r-Rúh.
18. Súriy-i-Tawhíd.
19. Lawh-i-Hurúfát.
20. Tafsír-i-Nubuvvat-i-Khássih.
21. Risáliy-i-Furú-i-'Adlíyyih.
22. Khasá'il-i-Sab'ih.
23. Epístolas à Muhammad Sháh e a Hájí Mirza Áqásí.
N.B. O Báb mesmo assevera numa das passagens do Bayán Persa que Seus escritos compreendem nada menos que 500.000 versículos.
Obras Consultadas Pelo Tradutor
1. Lord Curzon "Persia and the Persian Question" (2o vol.)
(Longmans, Green & Co., London 1892).
2. A. L. M. Nicolas "Essai sur le Shaykhisme I"
(Librairie Paul Geuthner, Rue Mazarine, Paris 1910).
3. A. L. M. Nicolas "Essai sur le Shaykhisme II"
(Librairie Paul Geuthner, Rue Mazarine, Paris 1914).
4. A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb"
(Librairie Critique, Rue Notre-Dame de Lorette, Paris 1908).
5. Comte de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale"
(Les Editions G. Grés et Cie., Paris, Rue de Sèvres, 1928)
6. Lady Sheil "Glimpses of Life and Manners in Persia"
(John Murray, Albemarie Street, London 1856)
7. "The Tárikh-i-Jadíd" por Mirza Husayn de Hamadán, traduzido do persa para o inglês
por E. G. Browne.
(The University Press Cambridge, 1893)
8. M. Clément Huart "La Religion de Báb"
(Ernst Leroux, Rue Bonaparte, Paris 1889)
9. "A Traveller's Narrative" traduzido do persa para o inglês por E. G. Browne.
(The University Press Cambridge 1891)
10. "Le Bayán Persan", traduzido do persa para o francês por A. L. M. Nicolas (4 vols.)
(Livrairie Paul Geuthner, Rue Mazarine, Paris 1911-14).
11. Journal of the Royal Asiatic Society, 1889, artigos 6, 12.
12. Journal of the Royal Asiatic Society, 1892, artigos 7, 9, 13.
13. "Le Livre des Sept Preuves", traduzido ao francês por A. L. M. Nicolas.
(J. Maisonneuve, Rue des Mézières, Paris 1902).
14. E. G. Browne "A Year amongst the Persians"
(Messers. A. and C, Black, Ltd., London 1893).
15. E. G. Browne "A Literary History of Persia" (4 vols.)
(The University Press Cambridge, 1924).
16. Lieutenant-Colonel P. M. Sykes "A History of Persia" (2 vols)
(Macmillan & Co. London 1915).
17. Clements R. Markham "A General Sketch of the History Persia"
(Longmans, Green and Co., London 1874).
18. R. G. Watson "History of Persia".
19. Journal Asiatique, 1866, sixième série, tomes 7, 8.
(" Báb et les Bábís", por Mirza Kázím Big).
20. M. J. Balteau "Le Bábisme"
(Lido por M. J. Balteau, membro titular, na sessão de 22 de maio de 1896 na
Academia Nacional de Reims. Imprensa da Academia, Reims; N. Monce, Diretor;
24 Rue Pluche, 1987).
21. Gabriel Sacy "Du Regne de Dieu et de l'Agneau connu sous le nom de Bábisme"
12 de junho de 1902.
22. J. E. Esslemont, "Bahá'u'lláh and the New Era"
(The Bahá'í Publishing Committee, New York 1927.)
23. Muhammad Mustafá "Risáliy-i-Amríyyih"
(Imprensa Sa'ádih, Cairo, Egito).
24. E. G. Browne "Materials for the Study of The Bábí Religion"
(The University Press, Cambridge, 1918).
25. Mirza Abu'l-Fadl, manuscritos e notas (não publicados).
26. Mirza Abu'l-Fadl, "The Kashfu'l-Ghitá"
('Ishqábád, Rússia).
27. M. H. Phelps "Life and Teachings of Abbás Effendi"
(G. P. Putnam's Sons, London, 1912).
28. T. K. Cheyne "The Reconciliation of Races and Religions"
(Adam and Charles Black, 1914).
29. Sir Francis Younghusband "The Gleam"
(John Murray, Albemarle Street, London, 1923).
30. Samandar: manuscrito (não publicado).
31. E. G. Browne "The Persian Revolution".
(The University Press, Cambridge, 1910).
32. The Christian Commonwealth, 22 de Janeiro de 1913.
33. G. K. Narimán "Persia and Parsis", Parte I
(The Iran League, Bombay 1925)
34. Valentine Chirol "The Middle Eastern Question".
35. J. Estlin Carpenter "Comparative Religion".
36. Série Comemorativa E. J. W. Gibb, Vol. 15.
(Luzac & Co. London 1910).
37. "The Násikhu't-Tavárikh" (volume Qájáríyyih), por Mirza Taqí
Mustawfí, Lisánu'l-Mulkh, conhecido como Sipihr.
(Edição litográfica, Teerã).
38. Hájí Mu'ínu's-Saltanih "History" (manuscrito).
39. Mirza Abu'l-Fadl "Kitábu'l-Fará'id"
(Edição feita no Cairo).
Obras de Bahá'u'lláh:
"Kitáb-i-Íqán" (Edição feita no Cairo, 1900).
"Epistle to the Son of the Wolf" (Edição do Cairo, 1920).
"Ishráqát" (manuscrito).
"Tablets to the Kings" (manuscrito).
Obras do Báb:
"Sahífatu'l-Haranayn" (manuscrito).
"Qayyúmu'l-Asmá" (manuscrito).
"Persian Bayán" (manuscrito).
"Arabic Bayán" (manuscrito).
"Dalá'il-i-Sab'ih" (manuscrito).
Obras de 'Abdu'l-Bahá:
"Some Answered Questions" (Bahá'í Publishing Society, Chicago 1918).
"Memorials of the Faithful" (edição feita em Haifa 1924).
N.B. Para uma bibliografia geral mais completa, recorrer A:
1. Bahá'í World, vol. 111, parte 3.
2. A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", pp. 22-53.
3. E. G. Browne "Materials for the Study of The Bábí Religion",
4. Journal of the Royal Asiatic Society 1892, pp. 433-499, 637-710.
5. "A Traveller's Narrative", pp. 173-211.
DIVISÕES ADMINISTRATIVAS DA PÉRSIA NO SÉCULO XIX
"Não existe um princípio fixo ou permanente nas subdivisões administrativas da Pérsia. Sua separação ou combinação está regulada pela habilidade ou a reputação de seus governadores ou por influência que lhes pode ser concedida pela confiança ou os temores do soberano... Deve-se notar também que nenhum princípio, seja geográfico, etnográfico ou político, parece ser determinado ao se adotar as fronteiras ou o tamanho das diversas divisões, cujo tamanho varia desde uma província maior que toda a Inglaterra a um povoado pequeno e decadente com seus arredores".
PROVÍNCIAS MAIORES OU DISTRITOS
Divisão Administrativa Capital
Adhirbáyján Tabríz
Khurásán e Sístán Mashhad
Teerã e Dependências Teerã
Fárs Shíráz
Isfáhán e Dependências Isfáhán
Kirmán e Belúchistán persa Kirmán
Arabistán Shushtar
Gílán e Tálish Rasht
Mázindarán Ámul
Yazd e Dependências Yazd
Litoral do Golfo Persa e Ilhas Búshihr
(De Lord Curzon "Persia and the Persian Question", Vol. 1, p. 437)
EMBAIXADORES BRITÂNICOS E RUSSOS PERANTE A CORTE PERSA
(1814-1855)
Sr. Morier e Sr. Ellis Novembro 1814
Sir Henry Willock Julho 1815
Sir John Macdonald Setembro 1826
Sir John Campbell Junho 1830
Sir Henry Ellis Novembro 1835
Sir John McNeill Agosto 1836
Sir Justin Sheil Agosto 1842
Coronel Farrant (interino) Outubro 1847
Sir Justin Sheil (reassumiu após licença) Novembro 1849
Sr. Taylor Thomson (interino) Fevereiro 1853
Hon. A. C. Murray Abril 1855
General Yermoloff Agosto 1817
M. Mazarowitch Abril 1819
M. Ambourger (interino) Janeiro 1823
M. Mazarowitch (reassumiu após licença) Julho 1824
M. Ambourger Setembro 1825
Príncipe Menschikoff Julho 1826
M. Grebayadoff 1828
Príncipe Dolgorouki 1831
Conde Simonich Fevereiro 1833
Conde Meden 1839
Príncipe Dolgorouki Janeiro 1846
M. Anitchkoff Setembro 1854
(Tirado de Clements R. Markham C. B., F. R. S. "A General Sketch of the History of Persia", Apêndice B. Longmans, Green and Co., London, 1874).
LISTA DE MESES DO CALENDÁRIO MAOMETANO
Muharram 30 dias
Safar 29 dias
Rabí'u'l-Avval 30 dias
Rabí'u'th-Thání 29 dias
Jamádiyu'l-Avval 30 dias
Jamádíy'th-Thání 29 dias
Rajab 30 dias
Shá'bán 29 dias
Ramadán 30 dias
Shavvál 29 dias
Dhi'l-Qa'dih 30 dias
Dhi'l-Hijjih 29-30 dias
Muharram 1, 1 D.H. Julho 16, 622 A.D. Sexta-feira
Muharram 1, 1260 D.H. Janeiro 22, 1844 A.D. Segunda-feira
Muharram 1, 1261 D.H. Janeiro 10, 1845 A.D. Sexta-feira
Muharram 1, 1262 D.H. Dezembro 30, 1845 A.D. Terça-feira
Muharram 1, 1263 D.H. Dezembro 20, 1846 A.D. Domingo
Muharram 1, 1264 D.H. Dezembro 9, 1847 A.D. Quinta-feira
Muharram 1, 1265 D.H. Novembro 27, 1848 A.D. Segunda-feira
Muharram 1, 1266 D.H. Novembro 17, 1849 A.D. Sábado
Muharram 1, 1267 D.H. Novembro 6, 1850 A.D. Quarta-feira
Muharram 1, 1268 D.H. Outubro 27, 1851 A.D. Segunda-feira
Muharram 1, 1269 D.H. Outubro 15, 1852 A.D. Sexta-feira
Muharram 1, 1270 D.H. Outubro 4, 1853 A.D. Terça-feira
(Tirado de Wüstenfeld-Mahler'sche Vergleichungs-Tabellen", Leipzig, 1926).
QUADRO DE REPRESENTAÇÃO FONÉTICA
á
kh
s
k
b
d
d
g
p
dh
t
l
t
r
z
m
th
z
'
n
j
zh
gh
v
ch
s
f
h
h
sh
q
y
th pronuncia-se como s
dh pronuncia-se como z
zh pronuncia-se como j (francês)
s pronuncia-se como s
d pronuncia-se como z
t pronuncia-se como t
z pronuncia-se como z
a pronuncia-se como "a" em acidente
á pronuncia-se como ah
i pronuncia-se como "e" em cesta
í pronuncia-se como i
u pronuncia-se como o
ú pronuncia-se como u
aw pronuncia-se como au
O "i" posto no final de um nome de uma cidade significa 'pertence a'; esta forma a palavra Shírazí quer dizer "nativo de Shíráz".
N.B. A escritura das palavras orientais e nomes próprios utilizados neste livro foram feitos de acordo com o sistema fonético estabelecido em um dos Congressos Internacionais de Estudos Orientais.
GLOSSÁRIO
'Abá: Capa ou manto.
Adhán: Chamada muçulmana à oração.
Akbar: "O Grande".
Amír: "Senhor", "príncipe", "comandante", "governador".
Aqá: "Mestre". Título dado por Bahá'u'lláh à 'Abdu'l-Bahá.
A'zam: "O Maior".
Báb: "Porta". Título assumido por Mirza 'Alí-Muhammad depois da declaração de Sua Missão em Shiráz em maio de 1844. A.D.
Bahá: "Glória", "Esplendor", "Luz". Título com que se designa Bahá'u'lláh (Mirza Husayn-Alí).
Baqíyyatu'lláh: "Remanescente de Deus". Título que se aplica tanto ao Báb como à Bahá'u'lláh.
Bayán: "Expressão", "Explicação". Título dado pelo Báb a Sua Revelação, em particular a Seus Livros.
Big: Título Honorário; inferior ao título de Khán.
Caravansarai: Uma pousada para caravanas.
D H: Depois da Hégira. Data da migração de Maomé de Meca a Medina, base da cronologia Maometana.
Dárúghih: "Contestável Maior".
Dawlih: "Estado", "Governo".
Farmán: "Ordem", "Mandato", "Decreto Real".
Farrásh: "Lacaio", "lictor", "assistente".
Farrásh-Báshí: O principal farrásh.
Farsang: Unidade de medida. Seu comprimento é diferente nas diversas partes do país de acordo com a natureza do terreno; a interpretação local do termo é a distância que uma mula com carga pode caminhar em uma hora, o que varia de três a quatro milhas. É um arabismo do persa antigo "parsang" e se supõe que deriva de pedaços de pedra (sang) postos à orla do caminho.
Hájí: Um maometano que tenha feito a peregrinação à Meca.
Howdah: Uma liteira levada por um cavalo, camelo, mula ou elefante para viagens.
Íl: "Clã".
Imán ou Imame: Título de doze sucessores Shí'ah de Maomé. Também se aplica aos dirigentes religiosos muçulmanos.
Imán-Jum'ih: O imame principal de uma cidade; chefe dos mullás.
Imán-Zádih: Descendente de um Imame, ou seu santuário.
Jubbíh: Um sobretudo.
Ka'bih: Antigo santuário em Meca. Atualmente se reconhece como o santuário mais sagrado do Islã.
Kad-Khudá: Chefe de um município ou paróquia em uma cidade.
Kalantar: "Alacaide".
Kalím: "Desertor".
Karbilá'í: Um maometano que tenha feito a peregrinação à Karbilá.
Khán: "Príncipe", "senhor", "chefe", "nobre".
Kuláh: Gorro persa de couro de cordeiro que é utilizado pelos empregados do governo e os civis.
Madrish: Colégio religioso.
Man-Yuzhiruhu'lláh: "Aquele a Quem Deus Manifesta". Título que o Báb deu ao Prometido.
Mashhadí: Um maometano que tenha feito peregrinação à Mashhád.
Masjid: Mesquita, templo, lugar de adoração.
Maydan: Uma subdivisão de um farsang. Uma quadra ou lugar aberto.
Mihdí: Título da Manifestação esperada pelo Islã.
Mihráb: Lugar principal de uma mesquita onde ora o imame com seu rosto voltado para Meca.
Mi'ráj: "Subida"; usa-se em referência à ascensão de Maomé ao céu.
Mirza: Contração de Amír-Zádih, que significa filho de Amír. Quando se coloca depois de um nome significa príncipe; se à frente, simplesmente senhor.
Mu'adhdhin: Aquele que proclama o adhán, a chamada muçulmana à oração. Muezim.
Mujtahid: Doutor maometano em leis. A maioria dos mujtahids da Pérsia tem recebido seus diplomas dos mais eminentes juristas de Karbilá e Najáf.
Mullá: Clérigo muçulmano.
Mustagháth: "Aquele a quem o invoca", cujo valor numérico tem sido assinalado pelo Báb como o limite de tempo fixado para o advento da prometida Manifestação.
Nabil: "Erudito", "nobre".
Naw-Rúz: "Novo Dia". Nome que se dá ao Ano Novo Bahá'í; de acordo com o calendário Persa, o dia em que o sol entra em Áries.
Nuqtih: "Ponto".
Pahlaván: "Atleta", "campeão". Termo que se aplica aos homens valentes e musculosos.
Qádí: Juiz: crivil, criminal e eclesiástico.
Qá'im: "Aquele que se levantará". Título que se designa o prometido do Islã.
Qalyán: Um cachimbo que se usa para fumar através da água.
Qiblih: A direção para a qual se voltam as pessoas quando oram; Meca, em especial é o Qiblih de todos os Maometanos.
Qurbán: "Sacrifício".
Sáhibu'z-Zamán: "Senhor da Era". Um dos títulos do Qá'im prometido.
Shahíd: "Mártir". O plural de mártir é "Shuhadá".
Shaykhu'l-Islán: Chefe de uma corte religiosa, que o Xá designa em cada grande cidade.
Siyyid: Descendente do Profeta Maomé.
Sura: Nome dos capítulos do Alcorão.
Tumán: Soma de dinheiro equivalente a um dólar.
Valí-Ahd: Herdeiro ao trono.
Zádih: "Filho".
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(1) "Ninguém se sentirá surpreendido ao saber", escreve Clement Huart, "que a nova seita se difundiu mais rapidamente em Khurásán que em qualquer outra parte. Khurásán tem sido singularmente afortunada pois sempre em oferecido um terreno muito propício para novas idéias. É desta província que saíram muitas revoluções que produziram mudanças fundamentais no Oriente Muçulmano. Basta recordar que foi em Khurásán que se originou a idéia da renovação persa depois da conquista dos árabes. Foi também ali que se organizou o exército que, sob as ordens de Abú-Muslim, colocou os Abasidas sobre o trono dos Califas ao derrotar a aristocracia de Meca que o havia ocupado desde o advento dos Umayyad". ("La Religion do Báb", pp. 18-19).
(2) Teerã.
(3) "Acredita-se", escreve o tenente-coronel P.M. Sukes, "que o décimo-segundo Imame nunca morreu, porém no ano 260 D.H. (1873 A.D.) desapareceu ocultando-se milagrosamente e que reaparecerá no Dia do Juízo na mesquita de Gawhar-Shád em Mashhad, para ser aclamado o Mihdí, o "Guia", e para reinar com justiça a terra." (A History of Pérsia", vol. 2, p. 45).
(4) Segundo Muhammad Mustafá (p. 108), Táhirih chegou a Karbilá no ano de 1263 D.H., visitou Kúfih e o distrito circunvizinho e estava ocupada na difusão dos ensinamentos do Báb. Ela compartilhou os escritos de Seu Mestre com as pessoas que conheceu, entre os que se encontrava Seu comentário sobre a Sura de Kawthar.
(5) "Foi entre a sua própria família que ela ouviu falar, pela primeira vez, da pregação do Báb em Shíráz e aprendeu o significado de suas doutrinas. Este conhecimento ainda que incompleto e imperfeito, lhe agradou plenamente; começou a ter correspondência com o Báb e logo aceitou todas as suas idéias. Não se conformou com uma simpatia passiva, mas, confessou abertamente a fé de Seu Mestre. Não só denunciou a poligamia como também o uso do véu e mostrou seu rosto descoberto em público com grande assombro e escândalo de sua família e de todo muçulmano sincero, porém com muitos aplausos de muitos concidadãos os quais compartilhavam seu entusiasmo e cujo número crescia como conseqüência de sua pregação. Seu tio, o doutor, seu pai um jurista e seu marido trataram por todos os meios que adotasse pelo menos uma conduta mais discreta e de maior reserva. Ela os repreendeu com argumentos inspirados por uma fé que não era capaz de plácida resignação". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", pp. 137-138).
(6) Segundo Samandar (manuscrito, p. 9), a razão principal da agitação da população de Karbilá e que os induziu a acusar Táhirih perante o governador de Bagdá foi sua audaz ação de não observar o aniversário do martírio de Husayn que se comemorava nos primeiros dias do mês de Muharram na casa do extinto Siyyid Kázim em Karbilá e celebrar em seu lugar o dia do nascimento do Báb, que caiu no primeiro dia do mesmo mês. Diz-se que pediu a sua irmã e parentes que largassem o luto e em seu lugar usassem vestidos alegres, desafiando abertamente os costumes e tradições do povo para essa ocasião.
(7) Segundo Muhammad Mustafá (pp. 108-9), Táhirih ia acompanhada pelos seguintes discípulos e companheiros quando chegou a Bagdá: Mullá Ibráhím-i-Mahallatí, Shaykh Salih-i-Karímí, Siyyid Ahmad-i-Yazdí (o pai de Siyyid Husayn, o amanuense do Báb). Siyyid Muhammad-i-Báyigání, Shaykh Sultáni-Karbilá'í, a mãe de Mullá Husayn e sua filha, a esposa de Mirza Hádíy-i-Nahrí e sua mãe. Segundo o "Kashfu'l-Ghitá" (p. 94) a mãe e irmã de Mullá Husayn encontravam-se entre as senhoras e discípulos que acompanharam Táhirih em sua viagem de Karbilá à Bagdá. Ao chegarem alojaram-se na casa de Shaykh Muhammad-ibn-i-Shiblu'l-'Araqí, depois do qual foram transladados, por ordem do governador de Bagdá, à casa de Mutfí, Siyyid Mahmúd-i-Álúsí, o renomado autor do célebre comentário intitulado "Rúhú'l-Ma'áni" à espera da chegada de novas instruções do Sultão em Constantinopla. O "Kashfu'l-Ghitá" acrescenta ainda (p. 96) que o "Rúhu'l-Ma'ání" relata haver encontrado referências a conversa que o Muftíuls teve com Táhirih a quem ele dirigiu, segundo se diz as seguintes palavras: "O Qurratu'l-Ayn! Juro por Deus que compartilho vossa crença. No entanto, sinto apreensão pelos sabres da família de "Uthmán". "Ela foi diretamente à casa de Muftí perante o qual defendeu sua crença e sua conduta com grande habilidade. A questão era se devia deixar de seguir com seus ensinamentos. Foi primeiro submetida ao Páshá de Bagdá e depois ao governo central, como conseqüência foi ordenada a sair do território turco. ("A Traveller's Narrative", Nota Q., pp. 214-215).
(8) Segundo Muhammad Mustafá (p. 111), as seguintes pessoas acompanharam a Táhirih desde Khániqín (na fronteira da Pérsia) até Kirmánsháh: Shaykh Sálih-i-Karímí, Shaykh Muhammad-i-Shibil, Shaykh Sultán-i-Karbila'í, Siyyid Ahmad-i-Yazdí, Siyyid Muhammad-i-Báyigáni, Siyyid Mushin-i-Kázimí, Mullá Ibráhím-i-Mahallátí e mais ou menos trinta crentes árabes. Permaneceram três dias na aldeia de Karand, onde Táhirih proclamou intrepidamente os ensinamentos do Báb e obteve muito êxito em despertar o interesse de toda a classe de pessoas na nova revelação. Mil e duzentas pessoas se ofereceram como voluntárias, segundo é dito, para segui-la e fazer o que ele lhes pedisse.
(9) Segundo Muhammad Mustafá (p. 112), foi recebida com entusiasmo quando chegou a Kirmánsháh. Príncipes, 'ulemás e oficiais do governo se apressaram em ir visitá-la e se mostraram profundamente impressionados por sua eloqüência, sua intrepidez, sua vasta erudição e a força de seu caráter. O comentário sobre a Sura de Kawthar que havia sido revelado pelo Báb foi lido em público e traduzido. A esposa do Amír, o governador de Kirmánsháh se achava entre as senhoras que conheceram a Táhirih e a ouviram expor os ensinamentos sagrados. O próprio Amír junto com sua família aceitaram a verdade da Causa e deram testemunho de sua admiração e afeto por Táhirih. Segundo Muhammad Mustafá (p. 116), Táhirih permaneceu dois dias na aldeia de Sahnih em seu caminho à Hamadán, onde foi homenageada com uma recepção não menos entusiasta que a que foi feita na aldeia de Karand. Os habitantes da aldeia imploraram que se lhes permitisse reunir os membros da sua comunidade e que se reunissem em conjunto com seus seguidores para a difusão e promoção da Causa. No entanto, ela lhes aconselhou que permanecessem, louvou e bendisse seus esforços e seguiu viagem a Hamadán.
(10) Segundo "Memorials of the Faithful" (p. 275), Táhirih permaneceu dois meses em Hamadán.
(11) Segundo Muhammad Mustafá (p. 117), entre os que haviam sido enviados desde Qazvín se encontravam os irmãos de Táhirih.
(12) Veja glossário.
(13) "Como podia uma mulher, na Pérsia, onde a mulher é considerada uma criatura tão débil e sobretudo em uma cidade como Qazvín, onde o clero possuía uma influência tão grande, onde os ulemás atraíam, por seu número e importância toda a atenção do governo e do povo, - como era possível que ali precisamente sob circunstâncias tão desfavoráveis, pudesse uma mulher organizar um grupo tão forte de hereges? Ali ocorre uma questão que desconcerta inclusive ao historiador persa Sipir, já que tal acontecimento não tinha precedentes!" (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 474).
(14) 13 de agosto - 12 de setembro de 1847 A. D.
(15) Veja glossário.
(16) Veja glossário.
(17) Veja glossário.
(18) Alcorão, 9:33.
(19) Segundo o "Kashfu'l-Ghitá" (p. 110), Mullá Já'far-i-Va'iz-i-Qazvín declarou que Mullá Husayn conheceu a Táhirih em Qazvín na casa de Áqá Hádí que provavelmente não é outro senão Muhammad Hádíy-i-Farhádí que foi encarregado por Bahá'u'lláh para levar Táhirih à Teerã. Diz-se que o encontro foi feito antes do assassinato de Mullá Táqí.
(20) 'Abdu'l-Bahá relata em "Memorials of the Faithful" (p. 306) as circunstâncias de uma visita feita por Vahíd a Táhirih enquanto esta se encontrava em casa de Bahá'u'lláh em Teerã. "Táhirih", escreve ele, "escutava detrás de uma cortina as palavras de Vahíd que falava com fervor e eloqüência sobre os sinais e versículos que atestavam o advento da nova Manifestação. Eu era então uma criança e estava sentado sobre seu colo enquanto ela seguia a exposição dos extraordinários testemunhos que fluíam incessantemente dos lábios deste homem erudito. Recordo-me muito bem, como ela, de súbito, o interrompeu e elevando sua voz declarou com veemência: 'Oh Yahyá! Deixe que as ações, e não as palavras , sejam um testemunho de vossa fé, se sois um homem de verdadeira erudição. Deixe as vãs repetições de tradições do passado por quanto é chegado o dia de serviços e ações decididas. Agora é o momento de mostrar os verdadeiros sinais de Deus, de rasgar os véus da vã fantasia, de promover a Palavra de Deus e de sacrificarmo-nos em Seu caminho. Deixe que as ações, não as palavras, sejam nosso adorno.' "
(21) Veja glossário.
(22) "Jardim do Paraíso".
(1) "O Senhor da Época!" Um dos títulos do Qá'im prometido.
(2) Alusão a seu próprio martírio.
(13) Veja glossário.
(4) Alusão a Quddús.
(5) Segundo o "Kashfu'l-Ghitá", Quddús e Táhirih haviam adotado uma decisão segundo a qual esta proclamaria publicamente o caráter independente da revelação do Báb e faria ênfases sobre as anulações das leis e regulamentos da Dispensação anterior. Por outro lado, Quddús devia opor-se a sua declaração e rechaçar com energia seus pontos de vista. Este acordo, eles fizeram, com o objetivo de mitigar os efeitos de uma proclamação tão desafiante e de tão vastas conseqüências e para prevenir os perigos que uma inovação tão surpreendente produziria, sem dúvida alguma (p. 212). Parece que Bahá'u'lláh adotou uma atitude neutra neste acordo pois quando ele terminasse Ele seria o promotor e a influência que controlava e dirigia esse episódio memorável em cada etapa de seu desenvolvimento.
(6) Porém o efeito foi assombroso. A assembléia parecia haver sido atingida por um raio. Alguns ocultavam seus rostos com as mãos, outros se prosternaram, enquanto uns outros cobriram suas cabeças com suas vestimentas para não ver o rosto de sua Alteza, A Pura! Se era um pecado grave olhar o rosto de uma mulher desconhecida que passasse, que crime não seria permitir que a vista pousasse sobre uma que era tão santa! A reunião terminou no meio de um tumulto indescritível. Os insultos choveram sobre aquela que consideravam haver se portado de forma indecente ao proceder desse jeito e aparecer com seu rosto descoberto. Alguns asseguravam que havia perdido a razão, outros que era sem-vergonha e alguns, muitos poucos, saíram em sua defesa". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 283-284).
(7) Filha de Maomé e esposa do Imame 'Alí.
(8) Veja Vol. I, p. 64.
(9) "Foi esta ação audaz de Qurratu'l-Ayn que estremeceu os cimentos de uma crença literal na doutrina islâmica entre os persas. Pode-se afirmar que os primeiros frutos dos ensinamentos de Qurratu'-l-Ayn não era outro senão o Heróico Quddús e que a eloqüente instrutora devia sua perspicácia, com certeza, a Bahá'u'lláh. Está claro que a suposição de que seu melhor amigo pudesse censurá-la é só uma deliciosa ironia". (Dr. T. K. Cheyne "The Reconciliation of Races and Religions" pp. 103-104).
(10) "Sugere-se que a verdadeira causa da convocação desta assembléia foi de ansiedade pelo Báb e o desejo de conduzi-lo a um lugar seguro. No entanto, o ponto de vista mais aceito - que o tema do concílio foi a relação entre os Bábís e a lei islâmica - é também mais provável". (Idem, pág. 80). "O objetivo da conferência era corrigir um mal entendido que se achava muito difundido. Muitos pensavam que o novo dirigente viria a cumprir, em um sentido mais literal, com a lei islâmica. Eles compreendiam, por certo, que Maomé tinha por objetivo trazer um reino universal de paz e justiça, porém pensavam que isto se devia levar a cabo caminhando por rios de sangue e com a ajuda dos juízes divinos. O Báb, por outro lado, movia-se,ainda que nem sempre em forma consistente, junto com alguns de seus discípulos, na direção da persuasão moral; sua única arma era "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus". Ao surgir o Qá'im todas as coisas seriam renovadas. Porém o Qá'im estava a ponto de surgir e a única coisa que restava era se preparar para a sua vinda. Já não haveria mais distinções entre raças superiores e inferiores ou entre homens e mulheres. Já não seria o véu comprido e envolvente o emblema da inferioridade feminina. A mulher talentosa que se encontra entre nós tinha sua própria e característica solução ao problema... Diz-se em uma tradição que Qurratu'l-Ayn mesma asssistiu à reunião com véu posto. Se assim foi, não perdeu tempo em desfazer-se dele e proclamar (segundo dizem) com uma fervorosa exclamação. "Eu sou o toque do clarim, eu sou a chamada da trombeta", i.e., "como Gabriel, quero despertar almas adormecidas". Diz-se também, que este curto discurso da intrépida mulher foi seguido pela recitação, por parte de Bahá'u'lláh, da Sura da Ressurreição (75). Recitações desta natureza freqüentemente tem um efeito surpreendente. O significado íntimo disto era que a humanidade estava a ponto de entrar em novo ciclo cósmico, para o qual seriam indispensáveis um novo conjunto de leis e costumes". (Dr. T. K. Cheyne, "The Reconciliation of Races and Religions", pp. 101-103).
(11) Veja glossário.
(1) 3 de julho - 1o de agosto de 1848 A. D.
(2) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 18) o Báb permaneceu três meses na fortaleza de Chihríq antes de ser levado à Tabríz para ser examinado.
(3) "O Báb foi submetido a um confinamento mais limitado e rigoroso em Chihríq do que havia sido submetido em Máh-Kú. É por isto que costumava chamar àquela "A Fonte dos Castigos" (Jabal-i-Shadíd, sendo o valor numérico da palavra Shadíd - 318 - igual a da palavra Chihríq) e a esta última "A Montanha Aberta" (Jabal-i-Básit) ("A Traveller's Narrative", Nota L, p. 276).
(4) "Ali como em todas as partes as pessoas se apinhavam ao seu redor. M. Mochenin disse em suas memórias referentes ao Báb: 'No mês de junho de 1850 (Não é mais provável que tenha sido em 1849?) havendo ido a Chihríq por questões de trabalho, vi o Bálá Khánih de cujas alturas o Báb ensinava sua doutrina. A multidão de assistentes era tão grande que o pátio não era suficiente grande para que coubessem todos; a maioria deles permanecia nas ruas e escutava com religioso encanto os versículos do novo alcorão. Pouco depois o Báb foi transferido para Tabríz para ser condenado a morte". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 371).
(5) Literalmente "Epístola das Letras".
(6) Um dos títulos do Báb.
(7) As ciências da adivinhação.
(8) Referência a Bahá'u'lláh. Veja glossário.
(9) Veja glossário.
(1) Alcorão, 29:2.
(2) O herdeiro ao trono.
(3) Literalmente significa "O Grande".
(4) Nascido em 17 de julho de 1831; começou a reinar em setembro de 1848; faleceu em 1896: "Este príncipe saiu de Teerã para regressar a seu governo em 23 de janeiro de 1848. Como seu pai faleceu em 4 de setembro, regressou para assumir o título de Sháh em 18 de setembro desse mesmo ano". (A. L. M. Nicolas - "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 243, nota 195).
(5) "A Traveller's Narrative", p. 19, menciona ainda o nome de Mirza Ahmad, o Imame Jum'ih.
(6) Alcorão 29:51.
(7) "Alguém fizera uma objeção a gramática ou sintaxe desses versos. Esta objeção é vã, porque as regras gramaticais devem ser deduzidas dos versículos e não os versículos escritos em cumprimento com as regras da gramática. Não tenho dúvida alguma que o Mestre destes versículos negou estas regras e negou inclusive que as usou alguma vez". (Le Bayán Persan", vol. 1, pp. 45-46).
(8) "E quanto aos relatos muçulmanos, aqueles que temos perante nós não levam a marca da verdade, parecem ser falsificações. Sabendo o que sabemos do Báb, é provável que ele teve melhor argumentação e que os doutores e funcionários que assistiram a reunião não estavam dispostos a admitir seu próprio fracasso". (Dr. T. K. Cheyne, "The Reconciliation of Races and Religions", p. 62).
"É difícil saber até que ponto pode-se dar crédito a mencionada narração (a versão muçulmana do exame do Báb em Tabríz). É provável que as perguntas que estão anotadas nelas - e certamente algumas são suficientemente frívolas e inclusive indecentes - foram perguntadas; porém ainda que o Báb possivelmente não pudesse respondê-las, é mais que provável que, como afirma o "Taríkh-i-Jadíd", guardou um digno silêncio e não fez as absurdas afirmações que lhe atribuem os escritores muçulmanos. Mas eles faziam danos a sua própria causa já que desejando provar que o Báb não possuía sabedoria sobre-humana, o apresentavam como exibindo uma ignorância que dificilmente podemos dar crédito. Que todo o exame foi uma farsa, que a sentença havia sido pronunciada de antemão, que não se fez nenhum esforço sério para compreender a natureza e provas das pretensões do Báb e de sua doutrina e que desde o princípio até o final se seguiu um curso sistemático de intimidação, ironia e burla, me parecem ser fatos que estão provados tanto pelos relatos maometanos como Bábís destes exames inquisitivos". ("A Traveller's Narrative", Nota M, p. 290).
(9) É o seguinte o relato do Dr. Cormick de suas impressões pessoais de Mirza Alí-Muhammad, o Báb, extraídas de cartas escritas por ele ao Rev. Benjamin Labaree D. D. (O Dr. Cormick era um médico inglês que havia residido longo tempo em Tabríz onde gozava de alta consideração. O documento foi comunicado ao professor E. G. Browne, da Universidade de Cambridge pelo Sr. W. A. Shedd que escreveu a respeito uma carta datada de 1o de março de 1911: "Estimado Professor Browne, estou revisando os papéis de meu pai (o extinto Rev. J. H. Shedd, D. D. da Missão Americana em Urúmíyyih, Pérsia, da mesma missão que o Dr. Benjamin Labaree), e encontrei algo que penso que pode ser de valor histórico. Não tenho livros aqui nem tampouco os tenho em lugar perto daqui para poder certificar-me se este fragmento de testemunha tem sido utilizado ou não. Penso que provavelmente não e estou seguro que não posso fazer nada melhor que enviá-los ao Senhor, com a esperança que os utilize como melhor lhe pareça. Da autenticidade dos documentos não pode haver dúvida".
"Você me solicita detalhes de minha entrevista com o fundador da seita conhecida como Bábís. Nada de importante sucedeu na entrevista já que o Báb se deu conta que eu havia sido enviado com dois médicos persas para ver se estava em seu juízo são ou se era só um louco, para decidir sobre a sua sentença de morte ou não. Sabendo isto se mostrou pertinaz a contestar qualquer pergunta que se lhe fazia. A todas as perguntas nossas só respondia com um suave olhar enquanto que em voz doce e melodiosa entoava, o que suponho terem sido, alguns hinos. Outros dois Siyyids seus amigos íntimos, também estavam presentes e posteriormente foram sentenciados a morte junto com ele, havia também dois oficiais do governo. Só em uma ocasião se dignou a responder-me quando lhe disse que não era muçulmano e tinha desejo de saber algo sobre sua religião já que podia sentir-me inclinado a aceitá-la. Olhou-me com muita atenção quando lhe disse isso e respondeu que não tinha dúvida alguma que todos os europeus aceitariam a sua religião. Nosso informe ao Sháh nesse instante foi no sentido de não tirar-lhe a vida. Algum tempo depois foi morto por ordem do Amír-Nizám Mirza Taqí Khán. Depois de nosso informe só o submeteram ao carrasco, que durante uma advertência, não sei se intencionalmente ou não, lhe deu um golpe no rosto com um pau destinado a seus pés, o que lhe produziu uma grande ferida e inchação na face. Ao lhe perguntarem se deviam trazer um cirurgião persa para tratá-lo, expressou o desejo que mandassem buscar a mim e em conseqüência o tratasse durante alguns dias, porém durante as entrevistas relacionadas a isso nunca pude chegar ao auge de ter uma conversa confidencial com ele, já que sempre se encontravam presentes funcionários do governo por ser ele um prisioneiro. Mostrou-se muito agradecido pela atenção que lhe dispensava. Era um homem muito suave, de aspecto delicado, de estatura baixa e extremamente ruivo para um persa, com voz suave e melodiosa que me chamou muito a atenção. Como era um Siyyid vestia a indumentária desta seita, como o faziam também seus dois companheiros. De resto, todo o seu aspecto e atitude o predispunham a seu favor. De sua doutrina não ouvi nada de seus próprios lábios mesmo percebendo que em sua religião havia certa similaridade com o cristianismo, e tão pouco existe a opressão à mulher que atualmente se observa". Em relação a este documento o Professor Browne escreveu o seguinte: "O primeiro destes dois documentos é muito valioso já que dá a impressão pessoal produzida pelo Báb durante seu período de encarceramento e sofrimento, sobre uma mente ocidental culta e imparcial. Muito poucos cristãos ocidentais devem ter tido a oportunidade de ver e ao menos conversar com o Báb e não sei de nenhum outro que tenha deixado escrito suas impressões". (E. G. Browne "Materials for the Study of The Bábí Religion", pp. 260-262, 264).
(10) Háshim era o bisavô de Maomé.
(11) Literalmente "Sermão da Ira".
(1) Veja página 96.
(2) Literalmente "Ilha Verde".
(3) Veja glossário.
(4) 21 de julho de 1848 A. D.
(5) Portador da Epístola de Bahá'u'lláh à Nássirí'd-Dín Sháh.
(6) "Ele (Mullá Husayn) chegou primeiramente a Míyamay onde se reuniu com trinta Bábís cujo chefe, Mirza Saynu'l-Ábidín, aluno do extinto Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, era um cavalheiro de idade, piedoso e respeitado. Seu cuidado era tão grande que levou consigo a seu genro, um jovem de dezoito anos que havia casado com sua filha fazia poucos dias. 'Vem', lhe disse, 'vem comigo em minha última viagem. Vem, porque devo ser um pai verdadeiro para ti e fazer-te compartilhar a alegria da salvação verdadeira!" Partiram portanto e o ancião quis fazer a pé a viagem que o devia levar ao martírio." (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí Mamad dit le Báb", p. 290).
(7) 31 de agosto - 29 de setembro de 1848 A. D.
(8) Muhammad Sháh faleceu na véspera de seis de Shavvál (4 de setembro de 1848 A. D.). Após o intervalo de aproximadamente dois meses, se organizou um governo provisório de quatro administradores sob a presidência da viúva do falecido Sháh. Finalmente, depois de muitas vacilações, permitiu-se ao herdeiro legal, o jovem Príncipe Násiri'd-Dín Mirza governador de Ádhirbáiján, ascender ao trono". (Journal Asiatique, 1866, Tomo 7, p. 367).
(9) "O ministro (Mirza Taqí Khán), procedendo com a maior arbitrariedade, sem receber instruções nem solicitar autorização, enviou ordens a todas as partes para que se castigasse e aplicasse penas aos Bábís. Os governadores e magistrados encontraram pretextos para juntar fortunas e os funcionários médios para aumentar suas ganâncias; célebres doutores excitavam os homens desde o alto de seus púlpitos para que iniciassem um ataque geral; os poderes da lei religiosa e civil se juntaram e se esforçaram para erradicar e destruir a esta gente. Entretanto, esta gente não havia obtido ainda um conhecimento adequado e necessário dos princípios fundamentais e doutrinas ocultas dos ensinamentos do Báb e não compreenderam seus deveres. Seus conceitos e idéias se ajustavam às normas de antes e sua conduta e comportamento à forma antiga. As vias de acesso ao Báb estavam por demais fechadas e a chama da discórdia ardia visivelmente em todas as partes. Por ordem dos mais célebres doutores, o governo, e mais ainda o povo inauguraram com irresistível poder uma onda de roubos e saques e estavam ocupados em castigar e torturar, em matar e destruir para que pudessem extinguir esta chama e debilitar estas pobres almas. Em cidades onde eram poucos numerosos, todos com as mãos amarradas, serviram de alimento para as espadas, enquanto que em cidades onde eram mais numerosos se levantaram em defesa própria de acordo com as antigas crenças já que lhes era impossível perguntar qual era seu dever e todas as portas estavam fechadas." ("A Traveller's Narrative", p. 34-5).
(10) Veja glossário.
(11) "A bala feriu a Siyyid Ridá em seu peito e o matou instantaneamente. Era um homem de costumes simples, de convicções profundas e sinceras. Devido ao respeito que sentia por seu amo sempre o seguia a pé ao lado de seu cavalo, isto para servi-lo a todo o instante. (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 294).
(12) "Ninguém deve ser morto por ser infiel, porque dar a morte a uma alma não forma parte da religião de Deus...; e se alguém o ordena, não é nem nunca terá sido do Bayán e não pode haver pecado mais grave que este para Ele". ("O Bayán" veja "Journal of the Royal Asiatic Society", outubro 1889, art. 12, pp. 927-8).
(13) "Porém a dor e a ira redobraram a força de Mullá Husayn que de um só golpe com sua arma partiu em dois o fuzil, o homem e a árvore". (Mirza Jání acrescenta que o Bushrú'í utilizou sua mão esquerda nesta ocasião. Os próprios muçulmanos não duvidam da autenticidade deste relato). (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 295 e Nota 215). "Então Jináb-i-Babul'l- Báb se voltou dizendo: "Agora eles sabem que é nosso dever defendermo-nos, empunhou seu sabre e mostrando aquiescência no que Deus havia ordenado em Sua providência, começou a defender-se. Apesar de seu físico delgado e frágil e sua mão trêmula, mostrou tal valor e audácia neste dia que quem quer que tivesse olhos para discernir a verdade podia ver claramente que tal força e valor só poderia vir de Deus já que se encontravam além de toda a capacidade humana... Então vi Mullá Husayn desembainhar seu sabre e levantar seu rosto para o céu e o ouvi exclamar: "Oh! Deus, completei a prova para esta hoste, porém de nada tem servido". Então nos incentivou a atacar a direita e a esquerda. Juro por Deus que neste dia manejou seu sabre de tal forma que transcendia o poder humano. Só a cavalaria de Mázindarán se manteve firme e recusou fugir. E quando Mullá Husayn encontrava-se em pleno fragor da batalha, perseguiu um soldado que fugia. O soldado se escondeu atrás de uma árvore e tratou de proteger-se com seu fuzil. Mullá Husayn aplicou um golpe tão forte com seu sabre que o partiu a ele, a árvore e ao fuzil em seis pedaços". (O "Tárikh-i-Jadíd", pp. 49, 107-8).
(14) 1848-9 A. D.
(15) Mirza Taqí Khán l'timadu'd-Dawlih, Grão-vizir e sucessor de Hájí Mirza Aqásí. Faz-se a seguinte referência a ele em "A Traveller's Narrative" (p. 32-3): "Mirza Táqí Khán Amír-Nizám, que era primeiro ministro e regente principal, colheu no punho de seu despótico poder as rédeas dos assuntos da comunidade e esporeou o corcel da sua ambição na arena do capricho e possessão exclusiva. Este ministro era uma pessoa sem experiência e que carecia de consideração pelas conseqüências da ação; sedento de sangue e desavergonhado; estava sempre pronto e rápido no derramamento de sangue. Considerava que os castigos duros eram sinais de uma administração sábia e que a exortação severa, o sofrimento, a intimidação e o assustar as pessoas era um adiantamento para a monarquia. E como sua Majestade, o Rei, era muito jovem ainda, o ministro incutiu-lhe idéias estranhas e fez repicar o tambor do absolutismo na administração; por sua própria decisão, sem buscar a autorização da Presença Real ou de obter conselho de estadistas prudentes, deu ordem que se perseguissem os Bábís, imaginando que fazendo uso da força arrogante podia erradicar ou suprimir questões desta natureza e que a severidade traria bons frutos; enquanto que o interferir com questões de consciência simplesmente as difunde mais e lhes dá maior força; enquanto mais se tenta extingui-las, mais intensamente arde a chama, sobretudo em questões de fé e religião que se difundem e adquirem influência enquanto se derrama sangue e afeta profundamente o coração dos homens".
(16) Veja glossário.
(17) Alcorão 9:52.
(18) "O Bábu'l- Báb", diz nosso autor, "desejava cumprir com um desejo religioso e, ao mesmo tempo dar um exemplo da firme convicção dos crentes, do seu desprezo pela vida, e mostrar ao mundo a impiedade e irreligiosidade dos assim chamados muçulmanos, para isso deu ordens a um de seus seguidores que subisse ao terraço e entoasse o adhán". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Ali-Muhammad dit le Báb", pp. 296-296). "Foi em Marand", escreve Lady Shell, "que ouvi pela primeira vez o adhán, ou chamada muçulmana à oração, que é tão solene e impressionante, especialmente quando se entoa bem já que é, em verdade, um cântico. Ele se voltou para Meca e pondo suas mãos abertas em sua cabeça, proclamou com voz forte e sonora: "Alláh-u-Akbar", que repetiu quatro vezes; depois, Ashhad-u-inna-Muhammadan-Rasu'lláh" - (Sou testemunha que Maomé é o Profeta de Deus) - duas vezes; logo "Sou testemunha que 'Alí, o Comandante dos Fiéis, é o amigo de Deus"... O toque solitário de defuntos para o transporte dos mortos à sua última morada terrena, desperta, possivelmente por associação, idéias de profunda solenidade; também o faz a trombeta que ressoa através do acampamento quanto acompanha o dragão a sua sepultura... O adhán produz outra impressão. Cria na mente sentimentos combinados de dignidade, solenidade e devoção, comparados com os quais o ruído das campainhas se tornam insignificantes. É importante escutar no silêncio da noite os primeiros tons da voz do Mu'ahdhir proclamando "Alláh-u-Akbar - Poderoso é o Senhor - sou testemunha que não há outro Deus senão Deus!" São Pedro e São Paulo juntos não podem produzir nada que se O iguale! ("Glimpses of Life and Manners in Persia", pp. 84-85).
(19) "Sa'idu'l-Ulamá desejando acabar a qualquer custo, reuniu quantas pessoas pôde e atacou novamente a parte anterior do caravançarai. A luta já durava cinco ou seis dias quando apareceu "Abbás Qulí Khán Sardár-i-Lárijání". Enquanto, e desde que haviam iniciado as hostilidades, os Ulemás de Bárfurúsh exasperados pelas numerosas conversões que Kuddús havia feito na cidade (trezentas em uma semana, segundo admitem com reticência os muçulmanos), haviam levado o assunto perante o governador da província. Príncipe Khánlar Mirza. No entanto ele não prestou atenção as suas queixas porquanto tinha muitas outras preocupações. A morte de Muhammad Sháh o preocupava muito mais que as disputas dos Mullás e fez preparativos para ir à Teerã para render homenagem ao novo rei, cujos favores esperava granjear. Como fracassaram nesta tentativa e devido a pressão dos acontecimentos, os Ulemás escreveram uma carta urgente ao chefe militar da província, 'Abbas'-Qulí Khán-i-Lárijání. Este último não achou necessário preocupar-se, e enviou Muhammad Big Yávar (capitão), à frente de trezentos homens, para restabelecer a ordem. E foi assim que os muçulmanos começaram a atacar o caravançarai. A luta começou, porém se dez Bábís eram mortos, um número infinitamente superior dos agressores caia por terra. Como a situação se prolongava 'Abbás Qulí Khán sentiu que devia ir pessoalmente para avaliar a situação." (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", pp. 296-7).
(20) Gobineau o descreve nos seguintes termos: "Os nômades turcos e persas passam a vida caçando e às vezes lutando, e, freqüentemente falam da caça e da guerra. Não são tão valentes e foram bem descritos por Branttóme o qual, em sua experiência das guerras da sua época, encontrou aquela forma de valor que ele chamou de "coragem por um dia". Porém isto é o que são em forma muito regular e conseqüentemente, grandes faladores, grandes destruidores de cidades, grandes assassinos de heróis, grandes exterminadores de multidões, em outras palavras, ingênuos, muito abertos na expressão de seus sentimentos, muito violentos ao reagir a qualquer coisa que os provoque e muito divertidos. 'Abbás Qulí Khán-i-Lárijání, embora tenha nascido em boa família, era um tipo perfeito de nômade". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 171).
(21) Um renomado indolente que freqüentemente rebelava-se contra o governo.
(22) 10 de outubro de 1848 A. D.
(23) Alcorão 17:7.
(24) Veja glossário.
(25) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 36) foi Mirza Lutf-'Alí, o secretário, quem desembainhou sua faca e apunhalou Khusraw.
(26) Veja glossário.
(27) "Então, virando-se para seus companheiros, disse: "Durante estes poucos dias de vida que nos restam, evitemos ficar divididos por riquezas passageiras. Que todos procurem um objetivo comum e participem de seus benefícios". Os Bábís consentiram com alegria e esse maravilhoso espírito de auto-sacrifício fez com que seus inimigos dissessem que eram partidários da propriedade coletiva dos bens terrenos e inclusive das mulheres!". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", p. 299).
(28) Veja glossário.
(29) Santuário de Shaykh Ahmad-i-Ábí-Tabarsí, situado mais ou menos a quatorze milhas à sudeste de Bárfurúsh. O Professor Browne da Universidade de Cambridge visitou o lugar em 26 de setembro de 1888 e viu o nome do santo ali sepultado escrito em uma placa na forma de palavras usadas para sua "visitação", a placa estava suspensa na grade que rodeia a tumba. "Na atualidade", disse ele, "consiste em uma área verde, plana, cercada por estacas e que além do edifício do santuário e outro situado na entrada (oposto a este, porém por fora do recinto, encontra-se a casa do mutavallí, o cuidador do santuário) não contém outra coisa senão três laranjeiras e alguns sepulcros toscos cobertos com pedras planas, no último lugar de repouso, possivelmente, de alguns defensores Bábís. O prédio situado na entrada tem dois pisos, é atravessado por um corredor que dá acesso ao recinto e está fechado com telhas. Os prédios do santuário que se encontram no extremo oposto do cercado, são um pouco menores. Sua maior dimensão (mais ou menos vinte passos) vai de este à oeste; sua largura é de mais ou menos dez passos e, além do pórtico coberto situado na entrada, contém dois quartos escassamente iluminados por uma grade de madeira sobre as portas. A tumba do Shaykh que dá o nome ao lugar, está rodeada por uma varanda de madeira e está situada no centro do quarto interno pelo qual se entra através de uma porta que se comunica com o quarto externo ou por outra porta que se abre externamente ao recinto cercado". (E. G. Browne, "A Year amongst the Persians", p. 565).
(30) 12 de outubro de 1848 A. D.
(31) Veja glossário.
(32) 3 de julho - 1o de agosto de 1848 A. D.
(33) 24 de abril - 23 de maio de 1849 A. D.
(34) Literalmente "Remanescente de Deus".
(35) Alcorão 11:85.
(36) Veja glossário.
(37) 27 de novembro de 1848 A. D.
(38) Referência ao ano de 1820 D. H. (1863-4 A. D.) em que Bahá'u'lláh declarou sua Missão em Bagdá.
(39) A reunião de trezentos e treze defensores eleitos pelo Imame de Táliqán de Khurásán é um dos sinais que deve necessariamente anunciar o advento do Qá'im prometido. (E. G. Browne, "A History of Persian Literature in Modern Times". A. D. 1500-1924, p. 399).
(40) Entre eles encontrava-se também Ridá Khán, filho de Muhammad Khán, o Turkomán, Chefe da Cavalaria do extinto Monarca Muhammad Sháh. Era um jovem agraciado, de rosto formoso e que estava dotado de toda classe de talentos e virtudes, digno, sóbrio, gentil, generoso, valente e varonil. Por amor e serviço a Sua Santidade Suprema abandonou tanto o seu posto como o seu salário, fechou os olhos tanto à posição como ao nome, fama, e vergonha, a reprovação dos amigos e as zombarias dos inimigos. Com um só passo deixou para trás dignidade, riqueza, posição e todo poder e consideração de que gozava, gastou grandes somas de dinheiro (pelo menos quatro a cinco mil tumanes) na Causa de Sua Santidade Suprema, chegou a aldeia de Khánliq perto de Teerã e, com o objetivo de por à prova a fidelidade de Seus seguidores disse: "Se só houvessem alguns cavaleiros armados que me livrassem das correntes dos malvados e de suas artimanhas não seria mal". Ao ouvir estas palavras, vários cavaleiros armados ágeis e com experiência, com todo seu equipamento se ofereceram de imediato para partir e renunciando a tudo quanto tinham, se dirigiram rapidamente para apresentar-se ante Sua Santidade. Entre estes se encontrava Mirza Qurbán-'Alí de Astarábád e Ridá Khán. Quando se apresentaram ante Sua majestade, Ele sorriu e disse: "A montanha de Adhirbáyján também Me exige" e lhes pediu que regressassem. Depois de seu regresso, Ridá Khán se dedicou ao serviço dos amigos de Deus e sua casa foi freqüentemente lugar de reuniões dos crentes, entre estes tanto Jináb-i-Quddús e Jináb-i-Babul'- Báb foram por um tempo, seus convidados de honra. Por certo se despreocupou completamente de si mesmo e nunca se acanhou no serviço à nenhum deles desse círculo senão que apesar de seu alto posto, lutou com todo seu coração e alma por promover os objetivos dos servos de Deus. Por exemplo, quando Jináb-i-Quddús começou a pregar a doutrina em Mázindarán e o Sa'idu'l-'Ulamá, ao saber dele, fez grandes esforços para causar-lhe dano, Ridá Khán se apressou em ir imediatamente à Mázindarán e cada vez que Jináb-i-Quddús saia de sua casa, apesar de seu alto posto e o respeito a que estava acostumado, somente caminhava diante dele com seu sabre desembainhado sobre o ombro; ao ver isto os malfeitores temiam tomar alguma liberdade... Durante algum tempo, Ridá Khán agiu desta forma em Mázindarán até que acompanhou a Jináb-i-Quddús a Mashhád. Quando de lá regressou esteve presente durante as dificuldades em Badasht onde prestou serviços muito valiosos e recebeu a incumbência de levar a efeito encargos de maior importância e delicadeza. Depois do término da reunião de Badasht caiu enfermo e, em companhia de Mirza Sulayman-Qulí de Núr (um filho do extinto Shátir-báshí que também era conspícuo por suas virtudes, sua erudição e devoção), veio também à Teerã. A enfermidade de Ridá Khán durou algum tempo e quando se restabeleceu, o assédio ao castelo de Tabarsí já havia se tornado muito sério. Imediatamente decidiu partir em ajuda a guarnição. No entanto, como era uma pessoa destacada e muito conhecida, não podia deixar a capital sem dar uma razão plausível. Por este motivo simulou arrepender-se da sua conduta passada e pediu que o enviassem a participar da guerra em Mázindarán, e desta forma se redimir por sua conduta anterior. O rei acreditou em sua petição e o designou para acompanhar os reforços que sob as ordens do Príncipe Mihdi-Qulí Mirza se dirigiam contra o castelo. Durante a marcha àquele lugar dizia continuamente ao Príncipe "farei isto", e "farei aquilo"; deste modo o Príncipe começou a alimentar grandes esperanças nele e lhe prometeu um cargo que estivesse de acordo com seus serviços já que até o dia em que era inevitável ordenar a batalha e a paz já não era possível, sempre estava em primeiro lugar no exército e se mostrou muito competente para comandar. Porém durante o primeiro dia da batalha começou galopar em seu cavalo e a praticar outros exercícios militares até que, sem haver despertado suspeitas, repentinamente soltou as rédeas e se reuniu com os Irmãos de Pureza. Ao chegar entre eles, beijou os pés de Jináb-i-Quddús e se prostou ante ele com gratidão. Então voltou uma vez mais ao campo de batalha e começou a vilipendiar e maldizer o príncipe, dizendo: "Quem é suficientemente homem para pisotear a pompa e a vaidade do mundo, livrar-se dos laços dos desejos carnais e unir-se como faço eu, com os santos de Deus? De minha parte, só estarei satisfeito quando minha cabeça tiver caído no pó e sangue nesta planície". Então, como um leão encolerizado arrojou-se sobre eles com a espada desembainhada e se comportou tão virilmente que todos os oficiais reais se mostraram assombrados dizendo: "Valentia igual a esta deve ter sido concedida recentemente do alto dos céus ou então um novo espírito foi infundido em seu corpo". Em mais de uma ocasião abateu um fuzileiro no momento de descarregar seu fuzil e tantos oficiais principais do exército real caíram por suas mãos que o príncipe e os demais oficiais do poder ansiavam mais vingar-se nele que em qualquer outro Bábí. Na véspera do dia fixado para que Jináb-i-Quddús se rendesse, Ridá Khán sabendo que devido ao grande ódio que nutriam por ele lhe dariam uma morte com torturas cruéis, foi durante a noite à casa de um oficial do acampamento que era um velho e fiel amigo. Depois do massacre dos demais Bábís foi iniciada uma busca para encontrar Ridá Khán e finalmente foi descoberto. O oficial que o havia dado proteção propôs que se pedisse um resgate de dois mil tumanes em dinheiro, porém sua proposição foi rechaçada e mesmo quando ofereceu aumentar esta soma e tratou por todos os meios de salvar seu amigo, de nada adiantou porque o príncipe devido ao grande ódio que sentia por Ridá Khán ordenou que o despedaçassem". (O "Taríkh-i-Jadíd", pp. 96-101).
(41) Segundo as descrições, a fortaleza construída por Mullá Husayn logo se transformou em um prédio muito forte. Suas muralhas, feitas de grandes pedras chegavam a altura de dez metros. Sobre esta base edificaram uma construção feita de enormes troncos de árvores nos quais abriram certos números de frestas. Então rodearam-na por todos os lados com um fosso profundo. De fato era como uma grande torre que tinha por base pedras, enquanto que os pisos superiores eram de madeira e tinham três fileiras de frestas onde podiam colocar quantos tufang-chís (espingardas) quisessem, ou melhor, tivessem. Fizeram numerosas aberturas com portas e portões para assim facilitar a entrada e saída. "Escavaram poços para assim assegurar abundância de água e passagens subterrâneas para refúgio em caso de necessidade; construíram depósitos que foram abarrotados com todo o tipo de provisões, seja comprada ou recolhida nas aldeias vizinhas. Finalmente puseram como guardas os Bábís mais enérgicos, os mais devotados e os mais dignos de confiança entre eles". (Conde de Gobineau. "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 156).
(42) "E assim, ávido pela manutenção da ordem, o Amir Nizám despachou rapidamente a questão de Mázindarán. Quando os dirigentes desta província vieram à Teerã para render tributos ao rei, receberam ordens, no momento de partir, que tomassem as medidas necessárias para por fim a rebelião dos Bábís. Prometeram esforçar-se ao máximo e de fato, enquanto regressavam, os chefes reuniram suas forças e se juntaram para deliberação. Escreveram à seus parentes para que viessem unir-se a eles. Hájí Mustafá Khán chamou seu irmão Abdu'lláh 'Abbás-Qulí Khán-i-Larijaní mandou buscar a Muhammad-Sultan e a 'Alí Khán de Savád-Kúh. Todas estas celebridades decidiram atacar os Bábís em sua fortaleza antes que eles, por sua conta, pudessem pôr-se na defensiva. Os oficiais reais ao ver que os dirigentes do país estavam tão dispostos, convocaram um grande conselho o qual se apressaram em comparecer os senhores já citados e também Mirza Áqá Mustawfí de Mázindarán, superintendente de assuntos financeiros, o chefe dos 'Ulemás e muitas outras personalidades de alta posição." (Idem, pp. 160-161).
(43) Veja glossário.
(44) "De sua parte, o superintendente de finanças organizou tropas entre os Afegãos residentes em Sárí e a eles agregou certo número de homens procedentes das tribos turcas sob suas ordens. 'Alí A Báb, a aldeia tão severamente castigada por causa dos Bábís, que aspirava a vingança deles, subjulgou-se o que pode e foi reforçada por um grupo de homens de Qádí que estavam na vizinhança e estavam dispostos a alistarem-se". (Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 161).
(45) 1o de dezembro de 1848 A. D.
(46) Veja glossário.
(47) O Amír-Nizám encolerizou-se ao saber das notícias do que havia acontecido. A descrição dos terrores despertou a sua indignação. Estava demasiado longe da cena de ação para avaliar o desenfreado entusiasmo dos rebeldes; assim a única conclusão que podia tirar era de que os Bábís tinham que ser liquidados antes de que a sua coragem pudesse ser mais estimulada por vitórias reais. O príncipe Mihdí-Qulí Mirza, designado tenente do Rei na província ameaçada, partiu investido de poderes extraordinários. Fora instruído para fazer uma lista dos homens que haviam morrido no ataque a fortaleza Bábí e no saque de Ferra, e pensões foram prometidas aos sobreviventes.
Hájí Mustafá Khán irmão de 'Abdu'lláh recebeu substanciais provas do favor real. Em resumo, todo o possível foi feito para restaurar a coragem e a confiança dos muçulmanos." (Conde de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale," pp. 164-165).
(48) "Deixaram Mihdí-Qulí Mirza fugindo de seu lugar em chamas e vagando só pelo campo, em meio a neve e a obscuridade.
"Até o amanhecer encontrava-se em um caminho desconhecido entre as montanhas, perdido em uma parte agreste do país, porém na realidade não muito longe da batalha onde tantos haviam sido mortos. O vento trouxe a seus ouvidos o som das descargas dos mosquetões.
"Nesta situação lamentável, completamente aniquilado, foi encontrado por um Mázindarán que montava em um bom cavalo e que o reconheceu. Este homem apeou de seu cavalo, colocou o príncipe em sua cela e ofereceu-se para servir-lhe como guia. Levou-o à choça de um aldeão, o acomodou no alpendre (na Pérsia não se considera que este local deva ser olhado com desprezo) e enquanto o príncipe dormia e comia, o mázindarán montou em seu cavalo e percorrendo os arredores deu as boas novas de que o príncipe estava a salvo e bem de saúde. E desta forma conduziu até ele todos os seus homens, ou pelo menos um número respeitável deles, um grupo atrás do outro.
"Se Mihdá-Qulí Mirza houvera sido um desses espíritos orgulhosos difíceis de quebrantar pelos revezes, houvera considerado que sua posição havia mudado pouco pelas calamidades da véspera; pôde acreditar que seus homens foram tomados por uma ação surpreendentemente desafortunada; então, com o que restava de suas forças poderia haver salvado as aparências e defendido seu terreno porque de fato os Bábís haviam se retirado e não eram vistos mais por nenhum lado. Porém o Sháhzádíh, longe de orgulhar-se de tal firmeza, era de caráter débil e quando se viu rodeado de tão boa escolta, deixou o alpendre e se apressou em ir a aldeia de Qádí-Kalá de onde se dirigiu à Sárí com grande pressa. Esta conduta fortaleceu em toda a província a impressão causada pela derrota de Vás-Kas. Sobreveio o pânico, as cidades abertas acreditaram que estavam expostas a todos os perigos e apesar do rigor da estação, via-se caravanas de civis sob grandes dificuldades, levando suas mulheres e crianças ao deserto de Damávand para salvá-los dos miseráveis perigos que a cautelosa conduta de Sháhzádih parecia pressagiar. Quando os asiáticos perdem a cabeça o fazem completamente". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", pp. 169-170).
(49) "Em poucos minutos seu exército, já em estado de completa confusão foi dispersado pelos trezentos homens de Mullá Husayn! Não era esta a espada do Senhor e de Gedeão?" (Idem, pp. 167).
(50) Segundo Gobineau (p. 167), eles eram Sultán Husayn Mirza, filho de Fath-'Alí Sháh e Dawíd Mirza, filho de Zillús-Sultán, tio do Sháh. A. L. M. Nicolas, em sua obra "Siyyid Alí Muhammad dit le Báb", (p. 308), acrescenta Mustawfí Mirza 'Abdu'l-Baqí.
(51) Veja glossário.
(52) 21 de dezembro de 1848 A. D.
(53) "Oh Shaykh! Acontecimentos como os que olhos alguns jamais viram têm sucedido a este injuriado. Feliz e com a maior resignação tenho aceitado sofrer, para que assim sejam iluminadas as almas dos homens e o Verbo de Deus seja restabelecido. Quando estivemos encarcerados na terra de Mím (Mázindarán) nos entregaram certo dia às mãos dos 'Ulemás. O que sucedeu depois bem o podeis imaginar". ("A Epístola ao Filho do Lobo").
(54) Literalmente "Casa de Oração".
(55) Literalmente "Fossa Negra", a masmorra subterrânea em que foi encarcerado Bahá'u'lláh.
(1) "E assim como, perplexo e sem saber para que lado virar-se, o Sháhzádih, pobre homem, deu ordens de reunir novos soldados e formar um novo exército. A população não ansiava servir a um chefe cujos méritos e intrepidez não haviam suportado brilhantemente a prova. No entanto, com a ajuda de dinheiro e promessas, sobretudo os Mullás que não perdiam de vista seus próprios interesses e que seriam os mais prejudicados, mostraram tal zelo que finalmente se reuniu um número apreciável de tufang-chís. Por outro lado os soldados da cavalaria das diversas tribos montaram em seus cavalos enquanto seus chefes montaram nos seus sem perguntar sequer por quê. "Abbás-Qulí-Khán-i-Láríjání obedeceu sem vacilar a ordem de enviar novos recrutas. Entretanto, esta vez, seja porque desconfiava de um príncipe cuja ineptidão pudesse pôr em perigo a vida de seus parentes e súditos ou porque ambicionava lograr distinção para si, não deu à ninguém o comando de suas forças. As dirigiu ele mesmo com um golpe de audácia e em lugar de se juntar ao exército real, atacou diretamente aos Bábís em seu refúgio. Só então notificou ao príncipe de que havia chegado ao forte de Shaykh Tabarsí e que o havia sitiado. Além disso fê-lo saber que não necessitava de ajuda nem de reforços e que seus efetivos eram mais que suficientes e que se sua alteza real desejava ver como ele, 'Abbás-Qulí-Khán-i-Láríjání, estava à ponto de tratar os rebeldes, seria uma honra e motivo de agrado". (Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", pp. 170-171).
(2) "Mihdí-Qulí Mirza não podia fazer-se passar por guerreiro valente como já vimos, porém em lugar de uma intrepidez excessiva tinha outra qualidade muito útil para um general: não levava a sério as zombarias dos seus subalternos. Por esta razão, temendo que pudesse acontecer algum dano ao nômade imprudente, enviou-lhe reforços imediatos. E foi assim que partiram com muita pressa Muhsin Khán-i-Súrití com sua cavalaria, um destacamento afegão, Muhammad-Kharím Khán-i-Ashráfí com alguns dos tufang-chís do povo e Khalil Khán de Savád-Kúh com os homens de Qádí-Kalá". (Idem, p. 171).
(3) 1o de fevereiro de 1849 A. D.
(4) Veja glossário.
(5) "Mesmo quando estava gravemente ferido, o chefe Bábí seguiu dando ordens, dirigindo e estimulando seus homens até que, ao ver que não se podia alcançar mais nada deu sinal de retirada, permanecendo ele mesmo na retaguarda". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 174).
(6) "Seus restos mortais (de Mullá Husayn) descansam ainda no pequeno quarto no interior do santuário de Shaykh Tabarsí onde foram sepultados com reverência pelas mãos de seus dolentes camaradas, sob a direção de Mullá Muhammad-'Alí Bárfurúshí em princípios do ano de 1849 A. D. ("A Traveller's Narrative". Nota F, p. 245).
(7) 10 de outubro de 1848 A. D.
(8) 2 de fevereiro de 1849 A. D.
(9) 10 de outubro de 1848 A. D.
(10) 1o de dezembro de 1848 A. D.
(11) 21 de dezembro de 1848 A. D.
(12) "Entre eles encontrava-se Mullá Husayn, que havia recebido a glória resplandecente do Sol da Revelação. Se não houvesse sido por ele Deus não haveria se estabelecido sobre a sede de Sua mercê nem haveria ascendido ao trono de eterna glória". (O "Kitáb-i-Iqán", p. 162 - 1a edição portuguesa). Veja nota 6. "De contextura frágil, porém um soldado intrépido e apaixonado amante de Deus, combinava qualidades e características que raras vzes se encontram reunidas em uma só pessoa, inclusive na aristocracia espiritual da Pérsia". (Dr. T. K. Cheyne "The Reconciliation of Races and Religions", p. 83). "Finalmente", escreve o Conde de Gobineau, "ele expirou e a nova religião que recebeu nele o seu protomártir, perdeu ao mesmo tempo um homem cuja firmeza de caráter e habilidade haveriam de ter sido de grande valor caso houvesse vivido mais tempo. É natural que os muçulmanos sintam pela memória deste chefe um ódio tão profundo como é o amor e veneração que lhe mostram os Bábís. Ambos podem justificar seus sentimentos contrapostos. Não há dúvida alguma que Mullá Husayn-i-Bushrú'í foi o primeiro em dar ao Bábismo, dentro do império Persa, a posição que um corpo religioso ou político adquire aos olhos do povo unicamente depois que tem demonstrado sua força batalhadora". (Conde de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale" p. 176). "O extinto Hájí Jání escreve: "Eu que o conheci pessoalmente (Mirza Muhammad-Hasan, o irmão menor de Mullá Husayn) quando trazia sua mãe e irmã de Karbilá à Qazvín e de Qazvín à Teerã. Sua irmã era esposa de Shaykh Abú-Turáb de Qazvín, que era um erudito e filósofo como raras vezes se encontram e acreditava com a maior sinceridade e pureza de intenção, enquanto que seu amor e devoção pelo Báb eram tais que se alguém apenas mencionasse o nome de Sua Santidade Suprema (que as almas de todos junto a sua estejam em Seu sacrifício) não podia refrear suas lágrimas. Freqüentemente o vi, quando estava ocupado lendo os escritos de Sua Santidade Suprema, à ponto de transtornar-se de êxtase e quase desmaiar de alegria. De sua esposa somente dizia: "Casei-me com ela há três anos em Karbilá. Era então somente uma estudante medíocre inclusive no Persa, porém agora ela pode expor textos do Alcorão e pode explicar as perguntas mais difíceis e os aspectos mais sutis da doutrina da Unidade Divina de tal forma que jamais tenho visto um homem que a iguale nisso ou em rapidez de compreensão. Estas dádivas as obteve pelas bênçãos de Sua Santidade, o Altíssimo e mediante conversas com a Sua Santidade a Pura (Qurratu'l-Ayn). Tenho visto nela uma paciência e resignação raras, inclusive entre os mais resignados dos homens, porque durante estes três anos, mesmo quando não lhe enviamos um só dinar para seus gastos e se manteve só, com grande dificuldade, nunca disse uma só palavra; e agora que ela veio para Teerã, evita completamente falar do passado e ainda quando, de acordo com os desejos de Jináb-i- Bábu'l- Báb, deseja ir à Khurásán, e literalmente não tem nada para pôr exceto um vestido muito gasto que usa, nunca pede roupa ou dinheiro para a viagem e inclusive arranja desculpas razoáveis para fazer-me sentir tranqüilo e evitar que eu sinta vergonha. Sua pureza, castidade e virtude não têm limites e durante todo esse tempo, nenhuma pessoa indigna do privilégio, ouviu sequer a sua voz". Porém as virtudes da filha eram sobrepujadas pelas da mãe que era possuidora de raros dotes e qualidades e havia composto muitos poemas e eloqüentes elegias sobre as aflições de seus filhos. Apesar de Jináb-i- Bábu'l- Báb lhe haver advertido sobre seu próximo martírio, e lhe haver profetizado as calamidades por vir, ela seguia demonstrando a mesma devoção entusiasta e alegre resignação, regozijando-se porque Deus havia aceitado o sacrifício de seus filhos e inclusive orava sempre para que eles pudessem alcançar esta elevada distinção e não se vissem privados de uma benção tão grande. É realmente maravilhoso meditar sobre esta família virtuosa e santa, seus filhos tão devotos e de um autosacrifício inquebrantável; a mãe e filha tão pacientes e resignadas. Quando eu, Mirza Jání, conheci Mirza Muhammad-Hasan, ele só tinha dezessete anos de idade, entretanto vai nele uma dignidade, compostura e virtude que me assombraram. Depois da morte de Jináb-i- Bábu'l- Báb, Hadrat-i-Quddús lhe confiou a espada e o turbante desse glorioso mártir e o fez capitão dos exércitos do Rei Verdadeiro. Quanto a seu martírio, há uma divergência de opiniões sobre se foi morto durante o desjejum no acampamento ou sofreu o martírio junto com Jináb-i-Quddús na praça de Bárfurúsh". (O "Tarikh-i-Jadid", pp. 93-5). A irmã de Mullá Husayn recebeu o apoio de "Varaqatu'l-Firdaws" e enquanto esteve em Karbilá se associou intimamente com Táhirih. ("Memorials of the Faithful", p. 270).
(13) Veja glossário.
(14) "Desta vez o terror não teve limites: em toda a província as pessoas, profundamente alarmadas com as derrotas sucessivas do Islã, começaram a inclinar-se para a nova religião. Os chefes militares sentiam que sua autoridade desmoronava, os chefes religiosos viam que seu poder sobre as almas diminuíam; a situação estava extremamente crítica e o menor incidente podia precipitar Mázindarán aos pés do Reformador". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 315). "Porém quando Sa'idu'l-'Ulamá deu conta (temendo que os Bábís entrassem em Bárfurúsh e aplicassem o castigo que merecia), sentiu-se surpreendido pelas preocupações e cheio de consternação escreveu várias cartas à 'Abbás-Qulí Khán dizendo: "O felicito por vossa valentia e discrição, porém o deplorável é que depois de havermos ultrapassado tantas dificuldades, de haver perdido tantos de vós e haver conseguido finalmente tão importante vitória, não haveis rematado. Haveis feito com que grande multidão fosse alimento para as espadas e haveis regressado deixando somente alguns velhos decrépitos como sobreviventes. Que desafortunado que, depois de todos os vossos esforços e perseverança o príncipe está agora pronto para marchar contra o castelo e capturar este punhado de infelizes de modo que, depois de tudo, ele levará o mérito dessa importante vitória e se apoderará de todo o dinheiro e propriedades dos vencidos! Deveis fazer com que seja vossa preocupação primordial e a mais importante, a de regressar ao castelo antes que ele empreenda a marcha, já que o governo de uma província como Mázindarán não é uma coisa com que se possa ficar jogando. Esforçai-vos, portanto, para que alcanceis o crédito total desta vitória, e que vossos esforços, levem a termo o que vosso zelo já tinha começado". Também escreveu extensamente ao clero de Ámul, exortando-lhes com urgência que fizessem o maior esforço para obrigar o Sartíp 'Abbás-Qulí Khán a partir novamente sem muita demora. E assim, recordava-lhes a todo momento que era seu dever marchar com toda urgência contra o forte; e o Sartíp, ainda que soubesse que o que Sa'idu'l-'Ulamá lhe havia escrito carecia de fundamento e era completamente falso, estava ansioso, se lhe era possível, de compensar pelo que havia ocorrido e desta forma reabilitar-se da desgraça que havia caído aos olhos das mulheres de Lárínján cujos maridos ele havia sacrificado, e ante o governo. Interiormente, no entanto, consumia-lhe a angústia temendo que, assim como a campanha anterior, pudesse fracassar em conseguir algo. A maioria de seus homens estava igualmente ferida, enquanto que muitos haviam fugido e haviam se ocultado nas aldeias vizinhas que estavam a quatro ou cinco farsang da cidade. E assim, em lugar disso, escreveu ao clero de 'Amul dizendo: "Se esta é, na verdade, uma guerra religiosa, vós que sois campeões tão zelosos da Fé e querem que os homens tenham um bom exemplo, deveríeis tomar a iniciativa e iniciar a ação. O clero, que não tinha preparada uma contestação adequada e que não via forma de excusar-se, viu-se obrigado a enviar uma mensagem dizendo que a guerra era religiosa. Grande número de comerciantes, gente comum, e rufiões foram reunidos e estes, junto com o clero e estudantes, empreenderam a marcha com o propósito ostensivo de cumprir com um dever religioso que na realidade tinha por objetivo o roubo e pilhagem. A maioria destes foi à Bárfurúsh e ali se uniram às tropas do Príncipe Mihdí-Qulí Khán que, ao chegar a uma aldeia situada a distância de um farsang do castelo, enviou um pelotão de homens para que fizessem uma operação de reconhecimento e recolhessem informações sobre os movimentos da guarnição Bábí." (O "Taríkh-i-Jadíd", pp. 72-3)
NOTAS DE RODAPÉ
Os Rompedores da Alvorada - Volume II
A Narrativa de Nabil II
RODAPÉ
CAPÍTULO III
A DECLARAÇÃO DA MISSÃO DO Báb
A morte de Siyyid Kázím foi o sinal para que se renovasse a atividade de seus inimigos. Sedentos de poder e encorajados em face de seu desaparecimento e da conseqüente consternação de seus seguidores, reafirmaram suas pretensões e se prepararam para levar a cabo as ambições que nutriam. Por algum tempo, medo e ansiedade encheram os corações dos discípulos fiéis de Siyyid Kázím, mas com o regresso de Mullá Husayn-i-Bushrú'í da missão tão bem-sucedida da qual seu mestre o incumbira, suas tristezas se dissiparam. (1)
Foi no primeiro dia de Muharram, no ano de 1260 A.H. (2), que Mullá Husayn voltou a Karbilá. Animou e fortaleceu os discípulos desconsolados de seu bem-amado mestre, lembrou-os da promessa infalível que este lhes fizera e instou que mantivessem uma vigilância constante e esforço ininterrupto na busca do Bem-Amado ainda oculto. Hospedado nas vizinhanças próximas da casa em que o Siyyid havia residido, durante três dias, ele ocupou-se continuamente em receber visitas de um número considerável de pesarosos que se apressavam a expressar-lhe, como o representante principal dos discípulos do Siyyid, seu pesar e tristeza. Ele depois convocou um grupo de seus condiscípulos mais distintos e de maior confiança, dos quais inquiriu sobre os desejos expressos por seu falecido mestre e sobre suas últimas exortações. Disseram-lhe que, repetida e enfaticamente, Siyyid Kázím mandara que abandonassem seus lares, se dispersassem em todas as direções, purificassem seus corações de todo desejo vão e se dedicassem à busca dAquele a cujo advento se havia referido com tanta freqüência. "Ele nos disse," afirmaram, "que o Objeto de nossa busca estava agora revelado. Os véus que se interpõem entre vós e Ele são tais que somente vós os podeis remover com vossa fervorosa busca. Nada senão esforço em espírito de prece, pureza de motivos e unidade de propósitos tornará possível que os rompeis. Não tem Deus revelado em seu Livro: 'A quem fizer esforços por Nós, em Nossos caminhos o guiaremos?'" (3) "Por que, então", retrucou Mullá Husayn, "tendes preferido demorar em Karbilá? Por que não vos dispersastes, por que não vos tendes levantado para atender a seu fervoroso apelo?" "Reconhecemos nossa falta" foi sua resposta; "de vossa grandeza todos nós damos testemunho. Tal é nossa confiança em vós que, se vos declarardes o Prometido, nós todos nos submeteremos pronta e inquestionavelmente. Com isto hipotecamos nossa lealdade e obediência a qualquer coisa que ordenardes que façamos." "Deus o proíba!", exclamou Mullá Husayn. "Longe esteja de Sua Glória que eu, que sou apenas pó, seja comparado com Aquele que é o Senhor dos Senhores! Tivésseis vós estado a par do tom da linguagem de Siyyid Kázím, jamais haveríeis pronunciado semelhante palavras. Vossa primeira obrigação, como também é a minha, é levantar-vos e levar a cabo, tanto no espírito como na letra, a mensagem de nosso bem-amado mestre expressa na hora de sua morte." Imediatamente levantou-se de seu assento e foi diretamente a Mirza Hasan-i-Gawhar, Mirza Muhít e outras figuras bem conhecidas dentre os discípulos de Siyyid Kázím. A cada um e a todos entregou intrepidamente a mensagem de despedida de seu mestre, deu ênfase ao caráter premente de seu dever e os exortou a se levantar e o cumprir. A seu apelo deram respostas evasivas e indignas. "Nossos inimigos", observou um deles, "são muitos e poderosos. Devemos permanecer nesta cidade e guardar o assento deixado vago por nosso falecido mestre." Replicou outro: "Incumbe-me aqui ficar e cuidar dos filhos que o Siyyid deixou". De imediato reconheceu Mullá Husayn o quanto eram fúteis seus esforços. Percebendo o grau de sua insensatez, sua cegueira e sua ingratidão, não mais lhes falou. Retirou-se, abandonando-os às suas ocupações vãs.
Como o ano sessenta, que viu nascer a prometida Revelação, acabava de despontar no mundo, pareceria ser apropriado, a esta altura, fazer uma digressão de nosso tema e mencionar certas tradições de Maomé e dos Imames da Fé, que a esse ano especificamente se referem. Imame Já'far, filho de Maomé, ao ser interrogado a respeito do ano em que o Qá'im haveria de se manifestar, deu a seguinte resposta: "Em verdade, no ano sessenta haverá de ser revelada a Sua Causa, e seu Nome será proclamado em toda parte". Nas obras do sábio e muito famoso Muhy'd-Dín-i-'Arabí, se encontram muitas referências relativas tanto ao ano do advento, como ao nome do prometido Manifestante. Entre estas estão as seguintes: "Os ministros e defensores de Sua Fé serão do povo da Pérsia". "Em seu nome o nome do Guardião (Ali) precede ao do profeta (Maomé)." "O ano de Sua Revelação é idêntico à metade daquele número que é divisível por nove (2520)." Mirza Muhammad-i-Akhbárí, em seus poemas que se referem ao ano da Manifestação, faz a seguinte profecia: "No ano de Ghars (o valor numérico de cujas letras é 1260) a Terra será iluminada por Sua luz, e em Gharasíh (1265) o mundo inundar-se-á de sua glória. Se viveres até o ano de Gharasíh (1270), haverás de testemunhar como as nações, os governantes, os povos e a Fé de Deus terão sido todos renovados. "Numa tradição atribuída ao Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis, outrossim está escrito: 'Em Ghars está plantada a Árvore da guia Divina'."
Mullá Husayn, havendo cumprido a obrigação que sentia de exortar e despertar seus condiscípulos, partiu de Karbilá para Najáf. Com ele estavam Muhammad-Hasan, seu irmão, e Muhammad-Báqir, seu sobrinho, havendo ambos o acompanhado sempre desde sua visita à sua cidade natal de Bushrúyih, na província de Khurásán. Ao chegar no Masjid-i-Kúfih, Mullá Husayn decidiu passar quarenta dias nesse lugar, onde viveu uma vida de retiro e oração. Com seus jejuns e vigílias preparou-se para a sagrada aventura em que em breve iria embarcar. Na prática destes atos de adoração, só seu irmão o acompanhou, enquanto seu sobrinho, que atendia às suas necessidades diárias, observava os jejuns e, nas horas de lazer, tomava parte em suas devoções.
Esta calma, como a de um claustro de convento, que os rodeava foi interrompida, depois de alguns dias, pela inesperada chegada de Mullá 'Alíy-i-Bastámí, um dos principais discípulos de Siyyid Kázím. Ele, juntamente com outros doze companheiros, chegou ao Masjid-i-Kúfih, onde encontrou seu condiscípulo Mullá Husayn absorto em contemplação e prece. Mullá 'Ali possuía tão vasta erudição e tão profundamente inteirado estava dos ensinamentos de Shaykh Ahmad que muitos o consideravam como superior até a Mullá Husayn. Em várias ocasiões tentou inquirir de Mullá Husayn seu destino após o término do período de seu retiro. Cada vez que dele se aproximava, encontrava-o tão imerso em suas devoções que lhe parecia impossível aventurar-se a lhe fazer uma pergunta. Breve resolveu retirar-se da sociedade dos homens, como ele, por quarenta dias. Todos os seus companheiros seguiram seu exemplo, com exceção de três que atuavam como seus servidores pessoais.
Imediatamente depois de haver completado seus quarenta dias de retiro, Mullá Husayn, junto com seus dois companheiros, partiu para Najáf. Saiu de Karbilá à noite, visitou no caminho o santuário de Najáf e seguiu diretamente a Búshihr, no Golfo Pérsico. Lá iniciou sua sagrada busca do Bem-Amado, o desejo de seu coração. Lá, pela primeira vez, inalou a fragrância dAquele que, durante anos, havia levado a vida de um comerciante e humilde cidadão. Lá percebeu os doces eflúvios de santidade dos quais incontáveis invocações desse Bem-Amado tão ricamente impregnara a atmosfera dessa cidade.
Não podia ele, entretanto, demorar mais tempo em Búshihr. Como se fosse puxado por um ímã que parecia atraí-lo irresistivelmente para o norte, dirigiu-se a Shíráz. Ao chegar aos portões da cidade, deu instruções a seu irmão e a seu sobrinho para que seguissem diretamente ao Masjid-i-Ílkhání e ali aguardassem sua chegada. Expressou a esperança de que, pela vontade de Deus, ele pudesse ali estar em tempo de participar de sua oração vespertina.
Nesse mesmo dia, poucas horas antes do pôr-do-sol, enquanto caminhava fora do portão da cidade, seus olhos de súbito avistaram um Jovem de rosto radiante, que usava um turbante verde e que, dele se aproximando, o saudou com sorriso de amorosas boas-vindas. Abraçou Mullá Husayn com afeto e ternura, como se tivesse sido amigo íntimo por toda vida. Mullá Husayn pensou, de início, que poderia ser um discípulo de Siyyid Kázím que, ao ser informado de sua vinda, havia saído para lhe dar boas-vindas.
Mirza Ahmad-i-Qazvíní, o mártir, que em várias ocasiões havia ouvido Mullá Husayn relatar aos primeiros crentes as circunstâncias de sua comovente e histórica entrevista com o Báb, contou-me o seguinte: "Tenho ouvido Mullá Husayn descrever repetida e claramente as circunstâncias dessa extraordinária entrevista: O jovem que veio a meu encontro fora do portão de Shíráz assombrou-me com suas expressões de afeto, amor e bondade. Convidou-me cordialmente a visitar Sua casa para ali me refrescar após as fadigas da jornada. Roguei que me desculpasse, explicando que meus dois companheiros já me haviam providenciado hospedagem nessa cidade e estavam, neste momento, esperando meu regresso. "Confia-os aos cuidados de Deus", foi sua resposta, "Ele seguramente os protegerá e vigiará." Dita estas palavras, pediu-me que O seguisse. Senti-me profundamente impressionado com a maneira meiga, ainda que persuasiva, com que me falou esse estranho Jovem. Enquanto eu O seguia, Seu andar, o encanto de Sua voz, a dignidade de Seu porte serviram para realçar minhas primeiras impressões desse inesperado encontro.
"Logo nos encontramos frente ao portão de uma casa de aspecto modesto. Ele bateu na porta, que logo foi aberta por um servente etíope. 'Entrai em paz e segurança' (4), foram Suas palavras enquanto cruzava o limiar e me fazia um sinal para que O seguisse. Seu convite, proferido com poder e majestade, tocou-me a alma. Parecia-me um bom augúrio serem dirigidas tais palavras a mim enquanto eu parava no limiar da primeira casa que iria entrar em Shiráz, cidade cuja própria atmosfera me havia produzido já uma impressão indescritível. Não seria possível, pensei comigo, que minha visita a esta casa permitisse aproximar-me mais do Objetivo de minha busca? Não apressaria o término de um período de intenso anelo, de procura tenaz, de crescente ansiedade que tal busca implica? Enquanto eu entrava na casa, acompanhando meu Anfitrião ao seu aposento, uma inexprimível sensação de alegria invadiu-me o íntimo. Imediatamente depois de sentarmos, Ele ordenou que fosse trazido um jarro de água e me convidou a lavar as mãos e os pés, para lhes tirar as máculas da viagem. Pedi-lhe permissão para me retirar de Sua presença e fazer minhas abluções num quarto contíguo. Recusou conceder minha petição e passou a despejar a água sobre minhas mãos. Deu-me de beber de uma poção refrescante, pedido o samovar (5), no qual Ele mesmo preparou o chá que me ofereceu.
"Constrangido por estes Seus gestos de extrema gentileza, levantei-me para partir. "A hora da oração vespertina aproxima-se", aventurei-me a observar. "Prometi a meus amigos reunir-me a eles, nesta hora, no Masjid-i-Ílkhání." Com profunda cortesia e calma, Ele replicou: "Certamente deveis ter condicionado a hora de vossa volta ao desejo e agrado de Deus. Parece que Seu decreto é outro. Não necessitais recear haver violado vossa promessa". Sua dignidade e confiança emudeceram-me. Renovei minhas abluções e me preparei para orar. Ele também ficou em pé ao meu lado e orou. Enquanto eu orava, aliviei minha alma, que estava demasiado oprimida pelo mistério dessa conversação e pela intensidade e ânsia de minha busca. Sussurrei esta prece: "De toda minha alma, ó meu Deus, esforcei-me por encontrar Teu Mensageiro prometido e até agora tenho fracassado. Testifico que Tua palavra não falha e que Tua promessa é certa".
Essa noite, essa memorável noite, era a véspera do quinto dia de Jamádíyu'l-Avval no ano de 1260 A.H. (6). Era aproximadamente uma hora após o pôr-do-sol quando meu jovem Anfitrião começou a conversar comigo. "Quem, depois de Siyyid Kázím", perguntou Ele, "considerais como seu sucessor e vosso mestre?" "Na hora de sua morte", repliquei, "nosso falecido mestre nos exortou insistentemente a abandonar nossos lares e nos espalhar por toda parte, em busca do prometido Bem-Amado. Conseqüentemente, rumei para a Pérsia, levantei-me para cumprir seu desejo e estou ainda comprometido em minha busca." "O seu mestre", inquiriu-me ainda, "vos deu algumas indicações detalhadas quanto às feições distintivas do Prometido?" "Sim", respondi, "Ele é de linhagem pura, de descendência ilustre e da semente de Fátimih. Quanto à Sua idade, tem mais de vinte anos e menos de trinta. É dotado de conhecimento inato, possui estatura mediante, abstém-se de fumar e está livre de qualquer deficiência física." Guardou silêncio por um momento e, então, com voz vibrante, declarou: "Vede, todos esses sinais estão manifestos em Mim!" Então analisou cada um dos sinais acima mencionados e demonstrou de modo concludente que todos eram aplicáveis à Sua pessoa. Senti-me profundamente admirado e observei de modo cortês: "Aquele Cujo advento esperamos é Homem de inexcedível santidade, e a Causa que Ele há de revelar, uma Causa de tremendo poder. Muitos e diversos são os requisitos que Aquele que pretende ser sua personificação visível deve cumprir. Quantas vezes Siyyid Kázím se referia à vastidão do conhecimento do Prometido! Quantas vezes dizia: 'Meu próprio conhecimento é apenas uma gota em comparação com aquele de que Ele foi dotado. Tudo que atingi nada mais é que uma partícula de pó em face da imensidão de Seu conhecimento. Não, imensurável é a diferença!" Mal haviam saído dos meus lábios estas palavras quando me senti acabrunhado de temor e remorso, a tal ponto que nem pude ocultá-lo nem explicá-lo. Repreendi-me amargamente e resolvi nesse momento mudar minha atitude e suavizar meu tom. Prometi a Deus que se meu Anfitrião se referisse outra vez ao tema, eu, com a maior humildade, responderia, dizendo: "Se vós estais disposto a demonstrar a validade de vossa pretensão, livrar-me-eis seguramente da ansiedade e suspense que em tal grau oprimem minha alma. Estarei em verdade grato a vós por essa libertação". Quando primeiramente iniciei minha busca, determinei-me a considerar os dois seguintes critérios pelos quais pudesse me certificar da verdade de qualquer um que pretendesse ser o prometido Qá'im. O primeiro foi um tratado que eu mesmo havia composto, que se referia aos ensinamentos abstrusos e ocultos exposto por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. A qualquer um que me parecesse capaz de desvendar as misteriosas alusões feitas nesse tratado, eu submeteria então meu segundo pedido e pediria a ele que revelasse sem a mínima vacilação ou reflexão a um comentário sobre a Sura de José, num estilo e linguagem inteiramente diferentes dos padrões que prevaleciam na época. Em ocasião anterior havia eu pedido a Siyyid Kázím, particularmente, que escrevesse um comentário sobre essa mesma Sura, ao que ele recusou, dizendo: "Isto, em verdade, está além de meus poderes. Aquele Grande Ser que vem depois de mim haverá de revelá-lo para vós, sem ser solicitado. Esse comentário constituirá um dos mais importantes testemunhos de Sua verdade e uma das evidências mais claras da sua elevada posição". (7)
"Revolvia estas coisas em minha mente quando meu distinto Anfitrião novamente observou: "Notai atentamente. Não poderia a Pessoa mencionada por Siyyid Kázím ser nenhum outro senão eu?" Com isso me senti impelido a lhe apresentar uma cópia do tratado que levava comigo. "Quereis vós", pedi-lhe, "ler este meu livro e examinar suas páginas com olhos indulgentes? Suplico que não repareis em minhas fraquezas e falhas." Cortesmente satisfez Ele meu desejo. Abriu o livro, olhou rapidamente certos trechos, fechou-o e começou a falar. Dentro de alguns minutos havia Ele, com vigor e encanto característico, desvendado todos os seus mistérios e resolvido todos os seus problemas. Havendo em tão pouco tempo cumprido, para minha inteira satisfação, a tarefa que eu esperava que executasse, Ele então expôs certas verdades que não poderiam ser encontradas nem nos dizeres atribuídos aos imames da Fé nem nos escritos de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. Estas verdades, que nunca antes eu havia ouvido, pareciam estar dotadas de brilho e poder refrescantes. "Não tivesses sido Meu hóspede", observou depois, "de fato teria sido grave tua posição. A graça de Deus que tudo abarca te salvou. A Deus compete provar Seus servos, e não a Seus servos julgá-Lo de acordo com suas normas deficientes. Fosse Eu falhar em dissipar tuas perplexidades, poderia se considerar impotente a Realidade que dentro de Mim resplandece, ou acusar de defeituoso Meu conhecimento? Não, pela justiça de Deus! Incumbe, neste dia, aos povos e nações, tanto do Oriente como do Ocidente, apressarem-se para alcançar este limiar e aqui se esforçarem por obter a graça vivificadora do Misericordioso. Quem vacilar sofrerá, em verdade, uma perda grave. Não atestam os povos da Terra ser o propósito fundamental de sua criação o conhecimento e a adoração de Deus? Cumpre-lhes levantarem-se com o mesmo fervor e espontaneidade com que tu te levantaste e buscar com determinação e constância seu prometido Bem-Amado." Logo prosseguiu dizendo: "Agora é chegado o tempo de revelar o comentário sobre a Sura de José". Tomou Sua pena e, com incrível rapidez, revelou toda a Sura de Mulk, o primeiro capítulo de Seu comentário sobre a Sura de José. O poderoso efeito da maneira como escrevia foi aumentado pela suave entoação de Sua voz, que acompanhava seu escrito. Nem por um momento interrompeu Ele o fluxo de versículos que manava de Sua pena. Nenhuma só vez se deteve antes de completar a Sura de Mulk. Permaneci sentado, extasiado pela magia de sua voz e pela força arrebatadora de Sua Revelação. Com relutância, afinal, levantei-me de meu assento e pedi que me permitisse partir. Sorrindo, Ele mandou-me sentar e disse: "Se saíres nesse estado, qualquer um que te veja dirá seguramente: 'Este pobre jovem perdeu o juízo". Nesse momento o relógio marcou duas horas e onze minutos depois do pôr-do-sol (8). Essa noite, véspera do quinto dia depois de Jamádíyu'l-Avval, no ano de 1260 A.H., correspondia à véspera do sexagésimo quinto dia depois de Naw-Rúz, que também era a véspera do sexto dia de Khurdád, do ano Nahang. "Esta noite", declarou Ele, "nesta mesma hora, será celebrada, em dias vindouros, como uma das maiores e mais significativas de todos os festivais. Rende agradecimentos a Deus por te haver ajudado, com sua graça, a atingir o desejo de teu coração, por haveres sorvido do vinho selado de Suas palavras. 'Bem-aventurados os que a isto atingem.'" (9)
Na terceira hora após o pôr-do-sol, meu Anfitrião mandou servir a ceia. O mesmo servente etíope apareceu de novo e pôs diante de nós os mais seletos pratos. Essa sagrada refeição refrescou tanto meu corpo quanto meu espírito. Na presença de meu Anfitrião, nesse momento, senti como se estivesse me alimentado com os frutos do Paraíso. Não podia senão maravilhar-me dos modos e das devotadas atenções desse servo etíope cuja própria vida parecia ter sido transformada pela influência regeneradora de Seu Mestre. Então pela primeira vez reconheci o que significavam as bem-conhecidas palavras tradicionais atribuídas a Maomé: "Preparei para os piedosos e os retos dentre Meus servos o que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano concebeu". Tivesse meu jovem Anfitrião somente esta prova de grandeza, teria sido suficiente - me recebeu com tal grau de hospitalidade e amorosa bondade, estando eu convencido de que nenhum outro ser humano poderia possivelmente revelar.
Continuei sentado, fascinado por Suas palavras, esquecido do tempo e daqueles que me esperavam. De súbito a chamada do muezim, convocando os fiéis à sua oração matinal, despertou-me do estado de êxtase em que pareceria haver caído. Todas as delícias, todas as glórias inefáveis que o Todo-Poderoso relatou em Seu Livro como as inestimáveis possessões do povo do Paraíso, estas eu parecia estar experimentando nessa noite. Parece-me que estava num lugar do qual em verdade se poderia verdadeiramente dizer: "Ali nenhuma faina nos alcançará, nenhuma fadiga nos haverá de tocar; não ouvirão ali nenhum discurso vão, nem falsidade alguma, mas, sim, apenas a exclamação: Paz! Paz!. "Sua exclamação ali será, 'Glória a Ti, ó Deus!' e sua saudação ali será: 'Paz! E o término de sua exclamação, 'Louvor a Deus, Senhor de todas as criaturas!'" (10)
O sono havia-me abandonado nessa noite. Cativara-me a música dessa voz que subia e baixava enquanto Ele entoava; ora crescendo com a revelação de versículos do Qayyúmu'l-Asmá (11), ora adquirindo harmonias sutis e etéreas, à medida que Ele pronunciava as orações que estava revelando (12). No fim de cada invocação, repetia este versículo: "Longe da glória de teu Senhor, o Todo-Glorioso, esteja o que Suas criaturas dEle afirmam! E paz esteja sobre Seus Mensageiros! E louvor a Deus, o Senhor de todos os seres!" (13)
Dirigiu-se a mim então nestas palavras: "Ó tu que és o primeiro a crer em Mim. Em verdade digo, sou o Báb, a Porta de Deus, e tu és o Bábu'l- Báb, a porta desta Porta. Dezoito almas devem, por sua própria e espontânea vontade no princípio, aceitar-me e reconhecer a verdade de Minha Revelação. Sem que ninguém lhes advirta ou convide, cada uma destas almas, independentemente, deve sair em Minha busca. Quando seu número estiver completo, um deles deve ser escolhido para acompanhar-Me em Minha peregrinação a Meca e Medina. Ali entregarei a Mensagem de Deus ao Sharíf de Meca. Regressarei então a Kúfih, onde, mais uma vez, no Masjid dessa cidade santa, manifestarei a Sua Causa. Incumbe-te não divulgar nem aos teus companheiros nem a qualquer outra alma o que tens visto e ouvido. Ocupa-te no Masjid-i-Ilkhání em oração e em ensino. Eu também ali contido tomarei parte na oração congregacional. Tem cuidado para que tua atitude para comigo não desvende o segredo de tua fé. Deves continuar nessa ocupação e manter essa atitude até nossa partida para Hijáz. Antes de partirmos, designaremos a missão especial de cada uma das dezoito almas e as mandaremos sair para cumprir sua tarefa. Nós as incumbiremos de ensinar a Palavra de Deus e vivificar as almas dos homens". Após me haver dito estas palavras, despediu-me de Sua presença. Acompanhando-me à porta da casa, entregou-me ao cuidado de Deus.
"Esta Revelação, que tão repentina e impetuosamente foi confiada a mim, veio como um corisco, que, por algum tempo, parecia haver entorpecido minhas faculdades (14). Cegou-me seu deslumbrante esplendor e sua força esmagadora. Excitação, júbilo, reverência e admiração agitavam as profundezas de minha alma. Predominante entre estas emoções era uma sensação de alegria e poder que parecia me haver transfigurado.
Quão débil e impotente, quão deprimido e temido me sentira antes! Então não podia escrever nem andar, tão trêmulas estavam minhas mãos e meus pés. Agora, porém, o conhecimento de Sua Revelação galvanizara meu ser. Senti que possuía tal coragem e tal poder que se o mundo, todos os seus povos e seus potentados fossem se levantar contra mim, eu só e destemido resistiria a sua investida. O universo parecia-me nada mais que um punhado de pó em minha mão. Eu parecia ser a Voz de Gabriel personificada, chamando toda a humanidade:'" "Despertai, pois vede!, despontou a Luz do amanhecer. Levantai-vos, pois Sua Causa se tornou manifesta. O portal de Sua Graça está completamente aberto; entrai aí, ó povos do mundo! Pois Aquele que é vosso Prometido já veio!"
"Em tal estado deixei Sua casa e fui ao encontro de meu irmão e meu sobrinho. Muitos dos seguidores de Shaykh Ahmad, que souberam de minha chegada, estavam reunidos no Masjid-i-Ilkhání à minha espera. Fiel às instruções do meu recém-encontrado Bem-Amado, logo me dispus a levar a cabo Seus desejos. A medida que começava a organizar minhas aulas e praticar minhas devoções, gradualmente vinha se reunindo ao meu redor uma vasta multidão de pessoas. Dignatários eclesiásticos e oficiais da cidade também vieram me visitar. Maravilharam-se com o espírito que meus discursos revelavam, sem perceber que a Fonte de onde fluía meu conhecimento outra não era senão Aquele cujo advento eles, ansiosamente, esperavam em sua maioria.
"Durante esses dias o Báb, em várias ocasiões, me chamou para ir visitá-Lo. À noite, enviava o mesmo servo etíope ao masjid, com sua mais afetuosa mensagem de boas-vindas. Cada vez que o visitava, passava a noite inteira em Sua presença. Desperto até o alvorecer, permanecia sentado a Seus pés, fascinado pelo encanto de Suas palavras e esquecido do mundo e de suas preocupações e fainas. Com que rapidez voavam essas horas preciosas! Ao amanhecer, retirava-me de Sua presença com relutância. Com quanta ansiedade naqueles dias, esperava que a hora do anoitecer se aproximasse! Com que sentimentos de tristeza e pesar contemplava o amanhecer do dia! Durante uma dessas visitas noturnas, meu Anfitrião se dirigiu a mim nas seguintes palavras: "Amanhã chegarão treze de teus companheiros. A cada um deles mostra a maior bondade e amor. Não os abandones, porque dedicaram suas vidas à busca de seu Bem-Amado. Suplica a Deus que Ele com Sua graça os ajude a andar seguramente nessa senda que é mais delgada que um cabelo e mais afiada que uma espada. Alguns dentre eles serão considerados, aos olhos de Deus, como Seus discípulos escolhidos e favorecidos. Quanto aos outros, seguirão o caminho intermediário. O destino dos demais permanecerá desconhecido até a hora em que tudo o que está oculto se fará manifesto". (15)
"Nessa mesma manhã, ao alvorecer, pouco depois de meu regresso da casa do Báb, Mullá Alíy-i-Bastámí, seguido pelo mesmo número de companheiros que me fora indicado, chegou no Masjid-i-Ílkhání. Logo comecei a providenciar os meios para seu conforto. Uma noite, poucos dias após sua chegada, Mullá 'Alí, como porta-voz de seus companheiros, externou sentimentos que não mais podia reprimir. "Bem sabes", disse, "como é grande nossa confiança em ti. Nós te dedicamos tamanha lealdade que se te declarassem o prometido Qá'ím, todos nos submeteríamos sem vacilação. Obedientes a tua chamada, temos abandonado nossos lares e partido em busca de nosso prometido Bem-Amado. Tu foste o primeiro a dar a todos nós esse nobre exemplo. Seguimos tuas pegadas. Estamos determinados a não relaxar nossos esforços antes de encontrarmos o Objeto de nossa busca. Nós te seguimos a este lugar dispostos a reconhecer a qualquer um que tu aceites, na esperança de buscar o abrigo de Sua proteção e de passar com êxito pelo tumulto e agitação que por força hão de assinalar a última Hora. Como é que agora te vemos ensinar ao povo e dirigir suas orações e devoções com a maior tranqüilidade? Aqueles sinais de agitação e expectativa parecem ter-se desvanecido de teu semblante. Diz-nos a razão, te imploramos, a fim de que também possamos ser livrados de nosso presente estado de incerteza e dúvida." "Teus companheiros", observei suavemente, "naturalmente podem atribuir minha paz e serenidade à ascendência que pareço haver adquirido nesta cidade. A verdade está longe disso. O mundo, eu te asseguro, com toda a sua pompa e suas seduções, jamais poderá alienar este Husayn de Bushrúyih de seu Bem-Amado. Sempre, desde o princípio desta sagrada missão em que embarquei, tenho jurado selar, com meu sangue vital, meu próprio destino. Por Sua causa tenho enfrentado com prazer a imersão num oceano de tribulação. Não anelo as coisas deste mundo. Só anseio pelo beneplácito de meu Bem-Amado. Até que derrame meu sangue por Seu Nome, o fogo que arde dentro de mim não se extinguirá. Apraza a Deus que vivas até presenciar esse dia. Não poderiam haver pensado teus companheiros que, em virtude da intensidade de seu anelo e da constância de seus esforços, Deus, em Sua infinita misericórdia, tenha se dignado a abrir bondosamente ante a face de Mullá Husayn a Porta de Sua graça e, desejando ocultar este fato de acordo com sua inescrutável sabedoria, o tenha mandado ocupar-se destas coisas? Estas palavras comoveram a alma de Mullá 'Alí. De imediato percebeu o que significavam. Com olhos lacrimosos me implorou que revelasse a identidade dAquele que transformara em paz minha agitação e convertera em certeza minha ansiedade. "Adjuro-te", instava ele, "que me confiras uma parte dessa sagrada poção que a Mão da misericórdia te deu de beber, pois seguramente me aliviará a sede e abrandará a dor de anelo em meu coração." "Não me solicites", repliquei, "a conceder-te este favor. Nele esteja tua confiança, pois decerto Ele te guiará os passos e acalmará o tumulto do coração."
Mullá 'Alí apressou-se em ir aos companheiros e lhes dar a conhecer a natureza de sua conversação com Mullá Husayn. Inflamados com o fogo que o relato dessa conversação acendera em seus corações, logo se dispersaram e, procurando a privacidade de suas celas, imploraram, mediante jejum e oração, que de pronto fosse removido o véu interposto entre eles e o reconhecimento de seu Bem-Amado. Enquanto guardavam vigília, oravam: "Ó Deus, nosso Deus! Só a Ti adoramos e a Ti pedimos ajuda. Guia-nos, Te suplicamos, ao Caminho reto, ó Senhor nosso Deus! Cumpre o que nos prometeste por Teus apóstolos e não nos humilhes no Dia da Ressurreição. Em verdade, não deixarás de cumprir Tua promessa."
Na terceira noite de seu retiro, enquanto, absorto em oração, Mullá 'Alíy-i-Bastámí teve uma visão. Apareceu ante seus olhos uma luz e, eis!, essa luz ia-se afastando de sua frente. Seduzido pelo seu esplendor, seguiu-a, até que o levou a seu Bem-Amado prometido. Nessa mesma hora, na vigília da meia-noite, levantou-se e, transbordando de júbilo e radiante de alegria, abriu a porta de seu aposento e apressou-se a ter com Mullá Husayn. Lançou-se nos braços de seu companheiro tão reverenciado. Mullá Husayn abraçou-o muito carinhosamente e disse: "Louvado seja Deus que nos guiou até aqui. Não teríamos sido guiados, não tivesse Deus nos guiado!"
Na mesma manhã, ao romper do dia, Mullá Husayn, seguido por Mullá 'Alí, apressou-se em ir à residência do Báb. Na entrada de Sua casa, encontraram o fiel servo etíope, que os reconheceu de imediato e os saudou nestas palavras: "Antes do despontar do dia, fui chamado à presença de meu Mestre e Ele me mandou abrir a porta da casa e permanecer esperando em seu limiar". "Dois hóspedes", disse-me, "hão de chegar cedo esta manhã. Dá-lhes em Meu Nome calorosas boas-vindas. Dize-lhes por Mim: 'Entrem em nome de Deus'."
O primeiro encontro de Mullá 'Alí com o Báb, que foi análogo ao encontro com Mullá Husayn, diferiu somente neste respeito, que enquanto no encontro anterior os testemunhos e provas da missão do Báb foram expostos e averiguados com olhos críticos, neste, todo argumento havia sido deixado de lado, não prevalecendo senão o espírito de intensa adoração e íntima e fervorosa amizade. Todo o aposento parecia haver sido vitalizado por esse poder celestial que emanava de Suas palavras inspiradas. Tudo nessa sala parecia estar vibrando com este testemunho: "Em verdade, rompeu a alvorada de um novo Dia. O Prometido está entronizado no coração dos homens. Em Sua mão segura a taça mística, o cálice da imortalidade. Bem-aventurados os que dela sorvem!"
Cada um dos doze companheiros de Mullá 'Alí por sua vez, espontaneamente, por seu próprio esforço, saiu em busca e encontrou seu Bem-Amado. Alguns adormecidos, outros acordados, enquanto alguns poucos em oração, e outros ainda em seus momentos de contemplação perceberam a luz desta Revelação Divina e foram levados a reconhecer o poder de sua glória. De igual maneira que Mullá 'Alí, estes e alguns mais, acompanhados por Mullá Husayn, atingiram a presença do Báb e foram declarados "Letras dos Viventes". Dezessete Letras foram gradativamente registradas na Epístola Preservada de Deus, sendo designados como os Apóstolos eleitos do Báb, os ministros de Sua Fé e os difusores de Sua Luz.
Uma noite, durante Sua conversação com Mullá Husayn, o Báb disse estas palavras: "Dezessete Letras até agora se registraram sob o estandarte da Fé de Deus. Resta mais uma para completar o número. Estas Letras dos Viventes haverão de se levantar para proclamar Minha Causa e estabelecer Minha Fé. Amanhã à noite chegará a Letra restante, completando o número de Meus discípulos escolhidos". No dia seguinte ao anoitecer, enquanto o Báb, seguido por Mullá Husayn, regressava à Sua casa, apareceu um jovem desgrenhado e empoeirado da jornada. Aproximou-se de Mullá Husayn, abraçou-o e lhe perguntou se havia atingido seu objetivo. Mullá Husayn de início tentou acalmar sua agitação e o aconselhou que descansasse por enquanto, prometendo que mais tarde o esclareceria. Esse jovem, no entanto, recusou aceitar seu conselho. Fixando seu olhar no Báb, disse a Mullá Husayn: "Por que escondê-Lo de mim? Posso reconhecê-Lo pelo Seu andar. Com confiança atesto que ninguém, senão Ele, quer no Oriente ou no Ocidente, pode pretender ser a Verdade. Nenhum outro pode manifestar o poder e a majestade que se irradiam de Sua santa pessoa". Mullá Husayn maravilhou-se de suas palavras. Pediu que o desculpasse, porém o induziu a restringir as emoções até o momento em que ele o pudesse fazer conhecer a verdade. Deixando-o, apressou-se a se aproximar do Báb, a quem informou de sua conversação com esse jovem. "Não te maravilhes", observou o Báb, "de sua estranha conduta. No mundo do espírito temos estado comungando, com esse jovem. Nós já o conhecemos. De fato, esperávamos sua vinda. Vai a ele e o chame imediatamente à Nossa presença." Ao ouvir estas palavras do Báb, Mullá Husayn recordou neste instante a seguinte tradição oral: "No último Dia, os Homens do Invisível, com as asas do espírito, haverão de atravessar a imensidade da Terra, atingir a presença do prometido Qá'ím e Dele buscar o segredo que lhes resolverá seus problemas e removerá Suas perplexidades".
Embora distantes em corpo, estas almas heróicas ocupam-se em comunhão diária com seu Bem-Amado, participam da graça de Suas palavras e compartilham o supremo privilégio de Sua companhia. De outro modo, como teriam Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím podido saber do Báb? Como teriam podido perceber o que significava o segredo que nEle jazia oculto? Como poderia o próprio Báb, como poderia Quddús, Seu querido discípulo, haver escrito em tais termos, não tivesse o místico laço do espírito ligado suas almas? Não aludiu o Báb, nos primeiros dias de Sua missão, nas passagens iniciais do Qayyúmu'l-Asmá, Seu comentário sobre a Sura de José, à glória e significação da Revelação de Bahá'u'lláh? Não foi Seu propósito, ao se referir à ingratidão e malícia que caracterizavam o trato dado a José pelos seus irmãos, predizer o que estava Bahá'u'lláh destinado a sofrer nas mãos de Seu irmão e familiares? Não esteve Quddús, ainda que assediado dentro da fortaleza de Shaykh Tabarsí pelos batalhões e pelo fogo de um inimigo implacável, ocupado dia e noite em completar seu elogio de Bahá'u'lláh - esse comentário imortal sobre o Sád de Samad que já havia alcançado o volume de quinhentos mil versículos? Cada versículo do Qayyúmu'l-Asmá, cada palavra do supracitado comentário de Quddús, se forem examinados desapaixonadamente, dará testemunho eloqüente desta verdade.
A aceitação por Quddús da verdade da Revelação do Báb completou o número designado de Seus discípulos escolhidos. Quddús, cujo nome era Muhammad-'Alí, pela sua mãe, era descendente direto do Imame Hasan, neto do Profeta Maomé. (16) Nasceu em Bárfurúsh, na província de Mázindarán. Os que assistiam aos discursos de Siyyid Kázím têm dito que, nos últimos anos da vida deste, Quddús se registrou como um dos discípulos do Siyyid. Era o último a chegar e invariavelmente ocupava o assento mais humilde na assembléia. Era o primeiro a partir ao término de cada reunião. O silêncio que ele observava e a modéstia de seu comportamento o distinguiam do resto de seus companheiros. Com freqüência se ouvia Siyyid Kázím observar que alguns entre seus discípulos, embora ocupassem os lugares mais humildes e observassem o mais estrito silêncio, eram no entanto tão exaltados aos olhos de Deus que ele mesmo se sentia indigno de figurar entre seus servidores. Seus discípulos, se bem que notassem a humildade de Quddús e admitissem o caráter exemplar de sua conduta, não vieram a perceber o que queria dizer Siyyid Kázím. Quando Quddús chegou em Shíráz e abraçou a Fé declarada pelo Báb, ele tinha apenas vinte e dois anos de idade. Embora jovem em idade, mostrou essa coragem e fé indomável que nenhum dos discípulos de seu mestre podia ultrapassar. Exemplificou pela sua vida e pelo seu glorioso martírio a verdade desta tradição: "Quem me buscar, haverá de Me encontrar. Quem Me encontrar, será atraído a Mim. Quem for atraído a Mim, haverá de Me amar. A qualquer um que Me ama, Eu também amarei. Àquele que for amado por Mim, hei de matar. Para aquele que for morto por Mim, Eu mesmo serei seu resgate".
O Báb, cujo nome era Siyyid 'Alí-Muhammad (17), nasceu na cidade de Shíráz, no primeiro dia de Muharram, no ano de 1235 A.H. (18) Pertencia a uma família de renome por sua nobreza e, cuja origem remontava ao próprio Maomé. A data de Seu nascimento confirmou a verdade da profecia tradicionalmente atribuída ao Imame 'Alí: "Sou dois anos mais jovem que meu Senhor". Vinte e cinco anos, quatro meses e quatro dias haviam transcorrido desde o dia de Seu nascimento quando declarou Sua Missão. Na primeira infância, perdeu o pai, Siyyid Muhammad-Ridá (19), um homem conhecido em toda a província de Fárs por sua piedade e virtude e tido em alta estima e honra. Tanto Seu pai quanto Sua mãe eram descendentes do Profeta, sendo ambos amados e respeitados pelo povo. Foi criado por Seu tio materno, Hájí Mirza Siyyid 'Alí, um mártir para a Fé, que O pôs, ainda criança, sob os cuidados de um tutor chamado Shaykh 'Ábid.(20) O Báb, embora tivesse pouca inclinação para o estudo, submeteu-se à vontade e às instruções de Seu tio.
Shaykh 'Ábid, conhecido pelos seus alunos como Shaykhuná, era um homem piedoso e erudito. Fora discípulo tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázím. "Um dia", relatou, "pedi ao Báb que recitasse as palavras iniciais do Alcorão: 'Bismi'lláhi'r-Rahmáni'r-Rahím'. (21) Ele hesitou, pedindo que, a não ser que lhe fosse dito o que estas palavras significavam, não iria de modo algum tentar pronunciá-las. Fingi não conhecer seu significado. 'Sei o que estas palavras significam', observou meu aluno, 'com vossa permissão, explicá-las-ei.' Falou com tanto conhecimento e fluência que me senti assombrado. Expôs o significado de Alláh de Rahmán e Rahím em termos que eu jamais havia lido nem ouvido. A doçura de Sua expressão ainda se detém em minha memória. Senti-me impelido a levá-lo de volta a Seu tio, a entregar em suas mãos a incumbência que havia confiado a meus cuidados. Estava decidido a lhe dizer quanto me sentia indigno de educar um menino tão extraordinário. Encontrei Seu tio sozinho em seu trabalho. 'Vim trazê-Lo de volta a vós', disse-lhe, 'e entregá-Lo a vossa vigilante proteção. Não há de ser tratado como um menino qualquer, pois nEle já posso discernir as evidências daquele poder misterioso que a Revelação do Sáhibu'z-Zamán (22) tão somente pode revelar. Incumbe-vos rodeá-Lo de vosso mais carinhoso cuidado. Guardai-O em vossa casa, porque Ele em verdade não necessita de mestres como eu.' Hájí Mirza Siyyid 'Alí severamente repreendeu o Báb. 'Tens esquecido minhas instruções?', perguntou. 'Já não lhe adverti que seguisses o exemplo de Teus condiscípulos, que guardasses silêncio e escutasses atentamente cada palavra dita pelo Teu mestre?' Havendo obtido Sua promessa de cumprir fielmente suas instruções, mandou o Báb voltar a Sua escola. A alma dessa criança, porém, não podia ser reprimida pelas austeras advertências de Seu tio. Nenhuma disciplina poderia reprimir o fluxo de Seu conhecimento intuitivo. Dia após dia continuava a manifestar sinais tão extraordinários de sabedoria que sou incapaz de relatar." Finalmente foi Seu tio induzido a tirá-Lo da escola de Shaykh 'Ábid e associá-Lo consigo em sua própria profissão. (23) Lá também manifestou sinais de um poder e uma grandeza que poucos podiam aproximar e ninguém rivalizar.
Alguns anos mais tarde (24) o Báb foi unido em matrimônio com a irmã de Mirza Siyyid Hasan e Mirza Abu'l-Qásim. (25) Ao filho que nasceu desta união deu o nome de Ahmad. (26) Morreu no ano de 1259 A.H. (27), o ano precedente à declaração da Fé pelo Báb. O Pai não lamentou sua perda. Consagrou sua morte com palavras como estas: "Ó Deus, meu Deus! Oxalá fossem dados mil Ismaéis a Mim, este Abraão Teu, para que Eu os pudesse ter oferecido, cada um e todos, como sacrifício de amor a Ti. Ó meu Bem-Amado, o Desejo de meu coração! O sacrifício deste Ahmad que Teu servo 'Alí-Muhammad ofereceu no altar de Teu amor jamais pode bastar para extinguir a chama de anelo em Seu coração. Enquanto Ele não imolar Seu próprio coração aos Teus pés, enquanto todo o Seu corpo não cair vítima da tirania mais cruel em Teu caminho e Seu peito não se tornar alvo de incontáveis dardos por Tua causa, não se aquietará o tumulto de Sua alma. Ó meu Deus, meu único Desejo! Permite que o sacrifício de Meu filho, Meu único filho, Te seja aceitável. Concede que seja um prelúdio para o sacrifício de Meu próprio Ser, de todo o Meu ser, na senda de Teu beneplácito. Imbui de Tua graça Meu sangue vital, que eu anseio por derramar em Teu caminho. Faze-o regar e nutrir a semente de Tua Fé. Dota-o de Tua potência celestial, para que esta recém-nascida semente de Deus possa breve germinar nos corações dos homens, que medre e floresça, crescendo até se tornar uma grande árvore, sob cuja sombra possam se reunir todos os povos e raças da Terra. Responde Tu a Minha prece, ó Deus, e cumpre Meu mais acariciado desejo. Tu és, em verdade, o Onipotente, o Todo-Generoso". (28)
Os dias que Báb dedicou às ocupações comerciais foram passados, em sua maior parte, em Búshihr. (29) O calor opressivo do verão não O impediu de devotar, cada sexta-feira, algumas horas à adoração contínua no alto de Sua casa. Embora exposto aos impiedosos raios do sol do meio-dia, volvendo o coração ao Seu Bem-Amado, continuava a comungar com Ele, inconsciente da intensidade do calor e esquecido do mundo em volta de Si. Desde a primeira alvorada até o nascer do sol, e do meio-dia ao fim da tarde, dedicava Seu tempo à meditação e piedosa adoração. Volvendo seu olhar para o norte, em direção a Teerã, todos os dias ao alvorecer, com o coração transbordante de amor e júbilo, saudava o sol nascente, que para Ele era sinal e símbolo daquele Sol de Verdade que breve despontaria sobre o mundo. Como o apaixonado que contempla a face da bem-amada, fitava Ele o orbe nascente com anelo e constância. Parecia estar-se dirigindo, em linguagem mística, àquele luminar brilhante e estar-lhe confiando Sua mensagem de anelo e amor pelo Seu Bem-Amado oculto. Com tão extático deleite saudava seus raios resplandecentes que os incautos e pouco esclarecidos ao seu redor pensavam Ele estar enamorado do próprio sol. (30)
Tenho ouvido Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í (31) relatar o seguinte: "Enquanto viajava à Índia, passei por Búshihr. Como já conhecia Hájí Mirza Siyyid'Alí, foi possível me encontrar com o Báb em várias ocasiões. Todas as vezes que O encontrei, eu O achei em tal estado de humildade e modéstia que não encontro palavras para descrevê-Lo. Seus olhos baixos, sua cortesia extrema e a expressão serena de Sua face causaram uma impressão indelével em minha alma. (32) Com freqüência ouvia aqueles que lhe estavam estreitamente associados testemunharem a pureza de Seu caráter, o encanto de Seus modos, Sua abnegação, o alto grau de Sua integridade e Sua completa devoção a Deus. (33) Certo homem confiou-lhe uma mercadoria, pedindo que desta dispusesse por um determinado preço. Quando o Báb lhe enviou o valor do objeto, o homem verificou que a soma que lhe fora oferecida excedia consideravelmente o limite fixado. Escreveu de imediato ao Báb, pedindo que lhe explicasse a razão. O Báb respondeu: "O que vos enviei é exatamente o que vos é devido. Não há um só centavo em excesso daquilo a que tendes direito. Houve um tempo em que o objeto que Me entregastes alcançou esse valor. Como deixei de vendê-lo por esse preço, considero que agora é Meu dever oferecer-vos essa quantia total". Por mais que o cliente do Báb rogasse permitir que lhe devolvesse a soma em excesso, O Báb persistiu em recusar.
"Com que assíduo cuidado Ele assistia àquelas reuniões nas quais eram elogiadas as virtudes do Siyyidu'sh-Shuhadá', o Imame Husayn! Com quanta atenção escutava a entoação dos elogios! Que ternura e devoção demonstrava nessas cenas de lamento e prece! Lágrimas choviam de Seus olhos enquanto Seus lábios trêmulos murmuravam palavras de oração e louvor. Quão comovedora era Sua dignidade, quão ternos os sentimentos que seu semblante inspirava!"
Quanto àqueles cujo privilégio supremo foi ser registrados pelo Báb no livro de Sua Revelação como Suas escolhidas Letras dos Viventes, seus nomes são os seguintes:
Mullá Husayn-i-Bushrú'í,
Muhammad-Hasan, seu irmão,
Muhammad-Báqir, seu sobrinho,
Mullá 'Alíy-i-Bastámí,
Mullá Khudá-Bakhsh-i-Qúchání, mais tarde chamado Mullá'Alí,
Mullá Hasan-i-Bajistání,
Siyyid Husayn-i-Yazdí,
Mirza Muhammad Rawdih-Khán-i-Yazdí,
Sa'id-i-Hindí,
Mullá Mahmúd-i-Khu'í,
Mullá Jalíl-i-Urúmí,
Mullá Ahmad-i-Ibdál-i-Marághi'í,
Mullá Báqir-i-Tabrízí,
Mullá Yúsif-i-Ardibílí,
Mirza Hádí, filho de Mullá 'Abdu'l-Vahháb-i-Qazviní,
Mirza Muhammad-'Alíy-i-Qazviní (34),
Táhirih (35),
Quddús.
Todos estes, com exceção somente de Táhirih, atingiram a presença do Báb e foram por Ele pessoalmente investidos da distinção desse grau. Foi ela quem, sabendo que o esposo de sua irmã, Mirza Muhammad-'Alí, tencionava partir de Qazvín, lhe confiou uma carta lacrada, pedindo que a entregasse Àquele Prometido a quem ela disse que seguramente ele haveria de encontrar no curso de sua viagem. "Diga-Lhe, de mim", acrescentou, "a refulgência de Tua face cintilou e os raios de Teu semblante remontaram ao alto. Então pronuncie as palavras "Não sou Eu teu Senhor?", e "Tu és, Tu és!" nós todos responderemos.'" (36)
Mirza Muhammad-'Alí no fim encontrou e reconheceu o Báb e lhe transmitiu tanto a mensagem como a carta de Táhirih. O Báb de imediato a declarou uma das Letras dos Viventes. Seu pai, Hájí Mullá Sálih-i-Qazvíní e seu irmão, Mullá Taqí eram ambos mujtahids de grande renome (37), versados nas tradições da lei muçulmana e universalmente respeitados pelas pessoas de Teerã, Qazvin e outras das cidades principais da Pérsia. Ela era casada com Mullá Muhammad, filho de seu tio, Mullá Taqí, a quem os xiitas deram o nome de Shahíd-i-Thálith. (38) Embora sua família pertencesse aos Bálá-Sarí, somente Táhirih mostrava, desde o princípio, notável simpatia e devoção a Siyyid Kázím. Como evidência de sua admiração pessoal por ele, escreveu uma apologia em defesa e justificação dos ensinamentos de Shaykh Ahmad e lhe apresentou. A esta recebeu ela muito breve uma resposta redigida em termos os mais afetuosos, em cujas passagens iniciais o Siyyid lhe dirigiu estas palavras: "Ó tu que és o consolo de meus olhos (Yá Qurrat-i-'Ayní!) e o júbilo de meu coração!" Sempre, desde aquele tempo, ela tem sido conhecida como Qurratu'l-'Ayn. Depois da reunião histórica de Badasht, grande número dos que assistiram assombrou-se diante da intrepidez e linguagem franca dessa heroína a ponto de achar ser seu dever informar o Báb do caráter de seu comportamento assustador e sem precedentes. Tentaram macular a pureza de seu nome. Àquelas acusações o Báb replicou: "Que direi Eu daquela a quem a Língua de Poder e Glória deu o nome de Táhirih (a pura)?" Estas palavras bastaram para silenciar aqueles que haviam tentado lhe minar a posição. Desde então foi ela designada pelos crentes Táhirih. (39)
Convém dizermos agora algumas palavras em explicação do termo Bálá-Sarí. Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím, bem como seus seguidores, quando visitavam o santuário do Imame Husayn em Karbilá, ocupavam invariavelmente, como sinal de reverência, o extremo inferior do sepulcro. Além deste jamais passaram, enquanto outros devotos, os Bálá-Sarí, recitavam suas orações na seção superior desse santuário. Os shaykhís, por acreditarem que "todo crente verdadeiro vive tanto neste mundo, quanto no vindouro", acharam que era indecoroso e impróprio ultrapassar os limites das seções inferiores do santuário do Imame Husayn, o qual aos seus olhos era a própria personificação do crente mais perfeito. (40)
Mullá Husayn, que esperava ser o companheiro escolhido do Báb durante Sua peregrinação a Meca e Medina, foi chamado para a presença de seu Mestre quando decidiu partir de Shíráz, e dele recebeu as seguintes instruções: "Os dias de nosso companheirismo aproxima-se do fim. Meu Convênio contigo está agora cumprido. Prepara-te para os máximos esforços e te levanta para difundir Minha Causa. Não te desalentes ao veres a degradação e perversidade desta geração, pois o Senhor do Convênio há seguramente de te assistir. Em verdade, Ele rodear-te-á com Sua amorosa proteção e te conduzirá de vitória em vitória. Assim mesmo como a nuvem que faz chover sobre a terra sua graça, atravessa o país de extremo a extremo e derrama sobre seu povo as bênçãos que o Todo-Poderoso, em Sua misericórdia, se dignou te conferir. Sê tolerante para com os ulemás e te resigna à vontade de Deus. Levanta o chamado: 'Despertai, despertai, pois, eis!, a Porta de Deus está aberta e a Luz matinal irradia seu fulgor sobre toda a humanidade! O Prometido torna-se manifesto; preparai-Lhe o caminho, ó povos da Terra! Não vos priveis de sua graça redentora, nem fecheis os olhos para sua fulgente glória'. Com aqueles que encontrardes receptivos ao teu chamado, reparte as epístolas que Nós te revelamos, para que talvez estas maravilhosas palavras os possam fazer se afastar do abismo da negligência e se elevar ao domínio da Presença Divina. Nesta peregrinação que em breve haveremos de embarcar, escolhemos Quddús como Nosso companheiro. Nós te deixamos para enfrentares a investida de um inimigo feroz e implacável. Tem tu certeza, porém, de que uma graça indizivelmente gloriosa te será conferida. Segue o curso de tua jornada para o norte e visita no caminho Isfáhán, Káshán, Qum e Teerã. Implora à Providência onipotente que por Sua bondade te permita atingir, nessa capital, a sede da soberania verdadeira e entrar na mansão do Bem-Amado. Nessa cidade jaz oculto um segredo. Ao se tornar manifesto, transformará a Terra num paraíso. É Minha esperança que possas participar de sua graça e reconhecer seu esplendor. De Teerã procede a Khurásán e ali proclama de novo o Chamado. Regressa dali a Najáf e Karbilá onde deves aguardar o chamado de teu Senhor. Tem tu certeza de que a alta missão para que foste criado há de ser, em sua totalidade, por ti cumprida. Até que tiveres consumado tua tarefa, se todos os dardos de um mundo descrente contra ti forem dirigidos, um cabelo sequer de tua cabeça não terão eles o poder de lesar. Todas as coisas estão presas em Suas mãos poderosas. Ele, em verdade, é o Onipotente, Aquele que a tudo domina".
Chamou o Báb então a Sua Presença Mullá 'Alíy-i-Bastámí e lhe dirigiu palavras de ânimo, afeto e bondade. Deu-lhe instruções para seguir diretamente para Najáf e Karbilá, referiu-se às severas provações e aflições que lhe sobreviriam e exortou-o a manter-se firme até o fim. "Tua fé", disse-lhe, "deve ser imóvel como a rocha, deve resistir a toda tempestade e sobreviver a toda calamidade. Não permitas que as denúncias dos néscios e as calúnias do clero te aflijam ou te desviem de teu propósito. Pois és chamado a participar do banquete celestial que te foi preparado no Reino imortal. Tu és o primeiro a partir da Casa de Deus e a sofrer por Sua Causa. Se fores morto em Seu caminho, lembra-te que grande será tua recompensa e bela a dádiva que te será conferida."
Assim que haviam sido pronunciadas estas palavras, Mullá 'Alí se levantou de seu assento e partiu em cumprimento de sua missão. A distância de mais ou menos um farsang de Shíráz, alcançou-o um jovem, enrubescido de emoção, que pediu com impaciência permissão para lhe falar. Seu nome era 'Abdu'l-Vahháb. "Imploro-vos", suplicou com lágrimas a Mullá 'Alí, "permiti que vos acompanhe em vossa jornada. Perplexidades oprimem meu coração; peço-vos que guieis meus passos no caminho da Verdade. Na noite passada, em meu sonho, ouvi o pregoeiro anunciar, na rua do mercado de Shíráz, o aparecimento do Imame 'Alí, Comandante dos Fiéis. Ordenou à multidão: 'Levantai-vos e o buscai. Vede, ele tira do fogo ardente cartas de liberdade e as está distribuindo ao povo. Apressai-vos a ele, pois quem quer que as receba de suas mãos estará salvo do sofrimento penal, e quem dele não as puder obter será privado das bênçãos do Paraíso'. Logo que ouvi a voz do pregoeiro, levantei-me e, abandonando minha loja, atravessei correndo a rua do mercado de Vakíl para um lugar de onde meus olhos vos avistaram em pé distribuindo aquelas mesmas cartas ao povo. A cada um que se aproximava para recebê-las de vossas mãos, vós lhe sussurravas no ouvido algumas palavras que no mesmo instante o faziam fugir em consternação e exclamar: 'Ai de mim, pois estou privado das bênçãos de 'Alí e dos seus! Oh, miserável sou, por ser contado entre os proscritos e caídos!' Acordei de meu sonho e, imerso num oceano de pensamento, encontrei-me novamente em minha loja. De súbito vos vi passar, acompanhado por um homem que usava turbante e que estava conversando convosco. Pulei de meu assento e, impelido por um poder que não conseguia reprimir, corri para vos alcançar. Para grande surpresa minha, eu vos encontrei no mesmo lugar que havia visto em meu sonho e ocupado em recitar tradições e versículos. Em pé, um pouco afastado, continuei a vos observar, sem ser visto por vós e vosso amigo. Ouvi o homem a quem vos dirigistes protestar impetuosamente: 'Mais fácil para mim é ser devorado pelas chamas do inferno do que admitir a verdade de vossas palavras, cujo peso nem montanhas são capazes de sustentar!' A seu desdenhoso repúdio replicastes: 'Fosse todo o universo rejeitar Sua verdade, jamais poderia embaciar a imaculada pureza de Seu manto de grandeza'. Afastando-se dele, dirigistes vossos passos ao portal de Kázirán. Continuei a vos seguir até alcançar este lugar."
Mullá 'Alí tentou tranqüilizar seu coração agitado e persuadí-lo a voltar à sua loja e continuar seu trabalho diário. "Tua associação comigo", argüia, "só me envolveria em dificuldades. Regressa a Shíráz e fique tranqüilo, pois estás contado entre o povo da salvação. Longe esteja da justiça de Deus negar o cálice de Sua graça a quem com tanto fervor e devoção O busca, ou privar uma alma tão sedenta do oceano encapelado de Sua Revelação." Em vão foram as palavras de Mullá 'Alí. Quanto mais ele insistia no regresso de 'Abdu'l-Vahháb, mais altos se tornavam seus lamentos e prantos. Finalmente Mullá 'Alí se sentiu constrangido a satisfazer seu desejo, resignando-se à vontade de Deus.
Hájí 'Abdu'l-Majíd, pai de 'Abdu'l-Vahháb, tem relatado muitas vezes, com os olhos cheios de lágrimas, esta história: "Quão profundamente me arrependo do ato que cometi. Que Deus me conceda remissão de meu pecado. Eu era um dos favorecidos na corte dos filhos do Farmán-Farmá, governador da província de Fárs. Tal era minha posição que ninguém se atrevia a se opor a mim ou me causar dano. Ninguém questionava minha autoridade ou se aventurava a interferir em minha liberdade. Logo ao saber que meu filho 'Abdu'l-Vahháb havia abandonado sua loja e saído da cidade, corri em direção ao portal de Kázirán para alcançá-lo. Armado de clava, com a qual tencionava lhe bater, indaguei o caminho que tomara. Disseram-me que um homem que usava turbante acabava de atravessar a rua e haviam visto meu filho segui-lo. Pareciam haver combinado partir da cidade juntos. Isto excitou minha ira e indignação. Como podia tolerar, pensei comigo, comportamento tão indigno da parte de meu filho, eu, que já ocupo tão privilegiada posição na corte dos filhos do Farmán-Farmá? Nada senão o mais severo castigo, pensava, poderia apagar o efeito da conduta vergonhosa de meu filho.
"Continuei a busca até alcançá-los. Possuído de uma fúria selvagem, infligi a Mullá 'Alí injúrias indizíveis. Aos golpes que caíam pesadamente sobre ele, respondeu, com extraordinária serenidade: 'Detém tua mão, ó 'Abdu'l-Majíd, pois os olhos de Deus te observam. Tomo-O como minha testemunha de que não sou, de modo algum, responsável pela conduta de teu filho. Não me importam as torturas que me infliges, pois estou preparado para as mais graves aflições no caminho que tenho escolhido. Tuas injúrias, ao lado daquilo que me é destinado a sobrevir no futuro, são como uma gota em comparação com o oceano. Em verdade digo, tu haverás de sobreviver a mim e virás a reconhecer minha inocência. Grande, então, será teu remorso e profunda tua tristeza'. Desdenhando suas palavras e não atendendo a seu apelo, continuei a nele bater até me sentir exausto. Em silêncio e com heroísmo suportou aquele castigo tão completamente imerecido. Finalmente, mandei meu filho seguir-me e deixei Mullá 'Alí só.
"No caminho de volta a Shíráz, meu filho relatou-me o sonho que tivera. Um sentimento de remorso profundo pouco a pouco se apoderou de mim. A inocência de Mullá 'Alí foi vindicada a meus olhos e a lembrança de minha crueldade continuou por muito tempo a me oprimir a alma. Sua amargura deteve-se em meu coração até o tempo em que me senti obrigado a transferir minha residência de Shíráz a Bagdá. De Bagdá mudei para Kázimayn, onde 'Abdu'l-Vahháb estabeleceu seus negócios. Um estranho mistério pairava sobre sua face jovial. Parecia estar escondendo de mim um segredo que, aparentemente, lhe havia transformado a vida. Quando no ano de 1267 A.H., (41) Bahá'u'lláh viajou ao Iraque e visitou Kázimayn, 'Abdu'l-Vahháb foi logo cativado pelo Seu encanto e lhe hipotecou Sua imorredoura devoção. Poucos anos depois, quando meu filho havia sofrido martírio em Teerã e Bahá'u'lláh fora exilado para Bagdá, Ele, com infinita misericórdia e mercê, despertou-me do sono da negligência e me ensinou, Ele Mesmo, a mensagem do Novo Dia, lavando com as águas do perdão divino as manchas desse ato cruel".
Este episódio assinala a primeira aflição que sucedeu a um discípulo do Báb após a declaração de Sua missão. Mullá 'Alí percebeu nessa experiência como era íngreme e espinhosa a senda que o levaria a atingir, por fim, aquilo que seu Mestre lhe prometera. Totalmente resignado à Sua Vontade e pronto a derramar seu sangue vital por Sua Causa, reiniciou sua viagem até que chegou em Najáf. Na presença de Shaykh Muhammad-Hasan, um dos mais célebres eclesiásticos do islã xiita, e ante uma distinguida companhia de seus discípulos, Mullá 'Alí anunciou destemidamente a manifestação do Báb, da Porta cujo advento ansiosamente esperavam. "Sua prova", declarou, "é Sua Palavra; Seu testemunho, nenhum outro, senão o testemunho com o qual o islã procura vindicar sua verdade. Da pena deste iletrado jovem Háshimita da Pérsia fluíram, no período de quarenta e oito horas, tão grande número de versículos, orações, homilias e tratados científicos que ingualariam em volume o Alcorão inteiro, o que Maomé, o Profeta de Deus, levou vinte e três anos para revelar!" Aquele líder orgulhoso e fanático, em vez de receber com agrado, numa era de trevas e preconceitos, estas evidências vivificadoras de uma recém-nascida Revelação, logo pronunciou Mullá 'Alí um herege e o expulsou da assembléia. Seus discípulos e seguidores, até mesmo os shaykhís, que já haviam testemunhado a piedade, sinceridade e erudição de Mullá 'Alí, endossaram sem hesitação o juízo contra ele. Os discípulos de Shaykh Muhammad-Hasan, unindo-se com seus adversários, amontoaram sobre ele incontáveis indignidades. Entregaram-no por fim, com as mãos acorrentadas, a um oficial do governo otomano acusando-o de ser um detrator do Islã, um caluniador do Profeta, um instigador de distúrbio, uma vergonha para a Fé e digno da pena de morte. Foi levado a Bagdá sob a escolta de oficiais do governo e encarcerado pelo governador dessa cidade.
Hájí Háshim, de sobrenome 'Attár, preminente comerciante, que era bem versado nas Escrituras do Islã, contou o seguinte: "Estive presente na casa do governo numa ocasião em que Mullá 'Alí foi chamado à presença de uma assembléia de notáveis e oficiais dessa cidade. Foi acusado publicamente de ser um infiel, um abrogador das leis do Islã e repudiador de seus rituais e normas estabelecidas. Depois de haverem sido enumeradas suas supostas ofensas e infrações, o mufti, o principal expoente da lei do Islã nessa cidade, virou-se para ele e disse: "Ó inimigo de Deus!' Como eu ocupava um lugar ao lado do mufti, sussurrei em seu ouvido: 'Não conheceis ainda esse infeliz estranho. Porque lhe falais nesses termos? Não compreendeis que tais palavras excitarão contra ele a ira da população? Convém que não considereis as infundadas incriminações que esses intrometidos pronunciaram contra ele, que o interrogueis pessoalmente e julgueis de acordo com as normas estabelecidas de justiça que a Fé do Islã inculca'. O mufti desagradou-se seriamente e, levantando-se de seu lugar, saiu da reunião. Novamente foi Mullá 'Alí encarcerado. Poucos dias depois, perguntei por ele, com a esperança de conseguir sua libertação. Informaram-me que na noite daquele mesmo dia ele havia sido deportado para Constantinopla. Indaguei mais, esforçando-me por averiguar o que afinal lhe havia sucedido. Não pude, entretanto, descobrir a verdade. Acreditavam alguns que ele na viagem a Constantinopla adoecera, vindo a falecer. Outros asseveraram haver ele sofrido martírio". (42) Qualquer que fosse seu fim, Mullá 'Alí por sua vida e por sua morte, ganhou a distinção imortal de haver sido o primeiro a sofrer na senda desta nova Fé de Deus, o primeiro a oferecer a vida em holocausto no Altar do Sacrifício.
Havendo expedido Mullá 'Alí em sua missão, O Báb chamou à Sua presença as restantes Letras dos Viventes e a cada um por sua vez deu um mandato especial e designou uma determinada tarefa. Dirigiu-lhes estas palavras de despedida: "Ó Meus bem-amados amigos! Sois os portadores do Nome de Deus neste Dia. Fostes escolhidos como os depositários de Seu mistério. Incumbe a cada um de vós manifestar os atributos de Deus e exemplificar por vossas ações e palavras os sinais de Sua retidão, Seu poder e Sua glória. Os próprios membros de vossos corpos devem testemunhar a sublimidade de vosso propósito, a integridade de vossa vida, a realidade de vossa fé e o caráter elevado de vossa devoção. Pois em verdade digo, este é o Dia de que Deus falou em Seu Livro: (43) 'Nesse Dia haveremos de pôr um selo sobre seus lábios; no entanto, suas mãos Nos falarão e seus pés darão testemunho daquilo que tiverem feito'. Ponderai as palavras de Jesus aos Seus discípulos quando os mandou sair a fim de propagar a Causa de Deus. Em palavras como estas Ele os exortou a se levantar e cumprir sua missão: 'Sois assim mesmo como o fogo que na escuridão da noite se acendeu no cume da montanha. Deixai vossa luz brilhar ante os olhos dos homens. Tal deve ser a pureza de vosso caráter e o grau de vossa renúncia que os povos da Terra possam, por vosso intermédio, reconhecer o Pai Celestial, que é a Fonte de pureza e graça e Dele mais se aproximar. Pois ninguém tem visto o Pai que está no céu. Vós que sois Seus filhos espirituais deveis por vossas ações exemplificar Suas virtudes e dar testemunho de Sua glória. Sois o sal da terra, mas se o sal tiver perdido seu sabor, com que se haverá de salgá-la? O grau de vosso desprendimento deve ser tal que em qualquer cidade que entreis para proclamar e ensinar a Causa de Deus, de modo algum deveis esperar alimento ou recompensa de seu povo. Não, ao partides dessa cidade, deveríeis sacudir o pó de vossos pés. Assim como nela entrastes, puros e sem mácula, também deveis partir. Pois em verdade digo, o Pai celestial está sempre convosco e vos vigia. Se Lhe fordes fiéis, Ele seguramente entregará em vossas mãos todos os tesouros da Terra e vos exaltará acima de todos os governantes e reis do mundo'. Ó Minhas Letras! Em verdade digo, imensamente elevado é este Dia acima dos dias dos Apóstolos de antanho. Não, imensurável é a diferença! Sois as testemunhas do Alvorecer do prometido Dia de Deus. Sois os que participam do cálice místico de Sua Revelação. Preparai-vos para fazerdes o máximo esforço e atendei às palavras de Deus assim como são reveladas em Seu Livro: (44) 'Eis, o Senhor teu Deus já veio e com Ele está a companhia de Seus anjos que estão dispostos à Sua vanguarda!' Purificai vossos corações dos desejos terrenos e deixai que as virtudes angelicais sejam vosso adorno. Esforçai-vos para que pelos vossos atos possais dar testemunho da verdade destas palavras de Deus, e acautelai-vos para que, por vos haverdes 'voltado para trás', Ele não 'vos troque por um outro povo' que 'vos não será similar' e que de vós haverá de tirar o Reino de Deus. Os dias em que se julgava suficiente a vã adoração chegaram ao fim. Veio o tempo em que nada senão o mais puro motivo, apoiado por ações de imaculada pureza, pode ascender ao trono do Altíssimo e lhe ser aceitável. 'A boa palavra ascende a Ele, e a ação reta fará com que seja exaltada diante Dele.' Sois os humildes, de quem Deus assim falou em Seu Livro: (45) 'E desejamos mostrar favor àqueles que foram rebaixados na Terra, e fazê-los dirigentes espirituais entre os homens e Nossos herdeiros.' Fostes chamados a esta posição; havereis de atingi-la somente se vos levantardes para desprezar todo desejo terreno e envidar vossos esforços para vos tornardes aqueles 'honrados servos Seus que não falam até que Ele tenha falado e fazem o que Ele ordena'. Sois as primeiras Letras que foram geradas do Ponto Primaz, (46) os primeiros Nascentes que manaram da Fonte desta Revelação. Suplicai ao Senhor vosso Deus que não permita que qualquer laço terreno, afeto mundano ou ocupação efêmera embacie a pureza ou torne amarga a doçura dessa graça que flui através de vós. Estou vos preparando para o advento de um Dia grandioso. Envidai os máximos esforços para que no mundo vindouro Eu, que estou vos instruindo agora, possa, ante a sede de misericórdia de Deus, regozijar-me por vossas ações e me glorificar de vossas vitórias. O segredo do Dia que há de vir está oculto agora. Não pode ser nem divulgado nem avaliado. A criança recém-nascida nesse Dia ultrapassa o mais sábio e venerável dos homens de agora, e os mais humildes e iletrados desse período excederão em compreensão os mais eruditos e consumados eclesiásticos desta era. Dispersai-vos por toda parte deste país e, com pés firmes e corações santificados, preparai o caminho para Sua vinda. Não olheis vossas fraquezas e debilidade; contemplai o poder invencível do Senhor, vosso Deus, o Onipotente. Não fez Ele, em tempos idos, que Abraão, apesar de Sua aparente fraqueza, triunfasse sobre as forças de Nimrod? Não capacitou Moisés, cujo bastão era Seu único companheiro a vencer o Faraó e suas hostes? Não estabeleceu Ele a ascendência de Jesus, pobre e rebaixado que era aos olhos dos homens, sobre as forças reunidas do povo judaico? Não sujeitou as tribos bárbaras e militantes da Arábia à santa e transformadora disciplina de Maomé, Seu Profeta? Levantai-vos em Seu Nome, Nele ponde vossa inteira confiança e tende certeza da vitória final." (47)
Com tais palavras o Báb vitalizou a fé de Seus discípulos e os lançou a sua missão. 'A cada um designou sua própria província natal como o campo de seu labor. A todos recomendou que não se referissem especificamente a Seu próprio nome e pessoa. (48) Ordenou-lhes que levantassem o chamado de que a Porta ao Prometido fora aberta, de que Sua prova é irrefutável e Seu testemunho, completo. Mandou declarar que quem Ele acreditasse, teria acreditado em todos os profetas de Deus, e quem O negasse teria negado todos os Seus santos e Seus eleitos. Com estas instruções Ele os despediu de Sua presença e, confiou aos cuidados de Deus. Dessas Letras dos Viventes a quem deste modo se dirigiu, permaneceram com Ele, em Shíráz, Mullá Husayn, o primeiro, e Quddús, o último. As restantes, catorze no total, partiram de Shíráz na hora do alvorecer, resolvida cada uma a levar a cabo em sua totalidade a tarefa da qual fora incumbida.
A Mullá Husayn, assim que se aproximava a hora de sua partida, dirigiu estas palavras: "Não te entristeças por não haveres sido escolhido para Me acompanhar em Minha peregrinação a Hijáz. Em vez disso, encaminharei teus passos àquela cidade que entesoura um Mistério de tão transcendente santidade que nem Hijáz nem Shíráz pode esperar rivalizar. É Minha esperança que sejas assistido por Deus na tarefa de remover os véus dos olhos dos refratários e purificar as mentes dos malévolos. Visita, em teu caminho, Isfáhán, Káshán, Teerã e Khurásán. Ruma dali ao Iraque e lá aguarda a chamada de teu Senhor, que te vigiará e guiará a qualquer coisa que seja Sua vontade e desejo. Quanto a Mim, acompanhado por Quddús e Meu servo etíope, prosseguirei em Minha peregrinação a Hijáz. Juntar-me-ei à companhia dos peregrinos de Fárs, que em breve embarcarão para esse lugar. Deverei visitar Meca e Medina, e lá cumprir a missão que Deus Me confiou. Se for a vontade de Deus, regressarei aqui através de Kúfih, onde espero me encontrar contigo. Se for decretado de outro modo, pedirei que te reúnas comigo em Shíráz. As hostes do Reino Invisível, deves ter certeza, haverão de sustentar e reforçar tuas tentativas. A essência do poder agora em ti habita, e a companhia de Seus anjos escolhidos circulam ao teu redor. Seus braços todo-poderosos circundar-te-ão e Seu Espírito infalível para sempre continuará a guiar teus passos. Quem te ama, a Deus ama; quem a ti se opuser, a Deus terá se oposto. De quem é teu amigo, Deus será amigo; e aquele que te rejeitar, Deus rejeitará".
CAPÍTULO IV
A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A TEERÃ
Com estas nobres palavras ressoando em seus ouvidos, Mullá Husayn iniciou seu perigoso empreendimento. Onde quer que fosse e a qualquer classe de pessoas que se dirigisse, transmitia intrepidamente e sem reservas a Mensagem da qual seu bem-amado Mestre o incumbira. Ao chegar em Isfáhán, estabeleceu-se no madrisih de Ním-Ávard. Ao seu redor se reuniram aqueles que em sua visita anterior o haviam conhecido como o mensageiro favorecido de Siyyid Kázím ao eminente mujtahid, Hájí Siyyid Muhammad-Báqir. (1) Este, agora falecido, foi sucedido por seu filho, que acabava de voltar de Najáf e estava já estabelecido na cátedra de seu pai. Hájí Muhammad-Ibráhím-i-Kalbásí também adoecera gravemente e estava prestes a morrer. Os discípulos do falecido Hájí Siyyid Muhammad-Báqir, agora livres da influência restritiva de seu desaparecido mestre e alarmados pelas estranhas doutrinas que Mullá Husayn estava expondo, denunciaram-no veementemente a Hájí Siyyid Asadu'lláh, filho do falecido Hájí Siyyid Muhammad Báqir. "Mullá Husayn", queixavam-se, "conseguiu durante sua última visita, ganhar o apoio de vosso ilustre pai para a causa de Shaykh Ahmad. Nenhum dos desprestigiados discípulos do Siyyid atreveu-se a ele se opor. Agora vem como defensor de um oponente ainda mais formidável e está apoiando Sua Causa com veemência e vigor ainda maiores. Alega persistentemente que Aquele cuja Causa ele agora defende é Revelador de um Livro divinamente inspirado, o qual de um modo impressionante se assemelha ao Alcorão em seu tom e linguagem. Na face do povo desta cidade, ele arrojou estas palavras desafiadoras: 'Produzi um semelhante, se sois homens verazes'. Aproxima-se rapidamente o dia em que Isfáhán inteira terá abraçado Sua Causa! "Hájí Siyyid Asadu'lláh respondeu a suas queixas com evasivas." "Que hei de dizer?", viu-se ele afinal forçado a responder. "Não tendes admitido vós mesmos que Mullá Husayn com a eloqüência e a força de seu argumento silenciou um homem tão grande como meu ilustre pai? Como posso eu, pois, que sou tão inferior a ele, em mérito e conhecimentos, presumir desafiar o que ele já aprovou? Que cada homem examine desapaixonadamente estas pretensões. Se se sentir satisfeito, muito bem; se não, que guarde silêncio e não incorra no risco de desacreditar o bom nome de nossa Fé."
Verificando o fracasso de seus esforços em influenciar Hájí Siyyid Asadu'lláh, seus discípulos referiram a questão a Hájí Muhammad-Ibráhím-i-Kalbásí. "Ai de nós", protestaram clamorosamente, "pois o inimigo se levantou para destruir a santa Fé do Islã!" Em linguagem revoltante e exagerada, frisaram o caráter desafiador das idéias expostas por Mullá Husayn. "Guardai silêncio", replicou Hájí Muhammad-Ibráhím. "Mullá Husayn não é pessoa que possa ser enganada pela fraude de ninguém, nem pode cair vítima de perigosas heresias. Se o que afirmais é verdade, se Mullá Husayn de fato esposou uma nova Fé, inquestionavelmente é vossa primeira obrigação investigar de maneira desapaixonada, o caráter de seus ensinamentos e vos abster de o denunciar sem um escrutínio prévio e cuidados. É minha intenção, se Deus quiser e se me forem restituídas a saúde e as forças, investigar o assunto, eu mesmo, e me certificar da verdade."
Esta severa repreensão, pronunciada por Hájí Kalbásí, embaraçou muito os discípulos de Hájí Siyyid Asadu'lláh. Em face desse desapontamento, apelaram a Manúchihr Khán, o Mu'tamidu'd-Dawlih, o governador da cidade. Esse sábio e judicioso governante recusou intervir nesses assuntos, os quais, afirmou ele, caiam exclusivamente dentro da jurisdição dos ulemás. Advertiu-lhes que se abstivessem de maldades e deixassem de perturbar a paz e tranqüilidade do mensageiro. Suas palavras cortantes demoliram as esperanças dos intrigantes. Mullá Husayn foi assim livrado das maquinações dos inimigos e por algum tempo prosseguiu sem empecilhos o curso de seu trabalho.
O primeiro a abraçar a Causa do Báb nessa cidade foi um homem, um joeireiro de trigo, que sem reservas aceitou a Mensagem logo que o Chamado lhe alcançou os ouvidos. Com maravilhosa devoção serviu a Mullá Husayn e através de sua íntima associação a ele se tornou zeloso defensor da nova Revelação. Poucos anos depois, quando os comoventes detalhes sobre o assédio do forte de Shaykh Tabarsi lhe estavam sendo relatados, ele se sentiu irresistivelmente impelido a compartir a sorte daqueles heróicos companheiros do Báb que se haviam levantado em defesa de sua Fé. Levando na mão sua joeira, levantou-se de imediato e partiu em direção à cena daquele memorável encontro. "Por que partir com tanta pressa?", perguntaram-lhe os amigos quando o viram correr pelos bazares de Isfáhán. "Levantei-me", respondeu, "para me unir à gloriosa companhia dos defensores do forte de Shaykh Tabarsí! Com esta joeira que levo comigo, pretendo joeirar as pessoas em cada cidade pela qual eu passar. A qualquer uma que encontre disposta a esposar a Causa que tenho abraçado, pedirei que se una a mim e imediatamente se apresse em direção ao campo do martírio." Tal foi a devoção desse jovem que o Báb, no Bayán Persa, a ele se refere nestes termos: "Isfáhán, aquela notável cidade, distingue-se pelo fervor religioso de seus habitantes xiitas, pela erudição de seus eclesiásticos e pela viva expectativa da vida iminente do Sáhibu'z-Zamán, a qual compartilham os de alto grau e os de grau inferior. Em todos os setores dessa cidade têm sido estabelecidas instituições religiosas. Contudo, quando se tornara manifesto o mensageiro de Deus, os que se diziam os repositórios da erudição e os expositores dos mistérios da Fé de Deus rejeitaram Sua Mensagem. Entre todos os habitantes dessa sede de erudição, foi encontrada uma só pessoa, um joeireiro de trigo, que reconheceu a Verdade e foi revestida com o manto da virtude divina!" (2)
Entre os siyyids de Isfáhán, alguns poucos, tais como Mirza Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, cuja filha mais tarde se uniu em matrimônio com o Maior Ramo,(3) Mirza Hádí, irmão de Mirza Muhammad-'Alí, bem como Mirza Muhammad-Ridáy-i-Pá-Qal'iyí, reconheceram a verdade da Causa. Mullá Sádiq-i-Khurásání, anteriormente conhecido como Muqaddas e cognominado por Bahá'u'lláh Ismu'lláhu'l-Asdaq, que, segundo as instruções de Siyyid Kázím, havia durante os últimos cinco anos residido em Isfáhán e se ocupado em preparar o caminho para o advento da nova Revelação, também estava entre os primeiros crentes que se identificaram com a Mensagem proclamada pelo Báb. (4) Logo que soube da chegada de Mullá Husayn em Isfáhán apressou-se a ir a seu encontro. A respeito da primeira entrevista, a qual ocorreu à noite na casa de Mirza Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, relata ele o seguinte: "Pedi a Mullá Husayn que revelasse o nome d'Aquele que pretendia ser o prometido Manifestante, ao que respondeu, "Indagar esse nome, assim como revelá-lo, é proibido". "Seria, então, possível", perguntei, "que eu, assim mesmo como as Letras dos Viventes, buscasse independentemente a graça do Misericordioso e, através da oração, descobrisse Sua identidade?" "A porta de Sua graça", respondeu, "nunca está fechada ante a face de quem O busca." Retirei-me imediatamente de sua presença e a seu anfitrião solicitei o uso de um aposento privado em sua casa, no qual eu só, sem ninguém que me molestasse, pudesse comungar com Deus. Em meio à minha contemplação, subitamente lembrei-me da face de um jovem que muitas vezes, enquanto estive em Karbilá, eu havia observado em pé, em atitude de prece, com seu rosto banhado de lágrimas, na entrada do santuário do Imame Husayn. Esse mesmo semblante apareceu de novo diante de meus olhos. Em minha visão eu parecia estar contemplando essa mesma face, as mesmas feições, que expressavam tal alegria como jamais poderia descrever. Ele sorriu enquanto em mim fixava o olhar. Aproximei-me dele, pronto a me jogar a Seus pés. Eu me curvava para o chão quando, eis!, essa figura radiante desvaneceu-se de minha vista. Apoderaram-se de mim júbilo e contentamento e saí correndo em busca de Mullá Husayn, que me recebeu com êxtase e me assegurou haver eu atingido, afinal, o objeto de meu desejo. Mandou-me, porém, reprimir meus sentimentos. "A ninguém deves declarar tua visão", ele me exortou, "não chegou ainda o tempo para isso. Colheste o fruto de tua paciente espera em Isfáhán. Deverias agora proceder a Kirmán e lá tornar conhecida a Hájí Mirza Karím Khán esta Mensagem. Daí deves viajar a Shíráz e te esforçar por despertar o povo dessa cidade de sua negligência. Espero encontrar-te em Shíráz e contigo compartir as bênçãos de uma jubilosa reunião com nosso Bem-Amado." (5)
De Isfáhán, Mullá Husayn prosseguiu a Káshán. O primeiro nessa cidade a alistar-se na companhia dos fiéis foi um certo Hájí Mirza Jání, cognominado Par-Pá, um comerciante de renome. (6) Entre os amigos de Mullá Husayn figurava um sacerdote muito conhecido, Siyyid 'Abdu'l-Báqi, residente de Káshán e membro da comunidade shaykhí. Embora intimamente associado a Mullá Husayn durante sua estada em Najáf e Karbilá, o Siyyid não se sentiu capaz de sacrificar posição e liderança pela Mensagem que seu amigo lhe trouxera.
Ao chegar em Qum, Mullá Husayn viu que seu povo não estava, em absoluto, preparado para atender a seu chamado. As sementes que entre eles semeava só vieram a germinar no tempo em que Bahá'u'lláh estava exilado em Bagdá. Nesses dias Hájí Mirza Musa, nativo de Qum, abraçou a Fé e viajou a Bagdá, onde conheceu Bahá'u'lláh. Por fim, sorveu do cálice do martírio em Seu caminho.
De Qum, Mullá Husayn prosseguiu diretamente a Teerã. Durante sua permanência na capital, morou num dos quartos que pertenciam ao madrisih de Mirza Sálih, mais bem conhecido como o madrisih de Páy-i-Minár. Hájí Mirza Muhammad-i-Khurásání, o líder da comunidade shaykhí de Teerã, que ocupava o lugar de instrutor nessa instituição, foi visitado por Mullá Husayn, mas recusou seu convite para aceitar a Mensagem. "Havíamos alimentado a esperança", dizia a Mullá Husayn, "de que após a morte de Siyyid Kázim vos tivésseis esforçado por promover os melhores interesses da comunidade shaykhí, livrando-a da obscuridade em que se mergulhara. Parece, entretanto, que lhes tendes traído a causa. Demolistes nossas mais acariciadas expectativas. Se persistirdes em disseminar essas doutrinas subversivas, extinguireis finalmente os remanescentes dos shaykhís nesta cidade." Mullá Husayn assegurou-lhe que não era sua intenção prolongar sua estada em Teerã, que de modo algum visava rebaixar ou suprimir os ensinamentos inculcados por Shaykh Ahmad e Siyyid Kázím. (7)
Durante sua estada em Teerã, Mullá Husayn todas as manhãs, bem cedo, deixava seu quarto e voltava só uma hora após o pôr-do-sol. Ao regressar, entrava em seu quarto sozinho e em silêncio, fechando a porta atrás e permanecendo na solidão de seu quarto até o dia seguinte. (8) Mirza Musa, Aqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh, contou-me o seguinte: "Tenho ouvido Mullá Muhammad-i-Mu'allim, um nativo de Núr, na província de Mázindarán, fervoroso admirador tanto de Shaykh Ahmad quanto de Siyyid Kázím, relatar o seguinte: 'Eu era naqueles dias reconhecido como um dos discípulos prediletos de Hájí Mirza Muhammad e morava na mesma escola em que ele ensinava. Meu quarto era adjacente ao seu e vivíamos intimamente associados. No dia em que ele estava ocupado numa discussão com Mullá Husayn, pude ouvir a conversação do começo ao fim e me senti profundamente afetado pelo ardor, fluência e erudição desse estranho jovem. Admirei-me das respostas evasivas, da arrogância e da desprezível conduta de Hájí Mirza Muhammad. Nesse dia me senti fortemente atraído pelo encanto desse jovem e me ofendi profundamente com o indigno comportamento de meu instrutor para com ele. Escondi meus sentimentos, porém, fingindo nada saber de suas discussões com Mullá Husayn. Apoderou-se de mim um veemente desejo de conhecê-lo e me aventurei, à meia-noite, visitá-lo. Ele não me esperava, mas bati a sua porta e o encontrei acordado, sentado junto de seu lampião. Recebeu-me com afeto e falou com extrema cortesia e ternura. Desabafei meu coração e, enquanto me dirigia a ele, lágrimas que não podia reprimir fluíram de meus olhos. "Posso ver agora", disse-me, "por que razão escolhi este lugar para morar. Teu instrutor rejeitou com desdém esta Mensagem e menosprezou seu Autor. Minha esperança é que o aluno, diferente de seu mestre, possa reconhecer sua verdade. Qual é o teu nome e qual a cidade de tua origem? "Meu nome", respondi, "é Mullá Muhammad e meu sobrenome Mu'allim. Sou de Núr, na província de Mázindarán." "Dize-me", inquiriu ainda Mullá Husayn, "há hoje entre a família do falecido Mirza Buzurg-i-Nurí, de tanto renome em virtude de seu caráter, seu encanto e sua habilidade artística e intelectual, alguém que tenha provado ser capaz de manter as altas tradições dessa casa ilustre?" "Sim", respondi, "entre seus filhos que ainda vivem tem-se distinguido Um pelas mesmas características de Seu pai. Pela Sua vida virtuosa, Suas altas realizações, Sua benevolência e liberalidade, já se provou um nobre descendente de um pai nobre." "Qual é Sua ocupação?", perguntou-me. "Animar os desconsolados e alimentar os famintos", repliquei. "Sua posição e grau?" "Nenhuma" disse-lhe, "além de se mostrar o amigo do pobre e do estranho." "Qual é o Seu nome?" "Husayn Alí". "Em qual das escritas de Seu Pai Ele sobressai?" "Sua escrita predileta é shikastih-nasta'líq." "Como passa Ele Seu tempo?" "Ele vaga pelos bosques e se deleita com as belezas do campo." (9) "Que idade tem Ele?" "Vinte e oito". A ansiedade com que Mullá Husayn me interrogava e a sensação de deleite com que acolhia cada detalhe que lhe dava causaram-me grande surpresa. Virando-se para mim, com a face radiante de satisfação e júbilo, fez ainda outra pergunta: "Suponho que freqüentemente te encontras com Ele" "Muitas vezes O visito em Sua casa", respondi. "Poderias", perguntou-me, "entregar em Suas mãos um encargo meu?" "Certamente", foi minha resposta. Deu-me então um pergaminho enrolado num pano e me pediu que lho entregasse no dia seguinte na hora do alvorecer. "Caso Ele se digne a me responder", acrescentou, "terias a bondade de me transmitir Sua resposta?" Recebi dele o pergaminho e ao romper da alvorada me levantei para levar a cabo seu desejo.
"Ao me aproximar da casa de Bahá'u'lláh, reconheci Seu irmão, Mirza Musá, em pé no portão, a quem comuniquei o objetivo de minha visita. Entrou em casa e logo reapareceu, trazendo uma mensagem de boas-vindas. Fui conduzido a Sua presença e entreguei o pergaminho a Mirza Musa, que o apresentou a Bahá'u'lláh. Ele nos mandou sentar. Desdobrando o pergaminho, olhou rapidamente seu conteúdo e principiou a ler em voz alta certas passagens. Eu me sentia extasiado enquanto escutava o som de Sua voz e a doçura de sua melodia. Após haver uma página do pergaminho lida, virou-se para o irmão e assim falou: "Musá, que tens a dizer? Em verdade digo, quem crê no Alcorão e lhe reconhece a origem Divina, e no entanto hesita, ainda que seja por apenas um momento, em admitir que estas palavras comovedoras estejam dotadas do mesmo poder regenerador, errou seguramente em seu juízo e se desviou para longe do caminho da justiça". Nada mais disse. Ao me despedir de Sua presença, incumbiu-me de levar a Mullá Husayn, como um presente d'Ele, um pão de açúcar russo e um pacote de chá, (10) e lhe expressar Sua apreciação e amor.
"Levantei-me e com grande contentamento me apressei em voltar a Mullá Husayn e lhe entregar o presente e a mensagem de Bahá'u'lláh. Com que júbilo e exultação ele os recebeu de mim! Faltam-me palavras para descrever a intensidade de sua emoção. Em um instante se pôs em pé, curvando a cabeça ao receber de minha mão o presente e o beijando fervorosamente. Tomou-me então em seus braços, beijando-me os olhos e disse: "Meu muito querido amigo! Oro que assim como me tens regozijado o coração, Deus te conceda felicidade eterna e inunde teu coração de contentamento imperecível". Maravilhei-me com o procedimento de Mullá Husayn. Qual poderia ser, pensei comigo, a natureza do laço que une estas duas almas? Que poderia ter acendido tão fervoroso espírito fraternal em seus corações? Por que Mullá Husayn, a cujos olhos a pompa e a circunstância da realeza eram uma simples bagatela, havia mostrado tamanha alegria ao ver um presente tão insignificante das mãos de Bahá'u'lláh? Causou-me perplexidade este pensamento e não lhe pude desvendar o mistério.
Poucos dias depois, Mullá Husayn partiu para Khurásán. Ao se despedir, disse-me: "Não relates a ninguém o que ouviste e testemunhaste. Deixa isto ser um segredo oculto em teu peito. Não reveles Seu Nome, pois aqueles que lhe invejam a posição se levantarão para lhe causar dano. Em teus momentos de meditação, ora para que o Todo-Poderoso O proteja, de modo a enaltecer, por Seu intermédio, os espezinhados, a enriquecer os pobres e redimir os caídos. O segredo das coisas está oculto de nossos olhos. Nosso é o dever de levantar a chamada do Novo Dia e proclamar a todos esta Mensagem Divina. São muitas as almas que, nesta cidade, haverão de derramar seu sangue nesta senda. Esse sangue regará a Árvore de Deus, fazendo com que ele floresça e abrigue à sua sombra toda a humanidade".
CAPÍTULO V
A VIAGEM DE Bahá'u'lláh A MÁZINDARÁN
A primeira viagem que Bahá'u'lláh empreendeu com o fim de promover a Revelação anunciada pelo Báb foi à Sua casa ancestral em Núr, na província de Mázindarán. Partiu em direção a Tákur, patrimônio pessoal de Seu pai, onde havia uma vasta mansão de Sua propriedade, regiamente mobiliada e em excelente localização. Foi privilégio meu ouvir o próprio Bahá'u'lláh um dia relatar o seguinte: "O falecido Vizír, Meu pai, fruía a mais invejável posição entre seus conterrâneos. Sua enorme riqueza, sua nobre linhagem, suas aptidões artísticas, seu prestígio sem igual e sua elevada posição fizeram-no objeto da admiração de todos os que o conheciam. Por um período de mais de vinte anos, ninguém do largo círculo de sua família e parentes, o qual se estendia por Núr e Teerã, sofreu aflição, qualquer mal ou doença. Desfrutavam, durante longo e ininterrupto período, bênçãos ricas e diversas. De súbito, porém, esta prosperidade e glória cederam diante de uma série de calamidades que abalaram severamente as bases de seu bem-estar material. O primeiro prejuízo que sofreu foi ocasionado por uma grande inundação que nasceu nas montanhas de Mázíndarán, varreu com violência extrema a aldeia de Tákur e destruiu completamente a metade da mansão do Vizír, situada acima da fortaleza dessa aldeia. A melhor parte da casa, que fora notável pela solidez de seus alicerces, foi totalmente demolida pela fúria da torrente estrondante. Foram destruídos os preciosos objetos da mobília; sua esmerada ornamentação foi irreparavelmente arruinada. Breve se seguiu a perda de vários postos de Estado que o Vizír ocupava devido aos repetidos assaltos dirigidos contra ele por seus adversários invejosos. A despeito desta repentina mudança de sorte, o Vizír manteve sua dignidade e calma, na medida de seus limitados recursos, continuou seus atos de benevolência e caridade. Para com seus associados infiéis, não deixou de mostrar aquela mesma cortesia e bondade que haviam caracterizado suas relações com seus semelhantes. Com esplêndida fortaleza, até a última hora de sua vida, lutou com as adversidades que tão penosamente sobre ele pesavam".
Já havia Bahá'u'lláh, antes da declaração do Báb, visitado o distrito de Núr, numa época em que o célebre mujtahid Mirza Muhammad-Taqíy-i-Núrí estava no auge de sua autoridade e influência. Tão eminente era sua posição que aqueles que se sentavam a seus pés se consideravam, cada qual, o autorizado expoente da fé e lei do Islã. O mujtahid, dirigindo a palavra a um grupo de mais de duzentos desses discípulos, discorria largamente sobre uma passagem obscura das exposições atribuídas aos imames, quando Bahá'u'lláh, seguido por alguns de seus companheiros, por aí passou e se deteve por um momento para escutar seu discurso. O mujtahid pediu a seus discípulos que elucidassem uma teoria abstrusa que se referia aos aspectos metafísicos dos ensinamentos islâmicos. Como todos confessaram sua incapacidade de explicá-la, Bahá'u'lláh sentiu-se impelido a dar, em linguagem breve mas convincente, uma exposição lúcida dessa teoria. O mujtahid aborreceu-se muito diante da incompetência de seus discípulos. "Há anos vos estou instruindo", exclamou iradamente, "e com paciência tenho me esforçado por instilar em vossas mentes as mais profundas verdades e os mais nobres princípios da Fé. No entanto, após todos esses anos de persistente estudo, deixais este jovem, que usa o Kuláh, (1) que jamais recebeu ensino douto e desconhece completamente vossa erudição acadêmica, demonstrar superioridade sobre vós!"
Mais tarde, quando Bahá'u'lláh havia partido, o mujtahid relatou a seus discípulos dois de seus sonhos recentes, cujas circunstâncias ele acreditava ser da maior significação. "Em meu primeiro sonho", disse ele, "estava eu em pé em meio a uma vasta assembléia de pessoas, e todas pareciam apontar uma certa casa na qual, diziam, morava o Sáhibu'z-Zamán. Com frenética alegria, apressei-me em meu sonho a atingir Sua presença. Quando alcancei a casa, para grande surpresa minha, me foi recusado acesso. 'O prometido Qá'im, informaram-me, 'está ocupado em conversação privada com outra Pessoa. Acesso a eles é estritamente proibido.' Dos guardas em pé ao lado da porta, inferi que essa Pessoa não era outra senão Bahá'u'lláh!"
"Em meu segundo sonho", continuava o mujtahid, "encontrei-me num lugar onde vi ao meu redor grande número de cofres, cada um dos quais, foi afirmado, pertencia a Bahá'u'lláh. Quando os abri, verifiquei que estavam cheios de livros. Cada palavra e letra anotadas nesses livros estava engastadas com as mais raras jóias. Seu fulgor deslumbrou-me. Tão fortemente seu brilho me dominou que subitamente despertei de meu sonho."
Quando, no ano 60, Bahá'u'lláh chegou em Núr, descobriu que o célebre mujtahid, que na ocasião de Sua visita anterior exercia tão imenso poder, havia falecido. O vasto número de seus devotos havia se reduzido e uns poucos discípulos desalentados que, sob a direção de seu sucessor, Mullá Muhammad, se esforçavam para sustentar as tradições de seu falecido líder. A entusiástica acolhida que se fez a Bahá'u'lláh quando veio estava em vívido contraste com as trevas que cercaram aqueles que restavam da comunidade outrora florescente. Grande número dos oficiais e dignitários naquela vizinhança veio visitá-Lo e, com todo sinal de afeto e respeito, lhe deu boas-vindas de modo digno. Estavam ansiosos, em vista da posição social que Ele ocupava, de receber dEle todas as notícias referentes à vida do xá, às atividades de seus ministros e aos assuntos de seu governo. A suas perguntas Bahá'u'lláh respondeu com indiferença extrema, parecendo mostrar muito pouco interesse ou preocupação. Com eloqüência persuasiva, defendeu a causa da nova Revelação e dirigiu sua atenção aos imensuráveis benefícios que estava destinada a conferir a seu país.(2) Os que O ouviam maravilharam-se do vivo interesse que um homem de Sua posição e idade mostrava por verdades que eram primariamente assuntos para os sacerdotes e teólogos do islã. Sentiam-se impotentes para desafiar a solidez de Seus argumentos ou menosprezar a Causa que Ele tão habilmente expunha. Admiraram o alto grau de Seu entusiasmo e a profundidade de Seus pensamentos e muito lhes impressionaram Seu desprendimento e abnegação.
Ninguém se atreveu a contradizer Seus pontos de vista, exceto Seu tio Ázíz, que se aventurou a se opor, desafiando Suas afirmações e lhe vilipendiando a verdade. Quando aqueles que o ouviram tentaram silenciar este oponente e lhe causar dano, Bahá'u'lláh interveio em seu favor e lhes aconselhou que o deixassem nas mãos de Deus. Alarmado, ele buscou o apoio do mujtahid de Núr, Mullá Muhammad, e solicitou que lhe prestasse ajuda imediata. "Ó vice-regente do Profeta de Deus!", disse. "Vede o que aconteceu à fé. Um jovem, um leigo, usando vestes de nobreza, veio a Núr, invadiu as cidadelas da ortodoxia e desmoronou a santa Fé do Islã. Levantai-vos e resisti a sua investida. Quem atinge a sua presença cai de imediato sob seu encanto e é subjugado pelo poder de suas palavras. Não sei se é feiticeiro, ou se mistura em seu chá alguma substância misteriosa que faz com que todo homem que o beba caia vítima de seu encanto." O mujtahid, não obstante sua própria falta de compreensão, pode compreender a insensatez de tais observações. Jocosamente perguntou: "Não tendes compartilhado seu chá e o ouvido discorrer a seus companheiros?" "Sim, tenho", respondeu, "mas graças a vossa amorosa proteção tenho me mantido imune ao efeito de seu misterioso poder." O mujtahid, vendo-se impotente diante da tarefa de instigar a população contra Bahá'u'lláh e de combater diretamente as idéias que tão poderoso adversário estava difundindo com tamanha intrepidez, contentou-se com uma declaração escrita na qual disse: "Ó Azíz, não temais, ninguém se atreverá a molestar-vos". Ao escrevê-la, o mujtahid por um erro gramatical, a tal ponto perverteu o propósito de sua declaração que os que a leram, entre os dignatários da aldeia de Tákur, se escandalizaram com seu significado e vilipendiaram tanto o portador como o autor dessa declaração.
Aqueles que atingiram a presença de Bahá'u'lláh e O ouviram expor a Mensagem proclamada pelo Báb ficaram tão impressionados com o fervor de Seu apelo que imediatamente se levantaram para disseminar essa Mensagem entre o povo de Núr e louvar as virtudes de seu distinguido Promotor. Os discípulos de Mullá Muhammad, entrementes, tentaram persuadir seu mestre a seguir para Tákur, a visitar Bahá'u'lláh em pessoa, verificar por Seu intermédio a natureza desta nova Revelação e esclarecer a seus seguidores a respeito do caráter e propósito desta Revelação. À sua veemente solicitação o mujtahid deu uma resposta evasiva. Seus discípulos, entretanto, recusaram admitir a validade das objeções que fez. Argüiram que a primeira obrigação que se impunha a um homem de sua posição, cuja função era preservar a integridade do Islã xiita, era investigar a natureza de todo movimento que tendia a afetar os interesses de sua Fé. Mullá Muhammad decidiu finalmente delegar dois de seus lugar-tenentes de maior destaque, ambos genros e fidedignos discípulos do falecido mujtahid, Mirza Muhammad Taqí, para visitar Bahá'u'lláh e determinar o verdadeiro caráter da Mensagem por Ele trazida. Comprometeu-se a sancionar, sem reservas, quaisquer conclusões a que pudessem chegar e a reconhecer como final sua decisão em tal assunto.
Quando esses representantes de Mullá Muhammad chegaram em Tákur, sendo informados de que Bahá'u'lláh havia partido para Sua residência de inverno, decidiram ir a esse lugar. Ao chegarem, encontraram Bahá'u'lláh ocupado em revelar um comentário sobre a Sura com que começa o Alcorão, intitulada "Os Sete Versos de Repetição". Enquanto escutavam, sentados, Seu discurso, sentiram-se profundamente impressionados pela elevação do tema, pela eloqüência persuasiva que caracterizava sua apresentação, bem como pela maneira extraordinária em que o expunha. Mullá 'Abbás, não podendo se conter, levantou-se de seu lugar e, movido por um impulso a que não podia resistir, andou para trás e ficou imóvel ao lado da porta, em atitude de reverente submissão. O encanto do discurso que ouvia o fascinara. "Vês meu estado", disse ao companheiro, enquanto permancia em pé, tremendo de emoção e com os olhos cheios de lágrimas. "Sinto-me sem o poder de fazer uma pergunta a Bahá'u'lláh. As perguntas que tencionava apresentar de súbito se desvaneceram de minha memória. Estás livre, seja para prosseguir com tua investigação ou regressar sozinho ao nosso instrutor e lhe informar do estado no qual me encontro. Dize-lhe por mim que 'Abbás jamais poderá voltar a ele, que não mais poderá abandonar este limiar." Mirza Abdu'l-Qásim igualmente, impelido a seguir o exemplo de seu companheiro, disse em resposta: "Deixei de reconhecer meu mestre. Neste momento mesmo, fiz a Deus um voto de dedicar os dias restantes de minha vida ao serviço de Bahá'u'lláh, meu verdadeiro e único Mestre".
A notícia da repentina conversão dos emissários escolhidos do mujtahid de Núr espalhou-se com espantosa rapidez por todo o distrito. Despertou o povo de sua letargia. Dignitários eclesiásticos, oficiais de Estado, comerciantes e camponeses, todos se apinharam à residência de Bahá'u'lláh. Dentre eles, um número considerável, espontaneamente, esposou Sua Causa. Em sua admiração por Ele, alguns dos mais distinguidos observaram: "Vemos como o povo de Núr se tem levantado e reunido em torno de vós. Testemunhamos por todos os lados evidências de sua exultação. Se também Mullá Muhammad se unisse a eles, o triunfo dessa Fé seria completamente assegurado". "Vim a Núr", respondeu Bahá'u'lláh, "somente com o propósito de proclamar a Causa de Deus. Não nutro outra intenção. Se me fosse dito que a uma distância de cem léguas alguém com ânsia buscava a Verdade e não podia vir Me ver, com satisfação e sem hesitar Me apressaria em ir a sua morada, e Eu Mesmo lhe saciaria a sede. Mullá Muhammad, dizem-Me, mora em Sa'ádat-Ábád, uma aldeia não muito distante daqui. É Meu propósito visitá-lo e lhe entregar a Mensagem de Deus."
Desejoso de cumprir Suas palavras, Bahá'u'lláh, acompanhado por alguns de Seus companheiros, prosseguiu de imediato em direção a essa aldeia. Mullá Muhammad recebeu-O muito cerimoniosamente. "Não vim a esse lugar", observou Bahá'u'lláh, "a fim de vos fazer uma visita oficial ou formal. É Meu desígnio esclarecer-vos a respeito de uma Mensagem nova e maravilhosa, divinamente inspirada e que cumpre a promessa que ao Islã se fez. Qualquer um que tenha inclinado o ouvido a esta Mensagem tem sentido seu poder irresistível, sendo transformado pela potência de sua graça. Dizei-Me o que torna perplexa vossa mente ou vos impede de reconhecer a Verdade." Mullá Muhammad com desapreço respondeu: "Nenhuma ação empreendo sem primeiro consultar o Alcorão. Invariavelmente, em tais ocasiões, tenho seguido a prática de invocar a ajuda de Deus e Suas bênçãos, abrindo ao acaso Seu Livro Sagrado e consultando o primeiro versículo daquela página que meus olhos avistam. Da natureza desse versículo posso julgar se é aconselhável e sábio o curso de ação que tenho em mira". Vendo que Bahá'u'lláh não estava inclinado a recusar seu pedido, o mujtahid mandou trazer um exemplar do Alcorão, abriu-o e de novo o fechou, recusando revelar aos presentes a natureza do versículo. Disse apenas: "Consultei o Livro de Deus e creio que não é aconselhável seguir adiante com este assunto". Alguns poucos concordaram com ele; os outros, na maioria, não deixaram de reconhecer o medo que essas palavras implicavam. Bahá'u'lláh, não se inclinando a lhe causar maior embaraço, levantou-se e, pedindo licença, despediu-se dele cordialmente.
Certo dia, durante um de Seus passeios eqüestres no campo, com Seus companheiros, Bahá'u'lláh viu sentado ao lado da estrada um jovem solitário. Tinha o cabelo desgrenhado e se vestia como dervixe. Junto de um riacho havia ele acendido uma chama, onde esta cozinhando e comendo seu alimento. Aproximando-se dele, Bahá'u'lláh muito carinhosamente inquiriu: "Dize-Me, dervixe, que é que estás fazendo?" "Estou ocupado em comer Deus", replicou bruscamente. "Estou cozinhando Deus e queimando-o. A simplicidade de seus modos, sem afetação, e a candura de sua resposta agradaram extremamente a Bahá'u'lláh. Sorriu ao ouvir suas palavras e começou a conversar com ele com grande ternura e inteira liberdade. Dentro de pouco tempo havia Bahá'u'lláh o transformado completamente. Esclarecido a respeito da verdadeira natureza de Deus e com a mente purificada da vã fantasia de seu próprio povo, reconheceu de imediato a Luz que esse Desconhecido amoroso tão inesperadamente lhe trouxera. Esse dervixe, cujo nome era Mustafá, a tal ponto se enamorou dos ensinamentos que lhe haviam sido incutidos na mente que, deixando atrás os utensílios de cozinha, se levantou imediatamente e seguiu Bahá'u'lláh. A pé, atrás de Seu cavalo, incendiado com a chama de Seu amor, entoou alegremente versos de uma canção de amor que compusera nesse momento e dedicara ao seu Bem-Amado. "Tu és o Sol de guia", dizia seu jubiloso estribilho. "Tu és a Luz da verdade. Remove Teu véu ante os homens, ó Revelador da Verdade." Se bem que em anos subseqüentes, esse poema tivesse uma extensa circulação entre seu povo e se soubesse que certo dervixe, cognominado Majdhúb, cujo nome era Mustafá Big-i-Sanandají, o havia composto, sem premeditação, em louvor de seu Bem-Amado, ninguém parecia perceber a quem realmente se referia, tampouco havia quem suspeitasse, numa época em que Bahá'u'lláh estava ainda velado dos olhos dos homens, que somente este dervixe havia reconhecido Sua posição e descoberto Sua glória.
A visita de Bahá'u'lláh a Núr havia produzido resultados de vasto alcance e dado um ímpeto extraordinário à difusão da Revelação recém-nascida. Com Sua eloqüência magnética, pela pureza de Sua vida, pela dignidade de Seu porte, pela incontestável lógica de Seu argumento e pelas numerosas evidências de Sua bondade, havia Bahá'u'lláh conquistado os corações do povo de Núr, comovido suas almas e as alistado sob o estandarte da Fé. Tal foi o efeito de Suas palavras e ações, enquanto ia em toda parte pregando a Causa e revelando sua glória aos Seus conterrâneos em Núr, que as próprias pedras e árvores desse distrito pareciam haver sido vivificadas pelas ondas de poder espiritual que emanavam de Sua pessoa. Todas as coisas pareciam estar dotadas de uma vida nova e mais abundante; todas as coisas pareciam estar proclamando em voz alta: "Eis, a Beleza de Deus tornou-se manifesta! Levantai-vos, pois Ele veio em toda a Sua glória". O povo de Núr, após haver Bahá'u'lláh partido de seu meio, continuou a propagar a Causa e a consolidar seus alicerces. Alguns deles suportaram as mais severas aflições por Sua causa; outros sorveram com alegria o cálice do martírio em Sua senda. Mázindarán, em geral, e Núr, em especial, foram assim distinguidos das outras províncias e distritos da Pérsia, por serem os primeiros a abraçar com fervor a Mensagem Divina. O distrito de Núr - que significa literalmente "luz" - encaixado dentro das montanhas de Mázindarán, foi o primeiro a captar os raios do Sol que nascera em Shíráz, o primeiro a proclamar ao resto da Pérsia, que ainda jazia envolto na sombra do vale da negligência, que o Sol da guia celestial se havia levantado, por fim, para aquecer e iluminar toda a Terra.
Quando Bahá'u'lláh era ainda criança, o Vizir, Seu pai, teve um sonho. Bahá'u'lláh apareceu diante dele, nadando num oceano vasto, ilimitado. Seu corpo reluzia sobre as águas com um brilho que iluminava o mar. Em volta de Sua cabeça, a qual se via nitidamente acima das águas, se irradiavam em todas as direções os anéis compridos de Seu cabelo preto de azeviche, flutuando em grande profusão sobre as ondas. No sonho, uma multidão de peixes aglomerava-se em torno dEle, segurando-se cada um à extremidade de um fio de cabelo. Fascinados pela fulgência de Sua face, seguiam-No na direção em que Ele nadasse. Embora fossem tão numerosos, e tão tenazmente se apegassem aos Seus cabelos, nem um só fio parecia ter sido tirado de Sua cabeça, nem o menor dano atingia Sua pessoa. Livre e sem estorvo, Ele se movia sobre as águas e todos O seguiam.
O Vizir, profundamente impressionado por esse sonho, chamou um adivinho que havia adquirido fama nessa região e lhe pediu que o interpretasse para ele. Esse homem, como que inspirado por uma premonição da futura glória de Bahá'u'lláh, declarou: "O oceano ilimitado que vistes em vosso sonho, ó Vizir, não é senão o mundo do ser. Sozinho e sem ajuda, vosso filho atingirá sobre este ascendência suprema. Aonde quer que lhe apraza, Ele caminhará sem encontrar obstáculo. Ninguém haverá de lhe resistir à marcha, ninguém lhe impedirá o progresso. A multidão de peixes significa o tumulto que provocará entre os povos e raças da Terra. Em torno dEle se reunirão e a Ele se apegarão. Sendo-lhe assegurada a infalível proteção do Todo-Poderoso, jamais esse tumulto há de causar dano a Sua pessoa, nem Sua solidão no mar da vida porá em perigo Sua segurança".
Esse adivinho foi levado mais tarde para ver Bahá'u'lláh. Observou com atenção Seu rosto e cuidadosamente examinou Suas feições. Encantado com Sua aparência, elogiou cada aspecto de Seu semblante. Cada expressão de Sua face revelava a seus olhos um sinal de Sua glória oculta. Tão grande foi sua admiração e tão profusos seus elogios a Bahá'u'lláh que o Vizír, desde aquele dia, se tornou ainda mais apaixonadamente devotado ao Filho. As palavras pronunciadas por esse adivinho serviram para fortalecer suas esperanças e sua confiança nEle. Da mesma forma como Jacó só desejava assegurar o bem-estar de seu bem-amado José e rodeá-Lo de sua amorosa proteção.
Hájí Mirza Áqásí, o Grão-Vizir de Muhammad Xá, embora completamente alienado do pai de Bahá'u'lláh, mostrou a seu filho mais sinais de consideração e favor. Tão grande era a estima que o Hájí lhe professava, que Mirza Áqá Khán-i-Núrí, o I'timádu'd-Dawlih, que mais tarde sucedeu a Hájí Mirza Áqásí, sentia inveja. Ressentia-se da superioridade que se concedia a Bahá'u'lláh, ainda tão jovem. As sementes do ciúme, desde esse tempo, foram implantadas em seu coração. Embora ainda jovem, e enquanto seu pai está vivo, pensava ele, lhe é dada precedência perante o Grão-Vizír. Que me acontecerá, pergunto eu, quando esse jovem tiver sucedido ao pai?
Após o falecimento do Vizír, Hájí Mirza Áqásí continuou a mostrar a maior consideração para Bahá'u'lláh. Visitava-O em Sua casa, dirigindo-se a Ele como se fosse seu próprio filho. A sinceridade de sua devoção, porém, foi logo posta em prova. Num dia, ao passar pela aldeia de Qúch-Hisár, que pertencia a Bahá'u'lláh, tanto se impressionou com o encanto e a beleza desse lugar e com a abundância de sua água que concebeu a idéia de se tornar seu dono. Bahá'u'lláh, a quem ele chamou para consentir a compra imediata dessa aldeia, observou: "Tivesse essa propriedade sido exclusivamente minha, de boa vontade haveria eu satisfeito vosso desejo. Esta vida transitória, com todas as suas possessões sórdidas, não merece, a meus olhos, nenhum apego, quanto menos esta pequena e insignificante propriedade. Como várias outras pessoas tanto ricas quanto pobres, algumas adultas e outras ainda menores - comigo compartilham a possessão dessa propriedade, pediria que a elas referísseis esta questão, procurando seu consentimento". Não satisfeito com esta resposta, Hájí Mirza Áqásí tentou por meios fraudulentos alcançar seu propósito. Logo que Bahá'u'lláh foi informado de suas más intenções, Ele, com o consetimento de todos os interessados, imediatamente transferiu o título da propriedade ao nome da irmã de Muhammad Xá, que já repetidas vezes havia expressado seu desejo de se tornar sua proprietária. O Hájí, furioso ao saber dessa transação, deu ordens para que se tomasse posse da propriedade à força, alegando que já a havia comprado de seu dono original. Os representantes de Hájí Mirza Áqásí foram severamente repreendidos pelos agentes da irmã do Xá e foram requisitados para informar seu mestre da determinação daquela senhora de manter seus direitos. O Hájí levou o caso a Muhammad Xá, queixando-se do tratamento injusto ao qual fora sujeitado. Naquela mesma noite havia a irmã do Xá lhe informado da natureza da transação. "Muitas vezes", ela disse a seu irmão, "Vossa Majestade Imperial amavelmente tem-me dado a entender seu desejo de que me desfizesse das jóias com as quais costumo adornar-me em sua presença e comprasse com o rendimento alguma propriedade. Finalmente consegui satisfazer seu desejo. Hájí Mirza Áqásí, porém, está de todo determinado a tirá-la de mim à força." O xá tranqüilizou a irmã e ao Hájí ordenou que desistisse de sua pretensão. Este, em seu desespero, chamou Bahá'u'lláh à sua presença e por meio de todos os artifícios tentou desacreditar Seu nome. Às acusações contra Ele, Bahá'u'lláh replicou vigorosamente e conseguiu estabelecer Sua inocência. Em sua fúria fútil, o Grão-Vizír exclamou: "Qual o propósito de todas essas festas e banquetes nos quais pareceis vos deleitar? Eu, que sou primeiro-ministro do xáinxá da Pérsia, nunca recebo o número e a varidade de convidados que se amontoam ao redor de vossa mesa todas as noites. Por que toda essa extravagância e vaidade? Deveis seguramente estar tramando um complô contra mim". "Deus Misericordioso!", respondeu Bahá'u'lláh. "Deverá o homem que, da generosidade de seu coração, compartilha seu pão com seus semelhantes ser acusado de nutrir intenções criminosas?" Hájí Mirza Áqásí viu-se totalmente confuso. Não se atreveu a responder. Embora apoiado pelo conjunto dos poderes eclesiásticos e civis da Pérsia, ele se viu, afinal, completamente derrotado em cada luta na qual se aventurou contra Bahá'u'lláh.
Em outras numerosas oportunidades, a ascendência de Bahá'u'lláh sobre Seus adversários foi igualmente vindicada e reconhecida. Esses triunfos pessoais conseguidos por Ele serviram para Lhe realçar a posição e difundir largamente Sua fama. Todas as classes de pessoas maravilharam-se de Seu êxito milagroso em sair incólume dos mais perigosos encontros. Nada menos que a proteção divina, pensavam, poderia haver mantido Sua segurança em tais ocasiões. Embora cercado pelos mais graves perigos, nenhuma só vez se submeteu Bahá'u'lláh ante a arrogância, a avareza e a perfídia daqueles a Seu redor. Em Sua constante associação, nesses dias, com os mais altos dignitários do reino, quer eclesiásticos ou oficiais de Estado, Ele nunca se contentou em simplesmente anuir às opiniões por eles expressas ou às pretensões que avançavam. Em suas reuniões, era Ele o intrépido campeão da causa da verdade, vindicando os direitos dos espezinhados, defendendo os fracos e protegendo os inocentes.
CAPÍTULO VI
A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A KHURÁSÁN
O Báb, ao se despedir das Letras dos Viventes, deu instrução a cada uma e a todas, que anotassem em separado o nome de cada crente que abraçasse a Fé e se identificasse com seus ensinamentos. Pediu-lhes que enviassem a lista destes crentes em cartas seladas, endereçadas ao Seu tio materno, Hájí Mirza Siyyid 'Alí, em Shíráz, que por sua vez as entregaria a Ele. "Classificarei estas listas", disse-lhes, "em dezoito grupos de dezenove nomes cada. Cada grupo constituirá um váhid. (1) Todos estes nomes, nestes dezoito grupos, junto com o primeiro váhid, o qual consiste em Meu próprio nome e nos nomes das dezoito Letras dos Viventes, constituirão o número de Kull-i-Shay'. (2) De todos esses crentes farei menção na Epístola de Deus, para que o Bem-Amado de nossos corações, no Dia em que Ele tiver ascendido ao trono da glória, possa conferir a cada um deles Suas inestimáveis bênçãos e declará-los os habitantes de Seu Paraíso."
A Mullá Husayn, mais especialmente, o Báb deu instruções explícitas sobre o envio a Ele de um relatório, por escrito, a respeito da natureza e do progresso de suas atividades em Isfáhán, em Teerã e em Khurásán. Solicitou-lhe que O informasse sobre aqueles que aceitavam a Fé e a ela aderiram, bem como sobre aqueles que rejeitavam e repudiavam sua verdade. "Antes de receber tua carta de Khurásán", disse-lhe, "não estarei pronto para partir desta cidade em Minha peregrinação a Hijáz."
Mullá Husayn, revivificado e fortalecido pela experiência de seu encontro com Bahá'u'lláh, partiu em sua viagem a Khurásán. Durante sua visita a essa província, mostrou em grau surpreendente os efeitos do poder regenerador das palavras de despedida pronunciadas pelo Báb que o haviam envolvido. (3) O primeiro a abraçar a Fé em Khurásán foi Mirza Ahmad-i-Azghandí, o mais erudito, o mais sábio e o mais eminente dentre os ulemás dessa província. Em qualquer reunião que aparecesse, por grande que fosse o número de sacerdotes presentes e por mais representativo seu caráter, só ele era, invariavelmente, o principal orador. As elevadas qualidades de seu caráter, bem como sua piedade extrema, haviam enobrecido a reputação que já adquirira por sua erudição, sua habilidade e sua sabedoria. O próximo a abraçar a Fé entre os shaykís d Khurásán foi Mullá Ahmad-i-Mu'allim, que fora, enquanto em Karbilá, o instrutor dos filhos de Siyyid Kázím. Após ele, veio Mullá Shaykh 'Alí, a quem o Báb cognominou de 'Azím e depois Mullá Mirza Muhammad-i-Fúrúghí, a quem somente Mirza Ahmad excedia em conhecimentos. A não ser estas figuras de destaque entre os dirigentes eclesiásticos de Khurásán, ninguém exercia autoridade suficiente ou possuía o conhecimento necessário para desafiar os argumentos de Mullá Husayn.
Mirza Muhammad Báqir-i-Qá'iní, que havia estabelecido residência em Mashhad nos anos restantes e sua vida, foi o próximo a abraçar a Mensagem. O amor pelo Báb inflamava sua alma com tão veemente fervor que ninguém podia resistir à sua força ou menosprezar sua influência. Sua intrepidez, sua desmedida energia, sua lealdade inabalável e a integridade de sua vida combinaram-se todas, para torná-lo o terror de seus inimigos e uma fonte de inspiração para seus amigos. Colocou sua casa à disposição de Mullá Husayn, arranjou entrevistas exclusivas entre ele e os ulemás de Mashhad e continuou a se esforçar ao máximo para remover todo obstáculo que pudesse impedir o progresso da Fé. Era incansável em seus esforços, irredutível em seu propósito e de energia inesgotável. Continuou a labutar infatigavelmente por sua bem-amada Causa até a última hora de sua vida, quando caiu como mártir no forte de Shaykh Tabarsí. Em seus últimos dias, após a morte trágica de Mullá Husayn, Quddús lhe havia pedido que assumisse o comando dos heróicos defensores desse forte. Desempenhara gloriosamente sua tarefa. Sua casa, situada em Bálá-Khíyábán, na cidade de Mashhad, ainda hoje é conhecida pelo nome de Bábíyyih. Quem nela entra jamais pode escapar da acusação de ser Bábí. Que sua alma descanse em paz!
Mullá Husayn, após haver ganho para a Causa defensores tão capazes e devotados,decidiu dirigir ao Báb por escrito um relatório sobre suas atividades. Em sua mensagem referiu-se em detalhe à sua estada em Isfáhán e Káshán, relatou sua experiência com Bahá'u'lláh, referiu-se à partida dEste para Mázindarán, narrou os acontecimentos em Núr e informou-O do êxito que coroara seus próprios esforços em Khurásán. Mandou inclusa uma lista dos nomes daqueles que responderam à seu chamado e de cuja firmeza e sinceridade se sentia seguro. Enviou sua carta via Yazd, por intermédio dos sócios fidedignos do tio materno do Báb, os quais residiam, nesse tempo, em Tabas. Essa carta chegou às mãos do Báb na véspera do dia vinte e sete de Ramadán (4) à noite, que passou a ser profundamente reverenciada em todas as seitas do Islã e que, na opinião de muitos, rivaliza em santidade com a própria Laylat-tu'l-Qadr, a noite que nas palavras do Alcorão, "excede em excelência mil meses". (5) O único companheiro do Báb quando recebeu a carta nessa noite foi Quddús, com quem Ele compartilhou algumas passagens.
Tenho ouvido Mirza Ahmad relatar o seguinte: O tio materno do Báb descreveu a mim, ele mesmo, as circunstâncias sob as quais o Báb recebeu a carta de Mullá Husayn: "Nessa noite vi tais evidências de júbilo e contentamento nas faces do Báb e de Quddús que nem as posso descrever. Muitas vezes, naqueles dias, ouvia o Báb repetir com exultação: 'Como é maravilhoso, extremamente maravilhoso, o que ocorreu entre os meses de Jamádí e Rajab!' Quando estava lendo a mensagem que Mullá Husayn Lhe enviara, volveu-se para Quddús e, mostrando-lhe certas passagens dessa carta, explicou a razão de Suas jubilosas expressões de surpresa. Eu, por minha parte, nenhum conhecimento tive da natureza dessa explicação".
Mirza Ahmad, a quem o relato desse incidente causava uma impressão profunda, estava determinado a sondar seu mistério. "Até que me encontrei com Mullá Husayn em Shíráz", disse-me, "não pude satisfazer minha curiosidade. Quando lhe repeti a narração que me fizera o tio do Báb, ele sorriu e disse que muito bem se lembrava haver estado por acaso em Teerã entre os meses de Jamádí e Rajab. Não deu outra explicação, contentando-se com essa breve observação. Bastou, porém, para me convencer de que na cidade de Teerã jazia oculto um Mistério que, ao ser revelado ao mundo, traria júbilo indizível aos corações tanto do Báb quanto de Quddús."
As referências na carta de Mullá Husayn à resposta imediata de Bahá'u'lláh à Mensagem Divina, bem como as referências à vigorosa campanha que Ele audazmente iniciara em Núr e ao maravilhoso êxito que coroara Seus esforços, animaram e alegraram o Báb, reforçando-Lhe a confiança na vitória final de Sua Causa. Sentiu-se certo de que, se fosse agora, de repente, ser vitimado pela tirania de Seus inimigos e partir deste mundo, a Causa que revelara viveria; continuaria, sob a direção de Bahá'u'lláh e se desenvolver e florescer, até dar finalmente seus frutos mais escolhidos. A mão mestra de Bahá'u'lláh guiaria seu curso, e a influência penetrante de Seu amor haveria de estabelecê-la nos corações dos homens. Esta convicção fortificou Seu espírito e Lhe inundou de esperança. Desde aquele momento, Seus receios de riscos ou perigos iminente abandonaram-no completamente. Como a fênix, acolheu com júbilo o fogo da adversidade e se deleitava com o brilho e ardor de sua chama.
CAPÍTULO VII
A PEREGRINAÇÃO DO Báb A MECA E A MEDINA
A carta de Mullá Husayn fez o Báb decidir a empreender Sua planejada peregrinação a Hijáz. Confiando Sua esposa aos cuidados de Sua mãe e ambas aos cuidados e proteção de Seu tio materno, uniu-se à companhia dos peregrinos de Fárs que estavam se preparando para ir de Shíráz a Meca e Medita (1). Quddús era Seu único companheiro e o servo etíope, Seu criado pessoal. Procedeu a Búshihr, sede do negócio de Seu tio, onde em dias passados, estreitamente associado com ele, vivera a vida de um humilde comerciante. Havendo lá completado os preparativos preliminares para Sua longa e árdua viagem, embarcou num barco a vela que após dois meses de navegação lenta, tempestuosa e insegura, O deixou nas praias daquela terra sagrada (2). Mares bravos e a ausência completa de conforto não puderam interferir com a regularidade de Suas devoções, nem perturbar a tranquilidade de Suas meditações e orações. Esquecido da tempestade que enfurecia ao Seu redor, nem impedido pela enfermidade que se havia apoderado de Seus companheiros de peregrinação, continuou a ocupar Seu tempo em ditar a Quddús tais orações e epístolas que se sentia inspirado a revelar.
Tenho ouvido Hájí Abu'l-Hasan-i-Shírází, que estava viajando no mesmo barco do Báb, descrever as circunstâncias dessa viagem memorável: "Durante todo o período de aproximadamente dois meses", afirmou ele, "desde o dia em que embarcamos em Bushihr até o dia em que desembarcamos em Jaddih, o porto de Híjáz, em qualquer ocasião, de dia ou à noite, em que por acaso encontrasse com o Báb ou Quddús, eu os via invariavelmente juntos, ambos absortos em seu trabalho. O Báb parecia estar ditando, enquanto Quddús estava zelosamente ocupado em anotar tudo o que fluía de Seus lábios. Até quando o pânico parecia se haver apoderado dos passageiros desse barco à mercê das ondas, eles eram vistos prosseguindo sua tarefa com confiança e serenidade imperturbadas. Nem a violência do tempo, nem o tumulto da gente ao seu redor podia alterar a tranqüilidade de seus semblantes ou desviá-los de seu propósito."
O Báb mesmo, no Bayán Persa (3), refere-se às durezas dessa viagem. "Por muitos dias", escreveu, "sofremos por causa da escassez de água. Tinha de me contentar com o suco do limão doce." Em conseqüência dessa experiência, suplicou ao Todo-Poderoso que concedesse os meios pelos quais as viagens marítimas muito breve fossem melhoradas, sendo reduzidas suas durezas e inteiramente eliminados seus perigos. Dentro de um curto espaço de tempo depois de ser oferecida essa oração, têm-se multiplicado em grande escala as evidências de uma notável melhora em todas as formas de transporte marítimo e o Golfo Pérsico, que naqueles dias quase não possuía um único barco a vapor, agora se jacta de uma frota de transatlânticos que em poucos dias e com a maior comodidade leva o povo de Fárs em sua peregrinação anual a Híjáz.
Os povos do Ocidente, entre os quais aparecem as primeiras evidências desta grande Revolução Industrial, estão ainda infelizmente, de todo despercebidos da Fonte donde se deriva essa poderosa corrente, essa grande força motriz, força essa que revolucionou todo aspecto de sua vida material. Sua própria história testemunha o fato de que no ano que viu alvorecer esta gloriosa Revelação, apareceram de súbito evidências de uma revolução industrial e econômica que o próprio povo declara ser sem precedentes na história da humanidade. Em sua preocupação com os detalhes do funcionamento e dos ajustes desta maquinaria recém concebida, eles têm gradualmente perdido de vista a Origem e o objeto deste poder tremendo que o Todo-Poderoso confiou a seu cuidado. Parecem haver abusado gravemente desse poder e compreendido mal sua função. Embora fosse seu desígnio conferir ao povo do Ocidente as bênçãos da paz e da felicidade, foi utilizado por eles para promover os interesses da destruição e da guerra.
Ao chegar em Jaddih, o Báb vestiu os trajes de peregrinação, montou um camelo e partiu em Sua viagem a Meca. Quddús, porém, não obstante o desejo de seu Mestre, expresso repetidas vezes, preferiu acompanhá-Lo a pé por todo o caminho de Jaddih àquela cidade santa. Segurando em sua mão o cabresto do camelo em que o Báb estava montado, andou jubiloso, em atitude de prece, ministrando às necessidades de seu mestre de todo indiferente às fadigas de sua marcha árdua. Toda noite, desde o entardecer até ao alvorecer, Quddús, sacrificando conforto e sono, continuava com incessante vigilância a velar ao lado de seu Bem-Amado, pronto a atender Suas necessidades e prover os meios de Sua proteção e segurança.
Um dia quando o Báb havia desmontado perto de uma nascente a fim de oferecer Suas orações matinais, um beduíno nômade apareceu de repente do horizonte, aproximou-se Dele e apanhando o alforje que jazia no chão ao Seu lado e que continha Seus escritos e papéis, desvaneceu-se no deserto desconhecido. Seu servo etíope saiu em seu encalço mas foi impedido pelo seu Mestre, que, enquanto orava, lhe fez sinal com a mão para que abandonasse seu intento. "Tivesse eu permitido", afetuosamente lhe assegurou o Báb, " mais tarde, com certeza o terias alcançado e punido. Mas isso não havia de ser. Os papéis e escritos que aquele alforje continha são destinados a atingir, por meio desse árabe, lugares aos quais nunca haveríamos de conseguir chegar. Não te entristeças pois, por causa de sua ação, pois isso foi decretado por Deus, o Ordenador, o Onipotente." Muitas vezes, posteriormente, procurava o Báb consolar Seus amigos em ocasiões similares com tais considerações. Mediante palavras como estas transformava a amargura do remorso e ressentimento em radiante aquiescência ao desígnio divino e em alegre submissão à vontade de Deus.
No dia de 'Arafát (4), o Báb, retirando-se para a reclusão silenciosa de Seu quarto, devotou todo o Seu tempo à meditação e adoração. No dia seguinte, o dia de Nahr, após haver oferecido a oração do dia festivo foi a Muná, onde, segundo o costume antigo, comprou dezenove cordeiros da raça mais seleta, dos quais sacrificou nove em Seu próprio nome, sete no nome de Quddús e três em nome de Seu servo etíope. Recusou participar da carne desse sacrifício consagrado, preferindo distribui-la livremente entre os pobres e necessitados da vizinhança.
Embora o mês de Dhi'l-Hijjih (5), o mês de peregrinação a Meca e Medina, coincidisse naquele ano com o primeiro mês da estação de inverno, no entanto, era tão intenso o calor nessa região, que os peregrinos os quais circulavam o sagrado santuário não puderam praticar este ritual em suas vestes usuais. Envoltos numa túnica leve e frouxa, tomaram parte na celebração do festival. O Báb, entretanto, em sinal de deferência, não consentiu em tirar nem Seu turbante nem o manto. Vestido como de costume, Ele, com a maior dignidade e calma, e com extrema simplicidade e reverência, circulou o Ka'bih e praticou todos os ritos de adoração prescritos.
No último dia de Sua peregrinação a Meca, o Báb encontrou com Mirza Muhít-i-Kirmání. Estava em pé com a face volvida para a Pedra Negra, quando o Báb se aproximou dele e tomando sua mão, lhe dirigiu estas palavras: "Ó Muhít! Vós vos considerais uma das figuras de maior destaque da comunidade shaykhí e um distinguido expositor de seus ensinamentos. Em vosso coração até pretendeis ser um dos sucessores diretos e legítimos herdeiros daquelas grandes Luzes gêmeas, daquelas Estrelas que anunciaram o amanhecer da guia Divina. Vede, agora estamos ambos em pé dentro deste mais sagrado santuário. Dentro de seus santos recintos, Aquele cujo Espírito habita neste lugar pode fazer que a Verdade imediatamente seja conhecida e distinguida da falsidade e a retidão do erro. Verdadeiramente declaro, ninguém senão Eu, neste dia, quer seja no Oriente ou no Ocidente, pode pretender ser a Porta que conduz os homens ao conhecimento de Deus. Minha prova não é outra senão aquela mediante a qual se estabeleceu a verdade do Profeta Maomé. Perguntai-Me o que quiserdes; agora, neste mesmo momento, comprometo-Me a revelar tais versículos como podem demonstrar a verdade de Minha missão. Deveis escolher entre submeter-vos sem reservas à Minha Causa ou repudiá-la inteiramente. Outra alternativa não vos resta. Se decidirdes rejeitar Minha Mensagem, não soltarei vossa mão antes de dardes vossa palavra que declarará publicamente vosso repúdio da Verdade que proclamei. Assim se tornará conhecido Aquele que diz a Verdade e quem disser palavras falsas será condenado à miséria e vergonha eternas. Então a senda da Verdade será revelada e se tornará manifesta a todos os homens."
Este desafio decisivo tão inesperadamente lançado pelo Báb a Mirza Muhít-i-Kirmání causou-lhe profunda aflição. Assombrou-se diante da franqueza deste desafio e sua força e majestade constrangedoras. Ele na presença desse Jovem não obstante sua idade, sua autoridade e seus conhecimentos, sentia-se como um pássaro indefeso nas garras de uma poderosa água. Confuso e cheio de temor, respondeu: "Meu Senhor, meu Mestre! Sempre desde o dia em que meus olhos Vos contemplaram em Karbilá, parece-me que tenho afinal encontrado e reconhecido Aquele que fora o objeto de minha busca. Renuncio a quem deixou de Vos reconhecer e desprezo aquele em cujo coração pode ainda restar a mais leve desconfiança a respeito de vossa pureza e santidade. Eu Vos peço que não considereis minha fraqueza e imploro que me respondais em minha perplexidade. Queira Deus possa eu, neste mesmo lugar dentro dos recintos deste sagrado santuário, jurar minha lealdade a Vós e me levantar para o triunfo de Vossa Causa. Se eu fosse insincero naquilo que declaro, se em meu coração eu desacreditasse o que meus lábios proclamam, eu me julgaria completamente indigno da graça do Profeta de Deus e consideraria minha ação uma prova de deslealdade manifesta a 'Alí, Seu sucessor eleito."
O Báb, que escutou atentamente suas palavras e que bem conhecia sua impotência e pobreza de alma, respondeu dizendo: "Em verdade digo, mesmo agora se conhece e se distingue a Verdade da falsidade. Ó santuário do Profeta de Deus e tu, ó Quddús, que em Mim acreditaste! A ambos, nesta hora, tomo por Minhas testemunhas. Presenciastes e ouvistes o que sucedeu entre Mim e ele. Chamo-vos para atestardes isto e Deus, verdadeiramente, está além e acima de vós, Minha Testemunha segura e final. Ele é Quem a tudo vê, o Onisciente, o Sábio. Ó Muhit! Exponde qualquer coisa que em vossa mente cause perplexidade e Eu, com a ajuda de Deus, soltarei minha língua e Me incumbirei de resolver vossos problemas, para que possais dar testemunho da excelência de Minhas palavras e compreender que ninguém, a não ser Eu, tem capacidade para manifestar Minha sabedoria."
Mirza Muhít respondeu ao convite do Báb, submetendo-Lhe suas perguntas. Alegando a necessidade de sua partida imediata para Medina, expressou a esperança de receber, antes de partir dessa cidade, o texto da prometida resposta. "Satisfarei vosso pedido", assegurou-le o Báb. "Na viagem a Medina, com a ajuda de Deus, revelarei Minha resposta às nossas perguntas. Se não vos encontrar nesta cidade Minha resposta seguramente vos alcançará logo após vossa chegada em Karbilá. Qualquer coisa que a justiça e a eqüidade possam ditar, o mesmo espero que cumprais. 'Se fizerdes o bem, em benefício próprio fareis o bem; e se o mal fizerdes, contra vós próprios o fareis.' 'Deus, em verdade é independente de todas as Suas criaturas (6).'"
Mirza Muhít, antes de sua partida, expressou novamente sua firme resolução de cumprir sua promessa solene. "Nunca sairei de Medina", assegurou ao Báb, "aconteça o que acontecer, antes de cumprir meu convênio convosco." Assim como a partícula levada pelo furacão, ele não podendo enfrentar a sobrepujante majestade da Revelação proclamada pelo Báb, fugiu aterrorizado diante de Sua face. Demorou-se um pouco em Medina e infiel a sua promessa e não levando em conta as admoestações de sua consciência, partiu para Karbilá.
O Báb, fiel a Sua promessa, revelou durante a viagem de Meca a Medina, Sua resposta escrita às perguntas que haviam tornado perplexa a mente de Mirza Muhít, entitulando-a Sahífiy-i-Bayni'l-Haramayn (7). Mirza Muhít, que a recebeu nos primeiros dias de sua estada em Karbilá, não se sentiu comovido pelo seu tom e recusou reconhecer os preceitos que inculcava. Sua atitude para com a Fé era de oposição dissimulada e persistente. Em certas ocasiões, professava ser seguidor e defensor daquele notório adversário do Báb, Hájí Mirza Karím Khán e algumas vezes vindicava para si o grau de líder independente. Quando se aproximava o fim de seus dias e ele estava residindo no Iraque, fingiu submissão a Bahá'u'lláh e expressou, por intermédio de um dos príncipes persas que moravam em Bagdá, o desejo de conhecê-Lo. Pediu que a entrevista que propunha fosse considerada estritamente confidencial. "Diga-Lhe", foi a resposta de Bahá'u'lláh, "que nos dias de Meu retiro nas montanhas de Sulaymáníyyih, em certa ode que compus, apresentei os requisitos essenciais para cada caminhante que trilha a senda da busca em seu desejo de alcançar a Verdade. Compartilhe com ele este verso daquela ode: 'Se for teu objetivo Amar a tua vida não te aproximes da Nossa Corte; mas se o sacrifício foi o desejo do teu coração, venha e deixe que os outros venham contigo. Pois tal é o caminho da Fé, se em teu coração buscares reunião com Bahá; se recusares trilhar este caminho por que Nos importunar? Ide!"' Se ele assim desejar, abertamente e sem reservas se apressará a se encontrar comigo se não, recuso recebê-lo." A resposta inequívoca de Bahá'u'lláh embaraçou Mirza Muhít. Não podendo resistir e não querendo se conformar, partiu para sua casa em Karbilá no mesmo dia em que recebeu essa mensagem. Assim que chegou, adoeceu e três dias depois faleceu.
Mal havia o Báb cumprido com a última das observâncias relacionadas a Sua peregrinação a Meca, quando dirigiu uma epístola ao Xerife dessa cidade santa, expondo em termos claros e inequívocos, as feições distintivas de Sua missão e o chamando a se levantar e abraçar Sua Causa. Esta epístola, junto com seleções de Seus outros escritos, Ele entregou a Quddús com instruções para sua apresentação ao Xerife. Este, porém, demasiado absorto em seus próprios interesses materiais para inclinar o ouvido às palavras que o Báb lhe dirigira, deixou de responder ao chamado da Mensagem Divina. Tem-se ouvido Hájí Níyáz-i-Baghdádí relatar o seguinte: 'No ano de 1267 A.H. (8), empreendi uma peregrinação a essa cidade santa, onde tive o privilégio de conhecer o Xerife. Em sua conversação comigo disse: "Recordo que no ano 60, durante a estação de peregrinação, um jovem veio me visitar. Apresentou-me um livro selado que prontamente aceitei mas que estava demasiadamente ocupado naquele tempo para ler. Alguns dias depois, encontrei novamente com aquele mesmo jovem, que me perguntou se eu tinha alguma resposta a dar a sua oferta. A pressão de trabalho mais uma vez me havia impedido de consdierar o conteúdo desse livro. Não lhe pude, pois, dar uma resposta satisfatória. Uma vez terminada a estação de peregrinação, um dia, enquanto arrumava minhas cartas, meus olhos avistaram por acaso esse livro. Abri-o e encontrei em suas páginas introdutórias uma homilia comovente e belamente escrita, seguida por versos cujo tom e linguagem eram extraordinariamente parecidos com os do Alcorão. Tudo o que pude deduzir da leitura do livro foi que entre o povo da Pérsia um homem da progênie de Fátimih e descendente da família de Háshim, levantara um novo chamado, anunciando a todos o aparecimento do prometido Qá'im. Não me foi esclarecido, todavia, o nome do autor desse livro, nem fui informado das circunstâncias que acompanhavam esse chamado.' 'Uma grande comoção, realmente,' observei, 'tem se apoderado dessa terra durante estes últimos anos. Um Jovem, descendente do Profeta e comerciante de profissão, afirmou ser Sua voz a Voz da inspiração Divina. Declarou publicamente que, dentro do espaço de poucos dias, poderiam manar de Sua língua versículos cujo número e excelência ultrapassariam em volume e beleza o próprio Alcorão - obra cuja revelação por Maomé levou nada menos de vinte e três anos. Uma multidão dentre os habitantes da Pérsia, tanto de alto como de baixo grau, civis eclesiásticos, se reuniram ao redor de Seu estandarte e espontaneamente se sacrificaram em Sua senda. Esse Jovem no ano passado, nos últimos dias do mês de Sha'bán (9), sofreu martírio em Tabriz, na província de Adhirbáyján. Os que O perseguiram tentaram por este meio extinguir a luz que Ele acendeu naquela terra. Desde Seu martírio, porém, Sua influência tem penetrado em todas as classes do povo.' O Xerife, que escutava com atenção, expressou sua indignação com o comportamento daqueles que haviam perseguido o Báb. 'Que a maldição de Deus esteja sobre essa gente má,' exclamou, 'gente que em tempos passados tratou de igual maneira nossos santos e ilustres ancestrais! Com estas palavras, o Xerife terminou sua conversação comigo."
De Meca o Báb prosseguiu a Medina. Foi o primeiro dia do mês de Muharram, no ano de 1261 A.H. (10), quando estava a caminho para essa cidade santa. Enquanto dela se aproximava, lembrou-se dos acontecimentos comovedores que haviam imortalizado o nome Daquele que vivera e morrera dentro de seus muros. Aquelas cenas que davam eloqüente testemunho do poder criador daquele Gênio imortal pareceiam ser reapresentados novamente, com igual esplendor, diante de Seus olhos. Orou ao se aproximar desse sagrado sepulcro que encerrava os restos mortais do Profeta de Deus. Lembrava-se também, enquanto pisava essa terra sagrada, aquele brilhante Arauto de Sua própria Dispensação. Sabia que no cemitério de Baqí', num lugar não muito distante do santuário de Maomé, repousavam os restos mortais de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, o anunciador de Sua própria Revelação que, após uma vida de oneroso serviço decidira passar o ocaso de seus dias dentro dos recintos daquele sagrado santuário. Apareceu-Lhe também a visão daqueles homens santos pioneiros e mártires da Fé, que haviam caído gloriosamente no campo de batalha e que com seu sangue vital, selaram o triunfo da Causa de Deus. Seu sagrado pó parecia como se reanimado com o suave pisar de Seus pés. Seus espíritos pareciam haver se despertado com o alento revivificador de Sua presença. Olhavam para Ele como se tivessem levantado a Sua chegada, se estivessem apressando em Sua direção e Lhe dando boas vindas. Pareciam estar Lhe dirigindo este fervoroso apelo. "Não te retires para Tua terra natal, nós Te imploramos, ó Tu bem-amado de nossos corações! Permanece tu conosco, pois aqui, longe do tumulto de Teus inimigos que estão à espreita de Ti, estarás são e salvo. Estamos temerosos por Ti. Tememos as intrigas e maquinações de Teus inimigos. Trememos ao pensarmos que seus atos podem trazer maldição eterna as suas almas." "Não temais", respondeu o Espírito indomável do Báb: "Vim a este mundo dar testemunho à glória do sacrifício. Vós percebeis a intensidade de Meu anelo; compreendeis o grau de Minha renúncia. Não, suplicai ao Senhor, vosso Deus, que apresse a hora de Meu martírio e aceite Meu sacrifício. Regozijai-vos, pois tanto Eu como Quddús seremos mortos no altar de nossa devoção ao Rei da Glória. O sangue que estamos destinados a derramar em Seu caminho regará e avivará o jardim de nossa felicidade imortal. As gotas deste sangue consagrado serão as sementes das quais surgirá a poderosa Árvore de Deus, a Árvore que recolherá a sua sombra, que a tudo abarca, os povos e raças da Terra. Não vos entristeçais, portanto, se Eu partir desta terra, pois me apresso a cumprir Meu destino."
CAPÍTULO VIII
A ESTADA DO Báb EM SHÍRÁZ APÓS A PEREGRINAÇÃO
A visita do Báb a Medina marcou a etapa final de Sua peregrinação a Hijáz. Daí Ele regressou a Jaddih e por via marítima alcançou Sua terra natal, chegando em Búshihr nove meses lunares depois de haver embarcado desse porto para sua peregrinação. No mesmo khán (1) que havia ocupado anteriormente, recebeu Seus amigos e parentes que tinham vindo recebê-Lo e Lhe dar boas vindas. Enquanto ainda em Búshihr, chamou Quddús a Sua presença e com a maior ternura o mandou partir para Shiráz. "Os dias de tua associação Comigo," disse-lhe, "aproximam-se de seu fim. Soou a hora da separação, uma separação que não será seguida por nenhuma reunião, salvo no Reino de Deus, na presença do Rei da Glória. Neste mundo de pó não te foram destinados mais de nove meses passageiros de associação Comigo. Nas prais do Grande Além, entretanto, no domínio da imortalidade, o júbilo da eterna reunião nos espera. A mão do destino breve te submergirá num oceano de tribulações por Sua causa. Eu, também, te seguirei; Eu, também estarei imerso em suas profundezas. Regozija-te com júbilo extremo, pois foste escolhido como o porta-estandarte da hoste da aflição e estás na vanguarda do nobre exército que há de sofrer martírio em Seu Nome. Nas ruas de Shíráz, indignidades serão amontoadas sobre ti e as mais severas feridas afligirão teu corpo. Haverás de sobreviver a conduta ignominiosa de teus inimigos e atingir a presença de Daquele que é o objeto único de nossa adoração e amor. Em Sua presença te esquecerás de todo o dano e toda a desgraça que haverá de te sobrevir. As hostes do Invisível apressar-se-ão a te ajudar e proclamarão ao mundo inteiro teu heroísmo e glória. Tua será a felicidade inefável de sorver o cálice do martírio por Sua causa. Eu, também, trilharei a senda do sacrifício e Me reunirei contigo no reino da eternidade." O Báb entregou em suas mãos então, uma carta que havia escrito a Hájí Mirza Siyyid 'Alí, Seu tio materno, na qual o informou de Seu regresso a Búshihr são e salvo. Também lhe confiou uma cópia do Khasá'il-i-Sab'ih (2), um tratado em que expusera os requisitos essenciais para aqueles que haviam atingido o conhecimento da nova Revelação e reconhecido sua pretensão. Ao se despedir de Quddús pela última vez, pediu que transmitisse Suas saudações a casa um de Seus bem-amados em Shíráz.
Quddús, sentindo uma inabalável determinação de cumprir os desejos expressados por seu Mestre, partiu de Búshihr. Ao chegar em Shíráz, foi recebido afetuosamente por Hájí Mirza Siyyid 'Alí, que o hospedou em sua própria casa e inquiriu ansiosamente sobre a saúde e as atividades de seu bem-amado Parente. Achando-o receptivo ao chamado da nova Mensagem, Quddús o informou da natureza da Revelação com a qual esse Jovem já lhe havia inflamado a alma. O tio materno do Báb, como resultado dos esforços envidados por Quddús, foi o primeiro, após as Letras dos Viventes, a abraçar a Causa em Shíráz. Como não se havia divulgado ainda o pleno significado da Fé recém-nascida, ele desconhecia o verdadeiro âmbito de suas implicações e sua glória. Sua conversação com Quddús, porém, removeu de seus olhos o véu. Tão firme se tornou sua fé e tão profundo veio a ser seu amor pelo Báb, que consagrou toda a sua vida a Seu serviço. Com incessante vigilância se levantou para defender Sua Causa e proteger Sua pessoa. Em seus esforços constantes, tinha em pouca conta a fadiga e desdenhava a morte. Embora reconhecido como figura de destaque entre os comerciantes dessa cidade, nunca permitiu que considerações materiais interferissem com sua responsabilidade espiritual de salvaguardar a pessoa de seu bem-amado Parente e Lhe promover a Causa. Perseverou em sua tarefa até a hora em que, unindo-se com a companhia dos Sete Mártires de Teerã, em circunstâncias de excepcional heroísmo, por Ele ofereceu sua vida.
A próxima pessoa com quem se encontrou Quddús em Shíráz foi Ismu'lláhu'l-Asdaq, Mullá Sádiq-i-Khurásání, a quem confiou a cópia do Khasá'il-i-Sab'ih, frisando a necessidade de executar imediatamente todas as suas provisões. Entre seus preceitos estava o enfático mandado do Báb a cada crente leal, de acrescentar à fórmula tradicional do adhán (3) as seguintes palavras: "Dou testemunho de que Aquele cujo nome é 'Alí-Qabl-i-Muhammad (4) é o servo do Baqíyyatu'lláh (5)." Mullá Sádiq, que naqueles dias havia exaltado do púlpito a grandes congregações, as virtudes dos imames da Fé, sentiu-se tão extasiado com o tema e a linguagem desse tratado que sem hesitar resolver levar a cabo todos os preceitos que ordenava. Compelido pela força impulsora inerente nessa Epístola, certo dia, enquanto dirigia sua congregação em prece no Masjid-i-Naw, proclamou de súbito, ao pronunciar o adhán, as palavras adicionais prescritas pelo Báb. A multidão que o ouviou assombrou-se diante dessa proclamação. Alarme e consternação apoderaram-se da congregação inteira. Os sacerdotes distintos, que ocupavam os primeiros assentos e que eram muito reverenciados por sua piedosa ortodoxia, clamaram e protestaram em altas vozes: "Ai de nós, guardiães e protetores da Fé de Deus! Vede, este homem içou o estandarte da heresia. Abaixo este infame traidor! Pronunciou blasfêmia. Prendei-o, pois ele é uma desonra para nossa Fé." "Quem," exclamaram iradamente, "se atreveu a autorizar tão grave desvio dos preceitos estabelecidos do islã? Quem presumiu arrogar para si essa suprema prerrogativa?"
O povo ecoou os protestos desses sacerdotes e se levantou para lhes reforçar o clamor. A cidade toda agitara-se e a ordem pública, em conseqüência, estava seriamente ameaçada. O governador da província de Fárs, Husayn Khán-i-Íravání, de sobrenome Ájúdán-Báshí, geralmente designado naquele tempo como Sáhib-Ikhtíyár (6), achou necessário intervir e indagar a causa dessa repentina comoção. Informaram-lhe que um discípulo de um jovem chamado Siyyid-i- Báb, que acabava de voltar de Sua peregrinação a Meca e Medina e estava agora residindo em Búshihr, chegara em Shíráz e estava propagando os ensinamentos de seu Mestre. "Este discípulo", disseram mais tarde a Husayn Khán, "mantém que seu mestre é autor de uma nova revelação e revelador de um livro que, assevera ele, é divinamente inspirado. Mullá Sádiq-i-Khurásání já abraçou essa fé e destemidamente convoca a multidão para aceitar essa mensagem. Declara ser seu reconhecimento a primeira obrigação de cada leal e piedoso seguidor do islã xiita."
Husayn Khán mandou prender tanto Quddús como Mullá Sadíq. As autoridades policiais, às quais foram entregues, receberam instruções para levá-los algemados à presença do governador. A polícia entregou também às mãos de Husayn Khán a cópia do Qayyúmu'l-Asmá, que haviam tirado de Mullá Sádiq enquanto lia suas passagens em voz alta a uma congregação excitada. Quddús, por causa de sua aparência jovem e vestimenta informal foi de início ignorado por Husayn Khán, preferindo dirigir suas observações ao seu companheiro idoso e de maior dignidade. "Diga-me", perguntou irosamente o governador, volvendo-se para Mullá Sádiq, "se conhece a passagem introdutória do Qayyúmu'l-Asmá, onde o Siyyid-i- Báb se dirige aos governantes e reis da Terra nestes termos: "Despi-vos da vestimenta da soberania, pois Aquele que é em verdade o Rei se manifestou! O Reino é de Deus, o Excelso. Assim decretou a Pena do Altíssimo!" "Se isto é verdade, deve aplicar-se necessariamente ao meu soberano, Muhammad Xá, da dinastia Qájár (7), a quem eu represento como magistrado chefe desta província. Deverá Muhammad Xá, segundo esse mandado, depor a coroa e abandonar sua soberania? Deverei eu, também, abdicar meu poder e renunciar minha posição?" Mullá Sádiq, sem hesitar, replicou: "Uma vez que a verdade da Revelação anunciada pelo Autor destas palavras tenha sido definitivamente estabelecida, do mesmo modo será vindicada a verdade de qualquer coisa que Seus lábios tenham pronunciado. Se estas palavras são a Palavra de Deus, a abdicação de Muhammad Xá e dos que lhe são semelhantes, pouco pode importar. Isso não poderá, em absoluto, desviar o propósito Divino, nem alterar a soberania do Rei Todo-poderoso e eterno (8)."
Esse governante cruel e ímpio desagradou-se seriamente com tal resposta. Com vitupérios e maldições, mandou que os assistentes o despissem das vestimentas e o açoitassem com mil chicotadas. Deu ordens então para queimar a barba tanto de Quddús como de Mullá Sádiq, lhes perfurar as narinas e pela incisão passar uma corda, pela qual, como cabresto, fossem conduzidos pelas ruas da cidade (9). "Será uma lição objetiva para o povo de Shíráz," declarou Husayn Khán, "que saberá qual é o castigo pela heresia." Mullá Sádiq, calmo e com presença de espírito, com os olhos voltados para o céu, recitou esta oração. "Ó Senhor, nosso Deus! Em verdade ouvimos a voz de Alguém que chamou. Ele nos chamou para a Fé - 'Acreditai no Senhor, vosso Deus!' - e nós acreditamos. Ó Deus, nosso Deus! Perdoa-nos pois nossos pecados e oculta nossas más ações e faze que morramos com os justos (10)." Com magnífica fortaleza resignaram-se ambos a seu destino. Aqueles incumbidos de infligir esse castigo selvagem desempanharam sua tarefa com alacridade e vigor. Ninguém interveio em prol destas vítimas; ninguém se inclinou a defender sua causa. Pouco depois disso foram ambos expulsos de Shíráz. Antes de sua expulsão foram prevenidos de que, se alguma vez tentassem regressar a essa cidade, ambos seriam crucificados. Por seus sofrimentos ganharam a distinção imortal de haverem sido os primeiros perseguidos em solo persa por causa de sua Fé. Mullá 'Alíy-i-Bastámí, embora o primeiro a cair vítima do ódio implacável do inimigo, sofreu sua perseguição no Iraque que jaz além dos confins da Pérsia. Tampouco podiam seus sofrimentos, por intensos que fossem, ser comparados com a horripilante e bárbara crueldade que caracterizavam a tortura infligida a Quddús e Mullá Sádiq.
Uma testemunha ocultar desse episódio revoltante, um residente de Shíráz que não era crente, contou-me o seguinte: "Estive presente quando Mullá Sádiq estava sendo açoitado. Vi seus perseguidores, cada um por sua vez, aplicar o chicote aos seus ombros sangrentos e continuar os golpes até ficarem exaustos. Ninguém acreditava que Mullá Sádiq, de idade tão avançada e corpo tão frágil, tinha possibilidade de sobreviver cinqüenta desses golpes selvagens. Nós nos maravilhamos diante de sua fortaleza, vendo que, embora o número de chicotadas recebidas já excedesse a novecentas, sua face retinha ainda sua original serenidade e calma. Sorria, enquanto mantinha a mão diante da boca. Parecia completamente indiferente aos golpes que choviam sobre ele. Quando estava sendo expulso da cidade, consegui aproximar-me dele e lhe perguntei por que mantinha a mão diante da boca. Expressei surpresa pelo sorriso em seu semblante. Ele respondeu enfaticamente: "Os primeiros sete golpes foram extremamente dolorosos; aos demais, parecia me haver tornado indiferente. Perguntava a mim mesmo se os golpes sucedentes estavam sendo aplicados realmente ao meu próprio corpo. Um sentimento de jubilosa exaltação ma havia invadido a alma. Estava tentando reprimir meus sentimentos e controlar meu riso. Posso agora compreender como o onipotente Salvador pode, num piscar de olhos, converter dor em alívio e tristeza em alegria. Imensamente exaltado é Seu poder acima e além da vã fantasia de Suas criaturas mortais." Mullá Sádiq, com quem me encontrei anos depois, confirmou cada detalhe desse comovente episódio.
A ira de Husayn Khán não se saciou com este castigo atroz e completamente imerecido. A sua desumana e caprichosa crueldade, deu ainda mais expansão no assalto agora dirigido contra a pessoa do Báb (11). Enviou a Búshihr uma escola montada composta de sua própria guarda de confiança, com instruções enfáticas de prender o Báb e levá-Lo acorrentado a Shíráz. O chefe dessa escolta, membro da comunidade Nusayrí, melhor conhecida como a seita de 'Aliyu'lláhí, relatou o seguinte: "Tendo completado a terceira etapa de nossa viagem a Búshihr, encontramos no meio da selva, um jovem que usava um cinturão verde e um turbante pequeno segundo o modo dos siyyids que são comerciantes de profissão. Estava montado, sendo seguido por um servo etíope que tinha a cargo seus pertences. Quando dele nos aproximamos, saudou-nos e inquiriu nosso destino. Pensei que seria melhor lhe ocultar a verdade e respondi que o governador de Fárs havia ordenado fazer certa investigação. Sorridente, observou: 'O governador mandou que Me prendêsseis. Aqui estou; fazei comigo o que quiserdes. Vindo ao vosso encontro, tenho encurtado a duração de vossa marcha e vos tornado mais fácil Me encontrar.' Fiquei atônito diante dessas palavras, maravilhando-me de sua candura e franqueza. Não pude explicar, porém, sua prontidão para se submeter, de sua própria vontade, à severa disciplina dos oficiais de governo e assim arriscar sua própria vida e segurança. Tentei ignorá-lo e me preparava para partir, quando se aproximou de mim e disse: 'Juro pela retidão Daquele que criou o homem, o distinguiu das demais de Suas criaturas e fez seu coração o assento de Sua soberania e Seu conhecimento, que em toda a Minha vida nenhuma palavra pronunciei salvo a verdade e nenhum desejo tive, a não ser o bem-estar e progresso de Meus semelhantes. Tenho desdenhado Minha própria comodidade e evitado ser causa de dor ou tristeza para qualquer pessoa. Sei que Me estais buscando. Prefiro entregar-Me em vossas mãos antes de vos submeter, a vós e aos vossos companheiros, a um desnecessário aborrecimento por Minha causa.' Estas palavras comoveram-me profundamente. Desmontei de meu cavalo instintivamente e beijando seus estribos a ele me dirigi nestas palavras: 'Ó luz dos olhos do Profeta de Deus! Adjuro-vos, por Aquele que vos criou e vos dotou de tão grande nobreza e poder, que atendais meu pedido e respondais à minha súplica. Imploro-vos que escapeis deste lugar e fujais da face de Husayn Khán, o governador impiedoso e vil desta província. Tenho pavor de suas maquinações contra vós; rebelo-me diante da idéia de ser feito o instrumento de seus maliciosos desígnios contra tão inocente e nobre descendente do Profeta de Deus. Meus companheiros são todos homens honrados. Sua palavra é sua fiança. Comprometer-se-ão a não trair vossa fuga. Solicito-vos, ide à cidade de Mashhad em Khurásán e evitai cair vítima à brutalidade desse lobo implacável.' A minha fervorosa súplica, deu ele esta resposta: 'Que o Senhor vosso Deus vos recompense por vossa magnanimidade e nobre intenção. Ninguém conhece o mistério da Minha Causa; ninguém lhe pode sondar os segredos. Jamais volverei Minha face do decreto de Deus. Ele só é Minha Fortaleza segura, Meu Apoio e Meu Refúgio. Até que se aproxime minha última hora, ninguém se atraverá a Me agredir, ninguém poderá frustrar o plano do Todo-Poderoso. Quando tiver chegado Minha hora, que grande júbilo será Meu ao sorver o cálice do martírio em Seu Nome. Aqui estou; entregai-Me nas mãos de vosso mestre. Não tenhais receio, pois ninguém vos culpará.' Inclinei minha cabeça em consentimento e cumpri com seu desejo."
O Báb continuou imediatamente sua viagem a Shíráz. Livre e sem correntes, andou em frente de Sua escolta, a qual O seguia em atitude de respeitosa devoção. Pela mágica de Suas palavras, havia Ele desarmado a hostilidade de Seus guardas e transmudado sua orgulhosa arrogância em humildade e amor. Ao chegarem na cidade, seguiram diretamente à sede do governo. Qualquer um que observasse a cavalgada, enquanto marchava pelas ruas, não podia deixar de se maravilhar ante esse espetáculo inusitado. Logo que Husayn Khán foi informado da chegada do Báb, chamou-O a sua presença. Recebeu-O com a maior insolência e mandou que ocupasse um assento à face dele no centro da sala. Repreendeu-O publicamente e em linguagem insultante denunciou Sua conduta. "Compreendes", protestou irosamente, "que grande transtorno tens acendido? Estais consciente da desgraça que viestes a ser para a santa Fé do Islã e para a pessoa augusta de nosso soberano? Não és o homem que pretende ser autor de uma nova revelação que anula os sagrados preceitos do Alcorão?" O Báb respondeu calmamente: "'Se algum malvado vos trouxer notícias, esclarecerei o assunto prontamente, para que por ignorância não prejudiqueis aos outros e logo sejais constrangido a se arrepender daquilo que fizestes (12)."' Estas palavras inflamaram a ira de Husayn Khán. "O quê!" exclamou. "Atreves tu a nos atribuir maldade, ignorância e insensatez?" Virando-se para seu assistente, ordenou que batesse no rosto do Báb. Tão violento foi o golpe, que o turbante do Báb caiu ao chão. Shaykh Abu-Turáb, o Imame-Jum'ih de Shíráz, que estava presente nessa reunião e que desaprovou fortemente a conduta de Husayn Khán, mandou colocar de novo o turbante na cabeça do Báb e O convidou a se sentar ao seu lado. Volvendo-se ao governador, o Imame-Jum'ih lhe explicou as circunstâncias relacionadas à revelação do versículo do Alcorão que o Báb citara, tentando assim lhe acalmar a fúria. "Esse versículo que esse jovem citou", disse-lhe, "impressionou-me profundamente. Sinto que o caminho prudente é inquirir essa questão com grande cuidade e julgá-lo de acordo com os preceitos do Livro sagrado." Husayn Khán consentiu prontamente e então Shaykh Abú-Turáb interrogou o Báb a respeito da natureza e do caráter de Sua Revelação. O Báb negou a pretensão de ser o representante do prometido Qá'im ou o intermediário entre Ele e os fiéis. "Estamos completamente satisfeitos", respondeu o Imame Jum'ih; "pediremos que vos apresenteis na sexta-feira no Masjid-i-Vakíl e publicamente proclames vossa negação." Quando Shaykh Abú-Turáb se levantou para sair na esperança de terminar a questão, Husayn Khán interveio, dizendo: "Exigiremos uma pessoa de reconhecido prestígio que pague fiança e dê garantia por ele e que empenhe sua palavra por escrito de que, se alguma vez no futuro esse jovem tentar por palavra ou ato prejudicar os interesses da Fé do Islã ou do governo deste país, imediatamente o entegará em nossas mãos e se considerará sob todas as circunstâncias responsável por sua conduta." Hájí Mirza Siyyid 'Alí, tio materno do Báb, que estava presente nessa reunião, consentiu atuar como fiador de seu Sobrinho. Com seu próprio punho escreveu o compromisso, afixou-lhe seu selo, confirmando-o pela assinatura de algumas testemunhas e o entregou ao governador. Com isso Husayn Khán deu ordem de que o Báb fosse entregue aos cuidados de Seu tio, com a condição de que, em qualquer momento em que o governador o julgasse conveniente, Hájí Mirza Siyyid 'Alí entregaria o Báb imediatamente em suas mãos.
Hájí Mirza Siyyid 'Alí, com o coração cheio de gratidão a Deus, conduziu o Báb a Sua casa e O entregou ao carinhoso cuidado de Sua reverenciada mãe. Regozijou-se com esta reunião de família e se sentiu profundamente aliviado pela libertação de seu estimado e precioso Parente das mãos daquele malicioso tirano. Na quietude de Seu próprio lar, o Báb levou por algum tempo uma vida de retiro sem perturbações. Ninguém, a não ser Sua esposa, Sua mãe e seus tios, tiveram qualquer contato com Ele. Entrementes os instigadores de distúrbios estavam diligentemente insistindo com Shaykh Abú-Turáb que chamasse o Báb ao Masjid-i-Vakíl, pois queriam exigir que cumprisse Sua promessa. Shaykh Abú-Turáb era conhecido como homem de caráter bondoso e de um temperamento e natureza que se assemelhavam, de um modo impressionante, ao caráter do falecido Mirza Abu'l-Qásím, o Imame-Jum'ih de Teerã. Sentia-se muito pouco disposto a tratar com ultraje pessoas de reconhecida posição, especialmente se estas fossem residentes de Shíráz. Sentia instintivamente que era este seu dever, o qual observava de um modo consciencioso, sendo em conseqüência estimado universalmente pelo povo dessa cidade. Procurou, pois, mediante respostas evasivas e repetidos adiamentos, aquietar a indignação da multidão. Viu, porém, que os instigadores de distúrbios e sedição estavam envidando todos os esforços para inflamar mais ainda os ressentimentos gerais que das massas se haviam apoderado. Sentiu-se obrigado, afinal, a dirigir a Hájí Mirza Siyyid 'Alí uma mensagem confidencial, pedindo-lhe que trouxesse o Báb com ele na sexta-feira ao Masjid-i-Vakíl, a fim de que cumprisse a promessa que fizera. "É minha esperança", acrescentou, "que com a ajuda de Deus, as afirmações de vosso sobrinho possam aliviar a situação tensa, resultando disto vossa tranqüilidade, bem como a nossa própria."
O Báb, acompanhado por Hájí Mirza Siyyid 'Alí, chegou no Masjid numa ocasião em que o Imame-Jum'ih acabava de ascender ao púlpito e se preparava para proferir seu sermão. Assim que seus olhos avistaram o Báb, deu-lhe publicamente boas vindas, pediu-Lhe que subisse ao púlpito e solicitou que se dirigisse à congregação. O Báb, respondendo a seu convite, aproximou-se dele e em pé no primeiro degrau da escada, preparou-se para dirigir a palavra ao público. "Suba mais", interviu o Imame-Jum'ih. De acordo com seu desejo, o Báb subiu mais dois degraus. Nesta posição, Sua cabeça escondia o peito de Shaykh Abú-Turáb, que ocupava a parte superior do púlpito. Começou com um discurso preliminar como prefácio para Sua declaração pública. Mal pronunciara as palavras introdutórias de "Louvado seja Deus, que em verdade criou os céus e a Terra," quando um certo Siyyid conhecido como Siyyid-i-Shish-Parí, cuja função era levar a clava diante do Imame-Jum'ih, gritou com toda insolência: "Basta esse palavrório fútil! Declara agora, imediatamente, a coisa que pretendes dizer." O Imame-Jum'ih mostrou-se extremamente ressentido ante a grosseria das palavras do siyyid. Repreendeu-o, dizendo: "Guarda silêncio e tem vergonha de tua impertinência." Volvendo-se, então, ao Báb, pediu-Lhe que fosse breve, pois isto, disse, acalmaria a excitação do povo. O Báb, enquanto se virara para a congregação, declarou: "Caia a condenação de Deus sobre aquele que me considera o representante do Imame ou sua porta. Que caia a condenação de Deus também sobre qualquer um que me acuse de haver negado a unidade de Deus, de haver repudiado o grau profético de Maomé, o Selo dos Profetas, de haver rejeitado a verdade de qualquer um dos mensageiros de antanho ou recusado reconhecer a guardiania de 'Alí, Comandante dos Fiéis, ou de qualquer dos Imames que o tem sucedido." Subiu então ao cume da escada, abraçou o Imame-Jum'ih e descendo ao piso térreo do Masjid, se juntou com a congregação para a observância da oração de sexta-feira. O Imame-Jum'ih interveio, pedindo-Lhe que se retirasse. "Vossa família", disse-Lhe, aguarda ansiosamente vosso regresso. Todos são apreensivos de que algum dano vos suceda. Voltai a vossa casa e lá oferecei vossa prece; de mérito maior será este ato aos olhos de Deus." Também, à petição do Imame-Jum'ih, Hájí Mirza Siyyid 'Alí acompanhou seu sobrinho até sua casa. Esta medida de precaução que Shaykh Abú-Turáb achou prudente observar foi motivada pelo medo de que, uma vez dispersa a congregação, alguns dos malévolos entre a multidão pudessem ainda tentar injuriar a pessoa do Báb ou Lhe pro em perigo a vida. Não fossem a sagacidade, a simpatia e a cuidadosa atenção demonstradas pelo Imame Jum'ih, de um modo tão impressionante em várias ocasiões similares, o povo enfurecido, sem dúvida, teria sido levado a satisfazer seu desejo selvagem, cometendo os mais abomináveis excessos. Parecia ele ter sido o instrumento da Mão invisível incumbida de proteger tanto a pessoa como a Missão daquele Jovem (13).
O Báb conseguiu regressar a Sua casa e durante algum tempo no retiro do lar e em estreita associação com Sua família e parentes, pode levar uma vida de relativa tranqüilidade. Naqueles dias celebrou o advento do primeiro Naw-Rúz desde que declarara Sua Missão. Esse festival caiu, naquele ano, no décimo dia do mês de Rabí'u'l-Avval, 1261 A.H. (14)
Alguns entre aqueles que estiveram presentes nessa memorável ocasião no Masjid-i-Vakíl e haviam escutado as afirmações do Báb, foram profundamente impressionados pela maneira magistral com que esse Jovem, com Seus próprios esforços, sem ajuda, conseguira silenciar Seus formidáveis adversários. Pouco depois desse acontecimento, veio cada um deles a apreender a realidade de Sua Missão e lhe reconhecer a glória. Entre eles estava Shaykh 'Alí Mirza, sobrinho deste mesmo Imame-Jum'ih, jovem que acabava de atingir a idade da maturidade. A semente plantada em seu coração cresceu e se desenvolveu até que no ano de 1267 A.H. (15), teve o privilégio de conhecer Bahá'u'lláh no Iraque. Essa visita o fez transbordar de entusiasmo e júbilo. Voltando muito fortalecido a sua terra natal, reiniciou com redobrada energia seu trabalho pela Causa. Desde esse ano até o tempo presente tem ele perseverado em sua tarefa e atingido distinção pela retidão de seu caráter e pela devoção de todo coração a seu governo e seu país. Recentemente chegou na Terra Santa uma carta dirigida por ele a Bahá'u'lláh, na qual expressa sua intensa satisfação pelo progresso da Causa na Pérsia. "Estou mudo de assombro", escreve ele, "ao contemplar as evidências do inconquistável poder de Deus manifestado entre o povo de meu país. Em uma terra que há anos persegue a Fé com tanta selvageria, um homem que há quarenta anos é conhecido em toda a Pérsia como Bábí foi designado árbitro único num caso que envolve, por um lado, o Zillu's-Sultán, o filho tirânico do Xá e inimigo jurado da Causa, e por outro, Mirza Fath 'Alí Khán, o Sáhib-i-Díván. Foi publicamente anunciado que qualquer que fosse o veredito deste Bábí deveria ser aceito sem reservas por ambas as partes e imposto sem hesitação."
Um certo Muhammad-Karím, que se encontrava entre a congregação naquela sexta-feira, foi semelhantemente atraído pelo extraordinário comportamento do Báb naquela ocasião. O que viu e ouviu naquele dia levou a sua conversão imediata. A perseguição obrigou-o a sair da Pérsia para o Iraque, onde na presença de Bahá'u'lláh, continou a aprofundar sua compreensão e sua fé. Mais tarde, foi mandado por Ele a retornar para Shíráz e se esforçar o mais possível para propagar a Causa. Ali permaneceu e labutou até o fim de sua vida.
Ainda outro foi Mirza Áqáy-i-Rikáb-Sáz. Sentiu tão grande amor pelo Báb naquele dia que nenhuma perseguição, por mais severa e prolongada que fosse, pode abalar suas convicções ou obscurecer o esplendor de seu amor. Ele, também, atingiu a presença de Bahá'u'lláh no Iraque. Em resposta às perguntas que fez atinentes à interpretação das Letras Inconexas do Alcorão e ao significado do versículo de Núr, foi favorecido com uma Espítola escrita expressamente, revelada pela pena de Bahá'u'lláh. Em Seu caminho sofreu, por mim, o martírio.
Entre eles estava também Mirza Rahím-i-Khabbáz, que se distinguiu pela sua intrepidez e fogoso ardor. Até a hora de sua morte, não diminuiu seus esforços.
Hájí Abu'l-Hasan-i-Bazzáz que, como companheiro de viagem do Báb durante Sua peregrinação a Hijáz, havia apenas vagamente reconhecido a sobrepujante majestade de Sua Missão foi, naquela sexta-feira memorável, profundamente comovido e de todo transformado. Tão grande amor sentiu pelo Báb que lágrimas de uma devoção sobrepujante fluíam continuamente de seus olhos. Todos que o conheciam admiravam sua retidão de conduta e lhe elogiavam a benevolência e a candura. Ele, bem como seus dois filhos, provou pelas suas ações a tenacidade de sua fé e conquistou a estima de seus correligionários.
Outro ainda daqueles que sentiram a fascinação do Báb naquele dia, foi o falecido Hájí Muhammad-Bisát, homem bem versado nos ensinamentos metafísicos do islã e grande admirador tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázim. Era de um gênio bondoso e tinha o dom de um agudo senso de humor. Havia conquistado a amizade do Imame-Jum'ih, estava intimamente associado com ele e assitia fielmente à oração congregacional da sexta-feira.
O Naw-Rúz daquele ano, que anunciava o advento de uma nova primavera, era também simbólico daquele renascimento espiritual cujas primeiras vibrações já podiam ser discernidas dentre os mais eminentes e eruditos do povo desse país emergiu da desolação invernal da negligência e foi vivificado pelo alento ressuscitador da recém-nascida Revelação. As sementes que a Mão da Onipotência havia plantado em seus corações germinaram até darem flores da mais pura e encantadora fragrância (16). À medida que a brisa de Sua amorosa bondade e terna misericórdia soprava sobre estas flores, o poder penetrante de seu perfume difundiu-se em todas as direções sobre a face dessa terra. Penetrou até mesmo além dos confins da Pérsia. Chegou a Karbilá e reanimou as almas daqueles que esperavam ansiosos a volta do Báb a sua cidade. Pouco depois do Naw-Rúz, chegou via Basrih uma epístola na qual o Báb, embora tencionasse regressar de Hijáz à Pérsia via Karbilá, lhes informava da modificação em Seu plano e da conseqüente impossibilidade de cumprir Sua promessa. Disse-lhes que seguissem a Isfáhán e lá permanecessem até receberem mais instruções. "Se Nos parecer aconselhável", acrescentou, "pediremos que sigam a Shíráz; se não, demorai-vos em Isfáhán até o momento em que Deus vos dê a conhecer Sua vontade e guia."
A chegada desta informação inesperada criou considerável comoção entre aqueles que haviam ansiosamente esperado a vinda do Báb a Karbilá. Isso agitou suas mentes e pôs a prova sua lealdade. "E Sua promessa a nós?" sussurraram alguns dos descontentes entre eles. "Considera Ele a violação de Sua promessa como a interposição da vontade de Deus?" Os outros, diferentes desses irresolutos, tornaram-se mais firmes em sua fé e com determinação aumentada aderiram à Causa. Fiéis a seu Mestre, responderam jubilosamente a Seu convite, não levando em conta as críticas e os protestos daqueles que haviam vacilado em sua fé. Partiram para Isfáhán, determinados a cumprir qualquer que fosse a vontade e o desejo de seu Bem-Amado. Juntaram-se a eles alguns de seus companheiros que ocultaram seus sentimentos, embora sua fé estivesse gravemente abalada. Mirza Muhammad-'Aliy-i-Nahrí, cuja filha foi subseqüentemente unida em matrimônio com o Maior Ramo, e Mirza Hádí, irmão de Mirza Muhammad-'Ali, ambos residentes de Isfáhán, encontravam-se entre aqueles companheiros cuja visão da glória e sublimidade da Fé não pode ser obscurecida pelas dúvidas expressas pelos malévolos sussurradores. Também se encontrava entre eles um certo Muhammad-i-Haná-Sáb, outro residente de Isfáhán, atualmente servindo na casa de Bahá'u'lláh. Alguns destes firmes companheiros do Báb participaram na grande luta de Shaykh Tabarsí e, milagrosamente, escaparam ao trágico destino de seus irmãos caídos.
No caminho a Isfáhán encontraram, na cidade de Kangávár, Mullá Husayn com seu irmão e sobrinho, que foram seus companheiros em sua visita anterior a Shíráz e que iam a Karbilá. Ficaram muito contentes por causa deste inesperado encontro e a Mullá Husayn pediram que prolongasse sua estada em Kangávár, ao que ele prontamente cedeu. Mullá Husayn, que, enquanto nessa cidade, dirigia os companheiros do Báb na oração congregacional de sexta-feira, era tido em tão grande estima e reverência pelos seus co-discípulos, que alguns daqueles presentes que mais tarde em Shíráz, revelaram sua deslealdade à Fé, estavam incitados com inveja. Entre eles estavam Mullá Javád-i-Baraghání e Mullá 'Abdu'l-'Alíy-i-Harátí, ambos dos quais fingiram submissão à Revelação do Báb na esperança de satisfazer sua ambição de serem dirigentes. Ambos se esforçaram secretamente para minar a posição invejável alcançado por Mullá Husayn. Com suas sugestões e insinuações se esforçaram persistentemente para lhe desafiar a autoridade e desonrar seu nome.
Tenho ouvido Mirza Ahmad-i-Kátib mais conhecido naqueles dias como Mullá 'Abdu'l-Karím, que fora o companheiro de viagem de Mullá Javád de Qazvín relatar o seguinte: "Mullá Javád em sua conversação comigo se referia muitas vezes a Mullá Husayn. Suas repetidas observações depreciadoras, expressas em linguagem astuciosa, impeliram-me a cessar minha associação com ele. Cada vez que eu determinava cortar minhas relações com Mullá Javád, era impedido por Mullá Husayn que, descobrindo minha intenção, me aconselhava a que exercesse para com ele tolerância. A associação de Mullá Husayn com os companheiros leais do Báb muito lhes aumentou o zelo e entusiasmo. Foram beneficiados pelo seu exemplo e sentiram admiração profunda pelas brilhantes qualidades de sua mente e coração que distinguiam esse tão eminente co-discípulo."
Mullá Husayn decidiu unir-se a companhia de seus amigos e com eles seguir a Isfáhán. Viajando só, à distância de aproximadamente um farsang (17) na frente dos companheiros, logo que parava ao anoitecer a fim de oferecer suas orações, era alcançado por eles e em sua companhia completava suas devoções. Era o primeiro a reiniciar a viagem, sendo outra vez alcançado por aquele devotado grupo na hora do alvorecer, quando novamente interrompia sua marcha para oferecer sua oração. Só ao ser instado pelos amigos, consentia observar a forma congregacional de adoração. Em tais ocasiões seguia, algumas vezes, a direção de um de seus companheiros. Tal era a devoção que ele acendera nesses corações, que alguns de seus companheiros de viagem desmontavam de seus corcéis e oferecendo-os àqueles que viajavam a pé, eles mesmos o seguiam, totalmente indiferentes às durezas e fadigas da marcha.
Quando das cercanias de Isfáhán se aproximavam, Mullá Husayn, receando que a repentina entrada de tão grande grupo de pessoas excitasse a curiosidade e suspeita dos habitantes, aconselhou que os que com ele viajavam se dispersassem e entrassem pelos portões em grupos pequenos que não chamassem atenção. Poucos dias após sua chegada, veio-lhes a notícia de que em Shíráz reinava um estado de violenta agitação, que toda espécie de contato com o Báb fora proibida e que sua planejada visita a essa cidade incorreria no mais grave perigo. Mullá Husayn, não amedrontado por essa repentina informação, decidiu seguir a Shíráz. Permitiu que apenas poucos de seus companheiros de confiança soubessem de sua intenção. Pondo de lado seus mantos e turbantes e usando o jabbih (18) e kuláh do povo de Khurásán, disfarçou-se como cavaleiro de Hizárih e Qúchán e acompanhado por seu irmão e seu sobrinho, partiu numa hora inesperada, para a cidade de seu Bem-Amado. Ao se aproximar do portão, instruiu seu irmão que na calada da noite procedesse à casa do tio materno do Báb e lhe pedisse informar ao Báb de sua chegada. No dia seguinte Mullá Husayn recebeu a grata notícia de que Hájí Mirza Siyyid 'Alí o esperaria uma hora após o por do sol fora do portão da cidade. Mullá Husayn na hora marcada encontrou-se com ele e foi conduzido a sua casa. Em várias ocasiões, à noite, o Báb honrava com Sua presença essa casa e continuava em íntima associação com Mullá Husayn até o despontar do dia. Pouco depois, deu permissão aos Seus companheiros que se haviam reunido em Isfáhán, para partirem gradualmente para Shíráz e lá esperarem até que Seu encontro com eles fosse viável. Advertiu-lhes que exercessem a máxima vigilância e os instruiu de entrarem poucos de cada vez pelos portões da cidade imediatamente após sua chegada, se dispersassem para os alojamentos reservados para viajantes e aceitassem qualquer emprego que pudessem achar.
O primeiro grupo a alcançar a cidade e encontrar com o Báb, poucos dias após a chegada de Mullá Husayn, compunha-se de Mirza Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, Mirza Hádí, seu irmão; Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní Mullá Javád-i-Baraghání Mullá 'Abdu'l-'Alíyi-i-Harátí e Mirza Ibrahím-i-Shírází. Durante sua associação com Ele, os três últimos do grupo traíram gradualmente sua cegueira de coração e demonstraram a vileza de seu caráter. As múltiplas evidências do crescente favor mostrado pelo Báb para com Mullá Husayn provocaram essa ira e avivaram as brasas candentes do ciúme. Em sua impotente fúria, recorreram às armas abjetas da fraude e da calúnia. Não podendo de início manifestar abertamente sua hostilidade a Mullá Husayn, por todos os meios artificiosos tentaram enganar as mentes e esfriar o afeto de seus devotados admiradores. Sua conduta indigna alienou a simpatia dos crentes e precipitou sua separação da companhia dos fiéis expulsos do seio da Fé; por suas próprias ações coligarejeição total de suas pretensões e princípios. Tão grande foi o alvoroço que incitaram entre o povo dessa cidade que foram finalmente expulsos pelas autoridades civis, que igualmente detestavam e temiam suas maquinações. O Báb em uma Epístola na qual se estende sobre suas intrigas e maldades, comparou-os ao bezerro dos Sámirí, o bezerro que nem voz nem alma tinha, que era tanto a obra vil e o objeto da adoração de um povo refratário. "Que Tua condenação, ó Deus!" escreveu Ele referindo-se a Mullá Javád e Mullá 'Abdu'l-'Alí, "caia sobre o Jibt e o Tághút (19), os ídolos gêmeos deste povo perverso." Todos os três seguiram subseqüentemente a Kirmán e se uniram com Hájí Mirza Muhammad Karím Khán, cujos desígnios eles apoiaram e a veemência de cujas denúncias trataram de reforçar.
Uma noite, após sua expulsão de Shíráz, o Báb, que estava visitando a casa de Hájí Mirza Siyyid 'Alí, para onde havia chamado Mirza Muhammad-'Alíy-i-Nahrí, Mirza Hádí e Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Qazvíní para encontrarem com Ele, volveu-se de súbito para este último e disse: "'Abdu'l-Karím, estás buscando o Manifestante?" Estas palavras, pronunciadas com calma e ternura extrema, tiveram sobre ele um efeito espantoso. Empalideceu diante desta repentina interrogação e se desfez em lágrimas. Prostrou-se aos pés do Báb em estado de agitação profunda. O Báb tomou-o afetuosamente em Seus braços, beijou-lhe a fronte e o convidou a sentar-se a Seu lado. Em um tom de terno carinho, pode lhe tranqüilizar o tumulto do coração.
Assim que chegaram em sua casa, Mirza Muhammad-'Alí e seu irmão inquiriram a Mullá 'Abdu'l-Karím a razão da violenta perturbação que dele subitamente se apoderara. "Escutai-me", respondeu, "e vos relatarei a história de uma estranha experiência, uma história que com ninguém até agora partilhei. Ao atingir a idade da maturidade enquanto vivia em Qazvín, senti um desejo profundo de desvendar o mistério de Deus e apreender a natureza de Seus santos e profetas. Compreendi que nada, a não ser a aquisição de conhecimentos, me permitiria alcançar meu objetivo. Conseguindo obter o consentimento de meu pai e meus tios para abandonar meu negócio, mergulhei de imediato em estudo e pesquisa. Ocupei um quarto num dos madrisihs de Qazvín e concentrei os esforços na aquisição de todos os ramos disponíveis do conhecimento humano. Freqüentemente discutia com os condiscípulos o conhecimento que adquiria, procurando por este meio enriquecer minha experiência. À noite, eu me recolhia à minha morada e no retiro de minha biblioteca, dedicava muitas horas ao estudo ininterrupto. Tão imerso estava em minhas fainas que me tornei indiferente tanto para sono como para fome. Dentro de dois anos resolvera dominar todas as complexidades da jurisprudência e teologia muçulmanas. Assistia fielmente às conferências de Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Iravání quem, naquele tempo, era considerado o sacerdote de maior destque em Qazvín. Grande admiração senti por seus vastos conhecimentos, sua piedade e virtude. Todas as noites durante o período em que era seu discípulo, dedicava meu tempo a escrever um tratado que lhe submeti e que ele, com cuidado e interesse, revisou. Parecia estar muito satisfeito com meu progresso e com freqüência elogiava minhas altas realizações. Um dia, na presença de seus discípulos reunidos, declarou. O erudito e sagaz Mullá 'Abdu'l-Karím já se qualificou para expor com autoridade as sagradas Escrituras do Islã. Não mais necessita ele assistir minhas classes, nem as de meus colegas. Celebrarei - Deus querendo - sua elevaçãoao grau de mujtahid na manhã da sexta-feira vindoura e lhe entregarei seu certificado após a oração congregacional.
Mal havia Mullá 'Abdu'l-Karím-i-Iravání dito esta palavra e partido, quando seus discípulos se aproximaram de mim e me felicitaram calorosamente por minhas realizações. Sentindo-me muito feliz, regressei à minha casa. Ao chegar, descobri que tanto meu pai como meu tio mais velho, Hájí Husayn-'Alí, que eram ambos tidos em grande estima em todo Qazvín, estavam preparando uma festa em minha honra, com a qual era sua intenção celebrar o término de meus estudos. Pedi-lhes que adiassem o convite feito às notabilidades de Qazvín até novo aviso de minha parte. Prontamente consentiram, acreditando que eu em vista de minha ânsia por esse festival, não o haveria de adiar excessivamente. Nessa noite me recolhi à minha biblioteca e na reclusão de meu quarto, ponderei em meu coração os seguintes pensamentos: Não havias imaginado enternecidamente - disse comigo mesmo - que só os santificados de espírito pudessem esperar jamais atingir o grau de autorizado expositor das sagradas Escrituras do Islã? Não era sua crença que qualquer um atingisse esse grau estaria imune ao erro? Não estás já incluído no número dos que gozam desse grau? Não foste reconhecido como tal e assim declarado pelo mais distinguido sacerdote de Qazvín? Sê justo. Consideras tu em teu próprio coração que tenhas atingido aquele estado de pureza e sublime desprendimento que, em dias passados, julgavas ser os requisitos para quem aspirasse a alcançar tão exaltada posição? Pensas tu que estás livre de toda mácula de desejo egoísta? Enquanto sentava refletindo, vinha se apoderando de mim, pouco a pouco, uma compreensão de próprio desmerecimento. Reconheci que era ainda vítima de preocupações e perplexidades, de tentações e dúvidas. Sentia-me oprimido por tais pensamentos como estes: de que modo deveria eu conduzir minhas classes, como dirigir minha congregação na oração, como fazer cumprir as leis e preceitos da Fé. Sentia contínua ansiedade sobre o desempenho de meus deveres, não sabendo como assegurar a superioridade de minhas realizações sobre as de meus predecessores. Sobreveio-me tão forte sentimento de humilhação que me senti impelido a procurar perdão de Deus. Teu objetivo em adquirir todos esses conhecimentos, pensava comigo, foi desvendar o mistério de Deus e atingir o estado da certeza. Sê justo. Tens certeza de tua própria interpretação do Alcorão? Estás certo de que as leis que promulga refletem a vontade de Deus? Revelou-se de repente em minha consciência meu erro. Percebi pela primeira vez como a ferrugem da erudição me havia corroído a alma e obscurecido a visão. Lamentei meu passado e deplorei a futilidade de meus esforços. Sabia que as pessoas de minha própria posição estavam sujeitas às mesmas aflições. Logo que haviam adquirido essa chamada erudição, se diziam os expositores da lei do islã e a si próprios arrogavam o exclusivo privilégio de se pronunciar sobre sua doutrina.
"Permaneci absorto em meus pensamentos até o alvorecer, nem me alimentando nem dormindo durante aquela noite. Às vezes comungava com Deus: "Tu me vês, ó meu Senhor e percebes o apuro em que estou. Sabes que outro desejo não alimento senão Tua santa vontade e Teu Beneplácito. Confundo-me completamente ao pensar na multidão de seitas em que se tem dividido Tua santa Fé. Torno-me profundamente perplexo quando contemplos os cismas que desgarraram as religiões do passado. Queres Tu me guiar em minhas perplexidades e me aliviar de minhas dúvidas? Onde havereis de me volver para consolo e guia? Chorei tão amargamente nessa noite que parecia haver perdido a consciência? Afigurou-se de súbito a visão de uma grande reunião de pessoas, a expressão de cujas faces radiantes profundamente me impressionou. Uma figura nobre, usando as vestes de um siyyid, ocupava um assento no púlpito frente à congregação. Estava expondo o significado deste sagrado versículo do Alcorão: "Quem fizer esforços por Nós, em Nossos caminhos Nós o guiaremos." Fascinava-me Sua face. Levantei-me, ia me aproximando dele e estava prestes a lançar-me a seus pés quando, repentinamente, aquela visão se desvaneceu. Meu coração inundou-se de luz. Indescritível era meu júbilo.
"Imediatamente decidi consultar Hájí Alláh-Vardí, pai de Muhammad-Javád-i-Farhádí, homem conhecido em todo Qazvín pela sua profunda intuição espiritual. Quando lhe relatei minha visão, sorri e com precisão extraordinária me descreveu as feições distintivas do siyyid que me havia aparecido. 'Essa nobre figura', acrescentou, 'outro não foi, senão Hájí Siyyid Kázím-Rashti, que se encontra agora em Karbilá e se vê todos os dias expondo aos discípulos os sagrados ensinamentos do islã. Os que lhe ouvem o discurso sentem-se refrescados e edificados por aquilo que diz. Jamais poderei descrever a impressão que suas palavras exercem sobre seus ouvintes.' Alegremente me levantei e expressando-lhe meus sentimentos de profunda apreciação, retirei-me para minha casa e iniciei de imediato minha viagem a Karbilá. Meus antigos condiscípulos vieram e me instaram que visitasse pessoalmente o sábio Mullá 'Abdu'l-Karím, que expressara o desejo de me encontrar, ou que eu lhe permitisse vir à minha casa. 'Sinto o impulso', respondi, 'de visitar o santuário do Imame Husayn em Karbilá. Fiz votos de iniciar imediatamente essa peregrinação. Não posso adiar minha partida. Se for possível, visitá-lo-ei por alguns momentos quando de saída da cidade. Se eu não puder, quereria lhe pedir que me descupalsse e orasse por mim, para que eu seja guiado no caminho reto.'
"Confidencialmente informei meus parentes da natureza de minha visão e de sua interpretação. Avisei-lhes de minha projetada visita a Karbilá. Minhas palavrs a eles nesse mesmo dia instilaram em seus corações amor a Siyyid Kázím. Sentiram-se muito atraídos a Hájí Alláh-Vardí, associaram-se livremente com ele e se tornaram seus fervorosos admiradores."
"Meu irmão, 'Abdu'l-Hamid (que mais tarde sorveu a taça do martírio em Teerã), acompanhou-me em minha viagem a Karbilá. Ali encontrei com Siyyid Kázím e me maravilhei ao ouvi-lo dissertar aos discípulos reunidos sob exatamente as mesmas circunstâncias em que me aparecera em minha visão. Atônito fiquei quando descobri ao chegar, que ele estava expondo o significado do mesmo versículo que ele, quando apareceu a mim estava explicando aos discípulos. Ao me sentar e ouvi-lo, senti-me profundamente impressionado pela força de seu argumento e pela profundidade de seus pensamentos. Ele me recebeu amavelmente e me mostrou a maior bondade. Tanto meu irmão como eu sentíamos uma alegria interior que jamais havíamos experimentado. Na hora do alvorecer, nós nos apressávamos a sua casa e o acompanhávamos em sua visita ao santuário do Imame Husayn.
"Passei o inverno inteiro em estreita associação com ele. Durante todo aquele período, assistia fielmente as suas classes. Cada vez que escutava uma palestra sua, eu o ouvia descrever um aspecto especial da manifestação do prometido Qá'ím. Constituía este o tema único de seus discursos. Qualquer o versículo ou a tradição que por acaso estivesse expondo, concluía seu comentário invariavelmente com uma referência especial ao advento da prometida Revelação. 'O Prometido', declarava ele aberta e repetidamente, 'vive no meio desse povo. A hora designada para Seu aparecimento aproxima-se rapidamente. Preparai-Lhe o caminho e vos purificai para que possais reconhecer Sua beleza. Antes de minha partida deste mundo não se revelará o Sol de Seu semblante. Depois de eu partir devereis levantar-vos em Sua busca. Não devereis descansar, nem por um momento sequer, até que O encontreis.'
"Após a celebração do Naw-Rúz, Siyyid Kázím ordenou que eu partisse de Karbilá. "Fique seguro, ó 'Abdu'l-Karím", foram suas palavras a mim enquanto se despedia, "és dos que, no Dia de Sua Revelação, se levantarão para o triunfo de Sua Causa. Espero que te lembres de mim nesse Dia abençoado.' Eu lhe roguei que me permitisse permanecer em Karbilá, argüindo que meu regresso a Qazvín incitaria a inimizade dos mullás daquela cidade. 'Que ponhas toda a tua confiança em Deus', foi sua resposta. 'Ignore totalmente suas maquinações. Ocupa-te no comércio e podes ter certeza de que seus protestos jamais poderão causar dano.' Segui esse conselho e com meu irmão parti para Qazvín. Imediatamente após minha chegada, incumbi-me de cumprir os conselhos de Siyyid Kázím. Com as instruções que ele me havia dado, pude silenciar todos aqueles que maliciosamente me fizeram oposição. Dedicava meus dias às transações comercias; à noite me retirava à minha casa e na quietude de meu aposento consagrava meu tempo à meditação e prece. Com olhos lacrimosos, comungava com Deus e Lhe suplicava, dizendo: "Tu, pela boca de Teu servo inspirado, prometeste que eu atingiria Teu Dia e contemplaria Tua Revelação. Por seu intermédio me tens assegurado que estarei entre aqueles que se levantarão para o triunfo de Tua Causa. Por quanto tempo me negarás o cumprimento de Tua promessa? Quando haverá de me ser descerrada a porta de Tua graça, pela mão de Tua misericórdia, e me conceder Tua benção eterna?" Toda noite repetia esta oração, continuando minhas súplicas até o amanhecer.
Numa noite, na véspera do dia de 'Arafih, no ano de 1255 A.H. (20), estava tão absorto em oração que eu parecia haver caído em transe. Apareceu diante de mim um pássaro, branco como a neve, que pairou sobre minha cabeça e pousou num renovo de uma árvore a meu lado. Em acentos de indescritível doçura, esta ave proferiu estas palavras: 'estás buscando o Manifestante, ó 'Abdu'l-Karím? Eis, o ano 60.' Imediatamente após, a ave voou e se desvaneceu. O mistério dessas palavras agitou-me profundamente. A memória de beleza dessa visão perdurou em minha mente por muito tempo. Parecia-me que havia saboreado todos os deleites do Paraíso. Meu júbilo era irreprimível.
"A mensagem mística dessa ave penetrara minha alma e estava continuamente em meus lábios. Sem cessar, a revolvia na mente. Com ninguém a compartilhei, receiando que sua doçura me abandonasse. Poucos anos depois, o Chamado de Shíráz chegou a meus ouvidos. No dia em que o ouvi, apressei-me a ir àquela cidade. No caminho, em Teerã, encontrei com Mullá Muhammad-i-Mu'allim, quem me deu a conhecer a natureza desse Chamado e me informou que aqueles que a haviam reconhecido estavam reunidos em Karbilá, esperando o regresso de seu Líder de Híjáz. De imediato parti para essa cidade. De Hamadán para meu profundo pesar, Mullá Javád-i-Baraghání me acompanhou a Karbilá, onde foi meu privilégio conhecer a vós bem como aos demais crentes. Continuei a entesourar dentro de meu coração a estranha mensagem que me fora transmitida por aquela ave. Quando subseqüentemente atingi a presença do Báb e de Seus lábios ouvi as mesmas palavras, pronunciadas no mesmo tom e linguagem nos quais as ouvira, compreendi seu significado. A tal ponto me arrebataram seu poder e sua glória que cai instintivamente a Seus pés e Lhe magnifiquei o Nome."
Nos primeiros dias do ano de 1265 A.H. (21), com a idade de dezoito anos, parti de minha aldeia natal de Zarand para Qum, onde conheci por acaso, Siyyid Ismá'il-i-Zavári'í, de sobrenome Dhabíh, quem mais tarde, enquanto em Bagdá, ofereceu sua vida em holocausto no caminho de Bahá'u'lláh. Por seu intermédio, vim a reconhecer a nova Revelação. Estava ele se preparando para partir nessa ocasião para Mázindarán, havendo resolvido unir-se com os heróicos defensores do forte de Shaykh Tabarsí. Tencionara levar-me com ele, como também a Mirza Fathu'lláh-i-Hakkák, jovem de minha idade, que residia em Qum. Como circunstâncias interfiriram com seu plano, ele prometeu, antes de sua partida, que comunicaria conosco de Teerã e nos pediria que nos reuníssemos a ele. Durante sua conversa com Mirza Fathú-lláh e comigo, relatou-nos a maravilhosa experiência de Mullá 'Abdu'l-Karím. Apoderou-se de mim um ardente desejo de conhecê-lo. Quando subseqüentemente cheguei em Teerã encontrei com Siyyid Ismá'íl no Madrisih-i-Dáru'sh-Shafáy-i-Masjid-i-Sháh, fui por ele apresentado a esse mesmo Mullá 'Abdu'l-Karím, que morava então no mesmo madrisih. Naqueles dias fomos informados de que a luta em Shaykh Tabarsí havia terminado e que aqueles companheiros do Báb reunidos em Teerã que tencionavam unir-se a seus irmãos, haviam regressado cada um a sua própria província, impossibilitados de alcançar sua meta. Mullá 'Abdu'l-Karím permaneceu na capital, onde dedicou seu tempo à transcrição do Bayán Persa. Nossa estreita associação nesse tempo serviu para aprofundar meu amor e admiração por ele. Sinto ainda, após o transcurso de trinta e oito anos desde nossa primeira entrevista em Teerã, o calor de sua amizade e a veemência de sua fé. Meus sentimentos de afetuosa consideração por ele tem me levado a referir-me extensamente as circunstâncias dos primeiros anos de sua vida, culminando naquilo que se pode ver como o ponto crítico de toda a sua carreira. Oxalá sirva, por sua vez, para despertar o leitor, a fim de que perceba a glória desta momentosa Revelação
CAPÍTULO VIII
A ESTADA DO Báb EM SHÍRÁZ APÓS
A PEREGRINAÇÃO
(continuação)
Pouco depois da chegada de Mullá Husayn em Shíráz, a voz do povo levantou-se novamente em protesto contra ele. O receio e a indignação da multidão foram excitados pelo conhecimento de sua contínua e estreita associação com o Báb. 'Ele veio outra vez a nossa cidade', vociferaram, 'outra vez ele levantou o estandarte da revolta e, juntamente com seu chefe, está pensando em fazer um ataque ainda mais feroz contra nossas instituições seculares.' Tão grave e ameaçadora se tornou a situação que o Báb deu instruções a Mullá Husayn que regressasse via Yazd para sua província natal de Khurásán. De modo igual despediu o resto de Seus companheiros que se haviam reunido em Shíráz, mandando-os voltarem a Isfáhán. Deixou permanecer com Ele Mullá 'Abdu'l-Karím, a quem designou a tarefa de transcrever Seus escritos.
Essas medidas cautelosas que o Báb considerou prudente tomar, aliviaram-No do perigo imediato de violência por parte do povo ímpeto à propagação de Sua Fé além dos limites dessa cidade. Seus discípulos que se haviam espalhado por toda parte do país, proclamaram intrepidamente à multidão de seus patrícios o poder regenerador da recém-nascida Revelação. A fama do Báb havia sido difundida largamente, alcançando os ouvidos daqueles que ocupavam os mais altos postos de autoridade, tanto na capital como em toda parte das províncias (1). Uma onda de apaixonada busca dominava as mentes e os corações tanto dos líderes como das massas do povo. Espanto e admiração haviam se apoderado daqueles que ouviram dos lábios dos mensageiros próximos do Báb a relação dos sinais e testemunhos que haviam anunciado o nascimento de Sua Manifestação. Os dignitários de Estado e da Igreja, ou assistiram pessoalmente ou delegaram seus mais capazes representantes para instigarem a verdade e o caráter deste extraordinário Movimento.
O próprio Muhammad Sháh (2) sentiu-se impelido a se certificar da veracidade dessas informações e investigar sua natureza. Delegou Siyyid Yahyáy-i-Dárábí (3), o mais sábio, o mais eloqüente e o de maior prestígio dentre seus súditos, para entrevistar o Báb e lhe informar dos resultados de suas investigações. O Xá tinha confiança implícita em sua imparcialidade, em sua competência e em sua profunda intuição espiritual. Ele ocupava um lugar de tal preeminência entre as principais figuras da Pérsia, que em qualquer reunião que ele estivesse presente, não importando quão grande era o número dos diferentes eclesiásticos presentes, ele era invariavelmente o orador principal. Ninguém se atrevia a exteriorizar suas opiniões em sua presença. Todos guardavam um silêncio reverente diante dele; todos davam testemunho de sua sagacidade, de seus conhecimentos, jamais excedidos, e de sua sabedoria madura.
Naquele tempo Siyyid Yahyá residia em Teerã, na casa de Mirza de Lutf-'Alí, o Mestre de Cerimônia do Xá, como o honrado hóspede de Sua Majestade Imperial. O Xá deu a entender, confidencialmente, por intermédio de Mirza Lutf-'Alí, seu desejo e vontade que Siyyid Yahyá seguisse a Shíráz e investigasse a questão pessoalmente. "Diga-lhe de nossa parte", ordenou o soberano, "que, como temos a máxima confiança em sua integridade, admiramos suas normas morais e intelectuais e o consideramos o mais apto dentre os teólogos de nosso reino, esperamos que ele siga a Shíráz, indague a fundo o episódio do Siyyid-i- Báb e nos informe dos resultados de suas investigações. Assim saberemos quais as medidas que nos incumbe tomar."
Siyyid Yahyá havia, ele mesmo, desejado obter de primeira mão conhecimento a respeito das pretensões do Báb, mas por causa de circunstâncias adversas não pudera empreender a viagem a Fárs. A mensagem de Muhammad-Sháh decidiu-o a levar a cabo sua intenção desde tanto tempo nutrida. Assegurando ao seu soberano sua prontidão para cumprir com seu desejo, partiu imediatamente para Shíráz.
No caminho, imaginou as várias perguntas que pensava em submeter ao Báb. Das respostas dadas por este a essas perguntas dependeriam, segundo seu parecer, a verdade e validez de Sua missão. Ao chegar em Shíráz, encontrou Mullá Shaykh 'Alí, cognominado 'Azím, com quem ele havia sido intimamente associado enquanto esteve em Khurásán. Perguntou-lhe se estava satisfeito com sua entrevista com o Báb. "Deverias ter um encontro com Ele", respondeu 'Azím, "e procurar independentemente conhecer Sua Missão. Como amigo eu te aconselharia que exercesses a maior consideração em tuas conversações com Ele, para que tu também, afinal, não sejas obrigado a deplorar qualquer ato descortês para com Ele."
Siyyid Yahyá encontrou com o Báb na casa de Hájí Mirza Siyyid 'Alí e mostrou em sua atitude para com Ele a cortesia que 'Azím lhe aconselhera observar. Durante aproximadamente duas horas dirigiu a atenção do Báb aos temas mais abtrusos e confusos nos ensinamentos metafísicos do Islã, às passagens mais obscuras do Alcorão e às misteriosas tradições e profecias dos imames da Fé. O Báb primeiro escutou suas referências eruditas à lei e às profecias do Islã, registrando todas as suas perguntas, e então começou a dar a cada, uma resposta breve mas persuasiva. A conclusão e a lucidez de Suas respostas causaram assombro e admiração da parte de Siyyid Yahyá. Sentiu-se acabrunhado por um senso de humilhação diante de sua própria presunção e orgulho. Seu senso de superioridade desvaneceu-se completamente. Ao se levantar para partir, dirigiu-se ao Báb nestas palavras: "Queira Deus, durante minha próxima audiência Convosco, submeterei o resto de minhas perguntas e com estas concluirei minha investigação." Logo que se retirou, reuniu-se com 'Azím, a quem relatou o que acontecera em sua entrevista. "Em Sua presença", disse-lhe, "estendi-me indevidamente sobre meus próprios conhecimentos. Ele em poucas palavras pode responder minhas perguntas e resolver as minhas perplexidades. Senti-me tão rebaixado diante Dele que apressadamente Lhe solicitei permissão para me retirar." 'Azím lembrou-o de seu conselho e lhe rogou que da próxima vez não o esquecesse.
Durante sua segunda entrevista, Siyyid Yahyá, atônito descobriu que todas as perguntas que tencionara submeter ao Báb se haviam desvanecido de sua memória. Contentou-se com assuntos que pareciam irrelevantes ao objeto de sua investigação. Logo verificou, para maior surpresa ainda, que o Báb estava respondendo, com a mesma lucidez e concisão que haviam caracterizado Suas respostas anteriores, aquelas mesmas perguntas que ele momentaneamente esquecera. "Eu parecia haver adormecido profundamente", comentou ele mais tarde "Suas palavras, Suas respostas às perguntas que eu havia esquecido Lhe submeter, despertaram-me. Uma voz ainda continuava a sussurrar em meu ouvido. 'Não seria isso, afinal, uma coincidência acidental?' Estava agitado demais para concentrar meus pensamentos. Outra vez, pedi permissão para me retirar. 'Azím, com quem me encontrei em seguida, recebeu-me com fria indiferença e austeramente observou: 'Oxalá tivessem sido inteiramente abolidas as escolas e nenhum de nós tivesse entrado em alguma! Pela estreiteza de nossas mentes e nossa vaidade, estamos impedindo que nos alcance a graça redentora de Deus e causando dor Àquele que é sua Fonte. Não pedirás a Deus, desta vez, para conceder que sejas capacitado a atingir Sua presença com a devida humildade e desprendimento, a fim de que quiçá, por Sua graça, Ele te alivie da opressão da incerteza e dúvida?"
"Resolvi que, em minha terceira entrevista com o Báb, eu no mais íntimo de meu coração Lhe pediria que me revelasse um comentário sobre o Sura de Kawthar (4). Estava determinado a não sussurrar esse pedido em Sua presença. Pois se Ele, sem que lhe pedisse, revelar esse comentário de um modo, que de imediato o distinguisse, aos meus olhos, dos tipos prevalecentes comuns entre os comentadores do Alcorão, eu então estaria convencido do caráter Divino de Sua missão e prontamente abraçaria Sua Causa. Se não, recusaria reconhecê-Lo. Logo que fui introduzido em Sua presença, um sentimento de pavor, para o qual não achava explicação, de súbito se apoderou de mim. Meus membros tremiam enquanto eu contemplava Seu rosto. Eu que em repetidas ocasiões havia sido admitido à presença do Xá, sem haver jamais percebido em mim o menor traço de timidez, estava agora tão pasmado e abalado que nem conseguia me manter em pé. O Báb ao observar minha condição, levantou-se de Seu assento, aproximou-se de mim e tomando minha mão, me fez sentar a Seu lado. 'Busca de Mim', disse Ele, 'qualquer coisa que o teu coração deseje. Prontamente revelarei.' Mudo de assombro estava eu. Como um bebê que não pode compreender nem falar, senti-me impotente para responder. Ele sorria enquanto fixava Seu olhar em mim e disse: 'Fosse Eu te revelar o comentário sobre o Sura de Kawthar, admitirias que Minhas palavras nascem do Espírito de Deus? Reconhecerias que minhas afirmações não podem de modo algum ser atribuídas à necromancia ou magia?' As lágrimas vertiam de meus olhos quando O ouvi dizer estas palavras. Tudo o que pude articular foi este versículo do Alcorão: 'Ó nosso Senhor, a nós próprios temos tratado injustamente se Tu não nos perdoares e de nós tiveres piedade, seremos seguramente dos que perecem.'
"Era ainda nas primeiras horas da tarde quando o Báb pediu a Hájí Mirza Siyyid 'Alí que Lhe trouxesse Sua caixa de penas e algum papel. Começou então a revelar Seu comentário sobre o Sura de Kawthar. Como poderei descrever esta cena de inexpressível majestade? Versículos fluíam de Sua pena com uma rapidez verdadeiramente assombrosa. A incrível velocidade com que escrevia (5), a suave e doce entoação de Sua voz e a estupenda força e Seu estilo, tornaram-me pasmado e confuso. Ele continuou desta maneira até que se aproximava a hora do por do sol. Não fez pausa antes de haver completado o comentário inteiro sobre a Sura. Colocou a pena então na mesa e pediu chá. Pouco depois, principiou a lê-lo em voz alta em minha presença. Meu coração vibrava loucamente enquanto eu ouvia emanarem, em Seus acentos de indizível doçura, os tesouros que esse comentário sublime encerrava (6). A tal ponto sua beleza me encantou que três vezes estava eu prestes a desmaiar. Tratou Ele então de reavivar as forças esmorecidas, respingando em meu rosto algumas gotas de água de rosas. Isto reestabeleceu meu vigor, tornando possível que eu seguisse Sua leitura até o fim.
"Uma vez terminada Sua recitação, o Báb levantou-se para sair, entregando-me, ao partir, aos cuidados de Seu tio materno. "Ele deverá ser vosso hóspede,' disse-lhe, 'até quando ele em colaboração com Mullá 'Abdu'l-Karím, tiver acabado a transcrição deste comentário recém-revelado e tiver verificado a exatidão da cópia transcrita.' Mullá 'Abdu'l-Karím e eu dedicamos três dias e três noites a esta tarefa. Líamos em voz alta, cada um por sua vez, um trecho do comentário até que havia sido transcrito em sua totalidade. Conferimos todas as tradições no texto e verificamos serem inteiramente acuradas. Tal era o estado de certeza por mim atingido que, se todos os poderes da terra fossem aliar-se contra mim, seriam impotentes para fazer vacilar minha confiança na grandeza de Sua Causa (7).
"Como desde minha chegada em Shíráz eu estava morando na casa de Husayn Khán, o governador de Fárs, achei que minha prolongada ausência de sua casa poderia excitar suas suspeitas e lhe inflamar a ira. Resolvi, pois despedir-me de Hájí Mirza Siyyid 'Alí e Mullá 'Abdu'l-Karím e regressar à residência do governador. Ao chegar, soube que Husayn Khán, que entrementes me havia estado procurando, ansioso estava em saber se eu caíra vítima da influência mágica do Báb. 'Ninguém, senão Deus', repliquei, 'único capaz de transformar os corações dos homens, pode cativar o coração de Siyyid Yahyá. Quem lhe pode enredar o coração é Deus, e Sua palavra, inquestionavelmente, é a voz da Verdade.' Minha resposta silenciou o governador. Em sua conversação com outros - eu soube subseqüentemente - ele expressara a opinião de que eu também havia caído desesperadamente vítima do encanto daquele Jovem. Até escrevera ele a Muhammad Sháh, queixando-se que eu durante a estada em Shíráz, havia recusado toda espécie de contato com os ulemás da cidade. 'Embora nominalmente meu hóspede', escreveu ao seu soberano, 'ele freqüentemente se ausenta de minha casa por vários dias e noites consecutivas. Já deixei de ter qualquer dúvida de que ele se tornou Bábí, de se ter escravizado, de alma e coração, à vontade do Siyyid-i- Báb.'
"O próprio Muhammad Sháh, numa das funções de estado em sua capital, dirigiu a Hájí Mirza Aqásí, dizem, estas palavras: 'Informaram-nos recentemente (8) que Siyyid Yahyá-i-Dárábí se tornou Bábí. Se isto é verdade, nos incumbe deixar de menosprezar a causa desse siyyid.' Husayn Khán, por sua parte, recebeu a seguinte ordem imperial: 'Está estritamente proibido a todos os nossos súditos pronunciar quaisquer palavras que tendam a detrair a elevada posição de Siyyid Yahyáy-i-Dárábí. Ele é de nobre linhagem, um homem de grande erudição, de perfeita e consumada virtude. Sob nenhuma circunstância inclinará seu ouvido a uma causa, a não ser que a creia conducente à promoção dos melhores interesses de nosso reino e ao bem-estar da Fé do Islã.'"
"Ao receber este mandato imperial, Husayn Khán, não podendo me fazer resistência aberta, esforçou-se secretamente por minar minha autoridade. Sua face revelava inimizade e ódio implacáveis. Em vista, entretanto, dos insignes favores que me foram conferidos pelo Xá, não pode causar dano à minha pessoa nem me desacreditar o nome.
"Subseqüentemente ordenou o Báb que eu viajasse a Burújird, a fim de que lá tornasse conhecida ao meu pai (9) a nova Mensagem. Aconselhou-me que mostrasse para com ele a maior tolerância e consideração. De minhas conversações confidenciais com ele, percebi que não estava disposto a repudiar a verdade da Mensagem que lhe havia trazido. Preferiu, porém, ser deixado só e lhe permitisse seguir seu próprio caminho."
Outro dignitário do reino que investigou desapaixonadamente a Mensagem do Báb e, afinal, a abraçou, foi Mullá Muhammad-'Alí (10), nativo de Zanján, a quem o Báb conferiu o nome de Hujját-i-Zanjání. Era homem de mente independente, conhecido por sua extrema originalidade e por estar livre de todas as formas de restrição tradicional. Ele denunciava a inteira hierarquia dos dirigentes eclesiásticos de seu país, desde o Abváb-i-Arba'ih (11) até o mais humilde mullá dentre seus contemporâneos. Ele lhes depreciava o caráter, deplorava a degeneração e se estendia sobre os vícios. Até mesmo, antes de sua conversão exibia uma atitude indiferente, de desprezo, para com Shaykh Ahmad-i- Ahsá'í e Siyyid Kázim-i-Rashtí (12). Tão horrorizado estava ele diante das más ações que haviam manchado a história do islã xiita que qualquer um que pertencesse a essa seita, por mais elevados que fossem seus méritos pessoais, era por ele considerado indigno de sua consideração. Não raras vezes surgiam entre ele e os sacerdotes de Zanján casos de controvérsia feroz que - não fosse a intervenção pessoal do Xá, teriam levado a graves desordens e derramamento de sangue. Foi chamado, finalmente, à capital e na presença de seus adversários, representantes dos dirigentes eclesiásticos de Teerã e outras cidades, instado a vindicar suas afirmações. Completamente só, sem nenhum apoio, estabelecia ele sua superioridade sobre os oponentes e lhes silenciava o clamor. Ainda que nos seus corações discordassem de suas opiniões e condenassem sua conduta, se viram obrigados a reconhecer exteriormente sua autoridade e confirmar seu ponto de vista.
Logo que o Chamado de Shíráz chegou a seus ouvidos, Hujját delegou um de seus discípulos, Mullá Iskandar, em quem tinha a mais completa confiança, a indagar o assunto todo e o informar do resultado de suas investigações. Totalmente indiferente para com o louvor e a censura de seus patrícios, a respeito de cuja integridade tinha suspeita e cujo juízo desdenhava, enviou seu delegado a Shíráz com instruções explícitas para efetivar uma investigação minuciosa e independente. Mullá Iskandar atingiu a presença do Báb e sentiu de imediato o poder regenerador de Sua influência. Demorou quarenta dias em Shíráz e durante esse tempo absorveu os princípios da Fé e adquiriu, de acordo com sua capacidade, um conhecimento da medida de sua glória.
Com a aprovação do Báb, regressou ele a Zanján, chegando em uma ocasião em que todos os principais ulemás da cidade se haviam reunido na presença de Hujját. Assim que ele apareceu, Hujját perguntou se acreditava na nova Revelação ou a rejeitava. Mullá Iskandar submeteu-lhe os escritos do Báb que consigo trouxera e asseverou que qualquer que fosse o veredito de seu mestre, com este se julgaria obrigado a conformar. "O que!" exclamou irosamente Hujját. "Não fosse a presença desta distinta assistência, eu te haveria de castigar severamente. Como te atreves a considerar questões de crença como dependentes da aprovação ou da rejeição de outrem?" Recebendo da mão de seu mensageiro a cópia do Qayyúmu'l-Asmá, ele, logo que havia perscrutado uma página desse livro, prostrou-se no chão, exclamando: "Dou testemunho de que estas palavras que tenho lido procedem da mesma Fonte das do Alcorão. Quem tiver reconhecido a verdade daquele Livro sagrado deve forçosamente atestar a origem Divina destas palavras, deve necessariamente submeter-se aos preceitos que seu Autor infunde. Tomo a vós, membros desta assembléia, como minhas testemunhas: juro tal lealdade ao Autor dessa Revelação que, se Ele alguma vez pronunciasse ser a noite o dia, e declarasse o sol uma sombra, eu sem reservas me submeteria a Seu juízo e consideraria Seu veredito a voz da Verdade. A quem O negar julgarei o repudiador do próprio Deus." Com estas palavras terminou ele o curso dessa reunião (13).
Temos nos referido, nas páginas precedentes, à expulsão de Quddús e de Mullá Sádiq de Shíráz, e temos tentado descrever, ainda que inadequadamente, o castigo que lhes infligiu o tirânico e voraz Husayn Khán. Mister é agora dizermos uma palavra sobre suas atividades após sua expulsão daquela cidade. Por alguns dias continuaram a viajar juntos, depois do qual se separaram, Quddús partindo para Kirmán, a fim de entrevistar Hájí Mirza Karím Khán, e Mullá Sádiq dirigindo seus passos a Yazd, com o objetivo de prosseguir, entre os ulemás dessa província, a tarefa que tão cruelmente o haviam forçado a abandonar em Fárs. Ao chegar, Quddús foi recebido na casa de Hájí Siyyid Javád-i-Kirmání, a quem havia conhecido em Karbilá e cuja erudição, habilidade e competência eram universalmente reconhecidas pelo povo de Kirmán. Em todas as reuniões realizadas em sua casa, ele designava a seu jovem convidado, invariavelmente, o lugar de honra e o tratava com extrema deferência e cortesia. Tão conspícua preferência mostrada para uma pessoa tão jovem e aparentemente medíocre acendeu a inveja dos discípulos de Hájí Mirza Karím Khán, e estes, descrevendo em linguagem vívida e exagerada as honras que se amontoavam sobre Quddús, tentaram excitar a hostilidade latente de seu chefe. "Observa", sussurravam em seus ouvidos, "aquele que é o mais amado, de maior confiança e o mais íntimo companheiro do Siyyid-i- Báb, é agora o hóspede de honra daquele que é reconhecidamente o mais poderoso habitante de Kirmán. Se lhe for permitido viver em estreita associação com Hájí Siyyid Javád, ele sem dúvida lhe instilará na alma seu veneno e o modelará como o instrumento por meio do qual conseguirá minar vossa autoridade e extinguir vossa fama." Alarmado por estes maus murmúrios, o covarde Hájí Mirza Karím Khán apelou ao governador e lhe induziu a visitar pessoalmente Hájí Siyyid Javád e exigir que terminasse essa perigosa associação. As representações do governador inflamaram a ira do impetuoso Hájí Siyyid Javád. "Quantas vezes", protestou ele com veemência "vos tenho admoestado que ignorásseis os murmúrios desse malévolo conspirador! Minha tolerância o tornou audaz. Que tenha cuidado para que não exceda seus limites. Será que ele deseja usurpar a minha posição? Não é ele quem recebe em sua casa milhares de pessoas abjetas e ignóbeis e os domine com sua lisonja servil. Não tem ele, repetidas vezes, se esforçado por exaltar os ímpios e silenciar os inocentes. Não tem, ano após ano, reforçando a mão do malfazejo, procurando aliar-se com ele e gratificar seus desejos carnais? Não persiste, até hoje, em pronunciar suas blasfêmias contra tudo o que há de puro e santo no Islã? Meu silêncio parece lhe haver aumentado a temeridade e a insolência. A si próprio concede ele liberdade para cometer as mais nefárias ações e a mim nega permissão para receber e honrar em minha própria casa um homem de tanta integridade, de tão grande erudição e nobreza. No caso em que se recuse a desistir de sua prática, seja ele advertido de que os piores elementos da cidade, por mim instigados, o expulsarão de Kirmán." Desconcertado por tão veementes denúncias, o governador pediu desculpas pela sua ação. Antes de se retirar, assegurou a Hájí Siyyid Javád que não precisaria ter receio, que ele mesmo tentaria alertar Hájí Mirza Karím Khán quanto à insensatez de seu comportamento e o induziria a se arrepender.
A mensagem do siyyid aguilhoou a Hájí Mirza Karím Khán. Convulsionando por um senso de profundo ressentimento que ele não pode nem suprimir nem gratificar, desistiu de toda esperança de adquirir a incontestada liderança do povo de Kirmán. Aquele desafio aberto fez soar o dobre fúnebre de suas ambições tão acariciadas.
Na privacidade de seu lar, Hájí Siyyid Javád ouviu Quddús contar todos os detalhes de suas atividades desde o dia de sua partida de Karbilá até sua chegada em Kirmán. As circunstâncias de su conversão e sua subseqüente peregrinação com o Báb excitaram a imaginação e acenderam a chama da fé no coração de seu anfitrião, o qual preferiu, entretanto, ocultar sua crença na esperança de poder proteger mais efetivamente os interesses da recém-estabelecida comunidade. "Vossa nobre resolução", assegurou-lhe afetuosamente Quddús, "será considerada em si um serviço notável prestada à Causa de Deus. O Todo-Poderoso reforçará vossos esforços e estabelecerá para todo o sempre vossa ascendência sobre os oponentes."
Esse incidente me foi relatado por um certo Mirza 'Abdu'lláh-i-Ghawghá, quem, enquanto em Kirmán, o ouvira dos lábios do próprio Hájí Siyyid Javád. A sinceridade das intenções expressas pelo siyyid foi plenamente vindicada pela esplêndida maneira como, em conseqüência de seus esforços, conseguiu resistir às usurpações do insidioso Hájí Mirza Karím Khán, o qual, se não lhe houvesse sido feito esse desafio, teria causado dano incalculável à Fé.
De Kirmán, Quddús decidiu partir para Yazd e daí proceder a Ardikán, Náyin, Ardistán, Isfáhán, Káshán, Qum e Teerã. Em cada uma dessas cidades, apesar dos obstáculos que lhe bloqueavam o caminho, ele conseguia instilar na compreensão de seus ouvintes os princípios que tão corajosamente se levantara para defender. Ouvi Aqáy-i-Kalím, irmão de Bahá'u'lláh, descrever nas seguintes palavras seu encontro com Quddús em Teerã: "O encanto de sua pessoa, sua afabilidade extrema, combinada com uma dignidade de porte, faziam apelo até ao observador mais casual. Qualquer um que estivesse intimamente associado com esse jovem se sentia dominado por uma admiração insaciável pelo seu encanto. Um dia nós o observamos enquanto fazia suas abluções e fomos impressionados pela maneira graciosa que o distinguia dos demais devotos na execução de um ritual tão comum. Ele parecia, aos nossos olhos, ser a própria encarnação da pureza e graça."
Em Teerã, Quddús foi admitido à presença de Bahá'u'lláh, depois do que seguiu a Mázíndarán, onde em sua cidade natal de Bárfurúsh, na casa de seu pai, residiu cerca de dois anos, sendo rodeado durante esse tempo pela carinhosa devoção de sua família e parentes. Seu pai, após a morte da primeira esposa, havia casado com uma senhora que tratava Quddús com uma bondade e solicitude que nenhuma mãe poderia ter esperado exceder. Ela muito desejava presenciar seu casamento e muitas vezes era ouvida dizer que receava ter que levar consigo ao túmulo a suprema felicidade de seu coração." "O dia de meu casamento", observou Quddús, "ainda não chegou. Aquele dia será indizivelmente glorioso. Não dentro dos confins desta casa, mas sim, ao ar livre, sob a abóboda celeste, em meio ao Sabzih-Maydán, ante o olhar da multidão, lá haverei de celebrar minhas núpcias e testemunhar a consumação de minhas esperanças." Três anos depois, quando aquela senhora soube das circunstâncias que atenderam o martírio de Quddús no Sabzih-Maydán, ela se lembrou de suas palavras proféticas e compreendeu o que significavam (14). Quddús permaneceu em Bárfurúsh até a ocasião em que se uniu a Mullá Husayn, quando de volta de sua visita ao Báb na fortaleza de Mahkú. De Bárfurúsh partiram para Khurásán, viagem esta que foi tornada memorável por façanhas tão heróicas que nenhum de seus patrícios poderia jamais esperar rivalizá-las.
Quanto a Mullá Sádiq, logo que chegou em Yazd, inquiriu a um amigo de confiança, nativo de Khurásán, sobre os mais recentes acontecimentos em relação ao progresso da Causa naquela província. Estava especialmente ansioso de ter informações a respeito das atividades de Mirza Ahmad-i-Azghandí e expressou sua surpresa pela aparente inatividade de alguém que, num tempo quando o mistério da Fé não fora ainda divulgado, mostrara tão notável zelo em preparar o povo para aceitar o Manifestante Cuja vinda aguardavam.
"Mirza Ahmad", disseram-lhe, "isolou-se por um período considerável em sua própria casa e aí concentrou as energias em preparar uma compilação erudita e volumosa das tradições e profecias islâmicas relativas ao tempo e ao caráter da prometida Dispensação. Colecionou mais de doze mil tradições do mais explícito caráter, cuja autenticidade era universalmente reconhecida; e resolveu tomar quaisquer medidas que fossem necessárias para copiar e disseminar esse livro. Ele esperava que, animando seus co-discípulos a citarem publicamente de seu conteúdo, em todas as congregações e reuniões, pudesse remover tais obstáculos que talvez impedissem o progresso da Causa que ele acariciava no coração."
"Quando chegou em Yazd, fez-lhe calorosa acolhida seu tio materno, Siyyid Husayn-i-Azghandí, o mais eminente mujtahid daquela cidade, que alguns dias antes da chegada de seu sobrinho mandou a ele um pedido por escrito para se apressar a Yazd e livrá-lo das maquinações de Hájí Mirza Karím Khán, considerado por ele um perigoso inimigo do Islã, embora não declarado. O mujtahid solicitou a Mirza Ahmad que combatesse por todos os meios em seu poder a influência perniciosa de Hájí Mirza Karím Khán, desejando que estabelecesse residência permanente nessa cidade, para que, através de incessantes exortações e apelos, conseguisse esclarecer as mentes do povo a respeito dos verdadeiros objetivos e intenções daquele inimigo maligno."
"Mirza Ahmad, ocultando de seu tio sua intenção original de partir para Shíráz, decidiu prolongar sua estada em Yazd. Mostrou-lhe o livro que compilara e repartiu seu conteúdo com os ulemás que se aglomeravam de toda parte da cidade a fim de o verem. Todos foram profundamente impressionados pela habilidade, pela erudição e pelo zelo que o compilador dessa célebre obra havia demonstrado."
"Entre aqueles que vieram visitar Mirza Ahmad havia um certo Mirza Taqí, um homem que era malévolo, ambicioso e arrogante, que recentemente regressara de Najáf, onde havia completado seus estudos e sido elevado ao grau de mujtahid. No decorrer de sua conversação com Mirza Ahmad, expressou seu desejo de perscrutar aquele livro e de lhe ser permitido retê-lo por poucos dias, a fim de que pudesse adquirir uma compreensão mais completa de seu conteúdo. Siyyid Husayn e o sobrinho concordaram ambos em lhe satisfazer o desejo. Mirza Taqí, que deveria ter devolvido o livro, não cumpriu sua promessa. Mirza Ahmad, que há havia suspeitado a insinceridade das intenções de Mirza Taqí, instou a seu tio que lhe lembrasse da promessa que fizera. 'Diga a seu mestre', foi a resposta insolente ao mensageiro que foi mandado para reclamar o livro, 'que depois de me convencer do caráter pernicioso daquela compilação, decidi destruí-la. Ontem à noite joguei-a na lagoa, assim obliterando suas páginas.'
"Movido por profunda e determinada indignação diante de tamanha falsidade e impertinência, Siyyid Husayn resolveu vingar-se dele. Mirza Ahmad, porém, com seus sábios conselhos, conseguiu apaziguar a ira de seu tio enfurecido e dissuadi-lo de levar a cabo as medidas que propunha tomar. 'Esse castigo', insistia, 'que vós contemplais, causará agitação do povo e provocará danos e sedição. Haverá de interferir gravemente com os esforços que desejais que eu faça a fim de extinguir a influência de Hájí Mirza Karím Khán. Ele sem dúvida aproveitará a ocasião para vos denunciar como Bábí e a mim acusará de ter sido a causa de vossa conversão. Por esse meio minará vossa autoridade e ganhará a estima e a gratidão do povo. Deixai-o nas mãos de Deus.
Mullá Sádiq ficou muito satisfeito ao saber pela relação desse incidente que Mirza Ahmad estava realmente residindo em Yazd e que nenhum obstáculo o impedia de encontrar com ele. Foi imediatamente ao masjid onde Siyyid Husayn estava dirigindo a oração congregacional e Mirza Ahmad pregava o sermão. Sentando-se na primeira fileira entre os devotos, participou em sua oração, depois do qual foi diretamente a Siyyid Husayn e publicamente o abraçou. Logo em seguida, sem ser convidado, ascendeu ao púlpito e se pos a dirigir aos fiéis. Siyyid Husayn, embora de início assustado, preferiu não fazer objeção, tendo curiosidade para descobrir o motivo e certificar o grau de erudição desse súbito intruso. Fez sinal ao sobrinho para se deter de lhe fazer oposição.
Mullá Sádiq prefaciou seu discurso com uma das mais conhecidas e mais belas das homilias do Báb, depois do qual se dirigiu à congregação nestes termos: "Rendei graças a Deus, ó povo, de compreensão pois eis, o Portal do Conhecimento Divino, que julgastes haver sido fechado, está agora aberto de par em par. O Rio da vida eterna jorrou da cidade de Shíráz e está conferindo bênçãos indizíveis ao povo desta terra. Qualquer um que tenha participado de apenas uma gota desse Oceano de graça celestial, por mais humilde e iletrado que seja, tem descoberto em si o poder de desvendar os mais profundos mistérios e se sentido capaz de expor os temas mais abstrusos da sabedoria antiga. E qualquer um, embora seja o mais erudito expositor da Fé do Islã, que tenha preferido depender de sua própria competência e seu próprio poder, mostrando desdém pela Mensagem de Deus, já se condenou a irreparável perda e degração."
Uma onda de indignação e consternação varreu a inteira congregação enquanto essas palavras de Mullá Sádiq ressoavam esse momentoso anúncio. O masjid ecoava com gritos de "Blasfêmia!" por uma congregação enfurecida e horrorizada contra quem fizera o discurso. "Desça do púlpito" exclamou Siyyid Husayn em meio ao clamor e tumulto do povo, enquanto fazia sinal a Mullá Sádiq para guardar silêncio e se retirar. Mal havia ele descido quando a inteira companhia dos devotos reunidos se lançaram sobre ele e o acabrunharam de pancadas. Siyyid Husayn interveio imediatamentte, dispersou a multidão vigorosamente e tomando a mão de Mullá Sádiq, puxou-o com força até seu lado. "Retirai vossas mãos," foi seu apelo à multidão; "deixai-o em minha custódia. Leva-lo-ei à minha casa e cuidadosamente investigarei o assunto. Um ataque repentino de loucura o pode ter feito pronunciar essas palavras. Eu mesmo o examinarei. Se verificar haverem sido premeditadas suas afirmações, sendo que ele próprio firmemente acredita nas coisas que declarou, eu, com minhas próprias mãos lhe infligirei o castigo que a lei do Islã impõe."
Em virtude dessa solene asseveração, Mullá Sádiq foi salvo dos ataques selvagens de seus assaltantes. Despojado de sua 'abá (15) e turbante, privado de suas sandálias e seu bordão, machucado e abalado pelas injúrias recebidas, foi entregue aos cuidados dos assistentes de Siyyid Husayn, que forçando sua passagem entre a multidão, conseguiram afinal conduzi-lo à casa de seu mestre.
Mullá Yúsuf-i-Ardibílí, outrossim, foi sujeitado naqueles dias a uma perseguição ainda mais feroz e mais determinada que a investida selvagem que o povo de Yazd havia dirigido contra Mullá Sádiq. Não fosse a intervenção de Mirza Ahmad, ajudado pelo seu tio, ele teria caído vítima da ira de um inimigo feroz.
Quando Mullá Sádiq e Mullá Yúsuf-i-Ardibílí chegaram em Kirmán, tiveram novamente de se submeter a indignidades semelhantes e sofrer aflições similares nas mãos de Hájí Mirza Karím Khán e seus cúmplices (16). Os persistentes esforços de Hájí Siyyid Javád os libertaram finalmente das mãos de seus perseguidores, tornando-lhes possível seguir a Khurásán.
Embora caçados e atormentados pelos seus inimigos, os discípulos próximos do Báb, juntamente com seus companheiros em várias partes da Pérsia, apesar de tais atos criminosos, não foram impedidos de executar sua tarefa. Inalteráveis em seu propósito e inabaláveis em suas convicções, continuaram a batalhar contra as forças negras que os atacavam a cada passo de sua senda. Com sua irrestrita devoção e incomparável fortaleza, puderam demonstrar a muitos de seus patrícios a influência enobrecedora da Fé em cuja defesa se haviam levantado.
Enquanto Vahíd (17) estava ainda em Shíráz, Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í (18) chegou e foi apresentado ao Báb por Hájí Mirza Siyyid 'Alí. Numa Epístola que o Báb dirigiu a Vahíd e a Hájí Siyyid Javád, Ele elogiou a firmeza de sua fé e enalteceu o caráter inalterável de sua devoção. Este último havia conhecido e estado com o Báb antes da declaração de Sua Missão, e fora um fervoroso admirador daquelas características extraordinárias que sempre O haviam distinguido desde Sua infância. Em época posterior foi ao encontro de Bahá'u'lláh em Bagdá e Dele recebeu especial favor. Quando, poucos anos depois, Bahá'u'lláh foi exilado a Adrianópolis, ele, sendo já de uma idade bem avançada, regressou à Pérsia, demorou-se por algum tempo na província do Iraque e daí seguiu a Khurásán. Por causa de sua índole benévola, sua tolerância extrema e simplicidade sem afetação, lhe foi dado o nome de Siyyid-Núr (19).
Hájí Siyyid Javád, quando um dia atravessava uma rua em Teerã, viu de repente o Xá, que vinha passando montado de cavalo. Sem ser perturbado pela presença de seu soberano, aproximou-se dele, saudando-lhe. Sua venerável figura e sua dignidade de porte agradaram imensamente ao Xá. Respondendo a sua saudação, convidou-o a vir lhe visitar. Tal foi a recepção concedida a ele que os cortesãos do Xá se encheram de inveja. "Sua Majestade Imperial não recorda?" protestaram, "que esse Hájí Siyyid Javád não é outro, senão o homem que, mesmo antes da declaração do Siyyid-i- Báb, se proclamara um Bábí e hipotecara a sua pessoa lealdade imorredora." O Xá, percebendo a malícia que motivavam sua acusação, desagradou-se extremamente e lhes repreendeu por sua temeridade e vileza. "Que estranho!" dizem haver ele exclamando, "qualquer um que se distinga pela integridade de sua conduta e pela cortesia de suas maneiras, meu povo logo o denuncia como Bábí e o considera merecedor de minha condenação!"
Hájí Siyyid Javád passou os últimos dias de sua vida em Kirmán e permaneceu até sua última hora um fiel defensor da Fé. Jamais vacilou em suas convicções nem diminuiu seus generosos esforços para a difusão da Causa.
Shaykh Sultán-i-Karbilá'í, cujos ancestrais eram entre os mais eminentes ulemás de Karbilá, e que havia sido ele próprio um firme defensor e íntimo companheiro de Siyyid Kázim, que também se incluía no número dos que naqueles dias haviam conhecido o Báb em Shíráz. Ele foi quem, mais tarde, seguiu a Sulaymáníyyih em busca de Bahá'u'lláh e cuja filha foi, subseqüentemente, dada em casamento a Aqáy-i-Kalím. Ao chegar em Shíráz, foi acompanhado por Shaykh Hasan-i-Zunúzí, a quem nos referimos nas primeiras páginas desta narrativa. A ele deu o Báb a tarefa de transcrever, em colaboração com Mullá 'Abdu'l-Karím, as Epístolas que recentemente revelara. Shaykh Sultán, que na ocasião de sua chegada, estivera demasiado doente para ir ao encontro do Báb, uma noite, enquanto ainda confinado à cama, recebeu uma mensagem de seu Bem-Amado informando-lhe que, cerca de duas horas após o por do sol, Ele Próprio o visitaria. Aquela noite, o servo etíope, no papel de porta-lanterna para seu Mestre, teve instruções para andar na frente, a uma distância que tirasse Dele a atenção do povo, e para extinguir a lanterna logo que alcançasse seu destino.
Já ouvi o próprio Shaykh Sultán descrever aquela visita noturna: "O Báb, que me havia mandado apagar a lanterna em meu aposento antes de Sua chegada, veio diretamente ao lado de minha cama. Em meio à escuridão que nos envolvia, eu segurava firmemente a orla de Suas vestes e Lhe implorava: 'Satisfaze Tu meu desejo, ó Bem-Amado de meu coração, e permite que eu por Ti me sacrifique, pois ninguém, senão Tu, me pode conferir esse favor.' 'Ó Shaykh!' respondeu o Báb, 'também Eu desejo ardentemente imolar-Me sobre o altar do sacrifício. Convém a nós, ambos, apegar-nos às vestes do Mais-Amado e Dele buscar o júbilo e a glória do martírio em Sua senda. Assegurai-vos de que por vós suplicarei ao Todo-Poderoso para que vos capacite a atingir a Sua Presença. Lembrai-vos de Mim naquele Dia, um Dia tal como o mundo jamais viu.' Ao aproximar-se a hora da partida, Ele pos em minha mão uma dádiva que me pediu que despendesse para mim mesmo. Tentei recusar, mas Ele me solicitou que a aceitasse. Finalmente me conformei com Seu desejo; com isso Ele se levantou e partiu.
"A referência que o Báb naquela noite fez ao Seu 'Mais-Amado excitou em mim admiração e curiosidade. Nos anos subseqüentes, eu muitas vezes acreditava que a pessoa a quem o Báb se referira não era outra que Táhirih. Imaginva até que Siyyid-i-Uluvv fosse aquela pessoa. Grande era minha perplexidade e não sabia como desvendar esse mistério. Quando fui até Karbilá e atingi a presença de Bahá'u'lláh, convenci-me firmemente de que só Ele poderia reclamar do Báb tal afeição, que Ele, e somente Ele, poderia merecer tamanha adoração."
O segundo Naw-Rúz após haver o Báb declarado Sua Missão, caindo no dia 21 do mês de Rabí'u'l-Avval, no ano de 1262 A.H. (20), encontrou o Báb em circunstâncias de comparativa tranqüilidade e conforto, ainda em Shíráz, gozando das bênçãos de ininterrupta associação com Sua família e parentes. Quietamente e sem cerimônia celebrou o festival de Naw-Rúz em Seu próprio lar e de acordo com Seu costume invariável, conferiu generosamente, tanto a Sua mãe como a Sua esposa, as provas de Sua afeição e Seu favor. Com a sabedoria de Seus conselhos e a ternura de Seu amor alegrou seus corações e dissipou suas apreensões. Ele lhes legou todas as Suas possessões e a seus nomes transferiu o título de Sua propriedade. Num documento escrito e assinado por Ele mesmo, deu instruções para que Sua casa com mobília, assim como o restante de seus bens, fosse considerada a propriedade exclusiva de Sua mãe e Sua esposa; e que ao falecer a primeira, sua parte da propriedade revertesse a Sua esposa.
A mãe do Báb não atingiu, de início, à percepção do significado da Missão proclamada pelo seu Filho. Ficou, por algum tempo, inconsciente da magnitude das forças latentes em Sua Revelação. À medida que se aproximava do fim de sua vida, porém, veio a perceber a qualidade inestimável do Tesouro que ela havia concebido e dado ao mundo. Foi Bahá'u'lláh quem afinal a tornou capaz de descobrir o valor daquele Tesouro oculto que durante tantos anos jazia escondido de seus olhos. Ela estava morando no Iraque, onde esperava passar os dias restantes de sua vida, quando Bahá'u'lláh deu instruções a dois de Seus devotados seguidores, Hájí Siyyid Javád-i-Karbilá'í e a esposa de Hájí 'Abdu'l-Masjíd-i-Shírází, sendo que ambos já lhe conheciam intimamente para que lhe ensinassem os princípios da Fé. Ela admitiu a verdade da Causa e permaneceu, até os anos finais do século treze A.H. (21), quando ela partiu desta vida, plenamente consciente das generosas dádivas que o Onipotente se dignara lhe conferir.
A esposa do Báb, diferente de Sua mãe, percebeu desde o primeiro alvorecer de Sua Revelação a glória e o inigualável grau de Sua Missão e sentiu, desde o princípio, a intensidade de sua força. Nenhuma entre as mulheres de sua geração, com a exceção única de Táhirih, lhe excedeu no caráter espontâneo de sua devoção, nem ultrapassava o fervor de sua fé. A ela confiou o Báb o segredo de Seus futuros sofrimentos; a seus olhos desdobrou o significado dos acontecimentos que seriam testemunhados em Seu Dia. Disse-lhe que não divulgasse esse segredo a sua mãe e lhe aconselhou que fosse paciente e resignada à Vontade de Deus. Confiou-lhe uma oração especial, revelada e escrita por Ele Mesmo, assegurando-lhe que a leitura desta oração lhe removeria as dificuldades e aliviaria o peso das tribulações. "Na hora de tua perplexidade", Ele lhe ensinou, "recita esta oração antes de dormir. Eu Mesmo te aparecerei e banirei tua ansiedade." Fiel a Seu conselho, cada vez que a Ele em prece se volvia, a luz de Sua guia infalível lhe iluminava sua senda e resolvia os problemas (22).
Após haver o Báb tratado dos assuntos de Seu lar e providenciado a futura manutenção tanto de Sua mãe como de Sua esposa, Ele transferiu Sua residência de Sua própria casa para a de Hájí Mirza Siyyid 'Alí. Aí aguardou a aproximação da hora de Seus sofrimentos. Ele sabia que as aflições que Lhe esperavam não mais poderiam ser detidas, que breve um vórtice de adversidade o atingiria e levaria celeremente ao campo do martírio, o objetivo culminante de Sua vida. Mandou àqueles de Seus discípulos que se haviam estabelecido em Shíráz, entre os quais se encontravam Mullá 'Abdu'l-Karím e Shaykh Hasan-i-Zunúzí, que procedessem a Isfáhán e lá aguardassem Suas futuras instruções. Deu instruções também a Siyyid Husayn-i-Yazdí, uma das Letras dos Viventes, que chegara em Shíráz, para que prosseguisse a Isfáhán e procurasse a companhia de seus co-discípulos naquela cidade.
Nesse meio tempo Husayn Khán, governador de Fárs, estava fazendo todo esforço possível para envolver o Báb em novos embaraços e degradá-Lo ainda mais aos olhos do público. O fogo latente de sua hostilidade foi soprado até flamejar quando ele soube que ao Báb era permitido prosseguir sem obstáculo o curso de Suas atividades, que Ele podia ainda associar-se a certos de Seus companheiros e que continuava a gozar de benefícios de irrestrita convivência com Sua família e parentes (23). Com a ajuda de seus agentes secretos, conseguiu obter informações acuradas a respeito do caráter e da influência do Movimento que o Báb iniciara. Ele havia observado secretamente Suas atividades, se certificado do grau de entusiasmo que despertara, escrutando os motivos, a conduta e o número dos que haviam abraçado Sua Causa.
Veio a Husayn Khán, uma noite, o chefe de seus emissários, trazendo-lhe a notícia de que o número dos que se aglomeravam ao redor do Báb havia assumido tais proporções que necessitava ação imediata da parte daqueles que tinham a função de guardar a segurança da cidade. "A multidão fervente que se reúne toda noite para visitar o Báb," ele observou "excede em número a multidão de povo que se amontoa diante dos portões da sede de vosso governo. Entre eles se vêem homens célebres tanto pela sua alta categoria como pela sua extensa erudição (24). Tal é o tato e tão excessiva é a generosidade que seu tio materno demonstra em sua atitude para com os oficiais de vosso governo que nenhum dentre vossos subordinados se inclina a informar-vos da realidade da situação. Se vós me permitísseis, eu, ajudado por alguns de vossos auxiliares, surpreenderia o Báb à hora de meia noite e entregaria, algemados, em vossas mãos certos de seus associados que vos esclareceriam a respeito de suas atividades e confirmariam a verdade de minhas asseverações." Husayn Khán recusou-se a aceder ao seu desejo. "Eu melhor que vós", foi sua resposta, "poderei determinar o que os interesses do Estado requerem. Observai-me de uma distância; saberei como tratá-lo."
Naquele mesmo momento, o Governador chamou Abdu'l-Hamid Khán, o chefe de polícia da cidade. "Segui imediatamente," ordenou ele, "à casa de Hájí Mirza Siyyid 'Alí. Quietamente, sem serdes observado, escalai o muro e subi ao telhado, e daí entrai subitamente em sua casa. Prendei imediatamente o Siyyid-i- Báb e conduzi-o a este lugar juntamente com quaisquer visitantes que estejam presentes com eles no momento. Confiscai quaisquer livros e documentos que possais encontrar naquela casa. Quanto a Hájí Mirza Siyyid 'Alí, é minha intenção lhe impor, no dia seguinte, a pena por ter faltado no cumprimento de sua promessa. Juro pelo dilema imperial de Muhammad Sháh, que esta mesma noite mandarei executar o Siyyid-i- Báb juntamente com seus miseráveis companheiros. Sua morte ignominiosa extinguirá a chama que acenderam e despertará cada um que pretende ser seguidor daquela crença, para perceber o perigo que espera a todo e qualquer um que tente perturbar a paz deste reino. Com este ato terei extirpado uma heresia cuja continuação constituiria a mais grave ameaça aos interesses do Estado."
'Abdu'l-Hamíd Khán retirou-se para executar sua tarefa. Na companhia de seus auxiliares arrombou a casa de Hájí Mirza Siyyid 'Alí (25) e encontrou o Báb na companhia de Seu tio materno e um certo Siyyid Kázim-i-Zanjání, que mais tarde foi martirizado em Mázindarán, e cujo irmão Siyyid Murtadá foi um dos Sete Mártires de Teerã. Prendeu-os imediatamente, juntou quaisquer documentos que pudesse encontrar, mandou Hájí Mirza Siyyid 'Alí permanecer em sua casa e conduziu os outros à sede do governo. Ouviu-se o Báb destemido e calmo, repetir este versículo do Alcorão: "Aquilo com que estão ameaçados é para o amanhecer. E não está próximo o amanhecer?"
Mal havia o chefe da polícia alcançado o mercado, quando descobriu, com espanto, que o povo da cidade fugia por todos os lados em consternação, como se atingido por uma calamidade pavorosa. Encheu-se de horror ao presenciar a longa procissão de ataúdes que vinha sendo transportada pelas ruas, cada um seguido de uma comitiva de homens e mulheres que emitiam altos gemidos de agonia e dor. Esse tumulto repentino, os lamentos, os semblantes assustados, as imprecações da multidão, fizeram-no ficar angustiado e confuso. Indagou sobre a razão. "Esta mesma noite", disseram-lhe, irrompeu uma praga (26) de virulência excepcional. Bateu-nos seu poder devastador. Já, desde a hora de meia noite, extinguiu a vida de mais de cem pessoas. Alarme e desespero reinam em cada lar. A população está abandonando suas casas e, em sua aflição invoca a ajuda do Todo-Poderoso (27)."
'Abdu'l-Hamíd Khán, aterrorizado por essa horrenda notícia, correu à casa de Husayn Khán. Um homem velho que vigiava sua casa, servindo de porteiro, informou-lhe que a casa de seu patrão estava abandonada, que a assolação da peste engolfara seu lar, afligindo os membros da família. "Duas de suas servas etíopes", disseram-lhe, "e um criado já caíram vítimas dessa praga, e membros de sua própria família estão gravemente doentes. Em seu desespero, meu patrão abandonou a casa e deixando os mortos sem sepultura, fugiu com o resto da família para Bágh-i-Takht (28)."
'Abdu'l-Hamíd Khán decidiu conduzir o Báb a sua própria casa e mantê-Lo sob sua custódia enquanto aguardava instruções do governador. Ao aproximar-se de casa, ficou chocado pelo som de choros e gemidos dos membros de sua família. Seu filho havia sido atacado pela peste e periclitava na beira da morte. Em seu desespero, lançou-se aos pés do Báb e com lágrimas lhe implorou que salvasse a vida de seu filho. Suplicou-lhe que perdoasse as passadas ofensas e más ações. "Eu vos adjuro", solicitava ao Báb, enquanto se segurava à orla de Suas vestes, "por Aquele que vos elevou a essa excelsa posição, que intercedais por mim e ofereçais uma oração pela recuperação de meu filho. Não permitais que ele, na flor da juventude, me seja tirado. Não o castigueis pelos atos dos quais seu pai seja o culpado. Arrependo-me daquilo que fiz e neste momento me retiro de meu posto. Hipoteco-vos solenemente minha palavra de que nunca mais aceitarei tal posição, ainda que pereça de fome."
O Báb, que estava prestes a fazer Suas abluções e se preparava a oferecer a oração do alvorecer, disse-lhe que levasse ao filho um pouco de água com a qual estava lavando o rosto e lhe pedisse que a bebesse. Isto, disse Ele, lhe salvaria a vida.
Mal havia 'Abdu'l-Hamíd visto os sinais da recuperação de seu filho, quando escreveu ao governador uma carta na qual lhe expôs a inteira situação e lhe instou que cessasse de atacar o Báb. "Tende piedade de vós mesmo", lhe escrevia, "bem como daqueles que a Providência entregou a vosso cuidado. Se a fúria dessa praga prosseguir seu curso fatal, receio que ninguém nesta cidade terá sobrevivido até o fim deste dia ao horror de seu ataque." Husayn Khán respondeu que o Báb deveria ser posto em liberdade imediatamente, sendo-lhe dado o direito de ir onde quisesse (29).
Logo que a notícia desses acontecimentos chegou em Teerã e veio à atenção do Xá, foi emitido e enviado a Shíráz um edito imperial que demitia Husayn Khán de seu posto. Desde o dia de sua demissão, aquele tirano desbriado caiu vítima de incontáveis infortúnios, não podendo, afinal, ganhar sequer o pão de cada dia. Ninguém parecia ter disposição ou capacidade para salvá-lo de sua má situação. Quando, mais tarde, Bahá'u'lláh fora banido a Bagdá, Husayn Khán enviou-Lhe uma carta na qual expressava arrependimento e prometia expiar seus passados delitos se lhe fosse restituída sua posição antiga, Bahá'u'lláh recusou-se a responder, mergulhado em miséria e ignomínia, enlanguescia até morrer.
O Báb, que estava hospedado na casa de 'Abdu'l-Hamíd Khán, mandou Siyyid Kázím a Hájí Mirza Siyyid 'Alí para lhe pedir que viesse vê-Lo. Informou Seu tio de Sua intenção de partir de Shíráz, entregou a seu cuidado tanto Sua mãe como Sua esposa, incumbindo-lhe de transmitir a cada uma delas a expressão de Seu afeto e assegurar-lhes a infalível ajuda de Deus. "Onde quer que estejam", disse a Seu tio, "o amor e a proteção de Deus que tudo abrangem, haverão de cercá-las. Eu vos encontrarei novamente nas montanhas de Ádhirbáyján, donde vos mandarei para ganhar a coroa do martírio. Eu mesmo vos seguirei, juntamente com um de Meus discípulos leais, e nos reuniremos no reino da eternidade."